Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020. Costureira foi lançada no Rio de Janeiro em 8 de fevereiro de 2018 na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Primeiros retalhos
Poucas eram as histórias de homens que realmente se importassem com as suas famílias, o que era também uma das possíveis graves consequências da escravatura, da separação das famílias. Essas histórias nos remetem ao início deste capítulo, quando eu era criança, quando, com o mesmo olhar atento e curioso que olhava as vitrines, também olhava o álbum de casamento dos meus pais e procurava histórias de pertencimento e acesso. . , já que eu era a garota mais pigmentada. O silêncio sempre foi seu aliado, assim como sua mãe, minha avó Cícera – mulheres de personalidade forte.
Minha avó estudou até a quinta série e aprendeu a arte da costura observando a mãe e a avó costurarem. Minha mãe pensou na época que eu queria ser modelo, afinal o rosto da top model Gisele Bündchen estampou todas as revistas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Embora ela dissesse que eu ainda estava um pouco acima do peso, minha mãe insistiu para que eu fizesse o curso para diminuir minha timidez, melhorar minha atitude, comunicação e autoestima e quem sabe me tornar um modelo profissional.
Lá foi o melhor lugar do mundo onde já estive, com “negros de ‘bons exemplos’, que acima de tudo ainda eram bonitos, estudavam e se valorizavam” (OLIVEIRA, 2014, p. 3), vindos do interior de encantos dançantes e tantos outros subúrbios.
Papel, tesoura, linha e agulha
Por mais difícil que seja para mim, é importante assumir que ainda não vencemos esta batalha23. Afinal, no momento do ‘sim’ ela já havia adquirido pelo menos um senso de limites (SILVA, 2017) e ansiava cada vez mais pelo que diziam que não era para ela e/ou pelo que diziam que era impossível de conciliar. Porque se sentem confortáveis em compartilhar suas experiências em um grupo de WhatsApp.
Sentindo-se de alguma forma acolhida, Luísa não hesitou em contar a Dandari sobre sua vida: “Perdi a virgindade aos 12 anos, meu tio tinha quase 20. Depois disso ele disse aos amigos que eu não era mais uma menina e que precisava ficar com eles. Assim que cheguei, um homem me convidou para dançar com seu grupo, mas minha tia não deixou.
Claro que não acreditei nele, mas fiquei feliz porque ele sempre me dava um doce: “um doce para o meu doce marrom”.
Costurando sem os retalhos que nunca chegaram
Naquela idade tinha um grupo de pessoas que realmente sabia que eu era uma menina não muito bonita, meio desajeitada, desajeitada. E foi a expectativa de que meu corpo se desenvolvesse, que as curvas aparecessem e que eu finalmente pudesse ser a mulher que sambava, que me fez receber elogios. E o único elogio que ouvi durante toda a minha vida é que só serei bonita no dia em que meu corpo se desenvolver e eu me tornar mulata.
Onde está a única expectativa de amor próprio que coloquei num cuzinho e num peito que me foi prometido a vida toda. E comecei a perceber que a mulata não ia conseguir de fato, e que eu precisava entender e encontrar outras formas de lidar com meu corpo (grifo nosso). Dandara balança a cabeça como se concordasse com o que Luísa está dizendo, e desta vez aproveita para “sentar na embalagem” (ADICHIE, 2009): “Eu também disse que nunca me casaria com um negro.
Ao ouvir Luísa falar sobre sua infância, com questões intimamente ligadas à construção de sua identidade negra, que influenciaram suas escolhas e relacionamentos, Dandara também faz alguns relatos: “Eu sei exatamente o que você está dizendo.
Costurando com retalhos manchados
A YouTuber criadora do canal DePretas, Gabriela Oliveira, nos incentiva a pensar essas questões através do vídeo “Solidão da mulher negra” (2016), que traz algumas problematizações que nos ajudam a pensar como a solidão da mulher negra é cumulativa e , na idade adulta geralmente também inclui o descaso com a relação afetivo-sexual. Ao pensar nisso, queria dizer que cheguei à conclusão de que o isolamento da mulher negra começa na infância e o abandono se acumula ao longo da vida. Todo mundo que me procurou achava que por eu ser negra, boa de cama e liberal, me diziam que as negras gostavam mais de sexo do que as brancas [...].
Em um desses encontros, ela descreveu as dificuldades de ser uma mulher negra, periférica, que usa/com manequim plus size (tamanho 54/56) e passou a vida inteira usando calcinha de tamanho menor porque já havia desistido de procurar lojas, preocupada com pessoas como ela. Este relato nos remete ao que Lélia (1984) conta sobre a situação das mulheres negras no Brasil e as agressões sexuais tão comuns dentro dos muros da casa grande. Não faz muito tempo que conversamos com outras mulheres e falamos sobre a situação da mulher no Brasil.
Nesta perspectiva, as mulheres negras sempre tiveram um corpo público exposto e vulnerável à hipersexualização, muitas vezes criando ódio de si mesmas (como vimos anteriormente), impedidas/dissuadidas de formar laços emocionais completos consigo mesmas e com os outros.
Desfazendo o que já foi costurado
Em um dos eventos que participou, Dandara ouviu pela primeira vez a história de Sarah, contada por uma professora que parecia estar no final da gravidez. Ainda conversando com Dandara, Jurema conta que quando criança se achava a única negra gorda: “Eu não conhecia mais ninguém, pensei que fosse algum tipo de maldição, não sei. Uma nova cliente que se declarou ateia ao escolher um produto para comprar questionou a atitude da cliente anterior que havia acabado de sair: “Não consigo entender essas mulheres evangélicas que compram produtos [eróticos e sensuais] para apimentar o relacionamento.
Ela responde que não: “Apesar de ser ateia, leio muito sobre todas as religiões. E Dandara pensa “não sei”, mas não fala e espera a cliente terminar de explicar: “Moro perto. A cliente tentava conversar e ele sempre a cortava dizendo que precisava de um produto que a deixasse mais fogosa: “Eu trabalho à noite [em um bar], então chego todos os dias de manhã cedo.
Em um desses eventos, um dos clientes, que também era paciente em tratamento de câncer, prestou seu depoimento, conscientizando todos os presentes para o Papo de Calcinha.
Costurando prioridades
Porém, o racismo e o machismo não dão descanso, e Maria rapidamente refuta a afirmação da mãe: “Só escondiam dos homens as mulheres que não eram mais virgens, não é? Meu pai me contava essas histórias, que as mulheres se escondiam para que seus maridos não descobrissem que ela já havia feito sexo com outra pessoa. Que as opções disponíveis para as mulheres brancas não são as mesmas que as disponíveis para as mulheres negras.
Tal situação nos faz pensar nessas diferenças e na preservação dessa estrutura sócio-histórico-cultural, o que nos é bastante prejudicial, tendo em vista que desde o século XIX as mulheres negras tentam se libertar da escravidão - para sobreviver - , as mulheres brancas, especialmente as donas de casa de classe média – as esposas de proprietários de escravos e proprietários de terras – queriam simplesmente ser libertadas da “escravidão à lei” (DAVIS, 2006, p. 46). Tentando problematizar um pouco as questões levantadas por Maria, ela conta aos seus clientes que embora sua maior referência conjugal sejam os avós maternos, casados há 66 anos, ela nunca sonhou em casar ou ser mãe, mas sempre respeitou ambas as funções: " Apesar da consciência de que há exigências muito maiores sobre as mulheres do que sobre os homens, especialmente em relação à necessidade do casamento e da maternidade automática. Embora nem todos queiram esse mercado de casamento e seja apenas para mulheres brancas, acredito que todos sofrem com essas imposições.”
Entre as muitas lições para as mulheres negras, uma comum e bastante evidente na narrativa acima é exatamente para quem foi/é o casamento.
Costurando, bordando, rendando
Se, para as mulheres brancas, a educação gira em torno do casamento e da reprodução de herdeiros (manutenção da dinastia), para as mulheres negras, desde o sistema de escravidão - baseado no patriarcado -, sua educação girava em torno da objetificação do corpo (OLIVEIRA, 2014) . , numa sociedade que não respeitou os seus desejos e não lhes deu o direito de escolha. Não estou interessado aqui em fazer julgamentos de valor sobre com quem e com quantas pessoas as mulheres deveriam se relacionar. Portanto, refiro-me a não ter companheiro estável especificamente no caso das mulheres abandonadas, não nos casos que assim o decidiram, sem esquecer também que o primeiro abandono ocorre por parte do Estado, recusando-se a garantir todos os nossos direitos, e que, embora o casamento tenha dado outrora mais emancipação às mulheres brancas, poderia ser uma armadilha, e as mulheres negras, ao desafiarem a lógica e ao casarem, não estão isentas de cair nesta armadilha.
Desde aquela transferência forçada da África para o Brasil, as mulheres negras sempre foram exploradas, violadas e desvalorizadas e continuam a sofrer as consequências de séculos de violência até hoje. Sentada na embalagem” (ADICHIE, 2009), Dandara ri e compartilha algumas opiniões com Pérola: “Não esperei. Para as mulheres Dagara, o casamento é “[..] uma oportunidade - quase uma obrigação - para que todos possam afirmar a sua relação com o outro, com os seus antepassados, com tudo o que os rodeia [...]” (p. 88). .
Mas é assim que me sinto”, responde Celie, numa das cenas mais sufocantes do filme.
Costurando sem dedal
51 O slogan da campanha presidencial do atual presidente da República, Jair Bolsonaro, que, embora o Estado fosse laico, usou e ainda usa o nome de Deus para atrair mais eleitores, postando versículos bíblicos em suas redes sociais e nomeando líderes religiosos . em cargos públicos, única e exclusivamente porque são evangélicos e se dizem cristãos, bons cidadãos e defensores da família, ainda que sejam a favor da tortura, acreditando que bandido bom é bandido morto, que se combate a violência. com violência, fazendo gestos de armas com as mãos e tantas outras coisas que nos deixam doentes só de ver/ouvir. lt;https://www.cartacapital.com.br/sociedade/10-afirmacoes-de-bolsonaro-que-vao-contra-o-que-a-pascoa-representa/>. Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em:
Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019. In: Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), [S.l.], v. Disponível em:
Você pode substituir as mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história.