Ao Simei Andrade, por toda ajuda que me deu e por acreditar na minha luta, amigo a quem devo meus sonhos, pessoa mágica que a ETDUFPA recebeu de presente, alguém tão grande que não há palavras para mensurar tal mulher. A todas as forças divinas que me guiam, ao Deus maior que penetra em minha alma, às mães ancestrais que me ajudam a seguir, às forças sobrenaturais da natureza que me energizam. A Iansã, minha mãe, que abriu caminhos de luz em minha vida daqui para frente.
Essa experiência facilitou pensar nos caminhos que me levaram a construir meu corpo pictórico para a poética que chamo de GELEDÉ.
Trajetórias de Mim
Através do meu primo Felipe Cruz, em 2010 resolvi me inscrever sozinha no exame do Curso Técnico de Dança, sem que minha família soubesse de nada. Passei por grupos de estudos dentro da Etdufpa, como o Grupo de Pesquisa e Extensão em Arte, Cultura e Sociedade, coordenado pelo Dr. Dentro da escola não há possibilidade de não me tornar um artista completo, então após o curso técnico de dança fui para o Técnico em Figurino Cênico, onde tive experiências incríveis que me permitiram criar, produzir e assinar meus próprios figurinos cênicos.
Na época, eu ainda estava no curso técnico de dança da UFPA, resistente aos caminhos artísticos.
A Pele que Habito
Se meu corpo fosse meu ser no mundo, e para viver eu precisasse dele, por que não dizer que é a partir dele que se tem uma vida plena. Então percebi que meu corpo precisava de respostas e que seria de fato uma busca constante. No momento em que o ator se acostuma a fazer um balanço do corpo a cada momento, de forma muito orgânica, ocorre a consciência do movimento” (2007. p. 30).
Devemos ter essa noção existencial do corpo no mundo para podermos comprá-lo. Tornei-me poesia a partir do meu olhar no espelho, dos preconceitos dos outros sobre o meu corpo, das dificuldades dos outros em me ver como artista, em entender que meu corpo é meu fenômeno da minha pesquisa e não como um corpo em uma estado de perfeição. Essa forma de compreender a dança vai ao encontro do que MENDES (2016, p. 2098) chama de dança imanente, “a busca de uma dança do próprio corpo, aberta, agente e inacabada, que tem em si todas as potências daquilo que o cerca”. . isso, incluindo outros corpos, e que pressupõe que qualquer corpo pode saltar.
O que pretendo alcançar com estas experiências é partilhar e defender a ideia do corpo como metodologia da dança, como foco, a dramaturgia da dança, uma visão metodológica a partir do corpo de que a consciência e a sensibilização, o humanismo, são fontes fundamentais . para uma dança universal. A experiência que vivi com meu corpo me leva à etnocenologia como ponto de partida, que, como atitude teórica e prática, envolve a criação de novos métodos a partir da experiência do corpo no trabalho composicional, dissolvido na experiência vivida corporalmente dentro do campo. pesquisa sobre atividade artística com fins ou não. Esta nova visão e ajustamento levaram-me aos preconceitos que ainda hoje tenho sobre o meu corpo ser “defeituoso” para a dança, embora para mim seja a poesia, a disciplina e a metodologia que podem e devem dançar.
Construir um conhecimento materno é assumir uma descoberta única, porque ser mãe, ser mulher, ter tantas lembranças no corpo me fez ressurgir a cada lição. E quem educa pelo corpo fala da sua história, das cicatrizes que todo ser humano carrega. Comunicando-me com o pensamento de Barthes, acredito que meu corpo já é um espetáculo diante da minha sobrevivência e resistência.
5 – A Encruzilhada – Coreologia dos Encruzils, onde estabeleço meu corpo na conexão de santo e tudo que me atravessa na poética da arte.
ETNOPESQUISADORA
O Sagrado Feminino Negro
Falar sobre descendência, poder feminino, minha história, entidades sagradas para os negros, o sagrado feminino negro como forma de descolonizar o corpo feminino da periferia, luta, cicatrizes e dores, o resgate, fortalecimento e visibilização da mulher que cria dela. família sozinha, que NÃO precisava de “chefe”. De linhagem negra, indígena, de uma vida sofrida no campo, de muito trabalho na vida das mulheres da minha árvore genealógica, de corpos calejados por sinais de luta, de significados e de amor dentro e além da arte que gira em torno de mim, de mundos me para a alma e a pele. O que meu processo traçou ao longo do tempo foi um encantamento africano e afro-brasileiro que fala não só de entidades de poder e liderança negra dentro da religiosidade negra, mas da luta de uma mulher da periferia e do que só sua família comandava, de atrizes. que gritam em suas performances a resistência de suas vozes, de um estudo que exige uma lei que possibilite o que negam nos becos.
Imanjá na verdade é negro, como todo orixát, pois é uma religião criada por negros. Assim, o feminismo negro permanece na força das mulheres que lutam no mundo todo, donas do discurso e do poder que nos é negado. Busquei minhas raízes nas forças femininas ancestrais, trazendo para o meu trabalho uma valorização dessas forças maiores que comandam o Orí do povo negro, guardando um pouco nessa força sagrada feminina, a força que reside em mim, das forças de minha esposa. os orixás que me governam, pela força do meu vento que são minha maior riqueza.
Trazendo a etnocenologia para mostrar o valor desse poder negro que o Brasil tem e nega, a sagrada feminilidade negra das mulheres lutadoras que foram menosprezadas e abandonadas pelo machismo patriarcal e opressor. Cruzar-me com os corpos que me cruzaram neste encantamento, com as forças femininas que me acompanharam até aqui no processo da minha criação, falar sobre as mulheres e as questões a elas relacionadas, sobre o desapego do corpo, sobre o lugar de mulheres no mundo. o mundo. E foi no sagrado feminino que encontrei base para falar de mim, para falar de forças tão fortes e maravilhosas que me encantaram neste portal de arte.
A etnocenologia me prova que meu corpo é o espetáculo de uma vida de luz, de encruzilhadas que marcam o carrasco, que iluminam as lâmpadas dos meus caminhos para uma nova jornada na arte. Me sinto reconectada com a diáspora através do meu usufruto desses caminhos de encantamentos, me sinto mais forte para continuar lutando por um lugar de expressão, me encho do poder das forças sagradas e das mães ancestrais que me governam e que eu liderarei a partir de agora em diante passarei por todos os portais de feitiços que preciso passar para atingir meus objetivos.
CORPO’COSMO
Culto- Ritual II
Conheci Mãe Juci em um encontro comemorativo da lua de mel da amiga em comum Karina Dias, onde quando somos apresentados ela imediatamente segura minhas mãos, um abraço caloroso, mas o olhar é de quem quer dizer alguma coisa. A convite de Mãe Juci e de sua filha de santo (amiga em comum), sou levada para passar um sábado no terreiro de Mãe Juci - Mãe Juci tem seu terreiro de Umbanda e está se estabelecendo no Candomblé, por isso atua seu terreiro . Então num sábado, dia 10 de novembro de 2018, trabalhando em casa, chego na casa da Mãe Juci e de longe vejo as filhas dela trabalhando na casa, e não sou a única visitante hoje.
E fui recebida por Mãe Juci, que me abraçou forte e disse: “você está atrasado, já estou te esperando”. Então, sou imediatamente chamada por Mãe Juci, que já está me esperando na mesa de treino, o que acontece durante o jogo não posso relatar, mas logo após nosso momento juntas neste encontro de Oyá. Meu corpo muda quando ouço do caboclo que Mãe Juci não estava mais lá.
O estado alterado de incorporação de Mãe Juci é impressionante; é uma metamorfose notável de um corpo modificado e condensado, ocupado por uma forma masculina e grosseira. Fica clara a diferença entre os corpos e as almas que ali existem: Mãe Juci torna-se uma força, seu corpo é masculino, sua fala é complexa e sua serenidade é a de um homem sábio. Então aproveite, se quiser, minha filha Juci vai cuidar para que seja feito (olha para o lado onde Luciane senta no braço direito de Mãe Juci dentro de casa) e solte ela – você é quem manda nisso tudo para passar para minha filha Juci depois que eu partir, porém, diga a ela que essa menina é meu cavalo é que ela tem trabalho a fazer – volte o olhar para mim – filha, a mãe Juci ficará encarregada de cuidar de você e seu corpo.
Toda a energia canalizada para dentro e para fora dessa busca constante por um corpo ritual era uma certeza, uma certeza de que meu corpo já tinha o que eu tanto procurava. E assim meu corpo irá processar os caminhos em movimento para a cena final, porque a resposta está dentro de mim.
GELEDÉ – O PROCESSO DE CRIAÇÃO
Fumante: Fumar é uma forma de limpar o corpo, o caminho, é o que ele chama de fumaça das coisas, dá energia aos corpos, às coisas. Velas: são lâmpadas, são um dos elementos mais importantes da vida e das energias luminosas, nenhuma energia chega sem acender uma lâmpada em seus caminhos. Canção: A canção foi escrita pelo músico João Urubu, que carinhosamente me presenteou com esta canção que define minha jornada e o rito de passagem de Iyamí a Nanã.
Saudações: As saudações recitadas durante a dança Iyamí foram formas de trazer a energia das Iyabás que criaram o mundo para mim durante minha pesquisa e prática. É preciso refletir sobre a compreensão do homem como um ser inacabado, sempre em busca da completude, consciente de que nunca conseguirá alcançá-la, como Morin (1995), Freire (1999) e em busca dessa completude. , porém, o profissional se desenvolverá progressivamente como tal como pessoa humana. Isso parece acontecer quando o leitor de uma história interage com ela de tal forma que produz significados, seus próprios, ao se reconhecer de alguma forma naquela circunstância, naquele contexto, ao evocar suas memórias de situações semelhantes de vivenciadas, dando isto novo significado. eles.
De uma mulher que aos 38 anos se vê confrontada com o facto de a sua filha de 16 anos se tornar mãe. E buscar incansavelmente na arte, na educação, sua forma de lutar por uma vida melhor. Desde então, todo o meu processo de descoberta e encantamento tem sido dentro da arte e das religiões afro-brasileiras nas quais me insero, das quais doravante faço parte.
Com a representação de uma mulher com poder de luta e as energias de Iyamí Ossorongá e Nanã. Ao formar uma professora que, a partir de conhecimentos e de seus poderes ancestrais, se descobre como intérprete de histórias de vida e cicatrizes que tornam possível a atuação do intérprete.