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Construindo Infra-Estruturas,

Planejando Territórios:

A Secretaria de Agricultura, Comércio e

Obras Públicas do Governo Estadual

Paulista (1892-1926)

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e

Urbanismo da Universidade de São Paulo para

obtenção do título de Doutor em Arquitetura e

Urbanismo

Área de concentração:

História e Fundamentos da

Arquitetura e Urbanismo

Orientadora:

Maria Lucia Caira Gitahy

São Paulo

(2)

AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO POR

QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA,

DESDE QUE CITADA A FONTE.

e-mail: [email protected]

P

Bernardini, Sidney Piochi

B523c Construindo infra-estruturas, planejando territórios: a Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras úblicas do Governo Estadual Paulista (1892-1926) / Sidney Piochi Bernardini. --São Paulo, 2007.

616 p. : il.

Tese (Doutorado – Área de Concentração: História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo) - FAUUSP. Orientadora: Maria Lucia Caira Gitahy

1.Planejamento territorial urbano – São Paulo 2.Infra-estrutura urbana 3.Urbanização 4.Saneamento I.Título

CDU 711.4(816.1)

Projeto Gráfico e preparação de imagens

Sidney Piochi Bernardini

Capa

(3)
(4)

AGRADECIMENTOS

O meu mais profundo agradecimento:

A todos que, de alguma forma, ajudaram-me a chegar aqui.

À Prof. Dra. Maria Lucia Gitahy, pela incansável e preciosa orientação, dedicação e generosidade durante os anos de convivência no Programa de Pós-Graduação da FAUUSP (A sua sabedoria me inspira a viver!). Aos colegas do Grupo de Pesquisa do HSTTFSAU: André Augusto de Almeida Alves, Artemis Rodrigues Fontana Ferraz, Cristina de Campos, Fernando Atique, Gustavo Ribeiro Pimentel, Luiz Augusto Maia Costa, Marcos Virgílio da Silva e Maria Beatriz Portugal Albuquerque, pelas discussões e contribuições sempre produtivas e enriquecedoras. Em especial à Cristina de Campos pela disponibilização de material e pelas dicas de finalização..

Aos funcionários do Arquivo Público do Estado de São Paulo, pela presteza e acolhimento nas instalações do Arquivo, tornando a pesquisa mais instigante e prazerosa.

À Prof. Dra. Mary N. Woods do College of Architecture, Art and Planning, Cornell University, pela afetiva receptividade, carinho e atenção durante o período de pesquisa desenvolvida na Universidade entre junho e julho de 2007. À Elaine Engst, Director of Division of Rare and Manuscript Collections and University Achivist e à sua competente equipe, pelo amável acolhimento nas instalações da Kroch Library Rare and Manuscripts, Cornell University. À Artemis Ferraz, pelo apoio “logístico” em Nova York e o contato com a Prof. Mary Woods, sem o qual a pesquisa em Cornell não teria se realizado.

Aos Prof. Drs. integrantes da Banca de Qualificação: Carlos Roberto Monteiro de Andrade e Rebeca Scherer, pelas estimáveis contribuições na elaboração desta tese.

Às Bibliotecas da FAUUSP pela eficiência de seus funcionários: Filomena Katsunami, Maria José Colletti e Estelita Lima (da Biblioteca da Pós Graduação) e Eliana de Azevedo Marques, Araci Reynaldo Rodrigues, Dina Uliana e Rejane Alves (Biblioteca da Graduação).

Ao Prof. Dr. Tomás Moreira, pela amizade, compreensão e paciência.

À minha amiga Nara Argiles, pelo árduo trabalho de revisão e finalização da tese. Ao Emerson, pela companhia e carinho.

À FAPESP pelo fundamental apoio financeiro, competência e eficiência nos encaminhamentos

(5)

RESUMO

(6)

ABSTRACT

(7)

19 INTRODUÇÃO - HIPÓTESE ANALÍTICO-INTERPRETATIVA: O

PLANEJAMENTO ESTATAL E AS QUESTÕES TERRITORIAIS MODERNAS.

19

Burguesia paulista: diversificação,industrialização e conflito.

27

O Estado moderno burguês e a Primeira República.

31

A República paulista.

38

Território e burguesia no âmbito da Segunda Revolução Industrial.

46

Hipótese: O planejamento territorial e urbano mderno em São Paulo.

59

PARTE 1 - POLÍTICAS E TERRITORIALIZAÇÃO

61

CAPÍTULO 1. A REPÚBLICA CRIA INSTITUIÇÕES: A SECRETARIA DE

AGRICULTURA, COMÉRCIO E OBRAS PÚBLICAS.

61

1.1. Fundamentos econômicos e políticos da Primeira República.

61

1.1.1. A República paulista.

68

1.1.2. Estado e Município nas mudanças institucionais.

75

1.2. Formação e desenvolvimento da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

75

1.2.1. Origens da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

83

1.2.2. Evolução da organização administrativa da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

99

CAPÍTULO 2. A CONSTRUÇÃO DAS REDES TERRITORIAIS.

99

2.1. Políticas púbicas e territorialização. A Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas e a construção das redes territoriais.

99

2.1.1. As políticas públicas.

100

2.1.2. Recursos e investimentos.

114

2.2. Indústria Agrícola.

114

2.2.1. A policultura e as estratégias de produção territorial.

124

2.2.2. Industrialização, base tecno-científica da produção e ensino agrícola.

136

2.3. Viação Pública.

136

2.3.1. Planos para a viação pública.

143

2.3.2. Linhas estratégicas e de propriedade da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

148

2.3.3. Araraquara e Sorocabana.

155

2.3.4. Gestão e controle das ferrovias. O caso da SP Railway Company.

161

2.3.5. As estradas de rodagem e a alternativa de penetração pelo estado.

164

2.4. Política de Terras e Colonização.

164

2.4.1. Legalização das terras devolutas estaduais.

(8)

177

2.4.3. Três momentos da colonização paulista.

190

2.4.4. A colonização pela iniciativa privada.

195

2.5. Imigração e Trabalho.

195

2.5.1. A imigração subvencionada.

201

2.5.2 O Departamento Estadual do Trabalho e o Patronato Agrícola

203

2.6. Obras Públicas

203

2.6.1. Estradas e edifícios: a rede urbana pelas novas construções.

207

2.6.2. As obras da Capital paulista

211

PARTE 2 – URBANIZAÇÃO E SANEAMENTO

213

CAPÍTULO 3. O DISCURSO E A PRÁTICA DAS POLÍTICAS SANITARISTAS

213

3.1. A política de saúde pública e de saneamento no Brasil e em São Paulo na Primeira República.

213

3.1.1. A ciência sanitarista e o novo comportamento social.

217

3.1.2. A Saúde Pública no Brasil.

219

3.1.3. A Saúde Pública em São Paulo.

224

3.2. A Secretaria do Interior e a Secretaria de Agricultura na implementação da política sanitária.

224

3.2.1. Política sanitária e saneamento: cooperação ou contradição?

236

3.2.2. A expansão dos serviços sanitários pela Secretaria do Interior.

240

3.3.3. As prioridades: Capital e Santos.

245

CAPÍTULO 4. URBANIZAÇÃO, SANEAMENTO E EMBELEZAMENTO. A

CONSTRUÇÃO DA BELLE ÉPOQUE PAULISTANA

245

4.1. Urbanizar as várzeas: o Tietê, o Tamanduatehy, o Anhangabaú.

245

4.1.1. A Capital reproduz o capital.

249

4.1.2. O Tietê.

259

4.1.3. O Tamanduatehy

274

4.1.4. O Anhangabaú

276

4.2. Consolidar a localização da belle époque paulistana

276

4.2.1. Os melhoramentos de 1910.

281

4.2.2. O novo sistema de drenagem dos bairros paulistanos.

287

CAPÍTULO 5. A CONSTRUÇÃO DAS ERDES DE ÁGUA E ESGOTO NA CAPITAL

287

5.1. Organizar para expandir: os primeiros passos para a implantação do sistema de abastecimento de água na Capital.

287

5.1.1. A polêmica entre a Companhia Cantareira e Esgotos e o Engenheiro José Pereira Rebouças.

294

5.1.2. Aumentar as águas: a importação de materiais e os mananciais da Cantareira.

(9)

e Saturnino de Brito para o abastecimento de água da Capital.

313

5.2.1. O plano de Theodoro Sampaio: buscando novos mananciais.

320

5.2.2. O plano de Fonseca Rodrigues e Ataliba Valle.

324

5.2.3. O plano de Saturnino de Brito.

330

5.3. Planejando o sistema, administrando crises.

330

5.3.1. A implementação dos planos e a busca de soluções emergenciais.

340

5.3.2. O filtro do Belenzinho e o abastecimento pelas águas do Tietê.

353

5.3.3. Esgotos para quem precisa: o Brás, a Mooca e o Jardim América.

365

5.4. Os rumos da cidade.

5.4.1. A cidade não pode crescer: desurbanizar para desenvolver.

372

5.4.2. Planejar é prever: Henrique de Novaes, Victor da Silva Freire e o abastecimento de água pelo rio Claro.

385

CAPÍTULO 6. URBANIZAÇÃO E SANEAEMENTO DAS DEMAIS CIDADES

PAULISTAS.

385

6.1. Urbanização E saneamento de Santos

385

6.1.1. O plano de Estevan Antonio Fuertes e seus desdobramentos: Theodoro Sampaio, José Pereira Rebouças e a Companhia Docas.

403

6.1.2. Saturnino de Brito e as obras de saneamento: a cidade como marketing.

418

6.1.3. A polêmica com a Câmara Municipal: cidade planejada, cidade real.

431

6.2. Urbanização e saneamento das cidades do interior

431

6.2.1. Critérios e necessidades: pague e leve.

449

6.2.2. A modernidade chega ao interior: as principais cidades saneadas.

465

6.2.3. A marcha para o oeste: cidades iluminadas e insalubres.

477

PARTE 3 – MODELO TERRITORIAL PAULISTA

479

CAPÍTULO 7. TERRITORIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO EM SÃO PAULO

(1892-1926).

479

7.1. Interpretando a rede urbana paulista.

479

7.1.1. História e geografia paulistas: breves reflexões.

484

7.1.2. Os municípios paulistas de Eugênio Egas.

488

7.2. Conexões norte-americanas: o planejamento territorial e urbano e a Universidade de Cornell.

488

7.2.1. A Universidade de Cornell no contexto do delineamento profissional brasileiro.

510

7.2.2. A Secretaria de Agricultura e a Universidade de Cornell.

531

CONSIDERAÇÕES FINAIS

539

FONTES IMPRESSAS E MANUSCRITAS

554

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(10)

“Os caminhões rodando, as carroças rodando, rápidas as ruas se desenrolando, rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos... E o largo coro de ouro das sacas de café!... (...) Oh! este orgulho máximo de ser paulistanamente!!!”

(11)

INTRODUÇÃO

HIPÓTESE ANALÍTICO-INTERPRETATIVA: O PLANEJAMENTO ESTATAL E AS QUESTÕES

TERRITORIAIS MODERNAS

Burguesia paulista: diversificação social, industrialização e conflito

A passagem do trabalho compulsório ao trabalho livre determinou uma via importante de transformações e compôs os novos espaços do território nacional, elevando a importância da cidade no contexto da vinculação a uma nova ordem social mundial. Ainda que seja possível admitir que o projeto de Nação incluía o trabalho assalariado como força de trabalho necessária, diferente da escrava apenas por uma acomodação à nova divisão internacional do trabalho, já que toda a estrutura de produção e consumo fazia sentido para uma classe burguesa em consolidação, há que se considerar a luta de classes no processo de construção da Nação brasileira. O antagonismo das forças políticas, definidor desta luta de classes, só pode ser visualizado pelos processos históricos de 1888/1889, que se consolidariam na década de 1930. A operação da nascente burguesia industrial paulista com relação à estrutura agrário-exportadora impõe uma re-interpretação (DEAN, 1991). Poderíamos supor, por um lado, uma unidade de interesses e uma homogeneidade na estrutura dual de classes, cuja base econômica agrário-exportadora reforçada pelo arcabouço institucional e político mantinha a permanência do modelo de desenvolvimento voltado ao mercado exportador, incluindo o desenvolvimento industrial e urbano como base de sustentação a esse projeto e, por outro, a existência de interesses diversificados no interior desta classe hegemônica que, vinculada aos interesses internacionais, conduziu suas estratégias de efetivação do projeto conservador em conflito constante.

Estas duas vertentes fornecem as chaves para a compreensão dos processos urbanos e permitem introduzir o nosso problema específico: que tipo de urbanização foi promovida no âmbito destas estruturas sociais? Se assumirmos que a referida sociedade levou a um tipo de urbanização suficiente para manter as estruturas vigentes, pode-se concordar que o processo urbanizador foi segregacionista e limitador do ponto de vista das experimentações e transformações. Por outro lado, conflitos intensos entre interesses divergentes na esfera do capital cafeeiro induziram a um processo que oscilava entre momentos de desenvolvimento e de estagnação, em consonância aos movimentos advindos dos conflitos entre interesses conservadores, de um lado, e modernizadores, do outro.

(12)

20

As várias interpretações e definições a respeito da estrutura social e econômica que se consolidou na Primeira República identificam no estado de São Paulo, tanto do ponto de vista da formação social, quanto da estruturação do Estado republicano, uma conformação espacial peculiar, ainda que integrada ao conjunto de características internacionais, relacionada à expansão industrial dos primeiros anos do século XX. Esta discussão passa pela verificação do nascimento do setor industrial, de novos investidores urbanos, do alargamento das camadas médias urbanas e da classe operária em São Paulo.

A passagem do trabalho escravo ao assalariado não foi rápida. A destituição do trabalho compulsório iniciada já com a promulgação da Lei de Terras em 1850 e a proibição do trafico negreiro, consolidou-se em 1888. A introdução do trabalho assalariado não ocorreu nos moldes das economias industrializadas européia e norte-americana. MARTINS (2004) e FONT (1990) destacaram a convivência de formas capitalistas e não capitalistas de produção nas fazendas de café já no início do século XX, com o regime de colonato. Estas formas pré-capitalistas, como mencionam tais autores, resistiriam, mas conviveriam com outras formas de organização da produção, como as pequenas propriedades, os empreendimentos independentes e a industrialização.

Junto com a expansão da produção cafeeira, a partir de 1890, as mudanças produtivas ocorridas no oeste paulista trouxeram condições para que a terra fosse mais acessível a um significativo número de produtores independentes. Este crescimento se deu já anteriormente a 1920, mais especificamente demonstrado pelo censo de 1905, contrariando alguns autores, como o próprio MARTINS (2004), que minimizou o número de 8.392 propriedades rurais pertencentes a proprietários estrangeiros (FONT, 1990: 15). FONT demonstra ainda que, pelo censo de 1920, as 19.546 fazendas registradas como de propriedade de imigrantes representava 39% do número total de fazendas existentes (FONT, 1990: 17). A produção de arroz, feijão e milho vinculada à subsistência no regime de colonato, abriu frentes para uma oferta de alimentos dirigida ao mercado interno de São Paulo, que se tornou auto-suficiente no suprimento desses gêneros após a Primeira Guerra Mundial.1 O crescimento populacional nas cidades do estado de São Paulo em geral,

estimulou, além disso, o desenvolvimento dessas culturas, originadas no âmbito do sistema familiar de trabalho.

A participação dos estrangeiros na produção identificava-se também com a expansão ferroviária que abrangia, nas duas primeiras décadas do século XX, o conjunto de terras devolutas do extremo oeste e noroeste paulista. A penetração, através das linhas ferroviárias e não mais, a partir da ocupação e posse, como se deu nas fazendas pertencentes à primeira fase de expansão da cultura do café pela Mogiana e Paulista, abriu novas possibilidades de ocupação e desenvolvimento da agricultura por meio de propriedades menores, estimuladas por uma política do governo voltada para a promoção de novas culturas, além do café. Estas modalidades foram adotadas com a expansão para o oeste e noroeste, associada à atuação de Companhias colonizadoras, como a Companhia Marcondes de Colonização, que atuou em Presidente Prudente promovendo a divisão da terra em pequenos lotes. A mudança que se operou no sistema de comercialização do café a partir desta nova configuração territorial foi importante.

1 Comparados os números levantados entre os anos de 1901-06 e 1925-30, houve um acréscimo em 3,3 vezes a produção de feijão,

(13)

Pouco a pouco, o sistema de comercialização que tinha como principal intermediário o comissário de café2, foi sendo substituído por uma rede de grandes e pequenos investidores que serviam como

intermediários e operavam no meio urbano, nas pequenas cidades do interior próximas às áreas de plantação. Uma íntima vinculação entre os agricultores e estes investidores, responsáveis pelo processamento e beneficiamento do café foi se configurando – compravam os grãos de café, beneficiavam, classificavam e os vendiam para os mercadores conectados com as operações de Santos (FONT, 1990: 28). Tal fenômeno fez criar uma rede de novos agentes comerciais que faziam a intermediação com os produtores menores, dando origem às casas exportadoras localizadas na Capital e em Santos. Mas não eram apenas os pequenos comerciantes que estavam envolvidos neste novo sistema. A criação através de lei, em 1907, dos Armazéns Gerais, com o objetivo de fazer, mediante taxas específicas, a guarda do café dos fazendeiros que queriam eliminar os intermediários demonstra a força do capital estrangeiro investido nos negócios do café e permitindo-lhes esperar os melhores preços ou condições do mercado para colocar as sacas à venda (PEREIRA, 1980: 106).3 As maiores casas de Armazéns Gerais pertenciam ao capital estrangeiro. Uma das

principais empresas criadas para este fim foi a Brazilian Warrant, fundada em Londres e que fornecia crédito, assumindo a tarefa do comissário, recebendo o café em consignação e adiantando o valor sobre o café depositado ou sobre as colheitas futuras por meio da hipoteca da fazenda. A Brazilian Warrant comercializava o café para os mercados da Bélgica, França, Inglaterra e Holanda (PEREIRA, 1980: 108). Do ponto de vista territorial, é possível relacionar o alto comissariado do café às regiões de produção mais antigas ligadas à Mogiana e a Paulista. A expansão da produção na região da Araraquarense, por exemplo, (de 420.000 arrobas de café em 1888 para 4.152.438 em 1920), introduzia um padrão na produção com novos mecanismos de exportação, convivendo com empresas estrangeiras de armazenagem e exportação, como era a Brazilian Warrant.

De fato, tais mudanças na forma de produção em São Paulo, que apareceriam com mais intensidade a partir da década de 1920, delineariam os antagonismos entre os diversos produtores; os grandes fazendeiros, os setores exportadores e as novas camadas médias urbanas, os pequenos produtores, no âmbito de uma política estadual complexa. Esta situação se manifesta com mais intensidade ao analisarmos as características da industrialização e sua relação com a diversificação da sociedade no bojo destas transformações.

Por um lado, a análise de tais processos pode considerar que uma vez que a economia tinha no setor agrário-exportador sua primazia e que a indústria nascente era um componente do sistema, ou seja, integrava-se ao complexo de atividades econômicas voltadas à produção do café e sua comercialização no mercado externo. Supõe-se, a partir daí, que a economia cafeeira criou as condições para o nascimento de várias indústrias na região, com a acumulação de capital, a organização do mercado de trabalho e a criação de um mercado de consumo. Nessa perspectiva, a origem das primeiras indústrias seria um prolongamento das atividades de importação estimuladas pela economia cafeeira, com os comerciantes importadores passando às atividades industriais complementares da importação (SAES, 1985: 36). Para SAES, a indústria

2 A decadência do comissariado do café não teve a ver apenas com o advento da diversificação da produção. Estava relacionada

também à crise geral do produto, principalmente após a Primeira Guerra Mundial. Muitos comissários de Santos não resistiram, falindo diante da crise (PEREIRA, 1980).

3 Os armazéns forneciam o depósito para o café e emitiam os “warrants” que eram títulos de créditos negociáveis no mercado ou

(14)

22

desenvolveu-se sem introduzir o clássico confronto entre a burguesia industrial e a aristocracia agrária. A tese de SAES, de que estaria se formando, no âmbito destas novas atividades, uma classe média urbana, passa pela constituição de um mercado, base da industrialização. O autor aponta, no entanto, que esta classe média permaneceu fortemente atrelada aos esquemas tradicionais de recrutamento impostos pela classe dominante agrária.

Mesmo a formação de uma oligarquia dissidente, conforme SAES, que se constituía mais como uma fragmentação regional por estar afastada do bloco hegemônico e que conseguia influenciar opinião pública das camadas médias urbanas, não implicava em mudança de matriz ideológica: sua propaganda continuava sendo uma versão agrária do elitismo, civilismo, anti-intervencionismo e anti-industrialismo. A manutenção do sistema oligárquico, passava pelas relações de patronagem e clientela. Ao mesmo tempo, a contrapartida da incorporação política das camadas médias tradicionais foi a exclusão política das baixas camadas médias, como os pequenos funcionários públicos e empregados de bancos e escritórios. O movimento dos trabalhadores urbanos, também surge no período, com a formação de associações de classe, sindicatos, e luta por ação direta, enfrentando os patrões e o estado (GITAHY, 1992: 60).

Se os movimentos de luta operária definiram a contraposição de classes no interior de uma economia em transição, o confronto entre os diversos interesses de grupos no interior da burguesia paulista não é menos expressivo. A diversificação dos capitais nos leva a retomar uma discussão importante no tocante ao desenvolvimento industrial em São Paulo. MARTINS (2004) é um dos autores que ressalva a subordinação do setor industrial à oligarquia cafeeira, atribuindo-lhe certa autonomia. Ele introduz uma reflexão importante sobre as origens da indústria em São Paulo ao ir além da tradicional análise que identifica a aplicação de novos investimentos em meio à acumulação de capital resultante da exportação do café. De fato, é razoável supor uma especialização do capital industrial, já que havia em São Paulo setores capitalistas não pertencentes à esfera rural e uma acumulação capitalista anterior ao desenvolvimento do café, com o comércio do açúcar, de escravos e tropas de muares. Isto indica que a indústria se desenvolveu a partir de diversas origens do capital, potencializada, no entanto, pela crescente produção do café (MARTINS, 2004: 106).

Na identificação do processo de acumulação no seio da economia cafeeira, a bibliografia que trata do assunto coloca o desenvolvimento industrial articulado àquela produção, resultando em um importante complexo econômico de inserção de novos componentes no sistema produtivo como um todo, mas não necessariamente subordinado. Porém, estas análises gravitam em torno dos mecanismos de aplicação do excedente acumulado sob dois enfoques principais e antagônicos: se permitiram uma aplicação direta na indústria ou se nasceram de uma pressão interna, associados às políticas cambiais que induziram à sua formação4. Por outro lado, uma análise ainda mais complexa das evidências históricas aponta para uma falsa

unidade e complementaridade entre os setores agrários e industriais, numa economia que se diversificava consideravelmente, como demonstraram SAES (1986) e PERISSINOTTO (1996), ao revelar o conflito entre as frações de classe, também introduzidas por FONT (1988).

Em um primeiro aporte, poderíamos supor um entrave no desenvolvimento industrial se os excedentes advindos da política de valorização artificial do produto fossem re-aplicados na própria cultura cafeeira. Nesta versão, presente em PEREIRA (1967: 10), a indústria só poderia surgir em meio à depreciação

(15)

interna da moeda (baixa do câmbio), o que elevaria o preço das manufaturas importadas e estimularia a produção interna, configurando-a no âmbito de um sistema de substituição de importações. O autor considera sobretudo, a permanência de um “liberalismo tarifário”, demonstrando a ausência de uma política voltada ao desenvolvimento industrial, assim como de outros elementos importantes como baixo nível técnico, baixa produtividade dos trabalhadores, distanciamento das jazidas ferríferas e carboníferas, a dificuldade de conseguir maquinário e a insuficiência de transportes (PEREIRA,1984: 29). Diferentemente, no entanto, deste cenário de deficiência infra-estrutural presente no resto do país, São Paulo concentrou uma ampla rede de transportes, um volume de trabalhadores trazidos pela corrente imigratória, posterior abundância de energia elétrica e crescimento do sistema bancário, o que estimulou o crescimento da indústria, vinculada, no entanto, à política econômica adotada e subordinada ao comércio do café.

HARDMAN (1982: 57), por outro lado, considera o papel desempenhado pelo capital acumulado na produção cafeeira um importante elemento do desenvolvimento industrial, evidenciando o papel da produção e exportação do café nas últimas décadas do século XIX. Enfatiza, no entanto, a contribuição do capital estrangeiro na associação ao capital nacional para este desenvolvimento. Sua tese, ao focalizar, não somente o setor manufatureiro, mas também, o sistema financeiro, o comércio exportador e o desenvolvimento dos transportes, aborda a implantação da indústria no Brasil sob o prisma da dominação estrangeira, identificando que a concentração industrial se deu através da combinação de capitais de investidores isolados e na criação das sociedades anônimas, elevando a competição entre as pequenas empresas individuais e os monopólios formados por trustes internacionais.

Na análise de CANO (1998), há uma complexa trama econômica que gravitou em torno do núcleo rural cafeicultor. As raízes da concentração industrial em São Paulo estão no que ele denominou de complexo cafeeiro paulista.5 A estruturação capitalista deste complexo cafeeiro foi essencial para o desenvolvimento da

indústria caracterizando a interdependência entre as duas atividades, ainda que fosse determinada pelos descompassos e políticas cambiais oscilatórias que nem sempre promoveram uma sintonia entre um setor e outro. É isso que o faz afirmar que, com a queda da lucratividade média da cafeicultura, criavam-se condições para que parte dos lucros cafeeiros fossem investidos em outros segmentos do complexo: bancos, estradas, indústrias, usinas e que em um quadro de complexas oscilações, nem sempre as relações entre o capital cafeeiro e a expansão do capital industrial se davam em um único sentido ou em uma só direção (CANO, 1998: 143).

A implantação de um parque industrial em São Paulo, vinculada a todo o processo de acumulação do capital cafeeiro não linear foi demonstrada por LUZ (1978), que retratou os interstícios políticos desta trama e incluiu na análise uma suposta contradição entre interesses do setor agrário e do setor industrial. A criação de um ambiente propício para que a indústria se desenvolvesse demandava ações concretas do governo federal na política cambial e tarifária. LUZ (1978: 110) explorou os fatos institucionais que entravaram o desenvolvimento da indústria no Brasil, evidenciando como os momentos cíclicos derivados da política ligada

5 CANO enumera uma série de variáveis importantes pra a compreensão do que denominou complexo cafeeiro paulista: a atividade

(16)

24

à produção e exportação do café afetou a indústria após 1892, com os impactos sofridos pelo encilhamento. Discursos pró e contra o desenvolvimento industrial movimentaram o debate político da época, obrigando setores da burguesia emergente a reivindicar uma atuação mais incisiva do Estado, através de uma política cambial adequada. Ao mesmo tempo, tais medidas provocaram reações adversas a políticas incentivadoras, como foi o discurso de Rangel Pestana, contrário à concessão de auxílios à indústria6. As posições relativas à

política cambial e às tarifas aduaneiras impactariam não só o setor exportador, mas as receitas adquiridas pelo imposto sobre exportações. CARONE (2001: 73) também identificou, de forma ampla, os fatores negativos da industrialização. Para ele, a escassa atividade artesanal, como condição importante para o desenvolvimento da indústria na forma como se deu na Europa, não favoreceu seu florescimento por aqui. Em conseqüência, São Paulo só teria as primeiras fábricas têxteis a partir de 1850. A isto se agregava a baixa intensidade do mercado consumidor, a rarefação populacional e seu baixo poder aquisitivo (que limitavam o poder de compra), além do deficiente sistema de transportes (que cobravam fretes altos), a escassez de recursos para empréstimos pessoais pelos bancos e a falta de infra-estrutura, de indústrias de base e de siderurgia. Vale a pena observar que o crédito aos bancos era realizado com freqüência pelos estrangeiros. Muitos, apenas financiavam compras feitas no exterior, como de máquinas, por exemplo, o que demandava, nos períodos de desvalorização cambial, um alto investimento inicial, só viabilizado pelos empresários com algum acúmulo inicial. Já as tentativas de produzir máquinas no próprio país esbarravam na ausência de exploração dos principais insumos: ferro e aço. Embora conhecidas as jazidas em Minas Gerais já neste período, a inexistência de acesso até a região dificultava qualquer projeto de exploração7.

Os estudos de DEAN também elucidam alguns destes conflitos. Os plantadores viam na fábrica uma ameaça, por estimular a permanência dos imigrantes nas cidades, entrave para a manutenção dos baixos níveis salariais. Além disso, se ressentiam pelo fato das fábricas buscarem matérias-primas estrangeiras, quando poderia haver uma alternativa para se obter matéria-prima nas próprias fazendas. A questão não estava na adoção de uma política unificada para permitir que a indústria tivesse força para se desenvolver. Assim, se os industriais não buscassem ferro gusa em Minas Gerais para fabricar as máquinas de beneficiar café e o importassem, não havia qualquer tipo de represália. Mas se usassem lãs ou sedas importadas na fabricação de tecidos, eram objeto de terrível hostilidade, porque reduziam o consumo do algodão paulista (DEAN, 1991: 77).

A falta de uma política voltada unicamente ao desenvolvimento industrial estava claramente identificada com a força que os cafeicultores tinham na definição destas políticas e sua influência nos planos do governo. Tais políticas não significavam, no entanto, ações contrárias à indústria, mas estavam

6 Sobre isso, LUZ (1978: 106) afirma: “Em 1892, estavam, principalmente, em dificuldades as empresas que haviam encomendado as

suas instalações numa ocasião de câmbio relativamente alto e agora viam-se na contingência, em vista da depressão cambial, de desembolsar uma quantia superior à da época da encomenda além do mais, sem crédito para obter essa soma. A única solução era recorrer ao governo, solicitando a sua intervenção.”

7 Sobre a questão da siderurgia, duas outras causas são apontadas para o seu fraco desenvolvimento: a deficiência de energia

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direcionadas a outros objetivos, por um lado ligados aos interesses de exportação e, por outro, à manutenção de receitas com a aplicação do imposto sobre exportações e a tarifação alfandegária. Entre 1900 e 1920, o governo federal obteve cerca de 70% da sua renda dos direitos aduaneiros sobre importação, destinados a extrair o máximo rendimento, já que entre 1893 e 1904, não pôde abrir mão de outro imposto estadual. Como os fabricantes eram obrigados a importar as máquinas e parte de suas matérias-primas, o produto final encarecia. Por outro lado, como não havia uma unidade nas medidas adotadas, chegava-se a estruturar uma política tarifária que favorecesse a importação de produtos semi-acabados o que estimulou a abertura de fábricas que só produziam produtos semi-acabados, como fósforos e perfumes8.

A emergência de uma burguesia industrial resignada é outra característica do complexo industrial implantado em São Paulo reforçada por DEAN. Dentro do negócio cafeeiro, não havia, para o autor, um enfrentamento deste novo setor aos interesses dos cafeicultores: não estavam dispostos a dilatar seus ganhos com rapidez ou pleitear vantagens políticas em detrimentos dos fazendeiros. A razão disto estava na dificuldade de se estabelecer uma identidade separada. Para os imigrantes que se estabeleceram no meio urbano e que tiveram a capacidade de internalizar capitais ou que acumularam capital suficiente para os estabelecimentos industriais e que, segundo DEAN, foram os principais agentes do desenvolvimento industrial genuinamente autônomo das bases agrário-exportadoras9, não podia haver uma contraposição aos interesses

majoritários dos agricultores. É preciso observar, neste sentido, que DEAN destaca uma aproximação e não conflito de interesses, evidenciando o grau de casamentos registrados entre famílias de imigrantes e de famílias de fazendeiros neste período.

Sob outra perspectiva, a diversificação sócio-econômica do final do século XIX foi amplamente discutida por SAES (1986), que evidenciou não só os aspectos internos desta diversificação, mas os conflitos que ela veio a gerar na prática. SAES identifica na década de 1890 o período em que as bases harmônicas da associação entre capital cafeeiro e outros investimentos, como as ferrovias, por exemplo, foram desgastadas, com a oposição ao crescimento dos investimentos fora da lavoura. Esta diversificação implicava em medidas específicas que beneficiassem as novas atividades urbanas. Segundo SAES, tais conflitos não eram apenas o resultado de uma conjuntura desfavorável, mas encontravam-se na essência das próprias transformações do período. Esta diversificação foi evidenciada por FONT (1988: 10) com a consolidação, já a partir da década de 1920 de novos tipos de produtores, intermediários e financiadores antagônicos ao sistema vigente caracterizado pelas antigas relações de produção: plantador e comissário, por exemplo.

8 A relação entre a nacionalização da indústria e as políticas protecionistas de tarifação foram elucidadas pelo trabalho de Nícia Vilela

Luz, que identificou em detalhes os conflitos existentes nas tentativas de nacionalizar e desenvolver a indústria nacional. LUZ relata a proposta apresentada pelo deputado federal mineiro João Luis Alves, considerada nacionalista e protecionista, mas que sofreu grandes reações contrárias, de certas indústrias que dependiam de matérias primas importadas e da lavoura cafeeira que era favorável ao estabelecimento de tarifas que estimulassem a entrada de divisas no país, possibilitando investimentos do governo em medidas de valorização do café. Assim relata a autora: “O seu projeto era, realmente, o reflexo fiel das tendências nacionalistas da época — defesa e amparo da produção nacional por meio de uma tarifa protecionista. Nesse sentido, João Luís Alves propunha uma extraordinária elevação dos direitos sobre os produtos agropecuários e sobre as matérias-primas similares às nacionais. Assim, o gado vacum sofreu uma elevação de 100 por cento, o suíno de 200 por cento, a banha 33 por cento, o que vinha favorecer, particularmente, o estado de Minas Gerais; os cereais também sofreram aumento: arroz, farinha de trigo e o trigo em grão, 100 por cento; o feijão, 66 por cento; o milho, 50 por cento. Como exemplo de matérias-primas cujos direitos foram consideravelmente elevados podemos citar as madeiras, algumas, como o pinho, apresentando um aumento de 165 por cento. Não estava, porém, imbuído do preconceito a respeito de indústrias artificiais e o seu projeto dispensava proteção a certas indústrias assim consideradas, como a de perfumarias. Diante da alternativa de escolher entre uma indústria "artificial" e uma "natural", João Luís Alves, como bom nacionalista, preferia, entretanto, as que utilizavam matéria-prima nacional.” (LUZ, 1978: 132)

9 GORENDER (1990) e PERISSINOTTO (1996) concordam com a tese de DEAN de que a via do comércio importador realizado por

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Uma forma de analisar a diversificação econômica e a atuação dos representantes dos vários ramos de investimentos que batiam à porta do governo e que, às vezes, se concretizavam em projetos de lei e ações governamentais passa pela verificação da origem destes capitais É preciso identificar os grupos de interesses colidindo na implantação de uma base propícia para os seus investimentos. Vários autores têm destacado a presença de conflitos de interesses entre frações de capital, como HARVEY (1980) e TOPALOV (1979). Este último o faz considerando a presença dos diversos agentes, com seus inúmeros sub-grupos, com variedades de reivindicações, difusas e coordenadas por movimentos que representam populações urbanas em seus diferentes estratos (CAMPOS NETO, 1999: 9).

Em São Paulo, a “função comercial” do capital já nos fins do século XVIII iniciou este processo de diversificação, orientando, já na segunda metade do século XIX, várias frentes de aplicação. Neste sentido, pode-se dizer que as atividades de crédito já eram praticadas. A formação de bancos em São Paulo, no fim do Império, é parte deste movimento mais amplo do capital na província, consolidando-se na década de 1880. Os primeiros bancos a surgirem foram o Banco Mercantil de Santos, em 1873, ligado ao comércio de comissão da cidade e o banco de Campinas. Este último tinha como presidente o Barão de Três Rios, que já era um alto capitalista e investidor em atividades urbanas, como a Companhia de Iluminação Pública de Campinas, acionista da Companhia Mogiana e mais tarde, presidente no Banco de Crédito Real de São Paulo. Este último, criado em 1882, tinha como um dos diretores Antonio Proost Rodovalho, um dos principais proprietários de terra na Capital e que organizaria, mais tarde, a Companhia de Melhoramentos de São Paulo e sociedades como a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a Companhia Cantareira e Esgotos e Associação Comercial e Agrícola de São Paulo (SAES, 1986: 88). Se por um lado, havia uma diferenciação crescente da aplicação do próprio capital cafeeiro, pois muitos dos fazendeiros aplicavam seu excedente em atividades urbanas, fazendo parte do sistema de crédito, havia, por outro, uma acumulação já presente da atividade comercial anterior à instalação das fazendas de café. Diferenciado o capital cafeeiro em frações, conclui-se que não havia homogeneidade na classe dominante.

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PERISSINOTTO afirma que se no caso do grande capital cafeeiro, o investimento industrial é secundário, no caso do industrial imigrante, tratava-se de sua principal atividade lucrativa, com origem no comércio importador.

A presença do capital estrangeiro na consolidação da burguesia paulista foi classificada por PERISSINOTTO como fração hegemônica no interior do bloco de poder. O capital estrangeiro monopolizou a comercialização dos principais produtos agrícolas, participou com peso no setor de serviços públicos e assumiu posições importantes no financiamento do setor público nacional. Já relatamos como o setor de exportação e importação estava nas mãos de firmas estrangeiras, na ampliação de seus negócios com a instalação dos armazéns gerais. Sua ascensão econômica se deu, sobretudo, através do controle das finanças públicas e da capacidade de conquistar sólidas posições políticas e poder de intervir nas decisões do Estado brasileiro acerca das políticas econômicas (PERISSINOTTO, 1996: 167). A associação entre capital estrangeiro e governo está claramente delineada nos esquemas valorizadores do café. Muitos bancos estrangeiros participavam destes esquemas, através de consórcios, nos quais estes adiantavam uma parte e o governo complementava com o restante. No primeiro esquema, em 1906, 80% do capital foram emprestados de bancos norte-americanos, holandeses e ingleses, complementado com 20% do governo, com juros de 6% ao ano. Não só o fator empréstimo revelava a interferência estrangeira nas decisões políticas, como a administração do esquema ficava com um banco inglês. Com isso, as empresas participantes do esquema monopolizaram os estoques da valorização, sendo responsáveis por 90% dos estoques do Brasil (PERISSINOTTO, 1996: 173).

A análise desta conflituosa consolidação da burguesia brasileira e das especificidades da luta interna de suas frações coloca como problema a compreensão do Estado que se estabeleceu. A República, como momento modernizador das instituições, se por um lado, efetivou um projeto de federalismo para o Brasil, formou-se no âmbito da consolidação desta burguesia conflituosa.

O Estado moderno burguês e a Primeira República

A capacidade de articulação do Estado para promover uma política voltada ao desenvolvimento econômico de São Paulo não se efetivou como via de mão única, ainda que estivesse associada aos interesses do grande capital. É neste sentido que concordamos com SZMRECSÁNYI de que a produção material da cidade de São Paulo foi um processo comandado pelo capital e dedicado aos seus lucros, mas parcialmente levado a cabo por ele, pois o Estado foi parceiro freqüente e nem sempre obscuro. Afirma a autora:

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A imagem de um Estado condutor de um programa de modernização e desenvolvimento para São Paulo nos induz a refletir sobre o papel das instituições e das reformas que ocorreram no âmbito da modernização burguesa. Qual o momento, no entanto, que se introduziu o Estado moderno no Brasil identificado com os interesses da burguesia paulista? É claro que, à primeira vista, a instituição da República foi um fato marcante da consolidação do Estado moderno burguês, o que significa dizer que, a atuação plena de uma sociedade capitalista inserida nos cânones do capitalismo mundial deveria ter como componente essencial um novo tipo de arcabouço institucional vinculado aos interesses da burguesia. A passagem de um Estado “arcaico” para um Estado moderno nos conduz a uma interrogação teórica acerca do conceito de Estado moderno burguês, das condições em que há a consolidação deste Estado e como, se estruturou para corresponder à sociedade capitalista industrial.

A análise de sua formação passa pelo desvendamento do conteúdo da estrutura jurídico-política que prevalece na formação social em estudo e, sobretudo, do papel social que desempenha. Neste sentido, e concordando com SAES, procuramos incluir na análise, os interesses presentes numa sociedade cuja dinâmica interna é caracterizada pela luta de classes. Além disso, não se considera que o Estado moderno é burguês ou capitalista, por desempenhar uma função auxiliadora da acumulação primitiva de capital. Para SAES, há a predominância de duas estruturas jurídico-políticas no Brasil: uma escravista moderna (do século XVI a 1888) e uma burguesa ou capitalista (de 1888 aos nossos dias) (2001: 11).

Esta passagem é peculiar, se comparada com o quadro da formação dos Estados modernos nas nações européias. Na Europa o primeiro componente fundamental é a unificação territorial da nação, durante o Antigo regime. O Estado que correspondeu a essa fase de acumulação primitiva de capital foi o Estado absolutista. Os países hispânicos, Portugal e Espanha, foram os primeiros a se unificarem. Os princípios filosóficos da crítica a este Estado seriam concebidos no século XVIII pelo Iluminismo francês. Está em Montesquieu, no seu “Espírito das Leis”, a separação de poderes, como base do sistema político burguês, que traz na sua concepção, a divisão clara entre Estado e sociedade civil, insiste GRAMSCI (1995). A questão da separação de poderes para este autor se inseria na questão da luta entre sociedade civil e sociedade política, num período em que algumas categorias de intelectuais, especialmente as burocracias civis e militares, ainda estavam muito próximas da velha classe aristocrática. A Igreja, então, representava ainda a parte da sociedade civil e o conflito ocorria tanto na esfera do poder como na composição de um Estado apoiado pela burguesia (GRAMSCI, 1995: 245). O Estado moderno é visto por GRAMSCI como um Estado “educador”, que, através da lei, criaria um outro nível de civilização. Para eliminar costumes ou atitudes e disseminar outros, a lei seria o seu instrumento. O Estado é, então, instrumento de racionalização e opera de acordo com um plano: incita, solicita e pune. E, uma vez criadas as condições para isso, pode sancionar, por lei, determinadas ações, verificadas as suas implicações morais (GRAMSCI, 1995: 247). O Estado moderno assim inclui, segundo GRAMSCI, uma ética burguesa baseada na separação entre as esferas pública e privada. Um Estado que governa para toda a sociedade supõe a divisão daquilo que é comum a todos os cidadãos daquilo que é propriedade individual de cada um. O espírito público do Estado moderno, conduzido pela burguesia pode tornar-se, neste sentido, um Estado “educador” (GRAMSCI, 1978: 232)10, transformando-se, de Estado

10 A ética do Estado está colocada para GRAMSCI (1995: 259), quando suas funções elevam a grande massa de população para um

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religioso-eclesiástico para um Estado laico. Ao mesmo tempo pode se constituir em organismo de natureza intervencionista, na ordem econômica, ligado por um lado, às correntes protecionistas ou ao nacionalismo econômico e, por outro, à transformação de uma estrutura feudal ou rural numa estrutura capitalista (GRAMSCI, 1978: 233). GRAMSCI evidenciou, na formação do Estado moderno burguês, a existência de uma ética levada a cabo pela burguesia, agregando ao seu projeto uma ordem moral e educadora a toda sociedade, intermediada pela lei, como forma-instrumento de legitimação das ações do governo representativas de toda a sociedade. GUNN e SAES evidenciaram como o Estado moderno se organizou do ponto de vista institucional no âmbito da produção econômica capitalista no Brasil.

GUNN (1985) especifica três vertentes do ideário burguês que ilustram as dimensões deste seu pensamento no processo de transformações dos estados pré-existentes: a filosofia inglesa do utilitarismo de Bentham na desmontagem de requisitos pré-capitalistas da sociedade, o ’laissez-faire’ de Adam Smith na redefinição burguesa das atribuições do Estado e o contrato social de Rosseau, na forma dos regimes políticos instituídos pela burguesia (GUNN, 1985: 59).

Para SAES, há como condição necessária para esta consolidação a criação de uma ilusória igualdade na relação entre produtor direto (operário) e proprietário dos meios de produção para a manutenção da troca desigual no uso da força de trabalho. Neste sentido, o Estado burguês tem uma dupla função: individualizar os agentes de produção mediante a sua conversão em pessoas jurídicas e neutralizar, no trabalhador assalariado, através do contrato de trabalho, a tendência à ação coletiva, substituindo o caráter socializado, que seria natural no processo de trabalho massificado, pelo caráter individual e alienado assumido pelas relações contratuais (SAES, 1985: 32). O Estado burguês funciona, assim, como um neutralizador da luta de classes, ao definir todos os agentes da produção, produtores diretos ou proprietários como iguais, igualdade esta estabelecida através do direito (tratamento igual aos desiguais) e da burocracia burgueses (conjunto de recursos materiais e humanos utilizados na conservação da dominação de uma classe por outra)11. A burocracia, neste caso, exibe uma face diferente do Estado daquela observada por GRAMSCI, ao

propor a luta pela não monopolização das tarefas do mesmo pela classe dominante permitindo o acesso e a hierarquização das suas tarefas pelo critério da competência (SAES, 1985: 39).

A luz destas concepções, SAES faz uma discussão acerca da formação da estrutura jurídico-política capitalista no Brasil. Nota-se em sua análise, o destaque para o papel do Estado burguês, enfatizando a sua natureza político-institucional e tratando sua formação como marco decisivo para a passagem de uma sociedade pré-capitalista a uma sociedade capitalista. É neste sentido que SAES critica a obra de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1975):

“Fernandes desconsidera o fato de que uma ruptura qualitativa de natureza político-institucional é absolutamente necessária para que uma economia em processo de crescente mercantilização, porém ainda fundada em relações sociais pré-capitalistas, converta-se em economia propriamente capitalista.” (SAES, 2001: 21)

11 WEBER descreve as características da burocracia da seguinte maneira: 1 – Há o princípio da fixação de áreas oficiais juridicamente

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Há um posicionamento crítico acerca dos pontos de ruptura delineados por Florestan Fernandes colocados em dois momentos importantes: a Independência em 1822, e a abolição e industrialização, a partir de 1888, sem considerar o rompimento representado pela revolução política antiescravista, que transformou, segundo o autor, a “natureza de classe” do direito e do aparelho de Estado, e instaurou as condições políticas e ideológicas indispensáveis à implantação de uma economia capitalista no Brasil. O outro componente da crítica está no fato de Florestan Fernandes não ter considerado a revolução política antiescravista como o momento fundamental da revolução burguesa no Brasil, ao dizer que os protagonistas dela eram o fazendeiro de café e o imigrante investidor (SAES, 2001: 28). Ao analisar a formação do Estado burguês orientado por uma revolução, SAES atribui o protagonismo da mesma a dois grupos sociais distintos: coube aos escravos rurais e à classe média o papel ativo na revolução que institui o Estado moderno burguês no Brasil.12

Durante o período imperial assiste-se à passagem de um Estado patrimonialista burocrático para um moderno burguês, momento de ruptura importante. Não havia uma nação brasileira até 1822. A Independência trouxe ao Brasil à formação de um Estado próprio, sem trazer contudo, um avanço na constituição de uma ideologia liberal. O desinteresse do fazendeiro de café ou do próprio imigrante investidor em conduzir de fato uma revolução de caráter burguês, já no último quartel do século XIX, ainda que São Paulo tivesse abrigado conflitos entre frações da burguesia cafeeira, para SAES, traduzia-se na inconsistência do projeto liberal que não implementou qualquer transformação no seio da estrutura política vigente. E assim permaneceria a sociedade brasileira até o fim do Império: sob as rédeas do Poder Moderador que centralizava todas as ações na figura do Imperador. Reformas liberais que ocorreriam durante o Império levaram à criação do patronato político, constituindo-se de um arremedo de regime constitucional, compatível com a segurança das classes dominantes do país (DIAS, 2005: 144). Em meio às possibilidades de revolta, na onda que se propagava da Europa e Estados Unidos, o governo imperial criou esta forma clientelista, analisada por FAORO:

“O patronato não é, na realidade, a aristocracia, o estamento superior, mas o aparelhamento, o instrumento em que aquela se expande e se sustenta. Uma circulação de seiva interna, fechada, percorre o organismo, ilhado da sociedade, superior e alheio a ela, indiferente à sua miséria. O que está fora do estamento será a cera mole para o domínio, enquanto esta, calada e medrosa, vê no Estado uma potência inabordável, longínqua, rígida.” (FAORO, 2000: 441)

Mesmo imaginando que esta estrutura burocrática comprimiu qualquer possibilidade de transformação social e construção de um novo Estado, a formação do Estado moderno burguês foi efetivamente marcada por conflitos que culminaram na instauração da República, como reação ao centralismo imperial. É o que defende SAES13. Para ele, o Estado burguês organizou a dominação de classe de um modo

12 Ainda que seja difícil imaginar momentos revolucionários nesta passagem, SAES explica:

“A massa escrava rural se rebela, por meio de fugas e da constituição de quilombos, contra os sistemas de trabalho compulsório, levando a ordem social escravista ao colapso. Configura-se como a força principal da revolução política antiescravista, na medida em que, sem a sua ação violenta, seria impossível curvar as classes dominantes escravistas e a burocracia imperial; vale dizer, seria impossível destruir o conjunto das instituições escravistas. A classe média urbana, ou mais precisamente, aquela parte dessa classe social que não se acomoda ao ‘favor’ das classes dominantes – é conquistada, durante o período imperial, pelos ideais cosmopolitas da meritocracia e da cidadania. Tais ideais se harmonizam com a sua aspiração à valorização social do trabalho não-manual, degradado – como todo trabalho – na ordem social escravista. Em razão desses ideais e dessa aspiração, a classe média urbana passa à luta contra as instituições jurídicas e políticas escravistas, que bloqueiam a concretização da condição de cidadania e a difusão social do princípio da meritocracia.” (SAES, 2001: 30)

13 SAES rebate o pensamento de FAORO por considerar que sua análise na formação e no desenvolvimento do Estado no Brasil se

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particular e corresponde às relações de produção capitalistas. É este modelo de Estado que se construiu entre 1888 (abolição da escravatura) e 1891 (assembléia constituinte). A existência de um Estado escravista moderno14, articulado a um modo de produção em desagregação, resultou da contradição interna entre

escravos rurais e fazendeiros escravistas. A permanência da estrutura social escravista foi defendida pela burguesia agrária na luta que caracterizou os momentos de transição do Estado monárquico para o Estado burguês. O caráter conservador desta burguesia centrava-se justamente no sistema escravista, já que a propriedade escrava serviria até o fim de sua existência, como meio de fácil circulação e liquidez de todo o sistema de crédito para banqueiros e comerciantes, mesmo após a promulgação da Lei de Terras. Daí a lentidão da transformação do trabalho cativo em assalariado, constantemente combatida pela burguesia cafeeira15.

Se, para SAES, a Abolição pode ser considerada a resultante de um movimento conduzido pelos escravos rurais em associação aos movimentos militares e à classe média, a estrutura jurídica de um novo Estado federativo foi construída por força do bloco regional paulista, no âmbito da hegemonia econômica cafeeira e que tinha como principal frente de luta a descentralização política e econômica e a autonomia de São Paulo. A República de 1889 é a instituição do estado burguês porque implicou na consolidação da burocracia e direito burgueses, possibilitada pela abolição e tomada de poder pelos militares. Definida a estrutura, o bloco paulista civil ascendeu ao poder a partir de 1894, retirando os militares e instituindo um Estado peculiar, porque não atendeu às formas democráticas próprias da divisão de poderes e do sufrágio universal. A interdição do voto aos analfabetos e a manutenção das relações servis de trabalho tiraram qualquer possibilidade de consolidar a igualdade de direitos que o Estado burguês previa.

A República paulista

A República no Brasil, ainda que promulgada sob o modelo norte-americano de Estado federativo, não foi resultante de um consenso entre os grupos envolvidos na sua construção. Havia um debate em torno

portuguesa determinou a formação de um Estado patrimonial – da Colônia ao Estado Novo, conservando a sua estrutura patrimonial e transformação do estamento governamental de aristocrático a burocrático (SAES, 1985: 19). Concordamos com SAES, mas ressalvamos que, ainda que marcado por lutas sociais, o governo imperial foi caracterizado pelo patrimonialismo, como uma extensão da corte portuguesa. A vinda da família real ao Brasil representou um momento no qual as crises advindas do questionamento ao absolutismo dos estados europeus levaram a um avanço do domínio imperialista e à decadência econômica e política de estados de formação mais antiga, como ocorreu com a Espanha e Portugal. Concordamos com SAES que, a partir de 1824, com a Constituição, há a formação no Brasil de uma Monarquia constitucional de base escravista.

14 A diferença entre o Estado escravista moderno e o antigo está explicada por Décio Saes em A formação do Estado burguês no

Brasil (1985). O Estado escravista moderno se caracterizava pela presença de proprietários de escravos, cujo aparelho praticamente se confundia com os membros físicos da categoria e os seus recursos materiais, e cuja política se orientava para a conservação das relações de produção / forças produtivas escravistas (repressão contra as revoltas escravas, medidas contra a escassez de escravos, etc) (SAES, 1985: 70).

15 Deve-se destacar os apontamentos de WITTER sobre a transição gradual que se deu na pratica, do trabalho escravo ao trabalho

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dos rumos das relações de trabalho, com a crise do sistema escravista já desde 1850 (com a proibição do tráfico de escravos) e em torno da centralização monárquica que incluía posições divergentes sobre o sistema político a ser adotado no quadro das transformações capitalistas em curso. A República poderia significar um novo modelo de Nação para a classe média em formação, que atribuía à monarquia a causa do atraso, dos privilégios e da corrupção. Havia, neste âmbito, uma posição contrária ao regime monárquico, mas não ao Estado. Uma proposta de poder executivo forte e intervencionista combinava-se com a doutrina positivista de incorporação do proletariado à sociedade moderna, evitando que o próprio povo ou operariado, abrisse seu caminho. Outra proposta era a do jacobinismo presente em setores da classe média, mais radical. A ênfase dada ao poder do Estado republicano tinha como um dos ideais a inserção social de todos - bacharéis, desempregados, militares insatisfeitos com os baixos salários – obscurecendo-a como direito à cidadania, considerando as prerrogativas de um Estado burguês, no estabelecimento de um contrato social que dependia, além disso, de uma integração nacional e da potencialização dos valores comunitários No contexto da desigualdade social extrema e luta interna pelo poder que ameaçavam a ordem republicana, um Estado agente do bem comum e promotor das políticas sociais, sob os moldes do pensamento positivista, construiria uma imagem de Nação e uma identidade nacional em harmonia com o espírito republicano não revolucionário (CARVALHO, 1990: 31). A construção da imagem de Nação era, ao mesmo tempo, uma necessidade do Brasil no novo mundo liberal e uma forma de tecer renovação e permanência da estrutura sócio-econômica vigente. Emília Viotti da Costa, traduz bem o projeto liberal que reinava da burguesia brasileira nos anos finais do Império:

“Os valores associados ao liberalismo: valorização do trabalho, poupança, apego às formas representativas de governo, supremacia da lei e respeito pelas Cortes de justiça, valorização do indivíduo e da sua autonomia, a crença na universalidade dos direitos do homem e do cidadão, todos esses dogmas típicos do credo liberal tinham dificuldade em se afirmar numa sociedade escravista que desprezava o trabalho manual, cultivava o ócio e a ostentação, favorecia os laços de família, afirmava a dependência, promovia o indivíduo em razão de seus laços de parentesco e amizade em vez de seus méritos e talentos como rezava a Constituição, instituía o arbítrio, fazia exceção à regra e negava todos os direitos do homem e do cidadão à maioria da população. As elites brasileiras não podiam ignorar que o liberalismo nada tinha a ver com a realidade vivida por milhões de brasileiros. Mas atribuíam essa deficiência ao atraso. Imaginavam que nos países ‘civilizados’ as práticas liberais seguiam de perto a teoria. Enquanto na França e na Inglaterra os liberais que se sentiram ameaçados pelas reivindicações populares começavam a criticar o liberalismo, e alguns até mesmo chegaram a por em dúvida a sua eficácia, no Brasil, o liberalismo continuava a funcionar como utopia, uma promessa a ser cumprida. Apontava-se para a distância entre o país real e a retórica liberal, criticava-se a sua prática, mas não suas premissas.” (COSTA, 1999: 166)

Em São Paulo, a República desenhou o modelo de atuação dos governos federal e estadual após 1892. Identificada com a construção de uma Nação federativa, não revolucionária, a burguesia cafeeira paulista fundou, em 1870, o Partido Republicano Paulista (PRP)16, cisão do Partido Liberal. O projeto político

16 Segundo ZIMERMANN, a organização do Parido Republicano Paulista se deu em três fases: 1 – 1870 a 1878, momento em que

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que se consolidou com a chegada do PRP ao poder estadual a partir de 189217 e ao governo federal a partir

de 1894, estava estruturado bem antes que a República fosse proclamada em 1889.

Ainda no final do século XIX, o PRP participava do governo monárquico, na sua composição legislativa. Em 1881, o lançamento do Programa Partidário, mostrava a sua base filosófica, com a questão da descentralização administrativa e financeira, a instrução pública, a liberdade de cultos, a transformação do trabalho agrícola, mais capitais para a lavoura, a naturalização e direito do cidadão, a libertação dos escravos e a política externa (BARRIGUELLI, 1986: 38). O Programa combinava propostas progressistas identificadas com a corrente positivista, como a necessidade de se estabelecer ações voltadas à e educação da população ou a liberdade de crença, deixando transparecer de forma implícita que, estava nas mãos dos homens do Partido, realizar o projeto modernizador para o “país”. Estavam lançadas, pois, as diretrizes que norteariam sua atuação quando se tornasse governo em São Paulo e que deveriam ser implementadas de forma pacífica, sem mudanças radicais. A proposta de uma nova sociedade republicana de acordo com as bases partidárias, compreendia, tão somente, uma reestruturação administrativa que trouxesse condições à burguesia paulista de reproduzir seu capital.

A grande questão levada a cabo pelos republicanos paulistas era a federalização, através de um programa de descentralização administrativa e financeira, na qual cada estado teria autonomia para recolher os impostos de exportação e definir o seu próprio programa. Colocado como um entrave para a realização plena de cada província, dado o centralismo com que o governo monárquico tratava cada uma delas18, o

principal objetivo era estabelecer para São Paulo a fonte de recursos da qual tinha direito por mérito, já que era o estado do país que mais exportava e mais contribuía para as receitas do governo monárquico. KULGEMAS afirma que toda a ação política do PRP tinha como objetivo conquistar o projeto federativo para o estado, pois permitiria não só a ampliação da sua base fiscal, como a independência judiciária e militar por meio de uma Magistratura estadual e da Força Pública (KULGEMAS apud PERISSINOTTO, 2000: 43). A dura crítica aos privilégios concedidos às elites do norte-nordeste era evidente, embora não aparecesse de forma explícita. O projeto de federalização, no entanto, deixava claro que o movimento republicano estava empenhado em re-direcionar para São Paulo a garantia da administração de sua própria riqueza, sem dividí-la com os outros estados. Estas idéias determinariam, a partir da instituição da República, não só a descentralização financeira, mas o bloqueio da participação de outros estados no arranjo político da Primeira República. Para isso, era consenso tornar o presidente da Província elegível e atribuir a ela a arrecadação do imposto sobre as exportações, além de estabelecer o princípio da soberania estadual, rompendo com a

17 O PRP ocupou o governo paulista em 1892, com Bernardino de Campos como presidente, através de uma articulação política entre

os principais chefes do partido: Campos Salles, Prudente de Moraes e Bernardino de Campos com o presidente Floriano Peixoto, através do então Ministro da Fazenda, Rodrigues Alves (CASALECCHI, 1987: 75).

18 O aspecto ideológico das manifestações partidárias revela em que medida tratava-se de um programa voltado aos interesses da

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subordinação à esfera federal a partir da instauração dos três poderes: executivo, legislativo e judiciário, independentes entre si e independentes dos três poderes na esfera federal (ZIMERMANN, 1986: 107).

Já a idéia de introduzir o trabalho livre não seria bem recebida pelos integrantes do partido. Tratava-se, antes, de preparar o país para as reformas econômicas, políticas e administrativas, aquelas consideradas prioritárias (BARRIGUELLI, 1986: 24). Mas, à frente, o mesmo Programa trataria da abolição, afirmando que a questão era “social” e não “política”, não devendo, portanto, entrar nas pautas do partido. Considerava, por ora, que o direito de escravizar não era mais reconhecido pelas sociedades modernas, devendo extinguir-se na proporção do aumento de meios para o desenvolvimento da liberdade no processo de aperfeiçoamento da indústria. Propunha, por um lado, que, em respeito à união federativa, cada província realizasse a reforma de acordo com os seus interesses peculiares, “mais ou menos lentamente, conforme a maior ou menor facilidade na substituição do trabalho escravo pelo livre” e, por outro, que a abolição fosse feita com base na indenização.

Analisando estas posições, fica claro que o PRP não era absolutamente contrário ao trabalho livre, vindo a defender uma política mais incisiva quanto à questão da imigração, através de uma legislação e que disciplinasse a busca de imigrantes diretamente pelos fazendeiros. Mas a abolição, não recebia o mesmo apoio consensual. Os conflitos em torno da idealização do trabalho livre e as dificuldades de se aceitar a proposta abolicionista dividiu no cenário brasileiro, o pensamento liberal peculiar do final do século XIX. O movimento separatista que tomou corpo em São Paulo em 1887 é, inclusive, atribuído por alguns autores, como Décio Saes (1985) e Robert Conrad (1975), a uma reação da província paulista contra os movimentos abolicionistas que tomaram conta do resto do país.

É certo, porém, que se tratava de um movimento mais amplo em torno do projeto federativo, autonomia financeira e econômica, independência partidária, propostas identificadas com os ideais federativos, como os de Alberto Sales, Martim Francisco, Francisco Eugênio Pacheco e Joaquim Fernando de Barros (ADUCCI, 2000: 92). Alberto Sales era um defensor da ciência e só via as condições de seu pleno desenvolvimento no âmbito do “complexo cafeeiro”, a partir do qual destacava o movimento imigrantista, o surto ferroviário, a expansão geográfica, o desenvolvimento comercial e financeiro. Até mesmo Antônio Prado, membro efetivo do Partido Conservador iria defender a autonomia plena da província de São Paulo, dizendo: “A verdade é que a Província de São Paulo, pela iniciativa particular de seus filhos, vai tomando tanto incremento que tudo quanto faz aparece e brilha e a sua iniciativa oferece evidente contraste com a inércia de outras províncias, onde não penetrou ainda a clara visão do problema de transformação do trabalho.” (CASALECCHI, 1994: 7). Enquanto houvesse uma combinação de interesses, o projeto republicano e sua manifestação mais radical levada a cabo pelo separatismo, integrantes das mais variadas tendências partidárias se uniriam em torno de um projeto para São Paulo, “enquanto houvesse consenso em torno dos interesses maiores dessa vanguarda da sociedade, o rumo estava dado.” (CASALECCHI, 1994: 8)

Referências

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