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Combatendo o ressentimento

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Academic year: 2023

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Combatendo o ressentimento: análise de histórias orais e visuais sobre (in)justiça no documentário Sem Pena/Marta Rovai e Rafael Flores de Lima. É claro que as histórias do documentário Sem Pena – e toda a performance em que estiveram envolvidos – são também factos e documentos do seu tempo e do nosso tempo.

História do Tempo Presente e narrativa

Fiorucci entende que a história de hoje seria uma história política renovada, na medida em que, a partir da década de 1950, tratava-se das demandas da sociedade por esclarecimentos sobre os traumas vividos. O autor chama a atenção para o argumento mais utilizado contra a história contemporânea: a ideia de proximidade.

O documentário como fonte histórica

Ao analisar a outra história do cinema, faz-se uma contraanálise da sociedade, na medida em que o que não é visível no filme revela aspectos políticos e sociais. Barros chama a atenção para os cuidados metodológicos na análise fílmica, pois não só os discursos – no caso aqui estudado de presidiários, policiais, advogados, juízes, familiares – mas também a musicalidade, o cenário, as imagens e o roteiro devem ser levados em consideração. em conta. levar em conta para compreender sua complexidade.

A prisão, o imaginário do crime e a (in)justiça no Brasil

Portanto, a partir de uma visão maníaca e dominante, de um lado está o mundo do trabalho e da moralidade, e de outro, o mundo caótico e vazio, que deve ser suprimido em nome da ordem social. Portanto o trabalho se destaca como ordem social e o Estado tem a função de moralizar os indivíduos através do trabalho compulsório; compreendendo também que os pobres eram aqueles que faziam parte do mundo do desemprego e esta situação era fruto de uma escolha pessoal, que fazia com que o indivíduo fosse colocado à margem. Porém, segundo o autor, a valorização dada ao trabalho e a insistência na ideia de uma função ressocializadora ou restaurativa do sistema prisional contribuíram para o desvio histórico dos debates sobre as mazelas sociais e suas origens e para o descaso com questões ideológicas envolvendo, uma vez que atributos são essenciais dos criminosos que devem ser reeducados, controlados e disciplinados pelo Estado, para proteger outros setores da sociedade.

Esse termo punitivo pode ser entendido como uma decisão política em nome da disciplina social, da manutenção de uma organização social historicamente determinada. Para aqueles que são marginalizados, a acção estatal é mais “eficaz” no sentido de que os remove da vida social em nome da coesão social. Para Carvalho, esta é a lógica do “dogma da punição”, que se dá pela crescente exigência e crença na punição como única solução, na constante aplicação da moralidade e na repressão armada, que é fruto de uma política autoritária e escravista. posse e herança desigual (baseada em conflitos agrários e racismo), que estabelece uma “ditadura contra os pobres”.

Que essa pessoa, porque é pobre, porque é negra, porque veio de favela, já cometeu muitos crimes. Através de sua própria experiência como médico que atende presos, o autor conta apenas uma parte do processo de desumanização ocorrido nos presídios - especialmente no maior presídio do país até então, o Carandiru - e o silêncio que o Estado promoveu revelou. sobre as barbáries. cometidos, violação de direitos humanos e falta de debate público sobre crime e prisões no Brasil. Além das produções acadêmicas, porém, a publicação e análise de filmes podem cada vez mais fazer parte do processo de sensibilização e aquisição de direitos, para entendê-los como documentos representativos de seu tempo e de formuladores.

Memória e narrativa

Aqui, a memória e os relatos servem como desejo de diferentes sujeitos sociais, que pretendem ser ouvidos e vistos pela câmera. Assim, a memória coletiva é uma construção e carrega um caráter positivo, fortalecendo a coesão por meio do afeto de um grupo. A memória coletiva necessita de uma comunidade ou destino afetivo, a memória está sempre inserida em um grupo.

Além disso, se a memória colectiva deriva a sua força e permanência do facto de ser apoiada por um grupo de homens, eles são, no entanto, indivíduos que são eles próprios. Portanto, Halbwachs reconhece a importância do tema, mas constrói seus significados dentro do grupo, o que contribui para a formação de uma memória coletiva. É necessário que esta reconstrução opere com base em dados ou noções comuns existentes tanto nas nossas mentes como nas dos outros, porque passam incessantemente de uma para a outra e vice-versa, o que só é possível se foram e continuam a ser. fazer parte da mesma comunidade.

A memória coletiva – oficializada – que acaba por estigmatizar os presos foi construída ao longo do processo histórico brasileiro. Lopes discute que desde a promulgação da Carta de 1988 surgiu um discurso criticando a leniência penal para com os criminosos comuns. Nesse sentido, entendemos que a memória coletiva alimentada pelo senso comum de forma opressiva e excludente no que diz respeito aos presos é a identificação com o passado autoritário e, portanto, herdada pelo imaginário social, que priva aqueles do direito à identidade como sujeitos e cidadãos são negados. .

Ressentimento: a vingança como forma de justiça

Um que leve em conta que todos devemos falar pelo homem que desistiu porque neste caso ele já desistiu da fala humana, já ficou tão mudo que só um grito bruto e inarticulado é um sinal. Acima de tudo, a justiça que olha para dentro e que vê que somos todos lama viva, escuros e, portanto, nem mesmo o mal de um homem pode ser entregue ao mal de outro homem: que ele não pode cometer liberdade e ser reconhecido como um crime de tiro. Por exemplo, eles se autodenominam “amantes da verdade”; especialmente a nobreza grega, cujo arauto é o poeta Teógnis de Mégara.

É a partir dessa concepção que o que ele chama de ressentimento foi fundado e perpetuado no mundo ocidental. Os ganhos subjetivos da mágoa – quando a memória se torna um veículo para o prazer lesado – tornam-se visíveis: a pessoa lesada é sempre uma vítima, uma pessoa lesada que se recusa a superar a mágoa que testemunha a sua superioridade sobre os outros. Basta observar as práticas jurídicas, a judicialização da vida, o desejo de enquadrá-la, o desejo de processar, o desejo de lucrar com isso.

Em troca da proteção de todos, um grupo – geralmente pobre, negro e morador de favelas, no caso do Brasil – é responsabilizado, ao mesmo tempo em que se cria a sensação de que todos estão vigiados pela lei. O que se gasta com um prisioneiro é mais do que o que se gasta com uma faculdade, uma universidade. Considerando o que foi dito até agora sobre o ressentimento, pode-se considerar que o entrevistado revela a face de uma sociedade em que aqueles que estão ressentidos se recusam a aceitar as consequências de suas ações e omissões, bem como sua responsabilidade em relação à compreensão do justiça que pune, mas não restaura.

O dito e o interdito: imagens e silêncios que narram

A ideia não é sobre a reparação imediata de punições injustas, mas sobre a reparação histórica de uma noção ressentida de justiça construída pela apatia e pelo desejo de vingança, como discutimos anteriormente. No segundo momento, o filme apresenta o debate entre intelectuais ligados direta ou indiretamente ao sistema jurídico – advogados, padres, professores, advogados, promotores e filósofos – que trabalham juntos para expor as feridas do sistema e mostrar o ressentimento que lhe está subjacente. . os procedimentos judiciais e o direito penal no Brasil (que discutiremos mais tarde). Já na abertura, a câmera leva o espectador para dentro dos órgãos públicos, para que possamos - como se estivéssemos num elevador - olharmos para a (des)organização dos setores em que podemos perceber funcionários inativos, pessoas em filas, mesas espaços vazios e salas onde nada parece acontecer.

Eu não sabia se iria a julgamento e, se fosse a julgamento, estaria pensando: "Terei que dizer que fiz o acordo?" Enquanto o foco narrativo está na voz de um personagem sem rosto que fala sobre o longo processo de sofrimento pessoal causado pela condenação a priori, o documentário mostra fotos feitas por um preso que, segundo ele, virou artista visual, sobreviveu à prisão. Responsabilizar alguém pelas ações do coletivo, torná-lo moralmente desprezível e criminoso – para lembrar a todos da sua culpa – é o que Maria Rita Kehl considera o comportamento de uma sociedade que baseia o seu imaginário e o seu bom senso na ideia de ressentimento.

Aqui um novo impacto visual é criado pela câmera, que passa horas navegando por estantes - que parecem não ter fim - repletas de pastas, provavelmente contendo processos criminais. Esta indiferença, este desprezo e apatia pela vida das pessoas – que decidem definitivamente entre a sua prisão e a sua liberdade – não parece ser fruto da falta de informação, mas do excesso de cenas e histórias padronizadas que banalizam e agravam as barbáries. . por fazerem parte de uma certa normalidade e aceitação quotidiana, a estigmatização de indivíduos que parecem distantes dos que estão fora da prisão, mas não o são (aqueles que se consideram 'puros', segundo Maria Rita Kehl). Porém, vozes emergem das celas, mostrando mãos nervosas, celas sujas e desarrumadas, com paredes cheias de mofo, ou locais – como a cozinha – onde é possível ver insetos voando sobre a comida.

Narrativas sobre a (in)justiça penal: o trabalho de memória denunciando a desigualdade social

Ao lado dos presos e seus familiares, o documentário Sem Pena cumpre o que Walter Benjamin chamou de “trabalho de memória”, ou seja, apresenta um diálogo entre diferentes memórias e apontamentos, na tentativa de descrever um cenário de injustiça, que não acaba. dentro da prisão. No caso das chamadas “autoridades” envolvidas no encarceramento, Sem Pena realiza um trabalho de memória daquilo que não pode ser dito ou esquecido. Ainda temos uma visão errada sobre segurança pública porque trabalhamos com critérios de administração que não são de prestadores de serviços, mas de quem produz bens.

Por que não podemos amar, por que não nos cuidamos, não produzimos, não crescemos fortes. E servir o mercado no direito penal significa excluir esse consumidor defeituoso, significa retirar da visão da classe média aquele consumidor que não está apto para a economia de mercado. Além disso, a lei estabelece que não há prisão preventiva em casos de furto simples.

As narrativas de presos, familiares e especialistas emergem para expor o esquecimento ou o excesso de memória vingativa e punitiva. Walter Benjamin também trata da importância da memória como salvadora da história, num trabalho de valorização da experiência, em que passado, presente e futuro se encontram. A informação, afirmação impessoal que não traz a marca da experiência, é insuficiente para substituir a falta do narrador.

O trabalho de memória que realiza procura partilhar e divulgar experiências silenciadas e negligenciadas e combater um excesso de memória colectiva assente no binarismo moral, mecânico e a-histórico. Voltando a Nietzsche, acreditamos que contra o descontentamento, a energia do poder – a afirmação da vida, o conhecimento do outro, a consciência histórica e o trabalho da memória – é uma saída possível.

Referências

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