Com base em nossos estudos e coerentemente com a lógica desta dissertação, interpretamos a obra de Sartre em quatro momentos. No entanto, o ateísmo de Sartre não é apenas uma conquista da sua filosofia, mas antes o resultado das circunstâncias da sua educação e da pobreza espiritual do seu ambiente familiar.
Sartre e a fenomenologia
O ingresso sartreano na fenomenologia
Em 1933 mudou-se para Berlim, onde estudou Husserl por um ano no Instituto Francês de Berlim como bolsista. Com esta rubrica de intencionalidade: 'toda consciência é consciência de', qualquer conteúdo da consciência é expulso, agora concebido como vazio, translúcido e absoluto, 'não é senão o fora de si mesmo e é esta fuga absoluta, esta recusa de ser '. uma substância que o constitui como consciência” (SARTRE, 2005d, p. 88).
A fenomenologia de Husserl
Aliás, a entreparênteses realizada pela filosofia da apodicidade absoluta de Husserl postula não apenas o mundo, o corpo, mas também o ego e suas percepções, o que implica suspender os julgamentos do foro ético, da mesma forma suspender todas as ciências e ideologias proveniente do mundo natural, enfim, toda proposta, que surge de uma relação natural. Para Husserl, de forma semelhante, mesmo na busca por um conhecimento rigoroso e inequívoco, é necessário suspender a atitude natural do mundo.
Sartre fenomenólogo
A crítica ao Eu na consciência
A consciência irrefletida e refletida
Existe conhecimento do objeto pretendido, mas não conhecimento da consciência da consciência do objeto pretendido. Quando a consciência sabe que é a consciência da consciência da mesa, então ela é colocada num segundo grau, a consciência reflexiva.
Da fenomenologia à ontologia do Ser e Nada
Transfenomenal no sentido de que tal ser está além do fenômeno que se manifesta (seja a consciência do conhecimento ou o mundo conhecido). Chamamos o ser do fenômeno de eu-em-si, esse outro que a consciência transcende em direção a ele.
Em-si e o ser
39 à sua essência: “o sentido do ser do existente, na medida em que se revela à consciência, é o fenômeno do ser” (SARTRE, 2016b, p. 35-36) e nesta trajetória “transcende o ôntico para o ontológico.” Nesta empresa, “mesmo que fosse criado, o ser em si seria inexplicável pela criação, porque lhe seguiria novamente” (SARTRE, 2016b, p. 37).
Para-si e o nada
O nada e a nadificação
Sartre diz: “o interrogado niiliza o interrogado em resposta a si mesmo, coloca-se num estado neutro, entre o ser e o não-ser, e ele se niiliza em relação ao interrogado, e se desprende do ser para extrair de si mesmo o possibilidade de um não-ser” (SARTRE, 2016b, p. 66). A questão, este comportamento humano, permite à consciência colocar a possibilidade de negação no mundo e assim surge o não-ser. Sartre responde que o não-ser não surge do julgamento da negação, “pelo contrário, é o julgamento da negação que é condicionado e sustentado pelo não-ser” (SARTRE, 2016b, p. 51).
A ilustração a seguir destaca a ausência de Pedro e a destruição do bar, cuja existência não foi confirmada pela atitude questionadora do homem. Acrescentamos: o nada, porque não é, não pode tornar-se nada, do qual, no entanto, exige algum ser aniquilador.
O Para-si, a liberdade e o valor: apontamentos éticos
O Para-si é (existe) como liberdade, agindo livremente, diferente do Em-si em que o 'é' indica uma definição, um fechamento de si, uma essência. O valor, como observado, surge da falta do Para-si que cria e vivencia valor em liberdade, ele “é o ser que será como base do seu nada” (SARTRE, 2016b, p. 144). O valor está, portanto, na intersecção entre o nada que constitui a realidade do Para-em-si e a realidade do Em-si do mundo.
O Para-si é a falta de consciência do ser, da qual nada surge como atitude negadora e ontológica, é o que não é e não é o que é. A liberdade identificada com o Para-si, que é o homem e o seu nada de ser, é a própria possibilidade de devir.
O problema do solipsismo
Hegel e o reconhecimento
Seu empreendimento é o estudo da consciência no processo de autoconhecimento e de si mesmo, através de três momentos: consciência, consciência e razão. É consciência, pois o conhecimento de outro objeto corresponde essencialmente ao eu. A verdade do mundo já não está nele, mas em mim; a verdade é o Eu da consciência.
Inicialmente, a autoconsciência imediata é um ser para si, simples, idêntico a si mesmo pela exclusão do Outro. Ou, como diz Hegel: “Em primeiro lugar, a autoconsciência é simplesmente ser-para-si, igual a si mesmo, excluindo de si tudo o mais.
Heidegger e o Ser-no-Mundo
Com Heidegger, porém, a relação não é de consciência e de mundo como com Sartre, mas de estar-aí no mundo. Considerar o mundo como tudo o que nos rodeia, as pessoas, as árvores, a cultura, etc., é ficar no nível ôntico, ou seja, das entidades que existem no mundo. Para dar um exemplo, a casa é, Deus é, etc., ou seja, eles são intramundanos, enquanto o Dasein-no-mundo é o ser numa relação primordialmente de uso, de ocupação.
Ao argumentar que o Dasein, como o Mitsein, está fundamentalmente relacionado com o Outro no mundo, queremos romper com o solipsismo. Em suma, descubro a relação transcendente com o Outro como parte do meu próprio ser, da mesma forma que descobri que estar no mundo mede a minha realidade humana.
Considerações
A tentativa aqui feita visa apenas demonstrar possíveis aproximações entre o filósofo da existência e o existencialismo de Sartre, à luz da superação do solipsismo. Segundo Perdigão (1995), essa influência pode ser tão grande que Ser e Nada “forma uma espécie de resposta ao tratado mais importante de Heidegger, “Ser e Tempo” (PERDIGÃO, 1995 p. 31). A apropriação sartreana de Heidegger é clara, mas contrasta com ele; especialmente porque ele está preocupado com a existência humana e não com o ser.
Contudo, nosso principal interesse é enfatizar que em ambas as personalidades a convivência com o mundo e com os Outros é característica da existência humana. A partir desta exposição, argumentamos que a filosofia de Sartre, embora inspirada em Heidegger, é concreta, encarnada no mundo e com o Outro e nunca abstrata e solipsista.
O Corpo
Esta dupla contingência sob a protecção da necessidade de estar-aí é o que Sartre chama de facto do Para-si. Na verdade, é necessário que o Para-si esteja no mundo, mas isso depende de onde ele está no mundo. Sartre, ao postular o envolvimento do Para-si no mundo, estabelece que o encontro com o Outro é inevitável.
A consciência como uma transcendência transcendida por outra faz com que o corpo apareça ao Para-si como um Em-si. O ser-corpo e o objeto-para-outro são, portanto, duas modalidades ontológicas do ser-para-outro do para-si.
O olhar e o ser para-Outro
O olhar Entre Quatro Paredes
Certamente Entre Quatro Paredes está filiado à reflexão filosófica da fenomenologia ontológica do olhar em Sartre, e dessa forma apresenta elementos sobre a constituição do sujeito que se dá a partir do estatuto do Outro em seu campo de observação. Estelle é completamente externa, tanto que precisa do olhar do Outro para refleti-la, porque ela não consegue refletir a si mesma. O Outro é uma revelação para mim mesmo daquilo que sou, ou seja, através do Outro eu me reflito.
A frase quer aludir “à própria imagem refletida nos olhos de quem os observa”. Mesmo na tentativa de fuga, o olhar do Outro se estabelece como um espelho que remete a mim mesmo. Independentemente do que eu diga sobre mim, o julgamento do Outro sempre vive em mim.
As relações concretas do olhar com o Outro
A primeira atitude para com o Outro: o amor, a linguagem, o
Portanto, para restaurar esse ser, para ser alicerce de mim mesmo, projeto me subordinar à liberdade do Outro sem perdê-la como consciência: “Assim, meu projeto de me recuperar é fundamentalmente um projeto de reabsorção do Outro” (SARTRE, 2016b, p. 455). Seria inédito ser amado pelo determinismo psicológico ou automatismo da paixão do Outro: “O amante não quer possuir o amado como se possui uma coisa [...] ele quer ter a liberdade como liberdade” (SARTRE , 2016b, pág. 458). Na verdade, “o aparecimento do outro diante de mim como olhar provoca a linguagem como condição do meu ser” (SARTRE, 2016b, p. 465), o que significa que se sou linguagem como ser-para-outro, experimento minha subjetividade como objeto para sua subjetividade.
No masoquismo, o sujeito nega sua transcendência para "ser tratado, entre outras coisas, como um objeto, como um instrumento de uso [...], a rigor, ele se projeta para ser nada mais que um objeto, isto é , um Em-si radical” (SARTRE , 2016b , p. 471) para a fruição do Outro. Nessa postura, não é o outro quem me impõe a posição do objeto, mas sim eu quem fica fascinado pela minha própria objetividade para o outro, "ao perceber minha subjetividade não-teticamente como nada, na presença do Em-si que represento aos olhos do outro” (SARTRE, 2016b, p. 471).
A segunda atitude para com o Outro: a indiferença, o desejo, o ódio, o
Nesse sentido, as carícias são a apropriação do corpo do Outro e a descoberta do meu corpo. O que ele quer é a consciência, “um modo singular da minha subjetividade” (SARTRE, 2016b, p. 481) que se torna corpo para se apropriar do corpo do Outro. Usando o corpo do Outro como ferramenta, o sádico tenta realizar violentamente uma existência corporificada e explorada.
Assim, esta explosão da visão do Outro no mundo sádico destrói o significado e o objetivo do sadismo. Porém, mesmo a morte do Outro e seu olhar objetificado não podem eliminar o fato de que o Outro não existia.
A psicanálise existencial
A consciência como falta de ser e a recusa a Freud
A psicologia empírica, “ao admitir que um determinado homem se define pelos seus desejos” (SARTRE, 2016b, p. 782), estabelece o conteúdo interno da consciência e “permanece vítima da ilusão substancialista” (SARTRE, 2016b, p. 782). ). . Para a psicanálise, o sujeito é enganado por uma verdade inconsciente que só emerge pela mediação do analista, mas a mentira é uma mentira para quem conhece a verdade, portanto a psicanálise substitui a noção de má-fé pela ideia de uma mentira sem mentiroso” (SARTRE, 2016b, p. 97). Em outras partes desta tese, acompanhamos o desejo do Para-si de se tornar eu-si, ou seja, o seu desejo de ser seu próprio fundamento.
Sartre chama esse desejo de plenitude de desejo de ser Deus como “aquilo que o anuncia e o define em seu projeto e fundamento último” (SARTRE, 2016b, p. 693). A psicanálise rejeita que dados primordiais, como a hereditariedade ou o caráter, influenciem a constituição humana, na primazia do indivíduo como “historicização contínua” (SARTRE, 2016b, p. 697) em uma situação contextual.
O projeto, liberdade e temporalidade
Já dissemos que, ontologicamente, o Eu “projeta ser o que é; É como consciência que o Para-si pretende ter a impenetrabilidade e a densidade infinita de si mesmo” (SARTRE, 2016b, p. 693). O projeto original de um Para-si só pode visar o seu próprio ser; o projeto de ser, o desejo de ser, ou a tendência a ser, não provém, de fato, de uma diferenciação fisiológica ou de uma contingência empírica; na verdade, é indistinguível do ser-em-si. O tempo é a forma de ser do Eu, pois não é algo definido, mas caracterizado pelo fluxo.
O próprio Para é temporalizado em uma totalidade sequencial e irreversível, que é o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Isto “significa que o futuro constitui o sentido do meu Para-si presente, como o projeto da sua possibilidade, mas não determina de forma alguma o meu Para-si futuro, uma vez que o Para-si está sempre abandonado nesta obrigação niilizante de ser”. . o fundamento do seu nada” (SARTRE, 2016b, p. 183).
O método compreensivo e o marxismo
O Para-si, como negação, é e não é o seu passado, ou seja, é passado como algo que já foi, mas não é passado no sentido de identificação, pois a identidade é característica de um Eu-si. SARTRE, data, p.?); as ciências humanas, que, por tratarem do mesmo objeto de estudo, deveriam trabalhar em conjunto. A data, portanto, nunca aparece ao Para-si como existindo no bruto e em si; descobre-se sempre como motivo, pois só se revela à luz de um fim que o ilumina.
Para compreender uma pessoa é importante visitar sua história e seu projeto, que une os diferentes comportamentos de um indivíduo em um único modo de ser. Ao ser vista, mediada pelo Outro, Genet recebe a abundância de um objeto maligno e identifica-se passivamente com ele.
O instante e o projeto: convergências
A realidade humana é um nada que, no movimento intencional da consciência, se lança à existência através de suas escolhas exigidas pela liberdade absoluta, à medida que a falta e o desejo de ser atuam no mundo a partir de um projeto. Toda realidade humana é ao mesmo tempo um projeto direto de metamorfose do seu Para-si em um Eu-para-si e um projeto de apropriação do mundo como totalidade do ser-em-si sob o tipo de uma qualidade fundamental. . O sujeito humano, como Self, é, portanto, uma falta de ser, uma falta de self, um nada fluido para as coisas, e um desejo de ser, nas palavras do nosso teórico, "um ser cujo ser está em questão. em ser em a forma de um projeto de ser” (SARTRE, 2016b, p. 691).
Afinal, o método psicanalítico existencial deve “revelar ao agente moral que ele é o ser através do qual existem os valores” (SARTRE, 2016b, p. 764). A existência do outro é um escândalo intransponível (SARTRE, 2016b, p. 567) que permite a realização de um sujeito, sempre em curso.