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Construção participativa de conhecimentos sobre resíduos no Programa de Coleta Seletiva da Unesp-Bauru: reflexões e ações

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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

“Julio de Mesquita Filho”

FACULDADE DE CIÊNCIAS

PROGRAMA DE PÓS-GARDUAÇÃO EM EDUCAÇÃO PARA A CIÊNCIA

Construção participativa de conhecimentos

sobre resíduos no Programa de Coleta Seletiva

da Unesp-Bauru: reflexões e ações

Graziela Del Mônaco

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Construção participativa de conhecimentos

sobre resíduos no Programa de Coleta Seletiva

da Unesp-Bauru: reflexões e ações

Graziela Del Mônaco

Orientador: Prof. Dr. Aloísio Costa Sampaio

Co-orientadora: Profa. Dra. Ana Maria Lombardi Daibem

Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências

da Universidade Estadual Paulista “Julio de

Mesquita Filho”, campus de Bauru, como parte

dos requisitos necessários para a obtenção do

título de Mestre em Educação para à Ciência

(Área de concentração: Ensino de Ciências).

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Ficha catalográfica elaborada por

DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO UNESP - Bauru

Del Mônaco, Graziela

Construção participativa de conhecimentos sobre

resíduos no Programa de Coleta Seletiva da

Unesp-Bauru : reflexões e ações / Graziela Del Mônaco. - -

Bauru : [s.n.], 2005.

88 f.

Orientador: Aloísio Costa Sampaio.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências, 2005.

1. Educação ambiental. 2. Pesquisa – Ação. 3. Resíduos industriais. I – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências. II - Título.

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____________________________________ Prof. Dr. Aloísio Costa Sampaio

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DEDICATÓRIA

Dedico esse trabalho a todos aqueles que não perderam a esperança de

ver “(...) o sol atrás do muro/(...) uma nuvem negra sem pó, nem

fumaça/(...) um mundo sem porta ou vidraça ”... Para aqueles que

transformam crença em ação e sonho em realidade... Para as pessoas que

estão abertas a aprender o novo e a ensinar que tudo pode ser diferente!

A memória de Thais Odile

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AGRADECIMENTOS

Ao escrever esta dissertação percebi que este mestrado não poderia ter sido concretizado sem o convívio com diferentes pessoas que tive a felicidade de encontrar ao longo da minha história... Sejam pessoas reais ou de fé, todos foram importantes para que a minha vida fosse tão repleta de alegrias e realizações.

Em primeiro lugar quero agradecer a Deus por manter a minha saúde física, a sanidade e pelo discernimento desde a conquista da vaga nesse programa, por ter conseguido a bolsa da Capes e por poder cumprir essa dissertação.

Aos alunos Talisia, Thais, Rafael, César, Ana Claudia, Ulisses, Isabella, Matheus, Turollo, Camila, Carla, Lívia, Alexandre, Mariana, Thais, Marina, André, Priscila Franco, Janice, Eveline, Priscila e Vinicius que se abriram para o novo e fizeram desse projeto de pesquisa uma verdadeira ciência “nova e inovadora”. Sem a participação de vocês nada disso seria possível!

Ao Prof. Aloísio pela orientação, por ter possibilitado o encontro entre diferentes alunos que formaram o GERe.

À Profa. Ana Daibem pela mudança significativa no rumo das minhas idéias.

À Profa. Marilia pela participação na Banca Examinadora, pelas indiretas orientações.

À Profa. Janda pela convivência, por ser sempre tão prestativa, por mostrar que o exercício de uma profissão pode envolver amor.

À Profa. Sonia Ruiz, por abrir as portas de sua sala de aula e por sempre se mostrar interessada pelo desenvolvimento desta pesquisa.

À Prof. Ana Luiza, por ser tão amiga... por ter me ensinado os primeiros e valiosos passos da profissão de professora.

Ao Prof. Amadeu Logarezzi, por ter me apresentado o lado humano da pesquisa, por mostrar a sensibilidade que nunca devemos perder com o passar dos anos.

À Ana Grijo, que desde a minha entrada no programa sempre disposta a responder aos meus chamados, responder as minhas perguntas e inquietações.

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Às minhas amigas “descabeladas” Fernanda, Isadora e Nadja e ao “dotô” Reinaldo pelas horas de descontração, alegrias, risadas, choros, jantares, shows... Sem vocês tudo seria menos colorido!

Á Nadja e Isadora pelas trocas de idéias sobre a educação ambiental, a pesquisa-ação, os resíduos, o processo grupal, a vida. Essa pesquisa foi grandemente influenciada por esses preciosos momentos! Aos meus amigos da Terra do Nunca – São Carlos – que moram longe de mim, porém me acompanham

onde estou, Paloma, Patrícia, Fezinha, Carol e Carolina, Dri, Thaise, Mayra, Chris, Sheila, Ive, Thiago, Fernando e Vasco, por terem compartilhado as suas vidas comigo fazendo de mim uma pessoa mais feliz!

Às minhas irmãs Renata, Rebeca e Mônica e ao meu cunhado Andrés por terem me ajudado com a correção, direção das discussões, com o empréstimo e compra de livros, com caronas, conversas, carinhos... Por me ajudarem a crescer sempre!

Aos meus sobrinhos, Sara e Rafael, e meus cunhados, Fernando e Fabio, pelo carinho. Aos meus pais, Turqueza e Oswaldo, que me alimentam todos os dias de amor!

Ao meu querido Tiago, bravo nas horas certas, lindo em todos os momentos! Por querer compartilhar a vida!

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RESUMO

Na perspectiva de uma educação ambiental que busca a transformação das relações humanas com o ambiente por meio da organização coletiva e da emancipação do indivíduo, desenvolvemos este estudo. Tendo como tema central a problemática dos resíduos, formamos um grupo de pesquisadores, composto por alunos da UNESP-Bauru, com o objetivo de pesquisar e de discutir a problemática no campus, buscar

ações a partir do conhecimento gerado, tendo em vista a transformação desta realidade ambiental. Para realizar esta investigação, optamos pela pesquisa-ação por considerá-la uma metodologia que possibilita a construção de um novo saber ambiental por meio do diálogo entre diferentes conhecimentos sobre uma determinada realidade afim de superá-la, convergindo com os objetivos da educação ambiental. Para tanto, a partir da formação de um grupo de alunos, determinamos como tema gerador de pesquisa e de ação o Programa de Coleta Seletiva; elaboramos um plano para diagnosticar os resíduos; estudamos as dimensões da problemática; construímos atividades educativas sobre a temática, tendo como embasamento o conhecimento gerado pelo grupo; e avaliamos o processo de pesquisa-ação e educativo pelo qual passamos. Além de construirmos conhecimentos sobre a educação ambiental e os resíduos no

campus e elaborarmos ações, o envolvimento na pesquisa-ação mediou a apropriação de conhecimentos

sobre esta complexa problemática e, primordialmente, sobre a importância da participação coletiva na busca de reais soluções para as degradações do ambiente, este que compreende o ser humano e suas relações sociais, políticas, culturais e econômicas bem como a dimensão ecológica.

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ABSTRACT

In the perspective of an environmental education that aims the transformation of human relations with the environment through the collective organization and emancipation of the individual, I have developed the masters’ dissertation that will be presented in this article. To do so, we have chosen the action-research method because of the possibility of the generation of a new environmental knowledge within it as a result of the dialog between different cognizances about a certain reality. A dialog established in order to overcome this particular reality and in doing so, marching towards the objectives of environmental education. As central point we have placed the residues problem and having it in mind me and my supervisors formed a group of students-researchers (from the UNESP-Bauru campus). The objective of this group was to generate diagnostics and to discuss the residues problem and from these actions to search for action in order to change the observed reality. To accomplish that we started from the formation of the Group for the studies about residues (GERe) and elected collectively as research generator theme the selective litter collection (for recycling). Beginning with the implementation and public exposure of the recycling program we elaborated a plan of action in order to find out which were the residues found in the particular campus and the connected conceptions of the students about the consumption of plastic cups and A4 paper. With the objective of enhancing our knowledge about the subject in study we studied the amplitude of the problem through discussion generated by articles, pictures and films. We also built educative activities on the theme, having as ground the structural difficulties faced by the recycling program that affected its performance. Then we evaluated the educative and action-research processes which we have been through. Beyond the genesis of knowledge on environmental education the residues’ problem in the campus and the elaboration of actions, the participation in the action-research has allowed the students to develop knowledge on the importance of the participation of collectives in the search for solutions. Moreover, that these involve the human, political, economic and cultural relations and also the ecological referential.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1. Os caminhos trilhados pela problemática dos resíduos e a educação ambiental 1 2. A pesquisa: a UNESP como campo de estudo, os sujeitos, a questão norteadora e os

objetivos 4

3. A crise ambiental, o movimento ambientalista e a educação ambiental 5

3.1 A educação ambiental na universidade 9

4. A complexidade da problemática dos Resíduos Sólidos 10

METODOLOGIA

1. A pesquisa-ação como uma nova perspectiva frente a pesquisa tradicional 17

2. Contextualização da pesquisa-ação com os alunos da UNESP-Bauru19 19

RESULTADOS E DISCUSSÃO

1. Apresentação 22

2. Formação do grupo de pesquisa 24

2.1. A Comissão de Gestão Ambiental e o projeto de Coleta Seletiva na Unesp – Bauru 24

2.2. O grupo em sua fase embrionária e em constante formação 26

3. Escolha de um tema gerador de pesquisa e de ação 32

4. O processo de pesquisa-ação 34

4.1. As primeiras reflexões, levantamento de hipóteses e as conseqüentes ações 35

4.2. Elaboração da metodologia de pesquisa 42

4.2.1. Resultados do diagnóstico 44

4.2.2. Propostas de ações 50

4.3. Novas reflexões e ações 51

4.4. Discussão sobre o processo de pesquisa-ação 57

4. O processo educativo 62

5.1 Avaliação do processo educativo 70

CONSIDERAÇÕES FINAIS 83

REFERENCIA BIBLIOGRÁFICAS 85

ANEXOS

Anexo 1: Carta entregue aos professores da faac e feb i

Anexo 2: Cartaz do encontro GERe ii

Anexo 3: Exemplos de mensagens enviadas por e-mail aos integrantes do grupo iii

Anexo 4: Roteiro para a divulgação da Coleta Seletiva iv

Anexo 5: Listas das salas de aulas para ser realizada a divulgação da coleta seletiva v

Anexo 6: Material entregue ao grupo sobre as etapas da pesquisa x

Anexo 7: Resumo e referências dos textos sobre a problemática dos resíduos xiii Anexo 8: Instrumentos utilizados para o estudo da complexidade da problemática dos resíduos xiv

Anexo 9: Reportagem sobre o GERe no jornal interno da UNESP-Bauru EXTRA xvi

Anexo 10: Roteiro do filme para a disciplina Jornalismo Televisado II xvii

Anexo 11: Transcrição das avaliações xx

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ÍNDICE DE FIGURAS E QUADROS

Figura 1: Representação ilustrativa dos resultados da pesquisa-ação 23

Figura 2: Estrutura do Programa de Coleta Seletiva e os Futuros integrantes do GERe 25

Figura 3: Sistematização da pesquisa-ação desenvolvida pelo GERe 36

Figura 4: Slides da atividade de apresentação do GERe 41

Figura 5: Slides da atividade educativa realizada com os Funcionários responsáveis pela

limpeza do campus 54

Figura 6: Slides da atividade educativa realizada com os Calouros 56

Quadro 1: Consumo e gastos com copos plásticos e papel A4 na UNESP-Bauru 45

Quadro 2: Consumo individual de produtos na UNESP-Bauru 45

Quadro 3: Síntese da pesquisa-ação proposta ao GERe 51

Quadro 4: Roteiro desenvolvido pelos alunos do curso de Jornalismo 68

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1. Caminhos trilhados pela problemática dos resíduos e a educação ambiental

Esta dissertação é fruto de um sonho cujo objetivo é melhorar a vida do nosso planeta. Nessas páginas não lhes apresentarei o resultado de tal pretensão, mas sim a realização de um “grão de areia”,

indispensável para a composição desse horizonte, que eu, em parceria com meus orientadores e importantes amigos colaboradores, desenvolvemos em prol de uma vida mais digna para todos, indiscriminadamente, no ambiente em que vivemos.

Ao longo do desenvolvimento desta dissertação, consideramos que em um processo de aprendizagem a interação entre teoria e prática proporciona uma real apropriação do conhecimento. Apropriação em suas

“várias possibilidades de significação (e modos) (...): tornar próprio, de si mesmo; atribuir pertença ou propriedade; assumir; tornar adequado, pertinente; desenvolver capacidades e meios (instrumentos, modos) de ação, de produção. (SMOLKA, 2000, p. 26)”

Inicio a dissertação a partir da descrição da construção do meu conhecimento acerca dos resíduos e da educação ambiental, a trajetória da minha formação profissional e acadêmica passando pela universidade e o exercício de educadora, apontando como os mediadores dessa construção contribuíram para um aprendizado que me levou a esta investigação desenvolvida e aqui apresentada. A intenção de tal descrição é mostrar os variados caminhos pelos quais o ser humano aprende, as possibilidades de educar e os facilitadores (ou não) desse processo de ensino-aprendizagem.

A minha história com os resíduos começa muito cedo, aos 14 anos, quando estava na oitava série no antigo primeiro grau. O colégio Objetivo, onde estudava, organizava no terceiro bimestre uma feira de ciências para a apresentação dos trabalhos dos alunos de todas as unidades daquela escola. Os trabalhos expostos eram selecionados após uma triagem feita na unidade em que o aluno estudava. Nesse ano que participei, todos os alunos da unidade eram obrigados a apresentar um projeto de trabalho para cada disciplina. Na época, em Geografia, estudamos e discutimos sobre os meios de produção, entre eles a industrialização. No mesmo período, um amigo da família trabalhava em uma Central de Coleta Seletiva, projeto inovador que a Prefeitura de São Paulo havia implantado naquela gestão, no ano de 1990. Ao conhecer um pouco sobre o projeto de coleta seletiva, o destino que era dado aos resíduos que ali chegavam, a reciclagem e posterior industrialização dos materiais reciclados, resolvi desenvolver uma

maquete para apresentar na feira de ciências, onde mostrava o ciclo que os resíduos faziam, desde o

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domicílios. Construí uma maquete que representava uma cidade oval, com uma residência, a central de

triagem, a indústria e um supermercado. Esse trabalho representou um olhar diferente para o lixo, que foi além da concepção de sujidade e do inútil. Tive a oportunidade de mostrar o valor agregado ao resíduo. Esse meu primeiro contato com a complexidade da questão dos resíduos, além de ter sido escolhido para ser apresentado na feira de ciências, me valeu um prêmio pelo melhor trabalho de geografia de todas as unidades da instituição.

Muitos anos se passaram até eu ter um novo contato com a temática dos resíduos. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde cursava ciências biológicas, um grupo de alunos e professores de diversos cursos iniciou a implantação de coleta seletiva no campus. Resolvi ingressar no grupo

primeiramente por ver a possibilidade de resolver um problema ambiental e também porque, pela primeira vez no curso, vi a possibilidade de contribuir com conhecimento sobre reciclagem que havia aprendido ainda na oitava série, quando elaborei o trabalho de geografia. Porém, logo me desinteressei por essa atividade, o que é comum em alunos de primeiro ano e, mais tarde, o grupo não se estabeleceu devido às complicações existentes na implantação de um programa dessa espécie em uma universidade1.

Apesar da predileção por temas ecológicos, principalmente no que diz respeito aos problemas ambientais, durante o curso não me envolvi em nenhuma atividade ligada à problemática dos resíduos. A educação ambiental, por sua vez, no início de minha formação profissional, começou a despertar o meu interesse. Foi em um encontro promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), onde a educação ambiental me foi apresentada como mediadora na proteção da vida silvestre. Enxerguei, nessa área de conhecimento, a oportunidade de trabalhar em campo, preservando áreas protegidas por lei para a proteção da biodiversidade. O meu interesse pela educação ambiental, naquele momento foi efêmero. Tendo participado na universidade de apenas uma atividade de educação ambiental. Por concebê-la como área apenas ligada à educação e não à ciência, nunca mais me envolvi em nenhuma iniciativa da instituição e nem busquei conhecer mais profundamente esta dimensão da educação.

Minhas “pazes” com a educação ambiental e o reencontro com a problemática dos resíduos se deu após a minha formatura, quando fui ao Espírito Santo trabalhar no projeto TAMAR-IBAMA (Tartarugas Marinhas), na Unidade de Conservação “Parque Estadual de Itaúnas”, no município de Conceição da Barra. No estágio, além do monitoramento de ninhos de tartarugas marinhas, também desenvolvi trabalhos de educação ambiental com turistas. Esses consistiam em apresentar o local que os turistas visitavam – uma praia –, a história da vila, onde se localiza a Unidade e também a entrega de sacos de lixos aos visitantes. Aponto esse como sendo o momento de minha vida em que pude perceber a quantidade e

1 O projeto nessa universidade não desapareceu. Hoje existe a coleta seletiva interna de papéis e uma central de triagem para

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variedade de resíduos que são gerados e descartados, e as conseqüências disso para o ambiente. A percepção foi proporcionada devida a uma das ações que desenvolvíamos diariamente. Ao realizarmos o “arrastão”, que consistia na coleta de lixo, feita por mim e meus colegas de trabalho, descartado na praia e no caminho que a ligava à vila, outras ações surgiram como, por exemplo, a idéia de construir um boneco de resíduos encontrados na praia, esperando sensibilizar os visitantes para que eles descartassem os resíduos corretamente. Esse estágio, além da experiência profissional, deu início a uma mudança de visão de mundo. Ao me graduar, estava decidida a trabalhar com a problemática ambiental, acreditando que o grande problema éramos nós, seres humanos. Ao longo do meu estágio, conhecendo todas as dificuldades enfrentadas em uma Unidade de Conservação, os desafios que os administradores têm em conservar o local e ao mesmo tempo garantir uma vida digna às populações que lá vivem, fez com que minha visão de conservação ambiental mudasse. Naquele momento aprendi que os problemas ambientais serão resolvidos quando as pessoas conhecerem o ambiente em que vivem, pois assim aprenderão à respeitá-lo e que um meio para que isso aconteça é a educação.

Os anos que se seguiram foram dedicados à educação. Lecionando ou estudando, fui me envolvendo com temas educacionais relacionando-os à minha formação em biologia.

No ano de 2001, em São Carlos, tive mais uma oportunidade de praticar a educação ambiental, planejando atividades para um ano inteiro a partir da formação de um trio para um trabalho voluntário em uma Unidade de Apoio a Criança (UAC) da UFSCar. Elaboramos um plano de ação com o objetivo de apresentar às crianças temas relacionados à agricultura orgânica, os 3 R (redução, reutilização e reciclagem dos resíduos) e a preservação da fauna e da flora silvestres. Um plano extenso e complexo para crianças de pré-escola, do qual desenvolvemos a agricultura orgânica, por meio da elaboração de uma horta, um trabalho que envolve conhecimento sobre plantas, solo e água, e ação, por meio da elaboração e cuidado de uma horta. Devido à nossa formação, o trabalho voltou-se exclusivamente aos conceitos biológicos. Apesar disso, a empatia da professora com nossa oficina proporcionou a realização de um trabalho mais consistente, aproximando-se mais da educação ambiental, já que outros temas integrados a horta foram abordados pela professora, tais como: trabalho cooperativo, respeito e cuidado dos alunos para com as plantas da horta, o conhecimento da origem dos alimentos que eles ingeriam e os diferentes usos da água.

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ser integrada a essa pesquisa multidisciplinar tive a oportunidade de entender a complexidade da problemática dos resíduos e os primeiros questionamentos a cerca de como deveriam ser desenvolvidas as ações educativas. Conhecendo a problemática dos resíduos nas diferentes dimensões, pressupondo que esta deve “sempre considerar que no epicentro de toda essa teia de relações está a/o cidadã/o” (LOGAREZZI, 2004), a tentativa de encontrar meios que proporcionassem a participação de sujeitos na busca por soluções para os resíduos apontou um processo educativo mais consistente e integrado a outras ações, principalmente institucionais.

O envolvimento nessa pesquisa, que buscou produzir conhecimento para políticas públicas, definiu a mudança em minha visão sobre os problemas ambientais. Considerando a complexidade de relações existentes no ambiente, as diferentes culturas, as diversas formas de uso dos recursos, as especificidades ecológicas, os diversos interesses políticos e econômicos, torna-se simplista e romântica a idéia de que com a educação podemos tudo modificar. Se essa não for integrada a mudanças políticas e econômicas pouco será transformado no cenário ambiental atual.

2. A pesquisa: a UNESP como campo de estudo, os sujeitos, a questão norteadora e os objetivos

A trajetória da minha formação fez crescer o desejo pelo conhecimento; mesmo durante a atuação profissional sempre refleti sobre a ação como educadora. Especificamente acerca da atuação como educadora ambiental, muitos questionamentos surgiram com relação a como atuar de forma que as pessoas modifiquem suas relações com o ambiente. O meio pelo qual hoje tento responder a esses questionamentos e, ao mesmo tempo, desenvolver uma ação educativa é realizando uma pesquisa, uma investigação vinculada à pós-graduação. De acordo com Lane (1984) “partindo do pressuposto que qualquer ação transformadora da sociedade só pode ocorrer quando indivíduos se agrupam” (p.78), envolver um grupo de pessoas para conhecer e discutir o problema dos resíduos de forma complexa entendendo suas dimensões ambientais (as implicações para o ambiente físico, para a sociedade e para a economia) de forma que esse conhecimento e reflexão gerem ações que almejem soluções para a questão, se estabeleceu como objeto central da investigação.

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Tendo então como grupo parceiro de pesquisa alunos de graduação, formulamos uma questão que norteia esta investigação: Envolver pessoas na busca de conhecimento sobre a questão dos resíduos, proporcionando espaço para que ocorra reflexão sobre a complexidade da problemática e apropriação do conhecimento gerado, pode ser um meio para o desencadeamento de ações que transformem essa realidade ambiental?

Para dar corpo a esse questionamento, traçamos, para a pesquisa, o seguinte objetivo geral:

Conhecer se e como a organização e o processo de envolvimento de pessoas na busca de conhecimento

sobre a problemática dos resíduos pode ser um meio para o desencadeamento de ações transformadoras

desta realidade ambiental.

Partindo desse objetivo, estabelecemos objetivos específicos que contribuíram para responder ao questionamento levantado:

i) Gerar coletivamente conhecimentos sobre a problemática dos resíduos no campus;

ii) Conceber e implementar coletivamente ações para sensibilizar a comunidade da UNESP-Bauru sobre a questão dos resíduos;

iii) Sistematizar os conhecimentos gerados pelos integrantes do grupo de pesquisa em relação à participação e a problemática dos resíduos no campus;

iv) Analisar o envolvimento do grupo durante a pesquisa-ação e o processo educativo vivenciado;

3. A crise ambiental, o movimento ambientalista e a educação ambiental

Transformar a natureza é atividade intrínseca da cultura humana. A apropriação do mundo pelo ser humano é intencional e foi o meio pelo qual essa espécie se diferenciou dos demais seres vivos. A capacidade do Homo sapiens em entender os fenômenos naturais proporcionou a criação de meios para

dominar as mais variadas formas de vida, bem como os fatores que as sustentam no planeta (SAVIANI, 1992). Construir, trabalhar, modificar são ações que fazem parte da história de desenvolvimento da sociedade humana que tem a natureza como fonte de inspiração e de matéria-prima e, da qual, depende sua sobrevivência. Essa tem um sentido mais amplo do que a demanda por carências vitais de fome e sede; para os seres humanos não basta vencer as intempéries do mundo, viver passa pelas relações pessoais, pelas estruturas sociais, pelo desenvolvimento intelectual, pelo trabalho, pelo lazer, pela identificação cultural e pela busca de felicidade.

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mais possível cuidar solitariamente do plantio e da criação animal, era essencial a ajuda de outros homens; não era mais viável trabalhar sem remuneração, era imprescindível para viver, receber pelo esforço; já não bastava mais a terra ao redor de um povoado, pois as vizinhas garantiriam melhores frutos; já não restava tempo para produzir tantos utensílios, era preciso que outros homens e mulheres os fizessem; a troca entre mercadorias já não representava seus valores reais, era preciso criar uma moeda de troca; diante de tantos povoados e pessoas era preciso leis para que todos se entendessem, se respeitassem; e frente a tantas formas de ver e se relacionar com o mundo, foi preciso criar meios para compreender toda a apropriação da natureza. Dessa forma, ao longo de sua história, o ser humano construiu o ambiente à sua volta a partir da natureza que o sustenta, das relações entre os outros seres humanos, da cultura das diversas sociedades, das relações econômicas e políticas.

Resultado principalmente da Revolução Industrial, as grandes modificações da natureza começam a ter conseqüências globais principalmente no século XX, quando houve a intensificação dos meios de produção industriais, o aumento da exploração de recursos naturais em conseqüência da intensificação do consumo de bens e serviços. Hobsbawm (2001), ao relatar e analisar os fatos históricos do período pós II guerra mundial, escreve que os “subprodutos” (p.257) da expansão econômica – “a poluição e a deterioração ecológica” (ibidem) – dos países desenvolvidos já se faziam notados, porém não despertavam

preocupação de toda população

“(...) porque a ideologia de progresso dominante tinha como certo que o crescente domínio da natureza pelo homem era a medida mesma do avanço da humanidade. A industrialização dos países socialistas foi por isso particularmente cega às conseqüências ecológicas da construção maciça de um sistema industrial algo arcaico, baseado em ferro e fumaça. Mesmo no Ocidente, o velho lema do homem de negócios do século XIX, ‘Onde tem lama tem grana’ (...), ainda era convincente, sobretudo para construtores de estradas e ‘incorporadores’ imobiliários.” (ibidem p. 257)

A transformação desmedida da natureza nesse modelo de desenvolvimento econômico começou a ser percebida e tornou-se alvo de preocupação da humanidade. A idéia de bens naturais inesgotáveis passa a ser contestada; os desastres ecológicos afetam um número maior de habitantes e são apresentados às populações como um alerta às conseqüências desse sistema produtivo.

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O caminho percorrido pelo movimento ambientalista inicia-se na percepção sobre a degradação da vida silvestre, a poluição do meio, a possibilidade de esgotamento dos recursos naturais – água, solo, minerais – e as conseqüências para a qualidade de vida humana. Partindo para as origens de tais degradações ecológicas, o movimento articula-se em prol da transformação sócio-ambiental. Ambiente é então concebido como sendo a interação de diversos fatores, não apenas abióticos e bióticos, mas pelo fato dos homens e mulheres serem singulares e partes da natureza (LOUREIRO, 2003), tudo que diz respeito à cultura humana deve ser incluído nos fatores determinantes do ambiente. Assim, o movimento ambientalista questiona e reflete sobre como a economia, a política e a cultura modificam e afetam as sociedades e as relações entre os seres humanos e a natureza.

Nesse sentido, de um movimento ambientalista que pensa não só nos impactos da apropriação exacerbada da natureza, mas na degradação da espécie humana em todas as formas de ser, de pensar e de se relacionar, Leff (2003) afirma que

“A crise ambiental é a crise do nosso tempo. O risco ecológico questiona o conhecimento do mundo. Esta crise se apresenta a nós como um limite do real que re-significa e re-orienta o curso da história: limite do crescimento econômico e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdade social. Mas também crise do pensamento ocidental que (...) abriu a via da racionalidade científica e instrumental que produziu a modernidade como uma ordem coisificada e fragmentada” (LEFF, 2003. p.15-16)

O movimento ambientalista, nesse sentido, muito mais do que buscar resoluções para os problemas ecológicos é uma articulação para uma mudança de paradigmas do pensamento humano, para que sejam transformadas as relações estabelecidas entre todos os fatores ambientais.

Para tanto, é imprescindível a formação de um novo saber (LEFF, 2002), um saber ambiental. Um saber que gere o entendimento complexo do ambiente, isto é, a compreensão de todas as suas dimensões e relações estabelecidas. Um saber que transforme os meios de fazer economia, política, ciência, educação, as relações entre as diferentes sociedades.

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Partindo dos questionamentos e inquietações do movimento ambientalista, a educação ambiental tem sua origem a partir de grandes conferências e debates sobre o futuro do planeta, onde se discutiu qual o papel dos seres humanos na busca de uma outra forma de viver em sociedade e de usar sustentavelmente os recursos disponíveis na natureza (CASCINO, 2003). Desde a sua origem nos anos 1970, a educação ambiental vem contribuindo com o movimento ambientalista, consolidando uma

linguagem comum – coletivizada – sobre questões ambientais (ibidem), sendo proposta para ser

desenvolvida por todas as instituições de ensino – da educação infantil ao ensino superior – e em outros espaços educativos (parques, zoológicos etc), por educadores e outros agentes sociais, de diversas formações.

Em sua origem, a educação ambiental objetivava suas ações para solucionar problemas relacionados à conservação e à preservação de ambientes silvestres. Essa forma de desenvolver a educação ambiental foi resultado de uma concepção de ambiente como sinônimo de natureza silvestre. À medida que o conceito de ambiente se ampliou, sendo a ele vinculados os aspectos culturais, sociais, políticos, científicos e econômicos, a educação ambiental acompanhou esta mudança de paradigma.

Na perspectiva de uma mudança paradigmática de conhecimento e desenvolvimento, a educação ambiental surgiu como meio para alcançar as transformações dos modelos sociais e culturais vigentes na direção de uma sociedade que se relacione de forma sustentável, respeitando as diferenças entre as populações e os limites da natureza. De acordo com Lucia & Teixeira (2003), a educação ambiental deve mediar a compreensão de que os seres humanos são “sujeitos transformadores da realidade” (p.402)

Em busca das transformações sociais, a educação ambiental busca educar sobre o ambiente em sua complexidade, apresentando as gêneses dos problemas ambientais, articulando a degradação da biodiversidade com os meios de produção, má distribuição de renda e exclusão social; relacionando poluição a interesses econômicos e políticos; apresentando a globalização imposta pela economia como promotora da perda de patrimônio histórico, cultural e do acirramento das desigualdades sociais. A educação ambiental, como meio de entendimento da complexidade ambiental, pressupõe que os

conhecimentos sejam mais do que compreendidos, e sim apropriados, para que haja reflexão sobre as diferentes e interligadas dimensões dos problemas ambientais e do papel do ser humano enquanto agente transformador de realidades. A educação ambiental deve proporcionar uma educação para a ação, para a organização dos indivíduos em prol das transformações sócio-ambientais.

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fundamentalmente política, formativa e emancipadora, portanto transformadora das relações sociais existentes.”(LOUREIRO, 2003. p.28 e 31)

Portanto, a educação ambiental deve possibilitar a formação do indivíduo em um sujeito capaz de transformar a sua realidade, que tenha consciência de suas ações no ambiente e que, acima de tudo, perceba a importância da coletividade nas transformações ambientais.

Nessa perspectiva, vale destacar que a educação ambiental não pode perder de vista que é uma dimensão da educação (TOZONI-REIS, 2003). Assim, deve buscar na educação estratégias para a emancipação e a conscientização, para alcançar a transformação sócio-ambiental. Baseada na pedagogia libertadora proposta por Paulo Freire, Loureiro (2003) propõe uma educação ambiental transformadora com conteúdo emancipatório. A educação ambiental, para ser transformadora, deve mediar o diálogo entre os diferentes atores da sociedade que possuem diversos modos de entendimento, percepção e uso do ambiente; proporcionar o entendimento complexo de ambiente, considerando também que as relações estabelecidas no ambiente foram historicamente construídas; aliar teoria e prática; e instrumentalizar os sujeitos envolvidos para a ação.

3.1. A educação ambiental na Universidade

As Universidades são instituições criadas para atender às necessidades do país associadas ao desenvolvimento econômico, social, cultural e político. Constituem-se, então, como espaços para a produção e acumulação do conhecimento e a formação de profissionais cidadãos (Plano Nacional de Extensão Universitária, 2001). Em muitos países como o Brasil, são as instituições universitárias os principais centros de produção, divulgação e formação cultural. São alicerces da universidade o ensino, a pesquisa e a extensão. A articulação entre estas instâncias e as diferentes áreas de conhecimento proporcionam a construção de saberes e a formação do indivíduo que atuará na sociedade como profissional e cidadão.

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vem ganhando campo como importante atividade para a “formação de profissionais e indivíduos e no desenvolvimento de pesquisas voltadas à proteção, à recuperação e à melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida” (SORRENTINO, 1995, p. 45), sendo, então, desenvolvida como atividade de ensino, pesquisa científica e/ou como intervenção em trabalhos de extensão em outros espaços formais e não-formais de educação e ensino.

Alguns trabalhos científicos mostram a importância de ser implementada a dimensão ambiental nos cursos de licenciatura, já que estes formam profissionais do ensino (BARIZAN, 2003; BAÍA e GUIMARÃES, 2003). Existem ainda algumas pesquisas que apontam que os problemas ambientais devem ser trabalhados em todos os cursos superiores e em diversas disciplinas já que a universidade não existe apenas para formar um profissional que domina e consegue aplicar técnicas. Mais do que isso, a universidade deve se preocupar também com a formação cidadã, ou seja, formar pessoas que conheçam seus direitos e deveres para a sociedade e que apliquem os conhecimentos aprendidos e gerados na busca de um ambiente justo para as populações e a natureza (COSTA e FREITAS, 2003; OLIVEIRA e FREITAS, 2003; RIOJAS, 2003). Tozoni-Reis (2003) discute que, para que a educação ambiental tenha importante papel na formação profissional e cidadã para garantir a sustentabilidade ambiental, é preciso que haja uma reestruturação institucional universitária.

“Convivemos hoje nas universidades não só com uma organização curricular fragmentada do ponto de vista do ensino, mas com uma organização também fragmentada da pesquisa. (...) para pensarmos um projeto de formação de educadores ambientais na universidade, valorizando a transformação paradigmática, temos que pensar na superação das formas tradicionais como ela organiza o ensino, a pesquisa e a extensão.” (TOZONI-REIS, 2003, p. 3)

Sorrentino (1995) amplia a discussão afirmando que a reorganização da estrutura universitária pressupõe um redirecionamento de seu compromisso com a sociedade, para proporcionar a “melhoria da qualidade de vida de toda a população.”(p. 56-57). A articulação ensino-pesquisa-extensão é essencial para esta transformação social. Assim, a Universidade deve promover uma educação ambiental que possibilite a geração de conhecimento junto à sociedade, o que vem garantir a troca de conhecimentos entre a ciência e o saber popular em prol de mudanças das relações sócio-ambientais. Essa troca possibilita a formação acadêmica, profissional e pessoal dos alunos e a abertura, para a sociedade, do universo aparentemente intransponível que é a universidade. Esse movimento de troca, de aprendizagem mutua, deve ser objetivo essencial da educação ambiental na Universidade.

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Dos diversos problemas ambientais que afetam as diferentes realidades de ocupação humana, a geração, o descarte e o acondicionamento de resíduos – e tudo mais que relacionam-se a estas três ações – configuram-se como uma cadeia de problemas a serem mitigados e/ou resolvidos pelo poder público. Em qualquer espaço onde há acúmulo e variedade de atividades sociais e econômicas e, portanto, geração de resíduos, estabelece-se uma situação nociva em termos ecológicos, onerosa para a economia de muitos municípios e necessitada de políticas públicas específicas. Para que haja o entendimento dos fatores que compõem essa questão e, conseqüentemente, da gestão adequada e da solução ambientalmente sustentável, primordialmente é necessário conhecer como as diversas dimensões dessa problemática se inter-relacionam e tornam os resíduos mais do que os “restos” e as “sobras” da humanidade, e sim resultados do sistema econômico e do posicionamento cultural das sociedades que o sustentam.

Segundo Logarezzi, resíduo é toda a “sobra de uma atividade qualquer, natural ou cultural” (2004a, p. 222). Dessa forma, seja o resultado de uma ação vital ou resultado do consumo de bens não essenciais, todas as sobras geradas pelos seres humanos são denominados resíduos. Baseado no pressuposto de que todas as atividades geram resíduos, assim como essas se tornaram mais complexas ao longo do desenvolvimento humano, os resíduos também se multiplicaram e se tornaram mais diversificados.

Ao longo da nossa história, o resíduo, na condição de problema, foi sendo visto como tal de diferentes formas: sujidade, doença, poluição, desapropriação de terras, gastos públicos, geração de renda, resultado do consumismo etc. Essas variadas visões fazem parte de uma totalidade que é a questão dos resíduos. Porém, as associações são unidirecionais, ou seja, sujidade, resíduo-doença, resíduo-geração de renda etc. Partindo desse pressuposto, não há uma compreensão da problemática em sua totalidade, em sua complexidade. Como ressalta Leff (2003, p.28) a “compreensão do mundo como ‘totalidade’ propõe o problema de integrar os diferentes níveis de materialidade que constituem o ambiente como sistema complexo”. Assim, entender a questão dos resíduos em sua totalidade significa acompanhar suas transformações do “particular ao geral” (MARX, 1978, p. 128) que pressupõe compreender as múltiplas dimensões desde a origem – a industrialização, as relações entre consumo e geração de resíduos, bem como as formas de descarte – e as conseqüências ecológicas, sociais, econômicas e políticas, ou seja, para o ambiente.

A problemática dos resíduos2 tem como ponto central o gerador, o cidadão comum (LOGAREZZI,

2004b), e é da perspectiva do consumidor-gerador que iremos desenvolver a descrição da problemática dos resíduos.

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A compreensão da complexa problemática dos resíduos deve considerar as etapas anteriores ao consumo e

“(...) tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão intima. Só depois de concluir esse trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento do real.” (MARX, 1985, p.20)

Pressupõe entender os resíduos quando ainda são produtos, ou seja, todo o processo de industrialização e as formas como os cidadãos são levados a consumir, seja por suas necessidades reais e/ou pelas criadas que são induzidas e estimuladas pelo sistema econômico vigente, principalmente através dos meios de comunicação. Esse entendimento também deve considerar as etapas pós-consumo, que compreendem o descarte e todos os outros fatores envolvidos – poluição do ar, solo e água, coleta formal e informal, acondicionamento e/ou reciclagem e posterior industrialização e retorno ao comércio-consumidor.

Todo produto consumido seja ele industrializado ou não, passou por uma cadeia de produção que, por sua vez, está associada a “um determinado impacto ambiental” (LOGAREZZI, 2004b, p. 1). Se for uma alface, por exemplo, foi plantada pelo agricultor em uma propriedade; para o crescimento do vegetal e para que esse tenha rentabilidade no mercado, o solo precisou ser adubado e, dependendo do insumo agrícola utilizado, pode ter poluído o solo; foi vendido abaixo do custo, para um comerciante que obteve lucros; chegou ao consumidor, que fez a sua escolha pelo produto devido a fatores como, por exemplo, o preço; foram consumidas as partes comestíveis da alface e descartadas as que não foram consideradas boas para a ingestão; o resto da alface descartada pode ter sido acondicionado em um local apropriado, onde foi decomposto, sendo o resultado dessa transformação usado para adubar outras plantações de alface; ou então esses restos podem ter sido levados para um lixão onde, por exemplo, por uma questão de sobrevivência, haveria famílias inteiras “garimpando” as montanhas de lixo atrás de comida.

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Grande parte do que consumimos não é essencial à nossa sobrevivência; nos garantem uma vida mais confortável, porém causa uma série de impactos ambientais. Vieira (2002), em uma reflexão acerca de questões relacionadas à problemática dos resíduos, destaca que o “modelo de produção e consumo capitalista – MPCC” (p.1) – contribui para o agravamento dos impactos já que este sistema se sustenta no consumo e todos os produtos “igualmente se transformam em resíduo/lixo3” (ibdem, p. 19). Pelas leis do

mercado, novos produtos são criados, os antigos se tornam obsoletos e, pelos meios de comunicação, principalmente pela publicidade, novas necessidades são criadas e mais produtos são consumidos. Segundo esse autor, essa lógica do mercado sustenta o sistema capitalista. Em uma reflexão mais aprofundada sobre o papel do mercado na sociedade como um todo, Leff escreve que

“Somente um princípio chegou a ser tão universal como a idéia de deus: o mercado. O conceito de mercado (da mão invisível que governa os intercâmbios mercantis) generalizou-se, construindo um mundo a sua imagem e semelhança. O mercado move e constrói um mundo globalizado e ao mesmo tempo se inserta em nossa epiderme, em cada poro de nossas sensibilidades, de nossa razão e de nossos sentidos” (2003, p. 42).

A lei do mercado que “preconiza o valor de ‘ter’ em detrimento de ‘ser’ “ (LOGAREZZI, 2004b:3), manifesta-se dos meios produtivos às políticas educacionais. Especificamente na produção e no consumo de bens, por ter como base sustentadora o consumo, preconiza-o de forma que ultrapasse aquilo que é necessário para a sobrevivência humana, tendo como conseqüência o aumento do uso de recursos da natureza – água, energia, matéria-prima – e da geração de resíduos, sejam eles provenientes do processo de industrialização ou do consumo doméstico. Assim, diante das ofertas de uma vida mais confortável e de conquistas sociais – ficar mais bonito, atraente e poderoso para ser falsamente aceito pela sociedade –, somado ao aumento da quantidade, há também uma mudança qualitativa dos resíduos gerados.

Segundo Magera (2003), em nenhum momento da história se gerou tantos e tão variados resíduos. Ele destaca que os produtos descartáveis, “aquilo que tem vida muito curta no ciclo de consumo capitalista” (p.13), se apresentam como os maiores contribuintes desse cenário. O autor ainda aponta o desperdício como um fator que também vem tornar ainda mais volumosa a quantidade de resíduos descartados no ambiente. Esses dois fatos vêm reforçar a lógica do mercado, a base do capitalismo, a produção desmedida sem reflexão sobre as conseqüências sócio-ambientais.

A forma de produção vigente está intimamente ligada à exploração exagerada de recursos naturais e às toneladas de resíduos gerados e acondicionados no ambiente. Sobre a problemática da exploração de recursos naturais, destacamos o uso indevido da água, a exploração de recursos minerais, o uso de

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energia, o desmatamento. A respeito da problemática dos resíduos gerados e descartados, apontamos a quantidade e a variedade relacionando esses fatores ao mau acondicionamento, o que vem causar poluição e problemas de saúde para a vida de uma forma geral.

Segundo o IBGE (2002), no Brasil são geradas 125.281 toneladas de resíduos urbanos por dia (todos os resíduos gerados, desconsiderando os resíduos industriais). Muito mais do que um número espantoso, o resultado do consumo se torna mais preocupante quando são observados os locais onde essa “montanha” de resíduos é descartada. O último censo do IBGE (ibidem) constatou que 47,1% dos

resíduos gerados no país são acondicionados em aterros sanitários4, 22,3% em aterros controlados e 30%

em locais a céu aberto, em lixões e alagados. Ficou constatado que a maior parte dos resíduos descartados são gerados em grandes centros urbanos, os quais possuem aterros sanitário e/ou controlado, por isso quase metades dos resíduos são descartados em locais apropriados. Porém, o senso de saneamento básico feito pelo IBGE (2002) verificou que 68,5% dos municípios brasileiros acondicionam seus restos em lixões. Apesar de representar 12,8% de todo o lixo descartado no país, os municípios que apresentam essa realidade estão expostos ao chorume – líquido altamente tóxico – e ao gás metano – que contribui para agravamento do efeito estufa – (LOGAREZZI, 2004a), resultantes da decomposição do lixo que polui o solo, o lençol freático e o ar das áreas onde são alocados os resíduos.

Ferreira (2002) comenta que os resíduos sólidos domiciliares eram considerados pouco nocivos ao ambiente. Hoje, devido à variedade de resíduos descartados – plásticos, vidros, metais, óleos, pilhas, baterias, tintas, inseticidas, cosméticos, medicamentos e produtos de limpeza – e ao conhecimento que se tem a respeito dos impactos desses itens no ambiente, os resíduos gerados, pela dona de casa, pelo jovem casal, pelas criancinhas, enfim por todo cidadão comum, em suas atividades diárias, “representam uma ameaça à integridade do ambiente e contêm resíduos que podem ser classificados como perigosos5

(p.22). Os resíduos sólidos urbanos, segundo Sisino (2002), também atraem vetores transmissores de doenças, como os ratos e as moscas, e estão associados à contaminação microbiológica, como à contaminação via a bactéria Salmonella sp. O acondicionamento de resíduos em locais sem nenhum

tratamento, como os lixões, resulta em doenças, principalmente para a população de entorno, que por falta de opção precisa morar próximo a esses locais aonde os resíduos são destinados (ibidem). Concluímos,

então, que a composição dos resíduos descartados em aterros controlados e lixões, em conjunto com a

4 Os aterros sanitários são locais onde o lixo é destinado. Nesses locais são construídos valas impermeabilizadas por uma membrana plástica e drenos para o chorume e metano (líquido e gás, respectivamente, resultante da

decomposição do lixo). Sendo que nas valas, o lixo acondicionado é diariamente compactado e coberto por terra (LOGAREZZI, 2004a). Esse tipo de construção minimiza os impactos relacionados com a poluição do solo, água e ar.

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quantidade deste, constituem um sério risco à vida das sociedades que convivem, direta ou indiretamente, com essa realidade e a vida das outras espécies.

Faz parte do entendimento da complexidade da questão dos resíduos o papel exercido pelos catadores de lixo. Reflexo da pobreza, gerada pelo processo econômico em nosso país, é comum hoje ver

inúmeras pessoas “garimpando” sacolas de lixo deixadas na calçada. Os catadores são pessoas que,

geralmente, possuíam empregos formais, porém hoje estão excluídos do mercado de trabalho que já não comporta mais cidadãos com pouca ou nenhuma instrução e encontram, no trabalho da coleta de resíduos para a reciclagem, um meio de vida (MAGERA, 2003). Esse trabalho, em sua imensa maioria, é informal e insalubre. Muitas dessas pessoas trabalham na rua, porém, é triste constatar que um grande número de pessoas – homens e mulheres de todas as idades e também crianças – tira o seu sustento e alimento de aterros e lixões espalhados pelo Brasil afora. Esses trabalhadores, nos últimos tempos, têm ganhado destaque na mídia, já que contribuem significativamente para a minimização da problemática dos resíduos, iniciando a cadeia da reciclagem. De acordo com a estimativa feita por Magera (2003), os catadores são

responsáveis pela coleta e encaminhamento de 90% dos resíduos que sustentam a indústria da reciclagem. Provavelmente eles não se vêem assim, todavia, mais do que simples catadores de resíduo, esses seres humanos devem ser vistos como agentes ambientais, como escreve Logarezzi (2004a) em sua proposta educativa para esses trabalhadores:

“Além da adequada capacitação para o trabalho (...) é importante que esse conjunto de trabalhadores participe de atividades educativas que venham lhes oferecer também uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, numa perspectiva de emancipação de sua cidadania, oportunidade essa que em geral lhes tem sido negada pela sociedade. (...). As abordagens aqui devem se pautar, entre outros aspectos, por uma revisão na concepção do papel do ‘catador de resíduo’ motivado apenas em auferir renda para sua sobrevivência, na direção de ‘agente ambiental’ motivado também pela contribuição às soluções ambientalmente adequadas do problema dos resíduos (...)” (p. 241)

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estabelece medidas que visem uma mudança nos padrões insustentáveis de consumo e de produção. Dessa forma, as ações em direção à solução do problema, tendo em vista o conhecimento complexo de sua problemática e os diversos fatores que fazem parte dessa teia de relações, onde o resíduo é gerado, por meio do consumo, e descartado no ambiente, devem aliar as participações da sociedade civil e do poder público.

Cabe ao poder público a elaboração de políticas públicas que proporcionem: um gerenciamento que minimize os impactos aos meios físico, biológico e social, que compreende a totalização da coleta e a construção de aterros sanitários; O incentivo fiscal às industrias que priorizarem redução da geração e reutilização de resíduos; o incentivo à organização de catadores para humanizar a coleta de resíduos proporcionando a formalização desse trabalho; o incentivo à construção de indústrias de reciclagem; o planejamento de ações educativas baseadas na pedagogia dos 3 R´s (reduzir, reciclar e reutilizar), dando ênfase à redução do consumo, já que reduzir significa minimizar a geração de resíduo; a exigência das empresas a responsabilidade sobre os resíduos, principalmente aqueles que são gerados compulsoriamente pelo consumidor.

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1. A pesquisa-ação como uma nova perspectiva frente à pesquisa tradicional

Esta pesquisa qualitativa foi desenvolvida a partir dos referenciais teóricos e metodológicos da pesquisa-ação, pois consideramos que a pesquisa em educação ambiental deve aliar a construção de conhecimento em direção a um saber ambiental sem perder o caráter transformador. Sendo assim, a pesquisa-ação, que a princípio é uma metodologia que possibilita a construção de um novo saber por meio do diálogo entre os conhecimentos empírico e científico sobre uma determinada condição social afim de superá-la, se configura como uma metodologia que converge com os objetivos da educação ambiental.

Segundo Gajardo (1987), a metodologia da pesquisa-ação envolve a ação e a aprendizagem coletivas por meio da articulação “investigação, educação e participação social” (p.17) como sendo parte de um processo de análise e enfrentamento de realidades. Demo (1987) amplia essa visão e considera que a pesquisa-ação se configura como uma metodologia alternativa. Em que contexto surgem esses pressupostos?

Para entendermos como surge a pesquisa-ação é preciso saber que essa maneira alternativa de entendimento da sociedade surge em um momento de grande descontentamento sobre o fazer ciência, sobre como são postulados os paradigmas da ciência moderna. A ciência dita moderna tem como base

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sociedades e, também, para possibilitar que o conhecimento gerado pela ciência seja revertido em realidades mais justas.

Entendemos que compreender valores e toda a complexidade das relações sociais necessita da inserção e da interação do pesquisador com o contexto estudado. A objetividade e a simples quantificação dos dados resultantes não garantem o entendimento dos fenômenos humanos. Compreender a realidade pressupõe conhecer as relações entre os seres humanos como sujeitos em sua vivência em sociedade. Conhecer estes múltiplos processos de interação entre o ser humano e as inúmeras instituições sociais e culturais deve ser objeto de estudo das ciências sociais (MINAYO 2002). Uma investigação distante do contexto e do objeto de estudo não garante um entendimento do contexto estudado, ou seja, não permite compreender os valores e as crenças de um indivíduo ou da sociedade (ibidem).

Diante desses fatos surgem muitos questionamentos, entre eles, os relativos à maneira como os conhecimentos gerados são utilizados pelos indivíduos estudados, como estabelecer diálogo entre o saber científico e o senso comum e como integrar teoria e prática para a transformação de realidades. É preciso considerar que “mais do que conhecer para explicar, a pesquisa pretende compreender para servir” (BRANDÃO, 1987 p.12). Mais do que compreender a complexidade das relações humanas em sociedade, intervir para mudar. Mais do que realizar uma pesquisa solitária, compartilhar saberes. Mais do que divulgar aos sujeitos pesquisados os resultados da investigação, proporcionar meios para que haja a apropriação do conhecimento e que essa leve à autopromoção do indivíduo (DEMO, 1992).

A pesquisa-ação surge com esse compromisso de aliar conhecimento e transformação. De acordo com Gajardo (1987, p.16), esse estilo de pesquisa alternativa “vê na apropriação coletiva do saber, na produção coletiva de conhecimentos, a possibilidade de efetivar o direito que os diversos grupos e movimentos sociais têm sobre a produção, o poder e a cultura”. Essa autora ressalta que existem várias denominações de pesquisas que envolvem participação: pesquisa-participante, pesquisa-ação, dentre outras. Porém, é possível identificar pontos comuns nessas diferentes denominações: i) intencionalidade política dos pesquisadores e trabalho coletivo de investigação; ii) integração investigação, educação e participação social; iii) participação dos sujeitos da pesquisa no processo de construção do conhecimento, sendo que esse deve partir da realidade deles de forma que esta possa ser analisada e enfrentada; iv) as atividades de pesquisa coletiva, onde há produção de novos conhecimentos, se configuram também como ações educativas que objetivam a transformação social.

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pelo trabalho, pelo estudo ou pela necessidade de se organizar para reivindicar melhorias na qualidade de vida.

Le Boterf (1987) escreve que não existe um modelo fechado e único de metodologia da pesquisa-participante, cada caso estudado segue uma dinâmica devido às particularidades da realidade. Para este autor, a pesquisa-ação deve ter em seu corpo metodológico quatro fases: a elaboração metodológica, estudo preliminar da área, análise coletiva crítica dos problemas e, por fim, programação e realização de um plano de ação para a solução dos problemas levantados.

Neste sentido, Angel (2000) destaca que durante o desenvolvimento da pesquisa-ação é necessário que haja reflexão sobre todo o conhecimento gerado e todas as ações realizadas; visto que, das ações também são gerados novos conhecimentos e novas ações, em um movimento cíclico de “planejamento-ação-observação-reflexão-planejamento...” (p.50)

O levantamento de um problema foco de investigação pode ser feito pelo pesquisador científico, que para desenvolver a pesquisa precisará organizar um grupo de colaboradores na investigação coletiva Angel (2000). Esta mesma autora descreve que na pesquisa-ação onde há a colaboração de um grupo, este pesquisador é inserido no grupo como um investigador principal e tem a responsabilidade plena pela pesquisa exercendo o papel de coordenar o grupo. Neste caso, a participação dos outros integrantes depende, principalmente, do coordenador, já que é ele quem determina o objeto de investigação, faz o levantamento teórico e define a metodologia a ser utilizada, que organiza as tarefas do grupo de trabalho e orienta os participantes na investigação, ajudando-os durante o processo. Cabe ao investigador coordenador também elaborar o documento final que contém todo o conhecimento gerado durante as ações planejadas e as reflexões realizadas pelo grupo. Um dos cuidados necessários ao exercício do papel de investigador principal é evitar a manipulação do grupo social envolvido no processo. Nesta abordagem, o papel dele é, antes de tudo, construir com os envolvidos na pesquisa, a partir da elaboração de ações e da reflexão, novos conhecimentos e criar condições para que o grupo se torne autônomo para levantar outros problemas, gerar conhecimentos e ações transformadoras da sua realidade.

2. Contextualização da pesquisa-ação com os alunos da UNESP-Bauru

O campo de estudo escolhido foi a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” campus de Bauru. Segundo as informações contidas nos sites das Faculdades de Ciências, Arquitetura, Artes e

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Bauru, onde funcionava apenas o curso de Engenharia Mecânica. Desta faculdade surgem outros cursos formando a Fundação Educacional de Bauru (FEB), entidade sem fins lucrativos, onde funcionavam quatro faculdades e um colégio técnico. No ano de 1986 o Ministério da Educação reconhece a FEB como universidade, dando origem a Universidade de Bauru, composta pelas Faculdades de Engenharia, de Tecnologia, de Ciências, de Arquitetura, Artes e Comunicação e pelo Colégio Técnico. Em 1988, com o decreto do governo estadual a Universidade de Bauru é incorporada pela UNESP. Hoje o campus de

Bauru é composto por 19 cursos de graduação e 4 de pós-graduação strictu senso, divididos entre as

Faculdades de Ciências (FC), de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) e de Engenharia (FE) e 3 cursos técnicos, do Colégio Técnico e Industrial (CTI). A instituição atende 4.528 alunos e possui 365 professores e 389 funcionários técnicos administrativos. Neste campus também estão instalados o Instituto de Pesquisas Metereológicas (IPMet), a Rádio UNESP FM e o Centro de Psicologia Aplicada (CPA).

Partindo dos princípios apresentados sobre a educação ambiental como mediadora de conscientização6, dos sujeitos envolvidos, sobre a complexidade da problemática dos resíduos, para o

desenvolvimento dessa proposta de pesquisa-ação, inicialmente foi formado um grupo de pesquisadores composto por alunos da UNESP-Bauru.

Assim feito, as etapas dessa investigação que se seguiram foram:

1. Escolha de um tema gerador de pesquisa e de ação relacionado com a problemática dos resíduos sólidos da UNESP-Bauru.

2. Elaboração de um plano de pesquisa no campus: diagnóstico dos resíduos.

3. Estudo da problemática dos resíduos.

4. Construção de atividades educativas sobre a temática dos resíduos, tendo como embasamento o conhecimento gerado pelo grupo.

5. Avaliação do processo de pesquisa-ação.

Destacamos que, durante todo o processo, os momentos de reflexão foram essenciais e permearam cada etapa e que a metodologia inicialmente proposta ganhou novos contornos ao longo do desenvolvimento da pesquisa devido ao caráter participativo e processual da pesquisa-ação, como serão melhor detalhados durante a apresentação dos resultados.

Para que houvesse um maior envolvimento entre nós e a pesquisa-ação, o grupo se reunia semanalmente durante uma hora, para planejar e organizar os dados pesquisados, sistematizar os conhecimentos gerados, organizar as atividades realizadas, refletir coletivamente sobre o tema gerador da pesquisa e as ações a realizar, sobre as intervenções propostas pelo grupo e para avaliar as atividades

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desenvolvidas. Os encontros ocorreram sempre no mesmo local e hora (no prédio do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, às quartas-feiras, às 13h00), para que fosse fortalecido o grupo e fosse firmado um compromisso dos integrantes com a pesquisa-ação. Nós mantivemos uma comunicação via e-mail para marcar encontros e trocar informações, recados e notícias.

Todos os momentos de reunião foram registrados em um diário de campo, o qual foi utilizado apenas pela

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1. Apresentação

Os resultados que apresentaremos a seguir foram gerados a partir dos relatos referentes aos encontros e atividades desenvolvidas pelo grupo de pesquisa durante o período de dezembro de 2003 à dezembro de 2004. Destacamos que, durante o ano, os encontros e atividades foram total ou parcialmente paralisadas em função de férias, recesso e período de greve. Conforme a metodologia proposta, para organizarmos os resultados e posteriormente realizarmos a discussão bibliográfica, criamos quatro categorias de análise onde foi relatada toda a dinâmica de pesquisa, reflexão e ação do grupo.

As categorias criadas foram:

i) A formação do grupo de pesquisa;

ii) A escolha do tema gerador de pesquisa e de ação; iii) O processo de pesquisa

iv) O processo educativo

Propomos na metodologia a etapa de elaboração e execução de atividades educativas com a temática dos resíduos, tendo como embasamento a pesquisa desenvolvida coletivamente. Essa etapa, em

conjunto com os momentos de reflexão, estão descritos e analisados ao longo das quatro categorias acima

apresentadas. Destacamos que, durante o ano de trabalho, alguns alunos que participaram do grupo de pesquisa utilizaram a temática dos resíduos na elaboração de atividades curriculares em disciplinas dos

cursos que freqüentam. Essa ação não estava prevista na metodologia proposta ao grupo, porém os trabalhos desenvolvidos foram considerados como resultado da interação desses alunos com as discussões abordadas ao longo da pesquisa-ação e foram considerados como partes do processo educativo.

(34)

Figura 1. Representação ilustrativa dos resultados da pesquisa-ação.

RESULTADOS DA PESQUISA-AÇÃO

Formação do GERe: alunos Biologia e Jornalismo

Alunos voluntários para estruturação do programa

de coleta seletiva. Unesp-Bauru

Projeto de mestrado PPEC-FC

Escolha do Tema Gerador Levantamento de

questionamentos sobre a Coleta Seletiva

Concepções da comunidade unespiana sobre a questão dos resíduos. Consumo de copos e

papéis da unesp

Diagnóstico problemática dos resíduos

Divulgação; Troca dos adesivos informativos; Reunião com Administração Geral; Atividade educativa Funcionários e Calouros;

Artigo sobre a Coleta Seletiva.

PROCESSO EDUCATIVO

PROCESSO DE PESQUISA

Novos conhecimentos sobre os resíduos, metodologia de pesquisa e elaboração de ações educativas;Plano de aula de ciências sobre “lixo” (alunos Biologia); Artigo de Jornal e Roteiro de Vídeo Jornalístico (alunos

Jornalismo); Novo significado para participação

(35)

2. Formação do grupo de pesquisa

2.1. A Comissão de Gestão Ambiental e o projeto de Coleta Seletiva na Unesp – Bauru

A formação do grupo de pesquisa teve como contexto inicial um movimento existente nesta unidade da UNESP de compromisso com as questões ambientais, em especial com os problemas referentes ao interior do campus.

Com o objetivo de aprimorar e formar as bases de um programa de melhorias (...) ao qual poderão estar vinculadas todas as ações de política ambiental, planejamento, implementação e operação, correção

e análise crítica, no ano de 2001 foi criada na UNESP – Bauru a Comissão de Gestão Ambiental (CGA).

Essa é coordenada pelo Prof. Dr. Osmar Cavassan e conta com a participação de professores das faculdades de Engenharia (FEB), de Ciências (FC) e de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru. As ações da comissão, segundo o coordenador, são administrativas, porém a reunião de várias experiências dos docentes envolvidos em pesquisas ambientais permite à comissão desenvolver trabalhos de extensão e pesquisa ambiental no campus universitário e na área de entorno. A comissão

propôs desenvolver projetos relacionados às áreas verdes e paisagismo, à proteção dos ambientes aquáticos, ao controle de efluentes e segurança dos laboratórios, à universalização dos acessos (construção de rampas, modificação de banheiros para deficientes etc) e ao descarte e à coleta seletiva de resíduos sólidos. A proposta da CGA prevê que todos os projetos sejam integrados e que possam buscar recursos e apoio de outras instituições e, para envolver a comunidade universitária, têm autonomia para desenvolver projetos de educação ambiental.

Concretizando a primeira ação desenvolvida pela CGA, no ano de 2003, com o apoio do GAC (Grupo Administrativo do Campus), foi re-implantado no campus Bauru o Programa deColeta Seletiva de

(36)

Figura 2: Estrutura do Programa de Coleta Seletiva e os Futuros integrantes do GERe

GeRe

RECICLA

COLETA SELETIVA

METAIS - PLÁSTICOS VIDRO - PAPEL

GeRe

RECICLA

COLETA SELETIVA LIXO ÚMIDO

GERE

RECICLA

COLETA SELETIVA

PAPEL

GERE

RECICLA

LIXO TÓXICO

Pilhas e Baterias

PROGRAMA DE COLETA SELETIVA DA

UNESP-BAURU

Adesivos informativos

Cestos

Faixa de

divulgação

Acondicionamento

dos resíduos no

campus

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