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O caso da Viena Vermelha.

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Nas últimas eleições vienenses, jornais da Áustria e da Ale-manha comentaram o atual conflito entre o governo muni-cipal social-democrata e o populista e direitista Partido da Liberdade com o bordão: “Dessa vez trata-se da luta pelo programa de habitação municipal”. O bordão tinha dois sig-nificados. De um lado, queria dizer que os conjuntos habi-tacionais de Viena, construídos nas décadas de 1920 e 1930, haviam se tornado cenário real para acalorados debates sobre migração – o dominante e controverso tópico da polí-tica tanto vienense como europeia desde meados da década de 1990. De fato, o acesso de moradias públicas a imigran-tes tem alimentado um descontentamento social local, não só por causa do diferente estrato cultural de diversos gru-pos migrantes, mas também em virtude de questões triviais. Enquanto os imigrantes são constituídos de famílias jovens e com filhos, os moradores antigos são, na maioria, idosos sem laços familiares. Isso provoca diferenças significativas nos hábitos de vida, até mesmo com relação ao ritmo do

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dia a dia e ao uso do espaço público dentro dos conjun-tos habitacionais como o playground, aceito em épocas mais

remotas. O populista Partido da Liberdade tentou sistemati-camente fazer dessas diferenças o pivô de sua política xenó-foba e uma camada de sua campanha eleitoral. De outro lado, é preciso reconhecer o significado político e simbóli-co do bordão da luta pelos simbóli-conjuntos habitacionais. Entre 1920 e 1933, a cidade de Viena construiu nada menos que 60 mil residências para 200 mil pessoas, sobretudo prove-nientes da classe trabalhadora. Esse programa de habitação social serviu como núcleo de um vasto programa de bem--estar social municipal, que incluía a construção de jardins de infância, playgrounds, bibliotecas, policlínicas e muito

mais. Os grandes conjuntos habitacionais erguidos por toda a cidade receberam nomes homenageando Karl Marx, Friedrich Engels ou o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe e atravessaram épocas como símbolo de um extra-ordinário experimento urbano socialista. Esses edifícios formam um mito moderno e vivo de Viena como a cidade do bem-estar social, da classe operária, como uma cidade igualitária. Além do mais, esse mito, nutrido pela figura monumental das habitações sociais, tornou-se parte de uma duradoura hegemonia social-democrata ao representar o partido e a prefeitura como gêmeos inseparáveis e lançar uma mentalidade genuinamente local em que a política se confunde cada vez mais com uma mera administração boa. Ousamos dizer que hoje o mito da Viena Vermelha e de seus conjuntos habitacionais municipais é caracterizado por ambiguidade política, uma vez que as ideias igualitárias originárias desapareceram e deram lugar a uma espécie de

lobby. Principalmente por causa dessa ambiguidade

deverí-amos ampliar nosso conhecimento acerca dos princípios e dos programas políticos da Viena Vermelha.

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conceitos modernos de planejamento urbano (como o “Cidade Jardim”), parece necessário para avaliar o sucesso das Vienas Vermelhas:

•฀O que importa em primeiro lugar é a categoria de clas-se como uma particularidade das Vienas Vermelhas. O programa habitacional vienense tinha como foco explícito a camada mais baixa das famílias da classe trabalhadora. Critérios objetivos serviam para contro-lar o acesso às habitações sociais de acordo com neces-sidades econômicas, e os aluguéis baixos permitiam até mesmo aos muito pobres participar do programa.

•฀A modernidade serve como outro ponto de refe-rência. O programa habitacional vienense estava comprometido com um ambiente saudável e higiê-nico, prescrevendo para as plantas dos apartamentos padrões de circulação de ar fresco e um mínimo de luz diurna e luz solar direta. Embora a Viena Verme-lha compartiVerme-lhasse esse objetivo com o famoso mani-festo Carta de Atenas, soluções locais convincentes foram criadas para evitar cidades-satélite isoladas, como propunham planejadores hipermodernos.

•฀A próxima coisa a mencionar seria o conceito de urbanismo. Embora nos últimos anos os assim cha-mados superblocos com até 2 mil apartamentos constituíssem um tipo de cidade à parte, a política habitacional das Vienas Vermelhas se manteve den-tro do modelo da cidade histórica. Os conjuntos foram construídos com fachadas ao longo das ruas e seguindo o modelo da cidade tradicional, integrando pequenas lojas, teatros e cinemas, restaurantes bara-tos e outros espaços funcionais ligados à densidade e diversidade da metrópole.

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com um estilo arquitetônico específico como o estilo Bauhaus em Frankfurt ou em Berlim. A arquitetura romântica se uniu a conceitos funcionais, e escolas arquitetônicas concorrentes produziram uma apa-rência polifônica para a nova face da cidade.

Dentro de dez anos, a começar por 1923, 350 conjun-tos habitacionais haviam sido erguidos, oferecendo mais de 60 mil apartamentos. Além disso, a prefeitura subsidia-va 5.250 centros comunitários [settlement houses], a maioria

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com a regulamentação dos aluguéis, que explicaremos depois, o aumento do espaço para viver patrocinado pelo município diminuiu a dependência das famílias dos traba-lhadores, tanto do mercado de trabalho como do mercado imobiliário, e fortaleceu seu poder social.

A política habitacional na Viena Vermelha se baseava em diferentes tipos de edifícios municipais, dependendo do lugar da construção e segundo o conceito de reterritoriali-zar a cidade como um todo. Os tipos de edifícios variavam do seguinte modo:

•฀Conjuntos habitacionais que consistiam em vários edifícios diferentes, ligados por jardins e pátios irre-gulares (um exemplo é o Sandleitenhof);

•฀Prédios esquemáticos com extensas fachadas ao longo da rua e com uma nítida forma quadriculada (Jean-Jaurès-Hof);

•฀Conceitos axiais e monumentais de superblocos (Karl-Marx-Hof);

•฀Megablocos menos definidos;

•฀Por fim, o preenchimento de espaços vazios entre prédios.

Todos esses diferentes tipos ofereciam amplos jardins ou pátios que não só serviam de espaço para recreação, mas também continham as escadas para gerar laços estrei-tos entre os inquilinos. Por essa razão, a orientação da vida social em torno do pátio se tornou significativa para as habi-tações sociais das Vienas Vermelhas. Os críticos não se can-savam de apontar o efeito do estrito controle social dentro da comunidade de moradores, bem como o isolamento do mundo exterior e da vida nas ruas.

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sentava os monumentos arquitetônicos como a peça central da política municipal socialista. Mas o âmbito da Viena Ver-melha se estendia a outros campos da vida cotidiana.

Um dos pontos da política social era a prioridade dada ao cuidado público das crianças e jovens. Juntamente com as despesas na área da saúde pública, os gastos com o cuidado de crianças e jovens subiram um terço do total das despesas orça-mentárias. Vale mencionar em primeiro lugar a criação de jar-dins de infância. Cada criança entre três e seis anos em Viena devia ter o direito de assistência num jardim de infância. Havia aporte de verbas do serviço social municipal para crianças de famílias mais pobres. Compreenderemos melhor a importân-cia desse tipo de assistênimportân-cia se levarmos em conta que, ao final da Primeira Guerra, 90% das crianças abaixo de 15 anos eram consideradas desnutridas. Nos jardins de infância, as crianças recebiam café da manhã, almoço e lanche. Exames médicos periódicos identificavam e preveniam potenciais riscos à saú-de. Enfermeiras trabalhavam em prol de novos modelos edu-cacionais que priorizavam brincadeiras e atividades físicas. Baseando-se na pedagogia experimental de Maria Montessori, os jardins de infância vienenses focavam no desenvolvimento da personalidade individual das crianças.

Crianças mais velhas com problemas familiares podiam ficar em creches. Os custos se baseavam na renda familiar, porém mais da metade dos jovens recebiam cuidados e ali-mentação gratuitos. Órfãos e crianças abandonadas pelas famílias eram incluídos nos assim chamados

Kinderübernahms-tellen, sob salvaguarda especial do município. Delinquentes

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dos em ideias socialistas tradicionais, mas nas ideias do assim chamado Jugendbewegung ou movimento da juventude da

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como Anna Freud, Charlotte e Karl Bühler, Alfred Adler, que representavam – embora de uma maneira diferente e alta-mente controversa – o que foi chamado de fortaleza da psi-cologia vienense. Todos eles cooperavam intensamente com o conselho educacional da Viena Vermelha e dirigiam a edu-cação dos professores no instituto pedagógico municipal.

As despesas com programas sociais e habitacionais eram custeadas quase exclusivamente pela receita fiscal de Viena. O modo como a cidade organizava as receitas ainda parece ter um impacto sobre os desafios para uma política urbana radical nos dias de hoje.

Antes de 1914, as receitas da cidade de Viena eram baseadas na suplementação dos tributos estaduais indire-tos e nas receitas de empresas municipais, como as compa-nhias de água e energia. Os dois pilares da receita tributária foram os aumentos dos aluguéis e os impostos sobre alimen-tos. Eles representavam um fardo desproporcional para a população mais pobre. No entanto, a Viena Vermelha desenvolveu um novo sistema tributário que aliviou a pres-são financeira dos gastos com necessidades diárias e one-rou o consumo de artigos de luxo como também as rendas mais altas. A cidade introduziu até mesmo novos tributos, como o imposto predial, que eram reservados para despesas sociais. Por outro lado, as tarifas de companhias municipais não deviam se basear em lucro, mas tinham de atender a demanda. A fim de facilitar a compreensão desse sistema, explicaremos brevemente alguns tipos de tributos, como:

•฀O novo tributo de bem-estar social ou Fürsorgeabgabe:

companhias industriais e comerciais tinham de pagar 4% dos salários como tributo de bem-estar social para a cidade.

•฀O novo Lustbarkeitsabgabe (taxação de espetáculos):

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tos de puro entretenimento tinham de pagar uma média de 20% da arrecadação da bilheteria. Quan-to mais tarde começavam os evenQuan-tos, maior era o aumento do tributo, como também era o caso onde se servia bebida alcoólica.

•฀O novo imposto sobre alimentos e bebidas ou

Nahrungs- und Genußmittelabgabe: bares, cabarés,

variétés e restaurantes que haviam sido identificados

como companhias de luxo por causa da clientela burguesa tinham de pagar 15% de suas vendas de alimentos e bebidas.

•฀Taxação sobre empregados domésticos ou

Hauspersonalabgabe: o emprego de quaisquer

traba-lhadores domésticos particulares era onerado com um pesado imposto progressivo.

•฀Impostos sobre apostas ou Wett-Steuer: uma sobretaxa

de 60% dos tributos estaduais sobre vendas e lucros relativos a apostas (como corridas de cavalos e outros eventos esportivos).

Esses novos tributos foram usados exclusivamente para financiar gastos com bem-estar social. No entanto, foi de suprema importância o assim chamado

•฀ Tributo predial ou Wohnbausteuer: onerava os aluguéis

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O “tributo predial” não era lançado sobre a renda do proprietário, mas no aluguel da propriedade, com uma acentuada gradação de 2 a 37% de acordo com o tamanho do apartamento ou espaço comercial alugado. Isso signi-ficava que inquilinos de apartamentos ou lojas pequenos, que representavam 86% dos aluguéis da cidade, pagavam apenas 23,6% do tributo total coletado. Os inquilinos das maiores e mais luxuosas residências e estabelecimentos, que constituíam menos de 0,5% da propriedade alugada da cidade, pagavam 41,7% do tributo. Desse modo, o ônus do

Wohnbausteuer, cujo total de receitas era reservado para as

novas habitações sociais, era posto sobre os ricos.

O imposto predial fornecia aproximadamente 10% da receita total da cidade. Os tributos de bem-estar social representavam quase 15%. Para financiar o ambicioso pro-grama municipal, era obviamente necessário contar com outros recursos. Entre esses recursos estavam as parcelas dos impostos estaduais transferidas à cidade. Essas parce-las eram ligeiramente superiores à soma dos autônomos tributos de bem-estar social e predial. Vale mencionar esse fator porque uma redução nas transferências de impostos estaduais para Viena, iniciada em 1930, mergulhou a habi-tação social numa verdadeira crise. Ao mesmo tempo, esse fato nos faz perguntar como o experimento da Viena Ver-melha foi institucionalizado.

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social-democrata. O partido católico conservador, que a par-tir de 1920 passa a governar a recém-fundada República da Áustria, pediu a separação de Viena da Baixa Áustria, em nome dos camponeses e de sua clientela pequeno-burguesa.

Viena obteve uma base constitucional única. Era uma municipalidade e uma província ao mesmo tempo. De acor-do com a constituição federal da Áustria, os nove estaacor-dos federais e as municipalidades locais participavam da arre-cadação tributária do Estado federal da Áustria. Receitas, como os impostos de renda, eram divididas entre o Estado, as províncias e as municipalidades onde foram originalmen-te arrecadadas, na proporção de 50 para 25 e 25 respecti-vamente. A cidade de Viena se beneficiou desse esquema, pois recebia duas cotas tributárias: como província federal e como municipalidade. Embora Viena cobrisse menos de um terço da população total da Áustria, sua parcela dos tri-butos federais era de 50%. Além disso, estava autorizada a cobrar impostos de modo autônomo. Isso foi um pré-requi-sito para a introdução do tributo predial descrito acima.

Não é de surpreender que a questão tributária tenha sido um ponto de disputa constante na política austríaca, e temos de reconhecer que a genuína posição de Viena dependia dos desenvolvimentos no nível da política federal. Em 1931, sob pressão de uma aliança conservadora fascista, os social-democratas concordaram com uma emenda cons-titucional que reduzia a participação de Viena na arrecada-ção federal de 50% para 30%. Isso ocorreu bem na época em que o desemprego acelerado diminuía a receita fiscal federal como também a renda tributária autônoma de Vie-na. Nesse ponto, a Viena Vermelha foi obrigada a interrom-per o programa habitacional municipal e simplesmente ter-minar a construção de moradias em andamento.

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plo, no campo de serviços funerários e propaganda pública. A construtora municipal recém-criada, Gesiba, se destinava a construir os assentamentos e os conjuntos habitacionais municipais, seguindo, portanto, as diretrizes do governo municipal e mantendo métodos tradicionais de construção para estimular o mercado de trabalho. No entanto, houve uma mudança drástica na política de empreendimentos municipais. Eles eram obrigados a cobrir custos, não a fazer lucro. A provisão de serviços municipais devia ser acessível a qualquer um ao menor custo possível. Desse modo, se nos limitarmos apenas à consideração da política municipal, veremos que a Viena Vermelha guarda alguma semelhança com conceitos de esquerda da assim chamada cidade fordis-ta que pipocaram pela Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Os sociais-democratas costumavam empregar dois termos diferentes, dependendo de quem era o destinatá-rio de sua propaganda: de um lado, falavam sobre a Viena Vermelha quando se dirigiam ao seu próprio eleitorado e à esfera pública internacional do trabalho. De outro, ao pro-mover a cidade de Viena para o público internacional mais amplo, a administração social-democrata falava da “Nova Viena”, dando ênfase a novas técnicas de governo.

O que, afinal, fez da Viena Vermelha uma das referên-cias na política socialista do entreguerras? Em nenhum outro lugar a cidade e a classe trabalhadora demonstravam tão alto grau de entrelaçamento de atividades, nem se via uma densidade de filiação ao partido socialista tão forte como na Viena Vermelha. Vale a pena, portanto, reexami-nar alguns fatos e números para torreexami-nar mais transparente essa constelação única.

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e servidores públicos somavam cerca de 25%. Das pesso-as economicamente ativpesso-as, 16% eram empresários e 5,2% trabalhavam em serviços domésticos (infelizmente não há dados sobre a relevância do trabalho feminino em domicí-lios particulares). Quando observamos os detalhes, perce-bemos que a maior parte da classe trabalhadora encontrava ocupação em pequenas companhias e lojas. O tipo indus-trial de companhia nunca obteve grande significância, com exceção de algumas empresas de larga escala como a multinacional eletrotécnica Siemens. Pequenas lojas, tra-balhos artesanais, serviços e transportes desempenhavam um papel significativo no mercado de trabalho. Negócios e serviços empregavam mais de um terço da força de tra-balho; o setor têxtil, focado na indústria modista, ocupava a maior parte da força de trabalho industrial, como tam-bém os setores de alimentos, bebidas e tabaco. Para dar um exemplo mais detalhado: hotéis, cafés e restaurantes, dependentes do turismo, absorviam 5% dos empregos disponíveis. Nos negócios comerciais, temos de imaginar uma estrutura em pequena escala semelhante. A produção de roupas e sapatos reivindicava cerca de 15% da força de trabalho, com a média de 3 a 4 trabalhadores empregados por estabelecimento. Em comparação com o restante do país, ficava claro que era desproporcional a quantidade de trabalhadores vienenses em ocupações especializadas, como também em serviços pessoais como a assistência em saúde. Nas ocupações dos ramos metálico e de carpintaria, a atividade se concentrava em profissões altamente espe-cializadas como fabricantes de instrumentos. Tipógrafos e marceneiros representavam grupos centrais da força de trabalho da cidade, em decorrência do papel histórico de Viena como um lugar de produção de artigos de luxo e confeccionados por artífices.

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Como Helmut Gruber disse nas linhas introdutórias de seu influente livro sobre a Viena Vermelha:

Se os projetos culturais do partido social-democrata tivessem se limitado ao programa socialista municipal em Viena, isso teria sido uma proeza única em e por si mesma. Embora reformas sociais semelhantes tenham sido executadas sob iniciativa socialista em Berlim, Frankfurt, Hannover, Bruxelas, Paris, Lyon, Londres, Estocolmo e outras cidades importantes, em nenhum outro lugar os socialistas aspiraram a um objetivo tão abrangente de transformar o ambiente municipal ou conseguiram dar tantos passos iniciais para sua realização como em Viena. Mas os socialistas foram ainda mais audaciosos. O sucesso na reforma municipal os encorajou a empreender a mais vasta transformação cultural da vida dos trabalhadores, implícita em sua perspectiva austromarxista. Afinal de contas, uma “revolução na alma humana” implicava uma sondagem nos recônditos da vida na esfera privada – uma expansão da noção da cultura para abarcar a vida total dos trabalhadores, desde a arena política e o local de trabalho até os cenários mais pessoais e íntimos (Gruber, 1991).

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Os ritos de passagem tinham de afetar diretamente os apoiadores socialistas de várias maneiras. A estrutura artística era garantida pelos diversos grupos corais, que apresentavam um programa mesclado de canções do classicismo e romantismo alemães e canções operárias. Grupos teatrais recitavam poesias do movimento de liber-dade democrático alemão. Grupos de várias organizações profissionais, como a dos ferroviários, entoavam hinos e versões reduzidas do repertório da música clássica demo-crático-revolucionária. De modo semelhante ao rito cató-lico, o principal discurso político ou, em termos do servi-ço religioso cristão, a leitura apresentada por uma pessoa proeminente da liderança partidária representavam a culminação dos eventos. A organização profissional dos festivais e celebrações cresceu ao longo dos anos. Havia desfiles da milícia do partido em uniformes e manifesta-ções em massa das diversas organizamanifesta-ções esportivas em seus trajes para tornar radicalmente visíveis a força e o poder do movimento.

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Por ocasião dos festivais, as diversas organizações podiam se concentrar em atividades que normalmente eram consideradas banais. Festivais e cerimônias produ-ziam uma síntese de atividades geralmente desarticuladas e definiam um objetivo mais elevado para as atividades de voluntários em clubes de trabalhadores, ou seja: contribuir para a visibilidade desse impressionante movimento social mesmo com meios modestos. No âmbito das atividades dos clubes, o partido recrutava um exército de funcionários e ativistas que estavam em contato constante com as organiza-ções centrais e envolvidos numa ampla rede de publicaorganiza-ções socialistas. Mesmo quando se interessavam apenas por pas-satempos, os membros dos clubes podiam imaginar como contribuir para a identidade do movimento socialista. A diversidade dentro desta rede cultural não pode ser apro-priadamente expressa senão pelo catálogo de organizações. Elas eram realizadas principalmente no nível do distrito.

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cotidiana. Mas onde esse autêntico “fora” humano pode ser encontrado? A ideia genuína de Adler consistia na extensão da filosofia de Immanuel Kant. Tomando o esquema kantia-no do a priori, que definia os princípios dados da razão para

perceber as leis naturais, Adler foi mais longe ao aplicar um princípio similar da razão para a área social. O que ele cha-mou de a priori social, ou a capacidade intelectual dada para

conceber padrões solidários como estruturas formativas da vida humana, devia orientar os avanços no conhecimento das regras da sociedade. “Homens novos” nasciam da disse-minação desse conhecimento, não da experiência cotidiana ou da luta de classes. O movimento socialista e a reforma social tinham de preservar a estrutura para que razão se tor-nasse autorreflexiva, de modo que era importante a luta por segurança social e por mais tempo livre. Mas eles eram ape-nas meios para permitir aos intelectuais socialistas espalhar suas ideias dentro do movimento por meios educativos. Os clubes eram o terreno natural para esse tipo de educação. Para citar Helmut Gruber mais uma vez:

Embora o tom exortativo [no livro de Adler] fosse claro, Adler não disse quase nada sobre traduzir esses aforismos vagos em trabalho cultural prático, salvo que o proletariado não podia aprender com sua própria experiência e tinha de renegar interesses materiais e profissionais no esforço para alcançar o objetivo socialista. O guia mais certo para isso, ele conclui, poderia ser encontrado nos livros dos grandes mestres socialistas, bem como nos clássicos da filosofia alemã, juntamente com a ciência natural, a história e as leis econômicas do processo social.

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clubes de cremação, os coros de trabalhadores e os clubes de ginástica, por outro lado, eram arraigados numa longa tradição, que remonta aos tempos áureos do liberalismo democrático progressivo. Os Amigos das Crianças e Colo-nos correspondiam ao movimento de reforma da vida boêmia do fin-de-siècle. Colecionadores de selos, clubes de

esperanto, ativistas dos direitos dos animais e jogadores de xadrez respondiam ao desejo de organizar cada interesse particular segundo as linhas do partido, já que depois da revolução de 1918-1919 a sociedade tinha se dividido em um campo socialista e um campo burguês. Ciclistas e clubes desportivos de atletismo estavam vinculados a determinados grupos profissionais, como de tipógrafos e trabalhadores do transporte, pelo menos em seu início. Em vista disso tudo, não podemos dizer que os clubes compartilhavam um con-ceito estrito e unificado. Eles refletiam a diversidade na cul-tura moderna e apresentavam por si mesmos uma imagem multiforme da classe trabalhadora, que dependia de crité-rios sociológicos como idade, gênero, ocupação e singula-ridades históricas. Os clubes desportivos eram o domínio dos rapazes socialistas, enquanto antigos clubes de ginastas masculinos foram amplamente abertos para as mulheres após a guerra. O radioclube, por exemplo, foi fundado por veteranos da Primeira Guerra Mundial que serviram como técnicos e operadores de rádio, enquanto os clubes de fute-bol tornaram-se populares nos conselhos revolucionários de soldados em 1919. Cineclubes, cabaré político e Ato-res Vermelhos repAto-resentavam intelectuais com maior grau de organização e estavam inclinados à arte de vanguarda, enquanto o movimento de assentamento atraía trabalhado-res expostos a alto risco de desemprego, bem como oficiais de baixa patente e funcionários públicos prejudicados pela dissolução do exército e da burocracia imperiais.

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ajudou a gerar diferentes gostos e hábitos. Vejamos, por exemplo, o esporte. Jogar futebol era algo predominante-mente da classe trabalhadora, assim como o handebol e as artes marciais orientais, com sua exigência de autocontrole e equidade. Mas esgrima, patinagem, dança, automobilismo eram da classe média. Desse modo, no crescente campo de esportes e jogos, poderíamos facilmente reconhecer o que Pierre Bourdieu chamou de competição do “capital simbó-lico”. Os clubes desportivos de trabalhadores se opunham fortemente à introdução do profissionalismo e do esporte para público pagante, alegando que isso era uma forma de colonização capitalista do tempo livre. Os clubes de futebol dos trabalhadores, por exemplo, jogavam em sua própria liga, em paralelo à liga profissional estabelecida em 1922.

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Abolicionistas, livres-pensadores, os clubes de crema-ção, que foram fundados cerca de vinte anos mais tarde, eram parte do que é chamado iluminismo tardio de Vie-na. Iluminismo tardio significa o movimento intelectual que lutou contra as prerrogativas da Igreja e do Estado. A sociedade civil deveria ser baseada no progresso cientí-fico e no discernimento, sendo a ciência concebida como fornecedora de verdade objetiva e atemporal. Certa ambi-valência caracterizava o iluminismo tardio, pois a busca de um único princípio guia na natureza e na sociedade produzia respostas simples para constelações complexas. Assim, por exemplo, “raça” se tornou um dogma de ilumi-nistas tardios para legitimar movimentos radicais. Sistemas morais conservadores e a legislação matrimonial foram atacados como contraditórios às leis darwinianas de repro-dução dos mais aptos. A reforma social era justificada pela extensão das leis econômicas de produtividade para a sociedade, propondo tratar as pessoas como um empre-endimento econômico. Os investimentos em educação e segurança social deviam ser calculados de acordo com a capacidade de indivíduos.

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Essa gama de clubes também não compartilhava um método uniforme, embora compartilhasse alguns valores comuns. Clubes socialistas serviram a milhares de ativistas que muitas vezes atravessavam as linhas do partido, dos clu-bes e dos sindicatos. Ao organizar atividades de lazer, infor-mando e moldando o gosto baseado em classes, os clubes geravam uma forte identidade socialista. Além disso, embo-ra coopeembo-rassem com intelectuais públicos (como no caso dos clubes do “iluminismo tardio”), os clubes socialistas contribuíram substancialmente para a hegemonia austro-marxista na Viena Vermelha. A vida nos clubes inspirou até mesmo o trabalho de jovens arquitetos progressistas, pois dirigiu seus objetivos para a criação de espaços propícios à atividade comunitária, um aspecto tão difícil de integrar no planejamento. Para citar Margarete Schütte-Lihotzky, inventora da mundialmente famosa “cozinha de Frankfurt”, ao comentar sua decepção ao sair de Viena para Frankfurt: a vida em Viena, escreveu ela, estava carregada com ativis-mo político e um sentido de utopia social. Nem mesativis-mo um arquiteto podia ignorar a predominância da questão social e a importância das classes. Em Frankfurt, acrescentou ela, a reforma municipal foi promovida por tecnocratas bastan-te talentosos, mas não inspirados. O motivo para isso pode ser encontrado nas redes de agentes que fizeram a Viena Vermelha, uma rede formada por militantes partidários, ativistas de clubes, profissionais e intelectuais, ligados pela semântica particular do austromarxismo.

Siegfried Mattl

é professor do Instituto de História da Universidade de Viena.

Referências bibliográficas

GRUBER, H. 1991. Red Vienna: experiment in working class culture,

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O CASO DA VIENA VERMELHA

SIEGFRIED MATTL

Resumo: O artigo apresenta uma análise da experiência democrática realizada na cidade de Viena entre os anos de 1919-1934. O experimento conhecido como Viena Verme-lha, fundado com grande participação popular (em espe-cial, das massas operárias organizadas fortemente pelo Partido Social Democrático Austríaco) sob a liderança do marxista austríaco Otto Bauer, realizou transformações urbanas, por meio de maciça política habitacional de amplo sentido democrático. Seguiram-se inovações pedagógicas, sanitárias, organizacionais, como a formação de conselhos de cidadãos que atuavam em espaços públicos, construídos

para a deliberação sobre as questões públicas e para defini-ção de políticas de gestão da cidade. A transformadefini-ção políti-ca e democrátipolíti-ca gerada nesse processo foi profunda, resul-tando na metamorfose da cidade de Viena de aristocrática em uma cidade de forte cultura democrática. O autor atri-bui tal experiência, admirada e imitada em todo mundo, como o maior trunfo do chamado austro-marxismo.

Palavras-Chave: Viena Vermelha; Cidade Democrática; Austro--marxismo; Partido Social Democrático Austríaco; Demo-cracia de Conselhos.

THE CASE OF RED VIENNA

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innovations, as the formation of councils of citizens who act in public spaces, which was built for public deliberation about issues and for definition of policies to city management. The political and democratic transformation generated in this process was profound, resulting in the metamorphosis of the city of Vienna from an aristocratic city to one with a strong democratic culture. The author attributes this experience, admired and emulated around the world, as the greatest trump of the so called Austro-Marxism.

Referências

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