O MST buscou se organizar em setores e coletivos com o intuito de trabalhar em medidas necessárias para a reforma agrária. São setores do MST: Saúde, Direitos Humanos, Gênero, Educação, Cultura, Comunicação, Formação, Projetos e Finanças, Produção, Cooperação e Meio Ambiente e Frente de Massa. Esse modo de organização mostra que o movimento tem uma preocupação de alcançar uma transformação maior da sociedade, criando tanto novas relações sociais no campo brasileiro, quanto novas gramáticas políticas que emergem na luta no campo, como a pauta das mulheres.
Os setores contam hoje com a coordenação de uma mulher e de um homem, cuja tarefa é identificar e resolver as dificuldades encontradas nos assentamentos e acampamentos, e desenvolver alternativas às políticas governamentais existentes, sempre dentro de uma perspectiva camponesa. Novos protagonistas entram em cena com a luta das mulheres no campo que, além de redistribuição da estrutura fundiária, colocam o debate do reconhecimento que um status desigual foi gestado, ao longo da história, sobre as mulheres.
Daí a necessidade de uma política de representação das mulheres nas instâncias organizativas do movimento. Como defende a feminista Nancy Fraser, “a construção de uma teoria de justiça envolve de forma inerente políticas de reconhecimento, representação e redistribuição”.
No ano 2000, o Setor de Gênero é criado mediante reivindicações das militantes para que houvesse uma maior participação no Movimento. Essa requisição está relacionada a uma exigência por mais espaço nas decisões políticas e participação na escolha de cargos com maior visibilidade dentro do movimento.
Por meio da organização destas comissões e coletivos de mulheres do/no MST, as lideranças femininas começaram a estudar e debater o conceito de gênero a partir de meados dos anos 1990. A necessidade de envolver o todo da organização neste debate deságua na criação do Setor de Gênero no Encontro Nacional do MST em 2000. Este teria a tarefa de estimular o debate de gênero instancias e espaços de formação da organização, de produzir materiais, propor atividades, ações e lutas que contribuíssem para a construção de condições objetivas para participação igualitária de homens e mulheres e assim fortalecendo o próprio MST (MAFORT, 2013, p.
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O Setor de Gênero passa a discutir as violências cotidianas e as atitudes machistas que as mulheres sofrem nos espaços do Movimento. O setor também busca trazer visibilidade às contribuições das mulheres na construção militante. Embora encontre desafios, o MST vem
estabelecendo metas para acabar com as desigualdades de gênero e inserir todos e todas, mulheres e homens, como sujeitos atuantes na luta pela terra.
O Setor de Gênero pode ser compreendido como resultado de uma série de eventos.
São alguns desses eventos: a atuação das mulheres no Primeiro Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a construção de um capítulo sobre articulações de mulheres na primeira edição das normas do MST e a construção de um plano de ação contra a desigualdade baseada no gênero no 3º Congresso Nacional do MST.
A articulação das mulheres do MST com os movimentos autônomos fortalece a luta delas dentro do MST. Essas trocas entre as militantes fazem com que elas percebam que precisam ocupar mais cargos de liderança e atuar de forma ativa na luta contra o capitalismo.
O processo que culmina na formação do setor não é apenas uma mudança de nomenclatura. Inicialmente, foi criado o coletivo de mulheres do MST. Naquele momento, o Movimento reconheceu a necessidade das mulheres se organizarem, para discutir suas demandas. Também havia a necessidade de que as mulheres atuassem nos diferentes níveis da luta pela terra e se articulassem com outros movimentos, buscando uma ampliação do debate sobre a questão agrária brasileira.
Posteriormente, o coletivo de mulheres do MST se torna o Coletivo de Gênero. Um possível motivo para a mudança de nomenclatura foi a inserção do debate de gênero e a compreensão da categoria mulher. No ano 2000, o coletivo de gênero tornou-se o Setor de Gênero. Naquele momento, a preocupação do Movimento com a transformação social e a luta contra as desigualdades fizeram com que todos os sujeitos e sujeitas fossem inclusos no debate sobre o patriarcado dentro da estrutura da sociedade e do MST.
Majoritariamente, são os homens os proprietários dos lotes rurais. Com base nessa realidade, o Setor de Gênero delibera que os lotes de assentamento devam ser registrados nos nomes do homem e da mulher.
Garantir que o cadastro e o documento de concessão de uso da terra seja no nome do homem e da mulher. [...] 3. Incentivar a efetiva participação das mulheres no planejamento das linhas de produção, na execução do trabalho produtivo, na administração das atividades e no controle dos resultados. (MST, 2005, p. 31 apud ENGELMANN, 2012, p. 8)
Atualmente na estrutura fundiária brasileira a maioria dos títulos de propriedades está registrada no nome do homem da família, o que reforça a condição de dependência econômica da mulher em relação ao homem.
A falta de atuação das mulheres nos espaços de formação e de tomada de decisão do assentamento pode ser compreendida pelos traços do machismo estrutural na nossa sociedade.
Os espaços que contemplam a esfera política e social são destinados aos homens, e os espaços que envolvem a esfera do lar são direcionados às mulheres. Para mudar essa realidade, o Setor de Gênero determinou que metade das vagas dos cursos de formação e cargos nos diversos setores do MST fossem destinados às mulheres.
Outra ação do Setor importante foi determinação que metade das vagas dos cursos de formação e dos cargos nos setores deveriam ser ocupada por mulheres.
Ampliando de forma significativa a participação das mulheres, nos setores e como lideranças. “[...] Em todas as atividades de formação e capacitação, de todos os setores do MST, assegurar que haja 50% de participação de homens e 50% de mulheres; (MST, 2005, p. 31 apud ENGELMANN, 2012, p.8)
A divisão sexual do trabalho faz com que as mulheres não participem dos espaços de decisões políticas. Por exercerem uma dupla jornada de trabalho, que inclui os cuidados da casa e dos filhos, sobra pouco tempo para uma participação ativa no Movimento. Por isso o MST, por meio do Setor de Gênero, vem incentivando a participação das mulheres em todos os níveis de atuação.
A mais simples é o fato de trazerem consigo os mesmos elementos, ou seja, o problema é da mulher que não participa, e não o faz em função da casa e dos filhos.
Mas será mesmo que essa questão é simples? Certamente que não. Pois é uma questão que vai além do político, e muito além do fato de as mulheres se negarem a
‘participar’, de resistirem às prescrições, às normatizações de como deveriam ser para representar o Movimento. (SILVA, 2004, p. 279)
A obrigação com as atividades do lar afasta as mulheres dos espaços políticos. Elas precisam exercer o trabalho na roça e o trabalho doméstico. A partir desse cenário, ficam desestimuladas de participar dos espaços de discussões e decisões dos assentamentos.
O fato de o trabalho doméstico ser destinado à mulher precisa ser repensado. Vale lembrar que as atividades que envolvem a esfera do lar também são políticas e essenciais para a manutenção dos assentamentos e acampamentos. É importante, assim, transgredir essa construção social de que só a mulher pertence a esse espaço. Por isso, é necessário que a discussão sobre gênero percorra todos os integrantes do MST, e que a desigualdade e as diferentes formas de opressão da mulher sejam combatidas.
A consolidação do Setor de Gênero, nos anos 2000, demonstrou a preocupação do MST com a transformação da sociedade, de modo a deixar ainda mais nítida a importância da luta contra todas as formas de opressão e subordinação exercidas pelo capitalismo. O
Movimento busca por meio do projeto de reforma agrária popular incluir todas e todos no seu projeto de desenvolvimento para o campo.