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Direito GV: aposta que deu certo

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Um vestibular diferenciado

Eu mesma sempre trabalhei com do-cência. Ainda na graduação, na PUC, fui monitora em antropologia e psico-logia. Depois, em direito constitucional com a notável Leda Pereira da Mota (1952-2005), professora marcante em re-lação à formação de docentes. Vários ex-monitores seguiram carreira acadêmica – aqui da FGV, por exemplo, tanto eu quanto Oscar Vilhena iniciamos com ela. Hoje, por acaso, sou coordenadora da graduação e o Vilhena da pós. Fiz mestrado em direito administrativo com Celso Antônio Bandeira de Mello, uma dissertação sobre o silêncio administra-tivo, em relação à omissão do Estado. Não iz doutorado imediatamente por-que fui para a gestão acadêmica. Antes de coordenar a graduação na FGV, tra-balhei na reitoria da PUC como chefe de gabinete – uma experiência macro em gestão universitária.

Experiência essencial, pois um curso em implan-tação demanda acompa-nhamento diferente de um já implantado. Ao longo do processo houve ajustes, mas não nas premissas. As estruturas criadas são caras à faculdade: a coordenação de graduação, a coordena-ção de metodologia de en-sino e a de publicação de

pesquisa. Essas estruturas gerenciais pensam em como se dá a aplicação de conteúdo da nova matriz curricular. Não temos a intenção de proporcionar ensino enciclopédico. Selecionamos e aprofundamos determinados temas porque acreditamos que, se deinirmos com qualidade os conteúdos estrutu-rantes do pensamento jurídico, o aluno ao se formar saberá navegar por todas as novidades legislativas.

Do ponto de vista metodológico, izemos um currículo elegendo com-petências e habilidades a desenvolver. Nesse sentido, há um novo enfoque: esse ferramental é trabalhado de for-ma a tornar os proissionais capazes de pensar novas realidades no instituto jurídico. E a fornecer as melhores me-todologias para formar competências e habilidades relevantes para esse prois-sional, como a capacidade de diálogo e argumentação, a relexão sobre a

re-alidade brasileira e a relação com a ad-ministração e a economia – pensando assim em institutos e negócios.

Se o direito tem que responder às expectativas da realidade social, o ope-rador de direito precisa ser uma pessoa extremamente capaz de dialogar com as diversas áreas. Ou seja, ler e interpretar a nossa realidade. Por isso, nosso vestibu-lar é diferenciado. Não é um exame de múltipla escolha, mas prova descritiva e argumentativa, complementada por uma segunda fase oral, em que o candi-dato precisa se colocar frente a situações e problemas. Essa forma de vestibular avalia aquilo que o curso valoriza mais à frente, a leitura da realidade, a capaci-dade de interpretação, de diálogo e de exposição de determinadas situações.

Em nosso curso, por exemplo, exis-te a disciplina arexis-te e direito, ministrada pelo professor José Garcez Ghirardi.

E foi pensada desta forma: o Direito é não só uma leitura da realidade, mas também uma codiicação dessa leitu-ra. Ora, quando uma dada realidade é codiicada, ela explica o confronto de interesses dentro dessa codiica-ção. Quando lemos um código, uma constituição ou regulação de um país, podemos entender esse país. Ou seja, o direito traduz anseios de determina-dos interesses. Do mesmo modo, a arte explica a realidade criando códigos estéticos ou linguísticos para expressar uma realidade. Assim, a habilidade de compreender uma codiicação é funda-mental para ser um bom advogado. É o entendimento do código para além do código. Munido dessa habilidade, o aluno irá, consequentemente, não só ler a realidade como também decodii-cá-la. O direito nada mais é do que uma expressão social. E a nossa preocupação é formar um proissional que consiga

atender, cada vez mais e melhor, as de-mandas da sociedade.

Como disse, houve adaptações durante a implantação do curso, fun-damentalmente curriculares (como o peso de uma disciplina em relação a outra), mas a idéia inicial, a de formar pessoas intelectualmente autônomas para construir novos institutos jurídicos, não se alterou. O que está acontecendo hoje é o aperfeiçoamento de um curso vivo, que já saiu do papel.

O mestrado como inspiração

O mestrado atualmente nos traz uma nova inspiração a partir do tema direito e desenvolvimento. Essa relexão agora é parte do exercício de nossa escola. A partir do corpo docente da graduação, o mestrado foi pensado neste sentido: uma escola como a nossa quer estabelecer di-álogo com que áreas de conhecimento?

Por isso a DireitoGV inova na busca por um modelo de pesquisa mais empírica que a tradicional no campo das ciências jurídicas. Quere-mos dialogar mais com ou-tras áreas. Essa diretriz foi se concretizando medida que passamos a ter um mestrado inovador – e isso também inspira a graduação do pon-to de vista de sua produção acadêmica.

O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), por exemplo, é uma avaliação bem elaborada (conheci-mentos gerais e especíicos), com pro-vas bem diferentes da nossa dinâmica de exercícios. Os nossos alunos ingres-santes izeram o Enade em 2006. E o resultado conirmou: estamos forman-do bem. Obtivemos a primeira melhor média dos ingressantes no Estado de São Paulo e a segunda melhor média de todo o Brasil, atrás apenas da UnB. Em conhecimentos especíicos, nossos alunos foram capazes de responder a questões cujo conteúdo não havia sido aprofundado na escola. E mesmo assim responderam bem pois já estavam pen-sando juridicamente em cima desses te-mas da prova. Ficamos extremamente satisfeitos. Isso demonstrou que estáva-mos de fato habilitando o aluno para pensar e reletir. Ele não estava prepa-rado para uma prova, mas para reletir

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o inal de 2004 fui convidada pela Fundação Getulio Var-gas para trabalhar no projeto de criação do curso de direito em São Paulo. Já havia toda uma relexão nesse sentido, pois a ideia vinha sendo analisada pela dire-ção com professores e pesquisadores. A preocupação sempre foi implantar um curso cuja abordagem dialogasse com as áreas de conhecimento onde a FGV já tinha tradição e expertise, como ad-ministração e economia. Ou seja, um curso novo e dinâmico para formar ad-vogados com competências especíicas, habilitados a pensar o direito de forma menos contenciosa e a trabalhar com demandas a partir de perspectivas pú-blicas e negociais.

Esse projeto, além de estar em sinto-nia com as diretrizes da FGV, respondia a uma demanda particular do mercado. A capacitação proporcionada hoje pela Escola de Direito de São Paulo da FGV é única – não é oferecida pelas escolas

tradicionais. O nosso curso não quer somente habilitar proissionais para dominar os institutos jurídicos, mas sim formar advogados empreendedores ca-pazes de construir novos institutos (além de pensar o direito dentro de uma pers-pectiva de solução prévia de conlitos, de construção de novos marcos legais etc.). Esse é o nosso diferencial.

Ora, sabemos que o Ministério da Educação tem diretrizes obrigatórias. É um órgão extremamente regulatório. Mas existe abertura para desenhar um curso de direito de acordo com o ob-jetivo no qual se acredita. A FGV, por exemplo, por ser um conjunto de facul-dades isoladas e não uma universidade (embora tenha sua excelência notada-mente reconhecida), tem seus cursos de graduação e pós muito mais regulados pelo MEC do que outras instituições de ensino superior. Toda faculdade passa por um processo de credenciamento mais rigoroso do que uma universida-de – a iscalização é mais universida-detalhada, a

autonomia é menor. Mas existe hoje no MEC uma tendência a reconhecer espaços de excelência. E faculdades isoladas ganham certa liberdade depois de um minucioso processo avaliativo. Resultado: o reconhecimento da Di-reitoGV pelo MEC conirmou a nossa aposta nessa experiência inovadora.

A partir dessas premissas resolvemos criar um curso capaz de produzir conhe-cimentos que interviessem efetivamente no país. Tanto é assim que temos uma categoria única, a dos pesquisadores que atuam junto a docentes em regime de dedicação exclusiva e professores em período integral. Não queremos apenas produzir conhecimento, mas garantir a produção contínua. Obviamente tam-bém há espaço para professores com ou-tro peril. Ainal, a interação dos alunos com advogados atuantes foi pensada jus-tamente para fomentar competências. Nesse diálogo com o poder público, portanto, pudemos demonstrar a exce-lência do nosso curso.

Com uma inovadora grade curricular, a escola paulista caminha para a formação

da primeira turma de direito com foco na prática empreendedora e de negócios

Por Adriana Ancona de Faria

Não oferecemos ensino

enciclopédico. Ao trabalhar

com conteúdos estruturantes

do pensamento jurídico, o aluno

saberá navegar por todas as

novidades legislativas

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sobre questões apresentadas em

qual-quer situação. Portanto, reforço: nossa proposta é formar pessoas capazes de pensar o direito independentemente de ter passado por cursos de reciclagem ou não. Nisso é uma proposta inovadora.

Inovamos também em relação ao ingresso no mercado. Os alunos não podem estagiar antes do quarto ano – inseri-los precocemente nos gran-des escritórios poderia ser uma dii-culdade extra. A inovação é quanto à aproximação: promovemos uma feira de estágios para isso. Há uma seleção, o mercado oferece vagas para a esco-la e assim os alunos se inserem. Tem sido um sucesso. Os alunos têm sido procurados por grandes escritórios de advocacia do país, recebendo elogios quanto à habilidade. Claro, ainda não temos veteranos para contar histórias de sucesso, mas estamos inaugurando essa vivência. Nossos alunos

já são bem recebidos.

A imersão traz a excelência

Os professores ingressan-tes passam por um processo de trabalho junto com o nú-cleo de metodologia. Há um debate e sensibilização para que entendam a dinâmica e a visão do curso. Eviden-temente existe uma seleção em cima de professores que

buscam inovações, com processos mais interativos. Assim que o curso de direi-to começou, o núcleo de medirei-todologia promoveu seminários e congressos para troca de experiências metodológicas que, embora não sejam de nossa exclu-sividade, puderam ser trabalhadas de forma bem institucional justamente por se tratar de um curso novo.

A DireitoGV oferece um curso de dimensões especíicas. O projeto não quer ser de massa, pois existe a preocu-pação de promover relexões. Do ponto de vista didático-pedagógico, para nós é mais importante jogar essa relexão para o país (e debater com outros espaços de ensino) do que criar uma escola para 5 mil alunos. Temos, por ano, cinqüenta vagas, com ingresso anual. O vestibu-lar é disputado. O aluno que ingressa se identiica realmente com o projeto. E estamos oferecendo um curso em tempo integral, com a clareza de que

o sucesso dessa proposta depende da imersão do aluno no processo de for-mação acadêmica. Não é uma escola para o aluno “ir levando”. É um curso de imersão. Quando as competências e habilidades são trabalhadas, ou o aluno mergulha ou não se forma.

O curso tem algumas propostas para a formação de futuros professores. Te-mos uma disciplina optativa no quarto ciclo chamada “Ensino em Direito”. O aluno participa de um workshop (de-bates realizados pela escola) e acompa-nha um professor em uma disciplina, vivenciando o programa e a dinâmica das aulas. Não queremos que o aluno repita o que o professor faz, mas que relita a partir dessa experiência do-cente. O livro Direitos Fundamentais: uma Leitura da Jurisprudência do STF,

de Oscar Vilhena, por exemplo, é um material didático que tem a cara da

nos-sa dinâmica de aula: baseado nas de-cisões jurisprudenciais e nas relexões que surgem a partir daí. Do ponto de vista acadêmico, há espaços de pesqui-sas com bolpesqui-sas de iniciação cientíica inanciadas pela escola. Temos ainda a Bolsa Merecimento: o melhor aluno não paga o ano seguinte. Além disso, há parcerias com o mercado, como o Prêmio Bovespa. Ou seja, são parcerias em cima de demandas da sociedade. Agora, em 2009, teremos os trabalhos de conclusão de curso. Destinamos um tempo na própria grade para orienta-ção, garantindo que o aluno esteja tra-balhando aqui mesmo no seu projeto de conclusão no período de um ano.

De acordo com a política da FGV, cargos de gestão não se misturam com docência, por isso não dou aula. Mes-mo assim tenho um contato forte com os alunos. Por ser um curso pequeno, tenho a possibilidade de realizar um

acompa-nhamento real junto ao corpo discente e realizo reuniões bimestrais com todas as salas. No processo de implantação do curso, esse diálogo foi precioso. Mensal-mente fazemos reuniões de conselho de classe com relexões gerais sobre teoria e prática. É fundamental que o diálogo entre professor e alunos seja um referen-cial na dinâmica pedagógica de constru-ção da autonomia dos estudantes.

Ao criarmos um curso com o pa-drão de exigência do nosso, é essencial oferecer suporte ao aluno para que a formação seja bem desenvolvida. Faço essa mediação, pois é um momento de relexão coletiva. E não abordamos ape-nas problemas, mas oportunidades (de avaliação, inovações interdisciplinares, otimização de programas etc.). Ou seja, esse acompanhamento permite qualii-car ainda mais o curso. E a experiência tem sido extremamente gratiicante.

Venho de uma universi-dade com peril tradicional de qualidade, a PUC, e hoje estou numa instituição de ex-celência. Por isso, vale des-tacar algumas experiências inovadoras: nosso currículo traz disciplinas de outras áreas, como contabilidade, para icar em apenas um exemplo; inovou também oferecendo a dupla gradu-ação, na qual o aluno pode cursar direito e administração (além de disciplinas em outras escolas da FGV). Também é preciso destacar a inserção da DireitoGV nos espaços internacio-nais, um deles a Câmara de Comércio Internacional, em Paris. Ali ganhamos o primeiro prêmio no concurso de ar-bitragem, o que mostra o envolvimento da escola. Sem contar a associação da DireitoGV com escolas de outros paí-ses, o que permite ao aluno cursar dis-ciplinas fora do Brasil. Por todos esses motivos, podemos dizer que a aposta neste curso inovador deu certo. E os resultados estão surgindo.

Adriana Ancona de Faria é mestra em direito pela PUC-SP e coordenadora da graduação da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

[Depoimento transcrito de entrevista a Carlos Costa]

Nossos alunos têm sido

procurados por escritórios de

todo o país. Ainda não temos

veteranos para contar histórias

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