A nossa proposta procura examinar as consequências da utilização da linguagem jurídica para os condenados que cumprem penas privativas de liberdade, com o objectivo de permitir o seu acesso efectivo aos tribunais. Para que possamos continuar a estudar a importância da linguagem jurídica utilizada pelos referidos condenados, estruturamos esta tese em 4 capítulos.
As concepções de linguagem
Dessa forma, é possível confirmar que os enunciados são unidades concretas no uso da linguagem em situações efetivas de comunicação discursiva. Ressaltamos, nesta linha de raciocínio, que é por meio da linguagem que os sujeitos se comunicam e se relacionam; transferir e adquirir novos conhecimentos;
A linguagem jurídica
Portanto, deve-se ter cuidado com o uso da linguagem jurídica pelos profissionais da área, uma vez que a linguagem é um meio fundamental de comunicação entre os seres da sociedade, e o operador do direito é um deles. Existe, portanto, uma necessidade notável de cumprir as funções sociais do Estado, e entre elas a função social da linguagem.
O fenômeno linguístico-semiótico da linguagem jurídica
A ordem do discurso
Na obra Ordem do Discurso, Foucault (2009) confirma essas afirmações ao ensinar que as unidades discursivas devem ser respeitadas ao lado de práticas capazes de construir, de forma ordenada, os objetos da mensagem que se pretende emitir. Da mesma forma, o discurso formado pela linguagem criminológica manifesta poder, dada a autoridade que pretende representar ou com a qual interagir.
O poder simbólico
Segundo Bourdieu (2000, p. 8) “o poder simbólico é na realidade esse poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não desejam saber que estão sujeitos a ele ou mesmo exercê-lo”. . Esta forma de exercer o poder simbólico através da linguagem jurídica esclarece a existência de um excesso de formalismo estabelecido por teóricos e profissionais que pretendem impor as suas visões e interpretações jurídicas.
A questão ideológica no discurso jurídico
A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e normas ou regras (comportamento) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar. o que deveriam sentir e como deveriam sentir, o que deveriam fazer e como deveriam fazer. Além disso, comunicam mais entre si do que com outras comunidades e têm regras e atitudes comuns relacionadas com o uso da língua.
Breve histórico da sociolinguística
Ao mesmo tempo, surgiram outros aspectos interdisciplinares da linguística, como a análise do discurso, a análise da conversação e a etnografia conversacional. Os resultados apresentaram-se como uma importante contribuição ao apresentar a concepção e o uso das variantes linguísticas no meio social, a fim de comprovar que a língua não pode ser caracterizada como homogênea, pois é influenciada por fatores sociais, históricos e geográficos a ela associados. eles se conectam e estão relacionados ao contexto em que aparecem. No entanto, as análises do contexto social em que a língua é utilizada mostraram que muitos elementos da estrutura da língua estão envolvidos numa variação sistemática que reflecte tanto a mudança ao longo do tempo como os processos sociais extralinguísticos.
Heterogeneidade da língua
Para Labov, a linguagem é um produto social, portanto não pode ser analisada fora da contextualização social. Todas as línguas do mundo são sempre continuações históricas, ou seja, seu domínio é transmitido de geração em geração, ainda que de forma lenta e imperceptível. Portanto, a heterogeneidade da língua é fundamental para o estudo do comportamento linguístico, enquanto a língua falada em todos os lugares da mesma forma, ou seja, homogênea, é um mito, que pode trazer graves consequências na vida em sociedade, já que muitas pessoas, mesmo . hoje, acreditamos que os cidadãos que não se enquadram no padrão da língua culta, ou seja, o padrão falado pelos grupos socioeconômicos considerados superiores, devem ser corrigidos ou excluídos.
A variação linguística na linguagem jurídica
Nessa forma de variação, um mesmo indivíduo muda a forma de falar de acordo com o ambiente em que está inserido, por exemplo, dentro de um espaço formal ou informal. Alguns autores ainda citam a variação diacrônica, ou seja, aquela que está relacionada a aspectos históricos, mudanças que ocorrem na forma de falar influenciadas pela passagem do tempo. Nota-se também que a variação diacrônica está presente na linguagem jurídica, embora alguns profissionais da área insistam no uso de arcaísmos, latinismos, etc., de forma exagerada, tendendo aparentemente a parar ou, pior ainda, a retroceder. tempo, sem levar em conta que a evolução desta forma de linguagem resulta de um aprimoramento contínuo, sempre inacabado diante da possibilidade do surgimento de casos excepcionais que estimulem a opinião dos profissionais do direito.
O preconceito linguístico
Entre o estigma e o prestígio
Nesse sentido, o preconceito linguístico é um conceito que se forma diante do verdadeiro significado, com o objetivo de abalar as estruturas de um. Vale lembrar que o prestígio e o estigma de uma língua estão relacionados aos valores que a sociedade atribui aos falantes com base na sua posição social. Contudo, este capítulo pretende evidenciar os problemas decorrentes de uma forma de linguagem na esfera jurídica que não se preocupa com a compreensão do seu destinatário.
Os abusos do juridiquês
Este estilo elaborado de comunicação é conhecido como “legalês” porque faz uso excessivo de termos técnicos - a grande maioria dos quais já obsoletos, herdados do direito romano há séculos - e é contrário a toda a tendência de modernização e de destreza processual, que é tão pregado hoje. Outra forma de abuso do “legalês” pode ser notada pelo uso de estrangeiros, que Nascimento (2009, p. 23) define como “o nome genérico dado ao vício no uso de palavras ou construções estrangeiras”. Há também um obstáculo insultuoso ao uso comum do “legalês”: o latinismo, que pode ser definido como “uma frase, expressão ou construção gramatical específica do latim;
As propriedades do texto jurídico: qualidades e defeitos
Devemos ressaltar também a objetividade que deve existir na produção textual jurídica, ou seja, a pessoa jurídica deve deixar de mencionar o que não tem valor para a coisa, para que o verdadeiro sentido de movimentar o mecanismo jurídico não se disperse. . Para que exista coerência, as ideias apresentadas devem estar conectadas de tal forma que a conexão seja óbvia. Ressalte-se ainda que uma das deficiências das produções de textos jurídicos mais comuns é a utilização de termos e expressões ambíguos (com número indefinido de significados) e vagos (imprecisos) que podem prejudicar completamente o trabalho processual, pois fragilizam a argumento.
A linguagem forense como obstáculo ao acesso à justiça
Portanto, podemos dizer que o uso indevido da linguagem jurídica por parte dos profissionais do direito dificulta o acesso adequado à proteção jurídica. Como as funções sociais da linguagem não alcançam o texto gerado pela linguagem jurídica hermética e elaborada, é necessário destacar a forma que permite o cumprimento do objetivo final da linguagem, ou seja, a transmissão inteligível da mensagem que traz aos cidadãos mais próximos um do outro, justiça. Tais esforços para simplificar a linguagem jurídica são extremamente importantes devido às perdas significativas sofridas pelos direitos dos sujeitos judiciais devido à falta de clareza na comunicação resultante de um excesso de formalismo na linguagem técnica entre o poder judiciário e a sociedade leiga. .
Especificações Metodológicas
Esta pesquisa - enquanto amostra representativa da realidade dos apenados em liberdade, que, por meio da linguagem jurídica, lhes permite um novo contato com a justiça - buscou suporte para a coleta de dados em um instrumento metodológico caracterizado como observação e análise, que foi originalmente com base na aplicação de um questionário aplicado a doze internos do presídio público de Tombos/MG (Anexo A), seguido da análise das petições processuais redigidas por eles e encaminhadas ao Juízo de Execuções Penais da Comarca de Tombos/MG, com o objetivo de destacar o conhecimento e o uso prático da linguagem jurídica desses internos. Ao discutir a metodologia da pesquisa, apresentada como uma ação de coleta de dados e registro de acontecimentos que possibilitem a compreensão da realidade, André et al. 1986) discute pesquisas qualitativas e quantitativas, afirmando que o estudo quali x quanti engloba dados que requerem tratamento estático e tratamento baseado em categorias de análise. Mas, neste caso, pode ser caracterizada como pesquisa qualitativa, pois possui caráter exploratório, descritivo e indutivo, e também inclui técnicas como análise de dados secundários, questionários, entre outras (RICHARDSON, 1989).
Realização da pesquisa
Diego Candiân, que nos permitiu acesso imediato por meio de Termo de Autorização (Anexo D), e, após a data marcada, disponibilizou sala privativa na Delegacia, além de deixar à nossa disposição um agente penitenciário com o objetivavam retirar individualmente os participantes da cela, que os aguardavam na sala enquanto respondiam ao questionário e logo em seguida eram responsáveis por levá-los para outra sala. Por fim, permitiram a publicação dos resultados obtidos no questionário mediante assinatura de Termo de Autorização (Anexo B). Elisa Eumênia Mattos Machado Penido, que por meio de termo de autorização (Anexo C) concedeu acesso aos autos do processo de execução penal, nos quais estão anexadas as petições assinadas pelos mesmos participantes do questionário, ressalvada qualquer forma de identificação de assinantes, como.
Caracterização dos participantes da pesquisa
O participante D, 39 anos, condenado à pena de prisão por 8 anos, cumpriu pena de 7 (sete) meses por tentativa de homicídio (artigo 121 conjugado com o § 14, inciso II do Código Penal), encontra-se em regime fechado. O participante K, de 30 anos, condenado à pena de prisão por 04 anos, cumpriu pena de 10 (dez) meses por ter cometido o crime caracterizado no § 213 combinado com o § 14, inciso 2 do Código Penal (tentativa de estupro) e também no artigo 146 do Código Penal (contenção coercitiva ilegal). O participante L, de 30 anos, condenado a 7 anos de prisão, cumpriu pena de 11 (onze) meses pela prática do crime de estupro (tipicamente no artigo 213 do Código Penal).
Análise dos Dados
Parte 1: O Tratamento dos questionários
Porém, outro critério de análise teve que ser considerado: a reincidência do condenado, ou seja, a presença de presos pela primeira vez (não reincidentes), mesmo com pena curta, o que possivelmente resultaria em alto nível de contato com o universo jurídico visto que foram alvo de múltiplos processos criminais, mesmo sem condenação. Observamos na Tabela 7 o completo entendimento dos internos participantes do termo técnico jurídico Progressão de Regime. Ressaltamos que o único preso que possui ensino médio completo, ou seja, B, não demonstrou conhecimento do termo.
Parte 2: O Tratamento das petições
Ao final, pudemos concluir que o conhecimento e o uso da linguagem jurídica pelos condenados em privação de liberdade na interação com o meio ambiente os auxilia no acesso ao Poder Judiciário, uma vez que as solicitações encaminhadas diretamente aos tribunais de execução são muitas vezes a única forma de entrar em contato com os seus . com as autoridades judiciais, uma vez que muitos reclusos não têm advogados registados. Demonstramos a compreensão da linguagem jurídica pelos presos em cumprimento de pena por meio da aplicação de questionários, onde observou-se que a grande maioria compreendia os termos do uso repetido da linguagem jurídica, principalmente quando relacionados aos benefícios obtidos durante a execução. do seu castigo. Identificamos que os reeducandos externalizam sua compreensão da linguagem jurídica, após analisarem rigorosas exigências processuais feitas pelos mesmos internos que responderam ao questionário e demonstraram seu conhecimento dos termos da linguagem jurídica, para demonstrar o uso prático desse significado. por meio da observação de pedidos encaminhados ao Juízo de Execuções Penais de Tombos/MG.
Nesse sentido, consideramos que a linguagem é suscetível à influência ambiental e que o preso utiliza o entendimento da linguagem forense na busca de obter benefícios durante a pena. As questões aqui respondidas servirão de base para a construção de uma dissertação de Mestrado em Cognição e Linguagem – UENF, sob o tema: Uso da linguagem jurídica em condenados cumprindo pena de prisão.