[...] é o espírito, a luz-guia da tribo; é onde as pessoas se reúnem para realizar um objetivo específico, para ajudar os outros realizarem seu propósito e para cuidar umas das outras. O objetivo da comunidade é assegurar que cadamembro seja ouvido e consiga contribuir com os dons que trouxe ao mundo, da forma apropriada. Sem essa doação, a comunidade morre. E sem a comunidade, o indivíduo fica sem um espaço para contribuir. A comunidade é uma base na qual as pessoas vão compartilhar seus dons e recebem as dádivas dos outros. Quando você não tem uma comunidade, não é ouvido; não tem um lugar em que possa ir e sentir que realmente pertence a ele; não tem pessoas para afirmar quem você é e ajudá-lo a expressar seus dons. Essa carência enfraquece a psique, tornando a pessoa vulnerável ao consumismo e a todas as coisas que o acompanham. Além disso, a falta de comunidade deixa muitas pessoas com maravilhosas contribuições a fazer sem ter onde desaguar seus dons, sem saber onde pô-los. Quando não descarregamos nossos dons, vivenciamos um bloqueio interior que nos afeta espiritual, mental e fisicamente, de muitas formas diferentes. Ficamos sem ter um lugar para ir, quando temos necessidade de ser vistos.
Para Somé (2007), a comunidade parece funcionar como um dispositivo de acolhimento de seus membros, tornando-se decisiva para a tomada de rumo de suas questões. Tendo o compartilhamento dos saberes e fazeres de quem a constitui como um princípio, a noção de pertencimento daqueles que integram a comunidade se torna imperativa para o seu êxito. Pela reciprocidade do que cada indivíduo pode doar, bem como do que cada indivíduo pode receber de outros membros que se encontram nesse meio comum, é que emerge a possibilidade de se ver e reconhecer uns nos outros. Logo, suas existências se fortalecem, estreitando as redes de solidariedade quando cuidam uns dos outros.
Do ponto de vista operacional, registro algumas limitações que se apresentaram no percurso de campo da presente pesquisa. Por mais que eu me envolvesse com as demandas comunitárias, o empreendimento da pesquisa com recursos próprios, em alguns momentos, prejudicou minha mobilidade. Outra limitação foi que, mesmo liberado presencialmente do trabalho, tive que manter minhas atividades no modo home office nos finais de semana e nas segundas-feiras – fato que me sobrecarregou.
equipe de saúde da UBS Campinho, a experiência de identificação de confluências entre saberes tradicionais e os conhecimentos biomédicos e as possibilidades de interação em meio ao colonialismo e seus pressupostos epistemicidas e o racismo.
Tem-se ainda a concepção do racismo como uma habilidade historicamente constituída, que desempenhou papel determinante na trama que desembocou no conflito civilizatório entre o ocidente e as demais sociedades não ocidentais (MOORE, 2012).
Para a presente reflexão crítica, compartilhada com diferentes segmentos, como pano de fundo, tem-se a necessidade de estabelecer um processo de trabalho em saúde capaz de articular conhecimento biomédico e saberes tradicionais na comunidade quilombola do Campinho da Independência. Nesse ínterim, enquanto profissional da equipe de saúde, estive em diálogo permanente com as lideranças comunitárias, realizando Visitas Domiciliares – VDs com ACS e profissional médica, organizando reuniões e empreendendo conversas aprofundadas com os Griôs da comunidade.
Como idealização, tomei por base a afroperspectivação quilombista do sistema e do cuidado em saúde, a desarticulação do racismo biomédico46 e as propostas metodológicas emancipatórias, tendo em vista horizontalizar os diferentes conhecimentos e saberes, abordando as configurações sociais complexas produzidas por realidades interculturais e modos de vida plurais historicamente marginalizados (NASCIMENTO, 2019; CARNEIRO; PESSOA; TEIXEIRA, 2017;
BELCHIOR, 2015; CARVALHO; LELIS, 2014; NOGUERA, 2012).
O desafio de construir possibilidades de diálogos com atores sociais que, no decorrer do tempo, constituíram movimentos de resistência à empreitada colonialista, culminou em fonte de aprendizado e respeito àquelas pluralidades de modos de vida.
Em prefácio de um estudo organizado por Carneiro, Pessoa e Teixeira (2017), que reuniu experiências e reflexões de pesquisadores das comunidades tradicionais que integraram tal empreitada, em diálogo com pesquisadores acadêmicos, Boaventura de Sousa Santos atenta que, na abordagem de temas complexos quando das realidades singulares de comunidades tradicionais, faz-se importante
46 Engendramento dos racismos institucional, científico epistemicida e cultural, manifestos via serviços de saúde.
repensar a trajetória do conhecimento científico – resultado de um paradigma que promoveu a ruptura entre o sujeito do conhecimento e o objeto.
Contracolonialmente a esta ordem cientificista hegemônica, resguardam-se, em diferentes territórios, saberes e fazeres de povos tradicionais como resistência a todos os modos de colonialidade. Nesse viés, constata-se que:
O universo científico não comporta todas as formas de saber, nem dispõe de mecanismos apropriados ao (re)conhecimento que emerge de etnicidades ou culturas portadoras de saberes ou conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade. Os saberes tradicionais compõem um conjunto de informações, modos de fazer, criar e saber, que são transmitidos oralmente entre os participantes de determinado grupo, transcendendo gerações, via de regra agregados à biodiversidade e que representam não somente o trabalho destas comunidades, mas constituem parte da sua cultura, suas práticas e seus costumes (CARVALHO; LELIS, 2014, n. p.).
Contraditoriamente, na perspectiva de resistência, sucumbida a necessidade de diálogo, tem-se aqui o corpus de saberes da comunidade do Campinho da Independência, a partir dos relatos das lideranças comunitárias, sobretudo, da Griô d. Dilma e da equipe de saúde local, em observância ao modo de produção de conhecimento territorializada da cultura afropindorâmica quilombola.
Aquela comunidade tem sua organização em 14 núcleos familiares. Sua UBS está situada no espaço cedido à prefeitura do núcleo familiar dos Martins, onde também se encontram a escola, a igreja e uma das casas de artesanato.
A organização nuclear da comunidade favoreceu a mobilização política que unificou a luta comunitária pelo território desde a década de 1970, em função dos conflitos e das dificuldades provocadas pela construção da Rodovia Rio-Santos.
Após a construção da autoestrada, surgiram ali indivíduos se afirmando netos de antigos fazendeiros que tinham ido embora. A partir daí, se deu um grande esforço coletivo para provar que as terras lhes pertenciam, e não aos forasteiros, e que existia uma história de vida e integração com a natureza (SANTOS; ASSIS; GALLO, 2017) – uma biointegração, como destaca Santos (2019).
A conquista da titulação da terra em 21 de março de 1999, e a mobilização política atual, foram os resultados da organização empreendida – fruto do aprendizado político de resistência da comunidade, conforme o relato dos representantes da Associação de Moradores do Quilombo Campinho da Independência – AMOQC, do sindicato rural local e da Pastoral da Terra ali atuante.
Em um contexto onde diferentes tensionamentos são trazidos pelo racismo estrutural e pelo colonialismo, a presente pesquisa pensou a organização do cuidado em saúde em meio aos saberes e fazeres tradicionais resistentes, de vários modos, naquela comunidade.
Situo-me como uma conexão entre o processo de trabalho em saúde da UBS Campinho e sua comunidade, sem perder de vista meu lugar enquanto pesquisador – este último também marcado por uma trajetória de vivências racializadas e críticas ao status quo cientificista da instituição acadêmica e da sociedade hierarquicamente racializada.
No aspecto de crítica à racionalidade acadêmica ocidental, Nascimento (2019, p. 199) recorre aos estudos de Cheickh Anta Diop, para reafirmar a importância da produção de conhecimentos afroreferenciada, destacando que o trabalho daquela estudiosa
[...] apresenta uma confrontação radical e um desafio irrespondível à arrogância intelectual, a desonestidade científica e à carência ética do mundo acadêmico ocidental ao tratar os povos, civilizações e culturas produzidas pela África. Utilizando-se dos recursos científicos euro- ocidentais [...].
Nesse viés, resgatar saberes tradicionais de matrizes africanas é também um ato político de reconhecimento e reafirmação da negritude. Soma-se ainda a ausência de professores negros dentro das instituições acadêmicas, para que o diálogo também se dê internamente nas referidas instituições, com as devidas representatividades nos seus corpos docentes e discentes. Por experiência própria, busquei tal representatividade na instituição onde desenvolvi a pesquisa, a fim de compor minha banca de qualificação, não encontrando-a.
Sobre a questão, o projeto Encontro de Saberes propõe que para a reestruturação do conhecimento acadêmico, as universidades devem enfrentar os seguintes desafios:
[...] a interdisciplinaridade; a pedagogia intercultural; a luta antirracista; a inclusão dos saberes de povos originários, afrodescendentes e comunidades tradicionais como parte dos cânones dos saberes válidos a serem ensinados e desenvolvidos em igualdade de condições com saberes ocidentais modernos, em nossas universidades (CARVALHO; ÁGUAS, 2015, p. 1018).
A fim de praticar as metas em questão, propõe-se, para além da adoção de cotas raciais, uma reestruturação externa e interna, inovadora em termos teóricos e políticos, para que os alunos cotistas, quando do ingresso na universidade, tenham seus referenciais reconhecidos. E no que diz respeito às demandas da sociedade junto à universidade, estudos que promovam diálogos múltiplos com outros referenciais epistemológicos civilizatórios se mostram cada vez mais necessários.
No caso do Brasil, a questão da desigualdade étnico racial é dramática.
Nossas universidades são racistas e segregacionistas desde sua criação, sendo que a porcentagem de professores brancos na universidade pública chega a 99%. [...] Mas há que se lutar simultaneamente pela inclusão de negros e indígenas e pela inclusão dos saberes negro e indígenas, e as duas lutas tem que ser reconstitutivas dessa refundação (CARVALHO;
ÁGUAS, 2015, p. 1019).
Carvalho e Águas (2015, p. 1019) propõem uma reestruturação radical das universidades, apresentando seis propostas, com destaque para o que consideram mais urgente em termos de mudança de paradigma epistemológico: “[...] uma ampliação radical do corpo docente universitário, que inclua os mestres e sábios indígenas e afrodescendentes como professores de cursos regulares, das diferentes carreiras, em diálogo constante com colegas de formação ocidental”.
O projeto Encontro de Saberes surgiu em 2010, com o antropólogo José Jorge de Carvalho, professor da Universidade de Brasília – UnB. A partir daí, o movimento já se expandiu para 14 universidades públicas brasileiras, uma universidade na Colômbia e uma universidade na Áustria, fomentando esforços para o reconhecimento de mestres via ditames e resoluções institucionais, que tornam possíveis a atribuição de notório saber a mestres indígenas, afro-brasileiros, quilombolas e outros representantes das culturas populares e de povos tradicionais – título equivalente a um doutorado.
Tem-se aí uma revolução epistêmica que concretiza o reconhecimento de outras formas de saber e de intelectuais formados nesses saberes radicalmente diferentes da tradição de matriz ocidental. Com a referida titulação, os mestres estão aptos a atuarem como docentes em atividades de ensino, pesquisa e extensão, além de participarem em Comissões Examinadoras de cursos de Mestrado e Doutorado.
Seguir nesse caminho de contestação do status quo da produção de conhecimento acadêmico, da representatividade, do combate ao epistemicídio e de
todas as formas de racismo, faz-se importante repensar e olhar as pesquisas acadêmicas em termos de produção de conhecimento e dos saberes tradicionais.