O regime internacional de refugiados e as suas práticas ultrapassadas de proteção: o caso da Venezuela e a Operação Acolhida / Matheus Sousa Marques. A protecção jurídica oferecida pelo regime internacional de refugiados parece, na contemporaneidade, estar ultrapassada.
Regimes internacionais e suas definições
Portanto, compreender os regimes internacionais apenas a partir de uma lógica utilitarista de comportamento não nos permite evidenciar os complexos emaranhados que orientam as trajetórias dos regimes. Krasner entende os regimes internacionais em sua definição como variáveis intermediárias, confirmando que eles agem endogenamente na emergência.
Pierre Bourdieu e as Relações Internacionais
A actual dinâmica de análise do regime – incluindo a avaliação do regime internacional de refugiados – baseia-se, assim, numa racionalidade utilitarista neoliberal e epistemologicamente positivista (Ibidem, p.47). As décadas seguintes à formação do regime habitacional foram caracterizadas pela pressão sobre os ditames legais que o moldaram a partir de novos contextos geográficos. Neste sentido, as diferenças entre a migração voluntária e a migração forçada são uma parte fundamental da criação e consolidação do regime internacional de refugiados.
As práticas tradicionais de elegibilidade e o âmbito teórico do regime de refugiados regido pela Convenção de 1951 não foram suficientes para persuadir a concessão do estatuto de refugiado a este fluxo de pessoas na maioria dos estados. Contudo, o caso venezuelano revela a complexidade de todas essas práticas em relação ao processo de elegibilidade de refugiados no Brasil. Esta visão ligada a uma perspectiva racionalista contribui para os processos de separação histórica e política do regime de asilo da sua realidade.
Foram assim dissecadas a construção do regime internacional de refugiados e o panorama relacionado com o seu contexto. Desta forma, o regime internacional de refugiados atua com competência, pois esta exclusão, seletividade e atraso podem ser considerados propositais. O regime internacional de refugiados molda e é moldado por estas interações na vida quotidiana, como no caso da Operação Acolhida.
Uma “Virada Prática” no estudo dos regimes
As disputas políticas sobre a concessão do status de refugiado
Primeiro, o mandato de Nansen apenas abordou a questão russa, ignorando inicialmente todos os outros indivíduos em situação de refugiado (Ibidem, p.37). Tais restrições criaram um regime em que as decisões sobre o refúgio se tornaram extremamente politizadas, estando as deliberações sobre o reconhecimento do estatuto de refúgio ligadas às relações políticas, positivas ou negativas, dos estados entre si (Ibidem, p.38). O regime internacional estabelecido na década de 1920 desmoronou gradualmente com a criação de uma organização de fachada chamada Comitê Internacional Nansen para Refugiados em 1930, em homenagem ao falecido Alto Comissário, responsável pelos poucos programas de socorro e repatriação que restavam (LOESCHER, 1996) . , pág. 43).
O fim da Segunda Guerra Mundial e a consolidação de uma arena de disputa política internacional entre os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas parecem ser fundamentais para a compreensão do regime internacional de refugiados e das suas instituições. A principal função do IRO era o reassentamento de pessoas em situação de refugiados e de pessoas deslocadas à força, afastando-se da lógica anterior de repatriamento (Ibidem, p.50).
A consolidação de um regime particular para o refúgio
No entanto, as limitações que afectaram o Alto Comissariado em 1950 ainda permanecem na sua prática até agora e reflectem-se no regime internacional de refugiados. Apesar das suas intenções limitadas, a Convenção das Nações Unidas Relativa ao Estatuto dos Refugiados, proposta em 1951, seria o primeiro e único instrumento jurídico vinculativo sobre a questão do asilo (FELLER, 2001, p.131). Nesse sentido, a convenção aponta para a possibilidade de acabar com essa condição individual de asilo reconhecido, por vontade própria ou pela alteração das circunstâncias que motivaram a fuga, e enfatiza o caráter temporário e provisório do asilo (Ibidem, p.63). ).
As inovações apresentadas em Cartagena também garantiram maior coesão e compromisso entre os países da região na cooperação e no diálogo sobre a questão dos refugiados. Esta agenda latino-americana de diálogo contínuo permite um compromisso cada vez maior com os princípios do santuário na região; tendo em conta que na Convenção de
Práticas “competentes” de elegibilidade e uma categoria “ideal”
Contudo, as migrações “puramente económicas” merecem destaque no contexto contemporâneo pela sua ligação com a instituição asilar. Numa perspectiva crítica da lógica soberana dos Estados-nação e das relações internacionais, o funcionamento “normal” do mundo e dos seus agentes produz a própria violência que causa o refúgio. Portanto, a área de refúgio caracteriza a categoria de “refugiado” a partir da alteridade em relação a essas outras categorias.
Essa combinação heterogênea confunde os instrumentos de validação de refugiados e pressiona o rótulo do refugiado “ideal” comprometido com a manutenção do modo “normal” de mundo (MALKKI, 1995). A posição desta corrente particular é analisada a partir de um ponto de vista crítico do asilo e do seu uso político, relacionado com uma leitura interessada nos direitos humanos e na sua seletividade.
Contexto atual da Venezuela e a legitimidade dos direitos humanos
Portanto, a circulação de informações relacionadas a violações de direitos humanos e produções sobre critérios de proteção jurídica não devem ser afastadas de suas responsabilidades que estão comprometidas com visões interessadas sobre o regime de asilo e os demais atrativos em jogo. O documento, orquestrado a partir de 558 entrevistas com vítimas de tais processos e submetido ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, argumenta que o governo e as suas instituições implementaram uma estratégia que visa neutralizar, suprimir e reprimir a oposição política e criminalizar os críticos do governo (ACNUDH, 2019a ). . A repercussão do relatório levou o governo e a organização a assinarem um memorando de entendimento em setembro do mesmo ano com vistas à cooperação para a proteção e promoção dos direitos humanos no país (Idem, 2019b).
Além disso, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu a Resolução nº 2 de 2018, na qual considera as “graves e generalizadas violações dos direitos humanos” no país (CIDH, 2018) e, assim, estabelece um quadro para a possível reconhecimento por parte do regime de refugiados da situação venezuelana na América Latina. Contudo, os discursos de “crise humanitária” e de abusos de direitos humanos não são indiferentes à lógica das disputas de capitais e das interpretações e traduções particulares das estruturas de poder realizadas por cada agente interessado.
As respostas e dispositivos sobre a migração forçada venezuelana
Tais processos burocráticos, no entanto, esbarram nas configurações nacionais de cada país receptor no que diz respeito ao regime internacional de refugiados e aos seus critérios de aplicação. Mesmo com o instrumento regional com definições amplas fornecidas pela Convenção de Cartagena, a aplicação do estatuto de asilo no caso venezuelano parece ser demasiado complexa, uma vez que outras interpretações prevalecem na região. Por fim, podem ser discutidos casos em que o fluxo de migração forçada da população venezuelana foi tratado com base no reconhecimento de situações de "graves e generalizadas violações dos direitos humanos", amparados pelo Espírito de Cartagena incorporado à legislação nacional, em que institui foi concedida proteção de asilo (Ibidem, p.13).
Na prática, estas indicações emitidas têm pouca penetração na soberania da exclusão proposital e fundamental dos instrumentos de recurso. A lógica soberana ligada ao reconhecimento do refúgio prevalece neste complexo campo político regional, de forma alguma apolítico.
As permissões brasileiras de residência temporária
I – requerimento preenchido; II - duas fotos 3x4; III – carteira de identidade ou passaporte válido; IV – certidão de nascimento ou casamento ou declaração consular; V - certidão negativa de antecedentes criminais expedida no Brasil; V - declaração de que não foi processado criminalmente no país de origem; e VI – comprovante de pagamento de taxas (CNIG, 2017). Esta política brasileira relativa aos mecanismos de residência temporária não deve ser entendida como outra coisa senão uma tentativa séria de reduzir e tornar mais precárias as possibilidades de proteção normalmente associadas à instituição do refúgio. A Resolução nº 126/2017 foi desenhada especificamente para a situação do fluxo venezuelano, para reduzir os pedidos de refúgio deste grupo populacional no Brasil.
Estas obrigações temporárias, documentais e financeiras não são reivindicadas em nenhuma parte do processo de pedido de asilo no Brasil e, portanto, tornaram o pedido de permanência temporária atualmente uma alternativa subutilizada em comparação com o número de refugiados. Em 2017, com a vigência da resolução do CNIg, aproximadamente 90% dos venezuelanos que chegam ao Brasil optam pela rota aérea (17.865 pessoas, conforme gráfico 1), enquanto apenas 1.691 pedidos de permanência temporária são processados (ABRAHÃO, JAROCHINSKI SILVA, 2019, pág. 270).
A concessão de refúgio para a população venezuelana no Brasil
No entanto, a lei brasileira que regulamentaria as práticas dos refugiados no território nacional só entraria em vigor quase uma década depois, após a Lei Idem de 1997. A legislação estabelece os parâmetros e dita a estrutura do regime de refugiados no Brasil, baseado na coordenação de três atores da política brasileira de refugiados. Contudo, essa estrutura tripartite está presente de forma desigual no entendimento do órgão brasileiro que coordena a questão dos refugiados no país, o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE).
Esta situação mostra como a instituição do refúgio depende do carácter soberano de cada nação nas suas iniciativas de protecção. Essa situação levou à formação de estruturas e procedimentos em torno da criação da Operação Acolhida e de seu funcionamento, profundamente ancorados em uma lógica específica que molda e modela a forma como o regime internacional de refugiados se apresenta, no Brasil e no mundo.
O “problema” da migração e do refúgio
Além disso, pudemos visitar algumas instalações da operação Acolhida nos municípios de Boa Vista e Pacaraima e observar o trabalho dos especialistas envolvidos na operação. Visitei também a sede operacional da operação na cidade de Boa Vista, onde fui recebido pelo coronel, porta-voz da operação. Como resultado desses mecanismos de pressão, em 2018 o governo federal publicaria marcos legais para regular e orientar o funcionamento da operação.
Em termos práticos, a organização da operação Acolhida significou um grande aporte financeiro, logístico e de pessoal nas cidades de Pacaraima e Boa Vista para restabelecer a “ordem” atual devido aos “problemas” ali causados pela precária infraestrutura local de assistência a este novo grande fluxo de pessoas. Na mesma diretriz para a instauração da Operação Acolhida, o MD afirma que o Exército Brasileiro estabelecerá a “Operação Controle”, cuja finalidade seria coibir crimes transfronteiriços, além de apoiar ações de controle migratório da PF, em Roraima ( OLIVEIRA.
A Operação Acolhida diante de uma razão humanitária
Durante o curso “Direito Internacional dos Refugiados”, que motivou minha viagem a Roraima, estiveram presentes vários militares envolvidos na Operação Acolhida. Essa interpretação específica, influenciada pelas trajetórias de cada pessoa e pelos estímulos estruturais de sua formação, a Operação Acolhida interpreta com base em noções hierárquicas entre desamparo e redenção. Esta razão humanitária presente na Operação Acolhida parece-me ser um mecanismo de funcionamento desta perspectiva de refúgio, por mais bem-intencionada que possa parecer.
Nessas situações, a população venezuelana, incapaz ou não disposta a viver em abrigos controlados pela Operação Acolhida – caracterizadas por regras de conduta e convivência ditadas pela Operação – recorre à ocupação de edifícios públicos ou privados desativados em espaços urbanos. A fragilidade, presente nas condições materiais do local, parece fazer parte de uma situação limítrofe, em que o fato de não ser oficialmente um abrigo da Operação Acolhida o torna menos digno da humanidade.
O campo na prática
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