Portanto, surge a questão de como se formam as ideias sobre a redução da maioridade penal. Artigos de notícias sobre casos de violência ajudam a justificar a redução da maioridade penal. Em 30 de junho de 2015, no primeiro turno de votação, a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta de redução da maioridade penal.
Constitucionalidade na alteração da norma
É um gesto de silêncio jornalístico, pois não são discutidos fatos relevantes que impulsionam o debate sobre a redução da maioridade penal. Observamos uma parcela da população defendendo a redução da maioridade penal, repetindo os argumentos da grande mídia.
O caso do ciclista Jaime Gold
Em segundo lugar, “porque os adolescentes de 16 e 17 anos já têm discernimento suficiente para responder às suas ações” e “a impunidade dos menores só leva a mais violência”. O artigo ‘vende’ a falsa ideia de que menores de 16 anos já possuem discernimento suficiente para compreender a prática de comportamentos criminosos. Contudo, não identificamos a necessária contextualização do tema.
Sistema internacional dos direitos humanos
Ao longo da história, as grandes guerras mundiais trouxeram tempos de barbárie e intensas violações dos direitos humanos. São instrumentos que cuidam dos direitos humanos em geral e estabelecem um conjunto de diretrizes cada vez mais universais, indivisíveis, independentes, executórias e judiciais. Nas representações construídas pelos meios de comunicação social sobre a redução da maioridade penal, vemos violações dos direitos humanos quando suspeitos de cometer crimes são expostos e simbolicamente condenados antes de serem submetidos aos devidos processos penais.
O tratamento desigual deve ser rejeitado como uma clara violação dos direitos humanos. Reconhecemos que a ONU e a Declaração dos Direitos Humanos surgiram para ajudar a restaurar uma ordem mundial baseada em novos conceitos de direitos internacionais opostos à soberania nacional absoluta. No direito internacional, o Pacto de San Jose aparece como um texto fundamental no sistema americano de direitos humanos.
O tratado garante poder de persuasão aos seus signatários (o Brasil é um deles), tornando as diretrizes estabelecidas pela Carta dos Direitos Humanos uma norma jurídica. Acreditamos que os princípios e legislações nacionais e internacionais devem ser relativizados em relação a cada caso individual, através de uma avaliação de equilíbrio de valores que garantam os direitos humanos.
Movimento cíclico das narrativas jornalísticas
Dessa nova referência temos a construção simbólica de um repertório cultural que será reaproveitado por outros na formação de novas narrativas. No cenário atual em que se discute a redução da maioridade penal, temos a impressão de que grande parte da violência está relacionada aos menores. Percebemos que a associação de questões nesses casos instigou a criminalização das armas brancas e mais uma vez a redução da maioridade penal.
Daggry contra a redução da idade mínima criminal de 20 anos é um grupo que publica questões diariamente em sua página no Facebook. Levantar outro caso – os arrastões nas praias do Rio em setembro de 2015 – nos ajuda a complicar o fluxo narrativo que constrói as representações da redução da maioridade penal. Neste capítulo, continuamos a examinar como os discursos em artigos jornalísticos contribuem para o discurso sobre a redução da idade mínima criminal.
Uma delas é que os relatórios sobre os “arrastões” tendem a culpar os jovens de áreas mais remotas, especialmente os negros e os pobres. Optamos por analisar o ano de 2015 porque acreditamos que os relatórios desse momento específico podem estar ligados ao discurso sobre a redução da maioridade penal, podendo assim contribuir em parte para a criminalização que alguns jovens sofrem.
Contínuo narrativo: “arrastões” como “onda de crimes”
Com a série de notícias sobre violência que foi “consertada” em 2015, podemos observar uma “onda de terror” quando falamos em “redes de arrasto”, como quando mencionamos outros casos em que jovens menores foram responsabilizados por crimes. Por exemplo, o ciclista que foi vítima de um esfaqueamento em Lagoa ocorreu quatro meses antes da “onda de redes de arrasto”, mas parece fazer parte da mesma “onda de violência” que aterroriza a cidade, personificando os culpados. Neste momento nos questionamos: existe sim uma “onda de violência” praticada especialmente por jovens no Rio de Janeiro.
O que poderiam ser casos isolados, independentes e até, por que não, casos comuns de roubos e agressões na zona sul da cidade, estão localizados dentro do mesmo “pacote” que estabelece e antecipa uma possível “onda de crimes” no verão carioca. No relatório aqui analisado, a ligação entre os incidentes é crucial para categorizar a “onda de crimes” como “rede de arrasto”. A ideia de “onda de crimes” presente nos discursos sobre “traineiras” gera uma espécie de pânico coletivo na população.
Os “menores”, nesta concepção, são os sujeitos responsáveis pela “onda de terror” provocada por uma “onda de violência”, causando “pânico” por onde passam. O que podem ser considerados fatos isolados (e até rotineiros), no fim de semana tornam-se elementos que compõem uma “onda de crimes” como os “arrastões”.
Cultura do medo
Jornalismo das sensações
No século 21, mesmo com o enfraquecimento dos jornais com conteúdo exclusivamente “sangrento”, observamos o sensacionalismo nos principais jornais, como O Globo. Para os autores, há uma mudança da “imprensa sensacional” para uma “narrativa sensacional” através da estratégia discursiva em que realidade e ficção se misturam para manter um fluxo sensacional. Embora não partilhemos da ideia de um público receptivo passivo manipulado pelos meios de comunicação, não é menos explícito que os leitores, ao lerem a informação, apropriam-se dela de forma mais ou menos semelhante.
Afinal, parece-nos plausível aceitar a perspectiva de que referências simbólicas da cultura popular serviriam de base para a divulgação de um tipo de narrativa que veicula conteúdo político e evidencia a relação entre imaginário e projeto político. Ao compor o texto a partir de um mundo, o repórter gera um novo mundo: um mundo que mistura realismo e romance, uma vez que a estrutura narrativa dessas notícias é semelhante à dos romances seriados, embora os personagens estejam afastados da realidade (MATTHEUS, 2011, p. 32). Nesse sentido, a hipótese de que a imprensa pode – baseada num amálgama produzido nas páginas dos periódicos entre, e.g. encenação melodramática e o conceito de medo – plausível para nós.
Sob o pretexto de que defenderão “nos braços” a garantia da paz na praia, estão dispostos a brincar livremente na areia. Num jornal de grande circulação vemos claros traços de jornalismo sensacionalista, seja na foto da vítima ensanguentada, que parece em agonia enquanto espera uma ambulância, seja no título da matéria: ciclista é esfaqueado no abdômen por uma gangue que atacou em Lagoa.
Segregação do espaço urbano
Nessa perspectiva, voltamos nossa atenção para as projeções de um discurso midiático de medo nos espaços urbanos. O aumento da violência é o resultado de um ciclo complexo que envolve factores como o padrão violento de acção policial, a descrença no sistema jurídico como mediador público e legítimo de conflitos e fornecedor de reparação justa; respostas violentas e comprovadas ao crime; resistência à democratização; e a má percepção dos direitos individuais e do apoio às formas violentas de punição por parte da população (CALDEIRA, 2000, p. 101). São sintomas de uma suposta defesa da identidade e de um suposto conhecimento sobre o outro produzido por um sistema de representações.
Outra coisa importante é que os altos preços cobrados pelas empresas reguladas incentivam a criação de um mercado clandestino, geralmente formado por ex-policiais e policiais que querem aumentar sua renda. Vêm à praia em grupos de cerca de 20 pessoas, sempre acompanhados por um adulto que é o líder. Através de um processo que criminaliza o jovem, o adolescente infrator se torna o vilão da história e só há uma solução: a prisão.
Ou seja, está subjetivamente ligado ao sujeito ou objetivamente ligado à prática de um crime. Antes de serem condenados processualmente pela prática de atos ilícitos, são marginalizados por apresentarem características típicas de um desviante.
Quadros metodológicos – o caso Jaime Gold
A morte do médico espalhou indignação, medo e sentimento de impotência entre amigos, familiares e muitos visitantes do local – um dos espaços de lazer mais valorizados da cidade e palco dos Jogos Olímpicos de 2016. Data Página Título Discurso midiático sobre o medo. e segregação urbana Aplicando as categorias Misse bicicleata. marcam protestos contra a morte de um médico na periferia de Lagoa. Segundo ela, sabendo que não podem ser detidos só por portarem facas, os adolescentes utilizam armas brancas para cometer crimes. página O suspeito tem 16 anos e 15 crimes.
A transformação da criança pobre em suspeita de um brutal homicídio está registrada em todas as páginas dos autos de prisão durante suas 15 visitas às delegacias da cidade. Data Título da página Combinação de notícias com retomada do discurso sobre redução da maioridade penal. Nos últimos meses, ele defendeu a redução da idade mínima criminal para crimes hediondos e o aumento das penas para homicídios cometidos por policiais.
Notamos que, além da redução da maioridade penal, é intenso o discurso de apoio à solução da violência urbana por meio do endurecimento das penas. Nesse contexto, a PEC 171, que propõe a redução da maioridade penal, ainda aguarda votação no Senado, e segue em tramitação.
Quadros metodológicos – “arrastões” 2015
Tabela 6 - Associação da notícia com a retomada do discurso de redução da maioridade Data Página Título Retomada do discurso associativo a. Embora não encontremos menção direta à redução da maioridade penal, as matérias jornalísticas ajudam a espalhar o medo, que consequentemente separa o espaço urbano e contribui para a manutenção de certos estereótipos, especialmente no que diz respeito à responsabilidade pela violência na cidade. Temos os meios de comunicação social que contribuem significativamente para o processo de estigmatização e, ainda que implicitamente, para o discurso a favor da redução da maioridade penal.
A nossa investigação mostra que em 2015 e 2016, órgãos políticos e mediáticos apresentaram uma “campanha” em defesa da redução da maioridade penal, especialmente apoiada por grande parte da população31. Problematizamos representações de redução da maioridade penal através de um processo de estigmatização proporcionado pela mídia impressa. Constatamos que os significados atribuídos à violência urbana pelo jornal pretendem ser consensuais e não prescritivos, silenciando questões complexas que envolvem crimes cometidos por menores de 18 anos e o debate sobre a redução da maioridade penal.
Nossa questão central estrutura-se em torno do exame das representações da redução da maioridade a partir de casos de violência de grande repercussão no Rio de Janeiro. A programação de notícias não se repete especificamente sobre a redução da maioridade penal, mas sobretudo como forma de cobrir a violência urbana, visto que o jornalismo divulga as notícias e abre uma agenda pública para o debate.