FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA
CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
A LOGÍSTICA MILITAR E O SERVIÇO DE INTENDÊNCIA: UMA ANÁLISE DO PROGRAMA EXCELÊNCIA GERENCIAL DO
EXÉRCITO BRASILEIRO
DISSERTAÇÃO APRESENTADA À ESCOLA BRASILEIRA DE
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE
MÁRCIO ALEXANDRE DE LIMA BRAZ
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA
CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
A LOGÍSTICA MILITAR E O SERVIÇO DE INTENDÊNCIA: UMA ANÁLISE DO PROGRAMA EXCELÊNCIA GERENCIAL DO
EXÉRCITO BRASILEIRO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA POR MÁRCIO ALEXANDRE DE LIMA BRAZ
E APROVADA EM
PELA COMISSÃO EXAMINADORA
______________________________________________________
PAULO EMÍLIO MATOS MARTINS
Doutor em Administração
______________________________________________________
ALEXANDRE LINHARES
Doutor em Pesquisa Operacional
______________________________________________________
ALAELSON VIEIRA GOMES
AGRADECIMENTOS
Ao Professor Paulo Emílio Matos Martins, pela inestimável orientação na elaboração deste trabalho.
À Professora Deborah Moraes Zouain, pelo apoio e incentivo demonstrados na coordenação do Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa.
A Nilsa e Francisco, por terem se preocupado, antes de tudo, com minha saúde e minha felicidade.
A Sandra Lopes de Lima, pela companhia e ajuda espontânea na formatação e revisão do texto.
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE QUADRO
LISTA DE GRÁFICO
LISTA DE FIGURAS
Figura 3.1 – Evolução do Pensamento Logístico... 37
Figura 3.2 – A integração logística ... 42
Figura 3.3 – A integração da cadeia de suprimentos... 43
Figura 4.1 – Concepção Sistêmica do Exército... 47
Figura 5.1 – Subsistemas do Sistema Logístico ...... 66
Figura 6.1 – Fluxo de ações do modelo de implantação do PEG-EB...... 84
Figura 6.2 – As Bases do SIMATEx...... 93
Figura 7.1 – Organograma do D Log...... 101
Figura 7.2 – Organograma da Diretoria de Subsistência...... 103
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO...... 11
CAPÍTULO 2 O PROBLEMA E A METODOLOGIA...... 18
2.1OPROBLEMA... 18
2.1.1Objetivos... 19
2.1.2Delimitação do Estudo... 19
2.1.3Relevância do estudo......... 20
2.2AMETODOLOGIA...22
2.2.1Tipo de Pesquisa....... 22
2.2.2Coleta de Dados......... 22
2.2.3Tratamento dos Dados....... 23
2.2.4Limitações do Método....... 24
CAPÍTULO 3 LOGÍSTICA: O ESTADO DA ARTE...26
3.1ORIGEM DA LOGÍSTICA... 26
3.1.1 Impacto dos fenômenos econômicos e tecnológicos na logística...... 30
3.2 AEVOLUÇÃO DO PENSAMENTO LOGÍSTICO... 36
3.3LOGÍSTICA INTEGRADA...40
3.3.1 Porque a logística precisa ser integrada...... 44
CAPÍTULO 4 BREVE HISTÓRICO DO SERVIÇO DE INTENDÊNCIA DO EXÉRCITO BRASILEIRO... 46
4.1OEXÉRCITO BRASILEIRO...46
4.2ALOGÍSTICA MILITAR TERRESTRE...49
4.3OSERVIÇO DE INTENDÊNCIA DO EXÉRCITO BRASILEIRO...53
4.3.1 A origem da Intendência... 53
CAPÍTULO 5
CONCEPÇÃO DA LOGÍSITCA MILITAR TERRESTRE E AS FUNÇÕES
LOGÍSTICAS DO SERVIÇO DE INTENDÊNCIA...... 64
5.1CONCEPÇÃO DA LOGÍSTICA MILITAR TERRESTRE:LOGÍSTICA ORGANIZACIONAL E LOGÍSTICA OPERACIONAL...65
5.2FUNÇÕES LOGÍSTICAS... 69
5.2.1 A Função Logística Suprimento...... 71
5.2.2 A Função Logística Transporte... 76
CAPÍTULO 6 MODERNIZAÇÃO DA LOGÍSTICA MILITAR TERRESTRE..... 79
6.1 OPROGRAMA EXCELÊNCIA GERENCIAL DO EXÉRCITO BRASILEIRO... 81
6.1.1 O Modelo de Gestão do PEG-EB......83
6.2NOVA SISTEMÁTICA DE CATALOGAÇÃO DO EXÉRCITO...91
6.2.1 Concepção do Sistema de Material do Exército (SIMATEx)...... 92
6.2.2 O Desenvolvimento do SIMATEX......... 95
CAPÍTULO 7 LOGÍSTICA INTEGRADA NO EXÉRCITO BRAILEIRO: A CRIAÇÃO DO DEPARTAMENTO LOGÍSTICO... 96
7.1ODEPARTAMENTO LOGÍSTICO...98
7.1.1 O Processo de Implantação do DLog......,... 98
7.1.2 Organização e Atribuições do DLog......... 100
7.1.3 A Diretoria de Suprimento e a Diretoria de Transporte e Mobilização do D Log... 102
7.2IMPACTOS DA IMPLANTAÇÃO DO DLOG NO EXÉRCITO E NO SERVIÇO DE INTENDÊNCIA...105
CAPÍTULO 8 CONCLUSÃO...107
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
Este trabalho trata da Logística Militar, uma área da Administração que, a semelhança do que ocorre nas organizações empresariais, atualmente absorve grande parte das atividades de diversas Unidades do Exército Brasileiro. Uma área que é essencial no atendimento aos clientes e se tornou decisiva para a estratégia organizacional. Ela tem recebido ao longo dos anos várias denominações, tais como distribuição física, administração de materiais e serviços, gerenciamento dos transportes e da cadeia de suprimentos, dentre muitas outras. As atividades a serem gerenciadas na Logística podem incluir todas ou parte das seguintes funções: transportes, controle e manutenção de estoques, suprimento, processamento de pedidos, aquisição, armazenagem, manuseio de materiais e padrões de serviços ao cliente.
Em uma organização como um todo e em todas as suas áreas específicas, o meio de alcance dos seus objetivos é o processo administrativo de planejamento, organização, direção, coordenação e controle, desenvolvido por quase todos os autores clássicos (FAYOL, 1950; GULICK e URWICK, 1937). Dentre as áreas específicas, nos últimos tempos, a área de logística vem ganhando destaque pela movimentação de produtos tangíveis e intangíveis dentro e entre organizações. É pauta atualmente das principais discussões empresariais e acadêmicas, visto que é peça-chave do sucesso organizacional. Não se trata apenas de uma fase do processo administrativo, mas de diferencial competitivo, relacionado diretamente à redução de custos e ao aumento do nível de serviço prestado aos clientes (CHRISTOPHER, 1997; NOVAES, 2001; RIBEIRO, 2003).
Inúmeros foram os conceitos referentes ao termo “logística” ao longo da história e muitas são as definições do vocábulo, certamente todas elas sujeitas à crítica. E é normal que seja assim, pois a logística abrange um grande número de atividades, com características bem diferentes umas das outras, de maneira que tentar colocá-las numa só chave e daí estabelecer uma definição para o termo, não é tarefa fácil.
obtenção, armazenamento, transporte, distribuição, reparação, manutenção e evacuação de material para fins operativos e administrativos (...)”. Esta definição de dicionário põe a logística no contexto militar. No entanto, tratá-la de forma mais ampla, nos mais diversos ramos de atividades, além dos militares, seria fundamental para o entendimento daquilo que Martins (2004) denominou de pensamento logístico1. A evolução deste pensamento será abordada e analisada no capítulo 3, descrevendo o termo desde sua origem, até os mais modernos conceitos existentes na literatura pesquisada.
Seria muito provável que, caso houvesse a conveniência das pessoas viverem próximas dos lugares em que estivessem as matérias-primas e a produção de bens e serviços, a logística seria esvaziada de sua importância. Todavia, o fenômeno da globalização gerou, e gera cada vez mais, o rompimento das fronteiras entre países, fazendo com que fornecedores e consumidores estejam em lugares muito distantes.
Assim, uma região especializa-se na produção daquilo que tiver maior vantagem econômica, fato que cria uma significativa distância de tempo e espaço entre matérias-primas/produção e entre produção/consumo.
A importância da logística, portanto, está na sua missão de aproximar as mercadorias e os serviços onde se encontram os consumidores, no instante em que são buscados e nas condições que satisfaçam ao adquirente, construindo uma relação custo/ benefício satisfatória.
Atualmente, as intensas e rápidas mudanças que atuam no ambiente das organizações já são rotinas. A busca por novas informações, em tempo real, é o objetivo de todas as corporações, que não desejam ser surpreendidas por inovações de seus concorrentes.
Algo parecido acontece nas organizações militares. A principal diferença seria o fato de que estas, em princípio, não possuem concorrentes e não estão sujeitas a fechar por falência administrativa, como ocorre com as organizações empresariais. Por outro lado, a conjuntura nacional de escassez de recursos sugere a necessidade de uma atualização ou de adaptação dos meios de administração de material com a finalidade de continuar cumprindo suas missões com cada vez menos recursos disponíveis.
1 O professor Paulo Emílio Matos Martins, orientador deste trabalho, ressaltou, em depoimento a este
É sabido que o mundo viveu, no século XX, mais precisamente após o término da II Guerra Mundial, um período intenso de conflitos. As guerras Árabe-Israelenses, a guerra do Vietnã, a guerra Irã-Iraque, a guerra das Malvinas, a guerra do Golfo, o conflito dos Bálcãs e a guerra no Afeganistão são exemplos desse período.
Observando esses episódios, nota-se que seu desfecho nem sempre pendeu para o lado do contendor supostamente mais forte. Da mesma forma, verifica-se que enquanto algumas guerras duraram poucas semanas, outras se prolongaram por vários anos. Nos últimos conflitos, observa-se também que alguns exércitos foram surpreendidos por seus adversários quanto ao desenvolvimento tecnológico de seus meios de combate ou apoio ao combate. As táticas de combate adotadas na última grande guerra foram novamente aplicadas com sucesso em algumas situações e ao mesmo tempo, outras vezes, foi a razão de seu fracasso. Diante disto, conclui-se que o combate nos dias atuais adquiriu características especiais.
O campo de batalha atual é fluido e dinâmico e o fluxo da informação se mostra fundamental para o comando. A concentração de pessoal e material adequado no local certo e no momento oportuno garante poder de combate superior ao do opositor. O inimigo, por vezes difuso, e os sofisticados equipamentos empregados orientam as novas técnicas de combate. A perfeita sincronização das ações de todos os sistemas operacionais, utilizados com perfeita eficiência, pode conduzir os acontecimentos no campo de batalha, reduzindo assim, as surpresas de combate.
Acompanhando a revolução tecnológica de materiais e de idéias, a doutrina de emprego da Força Armada terrestre brasileira, o Exército, antes atrelada aos países mais desenvolvidos, evoluiu e vem adquirindo características próprias, adequadas ao cenário mundial, compatíveis com a nação brasileira e com ele próprio. A Instituição vem, sistematicamente, modernizando seus sistemas de armas, sua doutrina, sua organização e seu ensino.
Neste contexto, o Sistema Logística, integrante do Sistema Exército, adquiriu uma posição de relevo na solução dos problemas de apoio às forças militares e tornou-se um importante fator de manobra no curso das operações. O principal manual de logística do Exército, o C 100-10 (Logística Militar Terrestre) evidencia assim a posição da logística no quadro das operações militares:
Estratégia e a Tática, o fator determinante das vitórias e derrotas, evidenciando que o resultado final das operações será claramente influenciado por ela e pela capacidade de melhor executá-la”. (BRASIL, 2002, p.1-1)
Neiva Filho (2001, p. 6) destaca também a importância da logística no curso das ações militares.
“... a logística poderá tornar-se uma séria limitação às operações se não tiver capacidade de atender às necessidades dos sistemas operacionais. Por outro lado, será um multiplicador do poder de combate e da mobilidade dos exércitos, se gerida de forma eficaz. O gerenciamento da logística deverá ser encarado como um dos grandes fatores de eficiência da Força Terrestre tanto em tempo de paz, quanto na guerra”.
Com base nesse pensamento, a partir do início dos anos 90, a doutrina de logística foi assunto de estudos continuados no Estado-Maior do Exército (EME) e nos estabelecimentos de ensino do Exército, particularmente na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), que freqüentemente sugerem atualizações nos manuais que tratam de logística. Da mesma forma, notou-se a necessidade de estruturar a logística da Força Terrestre em tempo de paz, o mais próximo do exigido em tempo de guerra. A partir daí, o Exército Brasileiro deu um novo enfoque sistêmico à sua logística após a aprovação do Manual de Campanha Logística Militar Terrestre, em 1993.
Para a Força, a Logística Militar Terrestre passou a ser assim definida: “conjunto de atividades relativas à previsão e à provisão de meios necessários ao funcionamento organizacional do Exército e às operações da Força Terrestre”. (BRASIL, 2002, p.2-1).
logísticas do Exército.
Ainda no início deste século, a Logística Militar Terrestre continua sofrendo transformações expressivas, identificadas por mudanças na estrutura organizacional em diferentes níveis, pela adoção de concepções doutrinárias de emprego e pela preparação adequada do homem, tudo isso para se ajustar às exigências do mundo moderno, caracterizado pelo dinamismo, rapidez e flexibilidade.
Uma alteração doutrinária de forte impacto na atual concepção da logística militar diz respeito às atividades de emprego do Exército. Estas, que antes eram regidas por serviços técnicos, como os de Material Bélico e Intendência, passaram a ser organizadas por funções logísticas, tais como: Recursos Humanos, Saúde, Manutenção, Suprimento e Transporte. O capítulo 5 aborda principalmente as funções Suprimento e Transporte, por serem entendidas como aquelas de maior relevância para o Serviço de Intendência, desenvolvidas a partir do novo enfoque sistêmico dado pelo Exército à sua logística. Apresenta também comentários de visitas realizadas em duas das mais importantes Unidades do Exército Brasileiro, o 1º Depósito de Suprimento e o Estabelecimento Central de Transportes, específicas das respectivas funções logísticas em destaque.
Certamente, a Logística está direta ou indiretamente presente entre as prioridades do Exército para a consecução dos seus objetivos. Em meio a crises econômicas regionais e mundiais, os recursos materiais mostram-se cada vez mais escassos e a compatibilidade entre necessidade e disponibilidade pende por vezes para o lado das necessidades. Por isso, a aplicação de estratégias de melhoria de gestão se faz cada vez mais necessária.
Buscando manter-se atualizado em suas práticas de gestão, o Exército estabeleceu como prioridade a implementação de um novo programa, denominado Programa Excelência Gerencial do Exército Brasileiro (PEG-EB), visando alinhar e coordenar as diversas iniciativas de melhoria da gestão já vigentes em algumas organizações militares, bem como conciliar suas práticas de gestão com as empregadas por várias organizações empresariais e públicas do país.
gestão que decorra na otimização de resultados, seja do emprego de recursos, ou dos processos, produtos e serviços a cargo da Instituição.
Além do Programa Excelência Gerencial, será apresentado no capítulo 6 outro fator preponderante para o avanço da logística militar terrestre nos últimos anos: a implantação do Sistema de Material do Exército (SIMATEx), um moderno sistema de controle de material responsável por obter dados a respeito de qualquer tipo de material existente na Força. O SIMATEx é uma importante ferramenta na Logística da Força para a busca da excelência gerencial e, principalmente, dos seus principais objetivos: a melhoria do desempenho organizacional e a satisfação dos seus clientes.
Vale destacar, ainda, que a operacionalização da logística por atividades funcionais em detrimento dos serviços técnicos representa apenas um dos aspectos da logística militar moderna. Seu novo papel, mais amplo, é o da integração e coordenação. Certamente, o emprego dos serviços técnicos de forma isolada, sem levar em conta o processo no qual estão inseridos e a interdependência que há entre eles, aumentava custos e restringia o apoio logístico às tropas. Somente uma abordagem integrada para a logística viria a minimizar estas falhas, permitindo que o processo logístico seja visto como um canal de atividades interrelacionadas.
O capítulo 7 apresenta como a abordagem da Logística Integrada, utilizada por muitas organizações empresariais, está sendo aplicada no Exército. No entendimento deste autor, o Departamento Logístico (D Log), criado em janeiro de 2001, é o mais importante vetor do Exército Brasileiro na busca de uma abordagem integrada para sua logística. Ele é o órgão de direção setorial responsável pela logística do material de todas as organizações militares, cuja principal finalidade é coordenar, de forma centralizada, grande parte das funções logísticas relativas ao emprego da Força Terrestre.
A questão principal da abordagem integrada é fazer com que cada unidade técnica, seja a Intendência, o Material Bélico, ou a própria organização militar, de qualquer Arma, não seja vista como uma peça isolada, mas como um elo crítico para o sucesso de toda a cadeia. O desempenho de cada unidade técnica continua importante, mas jamais deve se sobrepor ao trabalho em equipe e à integração. Esse é um dos pensamentos que encerra o presente estudo, no capítulo 8, onde se apresentam as conclusões.
Ao final deste capítulo introdutório, oportuno se faz o pensamento de José Antonio Valle Antunes Júnior, gerente da Produttare Consultores Associados e professor de Ciências Econômicas da Unisinos (apud Ballou, 2001, p.7):
A aplicação de conceitos sem que estejam disponíveis as ferramentas específicas ou o uso de ferramentas sem o entendimento conceitual das questões da logística tende a conduzir, respectivamente, ao conhecimento estéril ou a tentativas infrutíferas de resolver problemas dessa área. Daí a importância dos profissionais de logística, sejam do governo, de universidades e de empresas, apresentarem suas experiências, a fim de contribuir para o enriquecimento da arte e para o desenvolvimento integrado das organizações que atuam no Brasil. É bem verdade que os conceitos de logística já são divulgados a mais de uma década no país, entretanto, sua aplicação pode ser ainda considerada extremamente limitada.
CAPÍTULO 2
O PROBLEMA E A METODOLOGIA
“Conhecimento é construção e construção é
processo que admite múltiplos conteúdos e
variados enfoques”.
Sylvia Vergara
O objetivo deste capítulo é apresentar ao leitor o problema a ser pesquisado, os objetivos a serem alcançados para respondê-lo, a delimitação e a relevância do estudo. Apresenta também a metodologia utilizada para buscar atingir os objetivos propostos.
2.1 O PROBLEMA
A Logística Militar Terrestre, integrante do sistema Exército, está sofrendo transformações significativas, identificadas por mudanças na estrutura organizacional em diferentes níveis, pela adoção de concepções doutrinárias de emprego e pela preparação adequada do homem. A nova concepção do apoio logístico da Força Terrestre traz, em sua essência, os aspectos genéricos de uma estrutura logística bastante realista, voltada para a utilização das organizações militares já existentes, para a compatibilização com os possíveis cenários de emprego do Exército e para a mobilização.
O Programa Excelência Gerencial do Exército Brasileiro (PEG-EB) foi estabelecido com o intuito promover práticas gerenciais que conduzam a um melhor desempenho operacional e à melhoria da qualidade dos produtos e serviços da Instituição, tendo por base a capacitação de seus recursos humanos, o gerenciamento de projetos e o permanente estímulo para motivação de todos os integrantes do Exército.
sistema econômico-financeiro, quer executando atividades inerentes ao sistema logístico.
Nesse sentido, formula-se a seguinte questão: A partir da análise do Programa Excelência Gerencial do Exército Brasileiro e dos modelos de gerenciamento logístico praticado pelas organizações, quais os principais vetores que contribuem para a modernização da Logística Militar Terrestre, notadamente aqueles relativos ao Serviço de Intendência?
2.1.1 Objetivos
O objetivo final deste estudo é analisar, tendo por base o Programa Excelência Gerencial do Exército Brasileiro, algumas das medidas adotadas pela Força, bem como suas eventuais contribuições, para o processo de modernização do seu sistema logístico, principalmente aquelas relativas ao Serviço de Intendência.
Objetivos Intermediários foram levantados como passos para atingir o objetivo final, os quais são:
• Descrever a origem da Logística e analisar a evolução do pensamento teórico sobre logística militar;
• Descrever a origem do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro, bem como levantar aspectos de importância histórica que determinaram a posição e o valor da Intendência no âmbito da Logística;
• Analisar como está estruturado o Programa Excelência Gerencial - EB, implementado a partir de 2003, bem como suas implicações para a atual concepção da Logística Militar Terrestre e sua eficácia.
2.1.2 Delimitação do estudo
diz respeito à identificação das funções e atividades logísticas. Assim, não serão objeto deste estudo as logísticas militares dessas Forças.
O sistema logístico militar tem o objetivo de prever, prover e manter os meios em recursos humanos, recursos materiais e serviços, desempenhando todas as funções logísticas necessárias de acordo com a situação vigente, de paz, crise ou guerra (BRASIL, M.D., 2004). A fim de salvaguardar o caráter sigiloso das operações militares, serão estudadas apenas atividades logísticas em tempo de paz, de caráter ostensivo e inerentes a qualquer organização que emprega atividades logísticas em seu funcionamento. As informações contidas neste trabalho foram selecionadas a partir de ampla pesquisa documental e bibliográfica, realizada em livros, revistas, sites e outras fontes acessíveis ao público em geral.
Por fim, cabe ressaltar que as atividades logísticas do Exército Brasileiro são exercidas, principalmente, pelo Serviço de Intendência, pelo Quadro de Material Bélico e pelo Serviço de Saúde. No entanto, será dada ênfase aos assuntos relativos ao funcionamento, organização e emprego do Serviço de Intendência, por ser considerado este o instrumento principal de execução das principais atividades logísticas da Força Terrestre.
2.1.3 Relevância do estudo
O mundo assiste atento, ao avançar do novo milênio, às rápidas mudanças ambientais que desafiam as organizações, além da tradicional diferenciação dos produtos solicitada pelos próprios clientes, das especificações complexas de produto e dos volumes reduzidos de produção. Tudo isso, fazendo frente à internacionalização da concorrência, a uma sociedade informatizada, à necessidade de respeitar o ambiente e ao caráter social das suas próprias atividades. Disso decorrem reestruturações radicais nas organizações, novas formas de organização e novos modelos de gerenciamento.
público interno, entendidos aqui como características fundamentais para a modernização de sua logística.
Para as forças militares, a logística adquiriu, pela sua destacada atuação na solução de complexos problemas de apoio, posição de destaque nas operações, passando a ser considerada como um dos “fundamentos da arte da guerra”. Em várias oportunidades, foi a logística, mais do que a estratégia e a tática, o fator determinante de vitórias e derrotas, evidenciando que o resultado final das operações é claramente influenciado por ela e pela capacidade de melhor executá-la.
Para a Administração Pública, o presente estudo apresenta significativa relevância, na medida que um sistema logístico militar integra duas realidades extremamente complexas: homem e instituição. Para essas organizações, isso exige a compreensão de fatores como desempenho, valorização das pessoas, melhoria e aprendizado contínuos e satisfação do público interno, entendidos aqui como características fundamentais para a modernização de sua logística.
2.2 A METODOLOGIA
2.2.1 Tipo de Pesquisa
Segundo Vergara (2003), existem diversas taxionomias de tipos de pesquisa, de acordo com os critérios utilizados pelos autores. Dois critérios básicos são propostos: quanto aos fins e quanto aos meios.
Quanto aos fins, esta pesquisa é descritiva e explicativa. Descritiva, porque expõe os fundamentos da logística militar e empresarial, bem como define o emprego e as características do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro, colhidos nos manuais, publicações e demais documentos a respeito de assunto. São ainda pesquisados procedimentos e estratégias descritos a partir das informações, percepções e expectativas dos diferentes profissionais que atuam no ramo. A investigação explicativa tem como principal objetivo esclarecer quais os fatores que contribuem para o processo de modernização do sistema logístico militar pretendido pelo Exército, principalmente aqueles relativos ao seu Serviço de Intendência.
Quanto aos meios, a pesquisa é bibliográfica e documental. Bibliográfica porque recorre a material acessível na literatura, sejam livros, teses ou jornais, para compor o cenário da logística nas organizações e destacar a importância desta para as mesmas. Documental, no que se refere às publicações técnicas específicas e diretrizes de caráter militar e dirigidas ao funcionamento e organização das atividades logísticas do Exército.
2.2.2 Coleta de dados
O critério para a coleta de dados na pesquisa bibliográfica levou em consideração textos considerados clássicos a respeito de atividades logísticas organizacionais como um todo, textos atuais com novas contribuições, artigos sobre experiências de campo na área logística, bem como teses e dissertações associadas ao assunto.
como: manuais, regulamentos, portarias, diretrizes e noticiários expedidos pela Força, listados na Bibliografia.
2.2.3 Tratamento dos dados
Segundo Gil (1987), o conhecimento científico é simultaneamente provisório e confiável. Provisório porque deve submeter-se à contínua revisão, à crítica constante, à permanente contestação e à confrontação, por meio do retorno à realidade, uma vez que uma construção é sempre parcial. Confiável, porque, obedecendo ao método, será sempre a maior aproximação possível com a realidade até o momento presente.
Apesar da logística poder estar comumente associada a números e métodos quantitativos, em função da natureza do problema - ligado essencialmente à logística organizacional, uma atividade que envolve a interação de processos e pessoas - o tratamento dos dados neste estudo privilegia procedimentos qualitativos de pesquisa.
De acordo com os objetivos estabelecidos para este ensaio, foram elencadas as características atuais da Logística Militar Terrestre e do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro, identificadas as transformações que vêm sofrendo as organizações militares, sobretudo nas atividades logísticas e, em seguida, descritos fatos que visaram contribuir para o processo de modernização do sistema logístico da Força Terrestre.
Um dos grandes entraves ao real desenvolvimento da administração tem sido o caráter etnocêntrico das suas abordagens teóricas. De fato, quase que a totalidade das teorias administrativas foram elaboradas considerando as condições específicas das sociedades ocidentais desenvolvidas, principalmente dos Estados Unidos (Serva, 1992). No caso da formação de administradores no Brasil, historicamente aquele país foi a grande matriz do conhecimento transmitido pelas escolas, ratificada por meio de convênios entre os governos brasileiro e norte-americano.
Segundo Leiner (1997), a antropologia foi a primeira ciência humana a introduzir o pesquisador como parte integrante do universo pesquisado. Nos períodos de colonização européia nas Américas, pesquisas de antropólogos com nativos eram desenvolvidas, quase que inteiramente, a partir de inquéritos com poucos informantes bilíngües, ou com questionários aplicados com o auxílio de tradutores. Utilizava-se também a observação direta do comportamento dos nativos, ainda que de maneira breve e superficial. Com o tempo, passou-se a viver por períodos maiores nas aldeias, com os povos primitivos, enquanto se realizava observações, fundando assim o que hoje se denomina observação participante.
A observação participante refere-se, portanto, a uma situação de pesquisa onde o observador e observados encontram-se numa relação face a face, e onde o processo de coleta de dados se dá no próprio ambiente natural de vida dos observados, que passam a ser vistos não mais como objetos de pesquisa, mas como sujeitos que interagem em um dado projeto de estudos.
Este estudo buscou, ao máximo, a utilização do método da observação participante, procurando colher dados relevantes para a pesquisa no próprio ambiente natural de vida dos observados, ou seja, nas organizações militares logísticas do Exército, tendo em vista que o pesquisador, além de pertencer a esta Instituição, exerce suas atividades profissionais na área de Logística.
2.2.4 Limitações do método
O método está limitado pela seleção de um tema referente à atividade militar. As organizações militares possuem obviamente peculiaridades que as diferenciam das demais organizações, seja, por exemplo, pela natureza pouco conhecida da atividade, pelo caráter sigiloso de algumas atividades, ou pelo uso de terminologias específicas, dentre outros. Por isso, alguns aspectos que até poderiam ser de interesse para a pesquisa, deixaram de ser analisados.
atividades que realizam, especialmente a logística, comum a tantas outras formas de organização.
Outro fator limitador diz respeito especificamente à análise da atividade logística nas organizações militares e, em particular, no Exército. Para um profissional de logística empresarial, ou detentor de relativo conhecimento na área, determinadas variáveis ou técnicas abordadas podem gerar uma sensação de anormalidade a respeito de outras por ventura existentes em organizações que não serão investigadas pelo pesquisador. Acredita-se que tais riscos serão minimizados com a observação e posterior análise da atuação dos profissionais que prestam serviços em diferentes organizações militares, de caráter eminentemente logístico, cujas atividades venham a coincidir ou assemelhar-se às praticadas pelas organizações em geral. Espera-se, ainda, que a experiência do pesquisador tanto na área logística como no ambiente militar auxilie na fundamentação prática das propostas por ventura apresentadas.
CAPÍTULO 3
LOGÍSTICA: O ESTADO DA ARTE
“[Na] diversidade de visões da racionalidade que preside
a ação administrativa, o enfoque etnográfico, vale dizer,
semiológico e histórico, parece destacar-se como
indissociável de qualquer estudo que se proponha ver
além do mundo aparente e ilusório dos processos e de
outras formas de estruturação lógica dos sistemas
organizacionais”.
Paulo Emílio M. Martins
Trata este capítulo de apresentar estudos já realizados por outros autores sobre a Logística, destacando sua origem, evolução e atualidades, bem como abordando alguns eventos de importância histórica, como a revolução da microeletrônica e a globalização, que influenciaram no desenvolvimento da Logística até os dias atuais.
3.1 A ORIGEM DA LOGÍSTICA
deriva da palavra grega logistikos, que teve acepção, na era clássica, de “método de vida” ou modo de viver (DEL RE, 1955; CAMINHA, 1982; CAMPOS, 1952).
Segundo Del Re (1955), a primeira utilização do vocábulo “logística”, dentro da Ciência da Guerra, foi realizada, em 1836, pelo general suíço Antoine-Henri Jomini no seu livro Precis de L’Art de La Guerre, quando sintetizou os três ramos da arte da guerra como sendo a estratégia, a tática e a logística, cabendo ao último a responsabilidade pelo fornecimento dos meios, a serem planejados e empregados pelos dois primeiros. A logística apresenta-se, então, como sendo a arte prática de mover exércitos, de dispor pormenores materiais das marchas e formações, de montar acampamentos ou acantonamentos longe do inimigo.
Tudo indica que Jomini inspirou-se no título de major général des logis – atribuído ao oficial francês encarregado de prover alojamento, suprimento, dirigir as marchas e colocar as colunas das tropas francesas no terreno - para criar uma primeira definição de logística militar como sendo tudo ou quase tudo, no campo das atividades militares, exceto o combate (DEL RE, 1955).
Entretanto, segundo Taguchi (1999), a Logística só passou a ser entendida como ciência, após as teorias desenvolvidas pelo Tenente-Coronel Cyrus G. Thorpe, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA que, no ano de 1917, publicou o livro Logística
Pura: a ciência da preparação para a guerra. No decorrer do texto da obra, a logística
é elevada ao mesmo nível de importância da estratégia e da tática, por proporcionar os meios necessários aos dois ramos responsáveis pela condução das operações militares.
No início do século XIX, Carl von Clausewitz, general prussiano, escreveu um verdadeiro tratado sobre princípios de guerra, sugerindo como administrar os exércitos em períodos de guerra. É considerado grande inspirador de muitos teóricos da Administração que posteriormente se basearam na organização e estratégia militares para adaptá-las à organização e estratégia empresariais. Ao terminar as partes referentes à estratégia e a tática de sua obra, afirma:
ele ligadas, outras vezes, menos próximas. Todas essas atividades, porém, se relacionam com a manutenção da tropa (1832, apud LANNING, 1999, p.59).
Entre as atividades citadas por Clausewitz estão as subsistências, a administração, o tratamento das doenças, o reparo das armas e do equipamento e a construção das fortificações, mas, em nenhum momento, empregou o termo “logística”.
Del Re (1955) afirma que, após o seu pioneiro emprego em 1836 com o sentido militar atual, o termo “logística" caiu no esquecimento. Napoleão Bonaparte, assim como os grandes generais que o precederam, nunca usou esse termo, não querendo isto dizer que Bonaparte nunca empregou a logística. Afirma ainda este autor que Napoleão “empregou-a e o fez genialmente” (p. 51), apenas não designou o conjunto das atividades dos serviços, com essa expressão genérica.
Para as forças militares, a logística adquiriu, pela sua destacada atuação na solução de complexos problemas de apoio, posição de destaque nas operações, passando a ser considerada como um dos “fundamentos da arte da guerra”.
A importância da logística e as lições que ela ensina são milenares e contundentes. Segundo Campos (1952), perto da totalidade dos grandes chefes militares que não seguiram seus princípios foram conduzidos ao fracasso, estando a história, inclusive a brasileira, repleta de exemplos. Um país precisa de um Exército preparado e adestrado para cumprir sua missão constitucional. Nessa missão, o profissional militar deverá estar qualificado para assegurar o correto emprego dos seus meios logísticos num ambiente sistêmico e extremamente complexo.
Como se pode observar, bem antes dos negócios mostrarem interesse em administrar as atividades logísticas de maneira coordenada, os militares estavam organizados para executá-las. Embora os problemas militares, com exigências rigorosas de “serviço ao cliente”, não se identificassem com os dos negócios, a similaridade foi grande o suficiente para fornecer uma base de experiência valiosa durante os anos de desenvolvimento da logística empresarial (BALLOU, 2001).
componentes e produtos acabados, começando dos fornecedores, passando através das empresas, até chegar aos consumidores.
Para a Society of Logisitics Engineers (apud Kobayashi, 2000) a Logística é uma técnica e, ao mesmo tempo, uma ciência que suporta a realização dos objetivos organizacionais, a promulgação dos mesmos e a consecução. Serve para o management, o engineering e as atividades técnicas nos termos solicitados, o projeto, o fornecimento e a preservação dos recursos.
Já Figueiredo (1998) afirma que Logística é um termo empregado pela indústria e pelo comércio para descrever o vasto espectro de atividades necessárias para obter um transporte eficiente dos produtos finais desde a saída da fabricação até ao consumidor. Essas atividades incluem o transporte das mercadorias, a armazenagem, o controle dos estoques, a escolha dos locais das fábricas e dos estoques intermediários, o tratamento das ordens de compra, as previsões de mercado e o serviço oferecido aos clientes.
Outra definição foi a promulgada pelo Conselho de Administração Logística (Council of Logistics Management), uma organização profissional de gestores de logística, professores e práticos, formada em 1962 com a finalidade de oferecer educação continuada e fomentar o intercâmbio de idéias (BALLOU, 2001, P.21):
Logística é o processo de planejamento, implementação e controle do fluxo eficiente e economicamente eficaz de matérias-primas, estoque em processo, produtos acabados e informações relativas desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o propósito de atender às exigências dos clientes.
logística é dispor a mercadoria ou o serviço certo, no lugar certo, no tempo certo e nas condições desejadas, ao mesmo tempo em que fornece a maior contribuição à empresa”
Pelo que a logística atualmente representa para as organizações pode-se afirmar que esta não é, como se pode pensar, somente a distribuição física de produtos e realização de serviços a diversos clientes. Ela envolve um campo mais vasto, cujo objetivo soberano é garantir o sucesso organizacional pelo aumento sucessivo do grau de satisfação dos seus usuários.
3.1.1 Impacto dos fenômenos econômicos e tecnológicos na logística
Para Fleury et al. (2000, p. 27), a “Logística é um verdadeiro paradoxo”. Apresenta-se como uma das atividades econômicas mais antigas e um dos conceitos gerenciais mais modernos. A partir do momento que o homem abandonou o extrativismo e iniciou as atividades produtivas organizadas, com produção especializada e troca de excedentes com outros produtores, surgiram três das mais importantes funções logísticas: estoque, armazenagem e transporte. A produção em excesso, ainda não consumida, vira estoque. Para garantir sua integridade, o estoque necessita de armazenagem. E para que a troca possa ser efetivada, seria necessário transportá-la do local de produção ao local de consumo.
Portanto, a função logística é muito antiga, e seu surgimento se confunde com a origem da atividade econômica organizada. O que vem fazendo da Logística um dos conceitos gerenciais mais modernos são, ainda segundo Fleury et al. (2000), dois conjuntos de mudanças, o primeiro de ordem econômica, e o segundo de ordem tecnológica. Mudanças econômicas decorrentes da globalização, dos menores ciclos de vida de produtos, maiores exigências de serviço e aumento das incertezas ou crises regionais - que tendem a espalhar-se numa escala mundial - criam novas exigências competitivas.
A exploração da Logística como arma estratégica resulta da combinação de sua crescente complexidade com a utilização intensiva de novas tecnologias. Na base dessas novas tecnologias está a revolução da Tecnologia de Informações, que vem marcando o cenário mundial nas últimas décadas. Combinadas, as aplicações de
hardware e software permitem otimizar o sistema logístico de qualquer organização,
que passariam a gerenciar de forma mais integrada e eficiente seus diversos componentes, quer sejam estoques, armazenagem, transporte e outros.
As mudanças ocorridas com a evolução da tecnologia de informação possibilitaram ampla modificação do modus operandi de diversas organizações, trazendo impactos positivos sobre o planejamento, a execução e o controle logístico.
A humanidade evoluiu em direção à sociedade do conhecimento e da informação, baseada na utilização sempre mais difusa dos computadores. A cada dia surgem novas descobertas em todos os campos do conhecimento. A concorrência é global e não conhece fronteiras; o movimento das populações é contínuo de uma parte à outra da Terra e constante é a preocupação para o futuro do planeta.
A economia mundial é caracterizada nos dias atuais pela troca e fluxo quase que instantâneos de informação, capital e comunicação. Esses fluxos regulam o consumo e a produção. A dependência dos indivíduos em relação aos novos modos de fluxo informacional dá um enorme poder de controle sobre a sociedade àqueles que estão em posição de controlá-los.
Castells (1999) afirma que vários acontecimentos de importância histórica têm mudado o panorama social da humanidade. Para ele, uma verdadeira revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado. As economias de todo o mundo passaram a manter uma interdependência global, apresentando o que chama de “uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade em um sistema de geometria variável” (p.22). O próprio capitalismo passa por um processo de gerenciamento, descentralização das organizações e nova disposição em redes, tanto internamente quanto em suas relações com outras organizações.
embora baseada nos conhecimentos já existentes e desenvolvidos como uma extensão das tecnologias mais importantes, representaram um salto qualitativo na difusão maciça da tecnologia em aplicações comerciais, civis e militares. O microcomputador, o comutador eletrônico, a fibra ótica e diversos sistemas operacionais surgiram e desenvolveram-se a partir desse período. Por fim, foi nesse período, mais precisamente em 1969, que a ARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada), do Departamento de Defesa norte-americano, instalou uma nova e revolucionária rede eletrônica de comunicação que se desenvolveu durante os anos 70 e veio a se tornar a espinha dorsal da comunicação global mediada por computadores, do século passado, e deste que ainda se inicia: a Internet.
A Internet é considerada por Castells (1999) uma rara mistura de estratégia militar, grande cooperação científica e inovação cultural. No geral, embora haja grande divergência na afirmação sobre o total de usuários conectados atualmente na Internet, há convergência, segundo Kobayashi (2000), de que ao fim dos anos 90 mais de 36 milhões de pessoas tinham acesso a ela e que, no início deste século, estimou-se um potencial de centenas de milhões de usuários em todo o mundo. A história do desenvolvimento da Internet, apesar de não se constituir objetivo deste trabalho, fornece material necessários para o entendimento das características técnicas, organizacionais e culturais dessa rede, abrindo caminho assim para a avaliação de inúmeros e significativos impactos sociais.
Tamanha é a revolução tecnológica defendida por Castells (1999) que este sugere a formação de uma Sociedade Informacional, do mesmo modo que estudiosos, à época, se referiam à Sociedade Industrial dos séculos XVIII e XIX, marcada por características comuns em seus sistemas sociotécnicos. No entanto, com algumas ressalvas: por um lado, as sociedades informacionais, como existem atualmente, são capitalistas (diferentemente das sociedades industriais, algumas delas eram estatistas); por outro, deve-se acentuar a diversidade cultural e institucional das sociedades informacionais. Citando inclusive o Brasil, Castells (1999, p.38) exemplifica a existência de sociedades informacionais:
desaparecer em um processo de não-diferenciação cultural. Nem a China, nem o Brasil serão fundidos no cadinho global do capitalismo informacional, ao continuarem seu caminho desenvolvimentista na alta velocidade do momento. Mas o Japão, tanto quanto a Espanha, a China, o Brasil e os EUA são e serão, ainda mais no futuro, sociedades informacionais, pois os principais processos de geração de conhecimentos, produtividade econômica, poder político/militar e a comunicação via mídia já estão profundamente transformados pelo paradigma informacional e conectados às redes globais de riqueza, poder e símbolos que funcionam sob essa lógica.
Em função dessa constante preocupação com as inovações tecnológicas do mundo atual e suas mudanças ambientais, estratégias de melhoria de gestão são implantadas por dirigentes de grandes corporações privadas. Nesse sentido, aumenta de importância a adoção de diversas práticas gerenciais que conduzam a um melhor desempenho dos processos, projetos, produtos e serviços. Fleury et al. (2000) cita que a cadeia de supermercados Pão de Açúcar investiu fortemente em processos de automação e comunicações, que lhe permitiram conectar-se eletronicamente com seus fornecedores. Da mesma forma, as Lojas Americanas, que até 1995 não possuíam nenhuma ligação Electronic Data Intercharge (EDI) partiram para um agressivo programa de interligação com seus principais fornecedores. Essa onda de investimentos indica a importância vital da logística para as empresas.
Para a administração pública não seria diferente. Fez-se necessário educar - ou reeducar - as pessoas e o modelo vigente. Para se reconstruir a administração pública foi fundamental a implementação de um modelo de gestão menos burocrático, mais empreendedor. Essa nova forma de gestão, segundo Pereira (2001), denominada
Administração Pública Gerencial, buscou condições para as organizações se adaptarem
No contexto da Administração Pública enquadram-se as organizações militares. Estas também buscam, de acordo com o novo modelo de gestão, acompanhar os avanços da ciência e da tecnologia. Novos uniformes, equipamentos mais modernos e armas de fogo cada vez mais eficazes desenvolvem-se a todo instante. Por isso, as inúmeras necessidades materiais colocam as considerações logísticas no mesmo nível das considerações de ordem tática e estratégica.
Certamente a era da informação criou raízes rapidamente, e sua presença foi tão marcante que hoje está consolidada. Mas esta disseminação da informação pelo mundo teve diversos efeitos profundos. Um deles, segundo Moura (2003), foi a mudança de uma economia nacional e fechada para uma global. Os clientes e competidores de uma empresa não estão mais em uma mesma cidade ou algum lugar de seu país: eles estão em qualquer parte do globo. Os automóveis, por exemplo, até pouco tempo chamados de “importados”, deixaram de sê-los. Os fabricantes de televisores japoneses conquistaram o mundo. A internet por si só dá aos consumidores mais alternativas e facilidades para a solicitação de pedidos cada vez mais rapidamente.
Em visita realizada por oficiais intendentes do Curso Intendência da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em outubro de 2004, na qual este pesquisador se encontrava presente, a uma empresa especializada em logística de transporte, a
VarigLog do Rio de Janeiro, foi verificado que, certa vez, esta empresa foi incapaz de
atender aos compromissos de entrega a seus clientes, resultando em muitos pedidos cancelados e determinando uma significante queda no faturamento. Não porque eles precisavam de mais informações, mas porque não conseguiram disponibilizar as peças certas, na quantidade certa, no momento certo.
Isto não é um problema de informação, é um problema logístico. Segundo informações colhidas de um dos gerentes da empresa, o transporte aéreo leva, em média, dois dias. No entanto, a carga gasta 90% deste tempo no solo e apenas 10% no ar. Uma carga chega a ser movimentada ou manuseada 36 vezes. Aeronaves mais rápidas não conseguiriam solucionar este problema.
3.2 A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO LOGÍSTICO
Em termos históricos, verifica-se que antes da década de 50 a responsabilidade organizacional pela logística estava dispersa por toda a empresa e que a estruturação logística como organização integrada apareceu pela primeira vez na década de 50 (BALLOU, 2001; BOWERSOX, 2001; MOURA, 1998). A partir dessa época, iniciou-se o deiniciou-senvolvimento do conceito logístico que hoje iniciou-se utiliza.
A cada momento, a prática da logística reflete e alimenta o pensamento logístico, em uma criativa interação entre o meio acadêmico e o meio organizacional. Mas o que seria o pensamento logístico? Segundo Fleury et al. (2000), são os conceitos e teorias que orientam o estudo e a pesquisa em Logística, influenciando o que se considera relevante e justificando as soluções propostas para os problemas logísticos. Em linhas gerais, o campo da Logística evoluiu de um tratamento mais restrito, voltado para a distribuição física de materiais e bens, para um escopo mais abrangente, em que se considera a cadeia de suprimentos em sua totalidade e as atividades de aquisição, administração de materiais e distribuição. Assim, não se limita a uma única função dentre as estudadas em Administração, como Marketing ou as Operações, mas representa, de fato, uma área de integração de distintos enfoques.
Em pesquisas realizadas com autoridades em Logística nas universidades americanas, os professores John Kent e Daniel Flint, citados por Fleury et al., 2000, estudaram a evolução do pensamento na área e apontaram cinco eras ou etapas principais. A figura 3.1 ilustra a evolução do pensamento logístico.
Figura 3.1 – Evolução do Pensamento Logístico (Kent e Flint, apud Fleury et al. , 2000) Fonte: Fleury et al. , 2000
Rotulada de “funções segmentadas”, a segunda era, estendendo-se de 1940 ao início da década de 70, sofre grande influência militar. Não é por acaso que o próprio termo “logística” tem raízes na movimentação e na garantia de abastecimento das tropas nas guerras. O pensamento logístico estava voltado, aqui, para a identificação dos principais aspectos da eficiência no fluxo de materiais, em especial as questões de
Era do “Campo ao Mercado” Economia agrária
Início do século XX até anos 40
Era do supply chain Logística como diferenciação
Anos 90 até hoje
Era do foco no cliente Busca por eficiência Anos 80 até meados dos anos 90
Era da integração interna Funções integradas Anos 70 até meados dos anos 80
Era da especialização Ênfase nos desempenhos
funcionais
armazenamento e transporte, tratadas separadamente no contexto da distribuição de bens.
A terceira era, denominada de “funções integradas”, vai do início da década de 70 até os primeiros anos da década de 80. Como seu nome indica, trata-se do começo de uma visão integrada nas questões logísticas, explorando-se aspectos como custo total e abordagem de sistemas. Pela primeira vez, o foco deixa de recair na distribuição física para englobar um espectro mais amplo de funções, sob a influência da economia industrial. É interessante observar que é neste período que se presencia o aparecimento, tanto no ensino quanto na prática da Logística de um gerenciamento consolidado das atividades de transporte de suprimentos e distribuição, armazenagem, controle de estoques e manuseio de materiais.
A era seguinte, estendendo-se do início dos anos 80 até meados dos anos 90, corresponde ao “foco no cliente”, com ênfase na aplicação de métodos quantitativos e qualitativos às questões logísticas, com o objetivo final de atender as necessidades e satisfazer as expectativas de seus clientes. Seus principais focos são as questões de produtividade e custos de estoque. É exatamente neste período que se irá identificar uma intensificação do interesse pelo ensino e pesquisa da Logística nas escolas de administração.
A quinta era, que vai de meados da década de 90 até o presente, tem ênfase estratégica, como indica o rótulo que lhe foi atribuído: “A logística como elemento diferenciador”. Identificada como a última fronteira empresarial em que se podem explorar novas vantagens competitivas, é ai que surge o conceito de Supply Chain
Management, cujo pano de fundo é a globalização e o avanço na tecnologia da
informação. Esse período implica e implicará maior preocupação com as interfaces, dentro das organizações, entre as diferentes funções, além de maior destaque das considerações logísticas no mais alto nível de planejamento estratégico das corporações.
A partir do início deste processo de integração, consolidado pela obtenção de significativos resultados relacionados ao aumento de produtividade e à melhoria do nível de serviço ao cliente, as empresas elegeram a logística como o instrumento de integração de toda a cadeia de negócios, envolvendo clientes, fornecedores e todos aqueles relacionados direta ou indiretamente com a mesma.
Ou seja, a necessidade de integração evoluiu de dentro para fora das organizações, constituindo, conforme afirma Moura (2003, p. 38), uma “rede de organizações integradas”, desde os fornecedores de matéria-prima até os consumidores finais. Esta constituição integrada se traduz na cadeia de abastecimento, que naturalmente se transformou na visão da logística moderna.
3.3 A LOGÍSTICA INTEGRADA
O período entre 1980 e 2000 foi marcado por grandes transformações nos conceitos gerenciais, especialmente no que toca à função de operações. O momento da qualidade total trouxe consigo um conjunto de técnicas e procedimentos como o Just in
Time (JIT), Kanban2 e o Controle Estatístico de Processo (CEP).
Amplamente adotadas em quase todos os países industrializados de economia de mercado, essas técnicas e procedimentos contribuíram para um grande avanço da qualidade e produtividade. Na trilha desse conjunto de mudanças, dois outros conceitos surgiram e vêm empolgando as organizações produtivas: a Logística Integrada e o Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos.
Na seção anterior deste ensaio, que abordou a evolução do pensamento logístico, verificou-se que a evolução da logística ocorreu de dentro para fora da organização (MOURA, 2003), por meio de estágios que se iniciam nas funções logísticas dispersas pela organização, passam pela integração interna sob gestão única e terminam por extrapolar as fronteiras da organização através da gestão da cadeia de suprimentos, onde há outras organizações participantes, e o foco nos elos de interação proporciona objetivos comuns, sempre buscando o maior nível de serviço aos clientes ao menor custo possível.
Dessa forma, verifica-se que a logística ocorre dentro e dentre organizações, caracterizando integração interna e externa. Segundo Bowersox (2001, p. 383): “a chave para se alcançar uma logística de classe mundial é obter a integração das operações, interna e externa”. Fleury et al. (2000, p. 37) também aborda tal questão:
A integração interna, ou seja, o gerenciamento integrado dos diversos componentes do sistema logístico, é uma condição necessária para que as empresas consigam atingir excelência operacional com baixo custo. Para atingir essa meta, as empresas necessitam conhecer muito bem os trade-offs inerentes a sua operação logística, e possuir sistemas e organização adequadas para tomar as decisões de forma integrada.
A integração externa, outra das dimensões da excelência logística, significa desenvolver relacionamentos cooperativos com os diversos participantes da cadeia de suprimentos, baseados na confiança, capacitação técnica e troca de informações. A integração externa pode eliminar duplicidade, reduzir custos, acelerar o aprendizado e customizar serviços. Essas duas dimensões da logística, interna e externa, são denominadas Logística Integrada e Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos, respectivamente. O primeiro deles, a Logística Integrada, despontou no começo da década de 80 e evoluiu rapidamente nos 15 anos que se seguiram, impulsionada principalmente, segundo Fleury
et al. (2000), pela revolução da tecnologia da informação e pelas exigências crescentes
de desempenho em serviços de distribuição, conseqüência dos movimentos da produção enxuta e do JIT. Embora ainda em evolução, o conceito de Logística Integrada já está bastante consolidado nas organizações produtivas dos países mais desenvolvidos, tanto em nível conceitual quanto de aplicação.
O Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos, ou Supply Chain Management (SCM), ou ainda, para Moura (2003), Logística da Cadeia de Abastecimento, começou a se desenvolver apenas no início dos anos 90. Mesmo em nível internacional, são poucas as empresas que já conseguiram implementá-lo com sucesso, e, em nível acadêmico, o conceito ainda pode ser considerado em construção. Existem inclusive alguns autores que consideram o SCM como apenas um novo nome, uma simples extensão do conceito de logística integrada, ou seja, uma ampliação da atividade logística para além das fronteiras organizacionais, na direção de cliente e fornecedores na cadeia de suprimentos.
Já Fleury et al. (2000, p. 49) apresenta outra abordagem:
O que parece claro é que esses novos conceitos chegaram para ficar. Os resultados obtidos pelas empresas que já conseguiram implementá-los com sucesso são uma garantia de que estes não são apenas “modismos gerenciais”, mas algo que vem crescentemente despertando a atenção da alta cúpula gerencial nas grandes e mais modernas organizações internacionais.
No Brasil, a onda do SCM começou a espalhar-se no final da década de 90, impulsionada pelo movimento da logística integrada que vem se acelerando no país. Segundo Fleury et al. (2000), maior prova disso é o movimento ECR Brasil (Efficient
Consumer Response), iniciado em meados de 1997, e que só em novembro de 1998
apresentou os primeiros resultados, que apontaram para um grande potencial de redução de custos.
As figuras 3.2 e 3.3 ilustram a Logística Integrada e o SCM, respectivamente, segundo Bowersox (2001):
Figura 3.3 – A integração da cadeia de suprimentos Fonte: Bowersox, 2001 (p. 99)
Para Silva (2002, p. 29), existem organizações que, devido às suas características, estão em diferentes níveis de integração logística:
Nem todas as organizações podem operar segundo o conceito de supply chain; algumas por questões puramente formais ou legais (é o caso da administração direta e das empresas públicas ou de economia mista, todas vinculadas à legislação que regula as licitações públicas), outras por suas características operacionais ou de mercado. Assim, a prática da logística pode ser exercida em diferentes perspectivas, segundo o foco dominante de cada uma delas.
Devido à natureza das organizações militares e sua principal finalidade, bem como, para os objetivos deste estudo, as considerações deste trabalho foram centradas na Logística Integrada, já que esta tem a organização como cenário de ocorrência de suas atividades, enquanto que o Supply Chain Management explora tal cenário e inclui em seu escopo outras organizações que compõem determinada cadeia de suprimento (integração externa), incluindo uma série de processos de negócios que interligam os fornecedores aos consumidores finais3.
3.3.1 Porque a Logística precisa ser integrada
Quando os profissionais de logística evitam disputas e desperdício de energia em favor da participação da equipe, todos saem vencedores. Para muitas organizações, cada componente da logística trabalha como uma “peça separada” da cadeia total. Muitas pessoas acham que é assim que devia ser, elas enxergam a abordagem separada como um caminho direto para o sucesso, argumentando que, se cada unidade relacionada à logística (como transporte e armazenagem) procurar ser o “número um”, a função coletiva será mais eficiente.
Programas logísticos em ação bem sucedidos podem ser encontrados na literatura e observados no cotidiano de algumas empresas. No entanto, muitos erros e oportunidades perdidas já foram verificados, em que os fracassos podem ter ocorrido pela falta de trabalho em equipe.
Moura et al (2003) citam o exemplo de um silo de armazenagem de uma determinada organização que reduziu seus estoques transferindo-se para um armazém com aluguel mais baixo. No entanto, o novo armazém possuía portas menores para caminhões e estava localizado em uma região fora de rota, o que dificultava a chegada dos caminhões. O resultado: os ganhos de armazenagem foram engolidos pelos custos adicionais de transporte.
Uma abordagem integrada para a logística minimiza estas falhas. Com esta abordagem, o processo logístico é visto como um canal de atividades inter-relacionadas. A questão da abordagem de canal é fazer com que todo silo não seja visto como uma peça isolada, mas como em elo crítico para o sucesso de toda a cadeia, o desempenho individual ainda é importante tanto como o trabalho em equipe e a integração. Cada elo deve estar disposto a trabalhar com os outros e ocasionalmente fazer sacrifícios no seu próprio desempenho final para o bem comum.
CAPÍTULO 4
BREVE HISTÓRICO DO SERVIÇO DE INTENDÊNCIA DO EXÉRCITO
“Singular circunstância envolve o destino da Intendência
Militar: quando está presente na história é porque esteve
ausente dos campos de batalha!”.
Januário João Del Re
Este capítulo tem por objetivo apresentar um breve histórico a respeito do Serviço de Intendência do Exército Brasileiro. Apresentará, inicialmente, noções básicas a respeito da instituição Exército Brasileiro, na qual a Intendência se enquadra, e da Logística Militar Terrestre, ressaltando sua crescente valorização nas estratégias militares. Em seguida, serão apresentadas informações relevantes sobre o Serviço de Intendência existentes na literatura em geral, destacando a posição da Intendência no âmbito da Logística e descrevendo sobre a organização e o emprego do serviço nas atividades logísticas do Exército.
4.1 O EXÉRCITO BRASILEIRO
O Exército Brasileiro é uma instituição permanente e regular, organizado com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República e destina-se, assim como as demais Forças Armadas, à defesa da Pátria e à garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, conforme o artigo 142 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1999).
constitucionais do Exército, quais são: • Defender a Pátria; • Garantir a lei; • Garantir a ordem;
• Cooperar com o desenvolvimento nacional; • Cooperar com a defesa civil e;
• Participar de operações de paz.
Segundo Magalhães (2001), a organização do Exército é feita de forma sistêmica. O Sistema Exército está incluído em outros sistemas superiores, primeiramente o da Defesa, depois o da Nação Brasileira e, por fim, de um Sistema Internacional. Dentro do Sistema Exército, são identificadas funções vitais para o funcionamento da Força. Cada função vital identificada resultará na organização de um novo sistema que tem a finalidade de executá-la em proveito do sistema no qual se insere, conforme ilustra a figura 4.1.
Figura 4.1 – Concepção Sistêmica do Exército Fonte: Correia, 2000.
DIREÇÃO GERAL
COMANDO
OPERACIONAL
ECONOMIA E FINANÇAS CIÊNCIA E
TECNOLOGIA MOBILIZAÇÃO
LOGÍSTICA
PESSOAL
ENSINO
Por exemplo: dentro do Sistema de Economia e Finanças existirão funções vitais que darão origem a novos sistemas, como o Sistema de Gestão Orçamentária e o de Contabilidade.
Subordinado ao Sistema Exército Brasileiro está o Sistema Logística, que por sua vez, possui subsistemas subordinados que possibilitam a execução das funções logísticas estabelecidas pela Força. As principais são: suprimento, pessoal, manutenção, saúde e transportes.
O Exército divide-se, ainda, em diversas especialidades nas quais se enquadram seus recursos humanos que, conforme sua destinação, podem ser de combate, de apoio ao combate e de apoio logístico. As tropas de combate são constituídas pelas Armas de Infantaria e Cavalaria, conhecidas também como “armas-base”. As tropas de apoio ao combate são aquelas pertencentes às Armas de Artilharia, Engenharia e Comunicações. Finalmente, as tropas de apoio logístico, constituídas pelos serviços de Intendência, Saúde e Material Bélico. Todos estes atendem às chamadas fim do Exército, enquanto outros serviços e quadros atendem às atividades-meio da Força, como o Quadro Complementar de Oficiais, o Serviço Religioso, o Quadro de Engenheiros Militares, dentre outros.
Quando grupados, esses elementos formam as unidades e subunidades de tropa, como os batalhões, regimentos, grupos, companhias, esquadrões e baterias.
4.2 A LOGÍSTICA MILITAR TERRESTRE
Nas antigas batalhas, as grandes colunas lutavam com o que seus homens podiam carregar “nas costas” e as preocupações logísticas não iam além do equipamento e do suprimento. Do vestuário ao armamento, passando pelo equipamento e alimentação, todo o necessário para combater e para a sobrevivência era transportado pelo homem, o que os tornavam elementos bastante pesados, dificultando a movimentação das tropas.
Com o passar do tempo, e o aumento da mobilidade e da capacidade bélica dos exércitos, as soluções existentes passaram a não se mostrar satisfatórias e a importância da logística militar ficou claramente demonstrada.
Segundo Barros e Soares (1996), a Logística, que não raramente é relegada a um plano secundário nos planejamentos operacionais, constitui-se em fator determinante para a condução das operações militares, em qualquer nível, tornando-se a grande responsável por inúmeras vitórias e fracassos nos conflitos armados.
Para Campos (1952), a logística é o ramo dos conhecimentos militares que tem por fim proporcionar às Forças Armadas os meios humanos e materiais necessários para satisfazer as exigências de guerra.
Figueiredo (2003) definiu logística militar como a parte da administração militar que compreende, em particular, a direção e a execução do suprimento, da hospitalização, da evacuação, do transporte, da manutenção e das comunicações, em proveito das operações militares.
Castro (1991, p.69) expõe o termo como “a ciência dos transportes e dos suprimentos, na guerra. É arte de colocar um número exato de homens, no lugar certo, no tempo certo, com o equipamento adequado”. Continuando, afirma: “uma boa Logística, isoladamente, não vence uma guerra é bem verdade, mas uma Logística má por si só constitui a causa da perda dessa guerra” (p.70).
necessidades humanas e materiais dos seus clientes.
Mais de uma década antes do começo do período de desenvolvimento da logística empresarial, os militares executaram o que Ballou (2001) chamou de a mais completa e bem-planejada operação logística na história – a invasão da Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Desta batalha, basta destacar que os militares, sozinhos, mantinham estoques valorizados em cerca de 1/3 daquele detido por todas as empresas manufatureiras dos Estados Unidos.
Além da experiência no gerenciamento de operações fornecidas em grande escala em tais organizações, os militares das nações economicamente fortes patrocinaram, e continuam a patrocinar, pesquisas em logística em grandes organizações civis.
Um recente e importante exemplo de logística militar em larga escala foi o conflito entre os Estados Unidos e o Iraque - que atualmente se prolonga em território iraquiano - durante a invasão iraquiana ao pequeno país Kuwait. O suporte logístico naquela guerra é uma ilustração do que as empresas constantemente divulgam: a boa logística é uma fonte de vantagem competitiva. Ballou (2001, p. 31) cita a obra Good
Logistics is Combat Power, de Graham Sharman, de 1991, onde o General William
Pagonis, que estava no comando logístico do Exército Americano para a “Tempestade no Deserto”, observou: