RES UMO:Analisa-se a insistente sim bologia fálica na tragédia de
Sófocles. Discute-se os elos poéticos entre as im agens da integrida-de física que favorecem os potenciais naturais e libidinosos ( as afi-nidades do herói com daim ones com o Pã ou Sátiros) e as figuras do saber e das con qu istas in telectu ais ( cu jo h erói paradigm ático é Prom eteu ) .
Palavras - c h ave : Im aginário da caça, relação natureza-cultura.
ABSTRACT:Oedipus between Priap and Prom etheus. This article analyses
the insistent phallic sym bols in Sophocles’ tragedy. It discusses the poetical links between im ages of physical integrity favoring natural, libidinous potentials ( Oedipus’ affinities w ith dem ons like Pan or Satyrs) and the figures of know ledge and intellectual achievem ent ( w hose prototype is Prom etheus) .
Ke y w o rds : Im ages of hunting, relationship of im ages of nature and
culture.
“A justiça quer que o saber vá àqueles que sofrem .” ( Ésq u ilo, Prom eteu acorrentado, vs 2 4 9 -2 5 1 )
ÉDIPO REI: A TRAGÉDIA DO S ABER QUE EMERGE DO CORPO
O m odo convencional de ler Édipo Rei de Sófocles com eça em
geral pela focalização de seus dotes sapienciais. Proporem os aqui seguir a perspectiva do poeta Hölderlin, cujo olhar ultra-passou rapidam ente esta prim eira aparência, detectando os si-nais de um pavor que funciona ao m esm o tem po com o m otor e com o im pedim ento do saber. Édipo Rei é o salvador de Tebas. A charada poética da Esfinge é um enigm a fácil para o jovem herói, que antecipa na solução do m esm o a experiência de
Psicanalista, professora do departam ento de Filosofia da UFRGS
ÉDIPO ENTRE PRIAPO E PROMETEU
um a vida inteira ( as três idades: infância, idade adulta, senilidade) . Mas os frag-m entos vividos e espalhados pelo tefrag-m po, dissipados e frag-m ergulhados no esqueci-m ento, constitueesqueci-m uesqueci-m enigesqueci-m a que o hoesqueci-m eesqueci-m adulto teesqueci-m infinita dificuldade eesqueci-m
ver, reunir, ler — legein em grego é entender, com preender, dizer-revelar
“juntan-do ossinhos” “juntan-do passa“juntan-do... É isto o que o herói tenta fazer quan“juntan-do com eça, sole-ne, com a investigação da m orte de Laio. No entanto, basta um a alusão ao segre-do de sua origem e ele se precipita num a outra direção, procuransegre-do desvendar este segredo com o se ele não tivesse nada a ver com sua tarefa inicial. Hölderlin viu bem onde está a verdadeira “Esfinge” do hom em Édipo: ela está em toda parte, ela é o enigm a que ele procura desvendar: “Quando Édipo está novam ente tentado a viver”, com enta o poeta alem ão, “inicia o com bate desesperado para voltar a si m esm o, o esforço brutal e quase despudorado de dom inar-se a si m esm o, a procura, com fervor selvagem por um a consciência” ( HOLDERLIN,
1988, p.249-258) .1
Brutalidade, despudor e selvageria são as características da Esfinge... Os vasos dos séculos VI e V a m ostram , lasciva e despudorada, “devorando” os belos m an-cebos de Tebas. A tentação de viver, viver de qualquer jeito, eis a Esfinge de Édipo ( e a nossa) .
O rei digno, que se m antém ereto no m eio dos suplicantes, é torre firm e e protetora da cidade, descobrirá bem m ais do que sua identidade. Descobrirá que a identidade de quem quer viver de qualquer jeito é insustentável. No início de Édipo Rei, de Sófocles, ele é/ era um rei digno, que reergueu a cidade. Reprim indo
os desm andos da Cantora, ele garantiu as boas regras de sucessão e troca. Mas este em blem a da construção reta e do regram ento do tem po das uniões e suces-sões dissolve-se ( do início ao fim da peça) no lento e doloroso desvendam ento dos pequenos “detalhes” que causaram o pântano das relações incestuosas e au-tofágicas nas quais afundou Tebas, que perdeu o ritm o regrado das gerações.
Esta dissolução — reviravolta trágica que ocorre, sorrateira, a cada instante da progressão da peça/ vida/ trajetória — é o problem a que realm ente se coloca para Édipo ( e para nós) . Ele exige que enfrentem os ( nós, os espectadores, e o herói dentro da peça) um desam paro bem m aior do que se esperava, um abism o insuspeitado de crueldade “invisível”, em bora os sinais desta violência originá-ria estejam em toda parte. O herói não o vê, porque separa a questão da m orte de Laio — a dúvida sobre o ocorrido na tripla encruzilhada — da pergunta sobre a
1 Com relação ao texto de Holderlin, usarem os aqui algum as siglas: FHA rem ete à edição
própria origem — a suspeita de seu nascim ento vil, filho de escravos ou filho rejeitado. Este enigm a que o fascina a ponto de fazê-lo esquecer a investigação da m orte de Laio, ele som ente o adm ite atribuindo-o a Jocasta, quando poderia
lê-lo nas m arcas dos seus pés.2 No ápice da angústia, ele encoraja a rainha de não se
envergonhar de sua origem vil, um a vez que ele é filho de escravos, igualando-se quase com as crias de anim ais dom ésticos, exortando-a a vê-lo com o “filho da Sorte”, quando ele m esm o não suporta ver e aceitar a vista dos seus pés m utila-dos. Clivando os signos da prim eira e da segunda questão, a im agem que poderia fornecer a resposta se desfaz: Édipo se priva do reconhecim ento de que a questão da integridade do velho rei Laio ( isto é, sua integridade física com o hom em e sua legitim idade sim bólica com o rei de Tebas) está intim am ente relacionada com a ( falta de) integridade daquele que o abateu na tripla encruzilhada.
Assim , o herói percebe apenas m uito tardiam ente — e apenas obrigado pelo m ensageiro que fala de sua cicatriz com o de um a obviedade — que sua integri-dade sim bólica, física e m oral está m inada por um “ velho m al” inscrito nos seus pés. Na tragédia de Sófocles, a cicatriz não tem a função auxiliar de signo de reconhecim ento, m as “encarna”, por assim dizer, toda a problem ática da postu-ra, do posicionam ento e dos deslocam entos, físicos e sim bólicos, do herói no espaço e no tem po.
O poeta Hölderlin, atento com o nenhum outro tradutor, aos pequenos deta-lhes concretos ( as posições físicas no tem po e no espaço, por exem plo, ou os m odos concretos da expressão) , salientou tam bém os traços da experiência criatural dos heróis trágicos: os elos secretos que o hom em civilizado m antém com a selvageria da natureza e das feras. Seguindo as sugestões do poeta alem ão, analisarem os com m ais vagar de que m aneira os sinais físicos ( a cicatriz dos pés) são integrados na tram a de signos que elaboram a trágica conjunção da finitude e do infinito da condição hum ana. Esta análise fará aparecer com m ais nitidez as afinidades da figura sofocliana de Édipo com dois tipos antagônicos do im aginá-rio clássico. De um lado, estão as figuras m íticas da vida criatural ( Pan e os outros
personagens do séqüito de Dioniso) , de outro, a figura esquiliana de Prom eteu,3
paradigm a do saber e das técnicas hum anas.
2 É significativo, neste sentido, que o relato de Jocasta m encione claram ente os pés perfurados
( esfolados, encavados...) do recém -nascido ( v. 718) , e este, adulto, registre som ente a m enção à tripla encruzilhada.
3 Vár ios críticos já assinalaram analogias que aproxim am os dois heróis ( em particular a ar
O ENCONTRO NA ENCRUZILHADA
O que aconteceu no encontro na encruzilhada dos três cam inhos?
Um viajante a pé não cede o cam inho ao arauto de um velho rei, m ontado num carro puxado por m ulas. O ancião o castiga com um a chicotada que o atinge na cabeça. O solitário viajante é o príncipe de Corinto, Édipo, o “pé incha-do”, que se serve de um bastão. O bastão apóia pés frágeis? Ou é ele um signo de crueldade, um bastão-clava que logo abaterá o rei e seu séqüito? Ou um em ble-m a da soberania — bastão-cetro — que deixa transparecer o direito ao trono deste filho ( exposto porém sobrevivente) ? A arte de Sófocles deixa em aberto todas estas possibilidades, m ostrando som ente a faceta valente e vitoriosa do exilado príncipe de Corinto que conquista o trono graças aos seus m éritos intelectuais.
O que perm anece oculto no relato de Édipo são os sinais físicos que contri-buíram para precipitá-lo na dúvida sobre sua origem . O jovem vitorioso da en-cruzilhada é um príncipe assolado por “tristes segredos”. Rum ores põem em dúvida seu parentesco com a casa real, sem esclarecer sob que condições o filho postiço teria sido introduzido no berço de Mérope e Políbio. Os protestos aflitos dos pais não apaziguam suas dúvidas, que assom bram a honra genealógica, a identidade fam iliar e social. Édipo não m enciona as cicatrizes dos seus pés, m as esta m arca aviltante com certeza falou m ais alto do que os protestos paternos que procuravam , em vão, rechaçar os rum ores hum ilhantes. Em Delfos, a pergunta sobre pais é de novo rechaçada pelo silêncio de Apolo e o herói recebe a assom -brosa profecia que lhe prediz o parricídio e o incesto. Há, portanto, um a
nebulo-sa de sinais dúbios que im prim e em Édipo o estigm a do outcast. Ele se auto-exila,
com o um hom em que sente ter perdido seu lugar na pólis e se vê obrigado à conquista errante de um a nova pátria.
Não pertencer à pólis, ser apólis, significa, no m undo antigo, um a violenta
carência de estatuto social, um desam paro. E isto põe Édipo à m ercê de estra-nhos, fazendo-o dependente da hospitalidade alheia e de seu querer. É norm al im aginar que um hom em nesta situação possa perder toda sua lepidez aristocrá-tica e que seu m ovim ento corporal expresse as seqüelas da ferida antiga inscrita
no nom e Oidipous — “pé inchado”. Não se trata de ver Édipo com o literalm ente
coxo — aliás, Sófocles nunca fala de qualquer passo m anco que poderia evocar a ferida dos tornozelos de seu personagem . No entanto, o texto rem ete de m odo insistente ao “velho m al” dos pés m achucados. A dor que Édipo expressa ao “lem brar” o que ele tenta esquecer m ostra que não é pequena a m arca do sofri-m ento que persegue o hosofri-m esofri-m desde a infância.
sustentação física nos pés atingidos por um a ferida “esquecida”. Ora, “esquecer” um a m utilação física exige forças m entais — e físicas — extraordinárias. O ge-m ido doloroso de Édipo no ge-m oge-m ento ege-m que o ge-m ensageiro-pastor ge-m enciona a m arca dos pés m ostra o peso que acarreta o “esquecim ento” desta ferida. Ele revela o pavor abafado que se m anifesta, talvez, tam bém no torpor que o herói sente quando Jocasta m enciona a tripla encruzilhada e... descreve com o Laio am arrou os tornozelos do recém -nascido. Para quem lê apenas o que é dito de m odo explícito, o herói parece sentir-se ileso até o m om ento em que o m ensa-geiro o obriga a reconhecer que seu nom e corresponde à m arca física que carre-go nos pés. Mas para quem observa o ritm o dos acontecim entos, tam bém o relato da rainha suscita as inquietudes do herói no exato m om ento em que ela m enciona os pés am arrados, m uito em bora o herói adm ita falar som ente da encruzilhada.
A vergonha “esquecida” dos pés m achucados estoura m uito tarde, num grito que expressa o que é anterior à vergonha: o pavor, o m edo do despedaçam ento que a im aginação costum a tecer em torno das feridas — até daquelas que cicatri-zaram bem . Em bora Édipo não queira isto, algo continuou pensando na cicatriz ( e na fragilidade?) dos m em bros que deveriam assegurar sua firm eza. É com um gesto perem ptório ( ou reativo) com o qual o rei se colocou, com o a torre forte e protetora da cidade. No grito “Ai, por que m encionas o velho m al”, ele m ostra, pela prim eira vez, que sua firm eza é um a conquista: ela repousa sobre a eficácia de um a ficção, de um a ilusão necessária que exigiu o esquecim ento ativo da m arca física e sim bolicam ente aviltante.
Não subestim em os o referente físico e concreto das im agens discretas de Sófocles. Podem os — e devem os — im aginar que a atadura de Laio, que feriu ( o texto diz: perfurou) os tornozelos do recém -nascido, tenha deixado seqüelas. Quem sabe, som ente certa rigidez da articulação, um a predisposição som ática para dores, inflam ações e inchaços. Seja com o for, pés inchados ou m al cicatriza-dos não favorecem as tarefas da guerra, nem as proezas esperadas de um guerrei-ro. Não seria esta a dor que “rói” e avilta a alm a do jovem Édipo que não conse-gue superar os rum ores negados por seus pais?
Na Grécia arcaica e clássica, todo hom em livre é posto à prova em enfren-tam entos atléticos e na guerra. Até um poeta com o Sófocles tem sua fam a im ortal porque soube lutar, além de escrever tragédias. Se até hoje um pé chato desqualifica o indivíduo para o serviço m ilitar, é claro que no m undo antigo o m al dos “pés inchados” é, inevitavelm ente, um estigm a aviltante, um a m ácula que atinge a virilidade e am eaça a honra e a estim a subjetiva e objetiva de um hom em .
que se sustenta m aravilhosam ente nos seus pés ágeis, que lhe asseguram a supre-m acia no cosupre-m bate. Só usupre-m a flechada divina no tornozelo ou no tendão de Aquiles consegue pôr lim ites à arrogância vitoriosa deste guerreiro. Contra esta tela de fundo, os traços reunidos por Sófocles desdobram o estigm a da exclusão de Édipo em três registros — no plano físico ( a falta de sustentação pela cicatriz nos pés) , no genealógico ( a carência de filiação) e no m oral ( a falta de legitim idade devido ao m iasm a) . O velho m al, poderia, portanto, ser um “detalhe” chave para com preender a suscetibilidade e o pendor de Édipo para a ira.
AS CONOTAÇÕES FÁLICAS DO ENCONTRO
O texto de Sófocles espalha estes elem entos em pequenas m enções e conduz a descrição do encontro na encruzilhada com adm irável econom ia poética. Para com preender o que realm ente está em jogo quando Édipo surge no cam inho e, na outra direção, aparece Laio, basta registrar a tram a dos pequenos detalhes.
O rei está m ontado num carro puxado por m ulas e é acom panhado por um pequeno séqüito de cinco hom ens. Nada de grandioso, apenas o suficiente para dem arcar de m odo claro a im ensa diferença de estatuto social. O velho hom em de cabelos brancos se faz anunciar por um arauto que exige com orgulho que o anônim o viajante ceda a estrada ao rei que está a cam inho de Delfos. O gesto de fria e apressada indiferença seria norm al se o rei estivesse passando por um es-cravo ou um pobre pastor, m as ele infringe as regras da civilidade entre viajantes ( MUSURILLO, 1957) . O anúncio do arauto, sua ordem de retirada para dar espa-ço ao carro, o gesto arrogante do rei ao levantar o chicote para castigar a dem ora do viajante em ceder o cam inho — tudo repete e reforça de m odo insuportável
a ferida do outcast, a fragilidade de quem tem m otivos para suspeitar de sua
inte-gridade social, m oral e física.
Neste contexto, cabe lem brar, ainda, os objetos falantes e fatídicos que pai e
filho carregam na m ão. Laio bate com o [ chicote de] duplo ferrão (diplois kentroisi,
BL 809) e é instantaneam ente abatido pelo bastão/ cetro (skeptrô tupeis, BL 811) . O
raio sem ântico do kentron oscila entre o ferrão que estim ula o anim al e o objeto
que excita o desejo erótico, em blem a fálico que, em certos contextos, sinaliza a
soberania. O m esm o vale para o bastão, skeptron, que, de um lado, apóia os passos
do viajante ( ou os pés frágeis de Édipo?) , de outro, transform a-se literal e repen-tinam ente no cetro que afirm a a soberania do filho sobre o pai. Apesar da
extre-m a econoextre-m ia do relato, o poeta de Édipo Rei reuniu traços suficientes para evocar
sobre as m ulas com falos im ensos que acom panham os sátiros itifálicos nos cor-tejos dionisíacos ou nos bacanais hum anos ( KERENYI, 1996) .
Reunir os elem entos da desm edida e da rivalidade fálica não é um a interpo-lação indevida de idéias psicanalíticas, m as um esforço de reconstituição do im a-ginário clássico. Melhor dizendo: a análise freudiana da tragédia e do m ito pode ter pecado ao ignorar os dados históricos e do im aginário clássico; ela pode ser escandalosam ente indiferente à arte sutil com que Sófocles representou os anti-gos relatos m íticos; e se perm ite, com o m ostrou Jean-Pierre Vernant, m uitíssi-m os pressupostos interpretativos. Estes seriauitíssi-m , euitíssi-m resuuitíssi-m o, pecados capitais na reconstituição histórica, com reflexos na poética e na psicanalítica. Mas, apesar destas falhas im perdoáveis, Freud teve o m érito de afirm ar, num a época de puri-tanism o classicista, que há algo de selvagem e prim itivo na grandeza deste herói, traços de despudorados desejos priápicos que ignoram não apenas o senso esté-tico puritano, m as atropelam todas as regras da convivência civilizada.
Se o velho Laio não observou o código de civilidade dos viajantes, atropelan-do o passante em pé com o um centauro inebriaatropelan-do, seu filho m ultiplicou a des-m edida, codes-m o ele des-m esdes-m o salienta edes-m seu relato. E retribuiu a grosseria do an-cião cabeludo com a brutalidade m açante que os m itos destacam com o
caracte-rística dos centauros,4 fam osos por abater e pisotear tudo o que atravessa seu
cam inho. Por m ais que suas análises de Freud não correspondam às exigências m etodológicas dos helenistas e por m ais que suas form ulações repitam a doutri-na psicadoutri-nalítica, é inegável — tam bém em Sófocles — o horizonte do confronto fálico. Sob o verniz elegante do acabam ento sofocliano, encontram os as m arcas inequívocas da rivalidade prim ária, o ódio violento e repentino entre os hom ens de gerações sucessivas, o acesso desregrado e irrefletido que caracteriza a sexualidade dos priapos, pans e centauros, dos sátiros e silenos. Não é por acaso tam -pouco que o Coro se pergunte m ais tarde se Édipo não seria filho de Pan, outro
deus itifálico, verdadeiro daimon da natureza selvagem , que se destaca pela
violên-cia com que costum a raptar ou violentar as ninfas.
Quando Freud pergunta “por que Édipo Rei nos em ociona tanto?”,5 ele fixa
nossa atenção sobre as vicissitudes psíquicas do parricídio e do incesto. Para Freud, o fascínio da peça corresponderia ao faro que todos nós teríam os pelo desejo oculto que com partilham os com Édipo — o desejo de m atar o pai e de
4 Cf. Dover ( 1994) : “ Os centauros ( com a honrosa exceção do sábio Quiron) eram
considera-dos, assim com o os sátiros, criaturas de desejo sexual incontrolável, dados a pular em cim a de qualquer pessoa, de qualquer sexo, cuja beleza os excitasse” ( p.61) . Além de rodeado por em blem as fálicos, Laio é tam bém m encionado pela sua cabeleira branca. Ora, o texto pseudo-aristotélico Problemata ( IV 31) discute a questão de saber “ por que pássaros e hom ens cabeludos são lascivos?” .
casar com a m ãe. A um século de distância, perdeu-se o atrativo do tabu sexual quebrado pela psicanálise. Irrita-nos a rápida fórm ula psicanalítica repetida em infinitos chavões que ofuscam a construção poética de Sófocles. Tivesse Freud reunido o dossiê com pleto dos traços fálicos que Sófocles coloca discretam ente
em lugares estratégicos, ele poderia ter citado Édipo Rei com o ilustração de m uitas
questões psicanalíticas relevantes, a saber: a perversão polim órfica, o desam paro (Hilflosigkeit) , a form ação reativa. Isto com certeza não convenceria os helenistas e historiadores, cuja exigência de m étodo tornaram -se m uito rigorosas desde o estruturalism o. Mesm o assim , há um ponto im portante que Freud soube captar graças à arte clássica ( m elhor dito: graças ao prestígio da aparência classicista que o público de sua época focava ao olhar para a Grécia) . Freud soube captar o pavor oculto e inom inável que todo signo acarreta ( latente ou ativam ente) , pavor este que eclode de m odo m uito angustiante nas representações envolvendo a sexua-lidade, a procriação e a m orte.
É legítim o, portanto, perguntar — dentro e fora do referencial freudiano —
o que significa a em oção que nos causa Édipo Rei? Não haveria algo nesta peça que
nos toca no regim e da angústia sem nom e? O que é opressivo nesta peça não são tanto as representações do parricídio e do incesto, m as um clim a, um a atm osfera
intangível que Freud cham a de “frei schwebende Angst” — angústia livrem ente
flu-tuante — , isto é, um a reserva de angústia que não encontra im agens concretas nas quais ela possa se fixar. A arte de Sófocles, sua econom ia dos traços que apenas indicam , não m ostram , provoca aquela opressão que parece surgir de um perigo inom inável, intangível e am órfico que paira no ar.
Não é um acaso o fato de o im aginário subm erso (sunken imagery — com o diz
Musurillo [ 1957] ) que Sófocles “enterrar” nos pântanos nebulosos de sua peça ser em prestado ao dom ínio da caça e da navegação, m undo dos perigos silen-ciosos e das arm adilhas sorrateiras que favorecem este tipo de pavor. Mas tais im agens são diam etralm ente opostas às im agens racionais do rei em possado, que
se orgulha de sua enquête transparente e pública. Trata-se de ilum inar esta am
biva-lência dos traços que o herói descobre nas fases sucessivas de seu passado. Hölderlin foi o prim eiro a sublinhar o outro lado, noturno e selvagem do herói. O poeta alem ão m enciona que a capacidade de salvar Tebas da Esfinge surgiu de um hu-m or prihu-m itivo, de uhu-m faro selvagehu-m : a palavra que o tradutor francês opta por “ardor”, aparece, na tradução hölderliniana, com o “o antigo sentido/ faro
selva-gem ”, der alte wilde Sinn (paros prothymias) ( HÖLDERLIN, 1988: H48, BL 48) .
No entendim ento do poeta alem ão, o velho sacerdote invoca esta capacidade anim al ou “daim ônica” ao exortar o rei para que encontre outra vez um a solução para o flagelo atual. Com o se houvesse duas fases na trajetória do herói — um a
que o m ostra com o caçador selvagem , quase com o jovem na fase da efebia,
anim ais de sobrevivência, de lances rápidos e de ardis sorrateiros, e a outra sendo a fase do rei-sacerdote, solene e grave, encobrindo o hum or irrequieto e alerta, obstinado e arrogante que faz de Édipo um duplo hum ano do titã Prom eteu.
O “VELHO MAL” DOS “PÉS INCHADOS”
O herói da inteligência ágil e da determ inação resoluta é, ao m esm o tem po, um “assom brado” que adivinha o segredo da natureza hum ana: a selvageria, a rela-ção prim ordial com a aniquilarela-ção. É neste sentido que Hölderlin cunhou a fam o-sa fórm ula: “Parece que Édipo tem um olho a m ais.” O faro seguro de Hölderlin destaca os detalhes em aparência subordinados — as pequenas m anifestações de insegurança e frêm ito, de tem or e desânim o, as incongruências das respostas e interjeções — que constituem , de m odo sublim inar, o eixo capital para a com -preensão da tragédia. Em vez de se ater à brilhante superfície do herói inteligente e perspicaz, firm e e decidido, o poeta fareja o avesso, que m ina, sorrateiram ente, esta existência. O tirano confiante de si e adm irado pela coragem , perspicácia e decisão cam inha sobre pés inseguros e este signo ( da base com prom etida) dire-ciona e afeta sua com preensão, ora o guiando para os rastros m ais relevantes, ora o im pedindo de ver toda a sua significação.
confiança e adm iração irrestritas, sua aura heróica não apagou de todo o senti-m ento de certa inferioridade diante dos outros senti-m esenti-m bros do palácio.
Sinais de algum incôm odo quanto ao seu estatuto e sua legitim idade no tro-no tebatro-no são as insistentes m enções de Édipo à ascendência principesca de Laio. Bernard Knox ( 1971) vê nesta insistência um signo do “sentim ento profundo de inadequação relativa ao berço” que daria à fala de Édipo um tom “quase
invejo-so” (half envious) ( p.56) . Os estranhos non sequiturs do seu discurso, quando Édipo
fala de Laio “com o se fosse m eu pai”, são interpretados com o lapsos psicológicos que teriam “a inconsistência típica de desejos inconscientes profundos que irrom -pem com violência na superfície da fala racional” ( KNOX, 1971, p.56) . Esta inter-pretação, que vincula o nível psicológico com im plicações sociais e de classe, en-contra reforço e confirm ação no nível da insegurança física. Com efeito, os ” pés inchados” que deram a Édipo seu nom e são o estigm a falante de um ferim ento inexplicado, que a vergonha e o m edo m ergulharam em um silêncio tenaz. O
“velho m al” e a “vergonha terrível” (archaion kakon, 1.044, deinon g’oneido sparganôns, a
terrível vergonha das fraldas [do berço que] eu contraí, 1.059) m anifestam -se em sinais obscuros, inquietudes enigm áticas que perm item diversas leituras.
Hölderlin ( 1988) parte da hipótese de que Édipo tem , além do entendim
en-to racional, um saber “adivinhado” (Ahnung) ,6 isto é, um a form a de intuição que
não passa pela explicitação cognitiva de causas e efeitos. Adivinhar é saber obscu-ram ente de “algo” sem poder conhecê-lo pelos m eios do entendim ento. Em Édipo Rei,este m odo de saber não rem ete apenas ao assassinato e ao incesto do
herói, m as, para além do crim e com etido pelo herói, às atrocidades com etidas contra ele. A m arca dos pés é o estigm a do radical desam paro sob o qual ele nasceu e cresceu. Não é inútil m encionar que no gesto de Laio e Jocasta transpa-rece a vontade de viver e procriar, vontade esta que caracteriza ( e am eaça) a civilização de Tebas desde o início dos tem pos. Os Espartos transm item aos seus descendentes o estigm a da lança — lem brete de um a cadeia ininterrupta de m utilações e dilaceram entos m ortíferos.
A HIS TÓRIA E O S ENTIDO DA MUTILAÇÃO
A gênese dos “pés inchados” é um detalhe pouco com entado pelos exegetas de
Édipo Rei. A análise estrutural do m ito por Lévi Strauss evidenciou a falha do pé
que assegura a coerência da lógica m ítica. Mesm o assim , o “ velho m al” que aflige os pés de Édipo costum a figurar tão som ente com o signo de
reconheci-6 Cf. Hölderlin ( 1988, p.252) , que assinala o potencial excêntrico do faro divino ao daim ônico
m ento, um pouco com o a cicatriz de Ulisses na Odisséia. Os intérpretes lim itam sua atenção ao resultado visível da m utilação: inchaço e andar m anco, sem inte-grar estes elem entos na construção propriam ente sofocliana da tram a poética. Apenas Bernard Knox ( 1971) valorizou a gram ática trágica que Sófocles constrói com as hom ofonias que ligam o “saber” e o “inchar”, associando, de m odo indissociável, o problem a intelectual ( as capacidades e os lim ites do saber) com o problem a da lim itação e da vulnerabilidade físicas.
O com entário de Knox ilum ina a pergunta do m ensageiro quanto ao lugar onde se encontra o palácio de Édipo; faz alternar, sem pre na posição final do verso, as sonoridades quase hom ofônicas do “saber onde” e do “pé inchado” (oim’hopou — Oidipou — oisth’hopou, BL 924-6) :
Ar’ an par’ hymôn ô ksenoi mathoim’hopou / Estranhos, de quem posso saber onde
Ta tou tyrannou dômat’estin Oidipou / Está o palácio do tirano Édipo
Malista d’auton eipat’ei katoisth’hopou. / Melhor, onde está ele m esm o, se souberem onde
Knox com enta o sentido desta afinidade fonética:
“[ … ] Oidi- significa ‘inchar’, m as sua sonoridade é m uito próxim a da oida, ‘Eu sei’ — palavra essa que nunca está longe dos lábios de Édipo; é seu conhecim ento que o
torna o tyrannos decidido e confiante. Oida é recorrente em todo o texto da peça com a m esm a persistência feroz de pous, e o potencial sugestivo inerente ao nom e do tyrannos é ironicam ente realçado num grupo de três assonâncias de fim de verso, cuja ênfase de trocadilho im piedoso é incom parável em toda a literatura grega.” ( 1971,
p.182-183, grifos nossos)
Aprofundem os a afinidade que a hom ofonia de oidi — e oida estabelece entre
o inchar e o saber e que o com entário de Knox apenas frisa com o um detalhe irônico. O nom e-trocadilho liga de m odo indissociável o saber e o defeito físico, a grandeza do herói e sua m utilação aviltante que o texto silencia até o m om ento da brusca nom eação pelo m ensageiro — que a ela se refere com o a um a
obvie-dade que todo o m undo conhece. A convergência do nom e Oidipous com a
potên-cia intelectual ( oida) e a im potência física ( oidipous — pé inchado), sugere que a
Qual é o sentido de am arrar os pés de um recém -nascido? Não há neste gesto nenhum a utilidade prática, a não ser que Laio já tenha antecipado a m orte próxi-m a, inibindo e próxi-m utilando os pés segundo a lógica arcaica do enfraquecipróxi-m ento da vítim a. Esta lógica visa despojar a vítim a da capacidade de desem penhar a força viril que poderia acionar um a vingança do além . Seja com o for, tudo se passa com o se Laio m utilasse o filho a fim de excluí-lo sim bolicam ente das ativi-dades atléticas que habilitam o jovem guerreiro para a conquista do poder. Entre-gando a vítim a m utilada a um pastor, ele a destina a perecer num espaço inter-m ediário entre o inter-m undo cultivado e o selvageinter-m : as pastagens que beirainter-m os agria, o m undo das feras e da caça. Neste m undo selvagem , não é incom um ver
pequenas criaturas m ortas e com pés atados. Mais um a vez evocam os os dese-nhos nos vasos gregos, os quais m ostram cenas incontáveis com caçadores
carre-gando pequenos anim ais pelos pés atados.7 A freqüência destas im agens indica
que o hábito de atar e suspender um anim al pelos dois pés dianteiros correspon-de a um a prática convencional correspon-de transporte ( conhecida, aliás, até hoje) .
O gesto de atar os pés é descrito duas vezes em Édipo Rei: Jocasta relata com
riqueza de detalhes com o Laio atou os tornozelos do recém -nascido e, num outro m om ento, o m ensageiro-pastor descreve com o desatou os m em bros per-furados pelas ligas apertadas. A insistência com que Sófocles ressalta este detalhe facilita a associação que aproxim a o filho hum ano do pequeno anim al de caça. O ato brutal equivale a um rito que desum aniza a prole, prelúdio de um a m atança que, prim eiro, despoja o filho da casa real do seu estatuto principesco, para racionalizar e justificar a exposição da criatura “selvagem ” nos precipícios das altas m ontanhas, no espaço dos anim ais selvagens. Apesar da econom ia extrem a, o texto de Sófocles indica com clareza as etapas deste ritual atroz, que substitui a ordem hum ana pela do m undo anim al e selvagem .
FILHO DE PÃ OU IRMÃO DE PROMETEU? ÍMPETOS DE TITÃS
E DE DAIMONES COMO ARMA CONTRA O DES AMPARO
São bem conhecidos os traços desconcertantes que lançam som bras sobre a im
a-gem de Édipo. Sua “ira” (orgé) é com o um a força cósm ica, um daimon que age
através deste herói.8 Sua obstinação e im paciência — um hum or irascível que dá
7 Alain Schnapp ( 1997, p.321-325) m ostra as im agens de retornos da caça, entre m uitas
um a coloração específica à inteligência perspicaz deste herói — lem bram a im
-placabilidade assom brosa de Prom eteu, a authadia que faz o grande titã resistir às
ordens de Zeus. Sua sutileza e aguda perspicácia não se m anifestam apenas num orgulho confiante e seguro no êxito das iniciativas tom adas. Nos gestos e nas palavras deste herói invejável m ostra-se, desde o início, algum a truculência irre-quieta, que destoa da segurança tranqüila assum ida ao se com prom eter publica-m ente epublica-m salvar a cidade.
A truculência com a qual Édipo persegue sua m issão explode em excessos de
cólera ( MÉAUTIS, 1960, p.101) , iras loucas e sem o m enor traço de inibição ou
arrependim ento; estes atos derram am -se não só contra Creonte e Tirésias. O m odo com o o rei Édipo conta sua “triste vitória” ( p.109) sobre o ancião e seu pequeno séquito na encruzilhada revela um “ato absurdo que se explica tão som ente por este furor passional, furor de cólera sanguinária que sobe do m ais profundo de Édipo, da própria alm a da raça m aldita [ … ] ” ( p.109) . Apesar das aparências de racionalidade e clarividência, Sófocles faz sentir que Édipo carrega a tara de sua estirpe, isto é, um a cólera destruidora e autodestruidora legada pelos
antepassa-dos m onstruosos ( os spartoi) . O relato da m atança na encruzilhada revela o pano
de fundo do qual brota a cólera de Édipo: há o m esm o orgulho colérico tam bém na arrogância desdenhosa do velho Laio golpeando, do alto do seu carro, o via-jante desconhecido que reluta em lhe ceder a passagem .
Sófocles contrabalança estes traços pulsionais e, em certos m om entos propria-m ente selvagens, copropria-m as qualidades da razão, da investigação propria-m etódica. Édipo é ao m esm o tem po adm irável e lam entável em sua laboriosa averiguação dos enca-deam entos de causas e efeitos, seu esforço de deduzir dos parcos indícios que fazem a investigação enveredar pelo labirinto de erros e esquecim entos crassos — revisitando-os um a um , com um a perseverança estranha que subm ete ao escrutínio calculado não apenas os fatos, m as tam bém os m enores detalhes que surgem na sua percepção.
Knox valoriza as qualidades que o próprio Sófocles sublinha ( pelo m enos num prim eiro m om ento) com o as características do herói: a inteligência
perse-estas três figuras ilustram a m odificação do im aginário grego clássico: na prim eira e na segunda ( fundo negro, do século VI) , o tem a da caça está vinculado com o prazer específico do espaço selvagem e dos hábitos violentos que lhe correspondem ( caça sangrenta e uniões sexuais sel-vagens sim bolizadas por Priapo, Pã, etc.) ; na última ( fundo ver m elho, século V) , tudo se passa visivelm ente no espaço fechado do lar, com seus rituais sofisticados ( vestim enta requintada e as atividades correspondentes: fiar, tecer, bordar) .
8 Trajano Vieira ( 2001) assinala as ocor rências explícitas desta sobredeterm inação nos
verante e m etódica, a ação decidida e corajosa, dando sua form a específica à investigação levada a cabo pelo herói. Com efeito, Édipo confia no controle racional e na elucidação factual dos enigm as que o destino coloca no cam inho da
existên-cia hum ana.9 Édipo é vítim a de si m esm o, cai nas arm adilhas que ele m esm o
colocou, construindo com vigor — e contra a resistência de toda a corte e de todas as testem unhas — a rede de provas da sua investigação.
Fiel à conquista prom eteica, Édipo aparece com o o paradigm a do indivíduo autônom o, insurge-se contra os obscuros signos do destino, m obilizando toda a sua coragem e seu conhecim ento com o intuito de ver claro ( e fica cego no final) . É neste plano que Édipo é um dos m odelos da autoconsciência m oderna.
Do ponto de vista histórico, ele representa a autonom ia do tyrannos grego, que
conquista seu estatuto por m eio do próprio valor, sendo o indivíduo que se afirm a no jogo agônico do m útuo reconhecim ento. Neste sentido, ele é o sujeito racional que funda e se subm ete livrem ente à m edida do conhecim ento calculá-vel e às regras do saber com unicácalculá-vel e público que viabilizam a sociabilidade dem ocrática. No entanto, este prim eiro plano se inverte para revelar o herói da
vergonha, o qual se descobre com o objeto de um a repulsa universal ( MÉAUTIS,
1960, p.106) .
Mais hum ano que o titã de Ésquilo, Édipo tem o m érito deste quando sabe fazer esquecer a m orte: ele oferece generoso consolo, enternecendo-se com o Prom eteu, com o sofrim ento dos hom ens e em penhando-se com obstinação em
salvá-los de um triste destino.10 A ação heróica de Prom eteu é sustentável, para
os m ortais, graças apenas ao esquecim ento da m orte. O titã salva a hum anidade,
concedendo aos hom ens “cegas esperanças”.11 Édipo transform a este dom
divi-no num a das qualidades típicas do caráter ateniense. Atenas se orgulhava da fir-m eza dos seus chefes nas situações fir-m ais adversas, e das vitórias obtidas graças à ação resoluta em m om entos críticos, itens que inspiravam a outras cidades cau-tela e prudência. E os inim igos e rivais de Atenas exaltavam sua m agnífica capa-cidade de prevenir o ataque, antecipando-se sobre os planos dos adversários
( KNOX, 1971) .12
A capacidade de antecipar os perigos — eis a esperança prom eteica de Édipo. Na sua pretensão de refletir, agir e solucionar as carências da existência hum ana,
9 Cf. Trajano Vieira ( 2001, p.21-22) . Ele tem reser vas com relação à leitura racional de Knox,
concedendo papel m ais im portante às forças dem oníacas e ao destino do que o crítico norte-am ericano.
1 0 Cf. a análise da rapidez e da im paciência em Knox, 1971, 41 ss.
1 1 “ Livrei os m ortais da visão da m orte” , explica Prom eteu ao Poder (Kratos) , que o prende à
rocha do seu suplício. Este lhe pergunta: “ Qual o rem édio que encontraste para curá-los dis-to?” E Prom eteu responde: “ Ergui neles cegas esperanças.” (Prom . Acorr. 248-250) .
ele rivaliza com o herói de Ésquilo e de Hesíodo. São os ardis dos divinos tricksters que inspiram ao hom em m iserável sua desm edida confiança nos recursos do
conhecim ento e da invenção (techne) — em bora estes truques repousem sobre
um fundam ento precário. Eis a razão pela qual Ésquilo e Sófocles com param as
esperanças hum anas às ilusões de pássaros cegos e sonhadores (Antígona, vv. 346,
618, 357, 616) . Mesm o assim , am bos os heróis são obstinados e não tem em rivalizar com os deuses, com Apolo, Zeus e Atena. Knox ( 1971) com enta esta pretensão que form a a base para o desenlace da reviravolta trágica:
“Édipo cham a-se a si m esm o de ‘grande’ (megan, 442, cf. 776) , m as o deus, diz o coro, é ‘grande’ nas suas leis (megas theos, 872) . Édipo possui seu ‘im pério’ (archê, 259, 383) , m as o im pério de Zeus é im ortal (athanaton archan, 905) . Édipo prom ete ‘força’
(alkên, 218, cf. 42) , m as é para Atena que o coro pede ‘força’ (alkan, 189) . Édipo fala com os tebanos com o um pai com seus filhos (tekna, 1; cf. 6) , m as o coro finalm ente apela para o ‘pai Zeus’ (Zeu pater, 202) . Édipo ‘destruiu’ a Esfinge (phthisas, 1198) , m as é para Zeus que o coro apela a fim de ‘destruir’ a peste (phthison, 202) . Todos estes
ecos são com o um deboche das pretensões de Édipo e, além disto, a linguagem da peça ressoa com trocadilhos sardônicos sobre seu nom e que parecem insinuar-se nas falas dos caracteres com o ecos de longínquas e duras risadas. Oidipous — “Pé inchado” —
é um nome que enfatiza a falha física que m arca o corpo do tyrannos esplêndido, um a falha que
ele gostaria de esquecer, m as que nos lem bra a criança rejeitada que ele foi um a vez e que ele está prestes a tornar-se novam ente.” ( KNOX, 1971, 182-3, grifos nossos)
Na tragédia de Ésquilo, são os irm ãos do Titã que ressaltam , m edrosos, os lim ites im postos pela lei de Zeus. E Herm es, o m ensageiro do deus olím pico, debocha da infeliz com binação de orgulho com im potência e sofrim entos. Com
efeito, Ésquilo faz de Prometeu acorrentado a im agem engrandecida e divinizada de
um a dim ensão essencial da condição hum ana — a do “ser incuravelm ente de-sam parado e ferido” ( KERÉNYI, 1959, p.35 ss) . Prom eteu é o “irm ão” da hum a-nidade na m edida que suporta o sofrim ento ( suspenso a um a rocha nos confins extrem os da terra, vv. 15-24 [ KERÉNYI, 1959, p.90] ) sem abdicar de suas obsti-nadas pretensões. Esta m istura de força e desam paro torna particularm ente to-cante — e “hum ana” — sua im perturbável confiança na reviravolta longínqua.
habitantes do palácio e os cidadãos de Tebas ocultam na sua m em ória. Hölderlin assinala que o pensam ento de Édipo se tornou “inseguro” porque está “sobre-carregado por tristes segredos” ( FHA 253) e sofre de intuições ou “adivinhações
iradas” (zornige Ahnung, FHA 252 ) para além da com preensão. Édipo é ao m esm o
tem po o herói ativo, cru e irado13 e a vítim a de um obscuro assom bro. O que
atorm enta Édipo é um saber que o entendim ento finito “não pode carregar, nem com preender” ( FHA 253) , um saber que inspira um pavor surdo e inarticulado, subtraído à representação. Este tipo de pavor tem todas as características do m edo
im ediato e inom inável, do Grauen que não se m anifesta em im agens disponíveis
para um a elaboração cognitiva, m as que se m anifesta por reflexos quase corpo-rais de retração e de agressividade, de rechaço e defesa im ediatos.
Recebido em 9/ 3/ 2005. Aprovado em 13/ 4/ 2005.
1 3 As “ Observações” de Hölderlin pontuam o texto com os seguintes com entários:
“ No afã irado de adivinhar e intuir, o espír ito de Édipo profere o nefas [ atribuindo um sentido particular à palavra sagrada] . Por isto, no diálogo seguinte com Tirésias, a m aravilhosa curiosi-dade irada, porque o saber, quando rom peu sua fronteira, se atiça, [ … ] para saber m ais do que pode carregar e conter-com preender.”
Por isto, na cena com Creonte, logo após, a suspeita, porque o pensam ento indom ado e carre-gado pelo peso de tristes segredos torna-se inseguro, e [ porque] o espírito fiel e m eticuloso sofre na desm edida irada, a qual, alegre de destruir, apenas segue o tem po torrencial. … quando Édipo está novam ente tentado a viver, inicia o com bate desesperado para voltar a si m esm o, o esforço brutal e quase despudorado de dom inar-se a si m esm o, a procura louca-m ente selvagelouca-m por ulouca-m a consciência....
Justam ente este esforço que tudo procura, tudo interpreta, faz com que o espírito sucum ba, no final, à linguagem rude e sim ples dos seus servos.
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