A terceira fase, a partir do início da década de 1970, pode ser considerada a do movimento negro contemporâneo no Brasil. Destaco também o papel que setores do movimento negro tiveram na construção de uma visão positiva do legado negro em nossa história.
Deslocando a identidade
Mais ainda, todo o quadro da chamada filosofia ocidental se baseia na primeira negação: a negação de si mesma como perspectiva, e que, aliás, é entendida como expressão do universalismo abstrato. Portanto, subordinar a diferença à identidade nada mais é do que um pressuposto apoiado na sombra da chamada verdade.
Identidade negra: raça
Destaco também o efeito performativo do conceito de “raça”, que foi a efetiva racialização humana que, a partir do século XIX, conseguiu atribuir um valor inferior aos diferentes da raça branca europeia. Não importa quantas vezes o termo seja revelado como vazio, ‘raça’ ainda funciona como um marcador aparentemente indelével de diferença social.”
Performatividade, raça e educação: a porta sempre entreaberta
A articulação europeia de ideias e de produção material convergiu com a tentativa de dominação eurocêntrica das colónias e desenvolveu e, em certa medida, impôs como norma uma concepção de mundo branca, cristã, europeia, heterossexual, masculina e moderna, contribuindo para a perpetuação das desigualdades. questões raciais – mesmo depois das lutas anticoloniais de meados do século XX – no mundo de hoje. No Brasil, a visão eurocêntrica pode ser observada em diversos textos sociais, o que traz graves consequências para as relações raciais brasileiras. Além disso, toda essa produtividade participa da construção de sentido sobre a identidade negra – ou seja, tudo tem um potencial performativo.
As formas como os significados que cercam esse patrimônio são afirmados ou negados podem contribuir para a redução das diferenças raciais vivenciadas no cotidiano brasileiro. Mas será que o ENEM realmente tem tal significado na construção de sentidos compartilhados que circulam na sociedade? Esta política pública avaliativa levou em conta a necessidade de descolonizar os significados da nossa história.
Essa discussão torna-se importante para lançar as bases para considerar a relevância que o ENEM pode ter na construção de significados sociais.
Levantamento de artigos científicos sobre o ENEM
Primeiramente, buscou-se na Plataforma Sucupira periódicos com avaliações selecionadas na área de Educação: foram 260 publicações, sendo 48 com classificação A1, 77 com classificação A2 e 135 com classificação B1. Como as publicações com dois ISSNs apresentavam os mesmos artigos, restaram 141 publicações, sendo 26 com classificação A1, 38 com classificação A2 e 77 com classificação B1. Veja:
38 Compare:
Após todas essas modalidades de pesquisa, o termo ENEM foi encontrado em 265 artigos de periódicos da área de educação com classificação A1, A2 e B1, na avaliação da CAPES.
A performatividade do ENEM
A disputa em torno do ENEM está relacionada à importância que ele adquiriu ao longo dos anos. A relação entre o ENEM e o mercado de trabalho também foi destacada nas matérias, tanto numa perspectiva positiva quanto crítica. A ideologia neoliberal e a ressonância sub-reptícia e performática engendradas pelo ENEM são levadas em consideração por Corti (2013, p. 218) ao concluir.
A indução à utilização do ENEM como forma de acesso continuou e, pela Portaria MEC nº 391, de 7 de fevereiro de 2000 (BRASIL, 2000), o Ministro de Estado da Educação, em seu art. O trabalho do MEC para fortalecer e estimular o ENEM refere-se à possível transformação de processo em finalidade, levantada por Ribeiro (2014) e Santos (2011), bem como ao potencial performativo do exame. Em reunião68 com os membros titulares do GT Educação, em maio de 2010, representantes do INEP afirmaram que “está sendo estudada a implementação de questões de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas provas do ENEM”.
Também houve mudanças na lista de frações de busca: a inclusão de outros termos, que pareciam ter relação com temas raciais durante a pesquisa nas provas do ENEM.
Iterações nas questões de múltipla escolha do ENEM
Relações raciais
- Proeminência socioeconômica
- Mito da democracia racial
- Branqueamento
Através da rubrica “abocl”, cheguei à palavra “cabloca” na questão nº 54 do ENEM/2004 (Figura 3), na qual, embora favoreça a mudança de compreensão sobre a democracia racial, está relacionada com a situação socioeconômica. perspectiva econômica. Outra expressão das relações raciais consistiu em transmitir a ideia de uma suposta democracia racial, que pode ser lida no ENEM em matérias que tratavam de hierarquias raciais, mesmo que, em sua maioria, de forma indireta, ou seja, mais com apagamento do que ênfase, que pode ser observada na questão nº 20 do ENEM/2004 (Figura 5), que foi decidida utilizando a fração “negr” da palavra. A lendária democracia racial, por outro lado, estava implícita na questão nº 91 do ENEM/2009 (Figura 6), conseguida com a parte “abloco” do input “cabloco”.
Essa ênfase ocorre na questão nº 18 do ENEM/2007 (Figura 7) – encontrada através da seção “abolição”, que me levou ao termo. Uma dessas normas está presente na questão nº 32 (Figura 11) do ENEM 2011, na qual, utilizando a chave de busca. Esse silêncio94 pode ser identificado pela primeira vez na questão nº 19 do ENEM/2007 (Figura 12), que foi alcançado através da busca pelo fragmento “espera”.
Essa falta de menção à ideologia do branqueamento ocorre na Questão nº 32 do ENEM/2013 (Figura 13), à qual cheguei utilizando o termo “preso”, acessado com “preso”.
Identificação negra
Nesse sentido, cheguei à questão nº 29 (Figura 14) do caderno amarelo do ENEM/2000, procurando o termo “aboli”, o que me levou à palavra. Outra forma que permite o deslocamento da identificação negra ocorre na questão nº 116 do primeiro ENEM/2010 (Figura 18), que busca o reconhecimento das pessoas negras. Na questão nº 29 de 2011 (Figura 20) – encontrada pela palavra “negros”, via fração “negr” – há uma mudança de sentido em relação à perspectiva do escravo negro no período anterior à abolição formal.
A identificação negra também foi valorizada na questão 6 do ENEM 2012 (Figura 25), a partir das experiências de pessoas afrodescendentes que lutaram por melhores condições de vida. 110 O que se aproxima do argumento sobre a identidade negra da questão nº 16 do ENEM de 2007. 111 Na questão nº 91 do ENEM de 2012, há de forma semelhante a valorização de outro ícone negro dos Estados Unidos, o poeta Langston Hughes.
113 O apelo dos negros na diáspora a um movimento pan-africanista é discutido na questão nº. 9 ENEM 2015.
Narrativas da África
A afirmação aqui feita é a imagem da África conquistada e subjugada, cuja demarcação territorial, seguindo a alternativa correta (letra E), foi promovida artificialmente “no contexto do colonialismo”. Por outras palavras, a questão opera no âmbito de uma crítica à experiência histórica do colonialismo a que o continente africano foi submetido115. É claro que o continente africano em geral se repete como o continente miserável, que se molda dentro da narrativa colonialista116.
O reducionismo chega ao ponto de dizer que os europeus encontraram “sistemas políticos e administrativos mais sofisticados” na Ásia. A diferença estabelece-se como uma negação da identidade europeia, estabelecida como uma referência universal quando se trata de sistemas políticos e administrativos. No questionário, desenvolve-se uma crítica ao tratamento, na produção cinematográfica listada, da África e de seus habitantes, que produz a.
O cinema, como parte desta pedagogia cultural, pelo seu alcance, tem um grande potencial performativo na sociedade, o que justifica a preocupação com o que se diz sobre a África e seus descendentes, e a percepção do texto de Leibowitz como importante na reconstrução de a imagem do continente africano no ENEM.
Narrativas sobre as artes negras
Como o ENEM possui uma narrativa sobre a coroação do Rei do Congo que “tem origem na época colonial” e como uma “renúncia cultural” (resposta correta, letra E), o enunciado pode participar da construção valorizada de sentidos em torno da herança negra no a constituição da cultura brasileira. Assim, coopera para que a contribuição cultural da população negra em nossa sociedade seja pública e positiva e participa das práticas de avaliação identitária119.
Enfim, qual a conclusão das problematizações das iterações no
Quando se trata da contribuição africana para a história e cultura brasileira no ENEM, bem como em outros textos sociais, é impossível se separar da experiência do cativeiro. Porém, não há como negar que existem outras formas de cura quando se trata da participação negra. Dessa forma, podemos participar da perpetuação da corrente de repetição da leitura tradicional da escravidão (GOMES, 2008, p. 72): aquela que associa os negros apenas à subjugação e à escravidão quando se trata de história.
Quanto às narrativas da África no ENEM, como pode ser visto na Tabela 9, elas não deslocaram os significados colonialistas nenhuma vez antes de 2009. Da mesma forma, quando se trata de cidadania, evita-se a intersecção com o atual problema racial no Brasil. Por outro lado, há muitas afirmações que podem reduzir ou negar a contribuição negra, principalmente quando se trata de relações raciais e de identificação negra, correntes onde a repetição negativa é mais frequente.
Por fim, se olharmos para a quantidade de questões de ambivalência no ENEM, chama a atenção que em muitas delas o objetivo é construir uma condenação ou crítica à situação das relações raciais, da identificação negra, da arte negra ou das histórias da África.
Iterações no ENEM ano a ano
A abordagem dos fluxos iterativos para questões de múltipla escolha foi muito útil para sistematizar e organizar a discussão da problematização racial nas questões de múltipla escolha do ENEM. A luta do homem negro na Conjuração Baiana e a valorização da esfera socioeconômica em detrimento da aparência. O teste de 2004, ao mesmo tempo que permitiu a promoção do respeito pela identidade negra e também permitiu um movimento positivo em direcção à abolição da escravatura, reiterou a repetida subordinação dos dilemas raciais às questões socioeconómicas.
No âmbito da literatura, o único pronunciamento de problematização racial em 2006 não contribui para a construção das identidades negras, pois apenas a tratou de forma vinculada à escravidão, sem qualquer crítica à condição cativa. Por exemplo, no ensaio é provável que apenas candidatos que já tenham alguma experiência no campo da discussão das relações raciais passem de um tema muito geral – O desafio de conviver com a diferença – para um caminho específico que possa mover as questões de corrida. Em e 2015, a problematização racial levou ao reforço dos significados mais recorrentes na sociedade (relações raciais cordiais, amálgama e democracia racial), quando se trata de relações raciais, e promoveu uma abordagem ambivalente dos significados que cercam a identificação negra.
Na edição de 2014, com presença reduzida de questões raciais – foi o ano com menor incidência de problematização racial, 3% – a abordagem das relações raciais desenvolveu-se dentro de um espaço textual que possibilitou o deslocamento do mito da democracia racial em dois problemas.
Iterações nas propostas de redação do ENEM
Na minuta da proposta do ENEM/2012 (Figura 39), o tema raça parece girar em torno do tema central da discussão: “o movimento de imigração para o Brasil no século XIX”. Essas disputas ficaram bastante evidentes na minuta da proposta do ENEM de 2015, que, embora abordasse a violência persistente contra as mulheres na sociedade brasileira, gerou um polêmico debate de gênero. Por outro lado, mesmo após as edições de 2010, houve muitas repetições nos cadernos de provas do ENEM que silenciaram as desigualdades raciais do Brasil; que subjugou a população negra; e isto historicamente reduziu o continente africano.
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