... Antes ... eu?... nunca..., eu... jamais..., nunca eu teria olhado para uma mulher tão sem atrativos! (fala do paciente). A exclamação foi proferida por um analisante, referindo-se às roupas e ao visual de sua atual companheira com a qual iniciou um relacionamento dois anos antes. Ele, um homem de trinta e poucos anos e há dois vivendo com a referida “sem atrativos”, me diz em uma sessão que, antes de conhecê-la, só se aproximava, se interessava e se relacionava com mulheres que usassem figurinos mais “provocativos” e/ou, “femininos”. Conta que, quando a conheceu, não lhe deu nenhuma importância. “Achei o conjunto da obra tão apagado que não prestei muita atenção nela...” (fala do paciente). Lembrava-se do primeiro dia em que a conheceu apenas por seu figurino ter-lhe causado uma impressão ruim: “Ela não tinha formas definidas de um corpo de mulher... parecia que tinha saído da boca de um leão de tão amassada que tava” (fala do paciente), disse ele em tom jocoso, mas carinhoso.
Quando, depois desse fatídico encontro, um pouco mais tarde, os dois começaram a frequentar o mesmo grupo de amigos, iniciou-se uma aproximação, mas sem nenhum entusiasmo sexual da parte dele. Não porque ela fosse uma pessoa desinteressante, mas por ele achar que ela não gostava muito do “esporte”, como ele mesmo resumiu a prática da relação sexual. Por algum motivo, a presumida falta de desejo sexual atribuída à nova amiga, se apresentava em seus pensamentos sempre ligada a mulheres usuárias de roupas soltas do corpo, pouco sexy e/ou pouco “femininas”. O estilo da agora atual companheira foi inicialmente interpretado por ele como completamente destituído de eroticidade, ou melhor dizendo, como se fosse quase um tratado imagético de repúdio e aversão ao sexo.
Em outra sessão, falou que quando, “casualmente”, fez sexo com ela pela primeira vez, ficou surpreendido positivamente e, ao mesmo tempo, intrigado por não conseguir entender como uma mulher que se vestia “...tão sem graça e tão pouco atraente” tinha lhe proporcionado uma transa sexual tão “incrível, intensa, erótica, criativa, divertida e interessante” (fala do paciente), todos adjetivos usados por ele.
Nesta relação amorosa, que acabou perdurando muito além da primeira transa sexual, contrariando as certezas contidas nas interpretações sobre os figurinos de sua companheira e equivocadamente interpretados por ele, ele observou que ela se mostrou sempre muito mais disposta e empenhada sexualmente do que ele próprio. O analisante disse que não conseguia conceber como “...por trás daquelas roupas insossas, tinha se revelado uma coisa muito maravilhosa e doida em matéria de sexo!” (fala do paciente). Em outras sessões, disse que, a partir dessa relação, seu olhar, antes aprisionado numa interpretação fixada, havia se deslocado em relação ao julgamento dos figurinos das mulheres em geral.
Posteriormente, através das conversas e falas soltas com sua agora companheira, pôde constatar que o caráter disforme, desleixado e amassado do figurino, sempre presente na maneira de se vestir, e antes interpretado por ele como pura negligência e indício de preguiça, havia se mostrado nela como um manifesto, como um “estilo” permanente, diretamente relacionado com sua vontade de “dizer” aos outros, através de seu figurino, que era uma mulher
“sem frescuras”, “batalhadora” na vida, assumindo assim a manutenção de seu lugar de semblante. Em suas falas conscientes, a namorada do analisando disse a ele que talvez pretendesse mostrar, com sua maneira de se vestir, que prescindia das mordomias e dos empregados permanentes e ao seu dispor na casa de seus pais, mantendo suas roupas sempre limpas e bem passadas. Com esse figurino desleixado e amassado, segundo ele, ela intentava, em seu discurso consciente, “dizer” ao outro que morava sozinha, que trabalhava, que se sustentava, que era independente, repudiando assim qualquer imagem que ela supunha poder se assemelhar a de uma menina mimada, arrumada e perfumada que, para ela, era sinônimo de futilidade e de falta do que fazer e pensar.
Num outro momento, o analisante acrescentou ainda que sua companheira era proveniente de uma família financeiramente abastada e que isso a incomodava demasiadamente.
Evidencia-se, assim, da parte da namorada do analisante, uma convicta intencionalidade consciente no envio de uma mensagem a ser lançada através de seu figurino, mensagem esta que sabemos estar permeada, sem dúvida, também, de intencionalidades inconscientes. Da
parte do analisante, constatamos a interpretação desacertada e equivocada, fundada em seu neurótico e singular modo de perceber as mulheres.
Hoje o analisante diz perceber-se mais atento aos equívocos do olhar reducionista em relação ao figurino feminino. Antigos relacionamentos vieram à tona nas sessões e neles o figurino das mulheres foi sempre falado e comentado, revelando claramente suas fantasias em relação ao corpo feminino. Sempre rindo, de vez em quando, fala nas sessões sobre os desacertos de suas inferências sobre as roupas das mulheres com as quais se relacionou, único gênero para o qual parecia ter formado esse olhar escrutinador do registro do figurino.
Certamente o fragmento do caso narrado, em relação a namorada do analisante, não nos aponta, muito menos nos revela, as inumeráveis sobredeterminações psíquicas do sujeito que também se encontram corroboradas e estampadas no modo vestir, no caso da companheira do analisante. Tampouco nos possibilita tangenciar as intencionalidades e determinações psíquicas para as composições de seu figurino. Quanto ao analisante, pinçamos aqui seu modo singular de enxergar e interpretar o figurino dos “outros”, em particular o das mulheres – objeto de sua escolha amorosa - e isto revela muito sobre a sua posição desejante que poderá ser ouvida ao longo de seu processo analítico.
Considerando essas falas especificas nas sessões, talvez nos seja permitido dizer aqui que, nessa singular estruturação psíquica, nesta configuração de sua fantasia, nessa infinidade de sobredeterminações, estabeleceram-se fixações em relação à interpretação de determinados signos e tipos de figurinos femininos.
O analisante, num momento de tentativa de explicitar suas considerações a respeito de sua correspondência cristalizada entre um determinado figurino e o tipo específico de mulher, ao mesmo tempo é surpreendido por seu próprio dizer e exclama: “Nossa...não sabia que pensava assim... até esse momento... e, não sei nem porque penso assim!” (fala do paciente).
A ideia de que as mulheres que se vestem de maneiras sensuais e erotizadas seriam, necessariamente, excelentes amantes sempre dispostas a terem relações sexuais, talvez possa nos apontar e sugerir uma conexão com a fantasia masculina do masoquismo feminino.
Independente dos desvelamentos que o prosseguimento desse caso possa produzir ou não, certamente fica a certeza de que, também ao figurino, podem estar atreladas infinitas fantasias, com diferentes modos de construção. Expõe-se, mais uma vez nesse caso, o distanciamento que normalmente se efetua entre a significação possível, dada pelo olhar do outro, e a evocação, na imagem construída, implícita e latente de um desejo, também presentificado na singularidade de um figurino.