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TEXTOS EM TRÂNSITO: - UEFS

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Academic year: 2023

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Considerando que os movimentos de apropriação e renúncia decorrem da tomada de posições críticas no texto, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) analisamos os movimentos de Brás Cubas como ser narrado e como narrador; estado em que provoca um constante reposicionamento do leitor na construção dos sentidos do livro. Analisamos também a construção irônica com que Brás Cubas expressa o entrelaçamento de vozes dissidentes no livro. Na segunda parte, no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), estudamos articulações contextuais e intertextuais que escapam à representação pitoresca do nacional.

LITERATURA NACIONAL EM FORMAÇÃO: TENSÕES E PERTENCIMENTOS

Indo para o norte, há quem, como José Veríssimo1, remeta a literatura criada no Brasil colonial para Portugal e adie o início da literatura no Brasil para o Romantismo. Em sua clássica obra Formação da Literatura Brasileira (1959), Antonio Candido descreve a nossa literatura como “um fenômeno de civilização que não é necessariamente diferente da literatura portuguesa” (1993, p. 28). Para Haroldo de Campos, a criação da literatura brasileira “também poderia ser chamada de história evolutiva do romantismo no Brasil, já que o Barroco não tem transição para ele” (CAMPOS, 1989, p. 39).

FATOS E FÁBULAS: LUGARES DA NACIONALIDADE

No século XIX, enquanto a literatura brasileira busca sua emancipação, um jovem do conto de Machado “Teoria do Medalhão” (1881) está conseguindo a sua. Estendendo essa reflexão à literatura brasileira, o uso do externo sem reflexão interna é criticado como pura artificialidade. Contudo, a obra de Machado de Assis já indica que a literatura brasileira deve ser reconhecida como tal.

MACHADO E OS COMPASSOS DA LITERATURA NACIONAL

Apesar de traduzir uma predisposição inevitável, e nisso há uma grande distância entre o pensamento de Romero e o de Machado, a 'visão interna' de Sílvio Romero assemelhar-se-á ao 'sentimento íntimo' a que alude Machado de Assis, e que o escritor acredita que o faz “ um homem de seu tempo e de seu país, mesmo quando lida com assuntos distantes no tempo e no espaço.” Esse “caráter psicológico” é o mesmo “sentimento íntimo” a que se referia Machado de Assis, e em ambas as expressões procurou-se especificar o caráter brasileiro na literatura, busca à qual se dedicou o pensamento crítico; reside não apenas na reprodução da natureza brasileira (“americana”), mas também dos costumes, costumes e espírito do povo. O instinto de nacionalidade é o diagnóstico de Machado de Assis para a literatura de seu tempo: “Quem examina a literatura brasileira atual reconhece imediatamente, como primeira característica, um certo instinto de nacionalidade” (O.C., v. 3, p. 1177), isto é, no ensaio conceituado como “o desejo geral de criar uma literatura mais independente”.

O instinto, força desconhecida que antecede a reflexão, pode ser o caminho para Machado de Assis, como aponta Werkema (2012). Para Machado de Assis, a questão local é uma das muitas que a literatura pode tratar; então não. Ao combinar Machado de Assis e Jorge Luis Borges10, Leyla Perrone-Moisés enfatiza a coerência das visões críticas dos autores.

No ensaio 'A Nova Crítica', publicado em 1879, pouco depois de 'Instinto de nacionalidade', Machado de Assis medeia a transição entre o abandono do romantismo e a defesa do realismo: 'A extinção de um grande movimento literário que não permite formal e condenação absoluta de tudo o que ele disse; algo entra e permanece no ninho da mente humana.” Machado de Assis tem uma ideia integradora da formação literária do Brasil, no sentido de que considera as contribuições de cada autor e de cada obra válidas em sua época – observemos que o crítico em “Instinto de nacionalidade” de Arcadiano tem presença de nosso . A modernidade formulada por Machado de Assis traz consigo o signo da dúvida, conceito norteador de sua construção literária, através do jogo com os signos de Barthes.

Ao lado de A Teoria do Medalhão, O Espelho e outros contos, O Alienista é um exemplo da preferência de Machado de Assis por trazer o exercício da teoria para os espaços ficcionais.

BRÁS CUBAS: COMO NARRAR O NARRADOR

Em Memórias Póstumas, a morte do personagem Brás Cubas é um sinal de sua duplicação ficcional, quando ele reaparece como autor-narrador e, deliberadamente, visa monopolizar o discurso em seu texto. A singularidade do lugar de pronúncia de Brás Cubas também pode ser percebida no contraste com o personagem Joaquim Fidélis, na "Galeria Póstuma", do livro Histórias sem dados (1884). Nas Memórias Póstumas, o plano da revelação é diferente: sendo Brás Cubas o sujeito-objeto da narrativa, todo o romance é um desmascaramento da sociedade, sem exceção da figura de seu autor.

Brás Cubas é “escritor falecido”, trocadilho onde “autor” vira adjetivo, funcionalidade ficcional adquirida na morte: “Não sou exatamente um escritor falecido, mas um escritor falecido para quem o túmulo foi outro berço.”. Brás Cubas opta por escrever memórias e desestabiliza um gênero que tradicionalmente busca registrar a verdade histórica das experiências humanas: “As memórias de Cubas são ficcionais e. Sendo a sua última experiência e tendo sido vivido fora do domínio da razão ordinária, [o delírio] marca a transição do Brás Cubas vivo e personagem para o Brás Cubas falecido e autor.

À medida que o delírio continua, um hipopótamo aparece e leva Brás Cubas numa vertiginosa viagem de volta à origem dos tempos. Assim como no delírio, ao ler o livro voltamos ao nascimento de Brás Cubas (que corresponde, no delírio, à origem do mundo), de onde continuamos em ordem cronológica. O distanciamento de Brás Cubas funciona como um posicionamento estratégico para alcançar uma visão múltipla e irônica da sociedade, numa ironia causada pela percepção de seus paradoxos (por exemplo, a contradição entre os discursos de desenvolvimento institucional da nação e as práticas que levam a interesses privados estão conectadas) .

No capítulo do delírio, Natureza/Pandora, ao fazer Brás Cubas refletir sobre a passagem dos séculos do alto de uma montanha, impõe-lhe a condição de espectador do ciclo de declínio humano.

LEITURAS EM MOVIMENTO

Em vez de degeneração, o cinismo12 indica uma certa clareza de análise com que Brás Cubas quer atingir o leitor. Brás Cubas pausa repetidamente a narrativa de suas memórias para inserir reflexões, mensagens aos leitores e comentários sobre a escrita. Para formar o leitor crítico, Brás Cubas rompe a distância entre crítica e ficção ao examinar tematicamente os critérios que utiliza para compor o livro.

Através das piadas que Brás Cubas distribui entre os leitores de ficção, encontramos o leitor pretendido das Memórias Póstumas habituado a gestos dramáticos eloquentes. Seja para fins didáticos ou coincidentes, a pressa do leitor não altera a demora do livro – Brás Cubas busca refletir sobre a ação, e não apenas descrevê-la, transpondo nesta reflexão a resistência do leitor à análise crítica. Encaixando um capítulo no outro, como aconselha Brás Cubas, entendemos que a beleza de Virgília justificaria a infidelidade e, consequentemente, a falta de remorso de Brás Cubas.

Ao contar, Brás Cubas suprime as diferenças entre ele e o personagem bíblico, equiparando as Memórias Póstumas ao valor cultural atribuído ao Pentateuco e, ao mesmo tempo, relativizando sua autoridade sacralizada. Porém, a capacidade de conexão, descrita por Brás Cubas como um dom inato, é uma característica exercida por Machado. Porém, essa “limpeza” da palavra (mal sucedida para o bibliomaníaco), deve ser precedida da limpeza dos copos, como aconselha Brás Cubas à alma sensível, ou seja, ao leitor que ainda não está familiarizado com a leitura sugerida pelas Memórias Póstumas: “limpe os vidros, - que às vezes isso é o vidro” (O. C., v.1, p. 640).

Entre a águia e a rã, queda semelhante à queda da auréola de Baudelaire, percorremos o eixo da variedade de leituras que frequentavam o cérebro de Brás Cuba.

TRANSPOSIÇÕES (CON)TEXTUAIS

Ao submeter a forma das Memórias Póstumas à multiplicidade de tipos de leitura/leitura, Brás Cubas define sua obra como algo difuso, que se espalha e se metamorfoseia, incapaz de reconhecer seus próprios limites. Em vez de um Saulo arrependido, como na narrativa bíblica, é Brás Cubas quem entra na cidade, fugindo de um casamento socialmente desastroso com Eugênia e trazendo consigo seus interesses pelas glórias da vida política. Trabalhando no campo intertextual, a simultaneidade das vozes atribuídas a Deus e Brás Cubas não se harmonizam em dueto.

No trecho, Brás Cubas quer provar que por trás de todo ato de divulgação pública existem motivações privadas. Utilizando a lógica da “transferência de um poder”, Brás Cubas conecta Marcela e Virgíla, ambas sujeitas ao mesmo estado de incômodo e degradação humana. Plácida deixa-se convencer pela história ficcional, como forma de manter a paz com a sua consciência e com as moedas de prata que Brás Cubas lhe põe no bolso.

Assim, Brás Cubas desloca o texto ao se posicionar como herdeiro da jovem que, como ele, utilizou o método (fazendo o sacrifício), sem a rigidez do método (substituindo o objeto do sacrifício). Diante disso, e olhando novamente para a relação entre Virgília e o poeta-guia de Dante, qual é o jugo que carregam Brás Cubas e Virgília? Na história, Brás Cubas tende a aproximar, justificar, relacionar ou explicar um texto a outro, mesmo que venha de contextos radicalmente distantes.

19 As informações foram coletadas na edição comentada em hipertexto do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, disponível em http://www.machadoedassis.net.

LER, RELER, ESCREVER

Em Machado de Assis, o tom cauteloso desse personagem é acentuado, contrastando com a paixão avassaladora do casal. A lua e o sol, assim como outras estrelas, foram consultados sobre o que fazer com aquelas lágrimas. Destes traços gerais concluímos que Machado de Assis, quando opta por complementar intertextualmente Fernão Mendes Pinto, não é inocente.

Desde o início da história, o narrador de Machado ajusta a sua voz à do viajante português e funde-se com ela: “Antes eu contava o que aconteceu nesta cidade de Fuchéu” (O. C., v. 2, p. 293). O ponto da narrativa do autor português referido em “atrás deixei narrado” é esclarecido pelo próprio Machado de Assis em uma das notas explicativas do conto. Para os curiosos, acrescentarei que as palavras: Atrás contei o que aconteceu nesta cidade de Fuchéu, - foram escritas com o propósito de assumir o capítulo inserido nas peregrinações, entre os capítulos.

A situação que supostamente ocorreu no Extremo Oriente de Fernão Mendes Pinto está rapidamente se tornando conhecida no Brasil, caracterizada também pela atuação de seus pseudo-eruditos. Assim como “O segredo do bonzo”, os três capítulos do Gênesis apresentados no conto “Depois da arca” são inéditos, referência encontrada no subtítulo: “três capítulos inéditos do Gênesis”. O intertexto amplia, portanto, a rede de sentidos do texto bíblico, canônico, a partir das condições do contexto machadiano.

A fonte da intertextualidade em Machado de Assis é definida como uma forma crítica e criativa de ler os outros e de se posicionar em relação a eles, alterando-os de diferentes maneiras e enfatizando a natureza aberta e dinâmica dos textos. Dada a trajetória de nossa leitura, as consequências desta pesquisa correspondem à caracterização incorreta da imagem de Machado de Assis como um escritor que se distancia das questões nacionais, ou está vinculado às disposições estilísticas da época, e permite a percepção do amplitude e diversidade dos ângulos a partir dos quais o escritor observa o nacional e, ao reconsiderá-lo, desobjetiva-o. A formação de leitores em Machado de Assis: da crítica literária às memórias póstumas de Brás Cubas.

Referências

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Ao final, pudemos concluir que o conhecimento e o uso da linguagem jurídica por apenados em cumprimento de privação de liberdade em interação com o meio os auxilia no acesso ao Poder