LEITURAS FEMININAS, PROTAGONISTAS DE MACHADO
O romance machadiano pela crítica literária
O poeta e romancista Carlos Ferreira, na sua crítica à série, afirma que “o romance não é uma simples história, mas alguma coisa. O que se exige sobretudo do escritor é um certo sentimento de intimidade, que o torne um homem de seu tempo e de seu país, mesmo quando se trata de assuntos distantes no tempo e no espaço (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 804). No livro Os Leitores de Machado de Assis: o Romance Machado e o Público da Literatura no Século XIX (2004), Hélio de Seixas Guimarães tenta responder quem era a figura do leitor na produção ficcional de Machado, num momento em que o a maioria da população era analfabeta.
Se ainda falamos das críticas colhidas na coleção de Ubiratan Machado, sabemos que os escritos de Machado de Assis foram amplamente discutidos por Sílvio Romero e José Veríssimo. Nesse sentido, nas obras literárias Ressurreição (1872), Aão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), Machado de Assis já havia criado personagens que lutam para mudar de classe social, mesmo que isso custe aqueles sacrifícios. , ao contrário dos romances, nos quais os personagens geralmente agem de acordo com o que seus corações ditam. Para os críticos oitocentistas, A Mão e a Luva foi considerado um retrocesso em relação à Ressurreição, já que Machado de Assis, ao escrever a primeira das narrativas citadas, retomou as características do romance de costumes.
Após sua morte, Machado de Assis só retornou aos estudos relevantes por volta da década de 1930. Porém, Augusto Meyer, nos ensaios que, ao serem reimpressos, deram origem ao livro Machado de Assis, retomaria os estudos de Miguel-Pereira. Em Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio (1988), Raymundo Faoro faz um estudo do universo dos personagens dos romances de Machado, tratando aspectos como a herança na forma de herança invulnerável à crítica e ao desprezo e o casamento como meio de alcançar a mobilidade social.
Confirmando a divisão da obra de Machado em fases, Merquior considerou que a “primeira fase” já introduzia elementos como a ironia e o humor, característicos e fundamentais na sua “narrativa madura”. Assim, “sucessivas gerações de leitores e críticos brasileiros encontraram diferentes níveis em Machado de Assis, apreciaram-no por diferentes razões e viram-no como um grande escritor devido à sua qualidade por vezes contraditória” (p. 18). Assim, o ficcionista tecia histórias próximas da realidade, ficcionalizando seu mundo empírico para que “o que parece real possa ser real” (CANDIDO, 1995, p. 25).
É o que Alfredo Bosi enfatiza em Machado de Assis (2002), quando aponta as características psicológicas dos personagens de Ressurreição, obra literária em que não há assimetrias evidentes de classe social que pudessem causar diferenças comportamentais significativas. Nesse sentido, John Gledson (1998) observa que Machado tinha “muito consciência de que estava escrevendo para um público predominantemente feminino” (p. 45) e que “não só. Guimarães (2004) afirma que “[..] em Helena e Iaiá Garcia o apelo à atenção do leitor é feito de forma mais velada e indireta, por meio de tramas turbulentas, cheias de reviravoltas, e também pelo agravamento da intensidade emocional de os dramas centrais” (p. 149).
A MÃO E A LUVA QUE LHE COUBESSE
A leitora implícita entre cenas e práticas de leitura
O termo é pouco utilizado, referências a ele podem ser encontradas no artigo “Novas representações da mulher: um estudo dos editoriais da revista Tpm”, de Bruna Mariano Rodrigues (2012), onde a autora pesquisa o imaginado ou o implícito. leitor que traz a representação de um leitor que não possui uma identidade única, que é poderoso, que se respeita, além de culto e informado. Em sua pesquisa, o autor se apropria do leitor implícito, de Iser, e busca encontrar o leitor implícito na obra machadiana: aquele que se interessa por romances românticos e se identifica com determinados personagens, chega até a se colocar na narrativa. Novamente, não encontramos a ideia de um leitor real, mas sim do resultado da interação texto/leitor.
Na obra literária em análise, encontramos uma cena de leitura em que o jovem Guiomar lê para a baronesa e para Miss Oswald, uma inglesa que aprecia os clássicos de John Milton e Walter Scott.16 Essas leituras da personagem mostram que as perspectivas da governanta sobre leitura diferem daquelas apresentadas pelos leitores brasileiros. É importante destacar que, na obra literária em estudo, há também a presença do personagem inglês e citações de escritores ingleses e citações do Otelo de Shakespeare, que na narrativa é uma ópera de Verdi. Esta curiosidade, despertada mesmo quando a leitura foi interrompida, aparecerá na obra literária em estudo quando Guiomar decidir levar consigo o livro para “descobrir o resto” da sua história (AML, 1960, p. 88).
Portanto, a existência de diálogos é conduzir, retornar ao assunto ou mesmo dar explicações, como encontramos na obra literária em estudo: “alguém que está habituado a ler romances, e esta narrativa da leitura iniciada, assumiu imediatamente que esta pessoa poderia ser Stephen. Por se tratar de uma leitura típica das mulheres, é por isso que, neste caso, propomos a expressão leitor implícito, reapropriando-se do leitor implícito de Iser. Na obra literária em estudo, percebemos que Guiomar não lê apenas romances, mas também situações que lhe oferecem oportunidades de ascensão social.
Além de observar as cenas a partir de um local privilegiado, que lhe permite revelar o pensamento e a real situação dos personagens, ele também dialoga com seu leitor quando considera necessário intervir, situá-lo e colocá-lo no meio. trabalhar. Dessa forma, o texto provoca constantemente no leitor uma infinidade de representações, onde a assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma situação. Ao se dirigir aos leitores, inclui senhoras burguesas, que facilmente se identificariam com os personagens: “O leitor dirá que o primo não merecia tanto zelo nem esperança tão persistente, e terá razão; mas os olhos da Baronesa não são os do leitor; ela via apenas o lado bom dele – que era muito bom – mesmo que fosse relativamente bom” (AML, 1960, p. 122, 123).
Todo narrador, por mais inteligente ou criativo que pretenda ser, quando tem como alvo um membro de uma determinada comunidade como leitor, utiliza recursos e oportunidades padronizados e socialmente disponíveis para atingir seu objetivo, seja ele qual for. . Portanto, a própria criação do seu texto não é meramente privada, ou seja, não pertence à esfera exclusiva de uma subjetividade autônoma que se afirma absolutamente responsável pela sua invenção. Assim, entendemos que o narrador machadiano propõe ao leitor a participação direta e ativa, interagindo com o texto através de questões cotidianas da sociedade de então, representadas ficticiamente na obra literária pela ambição, pela promoção conjugal e patrimonial, pela busca de uma política . a carreira como meio de alcançar prestígio e a inutilidade dos estudos.
IAIÁ GARCIA E A FORMAÇÃO DE LEITORAS (ES)
Autor, narrador e personagens em busca do público-leitor
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossa pesquisa teve como objetivo investigar principalmente cenas e práticas de leitura, bem como representações dos leitores nos romances Amão e a luva (1874) e Iaiá Garcia (1878), de Machado de Assis, e relacioná-las com o quadro contextual da segunda metade do século XIX. século XIX, no Brasil. Para tanto, observamos os esforços dos ficcionistas em propor novos hábitos de leitura no século XIX brasileiro, apesar do apego dos leitores oitocentistas aos romances populares europeus, ao estilo de Henri Murger, Octave Feuillet, Pérez Escrich, etc. é porque a sociedade brasileira do século XIX contava com um grande número de analfabetos, e os romancistas tomaram consciência da escassez de leitores e da necessidade de envolvê-los, desenvolver novos hábitos de leitura e recepção de suas obras.
As representações de leitoras e práticas de leitura femininas encontradas nos romances estudados foram utilizadas como estratégias para a formação do gosto pela leitura literária entre as mulheres burguesas do século XIX brasileiro. Seus romances urbanos refletem através da ficção as regras e o comportamento social que vigoravam no século XIX. O casamento desordenado, como é habitual na idealização romântica, contribui para a sugestão de novos hábitos de leitura através dos diferentes diálogos que o narrador mantém com o leitor, da citação de autores ingleses e da não-linearidade narrativa, todos estes meios, contra a ficção romântica. narrativa.
Vale dizer que a história da formação do público feminino foi uma conquista do século XIX, mas a leitora que precisava ser formada era a mulher branca, aristocrática e bonita. Ao nos voltarmos para os diferentes tipos de leitores que encontramos em A Mão e Luva e Iaiá Garcia, em suas relações com os diferentes horizontes de expectativas dos dezenove brasileiros, esperamos contribuir para a história da literatura brasileira, através deste desvio do centro papel oferecido. ao sujeito produtor examinar a obra e incluir nela o papel pouco estudado das práticas de recepção e leitura, que são sobretudo práticas sociais decorrentes de atos de interação. Voluntários Involuntários: Recrutamento para a Guerra do Paraguai em Imagens da Imprensa Ilustrada Brasileira do Século XIX.
Ítalo Svevo & Machado de Assis: as perspectivas representadas na consciência de Zenão e nas memórias póstumas de Brás Cubas”.