• Nenhum resultado encontrado

Interpretação dos resultados do JN

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 114-118)

Nas edições do Jornal Nacional analisadas, os elementos de enunciação indicaram a atenção do noticiário ao comportamento da audiência diante do crime. O espaço de destaque ocupado pela cobertura do assassinato e o reconhecimento do trabalho da vereadora,

percebidos durante as pesquisas quantitativa e qualitativa da Análise Televisual, podem ser atribuídos tanto aos critérios de noticiabilidade inerentes ao fato quanto à tentativa de aprofundamento do vínculo do telejornal com a audiência. Como o telejornalismo fala para um certo público, a audiência presumida (VIZEU, 2005), entendemos que esse telespectador também orienta as decisões dos jornalistas na seleção, na hierarquização e no tratamento das notícias. Nesse caso específico da execução de Marielle Franco, a “expectativa da audiência”

(GUERRA, 2014) funcionou no JN como valor-notícia, interferindo no julgamento dos jornalistas sobre o fato. As diversas manifestações populares e a grande repercussão do crime nas redes sociais, observadas no contexto em que a narrativa do Jornal Nacional foi produzida, evidenciaram o envolvimento do público com o assassinato da parlamentar e chamaram a atenção dos profissionais da emissora, conforme eles mencionaram nas entrevistas semiestruturadas.

Mesmo identificando outros parâmetros para a seleção do fato, como tragédia (morte), raridade, surpresa (inesperado), interesse público e localidade (Rio de Janeiro), todos os jornalistas da Rede Globo que participaram dessa pesquisa citaram a repercussão do crime na sociedade brasileira como um expressivo critério para a cobertura do acontecimento pelo principal noticiário do país.

Além de tal aprofundamento do vínculo, constatamos que o Jornal Nacional valorizou sua função de mediação ao orientar o público sobre as consequências de fake news, tomando para si a função pedagógica (VIZEU) de explicar o que era verdade ou mentira e reforçando a credibilidade do próprio jornalismo, como explicitou o repórter A: “reforçar a importância do telejornal, da informação confiável, você ‘tá’ reafirmando a importância.” Outra característica que contribui para esse reforço é o ‘furo’ de reportagem. A cobertura da Rede Globo investiu no chamado jornalismo investigativo e exibiu novidades sobre o crime, muitas vezes até mesmo pautando a polícia. Dessa forma, o Jornal Nacional manteve o ‘contrato de comunicação’ com a audiência. Segundo Charaudeau (2006), os veículos de comunicação precisam ser capazes de preservar a credibilidade e, com isso, garantir a autorização do público para falar, ou melhor, garantir o direito de produzir sentidos.

A utilização de elementos da linguagem da internet nos enunciados estabeleceu ainda um diálogo com os usuários das redes sociais, descartando uma perspectiva antagônica entre os meios e indicando uma relação complementar. Assim como defendido por Bruns (2011), os jornalistas da Rede Globo buscaram subsídios nas redes sociais para contar a história de Marielle Franco, tanto imagens quanto informações. E até hashtags.

A partir do contexto de uso das plataformas digitais como espaço de disputas argumentativas, o Jornal Nacional buscou também maior participação na produção de sentidos em torno da execução de uma defensora dos Direitos Humanos, construindo uma narrativa em que a motivação política para o crime prevaleceu. Ponto de vista evidenciado pelos jornalistas, como o repórter B que considerou um ataque à democracia: “Foi um crime proposital, com alvo escolhido. O alvo era uma política que defendia determinadas bandeiras.

Isso torna esse crime gravíssimo.”

Da mesma maneira, o JN apresentou-se como um interlocutor indispensável junto ao poder público para cobrar a elucidação do crime. Constatamos que telejornal da Rede Globo explicitou tal papel tanto no texto verbal como nas imagens selecionadas. Os próprios jornalistas revelaram que enxergam esse papel de intermediação e cobrança como uma responsabilidade social da atividade informativa. Para o repórter A, “se não tivessem sido as matérias bem contundentes, a cobrança que nós fizemos, eu acho que esse caso tinha ficado pelo meio do caminho.”

Portanto, compreendendo que o jornalismo produz sentidos, deixa de ser mero reprodutor do mundo real e passa a construir a realidade em sua narrativa. Foi o que verificamos na história contada sobre a trajetória da vereadora. O JN abordou as principais frentes de luta da parlamentar. Dedicou tratamento específico ao tema dos Direitos Humanos, explicando-o em reportagens de forma abrangente. Também citou a diversidade de gênero, mencionando a opção sexual da vítima, dando voz à Mônica Benício, companheira de Marielle, e a uma assessora parlamentar transexual. Atento às recentes transformações sociais, o Jornal Nacional compôs uma narrativa que funcionou como um código negociado ao abandonar o discurso hegemônico dominante e valorizar uma representante de minorias sociais, uma mulher negra, homossexual, nascida na periferia que alcançou a Câmara dos Vereadores. A determinação da emissora de estabelecer laços matrimoniais entre Mônica Benício e Marielle Franco resulta da maior aceitação da sociedade das uniões homoafetivas.

Segundo o editor D, as preocupações e interesses em jogo são outros: “Lá na Globo passa muito mais pelo interesse político do que pela moral.”

No entanto, o telejornal não havia dado espaço à vereadora antes de sua morte e sequer possuía nos arquivos da emissora uma única imagem de Marielle Franco. O destaque conferido à parlamentar após o crime se inseriu em uma narrativa de reconhecimento do mérito da vereadora e de superação das dificuldades enfrentadas na juventude pobre. Uma moradora da favela que venceu na vida. Conforme vimos no referencial teórico do terceiro capítulo, a partir dos estudos de Dardot e Laval (2016), Marielle foi um modelo neoliberal do

“governo de si’, assumindo os riscos de suas escolhas. O mérito, portanto, foi somente da parlamentar e não de todos que com ela se identificavam, de toda uma classe que se empenha para ascensão social e econômica. Marielle foi apresentada na narrativa como um símbolo, alguém que merece reconhecimento, um tipo de heroína capaz de combater “todo tipo de desigualdade e injustiça” (JN, 15/03/2018) e até mesmo de transcender à própria morte,

“passando a existir de uma outra forma” (JN, 16/03/2018) como uma “Marielle gigante”.

Ainda que esta representação simbólica não fosse uma intenção, conforme declararam os jornalistas envolvidos na cobertura, notoriamente ela esteve presente em toda a narrativa. O repórter C admitiu a construção de tal imagem: “É difícil você fugir da imagem de que alguém morreu numa resistência, numa luta. E isso implica obviamente num papel de heroísmo, de bravura, de cumprimento de dever.”

Essa forma de representação da vereadora nos remete à literatura cuja criação discursiva do herói possui traços semânticos como a imortalidade, a superação do conflito moral e ético (MAGALHÃES et al, 2007). A narrativa construída pelo Jornal Nacional, carregada em poesia, reproduzindo inclusive poemas, e buscando despertar emoções na combinação de imagens, sons e frases elaboradas em estilo poético, aproximou-se da ficção e demonstrou que a jovem negra da favela superou desafios, conflitos, tornando-se até imortal ao multiplicar sua voz, como os heróis da literatura. Porém, essa representação estabelece dubiedade porque todo herói deixa de ser real. Para os humanos do mundo real, fica um recado ambíguo: Marielle serve de exemplo para outros integrantes das minorias sociais, porém seguir seus passos também pode significar risco, como sugeriu o repórter B:

“prevaleceu a imagem de uma mulher corajosa, uma mulher nascida na periferia e que não teve medo de lutar contra as forças policiais, não teve medo de lutar contra a milícia, que não teve medo de expor as bandeiras [...] que talvez possam, talvez, a gente não sabe, ter colocado a vida dela em risco.” Da mesma maneira, o editor D resumiu: “Ela conseguiu sair da Maré, vira a vereadora mais votada e leva um tiro na cara.”

Sendo assim, compreendemos que ao mesmo tempo em que a narrativa do Jornal Nacional valorizou Marielle Franco representando-a como uma mártir ou heroína, acabou também por reprimir possíveis seguidores ou seguidoras do seu exemplo, como bem sintetizou um morador da favela da Maré em entrevista à reportagem do telejornal em 15 de março de 2018: “Quando nós vamos ser ouvidos, calam as nossas bocas, calam as nossas vozes.”

5 ZOOM NO JORNAL DA RECORD

Assim como demonstramos no capítulo anterior, a metodologia da Análise Televisual, com seus princípios e categorias das etapas qualitativa e quantitativa, foi utilizada para o exame minucioso da narrativa do Jornal da Record na segunda emissora com maior índice de audiência no país ano de 2018. No decorrer das observações das enunciações do telejornal, os depoimentos dos jornalistas que participaram da cobertura do assassinato de Marielle Franco na Record TV e colhidos nas entrevistas em profundidade, ilustram e complementam a aplicação da AT.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 114-118)