Segundo Pires (2000), o trabalho em saúde é aquele que se concretiza fora da esfera de produção material e que se completa no momento de sua realização. É essencial para a vida humana e está inserido no setor de serviços. Não produz algo materializado e é independente do processo de produção e comercialização do mercado. Seu produto não existe sem o processo produtor; é a própria realização da atividade. Para Chiavegato Filho e Navarro (2012), o processo de trabalho em saúde está menos sujeito à racionalização técnica e organizacional e tem uma função social determinada pela manutenção das condições normais de saúde dos usuários.
Nessa particularidade de ser realizado “em ato”, ou seja, se tornar vivo no momento exato em que se executa, o trabalho em saúde acaba por determinar, assim, a produção do cuidado. O trabalho vivo é permeado de interações com diversos tipos de tecnologia que definem, de certa forma, o modo em que se produz esse cuidado, podendo ser um processo mais focado nas relações, ou mais preso à lógica dos instrumentos duros (como as máquinas) (MERHY; FRANCO, 2005).
O trabalho em saúde é, hoje, em grande parte, coletivo e desenvolvido dentro de uma instituição, por meio dos aspectos peculiares da profissionalização e da divisão parcelar do trabalho, assim como na lógica taylorista de sua organização e gestão (RIBEIRO; PIRES; BLANCK, 2004).
A enfermagem tem agregado os princípios organizativos do modelo Taylorista, destacando-se a hierarquia rígida, a divisão do trabalho em tarefas, a ênfase no ‘como fazer’, a excessiva preocupação com manuais de procedimentos, rotinas, normas, escalas diárias de distribuição de tarefas e a fragmentação da assistência (PIRES; GELBECKE; MATOS, 2004).
Entretanto, as mudanças radicais no mercado em decorrência do processo de acumulação flexível, com flutuações constantes, aumento da competição, redução do poder aquisitivo do trabalhador e enfraquecimento do poder sindical, passam a atuar na subjetividade do trabalhador e apoiam-se na grande quantidade de mão-de- obra excedente (maior desemprego ou subemprego), dissociando os interesses da classe trabalhadora (ABRAMIDES; CABRAL, 2003).
Todos os profissionais influenciam e dão sentido ao trabalho uns dos outros.
Os produtos do trabalho em saúde trazem certa materialidade simbólica, o que significa que, abordar tecnologia é ter sempre o trabalho como temática referencial.
A produção de bens não palpáveis, que satisfaçam necessidades, baseia-se numa ação que provém de uma intenção. Assim, pode-se dizer que este trabalho tem em seu cerne, o ‘trabalho vivo em ato’, que se define quando uma tecnologia leve é efetivada no processo de produzir relações que possam ser significativas às necessidades em saúde do usuário (MERHY; FRANCO, 2005).
A indústria produtora de insumos para a saúde, apoiada em uma concepção de qualidade da assistência associada à densidade tecnológica, conseguiu, através da operação subliminar nos agentes que atuam no setor (profissionais, gestores, trabalhadores) e nos usuários do serviço, a distribuição de seus insumos. Além do aporte teórico para a utilização desses produtos e formação de profissionais que seguisse a lógica de produção de procedimentos para subsidiar o pensamento liberal como componente organizacional das relações sociais e produtivas. Esses fatores concorrem para a formação de um modelo produtivo, no qual os processos de trabalho aparecem tecnologicamente centrados no trabalho morto, expressão das tecnologias duras e leve-duras (MERHY; FRANCO, 2007)
Sendo assim, Merhy e Franco (2007), denominam Reestruturação Produtiva na Saúde, as modificações introduzidas em sistemas produtivos que ocasionam mudanças no modo de cuidar e impactam os processos de trabalho, elaboração de produtos e a forma de assistência à saúde. Essas modificações podem atuar de diversas formas que culminam em novos modos de produção e organização dos processos de trabalho. Geralmente, esforçam-se por alterar a conformação tecnológica do processo produtivo pelas modificações organizacionais.
Entretanto, apesar de poder inverter as tecnologias do trabalho, num certo sistema produtivo, podem funcionar somente alterando a organização do trabalho sem necessariamente alterar o núcleo tecnológico, já que, para que haja uma transição tecnológica, se faz necessário operar de forma inovadora as tecnologias de trabalho em saúde. Essas operações ocorrem pautadas no protagonismo dos sujeitos ao realizar escolhas baseadas em sua subjetividade, explicitas em seu modo de agir e fazem de acordo com interesses diversos (pessoais, corporativos, etc.) (MERHY; FRANCO, 2007).
De acordo com Cecilio e Lacaz (2012), o trabalho em saúde vem sofrendo modificações importantes nos últimos tempos, as quais se destacam: a divisão técnica e social do trabalho crescentes (resultantes da revolução industrial) que ocasiona um largo processo de especialização e fragmentação das práticas profissionais, pondo novos e complexos desafios na tarefa de colocar em prática a integralidade do cuidado com ênfase na gestão do cuidado multiprofissional. E, outra mudança, que se refere à institucionalização progressiva desse trabalho, caracterizada tanto pelo marcante processo de transferência dos serviços de saúde para a gestão privada, como pela precarização das relações de trabalho no próprio setor público e, ainda, pela introdução de estratégias racionalizadoras da vida organizacional, com forte impacto na autonomia dos trabalhadores.
Na Obstetrícia percebe-se o início da reestruturação produtiva a partir das mudanças nos modos de produção e gestão do cuidado, em consequência do movimento de Humanização da atenção ao parto que transformou a lógica da assistência, ao deslocar o foco do trabalho morto para o trabalho vivo com a entrada de um novo agente no campo: a enfermeira obstétrica. Estas especialistas tiveram um papel primordial na consolidação da reestruturação produtiva nesse campo, por suas capacidades de valorização do feminino e transformação de sua prática pela
lógica da humanização, que para esse grupo, significou a desmedicalização da assistência ao parto (PRATA; PROGIANTI; DAVID, 2014).