COEXISTÊNCIA E SOCIABILIDADE
A compreensão do social implica a do indivíduo, e da existência implica a da coexistência: “Não há existência sem coexistência. Numa abordagem adequada, num “tu” não existe “eu” (sem coexistência não existe existência), porque reconheço o meu “eu” quando me distingo do que são as coisas “para ti”, ou “para mim”. , ou.
DIREITO PENAL E PENA: REGULADORES DA COEXISTÊNCIA SOCIAL13
- A PENA COMO RETRIBUIÇÃO DA CULPABILIDADE
- A retribuição em Kant
- A retribuição em Hegel
- T EORIAS PREVENTIVAS DA PENA
- A prevenção geral
- A prevenção especial
- A S TEORIAS MISTAS OU UNIFICADORAS DA PENA
- Culpabilidade e periculosidade como medidas de limitação da
54 Este é, portanto, o conhecimento discursivo do direito penal, também conhecido como ciência do direito penal. Ele pode ser considerado um escritor que teve a sorte de lançar as bases do direito penal moderno. Argumenta-se a partir disso que é através do direito penal que se pode encontrar uma solução para o problema do crime.
NOTAS INTRODUTÓRIAS
Segundo Salo de Carvalho194, essa concepção de direito remete ao projeto político da modernidade, no qual se insere o discurso das ciências do direito penal com o objetivo de buscar a felicidade por meio da negação da barbárie e da afirmação da civilização. Neste contexto, a expectativa da comunidade científica em relação ao direito penal nada mais é do que desenvolver instrumentos capazes de erradicar os resquícios bárbaros da civilização, e portanto este obstáculo deve ser eliminado.195. O objetivo é criar uma sociedade organizada de forma diferente de tudo o que se conhece até agora, ou seja, uma estrutura de pessoas não marginalizadas.
A noção de que o direito penal funciona para resolver as grandes questões da civilização, a proteção da humanidade, é demasiado utópica, pois são claros os seus limites no enfrentamento das crises sociais que a sociedade vive. Portanto, Salo de Carvalho197 trata o direito penal contemporâneo como absolutamente narcisista, uma vez que é um investimento instintivo invasivo em si mesmo. Para isso é necessário deslocar o foco do direito penal para o sistema penal 198, ou seja, para o.
Isso porque o sistema de justiça criminal é constituído por representações e relações sociais, políticas públicas, discursos de poder e até mesmo por sua própria configuração linguística. Esse conceito inclui as atividades do poder legislativo, da sociedade, da polícia, dos juízes, do Ministério Público e dos encarregados da aplicação da lei penal, que, como observa Andrade, atuam em um continuum no qual é possível individualizar segmentos, que vão desde o poder legislativo até os órgãos responsáveis. são para controle. e assistência a pessoas libertadas e em liberdade condicional 200.
O CONTROLE SOCIAL DIFUSO E INSTITUCIONALIZADO
- A MÍDIA E A ÉTICA DA PUNITIVIDADE
- O S ISTEMA P ENAL
- L ABELING A PPROACH : AS CARREIRAS CRIMINOSAS
- S ISTEMA PENAL E O CONTROLE DO NÃO - IGUAL
155: “Mais grave, porém, é o que se pode chamar de execução desses órgãos de comunicação social do sistema penal. Para atingir os seus objetivos, o sistema criminal é apresentado como igualitário, afetando igualmente as pessoas dependendo do seu comportamento. Nesse movimento, a Criminalística transforma em objeto o sistema penal como um todo e, consequentemente, o direito penal e as ciências criminais (suas dimensões integrantes), bem como problematiza a função de controle e domínio por ele exercida.
A própria criminologia etiológica e o direito penal dogmático são condenados na sua função instrumentalizadora e legitimadora da seletividade, o que dá origem a um novo problema para a política criminal: quais as alternativas à prisão e ao sistema penal. Um simples desvio objetivo da norma não pode ser considerado justificativa suficiente para a atuação de todo o aparelho estatal, uma vez que as funções (declaradas) do sistema penal não seriam desempenhadas neste caso. É sem dúvida uma loucura histórica comparável apenas à loucura que afirma a existência futura de um sistema penal que, com a estrutura de qualquer um dos actuais, se inspiraria no princípio da igualdade, quando se sabe que o funcionamento selectivo é o essência de qualquer sistema penal.
Como um revelador químico, esta compreensão revela claramente a face oculta do sistema penal (oprimido pelo enorme trabalho histórico de eufemismo jurídico, político e cultural essencial para o estabelecimento de um regime formalmente democrático) e do Estado como um colectivo. a organização da violência com o objetivo de manter a ordem estabelecida e subjugar os dominantes. O instrumento central do fenômeno de controle social realizado pelo sistema penal está no modelo executivo de punição, que culmina na criminalização de uma proporção excessiva de pessoas.
CÁRCERE E MARGINALIDADE SOCIAL: UM LUGAR DESTINADO PARA
- J USTIFICATIVAS SELETIVAS DO PODER PUNITIVO
- A PRISÃO COMO ELEMENTO DO SISTEMA DE SOCIALIZAÇÃO
Desta forma, a prisão surge como uma instituição de controlo do crime e também de disciplinamento dos indisciplinados, e neste contexto exige a manutenção de mecanismos que lhe dêem legitimidade e a vinculem a outros processos sociopolíticos que se aplicam na sociedade, ainda que sua funcionalidade e efeitos não atendem ao projeto proposto. Desde a era pré-moderna, as autoridades penais sempre discriminaram os seres humanos e concederam-lhes tratamentos punitivos que não correspondiam ao seu estatuto de pessoas, tratando-os apenas como entidades perigosas. Esta obra foi publicada pela primeira vez em 1486 e até ao final do século XVIII foi a base jurídica e teológica dos tribunais inquisicionais em vários países.
Isto acontece durante as Cruzadas, período em que não só a Igreja atinge o seu maior poder temporário, mas também prepara o mundo para as grandes transformações que viriam séculos depois, com o Renascimento. A partir de meados do século XVI, o terror espalhou-se por toda a Europa, começando em França e Inglaterra.254. Zaffaroni260 alerta que o sistema penal não é apenas um acordo externo, mas também um sério “tratamento” integrado num complexo processo de degradação, cuja parte mais importante é feita pela prisão e perfeitamente legitimada pelos registos de reincidência, pela possibilidade de impedir ou dificultar qualquer exercício de trabalho honesto por parte das agências do sistema.
Vera Malagutti Batista266 chegou à conclusão em sua pesquisa sobre os processos da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro e sobre a posição de juízes, promotores, psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais. Uma análise realista das funções efectivamente desempenhadas pela prisão, ou seja, a prevenção positiva geral, mostra o fracasso histórico desta instituição no que diz respeito ao controlo do crime e à reintegração dos desviantes na sociedade, e não apenas do influxo no processo de marginalização.
INTRODUÇÃO
Infraconstitucional, está em vigor a Lei de Execução Penal281 e, de acordo com seu artigo 1º, pressupõe-se que a prevenção especial foi adotada como teoria justificativa da pena: “A execução penal visa fazer cumprir o disposto na pena ou decisão penal. e proporcionar condições para a integração social harmoniosa dos condenados e internados”. 282. Contudo, num momento em que o impacto da ressocialização ou do “tratamento” reeducativo e ressocializador é visto como o fim último da pena no Brasil, pouco se pode esperar da possibilidade de utilizar a prisão como lugar e meio verdadeiramente capaz de alcançá-los. Os objetivos. A realidade da prisão está longe das condições necessárias para cumprir as funções de ressocialização, e os estudos sobre os efeitos da prisão na vida do preso ou ex-presidiário invalidaram em grande parte a hipótese de ressocialização do infrator por meio da prisão.
No primeiro caso, a constatação científica de que a prisão não pode ressocializar, apenas neutraliza o comportamento do preso; que a pena de prisão para o criminoso não significa de forma alguma uma oportunidade de reintegração na sociedade, mas sim um sofrimento imposto como punição, resulta em um argumento a favor da teoria de que a punição deve neutralizar o criminoso e/ou representar a punição razoável para o criminoso . cometeu crime. O reconhecimento do fracasso da prisão como instituição de prevenção particularmente positiva conduz, no segundo caso, à confirmação voluntária de uma falsa norma, que deve, no entanto, ser considerada um lugar e um caminho de ressocialização, o que envolve uma “falácia idealista”. ": apresenta-se uma norma falsa que não pode ser implementada, ou seja, uma norma impossível. Quando acontece de quebrar a energia e produzir um esgotamento miserável e uma autodegradação, tal sucesso é sem dúvida ainda menos agradável do que o seu efeito habitual: que é marcado de uma seriedade seca e sombria.
Este otimismo inicial desapareceu especialmente no que diz respeito aos objetivos ressocializadores das penas privativas de liberdade, pois muitas das críticas à prisão referem-se à impossibilidade (absoluta ou relativa) de obter qualquer efeito positivo no condenado.285 Trata-se, portanto, de um projeto simbólico que não pode ser eficaz nas circunstâncias em que ocorre (ou não foi concebido para o ser), mas apenas dá a aparência de que o é.
AS CONDIÇÕES CRIMINÓGENAS DA PRISÃO: DISCURSO PREVENTIVO,
- V IOLÊNCIA INTRAMUROS : O PANOPTISMO DISFUNCIONAL NO ( DES ) CONTROLE
Quanto à primeira fonte, a ideia de que “quem fez isso deve pagar” é a atitude geral da sociedade e também dos condenados. Portanto, não é difícil afirmar que “não existe a possibilidade de transformar um delinquente antissocial violento em um indivíduo flexível com uma longa pena de prisão” 300. 298 Uma ideia geral do sistema pode ser entendida a partir do resumo do relatório “Brasil atrás das grades” elaborado pela organização Human Rights Watch: “Na maioria das prisões, a distribuição do espaço é relativamente desigual, de modo que a pior superlotação recai desproporcionalmente sobre alguns presos.
Na mesma frase, Thompson escreve que “treinar homens para uma vida livre, submetê-los a condições de cativeiro, parece tão absurdo quanto alguém que se prepara para uma corrida ficando na cama durante semanas”302. Para alguém do mundo livre que “sabe quando a prisão é atacada apenas através de denúncias ou visitas esporádicas, é difícil avaliar o grau de sofrimento a que o preso está exposto na 'instituição total', ou, segundo Foucault308, ' instituição do sequestro”. Em segundo lugar, porque mesmo que “ganhe”, será cobrado um caro tributo pela sua vitória (transferência da prisão, reingresso no regime prisional, isolamento, etc.).
Devido à natureza específica da prisão, é difícil determinar o número de violações que ocorrem na penitenciária. Especialmente para a vítima, a violência pode destruir a sua personalidade, prejudicar gravemente a sua autoimagem e autoconfiança.316 Parece que Louk Hulsman tem razão quando observa que “o sistema penal é concebido especificamente para causar danos”317.
A CRISE DA IDEOLOGIA DO TRATAMENTO RESSOCIALIZADOR
- P ERSPECTIVAS DE UM NOVO PARADIGMA POLÍTICO CRIMINAL : A DOUTRINA
- A POLÊMICA SOBRE O ABOLICIONISMO
- S OCIALIZAR ANTES , RESSOCIALIZAR DEPOIS
A sua correta aplicação exigiria uma reorientação das políticas públicas, buscando a discussão e a crítica das propostas relativas ao direito penal e, em especial, à execução penal, a fim de direcioná-las para que sejam pelo menos legalmente consagradas no respeito aos direitos. Ferrajoli defende, portanto, um sistema de justiça criminal mínimo, que consista numa alternativa progressista ao abolicionismo. Este direito penal mínimo seria legitimado pela necessidade de defesa das garantias dos desviantes e dos não desviantes.
De qualquer forma, no direito penal, a teoria abolicionista apresenta-se como um projeto amplo e histórico que deve pelo menos ser discutido, contexto em que as formulações desta teoria não devem ser eliminadas, mas consideradas como um meio de construção de um novo modelo. com foco nos direitos humanos e suas garantias, na busca por um direito penal mais justo e legítimo.355. A análise dos fenômenos ônticos e morais no direito penal e na criminologia pode ser construída a partir de Nietzsche, que exige dos filósofos a transformação de valores e a liberação de julgamentos morais, defendendo a ideia de que não existem fatos morais, mas apenas interpretações morais. desde. Portanto, deve-se levar em conta que o local para resolver esse problema não está relacionado ao direito penal e muito menos à prisão.
Dos diversos instrumentos de controle social, o Direito Penal aparece como o principal garantidor da autorrealização humana, ou seja, visa garantir a efetivação da convivência humana. À medida que o direito penal perde a sua eficácia, deve usar mais força para manter a sua validade. Se nada interrompe o processo de “repressão”, acaba por aniquilar o direito penal, que a certa altura deixa de ser lei e se reduz a uma mera aplicação da força (Zaffaroni).
Sua adequada aplicação exigiria uma reorientação das políticas públicas buscando a discussão e a crítica das propostas que envolvem o direito penal e especificamente a execução penal, a fim de orientá-las a, pelo menos, respeitarem os direitos legalmente consagrados.