Portanto, tal 'castelo' também pode ser analisado a partir de referências heteronormativas observadas em alguns espaços e nesses espetáculos com a rejeição da homossexualidade e da feminilidade ali representadas. Eu era mais um leitor da obra do Marquês de Sade, assim como também - e às vezes mais do que isso - observava cenas, performances, histórias baseadas em práticas sexuais adultas e suas variações, com prazeres, erotismo, desejo. Durante o tempo em que estive 'isolado' no 'castelo', o local e as dinâmicas sociais em torno da sexualidade e do erotismo também me fizeram pensar em processos pedagógicos, ensinos, didáticas a partir de diferentes elementos e ações.
De antemão procuro abordar esse 'castelo' e descrever uma parte da cidade onde ele está localizado, os arredores do local onde estou. Antes de entrar no 'castelo', trago à cena alguns pesquisadores que me ajudaram a pensar os ambientes urbanos brasileiros e as situações também organizadas a partir de sociabilidades e práticas sexuais recorrentes entre gays. Para entrar nesse 'castelo', procurei alguns 'companheiros' que me ajudaram a pensar em espaços nas grandes cidades brasileiras que atraiam gays.
QUEM ME INSPIROU
A variedade de opções oferecidas pelos estabelecimentos de encontros gays se baseia em diferentes formas e serviços, como locadoras de vídeo, cinemas de cruzeiros5, saunas, bares, agências de acompanhantes etc. Tal estudo, um dos precursores no Brasil, teve limitada circulação acadêmica segundo Carrara e Simões (2007), até a publicação da continuação de suas pesquisas, já na década de 1980, entre as quais "Para Inglês ver" (1982 ) , em que investiga a construção social da homossexualidade masculina e suas interseções de classe social, a partir de. O antropólogo norte-americano Parker (2002) realizou talvez um dos trabalhos mais abrangentes sobre a homossexualidade masculina no Brasil, baseado em estudos etnográficos em que observou relações entre homens, inicialmente na cidade do Rio de Janeiro, mas ampliando também o trabalho etnográfico em São Paulo e Fortaleza e, em menor escala, em Belo Horizonte e Recife.
Trabalhos como a pesquisa etnográfica de Terto Júnior (1989), realizada em um cinema pornô no centro da cidade do Rio de Janeiro, nos ajudam a refletir sobre o convívio que surge dos encontros entre gays, travestis e heterossexuais em um contexto específico lugar. Pocahy (2011) realiza uma importante etnografia em dois lugares distintos, ambos localizados na cidade de Porto Alegre, e elabora um poderoso estudo teórico no qual analisa cuidadosamente cenas de sociabilidade e encontros sexuais com velhos gays, e destes com prostitutas , revelando mundos e performances muito distantes do que normalmente se espera de corpos envelhecidos e "abjetos". Tendo trazido à cena alguns dos autores que me ajudaram a pensar os lugares de socialização e mais especificamente os encontros sexuais entre gays nas grandes cidades brasileiras, começo a abordar o lugar pesquisado a partir de conceitos da antropologia urbana.
POR ONDE ANDEI
Ao mesmo tempo em que as cenas sexuais ocorriam na realidade da consumação dos atos sexuais entre adultos, “vivendo” o mesmo ambiente, o mesmo cenário incluía outras encenações, desta vez com atores profissionais encenando roteiros já conhecidos, oferecidos diariamente e de forma ininterrupta nas ficções de monitores de TV, em produções cinematográficas pornográficas, explorando os mais diversos temas sexuais. Dessa forma, as realidades de encontros/desentendimentos/rejeições/acolhidas encontradas/experimentadas nas situações de pesquisa compartilharam os mesmos ambientes em que encenações, realizadas por atores e atrizes profissionais do campo da pornografia e do erotismo, foram oferecidas como atrações em um mesmo estabelecimento . Parte deste trabalho é dedicada à análise de cenas/performances, muitas das quais em nada diferem das ficções encenadas em monitores de TV espalhados pelos ambientes de estudo.
Eu estava numa grande sala, acompanhado por muita gente num grande espaço, aproximando-me metaforicamente em diferentes momentos do castelo de Silling, onde o Marquês de Sade isolou os habitantes do mundo, para que pudessem mergulhar, sem volta, num toda uma série de experimentos, provações, sacrifícios em favor dos desejos sexuais de outras pessoas.
O LUGAR DENTRO DA REGIÃO MORAL
Esta sala tem as mesmas cadeiras antigas, e numa das mesas está um computador permanentemente ligado à Internet, que também tem uma pequena televisão a preto e branco que mostra as imagens produzidas pelas várias câmaras espalhadas pelo edifício que compõem o local de segurança sistema.. Um pequeno balcão com espelho oferece produtos básicos de higiene pessoal, como sabonete e cotonetes. Com algum esforço, a posição de tal candeeiro permite observar um pequeno cartaz preso à parede sobre a qual se apoia o balcão.
37Glory holes são orifícios feitos em paredes de madeira, ao nível dos órgãos genitais, nos quais é possível inserir órgãos genitais masculinos sem identificar os utilizadores. Sem muito esforço, a assimetria das imagens (em pé/ajoelhado) e a diferença de plano (frente/costas) deixam claro que se trata de uma representação hierárquica dos sexos, em que masculino, branco, jovem, musculoso, . de homem" está em um nível superior ao da mulher, também branca e jovem, que é a "mulher" da cena. O elemento conservador dessas obras também está presente na própria 'trama', que é contada ao público por meio de cenas em que os estereótipos tradicionais de gênero são ratificados.
Também fazem parte da grande coleção inserções de filmes em que as mulheres parecem ser penetradas pela vagina, ânus ou ambos simultaneamente, o que é convencionalmente descrito como 'dupla penetração'. É impossível não se sentir em casa: os apresentadores que comandam os programas diários me chamam pelo nome.
UM LUGAR DIFERENCIADO
Assim, o 'castelo' com seus muitos serviços e atrações também parece atrair um número significativo de gays de outros lugares. Fazem parte de um pacote de opções ou serviços disponíveis “em três pisos de diversão e liberdade” onde “tudo é possível mas nada é obrigatório”. Os variados discursos do erotismo parecem reunir-se sob o mantra “prazer é o que move as festas e a boate é muito receptiva a ambos os sexos” em espaços que consideram “uma infraestrutura preparada para o entretenimento adulto”.
Diferentemente de outros locais dessa prática, inclusive do local estudado por Arent (2009), onde os “sedutores” nunca estão nus e não há necessidade de a bailarina se mostrar tensa, há aqui dois requisitos em relação a. . A 'estranheza' dessa possibilidade erótica consumada em minha presença me obrigou a perceber novas possibilidades de montagem do "quebra-cabeça" das performances sexuais. Para muitos eu era e continuo sendo apenas mais um 'bicha' em busca de sexo e prazer.
O próprio campo de pesquisa possibilitou a aproximação de quatro casais heterossexuais, que considerei mais 'tenazes', em encontros tão fugazes quanto peculiares. 77 Conheci pessoalmente o lutador Antônio Rodrigo Nogueira, conhecido como "Minotauro", em duas ocasiões: em Curitiba/PR, em dezembro/2002 no X Meca World Vale Tudo, quando foi homenageado pela organização do evento, e em julho/ 2003, na cidade do Rio de Janeiro, quando acompanhei seus treinos na academia da Seleção Brasileira, que na época era sua equipe de luta. Talvez a própria dinâmica das apresentações no contexto em que os contatos físicos entre strippers e clientes são constantes e fazem parte do 'contrato de trabalho' possa contribuir para que a prática corporal do strip-tease seja por vezes confundida com uma oportunidade ou estímulo de um desejo sexual. programa.
Assim, a investigação da 'prostituição masculina' com este grupo de bailarinos, para além de se revelar uma tarefa desagradável para os meus passos no interior, nunca constituiu um 'problema de investigação'. O próprio fato de haver proibições de se aproximar de frequentadores gays e strippers masculinos parece indicar a necessidade de uma 'norma', no sentido de manter ou valorizar o suposto status heterossexual daqueles que dançam e se despir naquela arena, enquanto na mesma tempo. tempo rejeitando a homossexualidade dos visitantes. A dinâmica dessas performances sugere que a norma heterossexual 'imaginada' como bombeiro, guarda, policial, demagogo deve ser defendida, protegida, 'blindada' de várias maneiras para ser apreciada, admirada e aplaudida naquele contexto de práticas homossexuais.
Ao mesmo tempo em que a norma heterossexual deve ser protegida do assédio de clientes 'desviantes', ela é reforçada, no sentido de que se posiciona em relação a outras sexualidades.
SHORT CUTS E EXERCÍCIOS DE SEXUALIDADES
Ou seja, ocupa estrategicamente um pequeno espaço físico por onde deve passar qualquer pessoa que se aventurar pelo labirinto. Dentro da água, é quase impossível dizer que se trata de um homem de estatura normal e um anão, já que a mulher fica escondida sob o corpo do homem a maior parte do tempo. A própria repetição das ações, o próprio formato em que esses cenários são apresentados, possibilita pensar em dispositivos de jogo, como idealizado por Huizinga (2001).
É possível que a prática do strip-tease se torne estranha ao olhar para o centro do corpo masculino supostamente heterossexual apresentado na arena do show. Para entrar no palco, para os momentos em que será exposto, devem-se levar em consideração processos anteriores, investimentos e preparações anteriores e de alguma forma continuar nos momentos de bastidores. Tal cena ocorre bem no centro do espaço cercado por todos aqueles que se desviam da mesma norma.
Ao mesmo tempo em que são pensados, desejados, admirados, sentidos e erotizados, os corpos 'masculinos' que aparecem na arena da performance representam a norma heterossexual. 108 "Dar o baile" é usado em situações em que alguém quer zombar ou assediar alguém, por qualquer motivo. Não era incomum que apresentadoras se dirigissem ao público, tratando a homossexualidade como uma 'doença' e sentindo pena do público.
Assim, as mulheres presentes nesses shows são rotuladas como "putas", "vadias", "vadias". Assim que se desvencilha da roupa, tenta atirá-la para Madame, que prontamente a pega. Nesta investigação, a prática do strip-tease foi concebida como a realização de um roteiro mínimo de 131 ações que se repetem todos os dias.
A autora sugere que o gênero é uma oportunidade de extrapolar para além do que é convencional como o binário naturalizado, masculino e feminino. Constatamos que as aproximações entre as sexualidades representadas naquele palco partem de uma referência do corpo masculino, que se mostra diariamente com hora marcada. No que diz respeito à prática corporal do strip-tease, é preciso fazer algumas considerações que nos aproximem do universo das performances.
É preciso ter 'traços bonitos' segundo relato do proprietário e confirmado por um dos rapazes que aparecem por lá. Dessa forma, muitas mãos de gays e muitas outras de mulheres e travestis provam (a) os corpos masculinos à mostra.