Assim, este estudo teve como objetivos: descrever as condições objetivas de trabalho das enfermeiras obstétricas no âmbito hospitalar; analisar os efeitos das condições de trabalho das enfermeiras na área obstétrica e discutir a percepção das enfermeiras obstétricas sobre suas relações de trabalho. Ao mesmo tempo que um determinado grupo de parteiras transforma a sua prática, as relações de trabalho sofrem mudanças significativas.
Neoliberalismo e Globalização: flexibilização, reestruturação produtiva
Para tanto, cria estranhamento na relação entre o homem e sua atividade produtiva, o que leva à perda do sentido do trabalho, que é flexível, incerto e explorado (LIMA; BRISOLA, 2014). Neste contexto, a insegurança do trabalho multiplica-se, espalhando-se por vários setores, desde a produção de bens à comercialização e prestação de serviços, que muitas vezes se revelam como mais do que formas de trabalho, meios de sobrevivência (GONÇALVES, 2001).
O neoliberalismo e a política de saúde brasileira
Torna-se uma incoerência a proposta do SUS de ser uma política de saúde universal e única em um país federal, com três níveis de governo e descentralizado, caracterizado por fortes desigualdades regionais (OLIVEIRA; ROCHA; MELO, 2011). Portanto, esse cenário tem sido relacionado ao processo de privatização e privatização da gestão no sistema de saúde brasileiro (PRATA; PROGIANTI; DAVID, 2014).
O Trabalho em saúde
Os produtos do trabalho em saúde trazem certa materialidade simbólica, o que faz com que a abordagem da tecnologia signifique sempre o trabalho como sujeito de referência. Essas mudanças podem funcionar de diversas formas, culminando em novas formas de produção e organização dos processos de trabalho.
O trabalho feminino no mundo neoliberal e globalizado
O trabalho feminino e a precarização do trabalho
Neste contexto, estão a ocorrer alterações na dinâmica do mercado de trabalho, que se reflectem no desemprego, na precariedade das condições e relações de trabalho, na diminuição do emprego na indústria, na diminuição do trabalho remunerado registado e no aumento do trabalho a termo. A sociedade de classes não oferece às mulheres a possibilidade de conciliar a vida profissional com a doméstica, o que representa uma contradição na vida das mulheres. Existe uma cultura que desvaloriza o trabalho das mulheres em detrimento do trabalho dos homens, o que se reflete nos baixos salários.
A representação social do trabalho da enfermeira está diretamente relacionada às qualidades ideais da mulher em uma sociedade patriarcal, tais como: submissão, abnegação, disciplina, limpeza, humildade e domesticidade.
O trabalho da Enfermagem Obstétrica
Integrado num contexto de mudanças nas práticas e rotinas institucionais, por fazerem parte da humanização do trabalho de parto e nascimento, o processo de implementação da assistência ao parto de baixo risco pelas enfermeiras obstétricas e a sua entrada nas salas de atendimento tem provocado conflitos entre os agentes que trabalham na área obstétrica, o que dificulta a plena implementação da política de humanização (DIAS; DOMINGUES, 2005). Suas principais diretrizes são: testes rápidos de gravidez nos postos de saúde; pelo menos seis consultas de pré-natal durante a gestação, além de uma série de exames clínicos e laboratoriais, incluindo testes de HIV e sífilis; garantir leito e vincular a gestante a maternidade específica ou hospital público, bem como vale-transporte ou vale-táxi até o local do parto; qualificação dos profissionais de saúde para uma assistência segura e humanizada; a criação de centros de gravidez e bebés para ajudar gestações de alto risco e centros de parto normal para implementar os requisitos do parto humanizado para casos de baixo risco. Por fim, o estado brasileiro incorporou as normas sobre a humanização do parto e nascimento nas normas e programas do SUS, onde o trabalho da enfermeira obstetra estava completamente relacionado a esse processo.
Contudo, as políticas neoliberais iniciadas na década de 1990 foram decisivas para isso, tanto através dos acordos internacionais para melhorar a mortalidade materna, como através das propostas do Estado neoliberal, que por um lado fez com que o trabalho das enfermeiras obstétricas atendesse às demandas dos movimentos feministas, por outro por outro lado, serviu também aos interesses da política econômica do Estado mínimo, de reduzir gastos neste setor (PRATA, PROGIANTI, PEREIRA, 2012).
Conceitos da teoria social de Pierre Bourdieu
O capital simbólico é a transformação por meio da troca simbólica de outros capitais (culturais, sociais), que traz reconhecimento, honra e nobreza ao indivíduo, e se traduz em rituais de reconhecimento social (BOURDIEU, 2001b). Produz ações baseadas no conhecimento suficiente das condições objetivas que não são o resultado de uma determinação mecânica, mas que são objetivamente adaptadas à situação. O poder simbólico é o poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade de quem não quer saber que está sujeito a ele ou mesmo que o está exercendo.
Essa luta pode ocorrer de forma discreta, nos conflitos simbólicos do cotidiano ou através de especialistas em produção simbólica.
Articulação dos conceitos Bourdieu com o estudo
Apesar da relativa autonomia da área obstétrica, a nosso ver, ela está sujeita à lógica do mercado e o Estado faz eco a esta afirmação através da implementação da terceirização, uma das formas de flexibilização do trabalho. No presente estudo, encontramos um cruzamento entre os campos de atuação e o campo da obstetrícia, onde muitas enfermeiras obstétricas atuam implementando práticas desmedicalizadas de acordo com seus hábitos profissionais (Figura 1). No campo obstétrico há um jogo de poder onde os médicos tentam manter a ordem no campo e as enfermeiras tentam reconfigurá-la.
A enfermeira incorporou esses pressupostos em seus discursos e práticas, passando então a ser considerada como agente portadora de saberes específicos, reproduzindo um discurso com grande eficácia simbólica no campo obstétrico, ou seja, atualizou seu habitus profissional (PROGIANTI; PORFÍRIO, 2012 ).
Tipo de estudo
Participantes do estudo
Questões éticas
Captação das participantes do estudo
Coleta dos dados
Método de análise e discussão de dados
Para Minayo (2014), o exercício dialético considera as relações sociais historicamente dinâmicas, antagônicas e contraditórias entre classes, grupos e culturas como base da comunicação. Dado que os indivíduos coexistem numa mesma realidade, mas pertencem a grupos, classes e segmentos diferentes condicionados por um determinado momento histórico, podem ter interesses coletivos que os unem e interesses que os distinguem, além de se oporem a eles. Para atender ao primeiro objetivo, foram definidas com base no quadro temático as seguintes condições objetivas de trabalho: vínculo empregatício, salário e jornada de trabalho, de onde emergiram as categorias da primeira parte dos resultados e discussões.
Em seguida, foi feita a classificação por leitura horizontal e exaustiva dos textos, leitura transversal por meio do recorte das unidades de registro e posterior codificação que deu origem às unidades de significado.
Caracterização das participantes
Primeiramente, concluímos que esta constatação pode ratificar o exercício do trabalho remunerado como forma de conquista de independência e conquista de espaço na sociedade para as mulheres (SPÍNDOLA; . SANTOS, 2005). Espera-se que, para favorecer a introdução e consolidação da sua participação no mercado de trabalho, a história das mulheres seja movida pela procura de níveis de escolaridade mais elevados e pelo adiamento de projetos pessoais, especialmente a maternidade. Neste estudo, além do perfil das participantes, o instrumento de coleta de dados teve como objetivo captar aspectos do trabalho das enfermeiras obstétricas que se referem às condições objetivas de trabalho, pois entende-se que estas afetam significativamente as atividades dessas profissionais.
Tabela 1 – Aspectos do trabalho dos enfermeiros participantes utilizados para compor as categorias da primeira seção analítica.
As condições de trabalho das enfermeiras obstétricas: o trabalho em
O vínculo empregatício
A nova situação social e económica moldada pelos governos neoliberais é caracterizada principalmente pela flexibilização das relações laborais e pelo consequente crescimento do trabalho externalizado. Na saúde, a disseminação das relações de trabalho precárias é um dos resultados das políticas de Estado mínimo baseadas na doutrina neoliberal, implementadas nas reformas políticas ocorridas na década de 1990 com a crise do Estado de bem-estar social, bem como das reformas produtivas que aconteceu nos anos noventa. reestruturações que exigem flexibilidade de trabalho. A regulação jurídica está sujeita ao que Gaulejac (2007), citado por Bernardo, Verde e Pinzón (2013), chama de capitalismo organizacional, um modelo de gestão flexível do aparelho que regula as relações de trabalho.
No caso dos enfermeiros deste grupo, percebe-se que a desvalorização do seu capital científico se manifesta de forma concreta no não reconhecimento da sua especialidade na relação laboral.
O salário
- Entre médicos obstetras e enfermeiras obstétricas
- Entre enfermeiras
Verifica-se, portanto, que no grupo relevante ainda persistem diferenças de remuneração delineadas pela divisão sexual do trabalho entre médicos e enfermeiros que exercem as mesmas atividades. O parto domiciliar como parte do trabalho da enfermeira obstétrica, não institucionalizado e acessível apenas às mulheres das classes dominantes, proporcionou ganhos simbólicos e econômicos a essas profissionais. Assim como no estudo de Melo et al. 2016), os baixos salários constituem uma forma de insegurança social no trabalho desses enfermeiros, mas é ainda mais intensa quando se considera que são especialistas.
Esses achados confirmam a inserção das enfermeiras obstétricas na assistência obstétrica e em atividades que contribuem para a melhoria da assistência obstétrica, como no caso do trabalho de internação e classificação de risco, setor emergente de atuação recomendado pelo programa Cegonha Carioca.
A Jornada de trabalho
Surge a questão sobre quais perdas são atribuídas às enfermeiras obstétricas e aos cuidados que prestam devido ao acúmulo de jornada de trabalho. Essa intensificação do ritmo de trabalho é causada pela falta de enfermeiros (FELLI, 2012) e pela carga excessiva de trabalho em ambiente hospitalar, agravada pelo esgotamento psicoemocional a ela associado. A realização de atividades que geram tensão e situações extremas também compõem a lista de motivos para o aumento do ritmo de trabalho (ELIAS; NAVARRO, 2006).
O avanço tecnológico e a diversificação das atividades acabam impactando a assistência de enfermagem e levam à deterioração do ambiente de trabalho.
Percepções das enfermeiras obstétricas sobre as relações de trabalho
A Instabilidade no emprego com vínculo de contrato
O autor diz ainda que esta instabilidade leva à impossibilidade económica de cobrir as despesas diárias e provoca alterações nos ritmos de vida (horário de trabalho e relação trabalho/desemprego), que, por sua vez, contribuem para a insegurança laboral. A instabilidade e a insegurança são condições essenciais e históricas de insegurança, e o crescimento da produtividade tende a impulsionar a mudança para a insegurança no trabalho assalariado (ALVES, 2007). É a falta de controle sobre o trabalho e a necessidade de desenvolver estratégias de adaptação ao alcance dos objetivos.
Isto acontece especialmente quando o sentido do trabalho é “ganhar a vida”, visto que o trabalhador está sujeito a contratos de trabalho precários, caracterizados por elementos geradores de sofrimento e de uso agravado de defesas.
A busca pela produtividade
Bourdieu (1998) chamou de Flexploitation, a gestão racional da incerteza estabelecida principalmente através da manipulação orquestrada do espaço produtivo e da competição entre trabalhadores. Porém, num contexto em que a lógica capitalista ganha sentido e altera as regras do campo, o enfermeiro passa a atuar de acordo com o novo capital adquirido, uma vez que o habitus é produto da incorporação de necessidades objetivas, que se adaptam objetivamente ao situação. E15 – [..] Também ouvi numa conversa informal que a enfermagem obstétrica tem que se mostrar, e só pode se mostrar com números.
Contudo, o que aparece como liberdade e respeito pela autonomia do trabalhador é simplesmente a adaptação de uma forma de produção aos moldes capitalistas.
A aproximação com a chefia
Estas afirmações constatam que uma nova forma de gestão de pessoas também ganha espaço no campo da obstetrícia, uma gestão mais participativa, que parece estar mais ao lado dos trabalhadores e valoriza as suas demandas. Parece que uma nova forma de controlo do trabalho, contemporânea da sua flexibilidade, está a emergir no contexto da obstetrícia. O contexto dos enfermeiros desse grupo mostra que eles estão em uma nova forma de gestão do trabalho, onde a subjetividade é utilizada como estratégia para alcançar melhores resultados para a empresa.
Há uma nova forma de envolvimento dos colaboradores para um engajamento estimulado e integrado com uma nova produtividade, construída sob o medo do desemprego, uma gestão baseada na competência e eficiência, na intensificação do trabalho contra o desperdício e na relação custo-benefício como referência.
Hierarquia do campo obstétrico e suas consequências nas relações de
- Hierarquia e dominação masculina
- Violência simbólica: a desqualificação e divisão sexual do trabalho
As enfermeiras pesquisadas também relataram a presença de violência simbólica na divisão do trabalho no campo onde atuam. A organização do trabalho em saúde num contexto de precariedade e a promoção da ideologia gerencial. A precarização do trabalho formal: as condições de trabalho dos motoristas de mercadorias perigosas no porto de Cabedelo - PB.2015.
Intensificação do trabalho e saúde do trabalhador: um estudo na Mercedes Benz do Brasil, São Bernardo do Campo, São Paulo. Teorização sobre o processo de trabalho em saúde como instrumento de análise do trabalho em um programa de saúde da família. Nesta parte são destacadas questões relacionadas com o trabalho organizacional das enfermeiras de maternidade e a divisão do trabalho por género.