PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA
DENZI LINS ROCHA
A PROPOSTA DO ESTADO EMPREGADOR DE ÚLTIMA INSTÂNCIA
E O EXPERIMENTALISMO DEMOCRÁTICO: UMA REFLEXÃO
TEÓRICA SOBRE A COMPATIBILIDADE DESSES DOIS
PROGRAMAS
DENZI LINS ROCHA
A PROPOSTA DO ESTADO EMPREGADOR DE ÚLTIMA INSTÂNCIA
E O EXPERIMENTALISMO DEMOCRÁTICO: UMA REFLEXÃO
TEÓRICA SOBRE A COMPATIBILIDADE DESSES DOIS
PROGRAMAS
Orientador: Prof. Dr. André Luís Cabral Lourenço
Coorientador: Prof. Dr. Denílson Silva de Araújo
NATAL
–
RN
2014
Divisão de Serviços Técnicos
Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Setorial do NEPSA / CCSA
Rocha, Denzi Lins.
A proposta do estado empregador de última instância e o experimentalismo democrático: uma reflexão teórica sobre a compatibilidade desses dois programas / Denzi Lins Rocha. – Natal, RN, 2014.
128 f.
Orientador: Prof. Dr. André Luís Cabral Lourenço Coorientador: Prof. Dr. Denílson Silva de Araújo
Dissertação (Mestrado em Economia Regional) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Programa de Pós-graduação em Economia.
1. Economia – Dissertação. 2. Desemprego – Dissertação. 3. Programas sociais – Dissertação. 4. Combate ao desemprego –Dissertação. 5. Rio Grande do Norte – Dissertação. I. Lourenço, André Luís Cabral. II. Araújo, Denílson Silva de. III. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. IV. Título.
AGRADECIMENTOS
À professora Maria do Socorro Gondim Teixeira, pela confiança e paciência com a minha pessoa quando seu aluno.
Ao meu orientador André Luís Cabral Lourenço, pela precisão e coerência de suas contribuições a este trabalho.
Ao meu coorientador Denílson Silva de Araújo, do mesmo modo. Aos colegas de turma, pelas horas de estudo e solidariedade.
Em especial aos colegas Renato Silva de Assis e Fabiano Dantas, pela ajuda especial e imprescindível na hora crítica de conclusão deste trabalho.
À minha família, minha mãe Lena, minha avó Clotilde e minha tia Ariza cuja distância só faz a saudade aumentar. E a todos que de alguma forma me ajudaram ou colaboraram nessa caminhada.
“Desenvolvimento sem educação é criação de
riquezas apenas para alguns privilegiados”
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo fazer uma reflexão teórica sobre a compatibilidade entre o programa do Estado como Empregador de Última Instância (ELR) e o programa do Experimentalismo Democrático (ED). O ED surge no pensamento político como uma alternativa aos programas neoliberal e social democrata, visando a resgatar a discussão sobre a organização institucional da sociedade e a economia de mercado. Para o desemprego involuntário, propõe mudanças fiscais incidentes sobre a folha salarial e frentes de trabalho para os mais precários ou pouco capacitados. A hipótese do trabalho é que abordagem tem compatibilidade com o programa do ELR, da linhagem pós-keynesiana. O ELR se apresenta
como transgressão ao mainstream do pensamento econômico ao propor que o Estado atue
como garantidor de emprego, funcionando como âncora estabilizadora da economia. No limite, o ELR se propõe a eliminar completamente o desemprego involuntário. A implantação do ELR, porém, demanda a construção de instituições que tenham como objetivo refazer a economia de mercado, bem como aprofundar e energizar a política e a democracia, objetivos que fazem parte do programa do ED. Dessa forma, o ED proporcionaria, no campo teórico, um ambiente institucional propício a políticas inovadoras garantidoras da capacitação e ocupação do indivíduo, essenciais para sua emancipação. No Brasil, que possui graves problemas de infraestrutura e de qualificação de mão de obra, um programa como esse tem enorme potencial benéfico. No entanto quando transposto para o Nordeste do Brasil através do Plano para a região baseado nos princípios do ED e o hipotético acoplamento ao ELR não foi possível confirmar nem rejeitar a sub-hipótese de compatibilidade desses dois arcabouços teóricos. As conclusões apontam para uma parcial convergência entre esses dois programas.
Palavras-Chave: Desemprego involuntário; Estado; Instituições; Nordeste.
ABSTRACT
This paper aims to make a theoretical reflection on the theoretical compatibility between the program State Employer of Last Resort (ELR) and the Democratic experimentalism (ED). The ED arises in political thought as an alternative to neo-liberal and social democratic programs in order to rescue the discussion about the institutional organization of society and the market economy. About the involuntary unemployment, it proposes tax changes incidents on payroll and proposes work fronts to the most vulnerable or poorly trained. The hypothesis of this paper is that this approach is compatible with the ELR program, the post- Keynesian line. The ELR is presented as transgression of the mainstream of economic thought by proposing that the State acts as guarantor of employment, working as a stabilizing anchor for the economy. On the edge, the ELR proposes eliminate completely involuntary unemployment. The implementation of the ELR, however, requires the construction of institutions that aim to remake the market economy, as well as deepen and energize politics and democracy, goals that are part of the ED program. Thus, the ED would, in theory, an environment conducive to innovative policies guarantors of training and occupation of the individual, essential for their emancipation institutional environment. In Brazil, which has serious infrastructure problems and qualification of manpower, such a program has enormous potential benefit. However when transposed to the Northeast of Brazil through the Plan for the region based on the principles of the ED and the hypothetical coupling to the ELR could not confirm or reject the hypothesis sub-compatibility of these two theoretical frameworks. The findings point to a partial convergence between these two programs.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 10
2AS BASES DO EXPERIMENTALISMO DEMOCRÁTICO... 13
2.1 AS BASES FILOSÓFICAS DO ED... 13
2.2 A TEORIA SOCIAL DO ED.... 20
2.2.1 A falsa necessidade e os fetichismos... 23
2.2.2 As esperanças de um democrata e as teses que as sustentam... 26
2.3AS PROPOSTAS PROGRAMÁTICAS DO ED... 28
2.4 O ED E O ANTIGO INSTITUCIONALISMO... 36
2.5 AS POSSÍVEIS AMEAÇAS E DESAFIOS DO ED... 39
2.5.1 O perigo da degeneração do ED: os exemplos históricos... 46
2.5.2 O perigo do desinteresse na política democrática... 49
2.5.3 A reforma do sistema produtivo proposta pelo ED... 51
2.5.4. A importância do indivíduo para o ED... 63
3 A PROPOSTA DO ELR SOB O PRISMA DO ED... 67
3.1 A PROBLEMÁTICA DO DESEMPREGO NAS ECONOMIAS CAPITALISTAS.... 72
3.2 O CARÁTER INSTÁVEL DO CAPITALISMO: OS CICLOS, O ELR E O ED... 78
3.3 A TEORIA DAS FINANÇAS FUNCIONAIS (TFF) E O ED... 84
3.4 O ELR NO BRASIL: IMPACTOS E BENEFÍCIOS... 90
3.5 O ELR E A EMANCIPAÇÃO DO INDIVÍDUO... 93
3.6CONSIDERAÇÕES FINAIS... 4ED E O ELR NO NORDESTE... 96 99 4.1 O PLANO DO ED PARA A REGIÃO... 102
4.2 O ELR NA REGIÃO ... 108
4.3 É A IMPLANTAÇÃO TROPICALIZADA DO ELR COMPATÍVEL COM O PLANO NORDESTE?... 110
5 CONCLUSÕES... 117
1 INTRODUÇÃO
No decorrer do século XX, dois modelos ideológicos foram os protagonistas centrais da história das nações: o capitalismo liberal ou socialdemocrata, com níveis variados de intervenção do Estado na sociedade como um todo e na economia especificamente, e o socialismo científico marxista, com enorme intervenção e presença do Estado na sociedade e na economia.
O colapso do socialismo real como modelo de socialismo científico, no final dos anos 1980, aparentemente unificou o mundo sob o capitalismo, emergindo basicamente duas variações ideológicas e programáticas: o neoliberalismo e a social democracia.
Contudo, esses dois grandes programas têm poucas diferenças no plano prático. As diferenças se dão, grosso modo, sobre o tamanho ideal do Estado, grau da carga tributária e quantidade de transferência fiscal de renda para o setor e as pessoas da retaguarda da economia, ainda que dentro dessa reduzida dicotomia haja discrepâncias expressivas, como no modelo sueco em relação ao estadunidense. Nos países em desenvolvimento, por insuficiência estrutural de capital, jamais a magnitude de transferência fiscal de renda necessária para dar condições de assistência e capacitação aos indivíduos foi alcançada dentro do arcabouço institucional desses dois programas.
Esses dois programas não foram capazes de dar uma resposta ao problema maior do capitalismo, que é o desemprego involuntário, especialmente durante as fases ruins dos ciclos econômicos. O pleno emprego só foi alcançado nos anos dourados do capitalismo (1946-1966), e mesmo assim apenas em alguns países ricos, num contexto histórico que remete ao fim da Segunda Guerra Mundial e ao ciclo de crescimento econômico que se seguiu nos anos posteriores. O pensamento econômico que acompanha esses dois programas hodiernamente hegemônicos prescreve basicamente dois caminhos: a diminuição do preço do trabalho através da flexibilização do mercado de trabalho ou políticas de incentivo à demanda agregada através do aumento dos gastos públicos e/ou privados.
As alternativas no campo teórico, político e econômico a essa questão do desemprego, que serão abordadas neste trabalho, vêm basicamente de dois autores: Roberto Mangabeira Unger e Hyman Minsky.
economia, sob a coordenação estratégica do Estado. Afirma a obrigação do Estado em promover capacitação e qualificação constante aos trabalhadores. Para enfrentar o desemprego involuntário, Unger defende, mas não desenvolve no campo teórico macroeconômico, a possibilidade do Estado mobilizar em frentes de trabalho os trabalhadores desempregados, precários ou na informalidade.
Anteriormente, em meados dos anos 1980, Minsky desenvolveu e deu forma a essa ideia, dando-lhe um arcabouço teórico próprio, denominado Employer of Last Resort (ELR),
também essa uma alternativa no campo do pensamento econômico em relação a políticas de combate ao desemprego.
Na raiz da possível compatibilidade do pensamento desses dois autores existe um importante ponto de convergência a ser imediatamente assinalado: o entendimento de que algo se perdeu na essência do pensamento de Keynes. Dessa forma, a concepção desses dois autores culmina com uma teoria e um programa de reformas de cunho includente, capacitacional e produtivista.
Este é o objetivo geral desta dissertação: analisar a compatibilidade teórica desses dois grandes pensadores em relação ao enfrentamento do desemprego involuntário, através da exposição desses dois programas. A hipótese é de que existe compatibilidade teórica entre esses dois programas, pois ED seria o ambiente teórico institucional adequado um programa de empregos do tipo ELR, enquanto este daria suporte teórico macroeconômico à proposta do ED de mobilizar os trabalhadores desempregados involuntariamente em frentes de trabalho.
Os objetivos específicos são: 1) expor, de maneira sintética, as bases filosóficas, teóricas e programáticas do ED; 2) abordar, a partir da teoria crítica de Hyman Minsky, a retomada do problema do desemprego involuntário a partir dos anos 1970 e o seu enfrentamento através do programa de empregos ELR, seus benefícios, viabilidade e necessidade, explorando os pontos de convergência e compatibilidade com o ED; 3) apresentar o Plano Nordeste de Unger, elaborado sob os princípios do ED, tendo como sub-hipótese o acoplamento do ELR, pois este, em seu arcabouço teórico, prevê que deva ser implantado preferencialmente em regiões pouco desenvolvidas, objetivando reforçar o argumento da compatibilidade desses dois programas quando se comtempla a hipótese da implantação conjunta.
O exame bibliográfico tem por finalidade recuperar o “status teórico” do ELR
desenvolvido na teoria econômica de Minsky, confrontando com a teoria social-política de Mangabeira Unger, tendo ao final, como espaço econômico, a Região NE do Brasil. Assim, fez-se necessário a pesquisa acerca de aspectos históricos da economia regional e seu respectivo mercado de trabalho.
Outro delineamento utilizado na pesquisa é o exame documental, que reúne um esforço de coleta de dados e informações secundárias ao estudo, tendo por fontes principais os dados de registro e de recenseamento, extraídos de arquivos públicos (anuários estatísticos), arquivos particulares e outras fontes estatísticas disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) e no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Nesse sentido, as fontes supracitadas formam a base dos canais eletrônico-digitais pesquisados para a coleta dos dados de natureza secundária, fundamentais para a construção da justificativa empírica para a aplicação do ELR no NE do Brasil.
Dessa forma, a presente dissertação se divide, além desta introdução, em quatro capítulos. No segundo capítulo será exposta a teoria social do ED, suas bases filosóficas, sua teoria sociopolítica e seu plano programático. Suas relações com a economia institucional, as possíveis admoestações ao programa, as propostas para o setor produtivo e sua visão de indivíduo, em comparação com outras vertentes de pensamento, também serão analisadas.
No terceiro capítulo será exposto o programa ELR, enfocando o ressurgimento do problema do desemprego involuntário após os anos dourados do capitalismo (1946-1966), o problema dos ciclos econômicos, que justifica a adoção do programa, a Teoria das Finanças Funcionais (TFF), que o viabiliza teoricamente, a hipotética adaptação e viabilidade do ELR no Brasil, bem como os prováveis benefícios dessa política aos trabalhadores.
2 AS BASES DO EXPERIMENTALISMO DEMOCRÁTICO
Roberto Mangabeira Unger, o pai do corpo filosófico, teórico e programático que aqui chamaremos de Experimentalismo Democrático, doravante ED, assumiu muito jovem (24 anos) uma cátedra na Harvard Law School, nos Estados Unidos, em 1971, logo após se
formar em direito no Rio de Janeiro. Unger seguiu para os Estados Unidos, e lá cursou seu mestrado e seu doutorado, onde permaneceu por quatro décadas. Atualmente (2013) está
licenciado, pois está atuando junto ao governo do estado de Rondônia
.
Iniciou estudos na Filosofia, em especial na Filosofia do Direito, formulando sua teoria social e criando, inclusive, novas categorias conceituais. Essa teoria culminou com seu plano programático, que tem o direito e a economia como seus principais vetores.
Neste capítulo serão abordadas essas três colunas do ED. No primeiro item será abordada a dimensão filosófica do ED; no segundo, seu plano teórico (e político); no terceiro, as propostas programáticas do ED, bem como algumas especificidades em relação ao Brasil; no quarto, os pontos de contato do ED com a economia institucional do Velho Institucionalismo de Veblen serão abordados, enfatizando as diferentes e coincidentes visões acerca das instituições e seus papeis; no quinto, serão apresentados os perigos do ED no tocante à democracia, a importância da participação dos cidadãos e o perigo da degeneração do ideal democrático que o ED defende, tendo em vista os exemplos históricos das revoluções francesa e russa de 1789 e 1917, respectivamente, além de ser abordado também o projeto econômico do ED e a questão do indivíduo em relação a algumas das teorias sociais precedentes.
2.1 AS BASES FILOSÓFICAS DO ED
Para uma primeira apresentação do pensamento de Unger, que culmina com o ED, exposto em Democracia Realizada, lançado no Brasil em 1999, deve-se delinear três
momentos diferentes: o pensamento filosófico, que evoluiu para a teoria social que, por sua vez, evoluiu para as propostas no campo político programático. Neste item serão expostas especificamente algumas das bases filosóficas do ED.
Teixeira (2009) aponta que, no plano filosófico, Unger leva ao extremo uma linha de pensamento filosófico que afirma a ideia de que o novo é possível, o tempo é real e a história é aberta. A filosofia medieval é o lócus dessa tendência e tomou várias formas no pensamento
Para Teixeira (2010), o modelo de prática filosófica de Unger remonta a filósofos que, como Aristóteles e Hegel, procuraram formar uma visão de conjunto da realidade. Como Marx e Schumpeter, acredita que o processo social é um todo indivisível1, daí o caráter multidisciplinar de seu pensamento e programa de reformas. Sua teoria social decorrente é um ecletismo e um pragmatismo radicalizado intelectual e politicamente.
A crença em uma história que segue um rumo pré-determinado é herança do pensamento cristão. Em reação a essa mentalidade e com o ímpeto de inovar, o pensamento moderno acenou para a possibilidade de uma ciência da história, que garante determinismo. Essa crença tira dos indivíduos e das sociedades, a escolha e o rumo autodeterminado de existência, sendo necessária, portanto, a superação desse impedimento. Nas palavras de Unger (1999, p.16):
A libertação dos indivíduos dos grilhões dessas estruturas antigas diminui o preço que cada um de nós deve pagar para participar da vida em grupo, e ajuda a conciliar as condições básicas de autodomínio e autodesenvolvimento. O conteúdo secular da noção religiosa de transcendência é a incapacidade de instituições e culturas conseguirem nos conter completamente, exaurindo nossos poderes de entendimento, experiência, emoção, relacionamento, invenção e produção. Há sempre mais em nós do que em nossos contextos. Eles são finitos. Nós, em comparação com eles, não somos.
Dessa forma, para o ED, os humanos são os criadores da sociedade e de suas estruturas, e procura demonstrar isso através da “teoria social de estrutura profunda”, que se compõe de três pressupostos que Unger considera ultrapassados pela história: o determinismo histórico, que somente desperta a vontade transformadora através de ilusão, crises ou revoluções2; a noção que existem leis de transformação dirigidas numa sequência de modos de produção; e também a ideia de que existe uma lista fechada de tais sistemas, e que esses, quando caem, caem como um todo indivisível. (TEIXEIRA, 2010; UNGER, 1999). No mesmo sentido, complementando:
Preso entre, de um lado, a pretensão da teoria social de estruturas profundas de ser
a “ciência da história” e, do outro, as abordagens acríticas da ciência social
positivista, o pensamento social moderno produziu “dissoluções parciais e restaurações parciais da visão naturalista da sociedade”. O trabalho teórico de
1
Schumpeter (1988, p. 9) destaca a indivisibilidade do processo social: “O processo social, na realidade, é um
todo indivisível. De seu grande curso, a mão classificadora do investigador extrai artificialmente os fatos econômicos. A designação de um fato como econômico já envolve uma abstração [...]. Um fato nunca é pura ou
exclusivamente econômico; sempre existem outros aspectos em geral mais importantes”.
Unger, em resumo, é um esforço para levar a ideia da “sociedade como artefato” até
o fim para desenvolver uma teoria social radicalmente antinaturalista e antinecessitária. Nesse sentido, a teoria social de Mangabeira Unger representa uma dupla rebelião: contra uma teoria social clássica, com sua herança funcionalista e determinista, e bem como contra as ciências sociais positivistas (CUI, 2001, p.13).
Para Cui (2001), essa ideia da “sociedade como artefato”, utilizada por Unger, é
originária do iluminismo europeu e tem como ponto central a não sujeição da história humana à providência divina. Para Unger, os povos devem criar, destruir e refazer a sociedade de forma independente, sem a dependência de fatalidades ou crises. Nos primórdios do pensamento social moderno, essa concepção era recorrente, como na afirmação de Hobbes de
que o “direito natural” não deriva da “lei da natureza”.
Anteriormente, Hegel, como aponta Teixeira (2011, p.24) não levou às últimas consequências a ideia presente no pensamento de Unger, de que as estruturas da sociedade são um artefato humano, que o novo é possível, o tempo é real e a história é aberta. Na visão de Hegel, o novo é o espectro de uma possibilidade pré-definida, aguardando para se realizar, não se tratando de algo genuinamente novo, diferentemente de Unger, pois:
Na sua obra o novo não existe antes, como um espectro à espera do momento de entrar no mundo. Ao invés de conceber o possível como uma definição anterior das variações possíveis - como se fosse uma ampliação na imaginação a partir daquilo que já ocorreu - Unger procede de maneira oposta: o conceito do possível ganha maior densidade com respeito sempre ao possível adjacente, aos próximos passos. Assim, entender uma realidade significa compreender o que ela pode vir a ser em determinadas circunstâncias ou dada determinadas intervenções. Mas o conceito geral do possível - o possível distante, o possível remoto - nem na sociedade nem na natureza pode ter uma predefinição (TEIXEIRA, 2011, p. 24).
Para Unger (2012)3, existe nas ciências sociais e nas instituições certo “hegelianismo
de direita”, a ideia de que o real é racional. Porém, ao pensar e questionar o Brasil usando o
conjunto das disciplinas das ciências sociais é necessário rebelar-se contra essa tendência dominante. Para ele, essa é a grande missão da intelectualidade brasileira progressista, que precisa ter visão e esperança.
Dessa forma, Unger rejeita o exagerado e fetichista apego ao passado, não admitindo que os humanos sejam submissos a um passado criado por eles mesmos (GODOY, 2007).
Há no pensamento de Unger a tentativa de recolocar o sujeito humano na condição de criador, planejador e profeta de sua existência, reaproveitando e aprendendo com os resíduos da sua própria história, satisfazendo o ideal de religiões como o cristianismo. Para Teixeira, o fundamental no pensamento de Unger é a possibilidade de reinvenção constante,
ao contrário de Hegel, que considerava o espírito como agente primordial da história e apresentava o homem como um atributo do pensamento ao invés do pensamento como um atributo do homem:
A natureza da filosofia hegeliana identifica o espírito (geist) como o verdadeiro sujeito da história. Mas este espírito é um ente que passa por muitas contradições até chegar à reconciliação final. Para o filósofo brasileiro a dialética do espírito com o mundo ocorre de maneira distinta. Em sua perspectiva uma das revoluções introduzidas por religiões como o cristianismo foi à ideia de que a profundidade da existência dos indivíduos é ilimitada. [...] Portanto, nessas religiões a participação se dá no sentido de que cada um é parcialmente como se fosse um Deus. Para Unger todas as nossas construções sociais e culturais, discursivas e científicas, não conseguem fazer justiça a espécie de resíduo resultante da relação dos homens com o mundo. Para ele esse resíduo é, no fundo, a base do desenvolvimento da história. A profundidade e a força deste resíduo - que significa a impossibilidade dos homens se encaixarem completamente no mundo - estão intimamente associados à profundidade de cada um dos indivíduos. Ao imaginar o espírito como protagonista da história, Hegel desconsidera o significado real desse resíduo (TEIXEIRA, 2011, p. 24-25).
Godoy (2007) aponta que a trilogia de Unger, lançada na década de 1980, Theory: Its
Situation and its Task, aprofunda a noção de que a sociedade é um artefato, criada e
imaginada, e que deve ser repensada como condição da liberdade existencial. Também avançou no conceito de falsa necessidade, que dá conta de que não é necessária uma tragédia
para que haja transformações no mundo social, e defende a transformação deliberada da história.
Assim, Unger, com essa visão da sociedade como um artefato social e humano,
retoma o ideal iluminista, já que a moderna ciência social passou a buscar uma “ciência da história”. Nesse sentido, Marx, Weber e Durkheim, ao buscarem descobrir ou desvendar certa
“lei da história”, aprisionaram-se em pressupostos deterministas e funcionalistas. O que Unger busca é retomar essa agenda perdida do iluminismo, de considerar a sociedade como um artefato, que para ele deve ser construído democraticamente pela sociedade, sem a submissão a leis naturais ou divinas (CUI, 2001).
via negativa, que une a desesperança com o desentendimento, pois não leva em conta que a natureza da estrutura institucional e sua relação com a sociedade estão em jogo na história. Assim, concerne ao pensamento e ao interesse prático criar estruturas sociais e culturais que estejam sobre o domínio do homem como agentes sociais de formulação e transformação, o que é coerente com o seu ideal de considerar a sociedade como um artefato. A experiência humana, suas percepções mais singulares, como credos e convicções, permanentemente está passível de transformação, concomitante à mudança na estrutura das sociedades e das culturas.
A comparação com Jurgen Habermas é igualmente antagonista, pois este vê a ordem democrática apenas como um meio para a produção dos consensos fundados na argumentação, não se prestando ao debate sobre o conteúdo institucional da democracia. Unger substitui a busca por consenso pela busca infinita e permanentemente revisionista por um conjunto de instituições que irá aumentar a diversidade e a profundidade do debate em uma sociedade democrática, sendo salutar, portanto, a energização da própria democracia. Essas ideias abriram caminho para o projeto do ED voltado para uma reconstrução institucional da política e da economia de mercado, fundada no domínio e conhecimento humano sobre os contextos que o cercam.
Essa disposição de Unger em recolocar em discussão as estruturas institucionais que cercam economia de mercado, com o objetivo de transformá-la, remete a uma cisão dentro do marxismo. Os filósofos da Escola de Frankfurt se notabilizaram por inspirar e ampliar o escopo de luta política da esquerda para além da luta do proletariado, transbordando para o campo dos costumes, em um movimento intelectual que foi a marca dos anos 1960, a chamada revolução dos costumes. Assim, a atuação esquerdista passou a se instrumentalizar para além do movimento sindical e estudantil, estando presente nos movimentos que visam a um maior respeito ao meio ambiente e igualdade de raça e gênero. As revoltas estudantis de Maio de 1968, ocorridas em vários países do Ocidente, e a luta pelos direitos civis das mulheres, negros, indígenas, quilombolas e homoafetivos, que perdura até o presente, são a expressão desse movimento4. Tais movimentos Poulantzas (2000) aponta que se tornaram protagonistas do marxismo. O colapso da ex-União Soviética ajudou a aprofundar ainda mais essa tendência.
4
Na última página de “O que a Esquerda deve propor” Unger afirma que foi muito influenciado pelos
Nesse aspecto, a abordagem econômica do pensamento marxista se limitou, em sua grande maioria, a descrever e denunciar aspectos da precarização e da exploração do trabalho humano após os anos dourados do capitalismo, no fim dos anos 1960, agravadas com o início do processo de globalização, propondo basicamente a manutenção dos direitos da parte favorecida da classe laboral e transferência compensatória fiscal de renda para a parte menos favorecida e mobilizada, mas sem propor uma alternativa transformadora para a economia de mercado, desafio ao qual Unger se propõe a retomar.
Outro aspecto da influencia da Escola de Frankfurt no pensamento de Unger vem do movimento dentro da Filosofia do Direito denominado Critical Legal Studies, o qual,
juntamente com Duncan Kenedy, o filósofo brasileiro foi um dos expoentes intelectuais. Godoy (2007a) aponta que esse movimento nasceu em meio ao ambiente de contracultura e experimentalismo esquerdista típico dos anos 1970, com referencial conceitual alicerçado no realismo jurídico típico da cultura normativa estadunidense, com forte influência do marxismo ocidental da Escola de Frankfurt e do estruturalismo francês de Michel Foucault e Claude Levi-Strauss. Esse movimento, além de ter realizado uma profunda crítica ao modelo jurídico fundado no liberalismo e no positivismo, ao denunciar que tal sistema sustenta relações sociais não igualitárias, teve como corolário uma influencia significativa no conteúdo curricular das Faculdades de Direito americanas.
Para uma compreensão mais acurada da influência da Escola de Frankfurt no pensamento de Unger, é necessário recorrer à Teoria Crítica, proposta por Max Horkheimer em 1937. Nobre (2012) destaca que a Teoria Crítica é, por definição, auto revisora, pois considera que a verdade é temporal, sendo necessário, portanto, romper com ideias e premissas que partam do próprio Marx. Por isso, não pode ser resumida em teses. Busca uma sociedade reconciliada e seus indivíduos emancipados, propondo interpretar as coisas como são do ponto de vista de como elas deveriam ser. Nesse sentido, pretende incorporar ao pensamento tradicional dos filósofos uma tensão com o presente, reduzindo assim a distância entre teoria e prática.
sustenta. Diferentes frações do capital atuam em diferentes frentes para instrumentalizar a ideologia da burguesia no seio da sociedade.
Por esse motivo há a necessidade da união de diferentes partidos de esquerda, correspondentes às frações da classe laboral, da pequena burguesia e do subproletariado, como base social para operacionalizar o programa do ED que, ao contrário do marxismo das ultimas décadas, se propõe a reformar a economia de mercado sem passar pelo trauma de uma revolução ou crise5. Tais princípios da Teoria Crítica estão fortemente presentes no pensamento de Unger, principalmente no que concerne ao revisionismo permanente, compatível com a ideia da sociedade como um artefato e a necessidade da estrutura institucional proporcionar o ambiente adequado para o experimentalismo; também no sentido de não ser utópica, pois pretende uma ação clara e definida para os problemas da época em questão; além disso, por não ser positivista, ao não buscar apenas mostrar o mundo como ele é de um ângulo supostamente neutro, estreitam-se os laços com o pensamento do filósofo brasileiro.
Como se verá nos dois itens a seguir, toda a teoria social e propostas concretas de Unger estão calcadas na reinvenção e na luta democrática, cujas mudanças são pontuais e cumulativas, cujo desfecho é revolucionário, em uma estratégia política que lembra a guerra de posições proposta por Antônio Gramsci, mas sem um desfecho como o fim do Estado, comum também ao liberalismo clássico, como Bobbio (1987) destaca, e aí o caráter revolucionário do ED: a ausência de limites para o avanço da genialidade humana combinada com sua capacidade coletiva de disseminar suas virtudes para a maioria da população, sendo a universalização do conhecimento e da capacidade a meta maior do ED6.
5
Nesse ponto, Unger se aproxima da posição de Eduard Bernstein, um revisor do marxismo e um dos principais expoentes da social- democracia. Andrade (2006) destaca que Bernstein, após a morte de Engels, passou a questionar a dialética hegeliana presente no pensamento de Marx e com isso, a noção da inevitabilidade do fim do capitalismo. Passou a defender um alargamento da base social da esquerda européia para além do proletariado, propondo a incorporação do baixo proletariado, da pequena burguesia, burgueses simpáticos às demandas sociais e uma mudança na tática politica, optando por pressões por reformas sociais através da luta democrática, como uma reforma fiscal que onerasse quem vive de rendas e juros em favor das camadas da população menos favorecidas. Unger (1999) retoma essa noção da importância da ampliação da base de apoio ideal para um partido progressista, ao afirmar que a esquerda européia está presa à parcela mais organizada do operariado, mas critica a opção da maioria dos partidos socialdemocratas europeus de circunscrever a luta dos progressistas a uma conciliação de proteção social e flexibilidade de mercado, pois isso deixa a democracia e seus objetivos irrealizados. Para Godoy (2007) a leitura que Unger faz dos ideais progressistas tem três colunas principais: A mudança na forma institucional da economia de mercado, a revolução no ensino público e a energização da democracia ao ponto de mitigar o controle oligárquico do poder político. A principal crítica que Unger faz a social-democracia é que esta se tornou conservadora do ponto de vista institucional, pois não mais questiona as estruturas que definem e delimitam a economia de mercado.
6
Para Nobre (2011), o Estado democrático, na forma como apresenta no presente, mais poroso e aberto à participação dos trabalhadores e da sociedade em geral, através de instrumentos que não existiam à época de Marx, como o sufrágio universal, o direito de greve e a liberdade de expressão, não é mais o que este denominava de Estado Burguês. Essa abertura que a democracia oportuniza é o caminho pelo qual Unger desfia o seu pensamento, e a estratégia é a difusão dessa teoria pelos meios democráticos de persuasão e luta política.
2.2 A TEORIA SOCIAL DO ED
No plano da sua teoria social (o ED), Unger propõe uma nova visão de sociedade e, principalmente, da natureza de suas estruturas institucionais. As pessoas, suas experiências e o ideal de emancipação também estão fortemente presentes em seu pensamento.
Para Teixeira (2009), plano político programático é o epílogo prático do pensamento de Unger e decorre das conclusões sobre a maneira de pensar a respeito da natureza profunda da experiência humana e a possibilidade de transcendência e rebelião no que concernem às estruturas institucionais herdadas do passado que cercam os indivíduos e as sociedades.
Unger (1999) critica as correntes do pensamento social acerca de um falso dilema: haveria basicamente duas formas de prática política: a reformista, que ocorre dentro do sistema, e a revolucionária, que substitui o sistema por outro. Haveria uma falsa obrigatoriedade da escolha entre a ação quente extra institucional ou a ação fria institucional.
A isso Unger introduz o conceito de “reforma revolucionária”, que informa a
possibilidade de se fazerem pequenas revoluções, parte a parte, dentro de um contexto institucional, que também pode e deve ir se alterando conforme as necessidades da sociedade. É a possibilidade da mudança deliberada e descontínua da história.
Segundo Teixeira (2010), o objetivo do ED é fazer da mudança uma rotina em todos os níveis da sociedade, e a preocupação é com um desenho institucional que propicie isso de forma altamente democrática. O ED também é um exercício de fé na democracia.
O experimentalismo é, entre outras coisas, uma prática coletiva de descoberta e de aprendizagem. No pensamento de Unger, essa ideia é primeiro ancorada na visão de que o possível não está predeterminado e que há uma relação íntima entre o entendimento do real e a imaginação desse possível. O possível que conta é o que
está adjacente e, nesse sentido, a escolha das instituições será decisiva para permitir o processo coletivo de descobri-lo e construí-lo (TEIXEIRA, 2010, p. 4).
Para Teixeira (2009), Unger faz oposição ao marxismo ortodoxo e seu determinismo dialético, ao neoliberalismo e à tese da convergência que o acompanha e também à atual social democracia que se tornou institucionalmente conservadora, apenas um apêndice do programa neoliberal. Dessa forma, só há uma via ideológica atualmente, e o ED seria a segunda via.
As ideias sobre o direito e sobre a economia são extensões do ED. O objetivo programático de Unger é discutir o pensamento jurídico e a economia política, pois são disciplinas norteadoras do questionamento e estudo acerca da revisão constante das instituições. São vetores para a sua filosofia. Servem como pontes entre o ED e a prática que se propõe (TEIXEIRA, 2010).
Essa busca pela revisão constante das instituições, uma verdadeira obsessão do ED, visa a aprofundar a visão central da teoria social clássica sobre a natureza da ordem social. Essa ordem deve ser interpretada como construída e imaginada.
Para o ED, as instituições que herdamos não passam de arranjos que, por uma coincidência histórica e política, prosperaram dentro de um conjunto de possibilidades muito maior. Assim, a atual estrutura institucional não pode ser entendida por analogia aos fenômenos da natureza ou por uma ciência da história. Tais arranjos poderiam ter assumido outras configurações (TEIXEIRA, 2010).
A partir desses pressupostos, Unger (1999) critica o neoliberalismo, a social democracia e o socialismo real tal como foi implantado no Leste Europeu, afirmando que não se precisa abrir mão de um sistema inteiro para entrar em outro, abrindo espaço para lançar o programa de reformas do ED, um híbrido que procura aproveitar o lado bom do marxismo (as ambições transformadoras), do liberalismo clássico (o respeito ao indivíduo e ao mercado) e do socialismo utópico (o radicalismo pequeno burguês de Proudhon) com os benefícios dos avanços tecnológicos do capitalismo e da democracia, que deve ser aprofundada ou energizada.
O ED procura substituir o modelo convencional de controvérsia ideológica típico de neoliberais e socialdemocratas7, mais mercado e menos governo, mais governo e menos mercado, a velha dicotomia entre estatismo e privatismo. Dessa forma, para Unger (1999, p.11):
A antiga oposição entre estatismo e privatismo, mercado e dirigismo, está morrendo. Ela vem sendo substituída por uma rivalidade mais promissora entre formas institucionais alternativas de pluralismo econômico, social e político. A premissa básica desse novo conflito é que as economias de mercado, as sociedades civis livres e as democracias representativas podem assumir diversas formas institucionais, com consequências radicalmente diferentes para a sociedade.
Assim, há o questionamento no sentido de retirar o verniz de naturalidade da ordem institucional e ideológica da sociedade para o posterior estabelecimento de dispositivos mais propícios para inovações institucionais que gerem benefícios para a coletividade.
As diferenças entre as instituições do Japão, Alemanha ou Estados Unidos são variações dentro de um conjunto muito maior de possibilidades. Para Unger (1999), a maioria dos países permanece submissa às ortodoxias importadas do Atlântico Norte, o que denota a necessidade da construção de uma nova alternativa, empreitada que ele se propõe.
Assim, o mundo carece de um projeto transformador e democrático. A social democracia institucionalmente conservadora tornou-se parte do programa neoliberal, apenas acenando com uma maior humanização do inevitável, com maiores volumes de transferência fiscal de renda. Porém, no caso de países como o Brasil, para que a transferência fiscal de renda atingisse o volume necessário para resolver o problema da carestia, o setor desenvolvido da economia teria que ser dramaticamente prejudicado (UNGER, 1999).
O ponto de partida do ED, no campo econômico e político, se assemelha ao dos liberais clássicos, como Adam Smith, e socialistas utópicos, como Proudhon8, na medida em que procura combinar um foco no empoderamento do homem e da mulher comum (e não apenas uma maior igualdade de circunstâncias) e na difusão da propriedade, com um programa para a reconstrução institucional da sociedade, procurando conciliar individualismo e coletivismo. (TEIXEIRA, 2010).
7 ED tem a pretensão de ser uma alternativa universalizante ao neoliberalismo porque entende que a ortodoxia universal só pode ser combatida com eficácia por uma alternativa também universalizante (Teixeira, 2010). Dessa forma, há uma conexão entre o ED ser aplicado em um país como o Brasil e a construção de uma alternativa universal.
A institucionalização da herança social à custa da maior taxação da herança familiar, ponto crucial do programa do ED, tem inspiração liberal: dar aos indivíduos iguais oportunidades financeiras e educacionais. Por outro lado, o Manifesto Comunista de 1848 propunha o fim das heranças, que seriam dirigidas ao Estado. A herança social proposta por Unger prevê aos indivíduos a garantia, por parte do Estado, dos instrumentos necessários para sua emancipação, através de educação, capacitação e assistência contínua. É o coletivo e o individual apaziguados, a pretensa resolução de uma contradição ideológica histórica transformada em fetiche. No entanto, o objetivo não é o fim da sociedade dividida em classes, mas sim o da rigidez dessa hierarquia, que o advento da taxação da herança familiar pretende mitigar.
2.2.1 A Falsa Necessidade e os fetichismos
Unger (1999), a partir de um estudo acerca da genealogia dos arranjos institucionais dominantes das sociedades contemporâneas, propõe uma teoria da relação entre constrangimentos estruturais e transformação que rompe com a visão que ele denomina “falsa necessidade”. Esse item visa a abordar esse conceito e seus desdobramentos.
O conceito de “falsa necessidade” afirma que não se precisa de crises ou catástrofes
para que haja transformações ou mesmo estímulo para mudanças. Nutre-se da ilusão de que existe um número delimitado e indivisível de arranjos institucionais possíveis para a sociedade. Desse modo, só é possível alterá-los mediante revolução ou por mero e pontual ajuste reformista. Para Unger é falsa a noção, sob premissas deterministas, da sucessão de sistemas institucionais indivisíveis ao longo das sequências precariamente conectadas do conflito social e ideológico. Defende o aprofundamento do ED como arma contra as hierarquias rígidas da sociedade, objetivando colocar constrangimento funcional e contingência histórica a seu favor (UNGER, 1999; GODOY, 2007; TEIXEIRA, 2009).
Unger enxerga a sociedade como um artefato humano, mais do que a expressão de uma ordem natural subjacente. Ele cria o conceito de “contextos formadores”, os quais são suscetíveis de revisão e "desentrincheiramento” (TEIXEIRA, 2009).
Para Teixeira (2009), um “contexto formador” é algo menos rígido, menos preciso e
mais sui generis do que um modo de produção, portanto, mais aberto ou não à revisão, questionamento ou mudança. Para Godoy (2007), a noção de “contexto formador” retoma a
discussão do conceito de modo de produção em Marx, ou de tipo ideal em Weber, ou de
institucional fundamental e imaginativa da vida social, causal e reguladora da distribuição de recursos. É uma expressão original do modo de produção de acordo com a formação e a cultura de cada país ou região.
O grau de possibilidade de abertura, questionamento ou revisão de um “contexto formador”, ou seja, o tamanho da sua possível transcendência é visto como uma modalidade da liberdade e do livre arbítrio dos indivíduos e da sociedade. É uma virtude individual e coletiva ao mesmo tempo. Esse questionamento pode se dar agindo ou mesmo simplesmente
pensando. Essa flexibilidade é a plasticidade que Unger conceitua como “capacidade negativa” (TEIXEIRA, 2009).
Assim, a “capacidade negativa” depende de contextos institucionais mais favoráveis à sua revisão, como a mitigação da distância que separa estrutura e rotina, revolução e reforma, movimento social e institucionalização. De acordo com Godoy (2007, p.13) a
“capacidade negativa” significa uma espécie de esperança:
A “capacidade negativa” aponta para compreensão prospectiva, otimista; indica-nos que absolutamente nada na luta no contexto social tem o poder de nos condenar ao fracasso; mantém-se a esperança na mudança.
Para Unger (1999), há uma relação direta entre o desentrincheiramento dos
“contextos formadores” e o avanço em direção ao progresso material e à emancipação
individual, objetivo último do ED. Os obstáculos a esse enfrentamento se manifestam em dois fetiches, elencados a seguir:
1) O “fetichismo estrutural” é a não possibilidade, na medida em que a nega, de
mudar a qualidade9 dos contextos formadores. Só se pode jogar de acordo com as regras, mas não questionar o seu conteúdo. No entanto, é possível lutar para transformar contextos institucionais e discursivos. Esse conceito é um repúdio à suposta fatalidade que as instituições, falsamente neutras e herdadas do passado, atribuíram ao presente10.
2) O “fetichismo institucional” refere-se a uma identificação imaginada entre dispositivos institucionais (que, como já mencionado, são acidentais) a conceitos institucionais homogêneos e abstratos, tais como democracia parlamentar, economia capitalista ou sociedade civil livre. Por exemplo, o liberal que associa a democracia
9 A qualidade de um contexto formador se caracteriza pelo grau de abertura à revisão (CUI, 2001).
10“Ele (Unger) não participa da obsessão da maioria dos outros teóricos sociais e filósofos políticos liberais em identificar as nossas instituições básicas como entidades neutras entre os ideais conflitantes da associação humana. Para ele, a miragem da neutralidade interfere com o objetivo mais importante, o de encontrar disposições compatíveis com um experimentalismo prático de iniciativas e com uma diversidade real de
representativa de baixa energia necessariamente conectada e necessária à economia de mercado como Schumpeter (1983), vendo na reduzida participação popular um elemento essencialmente positivo para a estabilidade do sistema. Ou um cientista social positivista que não questiona a estrutura institucional do presente. Ao contrário, enxerga na conservação da atual estrutura institucional uma fiadora resultante e natural do equilíbrio de interesses e da paz social (TEIXEIRA, 2010).
O ED procura mostrar o caráter contingente dos dispositivos institucionais das democracias representativas contemporâneas, assim como das economias de mercado. O regime vigente de propriedade seria o resultado de lutas políticas travadas no passado e no presente, mas não um reflexo das atuais necessidades econômicas. Portanto, poderia e pode assumir outras formas institucionais11 (UNGER, 1999).
Esse entendimento a respeito do caráter não natural das instituições é semelhante ao de Myrdal (1989), que destaca em sua crítica à doutrina liberal ortodoxa que a ciência econômica deve, antes de tentar responder as questões de como se determinam salários e preços, investigar os grupos de interesse por trás das decisões políticas. Dessa forma, o ambiente institucional não é imutável nem natural, muito pelo contrário, é ao mesmo tempo o
locus da luta política do presente e o resultado desses conflitos do passado. Desse processo
resultaram os direitos de herança e de propriedade, que eventualmente podem ser alterados por fatores sociais e políticos, tais como uma nova configuração das relações entre os grupos de interesse. Instituições não são naturais apenas porque existem, devendo ser avaliadas de acordo com a intensidade que contribuem com a maximização da utilidade social. Nas suas palavras:
Todos os fatores institucionais que determinam a estrutura de mercado e de fato todo o sistema econômico, inclusive sua legislação tributária e social, podem ser mudados, se os interessados na alteração possuírem bastante poder politico. [...] Uma investigação dos interesses econômicos deveria tratar, por conseguinte, todo o ambiente institucional como uma variável. Deveria também examinar até que ponto quaisquer grupos são suficientemente poderosos para efetuar modificações institucionais (MYRDAL, 1989, p.162).
Em relação ao Brasil, Unger (2001) procura pensar a estrutura socioeconômica e cultural como um obstáculo para o desenvolvimento de inovações institucionais capazes de
11 O desemprego involuntário, tido como inevitável doença do capitalismo por Marx (1983) ou visto pelo pensamento econômico ortodoxo como indispensável para não acelerar inflação (Lourenço e Gomes, 2007), é
um caso de “fetichismo institucional”, pois toma o arranjo institucional como dado imutável, tratando o
instrumentalizar suas potencialidades. Centra o seu ataque ao que ele considera as duas vertentes de pensamento dominantes na intelectualidade brasileira: as ciências sociais de cepa norte-americana e o marxismo de origem europeia, que, de uma maneira geral, polarizam o debate acerca das variações institucionais possíveis para o país, pois:
Advogam em favor do destino. Geram narrativas fantasmagóricas que apresentam as atribulações do Brasil ora como o preço da convergência ao caminho único dos países ricos, ora como fardo que a história ou o capital obriga países atrasados a carregar (UNGER, 2001, p.101).
Dessa maneira, fica evidente a dificuldade de enfrentamento do “fetichismo institucional” no Brasil, já que o obstáculo às mudanças institucionais está não só no poder
dos grupos de interesse interessados na manutenção do status quo, como também na
dificuldade da intelectualidade brasileira, em especial a progressista, de propor um programa de reformas que tenha por ambição a reconstrução da economia de mercado, ancorada no aprofundamento da democracia, tarefas às quais o ED se propõe. Nesse aspecto, O ED é uma interpretação da causa democrática, que objetiva o desentrincheiramento dos “contextos formadores” e o consequente avanço em direção ao progresso material e à emancipação
individual.
2.2.2 As esperanças de um democrata e as teses que as sustentam
Neste subitem serão abordadas as “esperanças de um democrata” e as teses que as
sustentam, categorias conceituais criadas por Unger e que compõem o corpo teórico do ED. No início de Democracia Realizada, Unger (1999, p.13 e p.20) dá o tom ideológico e
prático da causa e da teoria social que ele denomina ED:
O conceito que inspira a argumentação e a proposta nesse livro é o experimentalismo democrático. O experimentalismo é uma interpretação da causa democrática, o mais influente conjunto de ideias e compromissos em vigor no mundo de hoje. Ele une duas esperanças a uma tática de pensamento e de ação. [...] O experimentalismo democrático combina as duas esperanças que o definem com uma prática: o ajuste motivado, sustentado e cumulativo das estruturas da sociedade.
A “primeira esperança de um democrata” é encontrar e avançar dentro da área
comum entre o progresso prático e a emancipação do indivíduo. Isso implica na libertação de papeis sociais, divisões, preconceitos, enfim, quando esse status social é decorrente de
decisivamente as oportunidades de vida dos indivíduos e a consequência é uma sociedade com hierarquia pouco flexível de classes.
A possibilidade de transcendência a esses contextos está sujeita ao grau de
“capacidade negativa” dos indivíduos. A democracia significa a esperança da potencialização
dessa capacidade (UNGER, 1999).
A “segunda esperança de um democrata” é que essa busca pela zona de confluência
entre e progresso e emancipação do indivíduo responda às expectativas de emancipação de todos os membros da sociedade, pois sem isso a democracia não pode avançar, não pode ser a
“a dádiva não reconhecida de uma história astuta para uma nação relutante” (UNGER, 1999,
p.17).
Essa segunda esperança só é possível se houver um tipo de atitude que Unger (1999)
denomina “tese da dualidade”. De acordo com essa tese, existem várias maneiras de definir
interesses de grupo, podendo ser conservadoras ou excludentes; em outra acepção, podem ser transformadoras e solidárias.
Unger (1999) exemplifica a “tese da dualidade” afirmando que a existência de um
arranjo institucional que democratize e facilite a obtenção de capital de risco pode ser uma causa comum dos trabalhadores, sejam eles sindicalizados, terceirizados ou informais. Essa possibilidade comprova que existem modos de interpretação de interesses de grupo que são transformadoras e solidárias, pois propõem um modo de atingir interesses e objetivos comuns a esses grupos do interior da classe laboral e mesmo fora dela, como os pequenos burgueses, por meio da mudança continuada de rotinas e estruturas.
A “tese da correspondência” e a “tese da assimetria” complementam a “tese da dualidade”. De acordo com a “tese da correspondência”, as relações entre grupos, seus antagonismos ou alianças são o outro lado de um conjunto de estruturas institucionais e de uma sequência de reformas institucionais. Assim, alianças de grupo e disputas retratam ideias contrárias dos respectivos conjuntos de arranjos institucionais e de agenda de reformas. Para Unger (1999), os trabalhadores da retaguarda e vanguarda de uma economia só vão se unir em busca de um objetivo comum se houver um projeto de reformas institucionais e de política econômica que eles entendam como benéfico. Nesse aspecto, a luta de classes acirrada torna difícil a compreensão de papeis institucionais. É necessário que essa luta se dê em um ambiente democrático para que novos arranjos e alianças possam ser testados.
Para Unger (1999), a “tese da correspondência” contraria a noção do marxismo a
Porém, a rigidez dos interesses de grupo depende da recusa ou impotência de modificar as estruturas que falsamente determinam os interesses estabelecidos. Existem incontáveis possibilidades de novas alianças entre os grupos de interesse no processo dialético do conflito social e ideológico.
De acordo com a “tese da assimetria”, a relação entre alianças sociais, políticas ou de
grupos é assimétrica. As alianças de grupo são também alianças políticas, condicionadas à existência de agendas comuns que sustentem as estruturas institucionais que ensejam tal aliança.
Isso implica em dizer que uma aliança de grupo só é necessária se houver estruturas institucionais que lhe dê sustentação. A “tese da assimetria” aponta que as relações que
regulam alianças políticas e sociais não são naturais e nem necessárias, contrariando qualquer entendimento determinista. Unger usa esse entendimento para defender uma nova e ampliada base social para os partidos progressistas, atualmente demasiadamente comprometidos com a parcela mais favorecida, organizada e minoritária da classe laboral.
Assim, as alianças políticas nem sempre serão sociais, pois “a história política
brasileira, pretérita e recente, confirma a presunção, mediante farta messe de exemplos de
nossa vida republicana” (GODOY, 2007, p. 18).
Esse processo de luta que visa a modificar, reformar ou mesmo manter tais estruturas, o todo ou em parte, é o condicionante principal para que a aliança social avance, no sentido de ambicionar o poder estatal, embora fora do Estado as pessoas também possam alterar o conteúdo de suas relações sociais.
2.3 AS PROPOSTAS PROGRAMÁTICAS DO ED
Neste item serão apresentadas, de forma resumida, as principais aspirações programáticas do ED, em sua maior parte contidas no Manifesto, que está na parte final de
Democracia Realizada - A alternativa progressista e também em A Segunda Via: Presente e Futuro do Brasil,bem como algumas especificidades em relação ao Brasil.
Através desse programa de reformas, o ED atinge seu ponto culminante. Vislumbra como horizonte próximo ser, além de uma teoria social, uma ideologia política adotada pelos partidos progressistas, ancorados em uma base social mais ampla e diversificada. Propõe superar na prática o que já foi superado em pensamento. Para Godoy (2007), o foco do programa é o Brasil, porém, não deixa de ser universal.
1- O desenvolvimento de uma economia de mercado democratizada que dê sentido ao objetivo amplamente professado de estabelecer um crescimento econômico socialmente includente e que a previna de permanecer presa a uma única e exclusiva versão jurídico-institucional de si mesma.
Defende que regimes alternativos de propriedade, privada e social, venham a coexistir experimentalmente dentro da mesma economia. A economia de mercado democratizada deve ser aquela em que o trabalho assalariado cesse de ser a forma predominante de trabalho e seja substituída pelo auto emprego e para a cooperação, em conjunto ou isoladamente. Também deve ser aquele em que a relação entre as máquinas e o homem seja de tal forma que as máquinas façam o repetido, permitindo ao homem salvar o tempo para o ainda não repetível, incorporando também as ideias de Schumacher (1973), um dos hereges da economia.
2 - O estabelecimento de uma democracia de alta energia que aumente o nível de engajamento popular organizado na vida pública. Deve facilitar a criação de contramodelos de futuro social por determinadas localidades ou setores. Em todos estes aspectos, diminui a dependência da mudança à crise.O ED discorda do desenho institucional brasileiro, que copia do americano o princípio conservador (política de baixa energia)12 e o princípio liberal (fragmentando o poder).
Defende a realização de plebiscitos, consultas e referendos com frequência e também a possibilidade de, em casos de impasses prolongados entre Legislativo e Executivo, o chamamento às eleições antecipadas unilateralmente, porém para ambos os poderes de Estado13. A ideia é enriquecer a democracia representativa com traços de democracia direta, parlamentarizando o presidencialismo. Propõe também o financiamento público das campanhas eleitorais, com objetivo de enfraquecer a influência do poder econômico em eleições e ao mesmo tempo facilitar a entrada de novos participantes na política, e o acesso gratuito ampliado aos meios de comunicação em massa não só para partidos políticos, mas também para movimentos sociais organizados.
A premissa é de que a temperatura da política de um país é sensível às mudanças em seus termos e regras, e propõe também, para energizar a democracia, o voto em lista fechada,
12 Unger (1999) destaca o falso dilema do pensamento político conservador entre uma política institucional desmobilizadora e uma política antiinstitucional ou extra institucional calorosa. Ao contrário, afirmam que é necessário e possível a organização de uma política que seja, ao mesmo tempo, energizada e institucional. O ED rejeita a falsa opção entre a ação quente extra institucional ou gélida por dentro das instituições.
com o objetivo de fortalecer partidos e seus programas. O voto em lista fechada obrigaria os partidos a se posicionarem perante aos eleitores com uma maior nitidez de ideias e programas e não sustentados na popularidade de seus mais conhecidos membros. É uma maneira de combater o mau hábito do eleitor brasileiro de votar na pessoa e não no partido, embora os críticos desse sistema alegarem que as altas cúpulas partidárias, que terão o poder de decidir a ordem nas listas, é que de fato seriam beneficiadas. O financiamento público de campanhas eleitorais pode quebrar ou no mínimo mitigar a influência do poder econômico, embora não seja difícil imaginar que mesmo assim haveria doações clandestinas a candidatos e partidos por parte dos grupos de interesse que apóiam estes.
3 - A formação de um tipo de educação que prepara a mente para ver além da circunstância imediata. Cada conteúdo deve ser ensinado sob no mínimo dois enfoques e posições conflitantes. O objetivo é criar uma geração de “pequenos profetas” que enxerguem além do
seu tempo e de seus “contextos formadores”.
4 - A organização de uma sociedade civil que garanta uma base mais sólida para a solidariedade social do que transferências fiscais de renda podem oferecer. Tal sociedade civil deve ser auto organizada fora do Estado sob um regime jurídico distinto, compartilhando a provisão competitiva e experimental de serviços públicos e engajando as pessoas para ajudarem a cuidar das outras fora de suas próprias famílias.
5 - Uma forma de globalização que possibilite experiências alternativas na humanidade e modelos alternativos de desenvolvimento e propiciadora para heresias, alternativas e experimentos (TEIXEIRA, 2010).
6 - Uma estrutura de organização institucional do mercado que possibilite a mobilização da poupança para o investimento produtivo, evitando dissipação desse efeito potencial no cassino financeiro, combinado com um nível alto de poupança pública. A premissa básica é que só um nível alto de poupança pública é capaz de financiar o projeto de desenvolvimento que ED almeja, liderado pelo Estado e com independência dos grandes capitais internacionais (CUI, 1999).
Essa proposta revela o caráter híbrido e sincrético do pensamento de Unger, pois essa compreensão acerca da relação entre poupança e investimento é um divisor de águas no pensamento econômico, que opõe os ortodoxos, como Milton Friedman e Friedrich Hayek, aos heterodoxos, como John M. Keynes e Hyman Minsky. A discussão gira em torno da relação casual entre esses dois agregados, a conhecida controvérsia entre “lei de Say” que
concordância com os ortodoxos, que o nexo casual vai da poupança para o investimento, daí então a necessidade de investigar meios institucionais que reforcem essa ligação. No entanto, para essa corrente do pensamento econômico, o Estado não deve ter grande participação na economia, deve ser o mais próximo do laissez-faire, ao contrário de Unger, que advoga para o
Estado o dever de coordenar e planejar o desenvolvimento econômico, o que o aproxima dos
keynesianos.
Ademais, assim como Minsky e Keynes, Unger acredita no efeito multiplicador de uma política fiscal expansiva, especialmente se direcionada à criação de empregos, pois uma economia com alto índice de emprego irá certamente se expandir devido ao seu elevado efeito positivo sobre a renda e o consumo, sendo, portanto, a melhor estratégia de crescimento econômico imediato, em especial nos tempos de crise e instabilidade financeira (UNGER, 2001, p. 222). Unger também reconhece que Keynes libertou o Estado do dogma das finanças saudáveis (UNGER, 199, p.136). A percepção é que não basta estimular a demanda agregada sem modificar concomitantemente a forma institucional através da qual é instrumentalizada a oferta agregada e, portanto, a produção. Nesse aspecto, o entendimento de Unger é que Keynes não estava errado, como demonstram inúmeros estudos empíricos que atestam o sucesso de políticas keynesianas, sobretudo em tempos de crise econômica, apenas que não
foi longe o suficiente (UNGER, 1999, p.127). Também o seu repúdio à crença ortodoxa na
“tese da convergência” o aproxima da heterodoxia. Porém, essa posição dúbia a respeito do
nexo casual entre poupança e investimento o distancia dos “keynesianos fundamentalistas”, os
pós-keynesianos, pois, como aponta Carvalho (1992), para estes o Princípio da Demanda Efetiva é considerado o único conceito “verdadeiramente científico” para a gestão
macroeconômica por parte do Estado, revelando uma inconsistência do pensamento de Unger nesse aspecto sob o prisma pós-keynesiano. Assim, o sincretismo presente no pensamento
filosófico, jurídico e político de Unger se manifesta também em seu pensamento econômico14.
É esse hibridismo, cujo epicentro é a noção de “reforma revolucionária”, que dá o tom
original e polêmico de sua teoria social15.
14Esse sincretismo revela-se no projeto de Unger de retomar uma agenda perdida de liberais e socialistas do
século XIX, como destaca Teixeira (2010), ou em sua proposta de “parlamentarizar” o presidencialismo,
misturando os dois sistemas de governo, ou ainda na sua proposta de democratizar e refazer a economia de mercado a partir de vários modelos exitosos ao longo da história, como o asiático e o norte-americano, adaptando às especificidades regionais do Brasil, de tal modo que seria uma grande contradição em relação ao próprio arcabouço filosófico-teórico do ED se no campo do pensamento econômico ele tivesse uma clara e indivisível posição acerca dos preceitos heterodoxos e ortodoxos.
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7 - A adoção de um sistema tributário simplificado centrado em três impostos: o primeiro deve incidir sobre o valor agregado (IVA) com alíquota alta, em torno de 30%; o segundo deve ser um imposto sobre o consumo luxuoso (em especial de produtos importados), do tipo Kaldor, com uma grande isenção e com uma escala bastante íngreme para os níveis mais altos de consumo; e o terceiro é um imposto sobre o patrimônio, sobretudo sobre heranças e
doações, visando custear a “conta de dotação social”. Os dois últimos visam, portanto, o
padrão de vida e o poder econômico (UNGER, 1999, p. 214).
A criação da “conta de dotação social” é um ponto nevrálgico do programa do ED. A
proposta é que os indivíduos devem herdar da sociedade e não da sua família. Assim, o Estado garantiria a institucionalização da denominada “conta de dotação social” através de
um pequeno pecúlio, desde o seu nascimento. Essa conta, que todos os cidadãos deverão possuir, deverá ser utilizada em momentos decisivos da vida pessoal, como o custeio do ensino (que deve ser continuado) ou a compra da casa própria16. A percepção fundamental é que o papel do Estado é proporcionar a todo cidadão os equipamentos políticos, econômicos e culturais que necessita para se qualificar, progredir, se relacionar e se tornar um agente econômico capaz, livrando-o do acaso do lugar e da família em que nasceu. Assim, o ED visa ao enfraquecimento da rigidez das classes sociais, que a transferência de vantagens educacionais e financeiras, através da herança familiar, proporciona. Esse entendimento é semelhante ao dos liberais clássicos, como John Stuart Mill, como Myrdal (1989) assinala, embora nos tempos atuais tenha um viés mais à esquerda.
8 - A institucionalização de um novo poder de Estado que possa intervir em determinados locais, como escolas, creches ou hospitais, quando estes não estiverem dando os retornos esperados à população para a pronta solução do problema, diminuindo o excesso de burocracia.
Aqui o ED visa a resgatar da exclusão grupos que não consigam escapar pelos meios de ação econômica ou política que lhes são disponíveis, pois os atuais instrumentos institucionais são ineficientes ou inadequados.
9 - A reconstrução do federalismo, tendo basicamente dois aspectos: de um lado, a substituição do federalismo de divisão rígida de competências entre os três níveis da federação por um federalismo cooperativo que associe os três níveis da federação em políticas
sua audiência natural deve estar no Terceiro Mundo, onde sua obra poderá um dia ajudar a tornar possível uma
nova ideia de futuro nacional”.
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