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O exercício da docência e a preservação da saúde mental do professor: um estudo a partir de suas condições de trabalho e existência

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Academic year: 2017

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS MESTRADO EM PSICOLOGIA

Valéria Maria da Conceição Mota

O exercício da docência e a preservação da saúde mental do professor: um estudo a partir de suas condições de trabalho e existência

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Valéria Maria da Conceição Mota

O exercício da docência e a preservação da saúde mental do professor: um estudo a partir de suas condições de trabalho e existência

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre.

Área de Concentração: Psicologia Social Linha de pesquisa: Trabalho, saúde e sociabilidade.

Orientadora: Profª. Dra. Maria Elizabeth Antunes Lima

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150 Mota, Valéria Maria da Conceição

M917e

O exercício da docência e a preservação da saúde mental do

2011 professor [manuscrito] : um estudo a partir de suas condições de

Trabalho e existência / Valéria Maria da Conceição Mota.-2011.

131 f.

Orientadora: Maria Elizabeth Antunes Lima.

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Minas

Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

.

1. Psicologia - Teses. 2. Saúde - Teses 3. Trabalho – Teses.4.

Professores – Teses. I. Lima, Maria Elizabeth Antunes. II.

(4)

O homem é são na medida em que é normativo em relação às flutuações de seu meio.

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Agradecimentos

Aos meus pais, que acreditaram em mim, me incentivaram e me compreenderam nos momentos de inquietude.

Ao meu irmão André, que me acolheu com a palavra certa nas minhas incertezas. A Profª. Draª. Maria Elizabeth Antunes Lima, minha orientadora nesse trabalho, pela generosidade, disposição em ajudar-me e pelos ensinamentos importantes no curso e na minha vida profissional.

Aos docentes, que, generosamente, colaboraram com a realização dessa pesquisa e dispuseram o seu tempo, gentilmente, cedendo suas experiências e relatos, permitindo-me conhecer um pouco mais do seu trabalho.

Aos Professores Antônia Vitória Soares Aranha e Wanderley Codo, por aceitarem o convite para serem membros da banca e pelas valiosas contribuições a esse estudo.

Ao Colegiado da Pós-Graduação em Psicologia da UFMG, pela oportunidade de cursar e concluir o Mestrado.

Aos funcionários da Secretaria do Colegiado de Pós-Graduação em Psicologia, pelo auxílio no decorrer do curso.

À Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Ensino Superior – CAPES, pela concessão da bolsa.

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Resumo

A presente pesquisa teve o propósito inicial de investigar possíveis relações entre as condições do trabalho docente e o adoecimento mental dos professores. Seu ponto de partida foi um levantamento de cunho epidemiológico realizado em prontuários de pacientes do Hospital Espírita André Luiz. Os resultados desse levantamento apontavam para uma possível relação entre o trabalho docente e o adoecimento mental. Em um segundo momento, foi realizado um estudo de caso em uma escola municipal de Belo Horizonte, visando não apenas conhecer uma experiência bem-sucedida, como aprofundar no conhecimento a respeito das causas do alto índice de adoecimento verificado nessa categoria profissional. Na segunda etapa, foram utilizados observações clínicas do trabalho e o método biográfico proposto por Louis Le Guillant (2006). Os resultados apontam que a preservação da saúde do professor depende da associação entre suas características individuais e uma determinada forma de organização do trabalho que lhe permita criar formas inovadoras de realizar o seu trabalho a partir dos meios disponíveis e estabelecer trocas de experiências com seus pares.

Palavras-chave: saúde, trabalho, experiências, professores.

Abstract

The initial aim of the current work was the investigation of the possible relations between the conditions of teaching and teachers' mental illness. Its starting point was an analysis based on epidemiologic data from the patients of the André Luiz Hospital. The results of this research suggested the possibility of the relationship between the teaching conditions and teachers' mental illness pointed above. In a second step, we performed a case study in a municipal school in the city of Belo Horizonte, not only to know a successful experience, but also to go deeper on the knowledge about the causes of high rates of illness observed in this professional. In this stage, we used the clinical observations of the teachers’ work and the biographical method proposed by Louis Le Guillant (2006). The results indicate that preserving the teachers’ health depends on the association between individual characteristics and a particular way of work organization that allows the creation, from the available resources and the establishment of exchanges of experiences with their peers, of innovative ways to conduct their work.

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Lista de siglas

AVALIA BH Avaliação do Conhecimento Aprendido de Belo Horizonte

CID Código de Doenças

CNTE Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação

EJA Educação de Jovens e Adultos

HEAL Hospital Espírita André Luiz

IDEB Índice de Desenvolvimento da Educação básica

INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

MTE Ministério do Trabalho e Emprego PDDE Programa Dinheiro Direto na Escola PROALFA Programa de Avaliação da Alfabetização

RME/BH Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte SIMAVE Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública

SMED Secretaria Municipal de Educação

SIMPRO-MG Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais

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Sumário

Introdução 10

1 A abordagem metodológica 14

1.1 O método biográfico 17

1.2 Observações clínicas do trabalho 19

Capítulo I 22

1 A origem da pesquisa 22

1.1 A análise dos prontuários do HEAL 22

1.1.1 Análise descritiva dos prontuários do Hospital E. André Luiz 22

1.1.1.1 Principais resultados 25

1.1.2 Os professores na amostra do HEAL 28

1.1.2.1 Aspectos descritivos da população 28

1.1.2.2 Aspectos qualitativos da população 29

1.2 A história de Jandira 34

1.2.1 O trabalho como professora 35

1.2.2 A relação com o trabalho 36

1.2.3 O adoecimento 39

1.2.4 Os sintomas 41

1.2.5 A aposentadoria 42

1.2.6 Análise do caso 44

Capítulo II 49

2 O exercício da docência 49

2 1 O trabalho docente - breve histórico 49

2.2 Um trabalho a partir das interações entre pessoas 51 2.3 As pesquisas em torno do trabalho do professor 53

2.4 Outros estudos sobre a docência 59

Capítulo III 65

3 A escola EMBRA 65

3.1 O cotidiano da EMBRA 68

3.1.1 A coordenação pedagógica 70

3.1.2 A direção da escola 71

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3.1.4 A sala de aula 80

3.1.5 Algumas considerações sobre a escola 84

Capítulo IV 86

4 Caso clínico 86

4.1 A história de Cristina 86

4.1.1 O início da carreira profissional 86

4.1.2 A reação diante da Escola Plural 89

4.1.3 Mãe, esposa e professora 91

4.1.4 A escala de valores pessoais 93

4.1.5 As tarefas e o ambiente de trabalho 94

4.1.6 O comprometimento com o trabalho 97

4.1.7 Experimentar novos meios de trabalho 99

4.1.8 Respeitar e ser respeitada 100

4.1.9 O dado e o recebido no trabalho 103

4.1.10 A escola e o grupo de trabalho 105

4.1.11 Estratégias para preservar a saúde 108

4.2 Análise do caso 110

Capítulo V 119

5 Considerações finais 117

(11)

INTRODUÇÃO

Este estudo originou-se do nosso interesse em identificar evidências de possíveis nexos entre certos distúrbios mentais e o exercício da atividade do professor.

Em 2009, com o objetivo de validar a nossa participação na disciplina Saúde Mental e Trabalho, ministrada pela Drª. Maria Elizabeth Antunes Lima do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG, realizamos o estudo de caso de uma professora que, então, nos relatou o processo de seu adoecimento em decorrência de sua ocupação profissional. Sua descrição despertou nosso interesse por pesquisar as características do trabalho docente que contribuem para o adoecimento mental do professor.

Além disso, a análise descritiva dos dados coletados junto aos prontuários de pacientes do Hospital André Luiz (HEAL) que realizamos, na mesma ocasião, com o objetivo de identificar possíveis relações entre o adoecimento mental e o tipo de ocupação profissional exercida pelo sujeito revelou que a categoria dos professores é uma das que apresentavam considerável frequência de certos tipos de transtorno mental1, como apresentaremos adiante.

Apesar dessas evidências, nosso propósito inicial, que consistia em investigar possíveis relações entre as condições do trabalho docente e adoecimento mental dos professores, mudou para o enfoque de uma experiência bem-sucedida ocorrida em uma escola na qual o professor encontrara possibilidades efetivas de preservação da saúde. Consideramos que, por meio desse novo enfoque, poderíamos aprofundar não apenas as causas do adoecimento desses profissionais, mas também a compreensão dos fatores que permitem a preservação da saúde deles.

Assim, ao entrarmos em contato com o campo, observamos que as experiências bem-sucedidas em docência não são tão raras, embora ainda tenham pouca visibilidade. Apesar de estarem submetidos a condições de trabalho cada vez mais exigentes, sendo também pouco valorizados em termos financeiros, é possível encontrar profissionais em docência que permaneçam por longo período de tempo no exercício de suas atividades, sem adoecer.

1 Entre as cinco categorias profissionais com maior frequência na amostra do HEAL considerada, estão os servidores

(12)

Para o estudo dos processos saúde/doença relacionados ao trabalho, destacamos aqui a grande contribuição de Le Guillant (2006) um dos fundadores da Psiquiatria Social na França. Ele conseguiu perceber, por meio de suas investigações, que, nas diferentes formas de organização do trabalho de sua época, existiam fatores que poderiam ser relacionados com a incidência de alguns distúrbios mentais em certas categorias profissionais. Identificou também a relação entre as doenças mentais e as condições de vida, pois, quando observados em diferentes épocas da história, alguns distúrbios eram mais frequentes do que outros em determinadas populações.

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Outro fato que chamou a atenção de Le Guillant (2006) era uma espécie de imunidade psiquiátrica das pessoas oriundas do litoral da Bretanha e que se explicava justamente pelas diferenças profissionais e de estilo de vida entre pescadores e agricultores nascidos no interior dessa mesma região francesa, indicando que as diferenças nas condições de trabalho e de vida podem ter influência na incidência de distúrbios mentais.

Mas esta não constituirá a relação de causalidade simples e direta entre o adoecimento mental e as dificuldades vividas no trabalho. Recordemos que a proposta de Le Guillant (2006) era de uma psicopatologia social, que ultrapassasse um sociologismo que atribua somente aos fatores sociais, as causas de distúrbios tais como alcoolismo, criminalidade, alterações de caráter, delinquência entre jovens, atentados contra a própria vida, atos de violência contra terceiros, dentre outros. Os dados individuais não devem ser considerados em separado dos dados sociais, pois estão em contínua interação e transitividade. As condições do meio e os acontecimentos cotidianos têm um significado singular para cada indivíduo e, para que possamos apreender o papel das contradições sociais, é necessário conhecer bem as situações morais e materiais do presente e as experiências vivenciadas no passado pelo sujeito.

Em suas investigações, Le Guillant (2006) observou que algumas atividades profissionais constituíam fatores patogênicos indiscutíveis, mostrando que as predisposições do sujeito não eram capazes de explicar a eclosão de alguns distúrbios mentais em determinadas profissões:

Qualquer trabalho insere-se em um conjunto mais amplo de condições de vida, mais ou menos satisfatórias ou penosas, que podem ou não aumentar a fadiga que ele acarreta [...] o aspecto psicológico deste trabalho desempenha um papel considerável que aparece claramente em todos os estudos dedicados à psicologia do trabalho. No plano psicopatológico algumas situações parecem singularmente patogênicas. (LE GUILLANT, 2006, p. 72).

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apreensão das tensões existentes em grupos de pessoas que vivessem em condições semelhantes.

Enfim, Le Guillant (2006) considerava que uma psicopatologia objetiva só seria possível a partir do estudo das situações e acontecimentos vivenciados de forma concreta pelo sujeito e que os fatos deveriam ser abordados não somente em relação às suas implicações nas condições sociais mais gerais, mas também nas suas repercussões em nível individual.

Da mesma forma, os estudos em saúde mental e trabalho, desenvolvidos por Clot (2010), com o objetivo de compreender como o trabalho pode “cumprir o papel de operador da saúde” 2 são norteadores da nossa investigação.

Ao abordar a possível interseção entre o trabalho e o adoecimento mental, esse autor destaca que o trabalho perde o sentido para o homem quando não permite a realização das metas vitais que o sujeito extrai de todos os domínios de sua vida pessoal. Quando o trabalho leva o sujeito a duvidar de seu próprio valor, também os valores cultivados em todas as esferas de sua existência são atingidos, podendo favorecer ao adoecimento. Clot (2007) apoia-se em Canguilhem para concluir que ter saúde implica a possibilidade de obter certo domínio sobre as coisas, ou seja, depende da possibilidade de perceber-se na origem de certos fenômenos, de ser criador de normas, de ser responsável pelos seus próprios atos, de ter condições para criar relações na realidade objetiva que não poderiam ocorrer sem a intervenção do sujeito. Enfim, possuir autonomia sobre o seu fazer.

Além disso, para o autor, o trabalho é muito mais que uma reação do trabalhador às suas necessidades imediatas. Ele não é somente previsto pelos projetistas, pelas diretrizes e pelo enquadramento das prescrições. Ele é, sobretudo, organizado por aqueles que o realizam e é nessa possibilidade maior ou menor de organizar sua própria atividade que pode ocorrer o encontro ou a perda de sentido para o sujeito.

Por esse motivo, Clot (2006) aborda a questão do adoecimento no trabalho considerando que quando o destino da atividade no qual se está colocado já é conhecido previamente, temos uma organização de trabalho opressora, pois não permite ao sujeito a criação de possibilidades diversas daquelas que lhe são impostas. Para esse autor, nesse caso a atividade, pode ser considerada como impedida, uma atividade contrariada,

2 Palestra proferida durante o I Colóquio Internacional de Clínica da Atividade em Outubro de 2010, Universidade

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reprimida, pois “trata-se de uma amputação do poder de agir que proíbe os sujeitos de dispor de suas ações, que não os deixa transformar seu vivido em recurso de vivência de uma nova experiência.” (CLOT, 2006 p. 10).

Assim, as condições de trabalho que impedem a realização da atividade ou que impõem um enorme esforço para se realizar a tarefa da forma que se considera adequada podem contribuir para o adoecimento.

Clot (2006, p. 18) ressalta que “o trabalho só preenche sua função psicológica para o sujeito se lhe permite entrar num mundo social cujas regras sejam tais que ele possa ater-se a elas.” Caso contrário, o desenvolvimento da vida pessoal e social do sujeito, através de seu trabalho, estará comprometido.

1 A abordagem metodológica

O ponto de partida de nossa escolha metodológica consistiu na aproximação do docente para conhecermos sua atividade profissional. Essa etapa foi fundamental na medida em que nos permitiu compreender melhor o significado dos resultados estatísticos obtidos na primeira fase da pesquisa, conforme veremos mais adiante.

De acordo com Codo et alii (2002, p. 93) em um estudo sobre a docência, não podemos negligenciar o fato de que “quem faz a educação é o educador”. Assim, é importante considerarmos o dia a dia do professor em seu ambiente de trabalho. Para esse autor “qualquer debate, por mais profícuo, por mais ilustrado que seja, ou leva em conta as condições de trabalho na escola, as condições dos trabalhadores que o realizam, ou estará fadado a engordar as estantes de nossas bibliotecas apenas.” (CODO, 2002, p. 93).

Desse modo, como nossa proposta partiu da escolha de uma forma mais adequada de aproximação do objeto a ser pesquisado, foi necessário que obtivéssemos maior clareza sobre esse objeto, sobre os aspectos a serem considerados e sobre o tipo de informação que pretendíamos obter.

A questão sobre o método que nos permitiria a apreensão da realidade estudada tornou-se então, crucial, pois é a orientação teórica subjacente à investigação que deve direcionar essa escolha.

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que atribuem às atividades que realizam, as pressões psicológicas que sofrem para realizá-lo e como reagem a elas, consideramos importante contextualizar a atividade profissional e tentar compreendê-la em seus determinantes históricos, sociais, econômicos e culturais. Buscamos compreender mais amplamente as dimensões concretas da situação de trabalho e seus impactos sobre o indivíduo. Para isso, foi fundamental adequarmos o método ao nosso objeto de modo a obtermos maior aproximação da realidade.

Dentro da perspectiva adotada, consideramos importante dirigir nossa atenção ao objeto, tentando deixar de lado qualquer ideia preconcebida a seu respeito. O conhecimento sobre o objeto de estudo deve ser constituído a partir da compreensão de como ele se constitui e não dos pressupostos que o pesquisador tem a seu respeito. Lima se inspira em Chasin (1995) para concluir que

Só é possível falar de um método se este se basear no respeito à integridade ontológica das coisas e dos sujeitos, oferecendo apenas uma indicação genérica dos passos da atividade mental da escavação das coisas e alcançando o máximo de autonomia em relação àquilo que pretendemos examinar. (LIMA, 2002, p. 3).

A partir desses parâmetros, a escolha do método para a investigação a que nos propusemos foi norteada pela questão: qual abordagem facilitaria a apreensão do objeto de maneira mais adequada? Desse modo, nossa opção foi pela abordagem multidimensional, proposta por Louis Le Guillant (2006), segundo a qual todas as perspectivas possíveis a respeito do objeto devem ser investigadas, desde que seja respeitada sua integridade ontológica.

Assim, um levantamento inicial de cunho epidemiológico nos direcionou para a elaboração de um estudo qualitativo que complementasse seus resultados numéricos. Os dados quantitativos revelaram indícios de possíveis nexos entre o trabalho docente e o adoecimento mental do professor e nos despertaram para a necessidade de acompanharmos o cotidiano de uma escola municipal de Belo Horizonte, de conhecer o dia a dia do trabalho docente.

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144), expõe, assim, a ideia de que, numa investigação multidimensional, os dados estatísticos nos remetem aos dados coletados nas entrevistas e aos estudos de casos e que estes, por sua vez, nos fazem retornar aos resultados quantitativos permitindo sua elucidação.

Assim como Le Guillant (2006), pensamos não haver motivos para um dilema entre a pertinência das abordagens quantitativas ou qualitativas no estudo do adoecimento mental. Valendo-se de todos os instrumentos disponíveis para a busca de informações tais como questionários, entrevistas, observações, esse autor também recorreu aos sindicatos, aos serviços de saúde, aos setores de acompanhamento da medicina do trabalho nas empresas, aos livros técnicos e até mesmo aos romances literários. Ao estudar as domésticas, ele disse “a ajuda dos romancistas e poetas foi tão importante quanto a contribuição dos exames clínicos, questionários e números.” (LE GUILLANT, 2006, p. 245). Entretanto, em seus estudos sobre os impactos do meio e do trabalho na saúde mental, esse autor não desconsiderou os aspectos do universo subjetivo do indivíduo.

Para Lima (2010), baseando-se em Chasin, é impossível compreender os aspectos singulares do trabalho sem nos remeter ao coletivo, pois os indivíduos se comportam de modos diferentes durante o curso de suas vidas, conforme os tempos e lugares onde se encontram. O conhecimento efetivo sobre o homem não pode se restringir às leis gerais. A realidade expressa nas experiências individuais é reveladora do contexto de uma época e os estudos de caso são instrumentos que facilitam a apreensão de aspectos particulares da vida do sujeito que muito dizem da realidade do coletivo.

Conforme Vieira, Lima & Lima (2010) o estudo de caso individual permite a apreensão dos dados objetivos e subjetivos que se entrecruzam na experiência do sujeito. A obtenção do conhecimento objetivo é possível apenas quando o pesquisador propicia a articulação entre as análises quantitativas e qualitativas, de modo que não seja definida a prioridade de uma em relação à outra. Esses autores defendem uma reflexão constante sobre a realidade que se revela no decorrer da pesquisa.

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motivo, esses instrumentos foram fundamentais para complementarmos as informações obtidas nas observações clínicas.

Enfim, não ficamos limitados a um único recurso para coleta de dados em nossa investigação. Do caso clínico inicial que nos sugeriu a necessidade de estudarmos os possíveis nexos entre as formas de organização do trabalho docente e o adoecimento mental, passamos à análise dos prontuários do HEAL, cujos resultados revelaram indícios da importância de se pesquisar o adoecimento do professor. Para compreender essa questão, concluímos ser necessário conhecer uma experiência bem-sucedida, uma vez que esta permitiria ter acesso às duas faces do problema: o adoecimento e a preservação da saúde. Além disso, conforme veremos mais adiante, a maioria dos estudos tem como objeto apenas o adoecimento dos docentes, o que por si só justifica nosso duplo enfoque.

Para ampliarmos a compreensão sobre o trabalho, docente optamos por não seguir uma trajetória linear em relação aos dados coletados. Sempre que julgamos ser pertinente, retornamos aos dados quantitativos antes de prosseguirmos a busca dos aspectos qualitativos. Entendemos que nossa investigação não seria bem realizada se não tivéssemos a disposição de retornarmos aos dados obtidos sempre que necessário, procurando assim verificar a sua validade a partir do que a realidade concreta nos apresentava.

1.1 O método biográfico

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material recolhido de forma a privilegiar os aspectos que considera fundamentais para atingir os objetivos de sua pesquisa.

Consideramos oportuno lembrar aqui o caso Marie L, no qual o autor expôs como as experiências de vida da paciente se articulavam com seu adoecimento, revelando, então, a relação existente entre os acontecimentos importantes de sua vida pessoal e a eclosão ou intensificação dos sintomas apresentados por ela. Conforme palavras de Le Guillant,

Para descrevê-la, utilizei, propositalmente, na medida do possível, as próprias expressões da paciente, anotadas ao pé da letra. Esta linguagem popular, fruto de uma experiência individual e coletiva, direta e insubstituível, parece-me ser mais adequada do que outra descrição que viesse a ser feita do exterior ou em termos mais científicos suscetíveis de evocar a realidade, para tornar perceptíveis os aspectos sensíveis de situações que escapam sempre, em parte, àqueles que não as vivenciaram. Assim, em meu entender, tal linguagem é a forma mais adaptada a um estudo objetivo das condições de vida de nossas pacientes. (LE GUILLANT, p. 332).

Para Lima (2006), a proposta de Le Guillant (2006), a partir do método biográfico, é a de tentar “estabelecer possibilidades de compreensão e de intervenção no plano de conhecimento prático do homem, da história dos pacientes e de suas condições concretas de existência”. Desse modo, as condições sociais, culturais, econômicas e ideológicas, presentes na história em que o sujeito se encontra inserido, devem ser compreendidas de forma integrada à sua vida pessoal.

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É preciso que estejamos atentos aos mediadores que se instalam entre os dados do cotidiano do indivíduo e os aspectos ligados à sua subjetividade. Assim, quando privilegiamos o método biográfico para conhecermos as condições de trabalho e existência do professor, devemos estar atentos à cronologia dos acontecimentos em sua vida, aos seus hábitos cotidianos, aos dados referentes à sua educação e ao seu meio cultural, ao emprego de seu tempo, àquilo que ele privilegia em sua vida como sendo prioridade, sem nos esquecermos, entretanto, que os indivíduos são autores da própria história.

Desse modo, optamos por realizar entrevistas em profundidade com os sujeitos de nossa investigação baseando-nos no método biográfico concebido por Le Guillant (2006). O sujeito teve, então, oportunidade de expor sobre sua experiência profissional e suas experiências de vida, revelando como elas se entrelaçavam.

Conforme Lhuilier (2007), a narrativa da atividade e das experiências pessoais permite sua elaboração pelo sujeito que a descreve, pois, ao pensar sobre seu gesto e na tentativa de explicar os motivos de suas ações a um terceiro, o sujeito pode conseguir um entendimento sobre suas decisões.

As entrevistas foram realizadas de maneira livre e informal, com a intenção de coletar o maior número de informações possíveis sobre a história ocupacional, além de dados sobre a história pessoal do sujeito que, assim, teve a possibilidade de relatar situações conforme seu interesse e de acordo com a ordem cronológica que preferiu seguir. Em alguns momentos, realizamos intervenções apenas para lhe solicitar detalhes. Além disso, as entrevistas foram gravadas mediante autorização dos sujeitos e, posteriormente transcritas para facilitar uma fidedigna apreensão de seu relato.

1.2 Observações clínicas do trabalho

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operacional daquele estabelecimento de ensino. A oportunidade de entrar em contato com o trabalhador no ambiente escolar, nos possibilitou uma apreensão realista do contexto em que atualmente o trabalho docente se efetiva.

Essas observações foram utilizadas para facilitar nossa compreensão de como o professor realiza sua atividade no cotidiano, de quais são as dificuldades que encontra e de quais estratégias adota para enfrentá-las. O trabalhador é quem mais conhece sobre sua atividade profissional, e por isso, consideramos que seria importante estabelecer um contato direto com os sujeitos da pesquisa, valorizando seus depoimentos e suas opiniões espontâneas.

Para Lhuilier (2007), o recurso da observação clínica no estudo da atividade profissional pode facilitar a apreensão minuciosa da narrativa do sujeito a respeito de seu trabalho e daquilo que escapa à sua verbalização. Trata-se daquilo que o sujeito pretendia fazer e não foi possível, daquilo que gostaria de fazer e não lhe é permitido, daquilo que deveria realizar e que decidiu não fazer, enfim, daquilo que Clot (2006) denominou como o real da atividade. Nesse caso, as observações não devem ser realizadas à distância, pelo contrário, é necessário que o pesquisador esteja em contato direto com a situação observada. Estando o mais próximo possível da realidade concreta da atividade é possível coletar informações que são comunicadas por outros meios diferentes da fala do sujeito, ou seja, seus gestos, sua postura física, suas expressões faciais, suas exclamações e suas escolhas ou omissões diante das tarefas a realizar.

As observações clínicas e os estudos de caso, utilizados como recursos que se complementam na nossa investigação, possibilitaram o resgate da história profissional do professor, enriquecida com detalhes de sua experiência pessoal, revelando também que esses aspectos não se apresentam separadamente em sua vida.

(22)

No segundo capítulo, de um breve histórico da docência, passamos a uma reflexão sobre o trabalho do professor com pretensão de lançar luz sobre a posição que essa categoria profissional ocupa na sociedade atual. Prosseguindo em nossa exposição, apresentamos também uma revisão bibliográfica dos estudos sobre o trabalho docente que foram referências importantes em nossa investigação. Eles expõem as dificuldades presentes no cotidiano do professor bem como os possíveis nexos existentes entre as condições de trabalho adversas e o adoecimento mental desse profissional. Alguns desses estudos apresentam a síndrome de burnout como um dos principais transtornos mentais3 que atualmente estão associados ao trabalho do professor.

O terceiro capítulo consiste na apresentação do nosso campo de estudo, ou seja, a escola pública onde realizamos as observações sobre o trabalho do professor e onde também realizamos as entrevistas.

No quarto capítulo, passamos à apresentação do caso clínico de uma professora que sempre trabalhou com a educação e leciona, há mais de dez anos, na escola onde realizamos esse estudo. Apresentamos a análise desse caso considerando que a professora estudada conseguiu superar, em grande medida, as dificuldades que se apresentavam no seu cotidiano.

O quinto capítulo expõe nossas considerações finais, ou seja, uma análise global dos resultados, sendo proposta uma discussão sobre quais as alternativas possíveis para a realização do trabalho docente. Refletimos, a partir das teorias que nortearam essa investigação, sobre o papel da instituição escolar, do grupo de professores e da direção da escola, bem como da sociedade em geral, no sentido de colaborar na preservação da saúde mental dessa categoria profissional. Enfim, nesse capítulo destacamos nossas principais conclusões a partir deste estudo, propondo alternativas para alguns dos problemas identificados e expondo as questões que surgiram durante essa pesquisa que, a nosso ver, merecem atenção em investigações posteriores.

3 Conforme o capítulo X, do Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde do Ministério da Saúde do Brasil

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CAPÍTULO I

1 A origem da pesquisa

1.1 A análise dos prontuários do HEAL

A investigação que serviu de ponto de partida para nosso estudo foi realizada pelo Núcleo de Pesquisa em Saúde Mental e Trabalho da UFMG e coordenada pela profª. Maria Elizabeth Antunes Lima a partir da análise de 3.912 prontuários de pacientes de clínicas e hospitais psiquiátricos de Barbacena, MG, que revelou evidências significativas de possíveis nexos entre alguns distúrbios mentais e certas atividades profissionais4. Posteriormente, essa pesquisa teve continuidade por meio de um levantamento realizado nos prontuários do pacientes do Hospital Espírita André Luiz (HEAL). Esta etapa veio complementar os resultados obtidos na primeira investigação, uma vez que essa instituição atende a um perfil socioeconômico diferente dos contemplados na etapa anterior5.

Desse modo, nossa proposta inicial foi a de dar prosseguimento à primeira pesquisa elaborando a análise descritiva dos dados coletados junto aos prontuários de pacientes do HEAL para, em seguida, realizar um estudo qualitativo em torno da categoria de professores por ser uma das mais frequentes entre aquelas identificadas nos prontuários dessa instituição, além de apresentar grande diversidade de diagnósticos.

1.1.1 Análise descritiva dos prontuários do Hospital Espírita André Luiz

A primeira etapa de nossa pesquisa consistiu na análise de 516 prontuários de pacientes do Hospital Espírita André Luiz (HEAL). Esta é uma instituição hospitalar filantrópica com 38 anos de existência, localizada em Belo Horizonte, MG, que oferece serviços de diagnóstico, tratamento e reabilitação nos casos de distúrbios mentais.

4Ver Lima, M.E.A. (2004). A relação entre distúrbio mental e trabalho – evidências epidemiológicas recentes.In

Codo, W. (org.) O trabalho enlouquece? Um encontro entre a clínica e o trabalho. Petrópolis: Vozes.

5 Ressaltamos que os pacientes das clínicas e hospitais de Barbacena eram essencialmente oriundos do Sistema Único

(24)

O objetivo inicial da análise estatística foi caracterizar a amostra de 516 prontuários de pacientes do Hospital Espírita André Luiz - HEAL, a partir da descrição da porcentagem das principais variáveis que compõem essa base de dados. Com esse mapeamento, buscamos a identificação dos distúrbios mentais mais frequentes por categoria profissional na referida amostra. Os dados coletados nesses prontuários foram organizados conforme as seguintes variáveis: proporção de pacientes atendidos por filantropia, convênios; proporção de pacientes com atendimento particular, data de nascimento, cidade onde reside, naturalidade, sexo, estado civil, quantidade de filhos, pessoa com quem o paciente reside, escolaridade, idade de início da patologia, antecedentes na família, ocupação principal, outras atividades exercidas e idade de início da patologia.

O mapeamento estatístico que realizamos foi baseado em formulários preenchidos por funcionários da instituição. Por esse motivo, muitos itens foram desconsiderados e não foram respondidos, gerando a ausência de algumas informações. Desse modo, o cálculo das porcentagens foi realizado a partir das respostas válidas, ou seja, das respostas que atestavam a presença ou mesmo a ausência da variável.

O banco de dados analisado foi dividido em duas partes, sendo a primeira formada pelas variáveis relativas ao perfil do paciente e a segunda parte relativa aos sintomas.

Não há informações precisas da data de coleta e digitação dos dados, o que tornou pouco útil a data de nascimento dos pacientes, uma vez que não foi possível utilizá-la para estimar a idade dos pacientes na época do atendimento.

Com relação ao perfil dos pacientes, as variáveis com maior número de dados faltantes foram:

•Número de filhos, não informado para 65,1% (336) dos pacientes;

•Com quem o paciente residia, não foi informado para 33,1% (171) dos pacientes;

•Nível de escolaridade, não informado para 60,1% (310) dos pacientes;

•Idade no início da patologia, não informado para 40,6% dos pacientes;

•Presença de antecedentes da doença na família, não informado para 64,2% (331) dos

pacientes;

(25)

variáveis “número de filhos”, “nível de escolaridade”, “idade no início da patologia” e “presença de antecedentes na família”, sendo que 162 (31,4% do total) não apresentaram informações para a intercessão das variáveis “número de filhos”, “nível de escolaridade” e “presença de antecedentes na família”.

Os 336 pacientes que não tiveram o número de filhos informado são em sua grande maioria homens (70%); 64,3% (216) também não tiveram a escolaridade informada, 37,8% (127) não informaram com quem moram; e 65,8% (221) não informaram a presença de antecedentes da doença na família.

Entre os 251 pacientes que não tiveram a idade do início da patologia informada, 63,3% também não tiveram a presença de antecedentes na família e 57,4% não tiveram a escolaridade informada.

As variáveis relacionadas à modalidade de financiamento do atendimento tais como filantropia, convênio e atendimento particular, que isoladamente apresentam grande número de dados faltantes, foram agrupadas em uma nova variável denominada “tipo de atendimento”, sendo que, dessa forma, não verificamos informações de apenas 4 pacientes.

Desse modo, os pacientes, por vínculo de atendimento, estão assim distribuídos:

• 69 atendimentos por filantropia; • 297 por convênio;

• 142 atendimentos como particular; • 2 atendimentos por convênio e particular; • 1 atendimento por filantropia e convênio; • 1 atendimento por filantropia e particular.

A base de dados resultante dos prontuários do HEAL trouxe uma listagem prévia dos sintomas característicos das patologias que, então se apresentavam assinalados ou não, conforme sua presença ou ausência no diagnóstico do paciente. A partir de nossa análise, verificamos que dos 194 sintomas listados, 2,9% (15) não foram encontrados em nenhum paciente, e os demais foram identificados em pelo menos um paciente.

(26)

1.1.1.1 Principais resultados:

A partir da análise descritiva realizada nos 516 prontuários que compõem a amostra do HEAL, verificamos que entre os pacientes:

21,9% são servidores militares; 8,33% trabalham no comércio; 6,01% são escriturários; 5,81% são empresários; 5,43% são professores;

4,65% são profissionais da saúde com escolaridade superior; 4,07% são trabalhadores da construção civil.

As demais profissões apresentaram freqüências inferiores a 4%.

QUADRO 1

Ocupação principal dos pacientes

FEMININOMASCULINO NR

APOSENTADO 6 1,16 1,16 33,33 66,67 0,00

ARTISTA 8 1,55 2,71 37,50 50,00 12,50

AUTÔNOMO 17 3,29 6,01 58,82 41,18 0,00

COBRADOR DE

TRANSPORTE URBANO 3 0,58 6,59 33,33 66,67 0,00

COMÉRCIO 43 8,33 14,92 30,23 65,12 4,65

CONSTRUÇÃO CIVIL 21 4,07 18,99 0,00 100,00 0,00

EMPRESÁRIO 30 5,81 24,81 26,67 73,33 0,00

ESCRITURÁRIO 31 6,01 30,81 54,84 45,16 0,00

ESTUDANTE 5 0,97 31,78 40,00 60,00 0,00

INFORMÁTICA 7 1,36 33,14 28,57 71,43 0,00

MECÂNICO 12 2,33 35,47 0,00 100,00 0,00

METALÚRGICO 18 3,49 38,95 0,00 94,44 5,56

MOTORISTA 31 6,01 44,96 0,00 100,00 0,00

NR 2 0,39 45,35 0,00 50,00 50,00

OUTROS 32 6,20 51,55 31,25 68,75 0,00

PROFESSOR 28 5,43 56,98 82,14 17,86 0,00

SEGURANÇA 5 0,97 57,95 0,00 100,00 0,00

SERVIÇOS GERAIS 17 3,29 61,24 17,65 82,35 0,00

SERVIDOR MILITAR 113 21,90 83,14 3,54 95,58 0,88

SERVIDOR PÚBLICO 11 2,13 85,27 45,45 54,55 0,00

SUPERIOR DE HUMANAS 11 2,13 87,40 45,45 54,55 0,00

SUPERIOR DE SAÚDE 24 4,65 92,05 45,83 54,17 0,00

SUPERIOR EXATAS 16 3,10 95,16 31,25 68,75 0,00

TÉCNICO DE SAÚDE 11 2,13 97,29 72,73 27,27 0,00

TRABALHADOR RURAL 14 2,71 100,00 0,00 100,00 0,00

TOTAL 516 100,00 132 378 6

OCUPAÇÃO PRINCIPAL FREQUÊNCIA PERCENTUAL (%)

PERCENTUAL ACUMULADO

(%)

SEXO

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GRÁFICO 1 Distribuição da Ocupação Fonte: MOTA, V.M.C. & LIMA, M.E.A.

A análise quantitativa dos dados coletados também revelou que:

• 50% dos diagnósticos de transtornos mentais orgânicos (CID F0 a 9) são

apresentados pelos servidores militares;

• Os transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias

psicoativas (CID F10 a 19), esquizofrenia (CID F20 a 29), transtornos de humor (CID F30 a 39) e transtornos neuróticos (CID F40 a 49) foram diagnosticados em quase todos os tipos de ocupações, porém a maior frequência foi entre os servidores militares;

• Os dois casos de síndromes comportamentais associadas a disfunções

fisiológicas e a fatores físicos (CID F50 a 59) foram diagnosticados entre os professores e pacientes com curso superior na área da saúde;

• A classificação que corresponde às disfunções da personalidade do adulto (CID

F60 a 69) teve a maior proporção entre os servidores militares, embora esteja presente em quase todas as ocupações;

• Foram diagnosticados apenas dois casos de retardo mental (CID F70 a 79), um

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• Os professores e os pacientes com curso superior que trabalham na área de saúde

apresentaram maior diversidade de diagnósticos (transtornos mentais orgânicos, transtornos mentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas, transtornos psicóticos/esquizofrenias, transtornos de humor, neuroses e transtornos somatoformes, transtornos do comportamento associados aos fatores fisiológicos ou físicos, distorções da personalidade e do comportamento).

Na amostra do HEAL aqui considerada, destacamos que entre as cinco categorias que apresentam maior frequência e um percentual superior a 5% do total da amostra estão os servidores militares, os trabalhadores do comércio, os escriturários, os empresários e os professores6.

Os docentes apresentaram maior diversidade de diagnósticos conforme o CID-10 e representam 5,43% da amostra estudada. Estabelecendo uma comparação dessa categoria na nossa amostra com a população economicamente ativa (PEA) de Belo Horizonte, encontramos resultados que revelam que a amostra de professores do HEAL foi proporcionalmente maior que a PEA da região: os professores correspondem a 0,83% da PEA de Belo Horizonte, indicando que esses profissionais são, proporcionalmente, 6,5 vezes mais numerosos nessa amostra do que na PEA de Belo Horizonte.

Além disso, considerando que 96,4% dos professores de nossa amostra residem em Minas Gerais, verificamos que o número de docentes nesse Estado corresponde a 2,4% da PEA de Minas Gerais. Realizando uma comparação desse resultado com o número de 28 professores na amostra do HEAL, que significa 5,43% do total de 516 prontuários analisados, verificamos que o número de trabalhadores dessa categoria profissional é 2,3 vezes maior na amostra estudada do que na PEA de Minas Gerais.

Esses resultados nos pareceram ser indicadores importantes a respeito do caráter patogênico do trabalho do professor. Entretanto, somente os resultados estatísticos são insuficientes para obtermos conclusões consistentes a esse respeito. Uma reflexão mais

6Outras categorias profissionais que também emergiram nessa etapa de nosso estudo deverão ser objeto de

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detalhada sobre a atividade profissional do professor torna-se necessária para que possamos compreender o significado desses números.

1.1.2 Os professores na amostra do HEAL

1.1.2.1 Aspectos descritivos da população

Privilegiamos, em nosso estudo, os professores que trabalham no ensino fundamental7, pois representam 44% do total de docentes de Belo Horizonte conforme o Censo Educacional 2007. Apresentaremos a seguir os principais resultados quantitativos a respeito dos profissionais em docência na amostra do HEAL.

No total de 516 prontuários analisados, identificamos que 28 eram professores sendo que 10 foram atendidos por meio de convênio com a UNIMED (35,71%), 12 como paciente particular (42,86%), um por filantropia (3,57%) e os restantes foram atendidos por meio de diversos convênios (17,86%).

Quanto ao sexo, temos 23 mulheres e cinco homens. O sexo feminino corresponde a 82,1% do total de 28 docentes da amostra do HEAL, ou seja, a maioria.

A respeito do estado civil, entre os professores da referida amostra verificamos que 16 são casados, oito solteiros, três divorciados/desquitados e uma viúva, ou seja, a maioria (57,1 %) dos professores na amostra estudada é de casados.

Em relação à naturalidade verificamos que, entre os 28 professores, 25 (89,3%) são nascidos em Minas Gerais, enquanto três nasceram em cidades de outros Estados brasileiros. Entre os mineiros, sete são naturais de Belo Horizonte (28%) e os 18 restantes nasceram em diversas cidades de Minas Gerais (72%).

A média entre as idades dos docentes na amostra do HEAL é 47,64. A mediana é igual a 44 e a moda corresponde a 428. O intervalo entre as idades é de 30 a 82 anos.

7O ensino fundamental corresponde ao anteriormente chamado ensino de primeiro grau. As funções do professor

consistem em: desenvolver nos alunos a capacidade de comunicação e expressão, além de ministrar outros conhecimentos básicos para a formação do aluno tais como integração social e iniciação às ciências, transmitindo os conteúdos pertinentes de forma integrada no sentido de proporcionar aos discentes os princípios elementares de comunicação e instruí-los sobre os fundamentos básicos da conduta científica e social, conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Veja mais em http://www.mte.gov.br/empregador/CBO/procuracbo/conteudo

8A média entre as idades corresponde à soma de todas as idades da amostra dividida pelo número de parcelas desse

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Considerando o local de residência, temos que 11 professores de nossa amostra moram em Belo Horizonte e isso corresponde a 39,2% do total de 28 docentes. Verificamos também que 57,1% residem em outras cidades mineiras e 3,7% ou seja, um paciente apenas, mora em cidade do Estado da Bahia. Portanto, verificamos que 96,3% dos 28 professores da amostra do HEAL moram em Minas Gerais.

Não obtivemos informações precisas se são docentes de ensino superior, ensino médio, ensino fundamental ou pré-escola. Em apenas um caso existe a informação de que se trata de uma professora de escola primária. Além disso, os dados sobre a escolaridade desses profissionais não estão especificados em 71,4% dos casos e apenas 17,85% desses pacientes informaram que obtiveram escolaridade de 3° grau. Também não há informações se os profissionais com escolaridade superior têm pós-graduação ou capacitação para o ensino superior. Desse modo, tudo indica que, se há docentes do ensino superior, não são maioria nessa amostra.

1.1.2.2 Aspectos qualitativos da população

O banco de dados sobre o qual nos debruçamos apresentou um grande número de variáveis, entretanto, por ter sido originado a partir dos prontuários médicos, há muitas lacunas, mas isso não compromete os resultados de nossa investigação, pois consideramos somente os dados presentes para a análise dos aspectos qualitativos.

Em nossa análise privilegiamos o teste dos agrupamentos CID F10-19 (Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas), CID F30-39 (Transtornos do humor/afetivos) e CID F40-48 (Transtornos neuróticos, transtornos relacionados ao estresse e transtornos somatoformes), conforme o Código Internacional de Doenças (CID–10).

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Conforme o CID-10, os transtornos somatoformes (F45) caracterizam-se pela presença repetida de sintomas físicos, múltiplos, recorrentes e com duração variável no tempo, apesar de não se encontrarem uma base orgânica que justifique sua presença, sugerindo origem psicogênica. Nesse agrupamento encontramos também os transtornos de somatização (F45. 0), geralmente associados a uma alteração do comportamento social, interpessoal e familiar do sujeito.

Ressaltamos ainda que, entre os distúrbios que fazem parte do agrupamento CID F40-48, encontramos os transtornos de despersonalização (F48.1) que, conforme Codo (2002), estão entre os principais fatores que caracterizam a síndrome de burnout9.

Além disso, na análise epidemiológica dos prontuários de pacientes das clínicas e hospitais psiquiátricos de Barbacena, realizada por Lima (2004) foram identificados, entre os principais diagnósticos encontrados, os transtornos mentais relacionados ao uso do álcool e os transtornos de humor. Como nossa proposta consiste também em dar prosseguimento a essa investigação, justifica-se o nosso interesse em verificar como se apresentavam essas variáveis na nossa amostra.

Desse modo, ainda na primeira etapa de nosso estudo - que consistiu da análise do banco de dados com o objetivo de identificarmos as ocupações que apresentassem maiores chances de diagnósticos em distúrbios mentais, foram calculadas as chances para a ocorrência dos distúrbios relacionados ao uso de substâncias psicoativas (CID 10 a 19), aos distúrbios de humor (CID F 30 a 39) e aos transtornos somatoformes (CID 40 a 48). Comparando os indivíduos de uma dada ocupação com todos os demais indivíduos da amostra, tentamos identificar se pertencer à profissão considerada poderia revelar alguma relação com os diagnósticos identificados nos prontuários, conforme o Código Internacional de Doenças (CID -10).

Observamos que 82,1% (23 professores) apresentaram diagnósticos pertencentes ao agrupamento CID F30-39 e 28,6% (8 professores) apresentaram diagnósticos do agrupamento CID F40-49, reforçando o nosso interesse em estudar essa categoria profissional.

9Codo (2002) considera a síndrome de burnout como um transtorno mental caracterizado por uma atitude de

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Tabela 1 - Percentual de pacientes com diagnóstico por agrupamento conforme o CID 10 e por ocupação

F10-F19 F30-F39 F40-F49

APOSENTADO 0,0% 33,3% 0,0% ARTISTA 62,5% 37,5% 12,5% AUTÔNOMO 29,4% 52,9% 23,5% COBRADOR DE TRANSPORTE URBANO 0,0% 66,7% 0,0% COMÉRCIO 48,8% 53,5% 7,0% CONSTRUÇÃO CIVIL 71,4% 23,8% 9,5% EMPRESÁRIO 53,3% 40,0% 16,7% ESCRITURÁRIO 22,6% 41,9% 19,4% ESTUDANTE 20,0% 80,0% 0,0% INFORMÁTICA 28,6% 28,6% 28,6% MECÂNICO 41,7% 16,7% 16,7% METALÚRGICO 50,0% 44,4% 33,3% MOTORISTA 51,6% 25,8% 3,2% NR 0,0% 0,0% 0,0% OUTROS 40,6% 34,4% 9,4% PROFESSOR 10,7% 82,1% 28,6% SEGURANÇA 20,0% 60,0% 20,0% SERVIÇOS GERAIS 41,2% 5,9% 5,9% SERVIDOR MILITAR 50,4% 46,9% 22,1% SERVIDOR PÚBLICO 36,4% 45,5% 0,0% SUPERIOR DE HUMANAS 27,3% 81,8% 0,0% SUPERIOR DE SAÚDE 45,8% 58,3% 8,3% SUPERIOR EXATAS 37,5% 56,3% 6,3% TÉCNICO DE SAÚDE 36,4% 27,3% 27,3% TRABALHADOR RURAL 35,7% 28,6% 0,0%

Total 41,9% 44,2% 14,7%

Grupos de CID10 Ocupação

Ao realizarmos o teste qui-quadrado10 para a ocupação exercida e o CID F 30 a 39 verificamos que há associação entre essas variáveis, com p-valor indicando diferença

10 O teste qui-quadrado é um teste de hipóteses que se destina a comparar o valor da dispersão para duas

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significativa entre a frequência observada e a frequência esperada (p<0,001). Desse modo, calculamos o risco relativo11 (RR), comparando os professores com cada uma das outras categorias profissionais da amostra, a fim de identificar se o exercício da profissão tem relação com os diagnósticos do agrupamento CID F30-39. Os resultados do cálculo do risco relativo mostraram que os professores têm 77,17% de chances a mais de apresentar distúrbios com CID F 30 a 39 (transtornos de humor/afetivos) do que as outras categorias profissionais da amostra do HEAL.

Além disso, o teste qui-quadrado para ocupação e o CID F 40 a 49 revelou que também existe associação entre essas variáveis, com p-valor indicando diferença significativa entre a frequência observada e a frequência esperada (p<0,049). Desse modo, a partir do cálculo do risco relativo, observamos que os docentes apresentam 87,63% de chances a mais de serem diagnosticados com distúrbios que compõem o agrupamento CID F40 a 48 (transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o estresse e transtornos somatoformes). Vale ressaltar que, na amostra estudada, os professores não aparecem entre os profissonais que teriam chance significativa para os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas (CID F 10 a 19), apesar do teste de hipóteses ter revelado que existe associação entre as variáveis ocupação e CID 10 a 19 (p<0,003).

Os prontuários analisados também contêm informações a respeito dos principais sintomas apresentados pelos pacientes. Alguns desses sintomas podem ser destacados uma vez que são mais presentes em determinadas categorias profissionais.

Como nosso objetivo, nesse estudo, é conhecer o trabalho do professor, ressaltamos os sintomas cuja frequência é igual ou maior que 10% na amostra da categoria dos professores.

Verificamos, após análise do banco de dados, que 100% dos docentes de nossa amostra apresentaram sintomatologia de atenção dispersa, sugerindo indícios de alterações qualitativas na atividade mental dos sujeitos. Esses resultados também reforçam as evidências do caráter patogênico do trabalho em docência, conforme podemos verificar no quadro a seguir.

11Medida de associação que se baseia na observação de que nem todos os sujeitos têm a mesma probabilidade (risco)

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QUADRO 2

Frequência dos sintomas na amostra

Sintoma Frequencia

Alterações de humor 10,13%

Ansiedade 22,20%

Atenção dispersa 100,00%

Atos compulsivos 16,67%

Delírios de grandeza 11,76% Desadaptado

sócio-afetivo-emocional

12,50%

Desmaios 18,18%

Desorientado emocionalmente 10,00%

Despersonalização 14,29%

Discurso acelerado 22,22%

Discurso pobre 16,67%

Hipotimia 33,33%

Impaciência 16,67%

Impulsividade 10,00%

Incoerente 25%

Insegurança 33,33%

Libido exacerbada 12,50%

Idéias negativas 11,11%

Pensamento acelerado 16,67% Pensamento lentificado 20%

Poliqueixoso 33,33%

Prolixo 50%

Quadro psicotiforme 14,29%

Repetitivo 25,00%

Sentimentos de culpa 11,11%

Timidez 14,29%

Traços neuróticos 11,11%

Fonte: MOTA, V.M.C. & LIMA, M.E.A.

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acometida por uma grave disfonia12 que, evidentemente, causava muitas dificuldades em sua vida profissional e pessoal. A aposentadoria precoce foi a única saída para essa professora, pois nem mesmo o desvio de função, ou seja, sua transferência para a biblioteca, foi suficiente para suprimir os sintomas. Apresentamos a seguir o seu caso clínico com o objetivo de reforçar a justificativa pelo nosso interesse em aprofundarmos o conhecimento sobre os possíveis nexos entre o trabalho docente e o adoecimento mental do professor.

1.2A história de Jandira

Jandira tem 52 anos de idade, é casada e atualmente tem uma filha adotiva. É a terceira entre cinco irmãos, sendo quatro mulheres e um homem. Seu pai é metalúrgico aposentado e sua mãe, já falecida, era dona de casa. Cursou magistério na mesma instituição em que, posteriormente, foi trabalhar como professora desde que se formou aos 18 anos. Este sempre foi o seu trabalho, pois nunca exerceu outra atividade diferente da docência. Além disso, ela afirma que não saberia fazer outra coisa, por não ter exercido outra atividade profissional. Trabalhou tanto com turmas de alfabetização como também com adolescentes. Sua experiência como professora inclui atividades na escola pública, situada em zona rural, e em escola particular, considerada como a melhor instituição de ensino de sua cidade.

Nascida em uma cidade do interior de Minas Gerais, distante 60 km de Belo Horizonte, Jandira foi educada na religião católica e procura seguir os preceitos de sua crença religiosa.

Em sua cidade natal, não teve muitas possibilidades de escolher uma carreira, na época de sua juventude. Havia somente formação para a profissão de professora ou de contabilista, mas preferiu cursar o magistério. Seu pai não concordava com a idéia de suas filhas estudarem ou mesmo trabalharem em outras cidades e ao mesmo tempo, era complicado sair para estudar fora, pois pertencendo a uma família numerosa, seus pais não dispunham de recursos para financiar seus estudos e sua estadia numa cidade que oferecesse outras opções de carreira profissional.

12 Dificuldades para emitir os sons da fala que, no caso dessa professora, resultava numa perda total da voz em

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Jandira demonstra ter muito respeito e admiração pelos pais, especialmente por sua mãe. Relatou que, em sua casa, nunca teve como obrigação realizar as tarefas domésticas, pois sua mãe cuidava de tudo. Às vezes, ajudava apenas em alguns cuidados da casa, mas a prioridade deveria ser os seus estudos e o trabalho. Seu pai garantia o sustento da casa sozinho e seus filhos trabalhavam apenas para suas próprias necessidades. Nunca lhe foi exigida uma contribuição nas despesas da família. Embora, seus pais não fossem pessoas com elevado grau de instrução, Jandira sempre os considerou como pessoas muito sábias, especialmente sua mãe.

Em seu relato, ela se revela uma pessoa exigente e perfeccionista tanto no trabalho como em sua vida pessoal e caracteriza-se como alguém preocupada com os resultados de seu trabalho, que é o aprendizado de seus alunos. Também ressaltou que ser rigorosa consigo, pois se preocupava em seguir fielmente aquilo que considerava correto, a ponto de se sentir ansiosa por conseguir cumprir todas as prescrições em seu trabalho.

Quando criança, também era comprometida com os resultados de seus estudos, pois temia ser reprovada e não gostava da ideia de ficar retida, enquanto seus colegas prosseguissem. Além disso, sempre foi muito nervosa e exigente, mesmo em suas relações pessoais, revelando-se uma pessoa pouco paciente e muito detalhista, inclusive em seu relacionamento conjugal. Quando sabe que vai receber uma visita em sua casa, não consegue dormir na véspera de sua chegada, por se sentir preocupada em preparar a casa para receber aos convidados e desse modo, causar-lhes boa impressão. Entretanto, assim que o visitante se despede, apressa-se em novamente ajeitar sua casa e recolocar tudo no seu devido lugar. Mas Jandira não se sente confortável com essa postura, percebe que, agindo assim, fica muito mais cansada fisicamente.

1.2.1O trabalho como professora

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Durante 15 anos exerceu a docência concomitantemente na escola pública e na escola particular, o que lhe causava enorme desgaste físico e mental, mas percebeu diferenças importantes em seu trabalho em cada uma das instituições de ensino. Para ela, a escola particular oferecia maiores recursos materiais para que o aluno ampliasse o seu conhecimento, além disso, os pais dos estudantes tinham maior interesse pela formação de seus filhos. Dizia: Os pais acompanham mais. Eles acompanham e até atrapalham. Mas a escola particular... Eu acredito que é uma escola que dá mais condições de uma criança passar no vestibular.

A escola pública, em sua opinião, também tinha alunos que atingiam resultados satisfatórios na aprendizagem. Mas Jandira considerava que, se tivessem melhor suporte material, teriam maior possibilidade de desenvolvimento. Por esse motivo, empenhava-se em elaborar, conforme sua experiência, materiais alternativos que também favorecessem a aprendizagem dos alunos na escola pública, mas nem sempre percebia os mesmos resultados quando comparados aos da escola particular. Nesse caso, o aluno tinha acesso aos cinemas, às diversões, às bibliotecas, às excursões, aos brinquedos pedagógicos, recursos importantes para despertar o interesse do estudante e estimular a aprendizagem do conteúdo ensinado.

1.2.2 A relação com o trabalho

Sempre responsável e comprometida, Jandira procurava criar condições para realizar seu trabalho da melhor maneira possível, tanto na escola particular quanto na escola pública. Muitas vezes, orientava os pais de seus alunos sobre as dificuldades de seus filhos, mas percebia que na escola particular, nem sempre as famílias aceitavam sua opinião porque temiam a reprovação da criança. Jandira avaliava que esses pais consideravam que o investimento financeiro que faziam na educação da criança era mais importante do que o seu desenvolvimento. Isso lhe causava sofrimento, pois nem sempre podia contar com o apoio das famílias.

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quais os pais estavam pagando. Desse modo, o professor muitas vezes era responsabilizado quando a criança não conseguia obter boas notas, tanto pelas famílias quanto pela escola.

Às vezes, os pais colocam os filhos numa escola particular e acham que a escola vai fazer tudo e que os filhos vão sair dali cem por cento [...] e isso não condiz com a realidade porque a criança, muitas vezes, vai para a escola particular, mas tem limitações, ela não aprende. Aí, muitos pais acham que é a professora que não está ensinando direito e não olham a limitação do filho [...] ou, às vezes, enxergam e não querem ver.

Jandira procurava cumprir da melhor maneira possível às prescrições em ambas as escolas, mas considerava que a escola particular era mais exigente em relação ao professor. Às cincos horas da manhã já estava de pé para se preparar para seu trabalho e não era preciso que ninguém a chamasse ou que ela usasse o despertador para acordar, pois estava sempre atenta aos seus compromissos. Considerava que, apesar de sua dedicação, o trabalho como professora nem sempre era reconhecido, além de ser mal remunerado e desgastante. Sua mãe comentava que, se tivesse mais filhas não gostaria que fossem professoras. Mas apesar disso, Jandira sentia sua atividade como gratificante. Afirma que, embora a escola pública oferecesse piores condições físicas de trabalho, achava injusto não se dedicar aos seus alunos tanto quanto o fazia na escola particular. Entretanto, revela ter sido pouco reconhecida pela instituição de ensino particular como boa profissional, apesar de se considerar competente.

A escola particular reza assim: aqui é uma escola particular, a gente precisa do aluno. Professor tem muitos. [...] Ainda mais numa escola de irmãs... elas são muito financistas. Aí, a gente pensa na caridade... elas não se preocupam. Elas se preocupam com o dinheiro. [...] Eram muitos rígidas assim por olhar o lado delas, a vantagem para elas.

Muitas pessoas reconheciam o seu trabalho e ainda se lembram de como era boa professora, mas Jandira afirma que seu trabalho foi pouco valorizado na instituição particular, especialmente quando começou a apresentar os primeiros sintomas de adoecimento.

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Ela se mostra decepcionada em relação à escola particular, pois esperava que o seu esforço fosse reconhecido, uma vez que, conforme suas palavras, vestia a camisa da instituição e procurava cuidar da imagem pública do colégio, realizando um bom trabalho. Ressalta, entretanto, que gostava de ser respeitada como uma profissional responsável e competente e não admitia ter que bajular os superiores hierárquicos para conseguir vantagens, embora procurasse manter bom relacionamento com a direção.

Entre as dificuldades de sua profissão acha que o trabalho docente tem sido pouco valorizado e faz comparações entre o momento atual e o que imagina ter sido o trabalho docente em sua infância. Considera que as famílias não têm mais o mesmo interesse pela educação das crianças e, desse modo, o professor perdeu um poderoso aliado, ficando com grande parcela de responsabilidade pela formação das gerações futuras.

As pessoas mudaram pra pior porque aí a mãe sai, o filho faz e acontece com a empregada, faz e acontece dentro da escola, com a professora, faz e acontece na sociedade. E as próprias mães não estão querendo educar o filho não. Elas preferem sair fora, pegar a bolsa e ir trabalhar e deixar o problema rodar, do que ensinar ao filho uma tarefa que é chata.

Mas, apesar das dificuldades que encontrou em seu trabalho, especialmente na escola particular, Jandira também ressaltou que gostava muito de sua profissão e que preferia estar ainda exercendo a docência a estar aposentada por invalidez. Lembra-se que, em seu grupo de trabalho, era considerada uma pessoa divertida e entusiasmada e sente falta da convivência com suas colegas de profissão, embora seja uma pessoa que ainda tenha facilidade para fazer amizades. Afirma que o benefício que recebe da Previdência Social é suficiente para seus gastos pessoais e que não precisa pedir dinheiro ao esposo para isso. Além disso, ele tem recursos financeiros para assumir as despesas da casa, não necessitando de sua contribuição. Mas ela ressalta que quando trabalhava fora de casa, também sentia mais interesse em se cuidar.

Mas assim... faz falta a gente sair, conversar, até mesmo para se arrumar. Porque a pessoa que trabalha, a pessoa se sente na obrigação de estar arrumando o cabelo, fazendo uma unha. Eu ainda faço isso porque toda vida eu fui muito vaidosa, mas assim... A pessoa tem aquele compromisso de ter uma aparência melhor para sair para trabalhar porque você não vai trabalhar de qualquer jeito, né? E você ficando em casa, você fica mais a vontade, né? Então faz falta até para isso. É... ele dignifica. O trabalho dignifica.

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Mas é gratificante... é complicado e é gratificante. Quando você vê uma criança lendo, você pensa assim: não fui eu que ensinei; de uma hora pra outra ele pega o livro e fala: “professora, já sei ler”. Você fala: mas não fui eu que ensinei!... Então, nas séries iniciais... Eu achava ainda mais gratificante porque nas outras, a criança já aprendeu a ler, mas nas séries iniciais é bonitinho demais.

1.2.3 O adoecimento

Jandira se sentia pouco à vontade para realizar o seu trabalho na escola particular, pois se percebia impedida de sustentar suas convicções quando alguma situação não lhe agradava e, desse modo, calava-se para evitar conflitos com seus superiores hierárquicos, pois temia ser demitida.

E às vezes a gente escuta algumas regras que a gente não gosta. Eu sou uma pessoa muito falante, eu gosto de expor as minhas idéias, eu gosto de estar explicando o motivo do que eu não gostei e às vezes em escola particular a gente não pode. Então eu me calava... Aí eu me calava... Mas eu estava adoecendo.

As diversas tentativas de explicar aos pais a respeito das dificuldades de alguns alunos e ser mal interpretada causavam-lhe enorme dissabor. Quando não concordava com alguma situação, preferia usar a franqueza para tentar solucionar os conflitos, mas percebeu que na escola privada, não podia apresentar suas idéias e opiniões, especialmente quando eram contrárias a algumas prescrições da instituição. Jandira percebia que não havia espaço para diálogo, pois numa escola que visava à obtenção de lucro, a lógica era a de que “o cliente sempre tem razão”. Isso a deixava triste:

Eu fui me entristecendo de ver muita coisa, de ver aluno que era ruim e a gente ia falar que tava ruim e as mães não aceitavam porque estavam pagando. Tudo isso me aconteceu.

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Figura 1 – Frequência de ocupação principal
GRÁFICO 1 Distribuição da Ocupação  Fonte: MOTA, V.M.C. &amp; LIMA, M.E.A.
Tabela 1 - Percentual de pacientes com diagnóstico por agrupamento conforme o  CID 10 e por ocupação

Referências

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