Aos funcionários da secretaria municipal de saúde - SMS de Paraty, Rio de Janeiro, pela hospitalidade. Portaria nº 992, do Ministério da Saúde (MS) - Gabinete do Ministro (GM) (BRASIL, 2009): A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra - PNSIPN.
A reprodução do racismo e do colonialismo no campo da saúde
Segundo Araújo (2015), a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – PNSIPN, por exemplo, é a concretização da luta desses movimentos sociais, reivindicando o direito desse segmento da população à saúde, além de fortalecendo a noção. de justiça social. A ideia subjacente à “saúde da população negra” já demonstra certa polissemia, culminando na reflexão sobre a importância de rever diferentes contextos de compreensão e matrizes históricas e sociais, para pensar um sistema de saúde capaz de se estruturar a partir de uma visão integral, perspectiva pluriversal, integral e igualitária.
As contradições da perspectiva construtivista: por que os brancos
Para Sabroza (2001), médico e pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz, é possível reconhecer a ideia de saúde e doença a partir da posição do observador, manifestando-se como alterações celulares, sofrimento ou problema de saúde pública. Ao longo da história surgiram diversos conceitos de práticas de cura, crenças sobre a saúde e interpretações do processo de saúde e doença – todos impregnados das transformações ocorridas na sociedade ocidental, desde os povos da antiguidade, com o pensamento mágico-religioso : responsável pelo desenvolvimento inicial da prática médica, que é gradualmente substituída pelo empirismo racional dos fenômenos saúde-doença até que o paradigma biomédico e a determinação social da doença sejam alcançados (BATISTELLA, 2007; MENDES, 1996; SCLIAR, 1987).
Mais Médicos ou mais saúde? Eis a questão!
No que diz respeito às práticas oficiais de saúde, Langdon e Wilk (2010) enfatizam o papel dos profissionais de saúde no reforço do paradigma biomédico hegemônico. Por um lado, o acesso às ações e serviços de saúde traz benefícios – ainda que limitados – às populações atendidas.
Uma história de resistência: do racismo científico à cosmovisão
Oliveira (2003) destaca algumas questões sobre a condição de saúde da população negra e a influência do paradigma biomédico como reflexo da geração de dominação racial epistêmica. Soma-se a isso o legado da formação de profissionais de saúde que moldam suas ações na prática tendo como referência o paradigma biomédico relevante.
Da universalização à interculturalidade: um caminho necessário
Além disso, identifica-se uma importante influência nos processos de formação dos profissionais, que direciona a organização e a prestação dos cuidados de saúde (ALMEIDA FILHO, 2010). A interculturalidade em saúde também pode contribuir como ferramenta teórica e metodológica, que se incorpora ao processo de formação-qualificação dos profissionais de saúde e influencia a formulação e implementação de políticas públicas no campo da saúde. Nesse sentido, buscamos compreender a relação dos saberes tradicionais que envolvem o adoecimento e a cura nas comunidades tradicionais quilombolas, com as práticas de saúde desenvolvidas pelos profissionais das Equipes de Assistência.
Do holocausto negro de Maafa ao Sistema Único de Saúde
De certa forma, a força de trabalho branca europeia formada no Brasil exigiria a “proteção” até então negada aos negros e seus descendentes, num processo permanente de negação da humanidade, reajustado na forma como o Estado brasileiro projeta sua política. O racismo científico e, por consequência, a eugenia e a higiene, já operavam no estado por influência, com apoio massivo da elite social brasileira. E nesta confusão institucional, as políticas de proteção social do Estado brasileiro não são plenamente implementadas nos contextos complexos dos territórios multiétnicos.
Por um Sistema Único de Saúde pluriversal: a afrocentricidade que
A influência do modo de existência dos africanos no cotidiano do Brasil e de seus conhecimentos éticos e cosmológicos pode ser percebida por meio de manifestações culturais, espiritualidade, organizações sociais, grupos específicos25 e saberes dispersos, que se materializaram no processo de resistência física e simbólica do ordem hegemônica estabelecida (MOURA, 2019; SODRÉ, 2017). Portanto, é necessário qualificar as políticas públicas baseadas em outras tecnologias sociais não ocidentais, reconhecendo a trajetória de existência dos negros brasileiros - que até agora os movimentos sociais, como o movimento sanitário, não conseguiram reconhecer. Este autor apresenta sua tese quilombista como uma tecnologia social que os movimentos sociais negros devem adotar no processo de organização da resistência política – o quilombismo como agência.
Escrevivências
Minha aproximação com a comunidade quilombola do Campinho da Independência, Paraty, Rio de Janeiro, aconteceu primeiramente através do meu diálogo anterior como apoiador institucional da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro - SES-RJ, juntamente com a liderança do Comunidade Ronaldo dos Santos. Naquele momento, a secretaria discutiu com gestores municipais de saúde e lideranças de movimentos sociais a implementação do Decreto nº. Minha recente aproximação com o movimento social quilombola se deu em meio ao trabalho direto, desde março de 2020, na Comissão de Saúde da ACQUILERJ, tratando das questões e demandas de saúde de todas as comunidades quilombolas do estado do Rio de Janeiro.
Não começou com o “campo”, não vai terminar no Doutorado
Lá conheci outras lideranças quilombolas do Campinho da Independência, com a fase de titulação territorial já concluída. Contudo, participei efetivamente da implantação da primeira Unidade Básica de Saúde da Família – UBS na comunidade Campinho – primeiro território titulado quilombola do estado do Rio de Janeiro. Portanto, retorno à comunidade tradicional quilombola do Campinho da Independência, através de sua liderança local, o presidente da associação de moradores, Ronaldo.
Um quilombo de matripotência
Acessar o universo imaginado de um grupo como este mostra-se essencial para profissionais dispostos a compreender os desafios que a comunidade enfrenta. Os entrevistados confirmam a crítica de que a relação deste condomínio com as comunidades da região é “tensa” – o que se expressa no facto de. A contextualização da saúde e da qualidade de vida dos povos tradicionais, a partir da apropriação de um conceito “descolonizado” de território que reconhece a complexidade que o constitui, permite compreender que a luta pela vida é uma luta pelo espaço em que vivemos. ao vivo. Ao vivo.
Nossos saberes não vêm somente dos livros
Quando se trata de estudar a história do quilombo contemporâneo, o assunto é de extrema importância para a afirmação da identidade local e a preservação do conhecimento. Os líderes comunitários enfatizam que a AMOQC tem lutado dentro e fora da comunidade por uma educação verdadeiramente diferenciada – quilombola; uma educação que valorize a cultura afro-brasileira numa perspectiva crítica e de empoderamento de jovens e crianças, e não uma educação alienante que mantenha o status quo das desigualdades étnico-raciais. No documento que trata da proposta pedagógica para a educação quilombola, Glória Moura descreve que “a afirmação da identidade nas comunidades rurais negras inclui o valor da terra e a especificidade de suas expressões culturais”.
Preconceito em tempos de pandemia: a busca por uma vacina
Diante de uma série de práticas sociais e individuais que significam a reprodução do racismo no aparato institucional, existem verdadeiras “barreiras sociais” que dificultam ainda mais o acesso da população negra a políticas de mitigação das desigualdades sociais. Fiz questão de ressaltar que, além de enfermeira, estaria lá após o término da vacinação como pesquisadora para realizar um estudo sobre serviços de saúde em uma comunidade tradicional quilombola. Na situação em questão, confirmou-se cada vez mais que a relativização do racismo muito contribuiu para a sua perpetuação, favorecendo interpretações erróneas de políticas afirmativas e a incapacidade de identificar desigualdades étnico-raciais nos cuidados de saúde – um racismo que se constrói e se reproduz. em biomedicina.
O negacionismo da própria ciência
A CONAQ e a associação de moradores enfatizaram a importância do ocorrido como movimento de resistência e ganho político, promovendo a visita do prefeito de Paraty à unidade de saúde para realizar uma transmissão ao vivo com esclarecimentos e dúvidas da AMOQC junto ao Ministério Público. Lá, o mandatário destacou o PNI e esclareceu que os quilombolas que receberam a vacinação seriam apenas os cadastrados na secretaria de saúde. Além disso, abriu espaço para que um representante da equipe de saúde dê as devidas orientações gerais sobre vacinação.
E eu não sou uma quilombola?
Enquanto isso, em 29 de junho de 2021, o Tribunal Maior decidiu que os quilombolas que permanecem fora das comunidades em razão de estudos, atividades acadêmicas ou cuidados de saúde para si ou para seus familiares deveriam ser incluídos no PNI e no próprio Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia da COVID-19 . A tensão velada entre os representantes da AMOQC e a gestão municipal dos serviços de saúde de Paraty reforçou a impressão inicial de que a exigência e o direito de acesso à vacinação devido à situação de extrema vulnerabilidade não se aplicavam ao caso do Campinho da Independência, ressaltando a rejeição sistemática da o impacto histórico das relações sociais racializadas no país em questão. contexto social que transforma a política reparadora e justa numa mera concessão. No intervalo de três meses entre a primeira e a segunda dose da campanha de vacinação contra a COVID-19 na comunidade do Campinho, com uso da vacina AstraZeneca/Oxford, da qual participei, aprofundei e ampliei as conversas com representantes da AMOQC e com algumas pessoas na comunidade; Caminhei pelo território; Fui à escola conversar e conhecer os professores e a diretora;
Eu sou quilombo
Consegui vacinar minha mãe naquele dia, era o primeiro dia de vacinação no quilombo e aí fui perguntar sobre mim e a agente comunitária de saúde disse que não porque eu não estava cadastrado no cadastro dela que ela tinha feito com o relacionamento com meu. a postagem. Mas quando voltei para o posto ela disse que não, ainda não podia porque eu não morava mais no território, não morava mais no território, eu tinha saído. Nesse sentido, os profissionais envolvidos na assistência à saúde na comunidade quilombola do Campinho da Independência atuam no nível da Atenção Básica.
A integralidade como confluência de saberes em novas
Quando se tem como princípio o compartilhamento de conhecimentos e práticas daqueles que a constituem, a noção de pertencimento aos que compõem a comunidade torna-se crucial para o seu sucesso. Para esta reflexão crítica, compartilhada com diferentes segmentos, como pano de fundo, há necessidade de estabelecer um processo de trabalho em saúde capaz de articular saberes biomédicos e saberes tradicionais na comunidade quilombola do Campinho da Independência. Nesse sentido, resgatar conhecimentos tradicionais de origem africana é também um ato político de reconhecimento e afirmação da negritude.
Diálogos possíveis
Ao mesmo tempo, há uma alternativa para mudar a lente da formação biomédica, trazendo novas perspectivas para trabalhar a formação acadêmica, uma abordagem epistemológica da proposta do projeto Encontro de Saberes aqui adotada. Poderemos então qualificar os atuais Encontros de Saberes como cotas epistêmicas, promovendo a inclusão de mestres dos nossos povos tradicionais – povos indígenas, quilombolas, comunidades afro-brasileiras e culturas populares tradicionais – como professores universitários em disciplinas ordinárias, com a mesma posição de autoridade como professores doutores (CARVALHO, 2018, p. 80). O projeto Encontro de Saberes reconhece a necessidade de criação de novas referências de conhecimento dentro da universidade em todas as áreas de formação, viabilizando cotas epistêmicas.
Visitas domiciliares: os saberes de portas abertas
De fato, é possível aprimorar estratégias no Sistema Único de Saúde - SUS que promovam o diálogo entre ensino e serviços (por exemplo, educação permanente em saúde e educação popular em saúde). A ACS então orientou que ela retirasse alguns medicamentos na farmácia central da sede municipal, pois a distribuição dos medicamentos na UBS Campinho era centralizada pela Secretaria Municipal de Saúde – SMS de Paraty. Nos encontros subsequentes, explorei cada vez mais a narrativa dos cuidados com as plantas, com o objetivo de problematizar a abordagem do tema de suas propriedades medicinais relevantes para esta comunidade quilombola, visto que há um discurso recorrente, incluindo um relato de lideranças comunitárias que lembrou com carinho o primeiro médico da UBS Campinho quando ali foi criada a primeira Equipe de Saúde da Família - EqSF.
A medicina e o quilombo
Aí eu disse que você não precisa de Morran para isso, mas as pessoas disseram “Eu quero Morran”. E aí eu noto isso aqui, assim como Patrimônio e Cabral, além de três posts. Durante as consultas eu noto muita coisa [..] estive em consulta com uma mulher que já havia entrado na menopausa com problema de ressecamento vaginal.
O mutirão como estratégia
A Griô e o Sistema Único de Saúde
Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Programa de Pós-Doutorado, Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2015. O movimento negro na construção da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e sua relação com o estado brasileiro. por Tânia Mara Pedroso Müller. História e reflexão sobre a política de saúde mental no Brasil e no Rio Grande do Sul.