O desenvolvimento do trabalho se deu por meio de entrevistas e observações de campo com sete professoras “travestis” e “transexuais” atuantes em escolas públicas de educação básica. Contudo, existem “sujeitos incoerentes” que não se conformam com as normas de género pelas quais todos devem ser “definidos”.
Caminhando para um fazer metodológico - o conhecimento em
Num movimento de prática, a teoria é colocada em prática sem cessar o uso diário de novas tecnologias e novos conhecimentos. Finalmente, é importante garantir que a imagem da rede não seja percebida como um modelo estático, mas sim como uma imagem em movimento.
As pesquisas nos/dos/com os cotidianos
A ideia é a necessidade de minar a noção de que a “boa” investigação deve ter uma base teórica sólida como ponto de partida e basear-se na construção de verdades globais. Posteriormente, após uma releitura dos movimentos propostos e devido ao que a pesquisadora considerou ser uma necessidade de crítica, foi acrescentado mais um: “Ecce femina”.
A conversa como metodologia
Com quem conversei
Gênero – um começo de conversa sobre esta questão
Construção social do gênero
Emily nos mostra duas situações muito importantes com esse ponto levantado sobre a determinação do gênero através da correspondência direta com os órgãos genitais. A relação vinculativa entre o corpo (“sexo”) e o género produz corpos através de uma parte que define todo o resto. Os discursos das diferenças sexuais apoiarão, com base num discurso científico, que se torna dominante, o julgamento do comportamento.
A compreensão da diferença sexual está ligada à criação de uma nova concepção de natureza, desvinculada da explicação religiosa a respeito da criação divina, embora mantenha em certa medida uma relação com a moral cristã. Além da reprodução, outros elementos, como os hormônios, os genes e a própria sexualidade, também acabam desempenhando essa função de contribuir para a demarcação da diferença sexual (CARRARA et al., 2010b; BENTO, 2006).
Fabricação dos corpos e do sexo “verdadeiro”: quando a ambiguidade
A produção da “transexualidade” em oposição à “travestilidade”
Transexualidade” e “travestilidade” são “categorias identitárias” produzidas no campo do gênero e constituídas pela inconformidade com uma ordem dicotomizada e. Muitos acreditam que todos os “transexuais” necessitam se submeter a uma cirurgia de redesignação de gênero e que os “travestis” não têm essa exigência. Porém, essa centralidade é relativizada, pois nem todos os “transexuais” desejam ou se submetem a cirurgias.
As “travestis” também produzem seus próprios corpos: exigem das autoridades implantes de silicone seguros, fazem terapia hormonal, depilação a laser, operações de feminização facial, remoção do pomo de Adão, etc. Portanto, não se trata de opor “transexuais” e “travestis”, este não será o objetivo deste trabalho, mas sim evidenciar como mecanismos baseados em lógicas binárias e dicotômicas produzem uma “hierarquia da diferença”.
Deslocamentos às normas de gênero
O corpo não é mais um caminho seguro para posicionar os sujeitos no mundo polarizado de gêneros, e a realidade de gênero fica enfraquecida. Não será mais possível julgar a anatomia que deveria ser estável a partir da vestimenta que cobre e articula o corpo (BENTO, 2006, p. 107-108).
O que nos apontam as experiências trans
Através de interpelações prescritivas, testes, aparências, terapia, enfim, tesouras e próteses simbólicas, pretende-se retirar o excesso, cortar a ambiguidade e recuperar a suposta unidade perdida nos corpos pré-operados (BENTO, 2006, p. 229). ). . Considera-se que as pessoas trans necessitam de cirurgias corporais para estabelecer ou restabelecer uma unidade entre “sexo” e “gênero”, mas o que na verdade buscam é tornarem-se compreensíveis e deixarem de ser abomináveis. Porém, em pesquisa realizada para sua tese de doutorado, Bento (2006, p. 231) quer desconstruir todas as formulações que criam e fabricam o “verdadeiro transexual”.
Muitos casais são formados por pessoas que se autodenominam transexuais, estejam elas em relações heterossexuais ou homossexuais. Dessa forma, as obrigações são legitimadas pelo argumento de que agimos para protegê-las de uma decisão errada e de que as obrigações registradas são todas para o seu bem” (BENTO, 2006, p. 231).
Natureza versus cultura?
Tal como existem normas de género que causam discriminação e desigualdade, também existem normas sociais relativas à sexualidade. As relações de poder baseadas nas diferenças de género também influenciam a sexualidade e vice-versa. Esta vigilância e controlo por parte das agências que tentam constantemente reiterar as normas de género permite, em última análise, que surjam preconceitos e discriminação, até certo ponto, como Rebecca observa que a discriminação contra ela era algo que era permitido.
Nas falas dos jovens nas escolas, há um foco intenso nas questões de gênero e sexualidade na produção de subjetividades. Eles constantemente nos mostram maneiras “corretas” ou “erradas” de viver a vida em termos de relações de gênero e sexualidade.
Os discursos sobre o “sexo”
Ter uma predisposição inata para a heterossexualidade como orientação sexual – escolhendo necessariamente pessoas do “sexo oposto” como objetos de desejo sexual e parceiros de afeto. Foucault (2001) nos mostra que as compreensões consensuais do “sexo” (como força vital reprimida) são o resultado de uma série de conhecimentos e discursos construídos ao longo da história. A regulamentação das parcerias sexuais e não o “sexo” em si foi a forma como o “aparelho de aliança” foi estruturado.
Falando em “sexualidade”, como Foucault a utiliza, seria esse conjunto de discursos sobre o “sexo” que faz dela algo que pode ser “investigado”. Segundo ele, foi esse conceito o responsável por associar um grande conjunto de possibilidades físicas, mentais e sociais como o “sexo” anatômico, as sensações, os sentimentos e os desejos às normas e regras culturais sobre o que é “certo” ou “errado”. . , desejável ou não, bem como possibilitar a junção do pessoal, individual e íntimo com a esfera social, cultural e política.
Entrando no tema do poder e desigualdades
Segundo Carrara et al (2010c), este estudo de Rubin (1984) buscou mostrar como determinados discursos produzidos influenciariam o pensamento sobre a sexualidade nas sociedades contemporâneas. Para especificar esse processo que atribui valor, hierarquiza as práticas sexuais e estabelece limites entre o sexo “bom” e o “mau”, Carrara et al (2010c) apontam para a formulação de Rubin do conceito de estratificação sexual. Segundo o seu pensamento, esta noção cria desigualdades, pois tende a "racionalizar o bem-estar daqueles cujo comportamento é classificado como 'sexo bom' e o infortúnio daqueles que têm o seu comportamento classificado como 'sexo ruim'; atribuir complexidade moral apenas para o primeiro” (CARRARA et al., 2010c, p. 38).
Podemos perceber que a análise de Rubin (CARRARA et al., 2010c) concentra-se no domínio da hierarquização sexual e em como ela funciona nas sociedades contemporâneas. Porém, apesar das tentativas de fixação, essas classificações ou identificações são plásticas, provocando fugas, deslocamentos e confusões na ordem estabelecida (CARRARA et al., 2010c).
A fabricação do “homossexual”, da homossexualidade
Portanto, inicialmente os chamados homossexuais/“sexo invertido” eram, na maioria das vezes, aqueles cuja aparência apresentava algumas discrepâncias em relação ao gênero associado ao sexo atribuído no nascimento (CARRARA et al., 2010c). Em grande medida, essas diferenciações na medicina foram influenciadas por mobilizações políticas em torno da sexualidade que visavam dar visibilidade às diferenças inerentes a cada grupo incluído na categoria abrangente da homossexualidade (CARRARA et al., 2010c). Para ser legitimado, foi necessário criar uma prática entre os adultos, relacionada ao casamento e à reprodução (CARRARA et al., 2010c).
Como já mencionado, prescreve-se a obrigatoriedade da relação entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais. Eles são repetidamente alertados de que a sociedade não “tolerará” o que é considerado uma “escolha” imoral.
Preconceito, discriminação, estigma
Discriminação e violência: homofobia
Disseram que eu estava presa no banheiro e que eu era um ‘animalzinho’, uma ‘mulherzinha’. frutinha” com medo do escuro. Não achei justo o que eles estavam fazendo e o fato de ninguém ter me ajudado me fez sentir culpada. A diretora repreendeu as crianças, até ligou para os pais, mas ela me contou uma coisa assim. um sermão: que seria melhor para mim ser “mais calado”, que tentaria comportar-me “de forma mais adequada” do que o dos rapazes, que às vezes era muito ofensivo, falava “alto” e tinha maneirismos muito peculiares. Ela usou essa palavra e eu lembro de ter pensado: estranho?, mas o que será isso?)”.
Paloma: “No meu pequeno grupo de colegas, lembro que um deles gostava deliberadamente de me irritar, era um menino que eu não suportava. Camila: “Tive uma professora de inglês, o nome dela era Joyce se não me engano.
As performances e as paródias de gênero
Os processos de produção dos corpos destas pessoas estão em constante negociação com as normas de género. Emily: “E então, digamos, dos 7 aos 11 anos, eu estava no meio da identidade de gênero. Às vezes, após um longo período de proibição, começam a ter outras experiências sexuais.
Em outras palavras, quais performances de gênero preciso atualizar para ser “considerado” pertencente ao gênero escolhido. A diferença entre as paródias seria a legitimidade que as normas de gênero impõem a cada uma delas.
E a questão das identidades?
Mas para além de uma “identidade de género”, conceito que não trabalho nesta tese, pois acredito com Butler (2003) que não há expressão ou identidade por trás do género, que não é possível estabelecer uma origem, uma constituição ; Argumento que o nome social funciona como uma saída da categoria de abjeto, incompreensível. Emily foi para o ensino médio usando um uniforme de que não gostou e não teve apoio da administração escolar. Somente em casos de extrema necessidade e mesmo assim tentei ir em determinados horários quando sabia que não haveria ninguém lá dentro.
A arquitetura do banheiro não é uma simples divisão do espaço, mas implica mecanismos de regulação e produção de corpos através de normas de gênero. Esses mecanismos pedagógicos investem na produção de subjetividades legitimadas como matriz, como padrão, ao mesmo tempo em que negam e marginalizam aqueles que não se enquadram nesse modelo.
O “outro” na educação
Esse primeiro movimento vem acompanhado de outro: como “lidar” com esse “outro”, com esse “outro”, com esse corpo “estranho” que adentra o espaço escolar. Dentro disso, podemos nos perguntar se a escola tentou divergir, discutir a produção do outro ou se preocupou excessivamente com o outro - como produzido “diferentemente”. Skliar defende a separação entre a “questão do outro”, que seria um problema filosófico relacionado à diferença, e a “obsessão pelo outro”.
E não me parece exagero dizer que a escola atual não se preocupa com a ‘questão do outro’, mas que se tornou obsessiva com cada traço de alteridade, com cada fragmento de diferença em relação à igualdade.” Seria mesmo necessário inventar e repetir um discurso técnico, especializado e racional sobre esse “outro” chamado à inclusão.
É possível um pensamento da diferença na educação?
As teorizações da “filosofia da diferença” podem servir de inspiração para pensarmos questões relacionadas ao conhecimento e ao pensamento, à questão da subjetividade e da subjetivação, e à questão do poder ou da força. Em vez disso, estes autores concentraram-se no desenvolvimento de um “pensamento da diferença” que está mais preocupado com a questão “o que é diferente?” Enquanto Derrida ainda tem alguma preocupação com a questão da negação (o que é depende do que não é), Deleuze tenta produzir uma concepção afirmativa da diferença (DERRRIDA, 1991; DELEUZE, 2000).
E ao cruzar estes elementos centrais quando falamos de educação, ao questionar o que se tornou o paradigma dominante na teoria educacional, um “pensar sobre a diferença” pode ser fortalecido. Quanto aos currículos, podemos pensá-los a partir dos mecanismos em circulação nos discursos e nas práticas pedagógicas que emergem do tratamento da questão da diferença.
Queerizar a escola, a educação e os currículos
Uma pedagogia queer não incluiria apenas questões relacionadas à sexualidade no currículo, nem exigiria que o currículo incluísse materiais para combater a homofobia. Logicamente, a questão da sexualidade é necessária e uma pedagogia queer encorajará uma reflexão séria como uma questão legítima de conhecimento e identidade. Uma pedagogia e um currículo queer se concentrariam na produção da diferença, trabalhando com a incerteza e a instabilidade de todas as identidades.
O currículo e a pedagogia inspirados na teoria queer deveriam ser subversivos e provocativos assim mesmo. Um currículo e uma pedagogia queer devem agradar a todos, não apenas àqueles que se identificam como queer.
Por um transpensar os gêneros e os corpos
Isso fica claro nas palavras do diretor da escola: “não se preocupe, isso vai passar, você é esperto demais para ser gay!” E o diretor me disse: não se preocupe, vai passar, você é inteligente demais para ser gay!" Paola: "Acho que o preconceito ficou mais escondido porque muitas vezes fui considerada a pessoa mais "inteligente" e "trabalhadora" nas aulas e por isso as pessoas vinham pedir-me para explicar as minhas funções ou até ficavam “emocionadas”. ".
Estudos equivocados e a despatologização das identidades trans. lt;http://www.revisstaflorestan.ufscar.br/index.php/Florestan/article/view/64/pdf_25> Acesso: 15 de janeiro. Disponível em: