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P ERSPECTIVAS DE UM NOVO PARADIGMA POLÍTICO CRIMINAL : A DOUTRINA

No documento Airto Chaves Junior.pdf - Univali (páginas 117-120)

3.3 A CRISE DA IDEOLOGIA DO TRATAMENTO RESSOCIALIZADOR

3.4.1 P ERSPECTIVAS DE UM NOVO PARADIGMA POLÍTICO CRIMINAL : A DOUTRINA

Emerge da análise realizada até agora a compreensão de que o sistema penitenciário é contrário, no seu conjunto, à reinserção do preso, e como a sua real função consiste em manter uma determinada forma de marginalização. A razão disso é amplamente explicada pela sociologia crítica do direito e também, por via da própria prática da punição, que acaba por atingir somente a base da sociedade.

Thomas Mathiesen336 registra oito premissas fundamentais a partir das quais reivindica a desconstrução do modelo executivo de pena até

334 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história de violência nas prisões. Petrópolis/RJ. Ed. Vozes, 1989, p. 244.

335 Fala-se aqui em “democracia” porque ela é, também, condição necessária à livre discussão pública de certos temas – particularmente o da justiça social e o do caráter ético dos assuntos públicos. Sem democracia, com a sua liberdade de expressão e franca controvérsia, é difícil imaginar qualquer abordagem séria de configuração de uma sociedade satisfatória, dos objetivos totais que a tomada política de decisão deveria promover, dos princípios pelos quais os seus efeitos deveriam ser criticamente avaliados, ou a madura percepção pública dos risco subseqüentes e das possibilidades de sua prevenção (In BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar Editor, 1998, p. 83).

336 MATHIESEN, Thomas. La Política del Abolicionismo. In SCHEERER, Sebastian et al. Abolicionismo.

Buenos Aires: Ediar, 1989.

então adotado: a) a criminologia e a sociologia demonstraram que o objetivo de melhora do detento (prevenção especial) é irreal, sendo constatável efeito contrário de destruição da personalidade e a incitação à reincidência; b) o efeito da prisão no que diz respeito à prevenção geral é absolutamente incerto, sendo possível apenas estabelecer alguma relação do impacto de políticas econômicas e sociais na dissuasão do delito; c) grande parte da população carcerária é formada por pessoas que praticaram delitos contra o patrimônio, ou seja, contra bens jurídicos disponíveis; d) a construção de novos presídios é irreversível; e) o sistema carcerário, na qualidade de instituição total, tem caráter expansionista, ou seja, suscita novas construções; f) as prisões funcionam como formas institucionais e sociais desumanas; g) o sistema carcerário produz violência e degradação nos valores culturais; e h) o custo econômico do modelo carcerário é inaceitável.

Ao avaliar a tendência mundial do encarceramento máximo, o autor desvenda os escudos protetores da prisão, isto é, os discursos que têm por função ocultar a irracionalidade da instituição. Os portadores da fala que erguem os escudos de tutela do cárcere são agentes da administração carcerária, os cientistas sociais e os meios de comunicação.337 Mesmo o trabalho de psicólogos e assistentes sociais no atendimento ao preso está vinculado à busca de adaptação do encarcerado às normas institucionais. Em pesquisa de cunho empírico, Wolff destaca que os laudos produzidos por estes profissionais traduzem muito bem esta posição:

A prisão por si só é necessária e, portanto, positiva e capaz de promover a ressocialização, tanto assim que muitos pareceres desfavoráveis apontavam a necessidade de maior permanência do preso, para que pudesse “aprender com a experiência punitiva”

e, dessa forma, respeitar normas e padrões sociais.338

A tendência desses fatores encobre, segundo Mathiesen, a verdadeira face sombria do sistema penitenciário:

337 CARVALHO, Salo de. Anti-manual de criminologia. 2. ed. Editora Lúmen Júris: ed. Editora Lumen Juris: Rio de Janeiro, 2008, p. 128.

338 WOLF, Maria Palma. Antologia de vidas e histórias na prisão: emergência e injunção de controle social. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005, p. 253.

[...] as pessoas não sabem quão irracionais são nossas prisões.

As pessoas são levadas a acreditar que as prisões funcionam. A irracionalidade verdadeira da prisão é um dos segredos melhor guardados em nossa sociedade. Se o segredo fosse revelado, destruiria as raízes do sistema atual e implicaria o começo de sua ruína.339

Já na década de 1970,340 o autor apresentava a possibilidade real de aplicação de uma drástica redução das instituições penais na Europa, sobretudo, por meio de duas perspectivas centrais:

1º. Como a grande maioria da massa encarcerada é composta por pessoas que praticaram crimes contra o patrimônio341, realizar uma política social de base, investindo na administração da criminalidade por meio de um ataque direto às suas causas, garantindo alguns dos direitos fundamentais, promovendo educação, saúde, alimentação, trabalho. Estar-se-ia, assim, a combater a violência na sua causa primária. Segundo Mathiesen, “a guerra contra o crime deveria tornar-se a guerra contra a pobreza” 342;

2º. Proteção às vítimas: para alterar a lógica do atual sistema punitivo, o autor propõe compensação financeira às vítimas por parte do Estado por meio de um sistema de seguro simplificado, apoio econômico em casos de luto, centros de apoio e abrigos protetivos. Conforme registra Mathiesen, as vítimas ficam totalmente desamparadas no atual sistema, razão pela qual propõe uma inversão radical na postura estatal: “[...] ao invés de aumentar a punição do transgressor de acordo com a gravidade da transgressão, o que é

339 MATHIESEN, Thomas. A Caminho do Século XXI: abolição, um sonho impossível? In PASSET, Édson;

SILVA, Roberto Baptista Dias da (Org). Conversações Abolicionistas: uma Crítica do Sistema Penal e da Sociedade Punitiva. São Paulo: IBCCrim/ PEPG Ciências Sociais. PUC-SP, 1997, p. 277.

340 A obra apresentada por Mathiesen é intitulada The Politics of Abolition, publicada pela primeira vez no ano de 1974.

341 Indicadores do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Departamento Penitenciário Nacional, vinculado ao Ministério da Justiça, esclarecem que em junho de 2009, o Brasil contava com 189.612.814 (dados IBDE – Julho/2008) habitantes e 469.546 presos, ou seja, uma média de 247,68 presos por 100.000 habitantes. Destes, 210.501 encontravam-se encarcerados em decorrência da prática de crimes patrimoniais; em Santa Catarina não é diferente: com uma população de 6.052.587 habitantes, o Estado contava (em setembro de 2009) com 12.654 presos (201 encarcerados por 100.000 habitantes). 6.021 eram privados da liberdade pela prática de crimes contra o patrimônio.

342 MATHIESEN, Thomas. A Caminho do Século XXI: abolição, um sonho impossível? In PASSET, Édson;

SILVA, Roberto Baptista Dias da (Org). Conversações Abolicionistas: uma Crítica do Sistema Penal e da Sociedade Punitiva. São Paulo: IBCCrim/ PEPG Ciências Sociais. PUC-SP, 1997, p. 276.

básico no sistema atual, eu proporia o aumento do apoio à vítima de acordo com a gravidade da transgressão” 343, ou seja, uma escala de apoio no lugar de uma escala de punições.

Para Thomas Mathiesen, estas seriam apenas algumas medidas fundamentais para a organização de uma justiça orientada para a vítima, propondo-se, neste sentido, uma guinada radical na economia interna do sistema judicial. Dessa forma, além da dimensão teórica negativa e desconstrutiva, o autor também apresenta uma faceta positiva e reconstrutiva para o modelo, mediante a proposição de formas alternativas de controle social.

No documento Airto Chaves Junior.pdf - Univali (páginas 117-120)