• Nenhum resultado encontrado

Humanização no contexto da formação em obstetrícia.

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Humanização no contexto da formação em obstetrícia."

Copied!
11
0
0

Texto

(1)

Humanização no contexto

da formação em obstetrícia*

H um anization in the context

of obstetric train in g

* Trabalho elaborado a partir de pesquisa de doutorado, em andamento, acerca da formação em obstetrícia, apoiado com bolsa Capes do Programa de Pós-Graduação. 1 Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Av. Dr. Arnaldo 455, 2oandar, 01246-903. [email protected]

Sonia Nussenzweig H otim sky 1

Lilia Blim a Schraiber 1

Abstract The article discusses humanization in the context of Obstetric training, instigated by contributions from ethnography on the process of learning m edicine in this field. Research tech-niques utilized include participant observation, primary source analysis, and in-depth interviews. Ethnographic m aterial was produced while ac-companying a course offered by the Department of Gynecology and Obstetrics of a renown São Paulo m edical school and visits by students to public services offering “humanized care” in birth, as part of its curricular activities. Repercussions of these visits in class are also presented. Conflict-ing views on the notion of humanization contrast the models of care presented by the hospitals visit-ed and by the Mvisit-edical School Hospital, as well as ideal models of obstetric care upheld by its profes-sors. The ensuing discussion also highlights the ideal of the m edical profession and its field of competence. Thus, the visit and its repercussions were also an opportunity for further consolidat-ing a collective identity: that of physician in training. The difficulty in dealing with pluralisms as to conducts, proposed by different schools of thought within Medicine is brought to attention. As a consequence, difficulties arise in developing a critical outlook and in gaining self-confidence in decision-making.

Key wo rds Hum anization of birth, Obstetric training

Resumo O artigo propõe uma reflexão acerca do tem a da hum anização do parto no contexto da formação em obstetrícia, fundamentalmente ins-tigada pela contribuição de um a etnografia do processo de ensino-aprendizagem em m edicina nessa área. As técnicas de pesquisa utilizadas fo-ram observação participante, entrevistas semi-es-truturadas e pesquisa documental. Apresenta-se o m aterial etnográfico produzido no acom panha-mento de um curso oferecido pelo Departapanha-mento de Obstetrícia e Ginecologia de conceituada fa-culdade de medicina em São Paulo e de visitas de seus alunos a serviços públicos de “assistência hu-manizada” e suas repercussões no ensino da aten-ção ao parto. Chama atenaten-ção que os embates em torno da noção de humanização contrapõem mo-delos de atenção apresentados nas visitas àqueles serviços ao existente no Hospital-Escola e, ainda, a modelos ideais propostos por seus professores. A discussão tam bém põe em pauta o próprio ideal de profissão e seu campo de competências. Neste sentido, as visitas e suas repercussões constituí-ram também uma oportunidade de consolidação de uma identidade coletiva em formação. A difi-culdade de lidar com o pluralismo de propostas de conduta, objetivo da disciplina em pauta, impe-de, da perspectiva do ensino, a formação do pen-sam ento crítico e a m aior autoconfiança na to-mada de decisão.

(2)

640 640 640 640 640 640 640 640

Introdução

Nosso in tuito n este artigo é con tribuir para uma reflexão sobre a humanização da assistên-cia ao parto, tal como este se apresenta no con-texto da formação em obstetrícia, instigada por um a etnografia do processo de ensinoapren -dizagem nessa área. Pontuamos os vários senti-dos da hum an ização e os con flitos em torn o deles que se explicitam quando alunos de uma faculdade de medicina são apresentados a ser-viços públicos de atenção ao parto onde se pro-cura operacionalizar a proposta ministerial de humanização da assistência.

A form ação m édica tem sido objeto de es-tudo da antropologia desde a década de 1960, quando da publicação da clássica etnografia de Howard Becker et al. (2002[1961]). Considera-da um dos m ais longos ritos de passagem , a aprendizagem do exercício da medicina é ana-lisada por estes autores não apenas como pro-cesso de aquisição de conhecim entos científi-cos e aptidões técnicas, mas também como ini-ciação a um novo status profissional. Segundo Good & Good (1993), a cultura médica na qual os alunos são socializados é caracterizada por um a ideologia que reifica, dissocia e justapõe duas dim ensões. Um a dim ensão, por eles de-n om ide-n ada de “com petêde-ncia”, se refere ao co-nhecimento técnico e científico e se expressa na linguagem das ciências básicas em que conhe-cimento, aptidões e técnicas são retratados co-mo fatos destituídos ed valor; a outra, o “cuida-do”, se refere à dimensão intersubjetiva, isto é, às interações entre os sujeitos em relação ao ato assistencial, que se expressa na linguagem de valores, atitudes e emoções. Essas duas dimen-sões gozam de valorização desigual não só no ensino (Good & Good, 1993; Menezes, 2001; Bonet, 1999), como também no próprio exer-cício do trabalho m édico (Schraiber, 1997), à medida que ao desempenho técnico científico é dada prim azia, enquanto a dim ensão inter-subjetiva tende a ser tratada como aspecto se-cundário do trabalho e da socialização em me-dicina.

A necessidade de aprofundar a análise so-bre formação médica por intermédio de etno-grafias realizadas em distintos contextos socio-culturais é enfatizada por autores que indicam que o sistema cultural biomédico não é univer-sal (Good & Good, 1993; Atkinson, 1995). E se a experiên cia clín ica é um m odo de con heci-mento contextualizado localmente, tendo por base tradições e práticas de determinados

luga-res e equipes de trabalho, a forma com que os profissionais m anipulam e privilegiam deter-minadas evidências científicas também é sujei-ta a variações (Timmermans & Angell, 2001).

Além disso, a socialização em medicina ex-põe o aluno a concepções, valores e práticas di-vergentes e, por vezes, conflitantes, dado que as perspectivas de seus professores, as “linhas” de trabalho e as “escolas” de pensamento são hete-rogêneas, havendo em bates entre elas m esm o no interior das disciplinas. Distintos m odelos de en sin o-apren dizagem são adotados e há contrastes entre os modos de equacionar a ex-periência e o conhecimento científico no julga-mento clínico, o que tende a contribuir para a con strução da auton om ia profission al com o valor (Becker et al., 2002[1961]; Atkinson, 1995; Schraiber, 1993).

En con trarem os essa heterogen eidade de perspectivas entre professores de obstetrícia ao se depararem com o tem a hum anização do parto? Quais são as repercussões que políticas promovidas pelo Ministério de Saúde (MS), vi-sando à hum anização do parto, têm tido no processo de formação em medicina?

Desde o final da década de 1990, a expres-são “humanização do parto” tem sido utilizada pelo MS para se referir a uma série de políticas públicas prom ovidas com o apoio da Organi-zação Mundial de Saúde (OMS), da Organiza-ção Pan-am ericana de Saúde (OPAS) e/ou do Banco Mundial e com a colaboração ou parce-ria de diversos atores sociais, como ONGs e en-tidades profissionais. Dada a diversidade de atores sociais e de interesses envolvidos, não é de se estranhar que haja uma série de conflitos em torno de distintas concepções de parto e al-ternativas de atendim ento a esse evento. H á controvérsias acerca de qual profissional é mais capacitado; quais equipamentos são indispen-sáveis; como prover segurança para realizar-se o parto em que locais; dos direitos reproduti-vos, inclusive o direito ao exercício de escolhas quanto à assistência; e, mais recentemente, das diretrizes técnicas que devem nortear a prática obstétrica. Assim , em torno do significado de “hum anização”, no que se refere especifica-mente à assistência obstétrica, há um campo de disputas e negociações (Diniz, 2001).

(3)

co-mo foco a qualificação da atenção, envolvendo preocupações, por um lado, com o respeito e promoção de direitos humanos da mulher que recebe assistência, e, por outro, com treina-mento ou formação dos profissionais e evidên-cias cien tíficas que n orteiam as rotin as assis-tenciais, bem como com instalações físicas e re-cursos tecnológicos disponíveis.

Em relação às medidas implementadas pelo MS, visando prom over a hum anização da as-sistência, que contemplam, entre outras coisas, a dim inuição das taxas de cesáreas, interessa-nos mais de perto o conjunto das que buscam promover a atuação da enfermeira obstetra na atenção ao parto normal, as que geram os ma-nuais da assistência ao parto, e a garantia do di-reito a analgesia de parto. Quanto ao primeiro conjunto de m edidas, tem os: a introdução do pagamento, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de parto assistido por en ferm eira obstetra; o incentivo à sua capacitação e a criação de Cen-tros de Parto Normal (CPN), unidades privile-giadas de atuação desta profissional em partos sem distócia (DOU, 8/8/99). O CPN pode constituir unidade “isolada” – a “Casa de Parto” – ou intra-hospitalar. Entre outras característi-cas, deve estar vinculado às Unidades Básicas de Saúde (UBS) de sua área de abrangência.

Os manuais técnicos foram produzidos e/ou revisados pelo MS, no âmbito do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento. Entre estes se inclui Parto, aborto e puerpério – assistên-cia humanizada à mulher (Ministério de Saúde, 2001). Esses manuais sistematizam evidências científicas, incorporando algumas diretrizes da OMS fundamentadas na medicina baseada em evidências (MBE). Produzidos em parceria ou com o suporte técnico da Federação Brasileira de Ginecologia de Obstetrícia (Febrasgo), entre ou-tras entidades, os manuais foram distribuídos a todos seus afiliados, mas sua disseminação nas faculdades de medicina é bastante variável.

No contexto da form ação m édica, a rele-vân cia atribuída à n oção de hum an ização do parto é também variável. Um indício dessa va-riabilidade se expressa nos próprios conteúdos programáticos que constam do conjunto disci-plinar oferecido pelos Departamentos de Obs-tetrícia e Gin ecologia ou de Tocogin ecologia aos alunos de quatro conceituadas faculdades de medicina do Estado de São Paulo e nos ma-teriais didáticos oferecidos nos program as de residência m édica. Todos fazem algum a refe-rência ao termo “humanização”. No entanto, o valor atribuído como temática no ensino

pare-ce ser bastante diverso: desde a absoluta falta de m en ção n as disciplin as obrigatórias até o uso do termo na declaração da missão de ensi-n o da faculdade, ensi-n as em eensi-n tas de discipliensi-n as e/ou a presença dos m anuais técnicos do MS nas bibliografias recomendadas.

Não varia apenas a inclusão do tema huma-nização no curso, mas o próprio conteúdo pro-gramático de obstetrícia como um todo ofere-cido pelos departam en tos (de n om en clatura também variável, mas aqui referidos como De-partamentos de Obstetrícia e Ginecologia) en-tre as quatro faculdades. Variam a carga horá-ria de obstetrícia e a sua distribuição na grade curricular e também as atividades práticas prio-rizadas. Assim, o atendimento supervisionado à consulta de pré-natal é considerado elemento fundamental do internato por algumas escolas e é reduzido ao mínimo por outras.

Talvez a variabilidade n a grade curricular seja expressão do valor da autonomia universi-tária e, mais especificamente, da autonomia de que gozam professores e/ou colegiados dos de-partamentos, no desenvolvimento dos seus pro-gramas na escola médica. Em todo caso, perce-be-se, entre os Departamentos, posturas distin-tas diante da hum anização com o tem ática de ensino e em relação ao Programa de Humani-zação do Pré-Natal e Nascimento do MS. Essas aproximações e distâncias verificadas relativa-mente às proposições do MS representam con-flitos das escolas de pensamento em medicina diante das políticas governamentais no campo da obstetrícia, daí term os escolhido tam bém este aspecto para comentar.

Técnicas e desenho da pesquisa

(4)

rece-642 642 642 642

ber alunos obtiveram previamente o roteiro da visita contendo questões que norteariam a ela-boração posterior, pelos alunos, de relatório in-dividual. Estes relatórios e o debate em sala de aula acerca das três visitas tam bém se consti-tuíram em instrumento da presente análise, as-sim com o en trevistas in dividuais. A pesquisa realizada teve aprovação ética na escola médica investigada, com o compromisso de sigilo quan-to a sua identificação.

Segundo um a das professoras dessa disci-plina, o objetivo das visitas é propiciar aos alu-n os a oportualu-n idade de coalu-n hecer serviços de “assistência humanizada ao parto”, com mode-los de atenção diferentes relativamente à tradi-ção dos hospitais-escola. Pretende, assim, fazer com que os alunos percebam que as condutas são objeto de discussão e controvérsias. Espera que isso os estimule a pesquisar acerca das con-dutas adotadas em cada m odelo e a desenvol-ver suas práticas com m aior reflexão crítica e autonomia.

Por intermédio dessa disciplina, sob a coor-denação do Departamento de Obstetrícia e Gi-necologia, os alunos são apresentados a esta área e devem aprender a realizar a anamnese e o exame ginecológico e obstétrico. Também lhes é oferecida a oportunidade de fazer seu primei-ro plantão, em caráter voluntário, participando da assistência, tanto no pronto-socorro obsté-trico e ginecológico, como no centro obstétri-co, do H ospital-Escola. Essa oportunidade de “pôr a m ão na m assa”, com o se referem tanto alun os quan to professores à participação n a prática assistencial, tende a ser muito valoriza-da (Rego, 1995; Menezes, 2001). Neste caso, valoriza também as referidas visitas como uma oportunidade de exposição à realidade de ou-tros hospitais e ocasião de conhecer e até nego-ciar “estágios extracurriculares”. Tal recurso é estim ulado com o estratégia para aum en tar a experiência prática do estudante no Brasil, ain-da que envolvendo diversas delicaain-das questões éticas e de formação profissional (Rego, 2002). Cabe ressaltar que m aternidades públicas são um dos locais privilegiados para realização des-ses estágios, bastan te valorizados n a própria área da obstetrícia (Dias, 2001).

As visitas foram precedidas por um a aula expositiva sobre a assistência obstétrica no Bra-sil. Essa aula será abordada a seguir, pois visava apresentar o m odelo prevalecente no Brasil e discutir problem as decorrentes, para então apresentar alternativas. Vamos, por isso, tomá-la como momento preparatório das visitas.

Preparando as visitas

Após uma breve conversa informal a respeito das experiências pessoais dos alunos na observação de partos, a professora assinalou a importância de se perceber a interação da equipe profissional no parto: observar se há, entre eles, ansiedade ou estresse, provocando desencontros na atuação da equipe, ou se, ao contrário, há um desempenho tranqüilo e cooperativo. Chama a atenção para o fato de que, por vezes, em uma situação progra-mada, isto é, quando equipe e paciente definem de antemão o que vai acontecer, isso cria um cli-ma cli-mais tranqüilo de atuação.

A professora inicia, então, um a exposição acerca da assistência obstétrica no Brasil. Apre-senta as taxas de fecundidade, a proporção de partos atendidos pelo SUS e de partos hospita-lares em geral, para caracterizar a estrutura de atenção disponível no país. Em seguida, analisa os índices de morbimortalidade materna e neo-natal, bem como as taxas nacionais e regionais de cesáreas. Antes de dar continuidade ao te-ma, pergunta quantos alunos nasceram de par-to normal e verifica que se trata de uma mino-ria – apenas 8 em 33. Então, instigando os alu-nos a participar, discute as causas das altas ta-xas de cesárea, sua relação com a remuneração ao parto na política do Sistema de Saúde na dé-cada de 1970 e a maior rapidez do parto em que se lança m ão deste procedim ento, resultando em maior comodidade para o médico e o hos-pital, pois organiza a agenda. Pergunta sobre os fatores que levariam as mulheres a “optar” por esse procedimento, sendo mencionados: o do da dor, (e a professora comenta que, ao me-nos no setor privado, em que sempre ocorre a analgesia, esse seria infundado); a comodidade de planejar o parto; a concepção (que qualifica de fantasiosa) de que o parto vaginal afrouxa a vagin a, prejudican do a vida sexual futura; a concepção de que o parto cesárea é menos es-tressante, exigindo menos preparo emocional e possibilitando um maior controle da situação, e de que é mais seguro e melhor para o bebê.

(5)

cien tificam en te fun dadas recai sobre os pró-prios m édicos, con figuran do um a crise ética coletiva na medicina.

Durante essa discussão, ocorrem m uitas conversas paralelas entre os alunos. Tem -se a im pressão, pelo espanto e desconforto deles, que essas considerações não são facilmente acei-tas. A professora procura mostrar que valores e conveniências podem influenciar o comporta-m en to comporta-m édico e a comporta-m edicin a, e se apóia n esse argumento para exortar os alunos a uma refle-xão, am parada em leituras, de m odo que, por si m esm os, cada um deles tom e um a decisão sobre a melhor conduta.

A classe volta a se concentrar quando a pro-fessora começa a abordar o pré-natal, mostran-do o aumento da cobertura dessa atividade as-sistencial. Por fim, são analisados os índices re-gion ais e n acion ais de m ortalidade m atern a comparados com as taxas do Canadá. Concluiu afirm an do que n osso ín dice de m ortalidade materna é muito alto para o sistema hospitalar e a capacidade de atendimento instalada.

Distintas estratégias foram usadas para apre-sentar os diferentes tópicos, com dinâm icas mais informais quando se discutiram questões de ordem cultural, o contrário ocorrendo com os tópicos pré-natal e m orbim ortalidade m a-terna e neonatal. Isso pode gerar, na percepção dos alunos, uma extensão da informalidade ao próprio conteúdo do tópico tratado. Assim, te-m as éticos ou culturais parecerão “inforte-mais” ou algo distinto da informação científica. Co-mo comenta uma das alunas, em entrevista rea-lizada posteriorm en te: O fato é que, para a grande maioria das pessoas aqui, e em qualquer lugar que eu já tive contato até o momento, aulas como Psicologia Médica, Saúde Integral da Mu-lher ou qualquer outra que tende mais para o la-do da Medicina Social, dão a sensação que não é m edicina. Isso aqui é um papo que a gente bate de vez em quando. Então se você quer marcar um com prom isso, você m arca para aquela aula. Se você quer matar alguma aula (...)vai ser aquela aula. Você não dá a m esm a im portância para Psicologia ou para Relação Médico-Paciente que você dá para uma aula de Anatomia, Fisiologia, ou Patologia. Eu acho que é uma coisa implanta-da, não sei de onde. Você já chega na faculdade com esse com portam ento e, com o passar dos anos, ele vai se sedimentando.

A m en or valorização de tem áticas sociais tam bém tran sparece em outras atitudes. Os alunos que tom am notas sistem aticam ente, não fazem anotações nas aulas de Saúde

Inte-gral da Mulher, porque “é mais informal”. Rei-tera-se, assim , a tendência a se dar prim azia à “competência” na form ação, e a um a concep-ção pouco abrangente dessa dimensão.

A m encionada crise ética da m edicina, re-presentada pela atitude de prom over cesáreas sem in dicações é relativizada por algun s alu-nos. Acreditam que os médicos são, em parte, responsáveis, pois orientam as pacientes. Ao m esm o tem po, há alunos que têm um a prefe-rência pessoal pela cesárea e defendem o direi-to da cesárea a pedido. Alguns até comentaram que essa preferência foi reforçada pela expe-riência nos plantões e em conversas com obste-tras, residentes de obstetrícia e internos na Fa-culdade. Acrescenta-se que, em sala de aula e nos plantões, vários assistentes sugeriram que uma desvantagem do parto normal seria a pos-sibilidade de afetar o tôn us do perín eo ou a elasticidade da vagina, reforçando, particular-mente entre as alunas, receios em relação à vi-da sexual. Essa preferência pessoal (Chacham, 1999) e profissional (Dias e Deslandes, 2004) pela “via alta” entre profissionais da área, apa-rentemente comum, exerce, sem dúvida, gran-de influência entre os alunos, no sentido gran-de considerá-la um procedimento seguro. Para es-tes, portanto, a “cultura da cesárea”, à m edida que é com partilhada com profissionais, não é vista com o sendo de inteira responsabilidade destes últimos. Cabe relembrar que, nessa clas-se, 75,8% dos alunos nasceram de partos cesá-reas. Como esta é a via preferencial de parto de vários deles, talvez custem a crer que a maioria das mulheres realmente não compartilha dessa preferência (ver, a esse respeito, Hopkins, 1998; Potter et al.,2001). Ao mesmo tempo, há uma certa empatia, por parte de alguns, com relação ao argum ento da com odidade e da econom ia que essa prática representa para o médico, as-segurando-lhe maior disponibilidade para seus outros compromissos profissionais.

A visita

Os alun os da classe foram divididos em três grupos e cada um destes visitou um hospital vinculado ao SUS. Os três serviços se diferen-ciavam pelo tipo de gestão. Cada visita foi mo-nitorada por um profissional indicado pela res-pectiva instituição.

(6)

644

as Unidades Básicas de Saúde (UBS) da região. O hospital possui um CPN, em que o parto norm al é conduzido por enferm eira obstetra. Um de seus objetivos é prover aos usuários um a “assistência hum anizada”, com o explica um dos funcionários do hospital: Temos a ques-tão da assistência humanizada. Procura-se fazer isso em todas as áreas, em bora isso ocorra m ais na G.O. (...) Procura-se manter o hospital boni-to, arrumado. Trata-se de um atendim ento que com eça hum anizado desde a porta. Percebe-se assim que, para essa instituição, a humanização é um termo bem abrangente. A “assistência hu-manizada” é também uma construção coletiva envolvendo tensões e negociações entre a pro-posta institucional e as dem andas da popula-ção local: A população tem um perfil diferencia-do, eles cobram muito! Não é aquele pessoal po-bre, pobre. É um a população politizada; conhe-cem muito bem os direitos deles!

Após uma explanação geral sobre o hospi-tal, percorre-se o trajeto das parturientes, des-de seu primeiro atendimento até a alta hospita-lar. No trajeto, o comentário dos alunos entre si se volta para um Curso de Obstetrícia da Zo-na Leste, que seria iZo-naugurado em alguns dias e sobre o qual comentam: Não precisa nem mais ser m édico para exercer a obstetrícia. Para que estudar seis anos de m edicina?Até bom beiro faz parto! Trata-se de um curso para obstetrizes que enfrenta resistências dos médicos, pois, co-mo declarou recentemente o presidente da Fe-brasgo: Somos contra o nome desse curso. Obste-trícia é uma especialidade médica (FSP:13/3/05). Percebe-se que os alunos acompanham atenta-mente os acontecimentos e conflitos pertinen-tes à sua futura categoria profissional, identifi-cando-se, nesse caso, com a postura da Febras-go. Associam o modelo de assistência visitado (um CPN) com a delim itação do cam po de atuação profissional dos m édicos, sendo por estes contestado.

No modelo da CPN, como nos explica a pro-fissional da instituição, dois médicos e duas en-fermeiras são responsáveis pelo atendimento a cada 12 horas, estimulando o parto normal. O pronto-atendimento (PA) obedece à ordem de chegada e/ou de gravidade, sendo realizado por um médico, por uma auxiliar de enfermagem, para que a paciente não fique constrangida, e por um(a) acompanhante da gestante. Porque é direito do acom panhante, não tem aquela des-confiança de que fez o diagnóstico errado.

Nessa instituição, as enfermeiras prestam a assistência ao parto, mas tudo é discutido com

o médico, como explica a médica: Você está di-vidindo a função com a enferm agem . O m édico fica na porta, faz as cesáreas, as cirurgias de ur-gência e os partos fórcipes. É m uito m elhor! Em outros hospitais, m uitas vezes há só um m édico de plantão(...) Aí (...) acaba fazendo tudo: cesá-rea, procura lim par a área para dar conta do serviço.

São apresentados, na seqüência, aspectos con siderados relevan tes n a caracterização da assistência humanizada: o direito e a presença quase obrigatória do acompanhante durante o trabalho de parto, para ajudar no cuidado à mu-lher; a m aior privacidade assegurada n o pré-parto, pois cada gestante perm anece em um a sala “PPP” durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato; o estímulo à locomoção; e tec-nologias alternativas para aliviar a dor e facili-tar o trabalho de parto, incluindo um a bola e um banco que se assemelha aos cavalos de ba-lan ço in fan tis. O estran ham en to dos alun os com o uso dessas técnicas alternativas é nítido. Parecem não acreditar que se trata de um “equi-pamento” médico, entreolham-se e alguns não conseguem conter o riso.

Fala-se de outras in terven ções que foram eliminadas da rotina do trabalho de parto nes-te hospital, entre elas a utilização de soro com ocitocina, a manutenção da paciente em jejum, a tricotomia (raspagem dos pêlos pubianos), o enteroclisma (esvaziamento intestinal), e a anal-gesia. Em alguns casos, explica-se por que estas intervenções foram eliminadas. A proposta de eliminar a analgesia sistemática e rotineira sus-cita questionamentos por parte dos alunos e é defendida pela profissional com os seguintes argumentos: risco de anóxia do recém-nascido e ten dên cia a estacion ar o trabalho de parto, tornando-se necessário o uso de fórcipes.

Quanto à assistência ao parto, a médica afir-ma que a taxa mensal de cesáreas é de 23%. No parto normal, não se faz episiotomia de rotina, visando preservar o períneo íntegro e evitar efei-tos adversos desta intervenção, os quais descre-ve. Afirma que a paciente pode optar pela posi-ção de parto e dem onstra as possibilidades de uso da versátil cam a hospitalar. Indica, entre-tanto, uma posição de preferência do serviço: o decúbito lateral esquerdo. Seria um a posição ideal para o parto. Aí, o fluxo de oxigênio não é prejudicado, porque não comprime a veia cava.

(7)

acesso a uma tecnologia moderna de alívio à dor? A ciência evoluiu!

Os alunos foram apresentados a um serviço que é diferente daquele de seu Hospital-Escola, referência em termos de aprendizado. A rotina de outro serviço, no que se refere às condutas técnicas, tende a ser, no mínimo, “estranhada”, quando não rejeitada, como algo impróprio, o que transparece nos relatórios individuais, as-sim como nas apresentações coletivas, o que se considerará a seguir.

Discutindo as visitas

A apresentação, em classe, das visitas propiciou aos alun os a possibilidade de perceber sem e-lhanças e diferenças entre as instituições e de discutir os aspectos da “assistência humaniza-da” que consideraram mais polêmicos.

Os hospitais visitados buscavam, com maior ou m enor sucesso, prom over o parto norm al com a assistência de enfermeiras obstetras e in-centivavam a presença de acompanhante de es-colha da m ulher. A tricotomia, a analgesia e a episiotomia foram eliminadas da rotina, o que chamou a atenção dos alunos. A escolha da pa-ciente em relação à posição de parto mostrou-se condicionada à premostrou-sença de equipam ento tecnológico moderno – a cama de parto versá-til – e às preferências dos profissionais.

Ao procurar operacionalizar a noção de hum an ização da assistên cia, apen as algum as das práticas classificadas pela OMS ([1996] 2000) e pelo MS (2001) como “claramente pre-judiciais ou ineficazes e que devem ser elimina-das” da rotina, efetivamente o foram nestes ser-viços. Aspectos da assistência que m ais clara-mente sinalizam a tentativa de incorporação de direitos reprodutivos – o direito a acom pa-nhante de escolha, a liberdade de movimenta-ção n o pré-parto e de escolha de posimovimenta-ção n o pré-parto e parto – sofrem constrangim entos de natureza técnica e organizacional, sendo su-jeitos às prioridades dos serviços e às preferên-cias e treinamento dos profissionais. Assim, ca-racterísticas observadas n esses serviços pare-cem reiterar possibilidades e limites da huma-nização analisadas em outros trabalhos (Diniz, 2001; Tornquist, 2004).

A justificativa científica para a elim inação de rotinas e a adoção de outras ficou a cargo e a critério dos profissionais que apresentaram os hospitais visitados; os alun os extern aram entendim entos variáveis do que lhes foi m

os-trado. Alguns identificaram hum anização co-mo um terco-mo que se refere às esferas das rela-ções entre os diversos sujeitos envolvidos na assistência e a um conjunto de rotinas assisten -ciais. Outros entenderam que o term o hum a-nização se refere ao respeito e cuidado que a equipe profissional e o hospital têm com as ges-tantes. Para alguns deles, parto hum anizado é parto normal com a presença de acompanhan-te. Assim, para parcela dos alunos, humaniza-ção se refere exclusivam ente à esfera das rela-ções: entre profissionais e gestante/parturiente/ puérpera; entre mães, bebês e acompanhantes.

É freqüente a menção à atenção individua-lizada para com as pacientes com o qualidade dos serviços visitados, o que os diferen cia do Hospital-Escola. Nos serviços visitados, os alu-nos valorizaram os aspectos da assistência que se referem à esfera das relações, em nítido con-traste com sua atitude diante dos aspectos rela-tivos à esfera da competência técnica e científi-ca, em relação à qual o Hospital-Escola se con-figura como referência exclusiva. Aparentemen-te, como a esfera das relações é considerada as-pecto secundário da socialização em medicina, ela é mais permeável a questionamentos.

A promoção do parto normal e a tentativa de reduzir taxas de cesárea foram notadas pe-los alunos e apontadas como medidas relacio-nadas às políticas ministeriais, indicando a ab-sorção do trabalhado na aula preparatória.

Muitos se manifestaram bem impressiona-dos e até surpresos com as in stalações físicas e/ou o estado de conservação e limpeza dos hos-pitais, sobretudo em se tratando de instituições públicas. Por outro lado, estranharam o am -biente, que se diferenciava do tipicamente hos-pitalar: “Não parece hospital. Tem um a cam a, umas gazes, umas coisinhas!”

(8)

646

Essa desconfiança de que não há uma base técn ica e cien tífica de susten tação quer para definir um profissional não médico como res-pon sável prin cipal, quer para alterar práticas técnicas tradicionais, tais como episiotomia ou an algesia de rotin a e até a tricotom ia, gera a im agem de que este m odelo baseia-se em “crenças” ou num a leitura particular das evi-dências científicas: Episiotomia de rotina não é utilizada, pois existe a crença de que não é neces-sária, além da preservação do períneo. A tricoto-m ia e a episiototricoto-m ia não são proceditricoto-m entos de rotina pois, de acordo com os médicos deste hos-pital, não há evidências científicas de que esses procedim entos são benéficos à paciente (grifos nossos).

Quan to aos m étodos n ão-farm acológicos de alívio à dor e para facilitar o trabalho de par-to, a postura de descrédito se manifesta de di-versas formas: Eles usam métodos diferentes que cham am de hum anização do parto, bolas e um cavalinho (...)A paciente fica lá horas em traba-lho de parto. N ão dão anestesia geralm ente, só em casos extrem os. Eles pregamoutros m étodos de alívio à dor, massagens, assistência psicológi-ca. Nota-se o tom crítico em relação ao tempo associado à parturição e em relação aos méto-dos não-farm acológicos de alívio da dor, cuja promoção é comparada a um ato de proselitismo.

A mudança dos protocolos de intervenções é interpretada muitas vezes como falta e precarie-dade do modelo de atenção: Então não fazem praticamente nada! Não dão soro, não dão aneste-sia, mas dão uma atenção mais individualizada. (...)O parto é bastante precário, sem intervenções médicas. Natural até demais, pelo que tem hoje.

Assim, a noção de parto natural, expressão associada à hum anização da assistência, assu -me conotação negativa, sendo ligada à idéia de precariedade e retrocesso, que se contrapõe à noção de uma assistência moderna, na qual os avanços tecnológicos da cultura ocidental são incorporados. Como sugere Tornquist (2002), a concepção dicotômica natureza-cultura, que informa o modelo de medicina ocidental, tam-bém informa esta alternativa crítica ao modelo, ocorrendo entre ambos uma inversão dos valo-res atribuídos a cada pólo da relação. Enquanto a natureza é enaltecida no ideário do parto hu-manizado, ela é associada ao retrocesso e à pre-cariedade no discurso de alunos, ao contrapor o serviço de assistên cia hum an izada àquele existente no Hospital-Escola.

Já que, para os alunos, quem faz o parto é o médico, e não a gestante, deixar de oferecer

tu-do que a medicina criou parece ser o oposto da hum anização, ou seja, prover tecnologias, em especial a an algesia, é que seria um a aten ção mais humanizada. Alguns até mesmo apontam se tratar de um direito das gestantes que estaria sendo frustrado, podendo implicar a responsa-bilização dos médicos, gerando desconfianças. Não percebem que mudanças no modelo pro-posto pela m edicin a poderiam alterar ou até mesmo ser fruto de alterações nas expectativas das gestantes. Tampouco reconhecem que pos-sa haver, entre as gestantes, uma diversidade de demandas em relação ao parto.

A defesa da analgesia no parto converge com o descontentamento diante do privilegia-m en to da en ferprivilegia-m eira obstetra para atuar n o parto normal. Defende-se uma identidade mé-dica tradicional, recusando-se a reflexão crítica de que as identidades são construções históri-co-sociais mutáveis. Parece ser mais fácil recu-sar as bases científicas de qualquer modelo al-ternativo do que arriscar a imagem social já da-da. Alguns alunos chegam m esm o a interco-n ectar as duas questões: interco-n ão se dá ainterco-n algesia, porque é parto realizado pela enferm eira. “Aí teria que chamar o médico”.

Há que se considerar que a formação médi-ca n ão é apen as um processo de aquisição de com petências técnico-científicas, m as, com o vim os, um processo de socialização profissio-nal. Este processo de construção da identidade coletiva inclui a aderência ou não a determina-das “bandeiras” defendidetermina-das por lideranças, nas entidades que representam a corporação. O treinamento é instância que contribui, de mo-do fundamental, para a manutenção da coesão entre os membros da profissão e para sua auto-regulação (Friedson, 1988). Assim, pode-se en-tender a razão dos conflitos aqui levantados e do em bate em torno aos dom ínios da profis-são, o que ocorre não apenas na área obstétrica, mas em diversos outros ramos de atuação dos médicos. Tais conflitos e embates são reprodu-zidos e reforçados por alguns de seus professo-res, como veremos.

Novamente em sala de aula

(9)

ofe-recer analgesia para a paciente”. Efetivamente, como sugere Diniz (2001), a humanização co-mo referência à legitimidade do acesso a anal-gesia é comum no discurso de médicos, sendo considerada por alguns imprescindível na aten-ção ao parto.

Vejamos os sentidos atribuídos à analgesia de parto por um professor de Obstetrícia, en -focando as rotinas do parto norm al, via pres-crição do m édico: O prim eiro item da prescri-ção é, invariavelm ente a dieta. (...)O que vocês vão dar para nossa pacientezinha com 7 centí-metros de dilatação e em trabalho de parto? (...) Jejum, dieta zero. (...)Potencialmente, qualquer paciente em trabalho de parto pode ser subme-tida a uma cesárea de urgência. (...)Se vocês vão conversar com qualquer anestesista na face da terra, ele vai estremecer, se você não prescre-ver jejum!(...) Deixe a paciente em jejum ! (...) Existem duas correntes. Um a acha que deve fa-zer jejum durante o trabalho de parto e outra acha que não é necessário. (...)Mais alguma coi-sa vocês prescreveriam para escoi-sa paciente? (...) eu coloco um soro, porque caso fo r à cirurgia, precisa de acesso venoso. E para manter o acesso venoso e por causa do jejum , eu coloco um soro glicosado. (...)O que mais vamos fazer com nos-sa pacientezinha? Analgesia de parto! (...)hoje, no ano de 2005, no século 21, o que se prescreve é duplo-bloqueio (...)uma associação entre raqui-anestesia e peridural contínua (...)que tem por objetivo: (1) tirar a dor. (...)(2) Propiciar a rea-lização de qualquer manobra sem dor, sem sentir nada! (3) Relaxar a musculatura estriada de to-da a bacia, facilitando a descito-da pelo canal de parto e fazendo com que a duração do trabalho de parto seja m enor de tal form a que, hoje não passo mais do que 4 horas num parto. (4) Em partonormal, faço a episiotomia e episiorrafia

(grifos nossos).

Nota-se que há intervenções, eliminadas da rotina nos hospitais visitados, cuja adoção é re-comendada por esse professor, em caráter pre-ventivo, a partir de uma descrição do parto co-m o evento ico-m previsível eco-m que o risco é ico-m i-nente. Reitera uma concepção patológica da fi-siologia do parto presente em livros de medici-n a am ericamedici-n os (Martimedici-n , 1992[1987]; Davis Floyd, 1992) e brasileiros (Diniz, 1996).

Adem ais, enquanto, nas visitas, os profis-sionais freqüentemente recorriam às evidências científicas para explicar por que estes procedi-m en tos eraprocedi-m ou n ão adotados n a rotin a do serviço, na fala do professor é sua experiência profission al que se con figura com o prin cipal

fun dam en tação para o uso de determ in ados procedim entos. Sua autoridade profissional permite que se coloque como modelo de atua-ção para os alunos, o que é explicitado pelo uso que faz da primeira pessoa em seu discurso. Há aqui também uma aparente valorização da au-tonomia profissional, quando indica a existên-cia de controvérsias e convida os alunos a exer-cer o julgamento clínico e se posicionar quanto à conduta que adotariam . Porém vem os que rapidamente recorre ao imperativo e o apelo à segurança para exortá-los a adotar suas condu-tas. Por outro lado, não tece qualquer comen-tário acerca de potenciais efeitos adversos das intervenções propostas, contribuindo para se construir a concepção de que são inócuas.

Cabe lembrar que o processo de construção social da cesárea com o tipo ideal de parto n o Brasil, contrariando todas as evidências epide-miológicas concernentes aos riscos à saúde da mãe e bebê decorrentes do parto cirúrgico, pas-sou pela sua valorização com o tipo de parto “moderno”, “indolor”, “seguro”, e “eficiente”. E que o princípio do direito da mulher ao poder e controle sobre o próprio corpo foi apropria-da por médicos para justificar a prática de ce-sárea desnecessária, então denominada cece-sárea a pedido (Mello e Souza, 1994).

(10)

pou-648

co treinado em muitas faculdades de medicina, motivo pelo qual os obstetras freqüentemente m anifestam insegurança em utilizá-lo, sendo esta um a alegação freqüente para a indicação da cesárea (Dias e Deslandes, 2004).

Ao discutir as referidas rotinas assistenciais por meio de uma “prescrição”, o professor pon-tua a centralidade do médico na condução do parto. O raciocínio crítico e as tomadas de de-cisão mais complexas pelo aporte de novos da-dos ou evidências, ou mesmo por novas atitu-des, tais como as decisões compartilhadas com a gestante, tendo por base o reconhecimento de seus direitos são, aqui, substituídos pela segu-rança potencialm ente oferecida pela tradição do agir médico e pela manutenção da imagem de segurança oferecida pela tecnologia. Porém, essa atitude pode propiciar deslocam en to da confiança no médico para os equipamentos e a tecnologia, mediadores da relação médico-pa-ciente, como bem aponta Schraiber (1997): da confiança no meu médico, passa-se à confiança no equipamento ou no hospital bem equipado, não importando mais qual médico o opere. Es-ta crise é potencialmente geradora da descons-trução da identidade profissional que tanto se quer preservar.

Deve-se destacar, contudo, que há escolas de pensamento dentro da Obstetrícia que, buscan-do nortear-se pela m edicina baseada em evi-dências, apontam em outras direções (Enkins et al., 2005). Sua repercussão se faz sentir até em consagrados livros e textos nos quais encontra-mos recomendações em relação ao parto nor-mal que coincidem com algumas daquelas ado-tadas pelo MS e praticadas nos serviços visita-dos, como, por exemplo, a adoção de dieta leve pela parturiente e o uso seletivo de episiotomia (ver a respeito Neme, 2000; Cunningham et al., 2001). É interessante notar que Cunningham et al.(2001) m encionam os benefícios do uso de m étodos não-farm acológicos de alívio à dor e não recomenda o uso rotineiro de analgesia, su-gerindo que seu emprego, associado a riscos, se-ja fruto de decisão da gestante.

O contato com estas outras correntes fez-se presente, no caso apresentado, pela proposta da visita, pelas dúvidas em relação às rotin as le-van tadas pelos alun os em sala de aula e pelas alusões a “controvérsias” no discurso de profes-sores. No entanto, a exposição do aluno à di-versidade cien tífico-tecn ológica ain da é bas-tante limitada.

Considerações finais

O program a interdisciplinar em pauta procu-rou incorporar uma discussão do tema da hu-manização do parto. Como vimos, esta propos-ta trouxe à tona uma série de discussões acerca da noção de humanização, que assume defini-ções variáveis, e de suas interfaces com a pro-fissão médica.

Os embates em torno da noção de humani-zação do parto contrapõem a proposta minis-terial, tal como interpretada por serviços visi-tados pelos alunos, ao do H ospital-Escola e a modelos ideais propostos por seus professores. Adem ais, a discussão em pauta tem por refe-rência não apenas distintas concepções acerca da assistência ou de quais os direitos da pacien-te que nela devem ser privilegiados, mas o pró-prio ideal de profissão e seu campo de compe-tências. Neste sentido, as visitas e suas reper-cussões constituíram também oportunidade de con solidação de um a iden tidade coletiva em formação. A dificuldade de lidar com o plura-lism o de correntes e suas propostas de inter-venção cham ou-nos a atenção. Isso dificulta, da perspectiva do ensino, a form ação do pen-samento crítico e o desenvolvimento da maior autoconfiança no domínio das tomadas de de-cisão, fom entando, ao revés, um a im pressão nem sem pre correspondente à realidade coti-diana do exercício profissional: a im agem de que a aplicação de protocolos fixos é mais be-néfica e segura, quer para os pacientes, quer para os médicos.

Agradecimentos

Gostaríam os de agradecer a Ivan França Junior, Regina Facchini, Patrícia Logullo e Fernanda Ferraz de Campos Macários pelos comentários, além de agradecermos às es-colas médicas estudadas, seus alunos, residentes e profes-sores.

Colaboradores

(11)

Referências bibliográficas

Atkinson P 1995. Medical talk and medical work: the litur-gy of the clinic. Sage Publications Inc., Londres. Bonet O 1999. Saber e sentir. Uma etnografia da

apren-dizagem da biomedicina. PHYSIS: Rev. Saúde Coleti-va 9(1):123-150.

Becker HS, Geer B, Hughes EC & Strauss AL 2002. Boys in white: student culture in medical school.. Transac-tion Publishers, New Brunswick. Publicado original-mente em 1961 pela University of Chicago Press. Brasil 2001. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas

de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Ministério da Saúde,Brasília.

Chacham AS 1999. A medicalização do corpo feminino e a incidência do parto cesáreo em Belo Horizonte. Tese de doutorado. Faculdade de Ciências Econôm icas, Universidade Federal de Minas Gerais.

Cunningham FG et al. 2001. W illiams obstetrics. McGraw-Hill, Nova York.

Davis-Floyd RE 1992. Birth as an American rite of passage. University of California Press, Berkeley. Diário Oficial da União 8/8/1999. Ministério de Saúde,

Portaria No985, 5/08/99.

Dias MAB 2001. Cesariana: epidem ia desnecessária? A construção da indicação da cesariana em uma materni-dade pública no município do Rio de Janeiro. Disserta-ção de mestrado, Instituto Fernandes Figueira, Fiocruz. Dias MAB & Deslandes SF 2004. Cesarianas: percepção de risco e sua indicação pelo obstetra em uma mater-nidade pública no Município do Rio de Janeiro. Ca-dernos de Saúde Pública 20(1):109-116.

Diniz CSG 1996. Assistência ao parto e relações de gênero: elem entos para um a releitura m édico-social. Disser-tação de mestrado. Departamento de Medicina Pre-ventiva, Faculdade de Medicina da USP, São Paulo. Diniz CSG 2001. Entre a técnica e os direitos hum anos:

possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto. Tese de doutorado. Faculdade de Medicina da USP, São Paulo.

En kin s M et al. 2005. Guia para atenção efetiva na gra-videz e no parto. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro. Folha de S. Paulo, 13 de março de 2005, Seção Empregos,

Novo Uspiano desbravará mercado. Obstetrícia: Ban-deira é incentivar parto normal. p. 3

Friedson E 1988. Profession of medicine: a study of the so-ciology of applied knowledge. The University of Chicago Press, Chicago.

Good BJ & Good MD 1993. “Learning m edicine”: the construction of medical knowledge at Harvard Med-ical School, pp. 81-107. In S Lindenbaum & M Lock (org.). Knowledge, power and practice: the anthropol-ogy of medicine and everyday life. University of Cali-fornia Press, Berkeley.

Hopkins KL 1998. Under the knife: cesarean section and the fem ale sterilization in Brazil. Doctoral disserta-tion, University of Texas at Austin, Texas.

Martin E 1992.The woman in the body. A cultural analysis of reproduction. Beacon Press, Boston. (1aedição em

1987).

Mello e Souza CC 1994. Sections as ideal births: the cul-tural constructions of benificence and patients’ rights in Brazil. Cam bridge Quarterly of Healthcare Ethics 3:358-366.

Menezes RA 2001. Etnografia do ensino médico em um CTI. Interface – Comunicação, Saúde, Educação 5(9): 117-130.

Neme B 2000. Obstetrícia básica. Ed. Sarvier, São Paulo. Organização Mundial de Saúde 2000. Assistência ao parto

normal: um guia prático. Saúde Materna e Neonatal/ Unidade de Maternidade Segura, Saúde Reprodutiva e da Família, Genebra. Tradução realizada com apoio da OPAS e JICA, do original em inglês publicado em 1996, OMS/SRF/MSM/96.24.

Potter JE et al. 2001. Unwanted cesarean sections among public and private patients in Brazil: prospective study. BMJ 323:1155-1158.

Rego S 1995. O processo de socialização profissional em medicina, pp. 119-132. In MH Machado (org.) Pro-fissões de saúde: uma abordagem sociológica. Fiocruz, Rio de Janeiro.

Rego S 2002. Ética m édica – 3: A ética na form ação dos m édicos, pp. 108-133. In M Palácios, A Martins & AO Pegoraro (orgs.). Ética, ciência e saúde: desafios da bioética. Vozes, Petrópolis.

Schraiber LB 1993. O médico e seu trabalho: limites da li-berdade. Hucitec, São Paulo.

Schraiber LB 1997.Medicina tecnológica e prática profis-sional contemporânea: novos desafios, outros dilemas. Tese de livre-docência. Departam ento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo.

Timmermans S & Angell A 2001. Evidence-Based Medi-cine, Clinical Uncertainty, and Learning to Doctor. Journal of Health & Social Behavior 42(4):342-359. Tornquist CS 2002. Arm adilhas da nova era: natureza e

m aternidade no ideário da hum anização do parto. Revista Estudos Feministas 10(2):483-492.

Tornquist CS 2004. Parto e poder: o m ovim ento pela hu-m anização do parto no Brasil. Tese de doutorado. Program a de Pós-Graduação em Antropologia So-cial, UFSC, Florianópolis.

Artigo apresentado em 11/04/2005 Aprovado em 2/05/2005

Referências

Documentos relacionados

Após extração do óleo da polpa, foram avaliados alguns dos principais parâmetros de qualidade utilizados para o azeite de oliva: índice de acidez e de peróxidos, além

b) Execução dos serviços em período a ser combinado com equipe técnica. c) Orientação para alocação do equipamento no local de instalação. d) Serviço de ligação das

Foram incluídos pa- cientes de ambos os gêneros, com ida- de ≥18 anos, que utilizaram ventilação mecânica não invasiva devido ao quadro de insuficiência respiratória secundária

Considerando que a maioria dos métodos publicados até os dias de hoje realizam a separação de um, ou no máximo dois metais de transição, e que a aplicabilidade

Resumo da análise de variância efetuada para Densidade básica (DB), comprimento de fibra (CF), espessura da parede da fibra (EPF), comprimento de vaso (CV), diâmetro de vaso

Sendo assim, investigou-se não só a possibilidade de o PS demonstrar uma aplicação singular do fenômeno de elisão e degeminação, como também consideramos a perspectiva de que

Modelos Lineares Generalizados foram construídos utilizando as variáveis respostas riqueza de parasitos e abundância para os grupos encontrados testando as seguintes

A partir de um estudo sobre os modelos de desenvolvimento do pensamento sobre a linguagem de funções, este trabalho tem o objetivo de propor e testar um modelo de níveis