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Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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Texto

Perguntas como as que se seguem podem oferecer uma pequena dimensão da estranheza que surge ao remover e assumir uma imagem. Psicanaliticamente falando, o significante central deste texto, o conceito de “traje”, traz a esta obra uma dimensão que vai além do seu significado habitual e estabelecido e lhe confere uma nova densidade.

Percurso de uma figurinista

De forma reducionista, podemos dizer que, para a composição de um figurino, desenvolve-se um pequeno mito individual. Uma história ficcional é naturalmente pensada e produzida sem abarcar a complexidade de uma estrutura neurótica de um sujeito “real” numa realidade factual.

O figurino nosso de cada dia

Ao criar um figurino artístico, é necessário partir de uma verdade pré-construída, pronta, imutável, captada no recorte temporal em que se dá a ação do texto. Flügel, em seu livro “A Psicologia das Roupas”, foi o primeiro autor conhecido a publicar um ensaio psicanalítico sobre roupas. Presumivelmente, esses acessórios podem ter sido os embriões do que seriam as roupas e do que elas se tornariam mais tarde.

Fradique Mendes descreve ao alfaiate a figura que ele acredita representar, ou seja, aquela que mais se adequa à sua fantasia. O desejo humano é o desejo do Outro – direi que é uma espécie de desejo do Outro com o qual estamos lidando, no final do qual está o dar para ver. É claro que o espelho tem aqui a sua razão de estar, pois estabelece uma certa relação com o corpo, que aqui é considerado oculto, e que se produz controlando a sua imagem sobre o sujeito.

O que se repete é a busca desse gozo privilegiado que se expressa com o objeto perdido freudiano [Das Ding]. Nessa terceira identificação, será formado o sujeito que resistirá em seu desejo, imerso na ação de outro significante (S2), oriundo do campo do Outro, que promove a transformação da qualidade unária em S1 - seu primeiro significante , original -, que o estrutura na cadeia simbólica (S2). É esta imagem que se fixa, o eu ideal, a partir do ponto em que o sujeito deixa de ser o eu ideal.

Era como se, em sua mente, as onças – e todos os animais aparentados com ela, em sua fantasia – fossem necessariamente piranhas. Ela disse que todos os itens de seu guarda-roupa, bem como todas as roupas que usou até então na vida, foram dados a ela por sua mãe, suas tias e/ou primas.

A invenção da idumentária

Comentários sobre o texto de Eça de Queiroz

Com adjetivos positivo e negativo, Fradique tenta definir e delinear gestualmente seu conteúdo e seu continente numa relação complexa que se estabelece entre o corpo subjetivado e os elementos significativos selecionados e/ou eliminados de sua imagem final, representados no traje do sujeito. O título do capítulo que se segue é o olhar, pois é através da captação do olhar do Outro que se concebe a imagem de si como outro. É na segunda identificação, agora com a qualidade unária, “que se retira uma marca do campo do Outro, que inaugura o desejo e cria as condições para a inscrição do significante, de onde emergirá um sujeito cindido” ( FERREIRA, 2005, pág. 29).

O traço unário também não pode ser confundido com o significante, mas nele reside a função significativa como pura diferença. Ferreira (2005, p. 30) explica, com Lacan, que: “o que se repete não pode ser de outra forma, em relação ao que se repete, senão na perda. Nessa imagem, ele postula “a matriz simbólica na qual [o eu] se precipita em uma forma primordial antes de ser objetivado na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe devolva, no universal, sua função de sujeito” . LACAN, 1964, pág. 97).

Ela fala dele, e é aí que ele se detém, e com a mesma força, antes – pelo simples fato de ser dirigida a ele – ele desaparecer como sujeito no significante em que se torna, ele não é absolutamente nada. Nas garras que sofre de sua natureza imaginária, ele mascara sua duplicidade, isto é, que a consciência que ele lhe garante uma existência indiscutível... não lhe é de forma alguma imanente, mas transcendente, pois se baseia no unário característica do ideal de si (LACAN, 1960, p. 823). O sutiã, peça de significado fundamental dentro do universo feminino - ainda mais quando é nela, claramente em sua fala, que se concentra o objeto causador do quadro.

As questões entrelaçadas entre os dois aforismos serviram-me de bússola para mostrar que não é porque a comunicação está na imaginação que ela não acontece, mesmo que de forma pontual e evanescente, como diria Lacan Quando a ideia é chata ou trivial, ela é exaltada e coberta de palavras ousadas e pomposas como todas as usadas na política.

Estádio do Espelho, Eu ideal e Ideal de eu

Figurino e fantasia

Caso 1

A exclamação foi proferida por um analisando, referindo-se às roupas e à aparência de seu atual companheiro com quem iniciou um relacionamento dois anos antes. Noutras sessões disse que esta relação alterou a sua visão, antes presa a uma interpretação fixa, sobre os trajes femininos em geral. Mais tarde, através de conversas e discursos casuais com seu agora companheiro, pôde constatar que o caráter disforme, desleixado e amarrotado do traje, sempre presente na maneira como se vestia, e antes interpretado por ele como pura negligência e sinal de preguiça . , tinha-se mostrado nela como um manifesto, como um “estilo” permanente, diretamente relacionado com o seu desejo de “dizer” aos outros, através do seu traje, que era mulher.

Por parte da namorada do analisando, então, há indícios de uma intenção consciente convicta ao enviar uma mensagem a ser divulgada através de seu traje, mensagem que sabemos, sem dúvida, também estar imbuída de intenções inconscientes. Hoje, o analisando diz estar mais atento aos erros da visão reducionista em relação ao traje feminino. Nas sessões, relacionamentos antigos vieram à tona e foram discutidos e comentados os trajes das mulheres, o que trouxe à tona suas fantasias em relação ao corpo feminino.

Quanto ao analisando, destacamos aqui sua forma singular de ver e interpretar os trajes dos ‘outros’, especialmente os das mulheres – objeto de sua escolha amorosa – e isso revela muito sobre sua posição desejante que perpassa sua história pode ser ouviu. processo, analítico.

Caso 2

Sobredeterminada a isso, de forma inconsciente, ela também permaneceu aprisionada pela “predição” materna de permanecer para sempre pura, honrada, digna, íntegra, virtuosa, adjetivos que são constantemente supervalorizados nos dizeres de sua mãe e nos significados que lhe estão ligados. nome. Esta contradição limitou-a e inibiu-a, não só no que diz respeito à utilização das estampas acima referidas no seu traje, mas também em vários aspectos da sua vida quotidiana que notoriamente a desviaram da direcção para onde apontava o seu desejo e a privaram de satisfação em muitas áreas. de sua vida. O desejo da mãe cai sobre sua cabeça de forma avassaladora, prenuncia sua existência, priva-a de seu desejo.

A aquisição inocente abriu caminhos, não apenas para outras conquistas, dentro do universo das roupas que compunham seu figurino, mas se expressou como uma pequena mas fecunda possibilidade de libertação gradual de sua inibição quanto à atenção sobre si mesma. A compra - e o uso - do objeto que combinava claramente os dois significantes pode ter possibilitado para ela uma espécie de “desconstrução ou renúncia de sua fantasia” cristalizada, que permeia e reverbera em suas relações com os outros, com pequenos, mas possíveis desdobramentos futuros. . .

Caso 3

Ele se comprometeu a criar essa imagem, ao mesmo tempo que estranhava as ideias paralelas e ilusórias que brotavam de sua cabeça, criando um cenário ficcional para o encontro que queria ter com os amigos, e um olhar específico para desdobrá-lo. . Em cada um deles e em cada discurso em associação livre foram acrescentados vários elementos indicativos de sua posição neurótica. Portanto, ele se concentrou na criação de sua imagem, sobre a qual presumia ter total controle.

Segundo seus relatos, no momento de seu devaneio, uma série de intenções começou a tomar forma que determinaram suas escolhas de figurinos para o referido evento. Segundo a paciente, sua antagonista havia colocado recentemente um generoso implante de silicone nos seios e o exibia generosamente sempre que podia. c) Ó. Um grupo de amigos próximos do ex-companheiro também estaria presente no evento. d) Estes sem dúvida comentariam mais tarde sobre ela e sua aparência ao ex-namorado. e) Caso ocorresse um embate verbal com a rival durante o evento noturno, a analisanda sabia que temia não ter presença de espírito para responder verbalmente de forma adequada a uma possível provocação. Ao se vestir para a festa e com essas premissas e certezas em mente, o analisando deu vazão a um emaranhado de conjecturas e suposições sobre as possíveis atitudes e afirmações que poderiam ser evocadas naquela noite pelos convidados do referido restaurante. festa, sempre iniciada sob influência de seu traje.

Ao se “evitar” de responder verbalmente a uma provocação, a analista, através de seu figurino, desenvolveu uma solução conciliatória que inicialmente pareceu internamente satisfatória.

Caso 4

Na hora de decidir as peças que incluirá no seu look, ou seja, decidir a cor que melhor se adapta ao seu tom de pele; quando você tem que decidir qual peça entre tantas é a melhor para o seu tipo de corpo; ela teve que descobrir por si mesma quais eram seus limites quando se tratava de vulgaridade e sensualidade; você deve fazer a escolha certa, incluindo a aparência dos outros e seus efeitos; para observar a extensão do seu desejo quanto às opiniões que gostaria de captar ou rejeitar, enfim, com todos os problemas em que se encontrava, nenhuma peça podia ser comprada, nenhuma peça era obtida e levada para casa, ela me disse, não para compreender seus fracassos nas compras. Para obter as peças, elas tiveram que atender a diversos requisitos que ela mesma impôs, mas as questões financeiras sempre vieram em primeiro lugar. Concluímos o trabalho na tentativa de confirmar que a imagem, mesmo cumprindo sua função de máscara poderosa, sempre omite a palavra que se acreditava permanecer proibida.

Esta imagem da primeira-dama caberia certamente a muitas interpretações e não devemos ignorar nenhuma delas, especialmente a mais alarmante, ou seja, a interpretação que levanta um grande alerta sobre a contenção e o combate ao regresso a práticas autoritárias, sexistas e misóginas que sempre esteve misturada com a religiosidade, que já sabemos há algum tempo que flerta com todas as formas em que o fascismo se disfarça, e que mais uma vez assombrou não só o nosso país, mas toda a civilização. É claro que ele não percebe que, além da filosofia da história e de outras filosofias, existe outra, importante e extensa, que se chama filosofia do vestuário; Um casaco é para um homem o que uma palavra é para uma ideia. Quando a ideia é grosseira ou bestial, ela é embelezada e poetizada, coberta de palavras suaves e tranquilizadoras, como as usadas no amor.

Nessa confecção banalizante e achatadora, o poeta perde a fantasia, o dândi perde a vitalidade, o soldado perde a coragem, o jornalista perde a coragem, o crítico perde a cabeça, o padre perde a fé - e cada um perde a sua relevância e o próprio patrão, tudo se reduz a esse bloqueio moral chamado conselheiro.

Referências

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