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SHORT CUTS E EXERCÍCIOS DE SEXUALIDADES

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (páginas 95-200)

CENA 1 – Cena do sofá.

Sábado, final de verão, por volta de 19h30min. Estou no balcão do bar, no segundo piso, conversando com dois dos strippers que vão se apresentar. Na TV colocada no espaço lateral ao balcão, está rodando um filme com um desses strippers, cuja cópia tinha sido trazida por ele e que mostrava a gravação de uma festa clube de mulheres em uma boate de cidade da região metropolitana. Nas imagens, percebe-se que a boate é grande e está superlotada de mulheres. O dançarino está fantasiado de médico em um pequeno palco, rodeado de moças que gritam e desesperadamente tentam passar a mão no seu corpo, enquanto ele se apresenta, provocando a assistência, dançando sensualmente para delírio da mulherada. Tento acompanhar o filme, porém não consigo me concentrar nas imagens. Há muitos sons perceptíveis a partir de onde me encontro sentado e que igualmente também disputam minha atenção. A música gravada da apresentação que passa na TV e toda a gritaria das mulheres que as aparições dos strippers provocam, a trilha sonora que sai das caixas de som espalhadas pela pista de dança, barulhos dos tacos na mesa da sinuca, conversas e risadas de tantos clientes que estão também próximos ao bar, campainha do interfone que fica no bar para comunicação com a recepção... Percebo que acaba de chegar o terceiro stripper da noite, carregando sua mala com figurinos e uma guitarra, pois sua aparição agora é de roqueiro. Entra suando e esbaforido. Sabe que está atrasado para o show. Ao me cumprimentar, relata que

lá embaixo tá a maior putaria”. Pergunto se é na sauna. Responde-me que é antes, no espaço dos armários, por onde quem dança tem que passar para acessar ao andar dos shows, como uma espécie de entrada de serviço.

Pergunto se é alguém conhecido que está na ‘putaria’. Ele me revela que é um casal que ele nunca havia visto antes. Interrompe a conversa dizendo que está bastante atrasado e rapidamente se desloca para o camarim.

Continuo a acompanhar no monitor de TV as cenas do clube de mulheres. Em seguida, dirige-se ao bar vindo da sauna uma mulher de pequena estatura, branca, corpo proporcional, cabelos curtos e de franja, entre presumíveis 40/45 anos, de mãos dadas a seu companheiro, igualmente branco, um pouco mais velho, mais alto, cabelo começando a ficar grisalho, com uma barriga proeminente. Ambos trajam toalhas de banho enroladas aos corpos e sandálias de dedo. Ele pega uma cerveja junto ao barman. Ficam apoiados em um canto do balcão do bar, a observar o ambiente e a movimentação. A mulher se distrai olhando as imagens do show do stripper na TV e dança em torno do companheiro. Arruma a toalha, prendendo-a com mais rigor em torno dos seios. Muitos dos clientes que estão por perto ignoram a presença do casal, afinal o clube divulga-se no próprio sítio com “bem receptivo a todos”, incluindo os casais que circulam entre os três andares. Como a maioria dos frequentadores do clube é formada por homens homossexuais, que recorrem a ele justamente pelas possibilidades de envolvimento em práticas sexuais com outros homens, embora talvez alguns não se sintam contemplados com a identidade homossexual, a presença de mulheres, bem como de travestis, geralmente, não causa maiores estranhamentos.

Grupos de mulheres têm cada vez mais prestigiados os shows de strippers aos domingos. E casais são vistos normalmente aproveitando os serviços de sauna, ocupando os mesmos espaços que os frequentadores gays, aparentemente sem maior desconforto ou rechaço por parte da clientela homossexual. Então percebo que outro homem, branco, também vindo da sauna, de toalha e sandália de dedos, com tatuagens nos braços e no peito, com idade entre 45/50 anos, se aproxima do casal. Seu cabelo é mais comprido do que o do companheiro da mulher. Iniciam uma conversam os três. Os strippers que irão se apresentar em instantes, os mesmos que estavam em torno da mesa de sinuca conversando com alguns clientes dirigem-se ao camarim. Há mais clientes, no balcão do bar, bebendo e fumando. Distraio-me da conversa entre o casal e o homem e tento localizar no bar algum rosto conhecido. O casal e o tal homem se dirigem ao sofá grande em formato de meia lua. Sobre este sofá, uma luminária japonesa, em formato redondo, de papel crepom, ilumina focalmente aquele recanto, destacando-se da escuridão que reina no ambiente. Ou seja, em um local repleto de penumbras, aquele é o recanto com mais claridade. A mulher senta-se no meio dos dois homens. Os três conversam entre si. Não passa muito tempo e o homem tatuado levanta-se do sofá, abre as pernas da mulher, ajoelha-se por entre as coxas, faz com que ela erga a toalha e começa a praticar sexo oral nela, naquele lugar, na frente de todos os presentes. O companheiro continua sentado ao lado da mulher, segurando sua mão. Alguns clientes aproximam-se da cena.

Outros ignoram, mas com descaso, não se percebe qualquer atitude provocativa ou enfrentativa. Não é criado constrangimento algum ao casal, tanto que o jogo erótico proposto entre o triângulo segue. Esta ‘liberalidade’ em

relação às práticas sexuais aproxima o clube ao ‘castelo de prazeres’. Pergunto-me se há em Porto Alegre outro lugar tão receptivo a que homens pratiquem sexo oral em mulheres na frente de outros homens homossexuais, final de tarde, sem a necessidade de ficarem escondidos, tudo acontecendo às claras? Ou, quem sabe, as práticas heterossexuais gozem de certo prestígio no clube tão associado às sociabilidades e envolvimentos sexuais/eróticos das frequencias homossexuais? A trilha sonora que se ouve insiste em percussão eletrônica.

Escuto risadas por parte dos clientes que se aproximaram da cena. A mulher abre bem as pernas. Não demonstra qualquer pudor em revelar a anatomia genital completamente depilada. O homem ajoelhado usa as mãos para abrir a vulva. Lambe vagarosamente aquela parte do corpo feminino. Sabe que está sendo observado. Exibe-se para os curiosos. A mulher, agora quase deitada no sofá, se ocupa em acariciar a cabeça deste homem. O companheiro a tudo observa, sentado ao seu lado, segurando-lhe a mão. Continua a beber sua cerveja. Mais clientes aproximam-se para contemplar o jogo sexual entre esses três adultos. Ninguém se ‘arrisca’ a sentar no sofá. Outros passam por ali e não se detêm. Tanto a mulher como os dois homens parecem estar bastante à vontade, devidamente iluminados e tornando-se foco de tantos olhares. Escutam-se alguns comentários esparsos, vindos da direção do bar, como: “Olha ali!”, “Não tô acreditando no que tô vendo!”, “Mulher louca!”, ”Oh, putaria das grossas”! Entretanto, o trio não parece se intimidar com essas manifestações. Ao contrário, parece atuar para ser visto. Não por acaso, escolheram o recanto mais iluminado do andar. Exibicionistas, penso. Há certo frisson de quem está observando de perto esta cena. Mas também percebo algum descaso quando homens cruzam este andar, vindo da sauna e se dirigem ao terceiro andar sem sequer alterar o ritmo da caminhada. O próprio gerente do clube passa por ali em direção ao camarim sem expressar qualquer surpresa. O barman igualmente não interrompe sua atividade de alcançar bebidas e dar o troco aos clientes. Não comenta nada.

Como se nada estivesse acontecendo. Corrijo. Como se nada de ‘extraordinário’ ocorresse naquela cena em que, final de tarde, em um lugar de práticas sexuais gays, um homem pratica sexo oral em uma mulher, à vista de quem quiser assistir. A mulher permanece de mão dada a seu companheiro masculino que aprecia a movimentação sorvendo goles de sua cerveja. Afinal, estamos dentro de um espaço”destinado ao entretenimento adulto, são três andares de diversão e liberdade”. O ‘castelo de prazeres’ segue seu roteiro de encontros sexuais, de diversas formas, envolvendo diferentes atuações em seus múltiplos ambientes. A rotina é reafirmada pela vinheta musical, anunciando que o show vai começar em instantes. Em minutos, haverá outro espetáculo, desta vez não no sofá. E sim na pista de dança, com outras atuações, devidamente reconhecidas. Alguns dos clientes que estavam perto do sofá, acompanhando o sexo oral praticado na mulher preferem ser plateia da atração cotidiana do palco ao lado. E se dirigem à área das apresentações. Outros não arredam pé, mostrando interesse naquela cena e permanecem acompanhando toda a ação. Antes que a apresentadora dos shows apareça, vindo do camarim, o homem ajoelhado se levanta, comenta algo no ouvido da mulher e se dirige ao andar superior. O casal permanece sentado. O homem oferece cerveja para a mulher, que bebe na própria garrafa. Ela parece sorrir quando observa que muitos clientes continuam olhando para ela. A apresentadora da noite avança do camarim para tomar o microfone. Assim que passa pelo sofá, um cliente que está sentado no bar lhe grita:

“- Mana, não vou ver teu show hoje. O show tá aqui no sofá”.

Rapidamente aproxima-se e narra o acontecido em seu ouvido, tentando vencer a música em alto volume que anuncia o início das apresentações. É necessário certo esforço para escutar o que é contado. Depois, olha a mulher sentada e dá de ombros, como quem faz pouco caso e dirige-se ao centro do palco para ocupar o espaço e começar o número de dublagem. Ataca de Fafá de Belém: “Por que me arrasto aos seus pés? / Por que me dou tanto assim? / Por que não peço em troca, Nada de volta pra mim?...”82

A mulher e seu companheiro rapidamente ajeitam as toalhas em seus corpos, e tratam de seguir ao terceiro andar, mesmo destino do homem que acabara de praticar sexo oral nela. Percebo que poucos clientes se dispõem a ir atrás dessa dupla, enquanto a maioria que esteve perto do trio se dirige à arena para assistir ao show. Talvez confirmando a premissa de que o ‘extraordinário’ são as aparições agendadas e diárias, com horário marcado, dos strippers masculinos, os que personificam a norma heterossexual.

Esta cena possibilita questionar algo das práticas sexuais envolvendo mulheres e homens em um espaço reconhecidamente de sociabilidades homossexuais locais. E para, além disso, penso que o jogo erótico/sexual entre a mulher e os dois homens à frente dos demais clientes articula certas referências como liberalidades, voyeurismo, ‘putarias’ e tantas outras expressões que remetam aos exercícios de sexualidade entre adultos nesse espaço. Pode-se

82Desabafo, música e letra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

pensar, a partir da minha narrativa, que o clube permite que atos sexuais, inclusive os que envolvam casais heterossexuais, aconteçam em qualquer de seus espaços, sem quaisquer ressalvas. O fato de o gerente presenciar a movimentação erótica entre o trio e não interromper sua caminhada sinaliza de certa forma essa permissão.

Por outro lado, sou levado a pensar que certos casais heterossexuais podem associar a

‘sacanagem’ a ambientes assumidamente homossexuais. Talvez uma das possíveis explicações para a presença contínua de casais heterossexuais no clube possa ser relacionada a ideias preconcebidas de que em ambientes que atraem homossexuais, travestis e homens heterossexuais são permitidas orgias e outras formas de contatos sexuais entre adultos. E, devido ao empirismo, arrisco a dizer que a grande maioria dos frequentadores gays é bastante tolerante à presença de casais heterossexuais, quando não se mostram interessados também em participar dessas encenações. Recorro, mais uma vez, ao sítio que detalha que o local possui uma infraestrutura preparada para o divertimento adulto e o clube é bem receptivo a ambos os sexos. Arrisco a pensar que tal liberalidade, ou seja, presenciar atos ou a própria relação sexual entre homem e mulher, sem causar maiores transtornos ou enfrentamentos – mesmo que tenham sido escutados comentários depreciativos por parte de alguns clientes gays - não teria a mesma contrapartida em um lugar marcadamente heterossexual, como conhecidas casas de swing, por exemplo.

Com isso quero dizer que o lugar se configura com certa receptividade a jogos eróticos entre casais (homem e mulher) e permissividade com a presença de mulheres em vários ambientes e cenas. Após consultar frequentemente o sítio do clube, constatei que muitos casais ‘ultra liberais’ – assim auto anunciados – usam da seção RECADOS para descreverem- se fisicamente e também expressarem suas preferências sexuais, indicando que o local possibilita encontros e trocas entre muitos sujeitos, tomando por premissa a satisfação dos variados interesses sexuais. Nessa seção, junto a anúncios em que homens gays elencam seus gostos, como em:

Gosto de punheta, ser chupado e dar também; ou “Vou estar domingo doido de tesão. Adoro mamar gostoso, tenho um jeito especial exclusivo” e “Quero protagonizar um gang bang pra quem não sabe o que é quero dar e chupar muitos caras ao mesmo tempo” são recorrentes anúncios como: “somos casal bi e adoro comer um cuzinho enquanto ficam xupando minha pequena e adoravel esposa”; ou “somos um ksal ultra liberal e estamos a sua disposiçao para inicia-lo em q quiser”. Ou ainda “ola, somos casal, eu 38 anos, peludo somente ativo, ela 47 anos, loira, bundão, e gostosa, somos amantes, temos 3 fantasias a serem realizadas. 1- uma mulher pra fazermos um menage, ela quer muito chupar outra mulher junto comigo. pode ser casada, fofa e madura, nao temos preconceito 2- um homen bi passivo, pra comer ela e dar pra mim, nao pode ser afeminado e tem que ter pau pequeno e cuzinho apertado, preferencia pequeniniho e lisinho 3- um casal em que o marido queira ver sua mulher junto com um

casal, preferencia em que o marido tenha pau pequeno, nao temos preconceito de idade ou fisico, pelo contrario, adoramos fofinhos.

Mensagens como estas são publicadas diariamente na seção destinada a registrar as tantas manifestações de clientes, como elogios, críticas, reclamações e, como o próprio nome da seção indica deixem seus recados para novos ou antigos contatos. Normalmente os casais anunciam-se enquanto ‘bissexuais’, ‘ultra liberais’ e também como ‘sem preconceitos’, o que potencializa a gama de prováveis interessados nas possibilidades eróticas/sexuais a partir dessas descrições. Frequentadores com interesses em casais parecem não faltar entre os que se dedicam a deixar recados:

[...] tenho fantasia de transar com um casal o marido abrindo a xana e eu metendo rola me liga [...] ; [...] e casais ou mulheres solteiras me liguem vou deixalas molhadinhas; [..] ou [...] algum casal afim de brincar e so me add.

Tais mensagens, igualmente retiradas do sítio, indicam o interesse de alguns clientes voltado diretamente à presença e ao envolvimento com casais, nos tantos ambientes que o clube dispõe para “diversão para público adulto”. Penso que aos moldes do ‘castelo sadiano’, o clube organiza-se também pela área física apropriada para tantos e diversos encontros – cabinas da sauna, as próprias dependências da mesma, cama king size com dossel, banheira de hidromassagem, sofás, cabinas do terceiro andar, dark room com cama, labirintos - entre adultos interessados nas mais variadas práticas sexuais. Entretanto, diferente do ‘castelo’, que era absolutamente regrado, organizado e roteirizado a partir das vontades dos quatro senhores, e que punia severamente quem desafiasse o script das libertinagens proposto unicamente para agradar a esses senhores, o clube, já a partir da entrada dos primeiros clientes, pode acolher diversos enredos sexuais. A organização dos acontecimentos sexuais se dá aleatoriamente, sem maiores regras, partindo dos interesses e das possibilidades dos frequentadores. Uma das estratégias para as experimentações com a participação de outros homens, quando não de mulheres, é o dark room, no terceiro andar, onde a própria escuridão, o anonimato, a clandestinidade, a presença de outros ‘companheiros’ permite, em alguns casos, que se ensaie a flexibilização de alguns papéis sexuais, como os clássicos ‘ativo’ e ‘passivo’, nos acontecimentos de orgia.

Penso também no teor pornográfico presente em tal cena, em que uma mulher recebe sexo oral de outro homem diante de seu companheiro, sendo observada por homens gays. É possível então analisar esta passagem a partir de uma posição privilegiada da

heterossexualidade, que, parece, pode se manifestar, a princípio sem maiores problemas, em ambientes marcadamente gays. Também considero possível pensar que os clientes do clube, aos moldes dos ocupantes do ‘castelo sadiano’ estão ‘isolados’, em certa medida, da vida

‘externa’, da vida ‘ordinária’. E este isolamento poderia ser pensado como um ‘armário’ – pelo menos para alguns desses clientes – em que podemos nos esconder, podemos nos proteger e ao mesmo tempo também podemos atuar com discrição e sigilo. Então, não rechaçar o trio que ocupava um lugar de práticas homossexuais pode ser entendido como a necessidade do ‘armário’ para as vivências homossexuais.

CENA 2 – Homenagem a Pocahy: nem todos os velhos gostam de bingo.

Um dia de semana qualquer, por volta das 16h. Encontro-me sentado na sala de vídeo coletiva de filmes homossexuais, mobiliada com 4 poltronas de material sintético branco, encostadas uma nas outras. Estou sozinho, ocupo uma das poltronas que fica limitada na parede da sala, distraio-me com as imagens projetadas na TV de muitas polegadas: uma dupla de homens negros musculosos transam na cozinha. A sonoplastia, em inglês, amplifica a voltagem sexual das cenas mostradas:

“- Oh, yeah!”;

“- Oh, Oh, fuck me, baby!”

Os dois atores parecem ser de catálogos, de tão bonitos que são. Corpos extremamente torneados, músculos rijos, dentes perfeitos e membros realmente avantajados. Um casting perfeito, penso. Nisso, entra na sala um sujeito já bastante idoso, branco, estatura mediana, de cabelos fartos e brancos, com uma avantajada barriga, revelada sob a toalha mal amarrada na cintura. Como adereço, além de chinelos de dedo, ostenta uma grossa corrente no pescoço. Ficou de pé, contemplando a cena, parado bem próximo a TV. Não usava óculos. Bebia uma cerveja long neck. Não pareceu se importar ou notar minha presença na sala. Também não fiz qualquer movimentação ou ruído que chamasse sua atenção. Observa a cena do sexo entre os dois atores negros americanos. Com uma mão, segura a garrafa de cerveja e com a outra, começa a se alisar na região genital, por cima da toalha. Após alguns instantes se alisando, desprende a toalha de sua cintura, coloca-a por sobre seu ombro e começa a se masturbar, de costas para mim, olhando fixamente as ações que eram mostradas na tela da TV. Observo que tem uma bunda bastante flácida e que exibe muitos pêlos nas costas. O filme parece o agradar, pois entre goles de cerveja, sua mão imprime mais velocidade na manipulação. Enquanto isso, circulam pela sala outros homens, olham o sujeito se masturbando, contemplam a TV, percebem que eu também estou na sala e se retiram, tratando de buscar outras ocupações ou atrações nos demais ambientes que este andar oferece. A masturbação individual continua até que este senhor decide interrompê-la. Contempla no seu próprio corpo os efeitos de seus esforços manuais.

Com o membro excitado, mantém a toalha no ombro, dá mais um gole na cerveja e sai da sala, em direção ao dark room, cujo acesso é separado por poucos metros percorridos em um corredor bastante estreito. Levanto-me e decido seguir os passos desse homem. Ele avança na sala escura, esgueirando-se por entre as pessoas posicionadas na entrada do lugar. Ocupa então uma das paredes ao fundo da sala. Faço o mesmo. Procuro ficar próximo a ele, ao mesmo tempo que percebo que há muita movimentação entre tantos homens que estão ocupando aquela sala. Um sujeito, que a penumbra reinante não me deixou perceber quaisquer detalhes anatômicos, vem se aproximando de mim, nem tão sorrateiramente e, quando me dou conta, está encostando seu corpo no meu. Muito rápido e direto, sua mão avança na minha região genital. Recuso ‘o convite’ e troco de lugar, posicionando-me do outro lado do senhor nu. O sujeito que havia se encostado em mim não perdeu tempo.

E agora está roçando esse senhor. Sua mão é hábil em repetir o mesmo gesto que eu havia refutado. O senhor não faz qualquer menção de que vá rejeitar aquela mão. Encorajado, o sujeito ajoelha-se na frente do idoso e não perde tempo em ofertar-lhe um boquete83 na frente de todos os presentes. Alguns curiosos aproximam-se dessa dupla e, imediatamente, começam a masturbar-se em volta desses dois homens. O senhor pelado solta alguns

83Boquete – S.m. O ato de fazer sexo oral em um homem. VIP e LIBI, [s.d.].

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