Contudo, esta pesquisa pretende lançar um olhar diferente sobre a compreensão das contribuições das mulheres na luta pela terra, analisando o papel desempenhado pelas mulheres no MST no estado do Rio de Janeiro. Ainda no terceiro capítulo, trataremos da trajetória da luta das mulheres camponesas, destacando a contribuição dessas mulheres na luta pela terra e pelos direitos trabalhistas. Ao final serão apresentadas as formas de organização, agendas, articulação e atuação das mulheres no MST-Rio de Janeiro.
O debate de classe, gênero e raça
Durante o período da caça às bruxas na Europa, as mulheres também perderam o conhecimento das propriedades das plantas medicinais. Este projecto inquisitorial foi utilizado como estratégia para limitar a ameaça que as mulheres representavam ao sistema capitalista. Nas colônias, as mulheres nativas e negras escravizadas não recebiam o mesmo tratamento que as mulheres brancas e europeias.
Os movimentos sociais nos clássicos das Ciências Sociais
Os movimentos sociais atuais baseiam-se no confronto com diversas estruturas de dominação e opressão. Os movimentos sociais se oporão a um projeto de sociedade e serão responsáveis por estabelecer uma relação de contrapoder à ordem estabelecida: “O movimento social é elemento de um campo de ação histórica, ou seja, de interações entre o ator coletivo, seu oponente .e expressões relativamente autônomas do sistema de ação histórica e, em particular, do modelo cultural.(TOURAINE, 1977, p. 351).Desta forma, a reflexão proposta por Melucci (1989) mostra a compreensão que os movimentos sociais carregam com eles as possibilidades de mudança das estruturas sociais: “Os movimentos produzem modernização, estimulam a inovação e promovem reformas”.
Os Movimentos sociais como objetos de análise na Geografia
Porto-Gonçalves (2004) segue essa perspectiva ao considerar que os movimentos sociais competem e constroem suas práticas no espaço. Seguindo Santos (2006), o trabalho de Fernandes (2002) coloca os movimentos sociais como categoria de análise na geografia. Outro trabalho que constitui a tendência “geografia dos movimentos sociais” é o desenvolvido por Porto-Gonçalves.
As múltiplas escalas do agir feminino
A partir deste momento, os debates sobre gênero e sexualidade são inseridos na Geografia pela perspectiva da interseccionalidade. Esta posição dificulta o processo de consolidação das pesquisas no campo de gênero e sexualidade na Geografia. O WGSG (Grupo de Estudos sobre Mulheres e Geografia) desempenha um papel fundamental na criação de uma base teórica e metodológica para a pesquisa em Geografia e gênero, inserindo a análise de gênero na ciência em escala internacional.
No Brasil e na América Latina, a revista “Geografias Feministas” organizada por Silva (2010) desempenha um papel importante na organização e produção de trabalhos sobre questões de gênero. Isso acontece não só pela busca de conjugar trabalhos que desenvolvam a temática de gênero e sexualidade, mas também pela criação de uma base teórico-metodológica para a pesquisa de gênero na geografia. Ornat (2008) destaca que os estudos de gênero e sexualidade são muito raros no Brasil e que também encontram resistência na ciência geográfica.
As Geografias Feministas incorporaram o conceito de gênero para analisar as relações sociais, a fim de possibilitar avanços teóricos e metodológicos. Ainda segundo Silva (2010), os estudos de gênero não podem ser confundidos com estudos que envolvem estudos sobre mulheres. Utilizar o conceito de gênero para compreender as relações produzidas no espaço social não está relacionado apenas à produção de pesquisas em geografias feministas.
Ao analisar as relações sociais e os fenómenos geográficos tendo em conta o género, construímos uma Geografia que não ignora uma variedade de assuntos.
Uma nova gramática na luta pela terra
A colonialidade criou diferentes formas de dominação do “outro”, estabelecendo diferentes mecanismos para exercer a subordinação do colonizado e do colonizado. Compreender a escravidão apenas como uma instituição racista diminui as diversas formas de dominação que surgiram nesse período. O moderno sistema colonial de género organizado por Lugones (2014) baseia-se no conceito de “colonialidade do poder”, desenvolvido por Quijano (1994).
Lugones (2014) também desenvolve o conceito de colonialidade de gênero, que define relações de dominação baseadas em gênero, classe e raça. O movimento feminista radical baseará a sua luta pela emancipação das mulheres na categoria de género. Lugones (2015) destaca outro elemento para pensar o “sistema colonial moderno de gênero” ao considerar a posição ocupada pelas mulheres negras na intersecção entre a categoria de mulher e a categoria de negro.
O sistema mundial moderno colonial de Lugones (2015) será interpretado como uma lente para compreender as múltiplas formas de domínio da modernidade e a lógica hierárquica usada para classificar a humanidade. O “sistema colonial moderno de género” enfatiza a posição das mulheres no período entendido como colonialidade, e faz uma leitura interseccional das formas de dominação e subordinação baseadas no género, classe e raça. No entanto, a subordinação e o domínio dos colonizados e colonizados no moderno sistema colonial de género não foram as únicas características do colonialismo.
É possível obter esse entendimento porque os princípios reforçam a ideia das feministas decoloniais ao afirmarem que é necessário acabar com as diversas formas de dominação exercidas pelo moderno sistema colonial de gênero.
Agroecologia e bem viver na construção de novas relações sociais
As mulheres camponesas (agricultoras, indígenas, quilombolas, coletoras de coco e babaçu) enfrentam a forma predatória como o capitalismo se estabeleceu no campo brasileiro. Pode-se afirmar que, na introdução de práticas agroecológicas na agricultura, as mulheres rurais desempenham um papel central. A abordagem feminista aos movimentos ambientalistas enfatizou a relação que as mulheres construíram ao longo da história com a natureza.
A luta das mulheres rurais se estabelece em diferentes modos de ação e cria diversas escalas a partir de suas práticas espaciais. Segundo Esmeralda (2013), a base do movimento foi a possibilidade de novas formas de atuação política e organizacional das mulheres no campo. Esmeraldo (2013) diz que na criação do movimento houve um processo de invisibilização da luta das mulheres.
Essa atuação feminina evidenciou um posicionamento ativo das mulheres na luta pela terra, buscando o reconhecimento pelo trabalho que desenvolveram juntamente com a resistência ao atual modelo de desenvolvimento no cenário brasileiro. Embora algumas mulheres camponesas se juntem à luta pela reforma agrária com o MST, muitas continuam a coordenar-se com movimentos autônomos de mulheres rurais para garantir o fortalecimento das lutas específicas das mulheres no campo. O movimento determinará que as mulheres em vários níveis se articulem e participem em todas as formas de organização.
Em 1995 ocorreu o terceiro Congresso Nacional do MST, espaço em que o Movimento declarou que as mulheres eram as que mais sofriam com as condições de trabalho no campo. Segundo Furlin (2013), mulheres que já haviam se organizado dentro do Movimento e articulado com movimentos específicos de mulheres rurais pressionaram o MST para que as mulheres passassem a ocupar mais espaços de representação. A assembleia de mulheres do MST deliberou sobre a construção do Coletivo de Mulheres do Movimento, que seria estruturado em nível estadual e nacional.
O Setor de Gênero do MST
Alguns desses acontecimentos são: o aparecimento das mulheres no primeiro Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a construção de um capítulo sobre as articulações das mulheres na primeira edição das normas do MST e a construção de um plano de ação contra a desigualdade de gênero no III Congresso Nacional do MST. A articulação das mulheres do MST com movimentos autônomos fortalece a sua luta dentro do MST. Uma possível razão para a mudança na nomenclatura foi a introdução do debate de género e a compreensão da categoria das mulheres.
Naquela época, a preocupação do movimento com a transformação social e o combate às desigualdades fez com que todos os assuntos fossem incluídos no debate sobre o patriarcado dentro da estrutura social e do MST. Com base nesta realidade, o sector da igualdade de género decide que os lotes de assentamentos devem ser registados em nomes de homens e mulheres. Promover a participação efectiva das mulheres no planeamento das linhas de produção, na execução do trabalho produtivo, na gestão das actividades e no controlo dos resultados.
A falta de envolvimento das mulheres nos espaços de formação e de tomada de decisão do assentamento pode ser compreendida através dos traços de machismo estrutural em nossa sociedade. Para mudar esta realidade, o Setor de Gênero determinou que metade das vagas em formações e cargos nos diversos setores do MST seriam destinadas a mulheres. É por isso que o MST, através do sector do género, tem incentivado a participação das mulheres em todos os níveis de actividade.
A consolidação do setor de gênero na década de 2000 mostrou a preocupação do MST com a transformação da sociedade para deixar ainda mais clara a importância do combate a todas as formas de opressão e subjugação praticadas pelo capitalismo.
As ações do mês de março protagonizadas pelas mulheres Sem Terra
Marfort (2013) analisa os projetos populares de reforma agrária para as mulheres da Via Campesina, através das ações do Dia Internacional da Mulher desde 2006. As mulheres do MST e de outros movimentos rurais organizam uma agenda de luta em março, com ações e intervenções femininas, através dos quais os projectos agrícolas são confrontados. Em 2006, mulheres do MST e de outras organizações sociais rurais reuniram-se no Encontro Internacional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Além de propagar a ocupação, as esposas camponesas destruíram o laboratório e jogaram no chão sementes e mudas geneticamente modificadas prontas para plantio em sinal de protesto. No dia 8 de março de 2018, cerca de 800 mulheres do MST e de outras organizações sociais ocuparam a gráfica do jornal O Globo, no estado do Rio de Janeiro. O encontro representou a construção de novas relações entre os sexos, onde as mulheres do Movimento procuraram organizar-se a nível nacional, além da ocupação efectiva em vários sectores do Movimento.
A violência contra as mulheres é alimentada diretamente pelo Presidente da República, que é sexista, misógino e odeia quando uma mulher avança. As mulheres construíram formas de resistência contra o modelo hegemónico de produção, que é controlado por grandes corporações nos países centrais. Podemos dizer também que as mulheres do MST ampliam a sua luta contra o imperialismo ao mesmo tempo que agem em solidariedade com outros movimentos no Brasil e na América Latina.
A partir do ano de 2006, o mês de março e principalmente o dia 8 foi caracterizado pelas ações do movimento, onde as mulheres apareceram como protagonistas.
O agir político das mulheres do MST- Rio de Janeiro
No caso do MST-Rio de Janeiro, as mulheres também estiveram presentes ao longo da história do Movimento. As mulheres do MST ainda têm dificuldade de articulação com outros movimentos de mulheres no Brasil. Externamente, as mulheres do MST exercem maior articulação com os movimentos que compõem a Via Campesina.
Mulheres MST - Rio de Janeiro assumem a liderança na tomada de decisões que incluem questões de gênero. O movimento está preocupado com o fato de as mulheres estarem recebendo apoio para participarem dos espaços de produção do MST. Assim, as mulheres do MST estão presentes em todos os níveis de atuação social, desde o lar até o espaço político.
Então esse foi um momento muito importante para os movimentos de mulheres (membro II do setor produtivo). As mulheres do MST reafirmam a importância de fortalecerem suas lutas com o feminismo camponês e de base. A hipótese original de que mulheres do MST – Rio de Janeiro lideram ações contra o agronegócio foi confirmada.
Por meio do Setor, foram criadas formas de incentivar a organização e a comunicação entre as mulheres do MST.