Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Fakultet for Social Kommunikation, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021.
A televisão no século XXI
Hoje, a mídia e o público estão adotando novas práticas de produção, distribuição e consumo de conteúdo, inclusive notícias. Desta forma, o telejornal torna-se um reflexo do momento histórico e do contexto cultural em que se insere.
Repensando o telejornalismo
Como instituição, o jornalismo é uma construção da sociedade e ao mesmo tempo participa da construção da realidade. Vizeu (2009) enfatiza que o tipo de conhecimento produzido pelas notícias televisivas é justamente o conhecimento cotidiano, pois o telejornalismo produz notícias que se referem a acontecimentos do mundo em que vivemos.
Noticiabilidade e interesse público
Embora ambos possam desenvolver uma aproximação e integrar a noção de valor noticioso, entendemos que nem todas as preferências do público estão relacionadas a conteúdos de interesse público. O interesse público refere-se à ideia de valores coletivos ou ordem social estabelecida para o bem da comunidade.
A interação com a audiência
O estudioso australiano Axel Bruns (2011) sugere que o jornalismo busque nas mídias sociais subsídios para a produção de notícias. Chamamos também a atenção para outro desafio que o jornalismo enfrenta em relação à distribuição de conteúdos nas redes sociais.
Representação simbólica e imaginário social
Da mesma forma, o sentimento de pertencimento a uma comunidade emerge da partilha de significados ou representações. Portanto, a reprodução de valores e imagens por meio da atividade informacional se dá a partir de sua inserção em determinada cultura.
O texto audiovisual
Portanto, neste capítulo procuramos discutir como a narrativa do telejornal é construída e como a linguagem audiovisual produz sentidos. Dessa forma, entendemos que mesmo quando o âncora apresenta uma notícia ou lê uma ‘nota seca’ (texto verbal sem imagens), há uma impressão de sentido através de suas expressões faciais. É fundamental ressaltar que a narrativa do telejornal apresenta como característica a tentativa de trazer verdade ao conteúdo, ou seja, à notícia.
Organização da linguagem audiovisual
Porém, identificar o gênero de um determinado produto televisivo nem sempre é uma tarefa fácil. Segundo o autor, o formato funciona como uma matriz, um “gênero base” que engloba mais de um gênero televisivo. Como alerta Machado (idem), essa composição polifônica pode indicar uma falsa pluralidade e acabar obscurecendo o fato de que toda produção de enunciado é repleta de intenções, pois provém de alguém, de uma empresa ou de um grupo.
Construindo a notícia
Marielle Franco nasceu em 27 de julho de 1979 no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. Além disso, foi a única vereadora eleita na cidade do Rio de Janeiro que declarou oficialmente ter pele negra. As Forças Armadas ocuparam as favelas e realizaram operações nas rodovias de acesso ao estado do Rio de Janeiro.
Negra e cria da Maré
Azevedo (1987) confirma que o imaginário social dos moradores de favelas no Brasil se consolida a partir da emoção de medo sentida pela elite e pelos profissionais liberais em relação a uma camada popular formada por trabalhadores, em sua maioria negros, índios e caboclos. Da mesma forma, Vaz, Cardoso e Félix (2012) atribuem à mídia a manutenção desse imaginário social em torno do ‘outro’, o ‘outro’, que é visto como agente genérico do medo e deslocado de seu contexto histórico e social. contexto. Portanto, o imaginário social alimentado por uma narrativa de medo contribui para estimular o ódio entre classes socioeconómicas e etnias.
Uma questão de gênero
A pesquisadora afirma que a relação de poder na sociedade constrói o binário ‘homem/mulher’, onde a ‘mulher’ representa o lado mais fraco. A filósofa critica o movimento feminista que trata a oposição ‘homem/mulher’ como naturalizada, como algo que deve ser combatido. Segundo Butler (ibid.), a pluralidade de opções sexuais LGBTQIA (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexuais e assexuais) também está sujeita a gestos e comportamentos padronizados no binário ‘masculino/feminino’, que ele chama de performativo. . comportamento.
Disputa argumentativa nas redes sociais
29 Disponível em http://dapp.fgv.br/morte-de-marielle-franco-mobiliza-mais-de-116-milhao-de-mencoes-no-twitter-aponta-levantamento-da-fgv-dapp/ Acessado 9 de junho de 2019. Entendemos que os usuários dessas redes sociais se apropriaram do acontecimento de tal forma que evidenciou uma discrepância na produção de sentido em torno da imagem de Marielle Franco e da memória coletiva do crime. Na primeira categoria examinamos a estrutura do texto, ou seja, a forma como os telejornais são apresentados, os formatos das notícias, a organização do conteúdo, a divisão em blocos e a duração, levando em consideração o tema da morte de Marielle Franco.
Descrevendo o objeto: o Jornal Nacional
A estreia do Jornal Nacional data de 1º de setembro de 1969, quase quatro anos após a criação da emissora, em 26 de abril de 1965. A descrição da notícia no site Memória Globo34 é a seguinte: “O Jornal Nacional é o principal telejornal da Globo. Rede. Esse contexto amplo fez com que o Jornal Nacional apostasse no público, buscando um relacionamento mais próximo com o público, exercendo o 'humanismo da solidariedade'.
Análise Quantitativa
Estrutura do texto
Em março de 2019, semana em que os acusados da emboscada foram presos, o caso ganhou as manchetes em duas edições. 38 reportagens, sendo o tema mencionado em mais duas, e comparativamente, esta foi a notícia mais completa na apresentação dos fatos. O noticiário também acompanhou os acontecimentos em três gravações ao vivo, duas gravações de manchetes e 12 gravações de vapor seco.
Temática
O homicídio foi coberto em 21% do tempo total das edições de março de 2018, o que fez com que o segundo tema do JN ficasse atrás apenas da secção de política, que teve 23,4%. Então, eu entendo isso como um crime gravíssimo porque não foi um crime, aparentemente, ‘para’ onde a investigação até agora aponta, não foi um roubo, não foi um crime inadvertido, sem saber quem era a vítima. No período de 11 a 16 de março de 2019, o assassinato de Marielle Franco foi o terceiro tema que mais ocupou o tempo de produção do Jornal Nacional, com 14,7% do total.
Enunciadores
Os resultados quantitativos da aplicação da estrutura textual e das categorias temáticas reforçam a percepção de que o Jornal Nacional deu grande importância à cobertura jornalística da morte de Marielle Franco, tanto na seleção quanto na hierarquização das notícias. Você pode falar a verdade, mas acho que deveria ser sutil, deveria ser justo, digamos assim. É assim que eu vejo e acho que foi a nossa capa (REPÓRTER A – informação verbal).
Visualidade
Acho que sem as redes sociais teríamos uma grande perda de contar a história detalhada desta mulher, você sabe. A atenção dos especialistas da Rede Globo às redes sociais não se limitou às imagens do deputado assassinado. A mesma coisa aconteceu com a morte de George Floyd (nos EUA) e do Black Lives Matter (um movimento anti-racista) e de todos que postam postagens totalmente negras, negras e de 'direita' no Instagram e nas redes sociais (REPÓRTER B - informação verbal).
Som
O som alto dos manifestantes gritando palavras de ordem como “Marielle, presente” e aplausos reforçaram a ideia de homenagear a vereadora. Já os sons altos de um padre rezando no cemitério em reportagem de 15 de março de 2018 e rajadas de tiros associadas à imagem de uma metralhadora na edição de 19 de março do mesmo ano deram algum impacto à ideia de morte .
Edição
Mas se há uma mudança, acho que é mais uma mudança que reflete uma mudança na sociedade (REPÓRTER B – informação oral). Nunca recebi nenhum conselho nesse sentido: olha, temos que fazer da Marielle uma mártir (REPÓRTER B – informação oral). E aí a gente vê que as pessoas se alimentam de informações que a gente nem sabe de onde vem (REPÓRTER B – informação oral).
Análise Qualitativa
Fragmentação
Além disso, o áudio editado de um entrevistador exibido no dia 14 de março de 2019 destacou o aspecto político do crime: Deputado estadual Luiz Paulo Corrêa - “Ela lutou muitas vezes pela justiça social e pela defesa dos direitos humanos.
Dramatização
Jornalista Danilo Vieira - “Esta tarde, seus amigos e colegas se reuniram para um aperto de mão, um forte abraço e algumas palavras. Ainda na edição citada acima, a transcrição da postagem na rede social na reportagem introduziu mais uma vez a figura de linguagem da personificação, que é a mais utilizada no gênero literário. Um artigo por exemplo, em que há uma homenagem, em que há um sentimento, em que há uma reflexão sobre algo brutal que aconteceu, (é) necessário ‘unir as pessoas’, ‘para’ que elas também se posicionem em solidariedade a esse evento, 'então' esse evento, essas homenagens, também tocam as pessoas (REPÓRTER C – informação verbal).
Definição de Identidades e Valores
Acho que a imagem que prevaleceu foi a de uma mulher corajosa, uma mulher nascida na periferia que não tinha medo de lutar contra a polícia, que não tinha medo de lutar contra a milícia, que não tinha medo de hastear bandeiras. Uma guerreira que não teve medo de hastear bandeiras que são polêmicas e que no Rio de Janeiro, como no caso de policiais e milícias extremamente agressivas, bandeiras que talvez, talvez, não sabemos, poderiam colocar sua vida em risco, ' certo'. O editor-chefe não pensava assim: é preciso mostrar a heroína, retratá-la para o grande público.
Interpretação dos resultados do JN
Os diversos protestos populares e a grande repercussão do crime nas redes sociais, observados no contexto em que a narrativa do Jornal Nacional foi produzida, destacaram o envolvimento do público no assassinato do parlamentar e chamaram a atenção dos profissionais da emissora, como eles no entrevistas semi-estruturadas. A partir do contexto de utilização das plataformas digitais como espaço de disputas argumentativas, o Jornal Nacional também buscou maior participação na produção de sentido em torno da execução de um defensor de direitos humanos, e construiu uma narrativa em que triunfou a motivação política do crime. Ciente das recentes transformações sociais, o Jornal Nacional construiu uma narrativa que funcionou como um código negociado ao abandonar o discurso hegemônico dominante e valorizar uma representante das minorias sociais, uma mulher negra, homossexual, nascida na periferia que a Câmara de Vereadores alcançava.
Descrição do objeto: o Jornal da Record
No mesmo ano, a Record investiu no reinício do Jornal da Record com os apresentadores Paulo Markun e Silvia Poppovic.39. A transição do Jornal da Record para múltiplas plataformas só aconteceu em 2019, quando as edições passaram a ser disponibilizadas na internet. Com o apoio da Record TV, a IURD traçou um projeto político para preenchimento de cargos em diversas esferas do poder legislativo.
Análise Quantitativa
- Estrutura do texto
- Temática
- Enunciadores
- Visualidade
- Som
- Edição
Acho que o tratamento do Jornal da Record sempre foi factual, investigando a morte de um político (EDITOR G – informação oral). Eu acho que ela é assim..., uma vereadora, uma autoridade, como diz o Jornal da Record: uma autoridade carioca, vítima de um crime brutal, política, etc. O Jornal da Record, está sempre ligado à questão carioca.
Análise Qualitativa do JR
Fragmentação
Vejo isso mais como uma necessidade de encontrar o culpado, esclarecer a investigação do crime. No caso específico da cobertura da execução de Mariella Franco, JR mostrou relatos do crime após outros acontecimentos violentos ou notícias de intervenção federal no Rio de Janeiro, enquadrando o tema no trabalho policial. Compreender a complexidade do crime contra o santo tornou-se mais difícil para os telespectadores da Record TV quando ocorreu também a fragmentação nas reportagens.
Dramatização
Os jornalistas da Record TV explicaram que costumam humanizar as histórias para envolver o público, mas desta vez construíram a notícia de forma que a informação fosse transmitida sem entusiasmo. No Jornal da Record, do ponto de vista da direção da casa, do ponto de vista da direção do departamento, a preocupação era exatamente a oposta: insistir nos fatos, dar a cobertura que tinha que ser dada, mas sem carregar, sem transformar. Cubra, porque precisa ser abordado, porque é obviamente um assunto de grande ressonância, ressonância nacional, mas não para ir muito longe, para não ressignificar.
Definição de Identidades e Valores
Não creio que lhe devesse nada, nem elevou o tom do próprio fato de ser vereadora, mulher, negra, representante de uma classe social mais baixa, menos favorecida, que foi perseguida e morta pelo seu próprio povo . Naquele dia, o Jornal da Record trouxe novas informações sobre a investigação do caso (REPÓRTER E – informação verbal). Acho que é um excelente ponto, então..., para um jornal que é o segundo maior telejornal (EDITOR H – informação verbal).
Interpretação de resultados do JR
Para os editores da Rede Globo e da Record TV, os interesses das emissoras foram compreendidos. Editor G (Record TV): “Acho que a cobertura do Jornal da Record foi muito imparcial, não houve isso de fazer dela uma heroína e tudo mais. Acho que o tratamento do Jornal da Record sempre foi factual, que se investiga a morte de um político .”