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ADAMASTOR

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Academic year: 2023

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Para Irene, O que tenho em você sou só eu e sinto sua vontade gritando o amor que você tem para dar. Perder-me em você para encontrar você em mim, cheio de vida, enquanto não há realidade entre os bondes da fila. O que sou em você é um encontro sem palavras em mim, e não o balbucio dos perdidos entre si.

PRIMEIRO CENÁRIO

Num dia de março, antes do pequeno-almoço, Anjos Couto avistou um grande autocarro Colsan estacionado no meio do pátio da escola, como se fosse um intruso ousado. Anjos Couto permaneceu imerso em pensamentos flutuantes que iam para locais muito mais distantes do destino daquele autocarro. Anjos Couto era dominado pela desesperança e uma forte vontade de abandonar a escola batia cada vez mais no seu peito.

Anjos Couto sabia bem que este era o momento tão esperado em que também ele seria convocado, e isso não poderia ser apenas uma premonição. A Anjos Couto nem sequer se interessou em saber do que se tratavam aquelas referidas disposições regulamentares. Para Anjos Couto isso parece ter ficado claro na frase que ouviu.

Anjos Couto explicou o seu caso ao enfermeiro-empresário de forma reduzida, perguntando como poderia obter o resultado dos exames de sangue. Mantendo um olhar questionador fixo nos olhos do chefe da guilda, Anjos Couto parecia exigir dele uma resposta imediata, convencido de que tinha esse direito.

SEGUNDO CENÁRIO

É claro que, mesmo tendo sido vítima de um roubo dentro da própria Escola, Anjos Couto não se “libertou” da dificuldade que isso lhe causou. Já passava das onze horas quando Anjos Couto regressou ao ponto de partida do seu autocarro. Berardi interrompeu ao entrar no autocarro e assim que se sentou num dos seus lugares fez nova pergunta a Anjos Couto.

Talvez tenha sido o único cadete da Escola que pôde dizer que conhecia bem Anjos Couto e mantinha com ele uma estreita amizade. Anjos Couto sentiu que este era um momento especial, em que poderia fazer um desabafo franco a um amigo de confiança e que não deveria desperdiçá-lo. Anjos Couto deixou-se levar passivamente, depois de começar a seguir o conselho de Berardi - que era ficar quieto no seu canto, fingindo concordar com tudo o que via, ouvia ou com o que acontecia à sua volta.

Estar com a filha Irene em Cruz das Almas foi para o Cadete Anjos Couto a oportunidade, ainda que por pouco tempo, de voltar a ser Tuta, apelido que recebia da família desde criança. Vale repetir que, enquanto ficou com Irene em Cruz das Almas, deixou de ser o cadete Anjos Couto e voltou a ser completamente Tuta - o jovem que cresceu e sempre viveu ali. Anjos Couto sabia que este escritor foi imediatamente expulso da Escola Militar pelo seu acto de desobediência.

No dia seguinte a escola retomou as suas atividades normais, o que para Anjos Couto significou a continuação dos mesmos velhos tempos de tédio. Sob tensão controlada, Anjos Couto esperou para ver o que aconteceria naquele exame detalhado do seu caderno devido à possível descoberta de algo que aquele oficial não deveria saber ou que não lhe poderia ter sido mostrado. Tudo isto se não decidisse expulsar Anjos Couto da escola por má conduta ou insubordinação.

Depois de recolher o caderno, a aula continuou sem que Anjos Couto pudesse fazer novas anotações ou continuar escrevendo uma carta. Pelo que se pôde constatar, Anjos Couto não se manteve em posição de sentido enquanto o tenente lhe falava, como habitualmente acontecia. Anjos Couto começou a pensar no que faria no próximo fim de semana para preencher os dias sozinho no Adamastor.

TERCEIRO CENÁRIO

Eles passariam as próximas 48 horas juntos no meio da mata densa e sob o comando de Anjos Couto. Os Anjos Couto revisaram todos os detalhes da operação antes de deixarem seus abrigos. E a ordem dos Anjos Couto era uma ordem direta de um superior, não havendo necessidade de considerá-los fora do quartel e agir livremente num exercício encenado.

No preciso momento em que o guarda chegou a uma das tendas montadas sobre o mar, Anjos Couto sinalizou ao seu grupo que havia chegado a hora. Moura e Edgar instalaram-se numa outra tenda vizinha, deixando Anjos Couta na companhia de Depizola. Anjos Couto sabia que as tropas regulares teriam que passar por este local, vindas do sopé da serra, e segundo os seus cálculos ainda não tinham chegado.

De suas posições escondidas, os integrantes do grupo de Anjos Couto assistiram à chegada das tropas regulares, vendo que tudo corria exatamente como esperado. Anjos Couto desceu várias vezes a encosta até chegar a terra firme no fundo da depressão. Ninguém conseguiria realmente ver Anjos Couto caído no fundo de uma cratera quase toda coberta de galhos, mas Depizol relutou, não quis.

Não havia noite, nem chuva, nem vento nas imagens que Anjos Couto conseguia identificar no fundo escuro dos seus olhos fechados. Certamente alguém morava naquela casinha, e foi para lá que Anjos Couto se permitiu ir. Anjos Couto não se assustou, pelo contrário, ficou feliz por encontrar aquela mulher da casa.

A aproximação de Anjos Couto ao palácio foi imediatamente notada pelos “guerrilheiros” que ali estavam escondidos. Anjos Couto continuou no interior do edifício inacabado, que lhe foi mostrado sem divisórias de sala ou quarto. Anjos Couto respondeu de forma simplista, sem dar grande importância a nenhuma destas questões.

QUARTO CENÁRIO

Em Outubro iniciou-se o segundo ano lectivo do curso de formação de oficiais da Força Pública na Escola sem alterar nada, absolutamente nada, o ambiente em que vivia no seu quartel dos Anjos Couto. Além disso, Anjos Couto lia, sempre que possível, os artigos publicados por Guilherme de Almeida em sua pequena coluna no Estadão. Muito próximo dele, Anjos Couto olhava-o com o mais profundo respeito e admiração, ansioso por ouvi-lo.

O poeta superava-se a cada declamação e Anjos Couto espantava-se como se estivesse ali sozinho para o ouvir. Isso o condicionou tanto que Anjos Couto também passou a se comportar dessa forma fora do quartel. Acreditando ser assim, Anjos Couto foi incentivado a tentar a entrevista para contar os motivos que o levaram até ali.

Antes de partir, Anjos Couto ainda pôde ouvir uma última recomendação do seu novo comandante. Anjos Couto concordou com tudo o que ouviu porque o discurso suave e respeitoso do novo chefe o convenceu e porque os seus conselhos estavam em linha com o que começava a pensar desde o início do segundo ano letivo do curso. No prolongado fim de semana de Natal deste ano, os Anjos Couto voltaram a enfrentar o Cruz das Almas.

A estadia de Anjos Cout em Cruz das Almas foi repleta de encontros agradáveis ​​com pessoas que o reconheceram na rua e o cumprimentaram para mostrar que estavam felizes em vê-lo. Anjos Couto conseguiu lembrar exatamente as palavras que o menino com a cara suja disse na hora. Na noite anterior, ela conversou até de madrugada no terraço da casa do avô, despedindo-se de Anjos Cout com a promessa de que ele voltaria logo pela manhã e passaria o domingo inteiro com ela.

Anjos Couto só voltou a encontrar Irene depois do almoço, achando-a preocupada e hostil por causa do seu atraso.

QUINTO CENÁRIO

O ano de 1965 veio com trovões e mais tarde foi considerado o ano de transição para a década de 60, tal o seu significado. Começou nele uma revolução cultural que atingiria seu auge em 1968, tanto na arte quanto nos costumes. Os estudantes começaram a se organizar, deixando seus livros dobrados sobre as carteiras para praticar as manifestações que explodiriam em 1968 em quase todas as grandes cidades.

Os alunos descobriram que mais do que nunca era hora de tomar a sua vez, de ganhar tempo e não esperar mais que simplesmente acontecesse. A música Carcará de João do Vale, natural do Maranhão, simbolizou o ideal deste momento no Brasil, proclamando que para sobreviver valeu até a pena pegar e matar para comer, como um pássaro furioso que fica mais forte é o homem. Jovens destemidos e idealistas dispuseram-se a adoptar uma atitude imprudente, expondo os seus seios, ignorando as suas vidas e recusando ser meros e passivos espectadores de uma história que os governantes militares queriam escrever nas suas costas.

Estavam prontos para uma luta suicida contra o endurecimento do regime que impuseram ao país e a coerção política que atingia o seu auge. Numa onda de descontentamento e rebelião, espalharam-se com incrível velocidade pelas ruas e praças das grandes cidades para se reagruparem como se fizessem parte de um bando de pássaros em contínua migração, criando um balé mágico e fantástico no céu. Entretanto, os cadetes da escola continuaram a praticar a ordem unificada, em obediência cega e colectiva às vozes de comando e sob um militarismo estático que os alienou da realidade exterior.

Ele era um individualista tenaz, extremamente romântico e gostava de se expressar por meio de poemas ocasionais ou de longas cartas diárias que escrevia. Ele entendia que há beleza em todos os cantos e aspectos da vida e amava Irene, a menina do sorriso feliz, como se ela fosse a única mulher no mundo capaz de entendê-lo e completá-lo. Sua paixão por Irena escorria por todos os poros e só ela habitava seus pensamentos.

Naquele ano de 1965, os clubes sociais de algumas cidades do interior ainda realizavam os tradicionais bailes de debutantes, aos quais os cadetes da Força Pública eram convidados especiais e compareciam para se vestir.

Referências

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