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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Academic year: 2023

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Faculdade de Formação de Professores

Adrielle Karolyne de Sousa Lisboa

O pré-vestibular popular Pedro Pomar e a inserção de mulheres negras e de classes populares na universidade pública: um estudo sobre trajetórias

escolares

São Gonçalo

2021

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O pré-vestibular popular Pedro Pomar e a inserção de mulheres negras e de classes populares na universidade pública: um estudo sobre trajetórias escolares

Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Orientadora: Profª. Dra. Maria Tereza Goudard Tavares

São Gonçalo 2021

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CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/D

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial deste texto de dissertação, desde que citada à fonte.

__________________________________ ________________________________

Assinatura Data

L769 Lisboa, Adrielle Karolyne de Sousa.

TESE O pré-vestibular popular Pedro Pomar e a inserção de mulheres negras e de classes populares na universidade pública : um estudo sobre trajetórias populares / Adrielle Karolyne de Sousa Lisboa – 2021.

167f.

Orientadora: Profª. Dra. Maria Tereza Goudard Tavares.

Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores.

1. Educação comunitária – Niterói (RJ) – Teses. 2. Movimentos sociais – Teses. 3. Negras – Teses. I. Tavares, Maria Tereza Goudard. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Formação de Professores. III. Título.

CRB-7 6150 CDU 373.576

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O pré-vestibular popular Pedro Pomar e a inserção de mulheres negras e de classes populares na universidade pública: um estudo sobre trajetórias escolares

Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Aprovada em 06 de abril de 2021.

Banca Examinadora:

_____________________________________________

Profª. Dra. Maria Tereza Goudard Tavares (Orientadora) Faculdade de Formação de Professores – UERJ

_____________________________________________

Profª. Dra. Amanda Motta Castro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

_____________________________________________

Profª. Dra. Mairce da Silva Araújo

Faculdade de Formação de Professores – UERJ

_____________________________________________

Profª. Dra. Patrícia Elaine Pereira dos Santos Faculdade de Formação de Professores – UERJ

São Gonçalo 2021

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Dedico este trabalho às minhas ancestrais, mulheres negras que desbravaram os caminhos para que eu pudesse escrever em primeira pessoa.

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A Deus, que foi alicerce durante toda essa trajetória, agradeço por ter permitido que eu vivesse tamanha experiência.

Ao Pré-vestibular Popular Pedro Pomar, pelo acolhimento e transformação, em especial às mulheres negras que fizeram parte desta pesquisa, compartilhando suas fragilidades e principalmente sua força.

A Dâmaris Xavier Laurentino, Crislaine dos Santos e Edelane Telesse toda a minha gratidão e respeito, agradeço por confiarem em mim e na potência social e política deste trabalho. Com certeza eu sou, porque nós somos.

À professora doutora Maria Tereza Goudard Tavares, por toda a paciência e generosidade, sua marca registrada. Obrigada por acreditar neste trabalho desde o início.

Agradeço todo o investimento e trabalho dedicado a mim e a essa pesquisa.

Aos meus pais, que se esforçam diariamente para compreender este lugar que tanto se distancia das suas trajetórias escolares, mas se orgulham e me apoiam incondicionalmente.

Ao Thyago Martins Pinheiro, meu namorado, que foi calmaria e compreensão durante este processo. Obrigada pela acolhida e os inúmeros questionamentos que eclodiam de nossas conversas.

À Faculdade de Formação de Professores, que foi um lar durante os longos 6 anos em que estive imersa neste ambiente repleto de contradições, mas que foi essencial para o meu crescimento enquanto professora pesquisadora.

Às companheiras do grupo de pesquisa Gifordic, pelas inúmeras trocas e companheirismo desde o processo seletivo do mestrado até este momento.

Às queridas professoras Amanda Motta Castro, Mairce da Silva Araújo e Patrícia Elaine Pereira dos Santos, pelas valiosas contribuições no exame de qualificação, foram fundamentais no processo da pesquisa.

Aos colegas, professores e professoras da turma 2019 do Mestrado em Educação Processos Formativos e Desigualdades Sociais, obrigada por todo incentivo e trocas estabelecidas. Em especial, Roberta Dias e Maria Martinha Mendonça, pela escuta e por compartilharem comigo as suas fragilidades, mostrando-me que eu não estava sozinha.

Aos amigos e amigas da vida, que foram cruciais nesses dois anos, agradeço o apoio incondicional.

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A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio.

ecoou lamentos de uma infância perdida.

A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela.

A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome.

A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.

Vozes-mulheres Conceição Evaristo, 2008

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RESUMO

LISBOA, Adrielle Karolyne de Sousa. O pré-vestibular popular Pedro Pomar e a inserção de mulheres negras e de classes populares na universidade pública: um estudo sobre trajetórias escolares. 2021. 167 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2021.

O presente trabalho objetiva compreender e problematizar as trajetórias escolares de 4 mulheres negras, ex-estudantes do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar. Este curso está situado e atuante na cidade de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, sendo um local de formação e preparação para a entrada de estudantes das classes populares na universidade, que funciona desde 1996, no espaço da Universidade Federal Fluminense, na Escola de Enfermagem Aurora Afonso Costa. O desejo pela pesquisa antecede o meu envolvimento como ex-estudante deste projeto nos anos de 2011-2012, atuando neste momento como coordenadora, entendendo o papel político-social e as perspectivas do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar, contudo trazendo a perspectiva das mulheres negras que fazem e fizeram parte deste movimento social urbano. Assim, a fim de ouvir as histórias dessas mulheres, partiremos da escrevivência (EVARISTO, 2007) como ferramenta metodológica. Afinal, são trajetórias marcadas por um lugar social que remetem a uma coletividade, mas também a uma singularidade. São mulheres que têm como marcadores sociais as questões de raça, classe e gênero. Assim sendo, utilizarei a perspectiva interseccional como dispositivo epistêmico e metodológico na compreensão das narrativas dessas mulheres negras da pesquisa, buscando entender o modo como esses marcadores sociais se articulam nas suas experiências. Alguns autores como Conceição Evaristo, Patricia Hill Collins, bell hooks, Paulo Freire, Bernard Lahire, Alberto Mellucci, Jean Kaufmann e René Barbier fazem parte do referencial teórico que auxilia na escuta, compreensão e análise das narrativas destas mulheres. A partir do material construído nas entrevistas e a bibliografia deste trabalho, podemos concluir que o PVPPP contribuiu para o ingresso do grupo de mulheres negras entrevistadas no ensino superior, mas, para além disso, elas o (re)apresentam como um espaço de acolhimento e solidariedade.

Palavras-chave: Movimentos sociais. Pré-vestibular popular Pedro Pomar. Educação popular.

Trajetórias de mulheres negras.

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ABSTRACT

LISBOA, Adrielle Karolyne de Sousa. The Pedro Pomar popular college prep course and the inclusion of black women and women from lower classes in the public university: a study about educational backgrounds.2021. 167 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2021.

This paper aims at understanding and questioning the educational backgrounds of four black women, former students of the Pedro Pomar Popular College Prep Course. This course, located and active in the city of Niterói, metropolitan area of Rio de Janeiro, a place for the education of lower class students and their preparation to enter university, has existed since 1996, in the campus of the Fluminense Federal University, in the Aurora Afonso Costa Nursing School. The wish to follow this path of research precedes my involvement as a former student in this project in the years 2011-2012, acting at this moment as a coordinator, understanding the political-social role and the perspectives of the Pedro Pomar Popular College Prep Course, yet bringing the perspective of the black women who are and were part of this urban social movement. Thus, in order to hear these women's stories, our starting point will be the 'escrevivência' (EVARISTO, 2007) as a methodological tool. After all, these are paths marked by a social place which refer to the collectivity, but to an individuality as well. These women have race, class and gender as social markers. Therefore, I will use the intersectional perspective as an epistemic and methodological approach in the understanding of their narratives, subjects of this research, in an attempt to comprehend the way in which these social markers interrelate with their experiences. Some authors like Conceição Evaristo, Patricia Hill Collins, bell hooks, Paulo Freire, Bernard Lahire, Alberto Mellucci, Jean Kaufmann and René Barbier are part of the theoretical background which aids the listening, understanding and analysis of these women's narratives.From the material constructed in the interviews and the bibliography of this work, the PVPPP contributed to the entry of the group of black women interviewed in higher education, but, in addition, they present it as a space of welcome and solidarity.

Keywords: Social movements. Pedro Pomar popular college prep course. Popular education.

The backgrounds of black women.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ALERJ Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro

ANPED Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação CCBB Centro Cultural Banco do Brasil

EDUCAFRO Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes ENEM Exame Nacional do Ensino Médio

FFP Faculdade de Formação de Professores

FAPERJ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro FNB Frente Negra Brasileira

GIFORDIC Grupo de Estudos e Pesquisa da(s) Infância(s), Formação de Professores(as) e Diversidade Cultural

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ISP Instituto de Segurança Pública

LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação MNU Movimento Negro Unificado

MSU Movimento dos Sem Universidade PSL Partido Social Liberal

PT Partido dos Trabalhadores

PUC-RJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PVPPP Pré-vestibular Popular Pedro Pomar

PVNC Pré-vestibular para Negros e Carentes

RJ Rio de Janeiro

SG São Gonçalo

STF Supremo Tribunal Federal

UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro UFF Universidade Federal Fluminense

UNIFESP Universidade Federal de São Paulo TEN Teatro Experimental do Negro

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 11 1 HISTÓRIAS QUE SE CRUZAM E SE COMPLETAM: UMA

CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA E AFIRMATIVA... 17 1.1 A narrativa escrevivente e a insurgência de mulheres negras... 20 1.2 As aventuras e desventuras de uma tríplice condição... 26 1.3 Narrativas escreviventes e a construção de uma pesquisa com mulheres

negras... 31 1.4 Uma infância e adolescência analisada através de um caleidoscópio

interseccional perpassando raça, classe e gênero... 34 1.5 Um sucesso escolar solitário dentro do meu contexto familiar... 46 2 A LUTA DOS PRÉ-VESTIBULARES POPULARES: O PAPEL

POLÍTICO DO PRÉ-VESTIBULAR POPULAR PEDRO POMAR

(PVPPP)... 60 2.1 A luta dos movimentos sociais pelo direito à educação: contextualização

necessária... 61 2.2 Os movimentos sociais negros pelo direito à educação: os nossos passos

vêm de longe... 64 2.3 Os pré-vestibulares populares: lutas solidárias pelo direito à educação

superior no Rio de Janeiro... 74 3 URDINDO NOSSAS ESCREVIVÊNCIAS: DESAFIOS ALÉM DO

ACESSO À UNIVERSIDADE... 81 3.1 Quem conta faz toda a diferença: trajetórias de lutas, memórias e

resistências... 85 3.1.1 Chica - “Um peixe não vai subir em uma árvore, a gente não tem muito o que

fazer. Portanto, não cabe a mim te parar”... 87 3.1.2 Lane - “Mas a gente vai levando até onde der, porque eu também não posso

ficar parada esperando a oportunidade cair do céu, coisa que eu sei que não

vai acontecer”... 88 3.1.3 Cris - “Eu ia ter que passar por cima, ter que compreender que aquelas

dificuldades não iriam sumir, não iriam desaparecer”... 89

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3.1.4 Adrielle - “Nunca havia pensado em sair daquela lógica, afinal, não tinha

como pensar diferente, aquela situação já estava dada e preestabelecida [...]”.. 90 3.2 Semelhanças e diferenças que aproximam e que distinguem as

trajetórias das ex-estudantes do pré-vestibular popular Pedro Pomar... 91 3.3 Refletindo as trajetórias das mulheres negras à escola pública... 97 3.4 O impacto do ingresso de estudantes negras do pré-vestibular popular

Pedro Pomar nas universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro... 104 CONSIDERAÇÕES PARA OUTROS DIÁLOGOS, OUTRAS LUTAS.... 112 REFERÊNCIAS... 118 APÊNDICE A – Carta-Convite... 123 APÊNDICE B – Roteiro para as entrevistas... 125 APÊNDICE C – Relatório de entrevistas com as mulheres do pvppp –

transcrições das gravações... 127 ANEXO – Termo de consentimento livre e esclarecido... 167

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INTRODUÇÃO

Quando eu falo do lugar que eu ocupo também falo da história desse lugar.

Djamila Ribeiro, 2017

Inicio o presente texto de minha dissertação com um trecho do livro O que é lugar de fala?, da filósofa brasileira Djamila Ribeiro, com quem venho pensando sobre o lugar que ocupo na sociedade da qual faço parte e, consequentemente, sobre as histórias que são contadas através das minhas vivências. Componho, assim, parte da urdidura desta pesquisa, usando fios entrelaçados de minha trajetória em um espaço social mais amplo, inserindo-a numa tipologia de pesquisa na qual a metodologia de pesquisa utilizada é de cunho qualitativo e participativo.

A pesquisa se dedica a apresentar o levantamento, compreensão e a problematização da trajetória de 4 mulheres negras de espaços populares, que estudaram, participaram/participam ativamente do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar (PVPPP), um movimento social urbano que, historicamente, configura uma luta pelo direito à educação superior no Estado do Rio de Janeiro.

Saliento que opto em fazer parte deste grupo de mulheres em razão da necessidade de compreender a minha própria trajetória, que vem sendo atravessada pelas ações sociais e políticas do PVPPP. Este trabalho investigativo proporcionou-me uma ponte ao passado, no momento que apresento as minhas experiências desde a infância vivida no interior do Nordeste, e, posteriormente, como uma jovem mulher negra das classes populares vivendo no sudeste do país.

Do ponto de vista teórico e metodológico da escrita de minha dissertação, fui despertada pelas leituras das obras literárias de Conceição Evaristo (2017), aproximando-me de sua escrevivência. Diante da escrita afetada e singular desta autora, me vi estimulada a escrever, pensar, pesquisar e a compreender a minha vivência e de demais mulheres em diferentes âmbitos do movimento, que foi e é fundamental no meu processo de formação acadêmica e social.

Portanto, neste exercício teórico-reflexivo, utilizei a escrevivência como uma ferramenta de análise profundamente implicada para contar experiências individuais e coletivas das mulheres negras investigadas. A intenção é colocar em diálogo, urdindo-se as narrativas pelas quais são apresentadas essas histórias, que perpassam alegrias, tristezas, pobreza, mas,

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sobretudo, um enfretamento político e social. Afinal, para cada opressão que sofremos, criamos táticas coletivas para que possamos, enquanto grupo, adentrar e nos manter dignamente nos espaços que nos são negados.

As motivações que influenciaram o meu interesse de pesquisar as trajetórias de um grupo de mulheres negras do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar (PVPPP) deram-se com base na minha experiência como estudante nos anos de 2011-2012 e, posteriormente, como coordenadora voluntária, desde 2013 até os dias atuais. Percebo-me fortemente integrada a este espaço de educação coletiva, pelo qual nutro uma relação visceral, política e afetiva.

Graduada no curso de Pedagogia, na Faculdade de Formação de Professores (FFP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), venho adensando os estudos sobre este movimento social urbano desde a graduação. Na monografia, pesquisei a trajetória do PVPPP na luta por educação, com o trabalho de conclusão de curso intitulado O Pré-vestibular popular Pedro Pomar: uma trajetória de lutas pelo direito à educação de jovens das classes populares.

Desta maneira, ao problematizar o percurso que trilhei após a inserção neste contexto de ações educativas e investigar as diferentes mulheres negras que compõem o pré-vestibular popular, atentei-me em relação à presença maciça de mulheres negras à frente da luta do PVPPP. A partir de então, fui provocada a pensar a trajetória das mulheres negras ex-estudantes deste espaço, que historicamente têm protagonizado o enfrentamento político e social pelo acesso e permanência nas universidades públicas.

Neste sentido, ao ingressar no curso de Mestrado em Educação, Processos Formativos e Desigualdades Sociais FFP/UERJ no primeiro semestre de 2019, tive a oportunidade de continuar trabalhando com esta temática de pesquisa, porém em outra perspectiva. A meu ver, mais ampliada, pois recorro a uma compreensão especifica dos diversos fatores que influenciam as trajetórias de um grupo de estudantes negras do PVPPP.

A pesquisa apresenta como objetivo geral investigar as trajetórias escolares de um grupo de mulheres negras, ex-estudantes do PVPPP, e as variáveis que as fizeram permanecer nesse espaço de formação, com o qual compartilham a luta pelo ingresso nas universidades públicas do Rio de Janeiro.

Assim, as questões de estudos que corresponderam e orientaram a pesquisa pretendem conhecer, compreender e problematizar, por meio de escrevivências, quais foram os processos formativos e sociais que impulsionaram esse grupo de mulheres negras dos setores populares às universidades públicas.

Outras intencionalidades da pesquisa foram: Quais eram as expectativas que essas mulheres negras apresentavam ao se matricularem em espaços como o Pré-vestibular Popular

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Pedro Pomar? De que forma este movimento contribuiu (ou não) na inserção desse grupo de estudantes negras nos espaços de escolarização superior pública? Como este grupo de mulheres construiu e desenvolveu suas trajetórias escolares? Quais os dispositivos utilizados para permanecer e prosseguir no ambiente escolar?

Investigaremos as trajetórias das mulheres desta pesquisa a partir da perspectiva de Nicastro e Greco (2012), compreendendo-as como um caminho que se (re)constrói permanentemente. Algo não estático e que não seja necessariamente fixo a um passado, mas um corpo que está sempre em movimento. A perspectiva das autoras é que possamos pensar trajetórias e caminho como inseparáveis. Um caminho que pode vir a ter desvios, percalços, que vai além da ideia do mecânico, não sendo restringido simplesmente a um protocolo que precisa ser seguido.

Através do procedimento metodológico de escutar as mulheres da pesquisa a partir de entrevistas ancoradas no que Kaufmann (2013) define como entrevista compreensiva, estabeleci um diálogo com as ex-estudantes e coordenadoras do projeto, de modo que pudessem ser compreendidas e contextualizadas as motivações, os desafios e os encontros solidários que podem ter atravessado de alguma forma, as trajetórias individuais e principalmente coletivas das mulheres negras da pesquisa.

A especificidade da entrevista compreensiva é “utilizar as técnicas de investigação como instrumentos flexíveis e evolutivos” (KAUFMANN, 2013, p. 68). É considerada pelo autor como ponto de partida das problematizações, a fim de explicar compreensivelmente o social.

Kaufmann pensa o entrevistador como um sujeito ativamente envolvido nas questões, com a intenção de provocar o envolvimento do entrevistado. Mais do que isso, a entrevista, nesta perspectiva, enaltece um campo discursivo, no qual a dialogicidade vai se construindo paulatinamente.

Atrelada a uma entrevista compreensiva e estabelecendo uma conversa com as mulheres da pesquisa, procurei demonstrar uma escuta sensível (BARBIER, 1993) diante das experiências que aqui foram contadas e diligentemente escutadas. Uma escuta que se dá ancorada na sensibilidade, buscando mergulhar e compreender o mundo a partir da perspectiva do outro, ação que requer proximidade e confiança entre a entrevistadora e as entrevistadas.

Uma escuta além do sentido da audição, isto é, uma escuta que perpasse todos os sentidos.

Em diferentes âmbitos, aproximei-me do conceito professora-pesquisadora (GARCIA, 2008), procurando estar em espaços educativos como uma professora que pensa, que indaga e questiona, refletindo sobre a sua própria prática e as formas de estar no mundo.

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A pesquisa buscou entrelaçar fios das nossas trajetórias como mulheres negras, procurando demarcar rupturas no que é estabelecido em torno dos papéis sociais e das recorrentes histórias de subalternização dessas mulheres. Assim, procurei realizar esta pesquisa trabalhando com a perspectiva Escrevivente (MACHADO; SOARES, 2017), que significa contar histórias singulares, que atravessam a vida de mulheres, por meio de marcadores sociais distintos. Quando o sujeito traz as suas vivências, elas/eles também carregam consigo a história do lugar e das pessoas que compartilharam espaços de luta e resistem de forma orgânica e articuladas ao coletivo do qual fazem parte.

Neste percurso, venho estabelecendo um diálogo teórico e metodológico com alguns autores e, sobretudo, com autoras negras e feministas da contemporaneidade, tais como Lélia Gonzalez (1984) e o seu termo pretuguês, bell hooks1 (2017) e o conceito de pedagogia engajada; Conceição Evaristo (2005) e suas escrevivências; Patricia Hill Collins (2017) e Carla Akotirene (2019), acerca do conceito de interseccionalidade; Grada Kilomba (2019) e episódios de racismo cotidiano; Angela Davis (2016) e Mulheres, raça e classe. Além de autores do campo da educação e sociedade, tais como Alberto Mellucci (1989) e movimentos Sociais; Bernard Lahire (1995) com capital escolar, sucesso escolar; René Barbier (1993) e a escuta sensível; e Maria Tereza Goudard Tavares (2001) com Educação Popular e as lutas pelo direito à educação, dentre outros com quem compartilhei os caminhos de minha investigação.

A inserção de mulheres negras das classes populares no contexto universitário tende a provocar mudanças nas configurações políticas e pedagógicas desses espaços, trazendo tensões, conflitos e inúmeros desafios e possibilidades de se pensar uma universidade púbica e efetivamente democrática. Afinal, como nos diz Davis (2017), quando uma mulher negra se movimenta, toda uma estrutura social se movimenta com ela.

Do ponto de vista dos estudos e levantamentos bibliográficos realizados, aprendi que mulheres negras que conseguem romper com as condições de subalternidade e ocupam as universidades públicas - nas quais uma hegemonia branca tem o privilégio da fala - constroem um lugar de fala marcado pelo viés interseccional de classe, raça e gênero.

Portanto, investigar e problematizar as nossas experiências enquanto um grupo de 4 mulheres negras em seus movimentos de consciência racial, de gênero e classe, bem como os dilemas envolvidos nas suas trajetórias em direção ao acesso à universidade pública consistem na matéria-prima da escrevivência de minha pesquisa.

1 A autora feminista e ativista estadunidense Gloria Jean Watkins, justifica a assinatura de suas obras com o seu pseudônimo “bell hooks” grifado com letras minúsculas, pois pretende com isso dar enfoque as suas ideias representadas em suas escritas, não a sua pessoa.

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Do ponto de vista de sua arquitetura, o desenho da pesquisa está organizado em 3 capítulos, brevemente descritos abaixo:

No primeiro capítulo, Histórias que se cruzam e se completam: uma construção identitária e afirmativa, inicio buscando defender a escrita escrevivente como uma ferramenta teórica e metodológica que compõe a urdidura política e epistêmica deste trabalho. Além disso, apresento a metodologia e as mulheres negras da pesquisa. Por fim, ao final deste capítulo trago a minha escrevivência, com memórias de minha trajetória desde a infância, juventude até a entrada na universidade.

Procuro abordar e problematizar não apenas questões relacionadas às memórias de minha vida, mas também a tomada da negritude e pertencimento de gênero e classe social.

Destaco a relação com o Pré-vestibular Popular Pedro Pomar e a entrada na universidade, além de apresentar as escolhas e compreensões que foram sendo feitas durante a minha trajetória escolar e de vida.

No segundo capítulo, intitulado “A luta dos pré-vestibulares populares: o papel político do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar”, apresento um histórico da luta dos movimentos sociais negros pelo direito à educação, apontado o vínculo deste movimento com os estudos e obras de Paulo Freire, além de uma breve historicidade dos pré-vestibulares populares no estado do Rio de Janeiro e a sua relação propositiva com o Movimento Negro. O capítulo apresenta um inventário acerca da identidade do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar.

No terceiro capítulo, Urdindo nossas escrevivências: desafios além do acesso à universidade, apresento as mulheres negras entrevistadas, a partir de percepções e da escuta atenta e sensível. Analiso a relação do grupo de mulheres negras investigadas no que diz respeito ao trajeto histórico-social e a construção das redes de solidariedade que permeiam as suas trajetórias, buscando urdir aproximações e distanciamentos perceptíveis nas conversas estabelecidas. Além disso, neste capítulo apresentam-se também as trajetórias escolares das entrevistadas desde a escola básica até o ensino universitário, urdindo as perspectivas e anseios apontados, com os referencias teóricos da pesquisa.

Por fim, em “Considerações para outros diálogos, outras lutas...”, busco compreender se os objetivos iniciais foramalcançados, retomando a questões de pesquisa em diálogo com os autores e com as mulheres negras da pesquisa que empiricamente e teoricamente me acompanharam nesse percurso.

Além disso, aponto alguns desdobramentos para questões futuras, como a luta dos movimentos sociais de mulheres negras e sua atuação especificamente neste contexto pandêmico. E para finalizar busco homenagear a partir deste trabalho de pesquisa o Pré-

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vestibular Popular Pedro Pomar que no ano de 2021 comemora 25 anos de luta por educação superior no estado do Rio de Janeiro e que neste momento atípico segue se reinventando na luta coletiva por direitos elementares.

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1 HISTÓRIAS QUE SE CRUZAM E SE COMPLETAM: UMA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA E AFIRMATIVA

[...] Invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas. Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção.

Conceição Evaristo, 2017

Escreviver é evidenciar toda a rede de mulheres, em maioria mulheres negras, que fortaleceram e apoiaram minha trajetória de reconhecimento identitário e social, um exercício que requer força e, sobretudo, cautela. Compartilhando a minha escrevivência (EVARISTO, 2017), narro histórias de uma vida árdua, com processos de exclusão, silenciamentos e desigualdades sociais, mas principalmente de lutas coletivas, solidariedade e alegrias compartilhadas.

Vale ressaltar que as trajetórias trazidas neste texto são narrativas imersas em tensões políticas e sociais forjadas na resistência, divergentes do que se banalizam por vezes como

“vitimismo”, lamentações ou algo do tipo. Muito pelo contrário, são histórias potentes, de mulheres que resistem e se reinventam coletivamente todos os dias, enfrentando o sexismo, racismo e as desigualdades sociais. Define-se como vitimismo, na lógica racista, o ato de falar de dores, sofrimentos, transferindo para o “outro” a culpa por essas opressões. Deste modo, nossas vozes são sistematicamente censuradas, fortalecendo a negação do racismo, mantendo e legitimando estruturas violentas de exclusão racial, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano (KILOMBA, 2019).

Para melhor compreender essas trajetórias, inicio também um diálogo com os estudos do pesquisador Bernard Lahire (1995), intitulado “O sucesso escolar nos meios populares”. O sociólogo francês investiga o sucesso e o fracasso escolar de crianças das classes populares no Ensino Fundamental na França. A partir dessa leitura, esbarro-me com questões colocadas pelo autor, que foram pistas preciosas neste trabalho, a exemplo das formas familiares de investimento pedagógico, da cultura escrita, rede de interdependências familiares, capital escolar familiar, entre outros.

Desta forma, adianto que os casos do grupo de mulheres negras investigadas na dissertação foram analisados de forma específica, porém não compreendidos no sentido de

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“extraordinárias” ou “exemplares”. A ideia aqui é uma reflexão macro e microssociológica, considerando o contexto social das participantes da pesquisa, e que a maioria das mulheres negras e pobres vivem em contextos considerados previsíveis, que beiram e antecipam o fracasso escolar e social. Neste texto, o sucesso escolar é definido a partir da inserção das mulheres negras de meios populares em universidade pública, sendo a inserção e a permanência exemplos concretos, palpáveis dessa trajetória exitosa.

A minha história é cruzada por mulheres negras que foram uma rede de apoio fundamental para que eu pudesse me manter em espaços, como a escola e a universidade. Para bell hooks (2019), é fundamental textos que reforcem o companheirismo entre nós, mulheres, neste caso mulheres negras, pois aprendemos com as estratégias de resistência e o relato dos erros uma das outras.

Bell hooks comenta sobre a importância de darmos notoriedade à escrita e à narrativa de mulheres negras, para que outras mulheres negras saibam quem são as nossas companheiras radicais.

Precisamos ouvir mais essas mulheres negras corajosas que nadaram contra a maré para reivindicar políticas e formas de ser não conformistas [...] Essas vozes podem dar testemunho e compartilhar o processo de transformação atravessados pelas mulheres negras para ressurgirem como sujeitas radicais. (HOOKS, 2019, p. 126)

O meu fortalecimento entre pares se iniciou no seio familiar, com a minha mãe, que enfrentou os julgamentos machistas e a culpa materna quando decidiu que a sua única filha - que na época tinha 16 anos - viajasse para um lugar desconhecido, na esperança de lhe proporcionar novas oportunidades. Até hoje, ela recorda das críticas que ouviu, principalmente dos homens da família. Ela apostou muito em mim, que coragem! Imagino o quanto ela deve ter ficado insegura e por vezes deve ter se perguntado se havia feito a escolha certa, mas hoje não há dúvidas. Diante das possibilidades que tínhamos, ela ofereceu-me o que estava ao seu alcance, da melhor maneira possível. Mas adiante, conto mais sobre isso.

Lahire (1995) discute, com base em suas pesquisas que, em relação às práticas de escolarização nas classes populares, geralmente os pais “sacrificam” a vida pelos filhos/as para que possam chegar aonde eles próprios gostariam de ter chegado, ou para conseguirem sair da condição sociofamiliar em que vivem. No caso da minha mãe, criada em um contexto familiar atravessado pelo patriarcalismo, o fato de ter proporcionado, não necessariamente com base num planejamento, que a sua filha trilhasse outro caminho, além de casar e ser dona de casa, foi um sacrifício imensurável, tendo em vista o que estava preestabelecido cultural e socialmente naquele contexto.

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As minhas outras 4 companheiras de luta do Pré-vestibular Popular Pedro Pomar, com quem vivenciei esta pesquisa, também foram mulheres negras que cruzaram o meu trajeto e se tornaram solidárias em suportar coletivamente o árduo processo de desconstrução social de raça, classe e gênero. Afinal de contas, se reconstruir dói, devasta. É um caminho sem volta, a vida nunca mais será a mesma, o desconforto é inerente nesse processo e é sentido fisicamente e emocionalmente. Geralmente, ao abandonar as formas antagônicas de pensar, saber e aprender, sentimos dor. As mudanças de paradigmas podem nos causar desconfortos, deslocamentos difíceis (HOOKS, 2017).

Concluo, resumidamente, que a solidariedade entre pares mudou a minha história, sem demagogia. Essa solidariedade foi real, eu vivi e vivo isso, todos os dias. Um exemplo disso é o PVPPP: no meu ano como estudante, os coordenadores/as, professores/as e os próprios estudantes se organizavam para efetuar o pagamento de provas de vestibular de quem não tinha condições de custeá-lo. Auxiliaram-me com a documentação para cotas, faziam criação de grupos de estudos e monitorias, além de ser um espaço onde normalmente os estudantes, após ingressarem nas universidades, retornam para tirar dúvidas sobre trabalhos, normas acadêmicas e demais demandas que o Ensino Superior requer.

Logo, estar em permanente processo de formação, como uma professora-pesquisadora que pensa o seu percurso (GARCIA, 2008) propiciou um mergulho no passado, na intenção de encontrar indícios na minha memória que dialogassem e auxiliassem na fundamentação desta pesquisa. Isso se deu a fim de possibilitar o trabalho a partir das minhas experiências, estabelecendo uma reflexão sobre as minhas práticas como uma professora-pesquisadora, implicada naquilo que intenciono nesta investigação. Ter experimentado a sensação de voltar ao passado, por meio da escrita, causou-me insegurança e um misto de sentimentos indescritíveis, e, de certa forma, senti-me transportada entre um espaço e tempo discrepantes.

Afinal, a minha história foi atravessada por inéditos viáveis (FREIRE, 2014), ou seja, não sonhava com nada além do que já era estabelecido na vida das pessoas que faziam parte do meu contexto social. Entretanto, com a minha inserção em espaços com diferentes condições, possibilidades e principalmente oportunidades, aprendi a sonhar além do que já parecia estar posto. E por que não almejar diferentes possibilidades de produção da vida, histórias outras de liberdade e rebeldia, futuros impensados?

Divido com Conceição Evaristo o gosto e o desgosto de escrever, coloco aqui uma escrita ainda insegura e tímida, porém forte na intenção de problematizar olhares, inclusive o meu. Escrevo de um lugar específico, com marcas que perpassam classe, raça e gênero.

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Gosto de escrever, na maioria das vezes dói, mas depois do texto escrito é possível apaziguar um pouco a dor, eu digo um pouco... Escrever pode ser uma espécie de vingança, às vezes fico pensando sobre isso. Não sei se vingança, talvez desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou ainda, executar um gesto de teimosa esperança.

Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executa, é a senha pela qual eu acesso o mundo (EVARISTO, 2005, p. 202).

Compartilho minha experiência baseada na resistência e na coletividade de muitas mulheres negras que vieram antes de mim e lutaram para que o caminho fosse menos estreito para aquelas que viriam. Ao falar da experiência, em seu livro “Ensinando a transgredir”, bell hooks (HOOKS, 2017, p. 122) afirma: “Sei que a experiência pode ser um meio de conhecimento e pode informar o modo como sabemos e o que sabemos.” A autora diz que não renuncia ao poder da experiência como um caminho de aprendizagem, pelo qual podemos fazer uma análise ou até mesmo formular uma teoria.

Concordando com hooks, saliento que as experiências de mulheres negras relatadas na pesquisa foram encaradas criticamente, permitindo ir além delas, no entanto, valorizando-as para além do registro de dor e ausência. De fato, acredito na responsabilidade social que essa escrita carrega. Logo, ao narrar um pouco da minha vida, entrelaçada a de demais mulheres, sigo quebrando as barreiras do colonialismo, descrevendo minha própria história e não sendo descrita (KILOMBA, 2019). Aqui, eu não sou a “Outra”. Falo em meu nome. A narrativa, aqui, se dá na primeira pessoa, com todos os riscos que essa questão insinua e assume.

1.1 A narrativa escrevivente e a insurgência de mulheres negras

A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar” os da casa grande e sim para incomodá-los seus sonos injustos.

Conceição Evaristo, 2007

Em 2011, a escritora Maria Conceição Evaristo de Brito lança seu livro de contos Insubmissas lágrimas de mulheres, entre as diversas obras da autora, por se tratar de um livro com 13 contos protagonizados por mulheres negras que contam a sua própria experiência.

Trata-se do livro dela que mais dialoga com este trabalho, por se tratar de histórias que juntam, unem e movem mulheres negras. A narradora, de escuta sensível e atenta, permeia as histórias, cujos títulos carregam a marca do nome próprio de suas protagonistas, contando uma de cada vez. Assumindo a palavra, partindo de dentro as mulheres, criam uma espécie de aliança quando

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aceitam se contar para uma narradora que visita cidades em busca de histórias. Os contos narrados por Evaristo trazem implicações estéticas e ideológicas que demarcam fortemente um lugar social. São vidas que transitam em uma escrevivência, mesmo diante das suas especificidades, nos causando reflexões e deslocamentos acerca do poder patriarcal, racial e de classe, marcas estruturantes da sociedade brasileira.

Lendo o prefácio da obra mencionada, observo o tênue limite apontado pela autora sobre o ato de traçar uma escrevivência.

Portanto estas histórias não são totalmente minhas, mas quase que me pertencem, na medida em que, às vezes, se (con)fundem com as minhas. Invento? Sim invento sem o menor pudor. Então as histórias não são inventadas? Mesmo as reais quando são contadas. Desafio alguém a relatar fielmente algo que aconteceu. Entre o acontecimento e a narração do fato, alguma coisa se perde e por isso se acrescenta. O real vivido fica comprometido. E, quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas histórias, continuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência. (EVARISTO, 2016, p. 8)

A escritora Conceição Evaristo, ao compartilhar através dos seus livros as suas escrevivências, não as havia pensando inicialmente como um conceito, ou quiçá uma ferramenta metodológica. Escrevivência não é um conceito novo, provavelmente nós é que demoramos a descobri-lo, considerando que Evaristo escreveu o seu primeiro texto, o romance memorialista Becos da memória (2017) em 1987/1988, contudo a sua publicação só aconteceu 20 anos depois de escrito, após diversas tentativas frustradas de publicações.

Em uma entrevista2 ao jornal BBC Brasil, a autora faz algumas interrogações sobre o processo tardio de sua legitimidade como escritora: “Que regras são essas da sociedade brasileira para vermos uma mulher virar um expoente no campo da literatura só aos 71 anos?”

“Por que a minha competência está sendo tão tardiamente reconhecida?”, já que apenas em 2003 o primeiro livro da escritora veio a público, o romance Ponciá Vicêncio (EVARISTO, 2018). Esse reconhecimento tardio exemplifica e marca a trajetória de muitas outras mulheres negras brasileiras, que por vezes são ceifadas de oportunidades e reconhecimento social.

Durante falas e entrevistas, Conceição Evaristo faz questão de explicitar que o primeiro espaço que acolheu suas produções literárias foi o Movimento Negro Unificado (MNU), principalmente as mulheres negras, que levavam seus textos para as escolas. Seus primeiros textos foram publicados em cadernos negros, uma antologia publicada anualmente e organizada

2 O endereço eletrônico da entrevista é: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43324948>.

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pelo grupo Quilombhoje, alternando entre contos e poesias, cuja proposta é incentivar o hábito da leitura, estudos, pesquisas e diagnósticos sobre literatura e cultura negra.

Em 1995, durante a escrita da sua dissertação de mestrado em literatura brasileira, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), que teve como título “Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”, brilhantemente munida da arte das palavras, Conceição Evaristo fez um jogo de sentidos com os verbos escrever e viver, buscando formas ortográficas de nomear a sua vivência carregada de clivagens sociais, pois, como sujeito, a autora ocupa um corpo mulher-negra-pobre. Entretanto, o processo de construção do conceito se antecede em seus escritos, como nos aponta a autora: “Talvez na escrita de Becos, mesmo que de modo quase que inconsciente, eu já buscasse construir uma forma de escrevivência”

(EVARISTO, 2017, p. 9).

Para além da estética literária frisada de uma perversidade poética, com marcas representativas de linguagem, Conceição Evaristo vem pensando, em suas obras, politicamente a escrevivência a partir das histórias e perspectivas da população negra, sobretudo de mulheres negras. Uma escrita que se dá associada à nossa vivência, que é particular e coletiva. Portanto, para Evaristo, qualquer escritora/o tem a escrita inevitavelmente contaminada pela sua subjetividade.

Em seu ensaio “Da representação à auto-apresentação da mulher negra na literatura brasileira”, a autora ressalta que

Se há uma literatura que nos inviabiliza ou nos ficcionaliza a partir de estereótipos vários, há um outro discurso literário que pretende rasurar modos consagrados de representação da mulher negra na literatura. Assenhoreando-se “da pena” objeto representativo do poder falo-cêntrico branco, as escritoras negras buscam inscrever no corpus literário brasileiro imagens de uma auto-representação. Criam, então, uma literatura em que o corpo-mulher-negra deixa de ser o corpo do “outro” como objeto a ser descrito, para se impor como sujeito-mulher-negra que se descreve, a partir de uma subjetividade própria experimentada como mulher negra na sociedade brasileira.

(EVARISTO, 2005, p. 54)

Contudo, a escrevivência foi pensada nesta pesquisa como uma ferramenta metodológica de caráter político e social, assim como a perspectiva que Machado e Soares (2017) vêm utilizando no campo da psicologia social. Uma escrita com uma estética peculiar, carregada de marcas socioculturais, que permite conforto e fluidez, o que possibilita a exposição de uma subjetividade própria em sua construção.

Desta forma, quando pesquisei com o grupo de mulheres negras suas trajetórias, não me distanciei do meu eu, mulher-negra-nordestina-periférica. Afirmo que, ao reconstruir essas trajetórias, sigo traçando uma escrevivência, resgatando marcas da cultura oral, tão cara à

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população negra. Todavia, isso não significa que esse estilo de escrita seja palatável, pelo contrário, é uma escrita/leitura afetada, a fim de nos causar incômodos sociais necessários, como salienta Evaristo (2007).

Ao continuar o diálogo com Lisandra Soares Vieira e Paula Machado Sandrine, expondo a minha compreensão da escrevivência enquanto ferramenta teórica, aprendendo a definição do conceito de escreviver, agora pensado a partir das suas experiências, tratando a escrevivência como ferramenta metodológica:

Escreviver significa, nesse sentido, contar histórias absolutamente particulares, mas que remetem a outras experiências coletivizadas, uma vez que se compreende existir um comum constituinte entre autor/a e protagonista, quer seja por características compartilhadas através de marcadores sociais, quer seja pela experiência vivenciada, ainda que de posições distintas (MACHADO; SOARES, 2017, p. 206).

Deste modo, a intenção da escrita neste trabalho foi vincular a sofisticação científica/acadêmica, incluindo o pessoal e subjetivo representado pelos relatos de 4 mulheres negras, como parte do discurso acadêmico. “Um discurso que é tão político quanto pessoal e poético [...] Essa deveria ser a preocupação primordial da descolonização do conhecimento acadêmico” (KILOMBA, 2019, p. 59). Um discurso teorizado nas margens, posicionado em um lugar que não é neutro, demandando uma linguagem didática, que utilize conceitos elaborados, mas que possam ser facilmente compreendidos pela/o leitora/o.

Para Ribeiro (2017), isso de modo algum é ser palatável, pois as produções de feministas negras unem uma preocupação que vincula a sofisticação intelectual com a prática política, com a intenção de legitimar a produção de mulheres negras e descolonizar o pensamento, trazendo para o debate diferentes perspectivas. Na minha concepção, esta é a maior batalha epistêmica e metodológica deste trabalho: produzir um conhecimento que seja acessível, não só nos espaços universitários, mas nos movimentos sociais e escolas de ensino básico, por exemplo.

Afinal de contas, para adentrarmos os espaços de poder historicamente ocupados por brancos, em especial na universidade, precisamos acessar a língua padrão ou estaremos mais uma vez sendo excluídos de ambientes, como os espaços acadêmicos. Compreendemos que a linguagem estabelecida como padrão é arraigada no colonialismo e arbitrária às outras vozes e culturas populares. Contudo, nós, negras e negros, precisamos primeiramente estar nesses lugares, de forma não subalternizada.

E a partir disso, criarmos outras linguagens possíveis. Pressuponho que seja este o caminho para legitimar a nossa presença, enquanto grupo social marginalizado. Precisamos, a todo instante, refutar a ideia da voz única e a exclusão histórica de uma pluralidade de vozes

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em espaços de poder. Inspirada por Kilomba (2019), questiono: quem pode falar? O que acontece quando nós falamos? E sobre o que é nos permitido falar? Para Ribeiro (2017), precisamos romper com o silêncio institucionalizado, que segundo a autora é produzido a partir da imposição de uma voz única, uma voz que quer falar sobre nós. Para a autora, ter direito a voz é ter direito à humanidade.

Pensar lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia [...] Há pessoas que dizem que o importante é a causa, ou uma possível “voz de ninguém”, como se não fôssemos corporificados, marcados e deslegitimados pela norma colonizadora.

Mas, comumente, só fala na voz de ninguém quem sempre teve voz e nunca precisou reivindicar sua humanidade (RIBEIRO, 2017, p. 90)

Desta forma, reafirmo que ocupo este espaço, reconhecendo-o como direito meu também, portanto, as questões desta pesquisa podem e são trazidas de outra forma, de outro lugar. Escrevo de dentro de um lugar distinto, onde este discurso nasce e se amplia. Em vista disso, as autoras que aqui foram pensadas para reiterarem as discussões discordam veementemente da ideia de um discurso fincado em uma neutralidade epistemológica; pelo contrário, reconhecem e legitimam o discurso que nasce apoiado e localizado em um lugar social, que carrega marcas e, por vezes, silêncios. Em síntese, cada palavra, conceitos e referenciais que optamos politicamente em utilizar, definem o lugar de uma identidade e representação. Sendo assim, nada mais sensato que Conceição Evaristo para nos falar de uma escrita fincada em um lugar/contexto social.

[...] quando crio a minha ficção, não me desvencilho de um ‘corpo-mulher-negra em vivência’ e que por ser esse ‘o meu corpo, e não outro’, vivi e vivo experiências que um corpo não negro, não mulher, jamais experimenta. As experiências dos homens negros se assemelham muitíssimo às minhas, em muitas situações estão par a par, porém há um instante profundo, perceptível só para nós, negras e mulheres, para o qual nossos companheiros não atinam. Do mesmo modo, penso a nossa condição de mulheres negras em relação às mulheres brancas. Sim, há uma condição que nos une, a de gênero. Há, entretanto, uma outra condição para ambas, o pertencimento racial, que coloca as mulheres brancas em um lugar de superioridade – às vezes, só simbolicamente, reconheço - frente às outras mulheres, não brancas (EVARISTO, 2009, p. 18).

A escrita escrevivente propõe uma reviravolta nos padrões científicos, trazendo uma narrativa singular, mas que a todo instante ressalta um coletivo, isto é, a um grupo social cujas vozes são histórica e epistemicamente sufocadas: as mulheres negras pobres e sem escolarização. Resgato o termo “pretuguês”, de Lélia Gonzalez (1988b), considerado resultado da interação entre a língua do colonizador e a resistência linguística dos africanos, que segundo

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a autora foi transmitido pelas mulheres negras na figura da mãe preta, que através de um golpe linguístico transmitiam a intelectualidade africana (AKOTIRENE, 2019).

Aclamada como uma das mais importantes intelectuais brasileiras, durante a sua vida, esta autora adensou os seus estudos no campo da filosofia, geografia e história, refletindo o racismo e o sexismo no Brasil. Estabelecendo urdiduras com textos de Gonzalez e pesquisas sobre sua obra, destaco o livro Lélia Gonzalez: uma rosa negra para novas primaveras!

(GONZALEZ, 2019). O livro foi lançado em 2018 e reúne uma série de artigos, textos e entrevista da autora.

Renata Gonçalves, professora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), escreveu uma resenha sobre a obra e nos apresenta Lélia com destreza:

Atrevida, sem pedir licença, circulou pelo elitista meio acadêmico brasileiro, subverteu a norma culta e impôs o “pretuguês”. Dedicada, mergulhou em busca de suas origens. Ousada, se pôs em movimento e denunciou a estrutura racista e patriarcal da sociedade brasileira. Irreverente, não aceitou reduzir a questão racial e de gênero a uma simples relação econômica. Lélia Gonzalez foi um turbilhão de ideias e de ações. (GONÇALVES, 2019, p. 192)

Para Gonzalez (1984), a linguagem é um fator de humanização e subjetivação, que desloca o negro de objeto passivo para a condição de sujeito que se apropria de saber. Em seu texto Racismo e Sexismo na cultura brasileira, ela nos fala sobre a posição de subalternização da população negra na sociedade brasileira, determinada pela lógica da dominação, que tenta nos domesticar. Lélia fala que nós, negros, estamos no “lixo da sociedade brasileira”, e afirma:

“O lixo vai falar, e numa boa!”.

Pensando o conceito de escrevivência aplicado como ferramenta metodológica de investigação, produção de conhecimento e posicionalidade, em meio a diversos recursos de escrita, a escrevivência se utiliza da experiência do/a autor/a para viabilizar narrativas que dizem respeito à experiência coletiva de mulheres (MACHADO; SOARES, 2017).

A produção de Evaristo aponta para o necessário incômodo que a escrita de mulheres negras precisa provocar no interior da produção científica hegemônica, marcadamente branca e androcêntrica, como um sinal da virada epistêmica em que essa produção se insere, bem como por sustentar a força de uma ética engajada à militância nos escritos e movimentos políticos de mulheres negras (MACHADO; SOARES, 2017, p. 203).

As histórias das mulheres registradas e problematizadas na pesquisa apresentam uma potente dicotomia, pois são vidas que se assemelham nas suas interseccionalidades e se diferem nas particularidades presentes na trajetória de cada uma, pois a mulher negra que fala de si fala também de várias outras mulheres que são socialmente silenciadas. A fim de compreender como

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este elemento será utilizado como instrumento analítico na pesquisa, a próxima seção traz algumas autoras/pensadoras com quem debrucei teoricamente sobre a intersecção que procura urdir a trajetória das 4 mulheres negras desta pesquisa.

1.2 As aventuras e desventuras de uma tríplice condição

Pensar uma pesquisa no campo educacional de uma maneira interseccional implica considerar a complexidade das mulheres negras que fazem parte da pesquisa. Desta forma, é pensar as avenidas identitárias (AKOTIRENE, 2019), de modo indissociável, considerando as múltiplas posições do sujeito. Contudo, aqui trataremos da interseccionalidade na perspectiva de raça, classe e gênero, desconsiderando outros marcadores sociais, como, religião, idade e orientação sexual, por exemplo. O importante de um trabalho investigativo, nesta perspectiva interseccional, é não levar em conta somente e isoladamente uma categoria a ser analisada. É construir um olhar atento ao problema investigado em todas as suas nuances e intersecções.

Intencionar um trabalho com esta perspectiva é buscar o desafio de compreender também o contexto, pois se durante o processo somente os sujeitos forem evidenciados, os deslocamentos e as reflexões podem se tornar limitados.

Os estudos com perspectiva interseccional têm sido adensados no movimento feminista negro por autoras como Angela Davis (2016), Patricia Hill Collins (2003), Sueli Carneiro (2003), entre outras mulheres negras que nos mostram que questões próprias deste grupo vêm sendo negligenciadas em pesquisas, quando o marcador social raça é invisibilizado. No Brasil, destacam-se os estudos de Lélia Gonzalez, que anunciam aproximações com o que chamamos, hoje, de feminismo interseccional, na mesma época em que o tema é também anunciado pelas negras norte americanas. Entretanto, a questão da raça é crucial para pensamos nas mulheres negras, principalmente no contexto do Brasil, considerando que este grupo é desvalorizado não somente do ponto de vista acadêmico, como na sociedade como um todo, de forma estrutural.

No livro O que é interseccionalidade?, de Carla Akotirene (2019), autora contemporânea brasileira que tem adensado estudos e pesquisas na perspectiva interseccional de raça, classe e gênero, o feminismo negro dialoga com as encruzilhadas do racismo, cisheteropatriarcado e capitalismo: “[...] a interseccionalidade sugere que raça traga subsídios de classe-gênero e esteja em um patamar de igualdade analítica.” (AKOTIRENE, 2019, p. 36).

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A interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado – produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais. (AKOTIRENE, 2019, p. 19)

A autora traz uma escrita em primeira pessoa, com estilo peculiar, atravessado de marcas ancestrais, posicionando-se avessa às ferramentas modernas de validação científica. Uma escrita que se dá a partir de um lugar político e social vivenciado pela autora, que se denomina inspirada por Lélia Gonzalez, como uma forasteira de dentro, uma mulher negra que rompe com as estatísticas e se infiltra na academia (AKOTIRENE, 2019, p. 21). Na visão de Akotirene (2019), as mulheres negras não têm como escapar da encruzilhada teórica, portanto, ao ocuparem espaços historicamente negados, como as universidades públicas, elas se engajam em desfazer as rotas hegemônicas criadas pela teoria feminista.

Diante do exposto, torna-se necessário que pesquisas com mulheres negras estejam ancoradas a uma ferramenta anticolonial (AKOTIRENE, 2019). Em vista disso, para Sueli Carneiro (2003), o questionamento “De que mulheres nós estamos falando?” é uma indagação crucial no processo de pesquisas com mulheres, afinal, somos diversas, e a demarcação social se faz necessária a fim de delimitar de onde partem estas mulheres e de que lugares nascem as suas narrativas. Carneiro (2003, p.118) utiliza a expressão “Enegrecendo o feminismo” para denominar a trajetória das mulheres negras no movimento feminista brasileiro.

Para a autora, a concepção feminista negra se manifesta da condição específica do ser mulher negra e das classes populares no Brasil, um feminismo negro que aponta fincado em uma perspectiva interseccional.

Porém, em conformidade com outros movimentos sociais progressistas da sociedade brasileira, o feminismo esteve, também, por longo tempo, prisioneiro da visão eurocêntrica e universalizante das mulheres. A consequência disso foi a incapacidade de reconhecer as diferenças e desigualdades presentes no universo feminino, a despeito da identidade biológica. Dessa forma, as vozes silenciadas e os corpos estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas de opressão, além do sexismo, continuaram no silêncio e na invisibilidade. (CARNEIRO, 2003, p. 118)

Os dados acerca da população negra acima relatados, nos mostram a importância de as pesquisas terem uma perspectiva que integre o recorte de raça, pois quando esta marcação racial, em pesquisas com mulheres, é desconsiderada, o diálogo pode se tornar limitado. Nas últimas décadas, no âmbito dos movimentos sociais e da sociologia, muito se tem discutido acerca da interseccionalidade, tendo como uma das suas precursoras a professora de Direito da Universidade da Califórnia Kimberlé Crenshaw. A autora pensa as intersecções que perpassam a experiência de mulheres, explorando as dimensões de raça e gênero nos estudos sobre

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violência contra mulheres negras (CRENSHAW, 1984). Considero relevante problematizarmos a expressão violência doméstica, ainda muito utilizada, principalmente aqui no Brasil, colocando a questão da violência no âmbito do privado, quando na verdade é necessário reconhecermos o fator como parte de um sistema de dominação social.

Crenshaw (2002) explicita do que se trata a perspectiva interseccional:

A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. (CRENSHAW, 2002, p. 177)

Embora o conceito de interseccionalidade tenha se tornado usual nas últimas décadas e tenha como principal referencial teórico a estadunidenses Kimberlé Crenshaw, Lélia Gonzalez, em suas falas e textos sobre o papel das trabalhadoras negras na sociedade brasileira, já destacava a imbricação de raça, gênero e classe. A autora nomeou esse encontro de opressões como uma discriminação tríplice vivida pelas mulheres negras no Brasil (GONZALEZ, 2018).

Estudando a trajetória de Gonzalez, suponho que esse movimento de teorização possa ser entendido como uma busca em compreender teoricamente a própria existência. No seu trabalho intitulado “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (GONZALEZ, 1984), a autora traz para o debate a interseccionalidade de opressões presente fortemente na vida de mulheres negras.

O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós, o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular.

(GONZALEZ, 1984, p.224)

A reflexão acerca da intersecção na pesquisa como forma de investigação vem sendo pensada também na perspectiva da socióloga, estadunidense negra, professora e ativista na luta antirracista Patricia Hill Collins (2017). A interseccionalidade como uma teoria transdisciplinar visa aprender a complexidade das identidades e desigualdades sociais, sem enclausurar, somar ou hierarquizar opressões. A autora acredita que este conceito seja uma aproximação dos conhecimentos científicos com os conhecimentos ditos populares, saberes que não são legitimados socialmente.

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A interseccionalidade conecta dois lados de produção de conhecimento, a saber, a produção intelectual de indivíduos com menos poder, que estão fora do ensino superior, da mídia de instituições similares de produção de conhecimento, e o conhecimento que emana primariamente de instituições cujo propósito é criar saber legitimado. A interseccionalidade pode ser vista como uma forma de investigação crítica e de práxis, precisamente, porque tem sido forjada por ideias de políticas emancipatórias de fora das instituições sociais poderosas, assim como essas ideias têm sido retomadas por tais instituições. A eficácia das ideias centrais de interseccionalidade, em situações díspares politicamente, levanta questões importantes sobre a relevância do conhecimento para a luta por liberdade e iniciativas de justiça social. (COLLINS, 2017, p. 1)

O conceito vem trazendo novas perspectivas teóricas para a academia, partindo de uma crítica a produções de conhecimentos tradicionais. Collins (2017) aponta a inserção da interseccionalidade nos espaços e pesquisas acadêmicas através de um processo que nasce nos movimentos sociais e que é levado para a discussão nesses espaços pelas mulheres negras engajadas em tais movimentos. Mulheres negras que adentram os espaços negados trazem consigo a sensibilidade dos movimentos sociais. Para a autora, a interseccionalidade pode servir como ferramenta teórica metodológica para estudar qualquer objeto ou campo de investigação, permitindo um olhar além do que está posto.

Em outubro de 2019, tive a oportunidade de ouvir uma fala da ativista e professora Angela Davis, na abertura do 12° Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas, que ocorreu no Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro. A palestra tinha como título “A liberdade é uma luta constante”, nome de um dos livros da autora, do qual, inclusive, lemos um capítulo na disciplina 3Tópicos Especiais em Diversidade, Desigualdades Sociais e Educação - População negra: gênero e raça. A autora, que recusa veemente a neutralidade epistemológica, iniciou a sua fala pontuando a ausência das mulheres negras na democracia. Para ela, somente com a presença efetiva da população negra a democracia será justa e igualitária para toda a sociedade, pois desta forma romperíamos com as assimetrias sociais.

A democracia que exclui o povo negro não é uma democracia. Uma democracia que exclui as mulheres negras não é uma democracia para todos. Se queremos compreender o segredo para que se possa estabelecer caminhos rumo à democracia, devemos nos voltar para os movimentos que são liderados por mulheres negras, devemos estar ao lado delas e apoiá-las. Ao fazer isso, você estará apoiando os movimentos de base que estão destinados a mudar o mundo. (DAVIS, 2019)

Em seu livro A liberdade é uma luta constante, a autora nos fala sobre a universalidade da categoria “mulher”, explicitando que ela precisa ser repensada, mas isso não significa

3 Disciplina cursada no Programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense.

Referências

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