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A construção da textualidade nas epístolas Paulinas

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Mônica de Barros Barreto Guimarães de Mesquita

A Construção da Textualidade nas Epístolas Paulinas

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Mônica de Barros Barreto Guimarães de Mesquita

A Construção da Textualidade nas Epístolas Paulinas

Dissertação apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial

para obtenção do título de Mestre em Letras.

Orientadora: Profª. Drª. Elisa Guimarães Pinto

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MÔNICA DE BARROS BARRETO GUIMARÃES DE MESQUITA

A Construção da Textualidade nas Epístolas Paulinas

Dissertação apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial

para obtenção do título de Mestre em Letras.

Aprovada em ___ de ___________ de 2008.

BANCA EXAMINADORA

_________________________ Profª Drª Elisa Guimarães Pinto (Universidade Presbiteriana Mackenzie)

___________________________________ Profª Draª Rosemeire Leão da Silva Faccina

(Universidade Presbiteriana Mackenzie)

_________________________________ Profª Dra Maria Lúcia de Oliveira Andrade

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Sou infinitamente grata a Deus, meu criador e redentor, que direcionou meus passos até aqui e me sustentou em todos os momentos da minha vida.

Agradeço muito a meu marido, que sempre esteve ao meu lado, não medindo esforços para que eu obtivesse êxito no desenvolvimento desta dissertação de mestrado.

Agradeço às minhas duas e amadas filhas, Jessica e Isabela, que, durante o período desta pesquisa, abdicaram do precioso tempo que teriam com a mãe.

Agradeço à minha preciosa orientadora, Elisa Guimarães, de quem sou profunda admiradora desde meus tempos de graduação, que investiu em sua orientanda de todas as maneiras, a fim de que este trabalho fosse concluído.

Agradeço à professora Rose Faccina, portadora de uma doçura permanente, pronta a dar valiosas opiniões e grande estimuladora desde que a conheci.

Agradeço ao Instituto Presbiteriano Mackenzie, em todas as suas instâncias, pela bolsa concedida desde meu ingresso no curso de Letras e por ser uma instituição que prima pela excelência no que se refere à educação, em especial à pesquisa.

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RESUMO

MESQUITA, Mônica de Barros Barreto Guimarães de – A Construção da Textualidade nas Epístolas Paulinas. Dissertação de Mestrado. Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2008.

Neste trabalho, pretendo mostrar como o processo da referenciação é instrumental para a argumentação, pois é através dele que se constrói a linha coesiva do texto, o que, por sua vez, acaba por desembocar na argumentação. Na fundamentação teórica, no que se refere aos estudos da Lingüística Textual, pautei-me, especialmente, nas postulações de Ingedore Villaça Koch, Maria Helena de Moura Neves, Lorenza Mondada, Danièle Dubois e Denis Apothéloz. No campo da Argumentação, o trabalho apóia-se nos estudos de Aristóteles, Perelman e Reboul. Na área do Discurso, os teóricos estudados foram, especialmente, José Luis Fiorin e Eni Orlandi. A metodologia adotada foi a analítico-interpretativa: expus, primeiramente, a teoria, aplicando-a, depois, na análise. Estabeleci um paralelo entre fragmentos de duas epístolas neo-testamentárias por fatores que vão desde o fascínio que o texto sagrado exerce sobre mim, até o fato de que tais textos são riquíssimos em elementos referenciais. Além disso, na minha vida profissional, lido com o Discurso Religioso continuamente. Após vencer os caminhos que me propus a trilhar, várias conclusões se apresentaram. Primeiramente, constatou-se que a escolha, pelo enunciador, de cada elemento procedural assegurou a argumentação. A seguir, através de uma investigação dos processos de textualização, constatou-se que os mesmos são canais conducentes à textualidade. Enfim, concluiu-se que tanto o fator lingüístico, quanto o discursivo-ideológico desembocaram no processo da argumentação: o enunciador se apropriou desses fatores para convencer seu enunciatário.

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ABSTRACT

MESQUITA, Mônica de Barros Barreto Guimarães de – The Building of Textuality Process on the Paul’s Epistles. Master Thesis. Mackenzie Presbyterian University, 2008.

In this text, my goal is to show how the process of reference is crucial for the enunciator’s argumentation, for it is through this process that one can build up the text’s cohesive line, which, by its turns, flows into the argumentation. As far as theoretical background, I have based my conclusions on the studies of the following scholars: Ingedore Villaça Kock, Maria Helena de Moura Neves, Lorenza Mondada, Daniele Dubois and Denis Apotheloz – in the area of Textual Linguistic; Aristoteles, Perelman and Reboul – in the area of Argumentation; Jose Luis Fiorin and Eni Orlandi – in the area of Discourse Analysis. The methodological approach I adopted here is called analytical-interpretative: First, I did an explanation about the Theory, and then I applied it in the process of analysis. I established a parallel among fragments of two neo-testamentary epistles based on factors of the amazement that the holy text brings to me, not to mention that these texts are rich in referential elements. Besides that, in my professional life I continually work with religious discourse. After I had overcome all paths that I established to myself, many conclusions came out to me. First, it was attested that the choice made by the enunciator of each procedural element assured the argumentation. Secondly, through a careful investigation of the textual processes also it was attested that they are conducive channels to textual coherence. Thus, I found out that either the linguistic factor or the ideological discourse flow into the argumentation: the enunciator seizes these factors and uses them appropriately to persuade his audience.

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SUMÁRIO

Considerações Iniciais... ...12

Capítulo 1 A Lingüística do Texto 1.1 Estabelecimento das Propostas da Lingüística Textual em Relação à Recuperação do Texto ...16

1.2 Captação e Análise das Estratégias Lingüísticas Utilizadas por Paulo ...39

1.3 Exploração dos processos de textualização conducentes à textualidade ...44

Capítulo 2 O Discurso e a Ideologia nas Epístolas Paulinas 2.1 O Discurso, a Ideologia e suas Idéias Centrais ...52

2.2 O Discurso de Paulo ...64

2.3 Paulo e a Ideologia ...70

2.4 Contexto Histórico ...72

Capítulo 3 O Processo Argumentativo Paulino 3.1 A Argumentação e a Retórica ...78

3.2 A Argumentação e a Retórica em Paulo ...86

Considerações Finais ...99

Referências Bibliográficas ...101

Anexos Anexo A ...104

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A escolha do Discurso Religioso para o desenvolvimento de minha dissertação de mestrado está pautada em diversas razões. Em primeiro lugar, sou uma cristã convicta que procura praticar os preceitos do Cristianismo bíblico, vétero e neo-testamentários. Minhas convicções religiosas estão alicerçadas no Cristianismo Reformado do século 16, pois foi onde encontrei as respostas para várias questões existenciais que busquei durante meus primeiros 23 anos de vida. Outra razão para esta escolha é o fato de meu marido ser pastor presbiteriano, ordenado ao sagrado ministério no ano de 1999, e por desde então eu estar envolvida com seu trabalho pastoral e com o ministério cristão em geral. Em terceiro lugar, sou revisora e estilista de textos desde o ano de 1993, quase sempre envolvida com o Discurso Religioso – livros, apostilas, periódicos, artigos e cartas que revisei foram publicados por editoras e organizações distintas. Em quarto lugar, sou revisora e de textos e articulista da Revista Alcance, uma publicação da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais, autarquia da Igreja Presbiteriana do Brasil, cuja tiragem trimestral é de 5.000 exemplares. Sou ainda tradutora, tendo traduzido livro e dezenas de artigos do Espanhol para o Português, ambos relacionados ao Discurso Religioso. Em último lugar, fiz essa opção, por eu mesma ser escritora, com uma grande parte de meus textos tendo sido produzida sob a esfera do Discurso Religioso.

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Quanto ao recorte que fiz dentro da produção epistolar paulina, apoiei-me numa das questões que mais assola o ser humano, independente de que religião for, que é a constante luta travada entre o espírito e a carne – ou o espírito e o corpo. Luta que se dá pelo indivíduo saber o que deve ser feito (âmbito do espírito), mas fazer o que não deve ser feito (âmbito da carne). São questões éticas, morais, sociais e mesmo individuais que estão em constante embate e um dos maiores reflexos da relevância do tema é o de que está sempre em pauta, seja no Cristianismo católico, ortodoxo ou reformado. O fenômeno do surgimento e crescimento galopante das religiões neo-pentecostais, que enfatizam a obra do Espírito Santo, justifica-se também por este tema: a eterna luta entre a natureza humana e a natureza divina. A batalha entre esses dois pólos é um dos pontos centrais da teologia paulina, que está pautada nos conflitos do Homem – não somente dos cristãos. Diante do exposto, foram escolhidos dois fragmentos de duas das mais importantes epístolas escritas por Paulo: a Epístola aos Romanos e a Epístola aos Gálatas. Dentro do capítulo 5 desta e do capítulo 8 daquela estão dois tratados da temática até aqui exposta.

O objetivo geral deste trabalho é mostrar como o processo da referenciação é instrumental para a argumentação do autor, pois através da referenciação, constrói-se a linha coesiva do texto, o que desemboca na argumentação.

Os objetivos específicos visam a definir os processos da referenciação e os processos da argumentação, explorando os momentos argumentativos do texto e deixando claros os traços fundamentais do discurso religioso.

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A metodologia utilizada no desenvolvimento desta dissertação é a analítico-interpretativa. Trabalhar-se-á, primeiramente, com a teoria para depois aplicá-la na análise.

Este trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro capítulo, “A Lingüística do texto”, discorrer-se-á sobre as propostas da Lingüística Textual, com ênfase no movimento da Referenciação e em como esse movimento culmina no processo da Textualização, que por sua vez produz a Textualidade.

No segundo capítulo, “O Discurso nas Epístolas Paulinas”, apresentar-se-á o contexto histórico em que Paulo estava inserido; discorrer-se-á sobre Discurso, Ideologia, Discurso Religioso e suas idéias centrais; o discurso e a ideologia de Paulo.

No terceiro capítulo, “O Processo Argumentativo Paulino”, a partir de um estudo da argumentação e de seus parâmetros, e tomando por base o primeiro e o segundo capítulos, investigar-se-á a inter-relação entre o processo de referenciação e o da argumentação, e como ambos se entrelaçam na obtenção da Textualidade.

Nas considerações finais, comprovar-se-á a consecução dos objetivos propostos, bem como se fará uma interpretação dos dados levantados pela análise.

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Capítulo 1 A Lingüística do texto

De maneira geral, argumentaremos (...) em favor de uma concepção construtivista da referência (...); assumiremos plenamente o postulado segundo o qual os chamados “objetos-de-discurso” não preexistem “naturalmente” à atividade cognitiva e interativa dos sujeitos falantes, mas devem ser concebidos como produtos – fundamentalmente culturais – desta atividade.

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1.1 Estabelecimento das Propostas da Lingüística Textual em Relação à Recuperação do Texto

É notório aos estudiosos da língua que apenas uma análise dos aspectos gramaticais não esgota todas as possibilidades na investigação de um texto, portanto, este trabalho procura demonstrar como os elementos de coesão textual funcionam e quais as suas funções.

A proposta da Lingüística Textual é avançar, ir além da gramática, oferecendo ao pesquisador o vislumbre de todas as possibilidades que o texto lhe confere.

As conclusões aqui apresentadas baseiam-se, quase em sua totalidade, nos estudos da Lingüística Textual. Faz-se necessário, então, averiguar como esse ramo da Ciência Lingüística encontra-se nos dias de hoje, no que se refere: a sua organização como disciplina; ao que é a coesão textual e quais as suas subdivisões; e como se analisa um texto à luz dos paradigmas da coesão textual.

Diferentemente do que se postulava nas décadas de 60 e 70, em relação às maneiras de se estudar um texto, a abordagem hoje é feita, principalmente, a partir de um ponto de vista sociocognitivista e interacional.

Nos primeiros estudos da Lingüística Textual, havia um privilegiamento da correferenciação (anafórica e catafórica), como sendo “um dos principais fatores da coesão textual” (KOCH, 2004). Outros fenômenos, hoje considerados fundamentais nos estudos de Lingüística Textual, não eram ainda observados.

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em relação a qualquer outra. Teóricos como Weinrich, Petöfi e van Dijk publicaram gramáticas textuais nesse período.

Num segundo estágio da Lingüística Textual, passou-se a valorizar uma perspectiva pragmática, quando surgem, por exemplo, as teorias de base comunicativa que dão uma nova dimensão às pesquisas em Lingüística Textual. A língua é vista então (meados da década de 70) “como uma forma específica de comunicação social, da atividade verbal humana, interconectada com outras atividades (não-lingüísticas) do ser humano.” (KOCH, 2004).

Dentro dessa perspectiva de observância e valorização de aspectos extra-textuais, especialmente nos anos 70, destacam-se os estudos de alguns autores: Wunderlich (Teoria da Atividade Verbal), Isenberg (os aspectos sintático e semântico são determinados pelo pragmático), Schmidt (estuda a comunicação lingüística a partir de “uma teoria sociologicamente ampliada”) (SCHMIDT, 1973 apud KOCH, 2004, p.15), Most & Pasch (o texto é visto como “uma seqüência hierarquicamente organizada de atividades realizadas pelos interlocutores.”) (MOST & PASCH, 1987 apud KOCH, 2004, p.17).

Koch (HEINEMANN & VIEHWEGER, 1991 apud KOCH, 2004, p.18) transcreve os pressupostos gerais apresentados por Heinemann & Viehweger na obra Introdução à Lingüística do Texto:

1. Usar uma língua significa realizar ações. A ação verbal constitui uma atividade social, efetuada por indivíduos sociais, com o fim de realizar tarefas comunicativas, ligadas com a troca de representações, metas e interesses. Ela é parte de processos mais amplos de ação, pelos quais é determinada. 2. A ação verbal é sempre orientada para os parceiros da

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3. A ação verbal realiza-se na forma de produção e recepção de textos. Os textos são, portanto, resultantes de ações verbais/complexos de ações verbais/estruturas ilocucionais, que estão intimamente ligadas com a estrutura proposicional dos enunciados.

4. A ação verbal consciente e finalisticamente orientada origina-se de um plano/estratégia de ação. Para realizar origina-seu objetivo, o falante utiliza-se da possibilidade de operar escolhas entre os diversos meios verbais disponíveis. A partir da meta final a ser atingida, o falante estabelece objetivos parciais, bem como suas respectivas ações parciais. Estabelece-se, pois, uma hierarquia entre os atos de fala de um texto, dos mais gerais aos mais particulares. Ao interlocutor cabe, no momento da compreensão, reconstruir essa hierarquia.

5. Os textos deixam de ser examinados como estruturas

acabadas (produtos), mas passam a ser considerados no processo de sua constituição, verbalização e tratamento pelos parceiros da comunicação.

Já na década de 80, van Dijk se torna um dos primeiros a observar questões de cognição nos textos, tanto em produção, como em compreensão ou funcionamento. Ele estuda, também, as “relações funcionais no discurso”. Outros autores que se destacaram nesse período foram Beaugrande & Dressler (1981). Para eles

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Ainda no contexto da chamada “Virada Cognitivista”, ocorrida na década de 80, pode-se dar destaque ao fenômeno das inferências, entendidas como estratégias cognitivas que pressupõem um cálculo mental, em que, a partir de uma informação semântica nova, é deflagrada uma geração de informação em decorrência da que já fora dada, num contexto específico. Segundo Koch (2004), Beaugrande & Dressler (1981) afirmam “que a inferenciação ocorre a cada vez que se mobiliza conhecimento próprio para construir um mundo textual.”

Várias são as estratégias interacionais utilizadas numa interação verbal. As estratégias de preservação das faces, por exemplo, manifestam-se “lingüisticamente através de atos preparatórios, eufemismos, rodeios, mudanças de tópico e dos marcadores de atenuação em geral.” (KOCH, 2004). Essa estratégia pode abranger, por exemplo, o grau de polidez que se determina socialmente, e na maioria dos casos, “pelos papéis sociais desempenhados pelos participantes [...].” Além desse, há também os aspectos de negociação em que os interlocutores, num momento de interação, transitam de maneira a alcançarem seus objetivos.

Para a autora, uma obra de destaque nesse contexto do cognitivismo é a publicada em 1981 por Beaugrande & Dressler, na qual procura-se “conceituar o que seja textualidade, definida, então como o que faz com que um texto seja um texto, com base no que denominam critérios de

textualidade”, a saber: conectividade, intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade, intertextualidade .

Quanto a esses, Koch prefere denominar princípios de construção textual do sentido.

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cognitivos fora da linguagem [...]” que é postulada aqui “como o principal mediador da interação entre as referências do mundo biológico e as referências do mundo sociocultural.” (MORATO, 2001 apud KOCH, 2004, p.32).

Deve-se retomar, então, a importância da noção de contexto para a Lingüística Textual, entendendo-o como algo construído, na maioria das vezes, durante a própria interação. Na concepção interacional da língua, “o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, sujeitos ativos que [...] nele se constroem e por ele são construídos.” (KOCH, 2004).

No segundo capítulo de seu livro A Coesão Textual, Koch faz referência à obra de Halliday & Hasan, que afirmam que algumas formas de coesão podem ser realizadas pela gramática e outras pelo léxico. Eles citam como principais fatores de coesão a referência, a substituição, a elipse, a conjunção e a coesão lexical.

Apesar da obra desses autores servir de base para inúmeras pesquisas, alguns lingüistas compreendem a coesão não como a condição necessária para a criação do texto, pois “existem textos destituídos de recursos coesivos, mas em que a continuidade se dá ao nível do sentido e não ao nível das relações entre os constituintes lingüísticos” e há ainda textos em que acontece “um seqüenciamento coesivo de fatos isolados que permanecem isolados, e com isso não têm condições de formar uma textura” (KOCH, 2004). Tudo isso aponta para uma distinção entre coesão e coerência, fator preponderante para a execução desta pesquisa.

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Dentre os cinco mecanismos de coesão enumerados, a referência diz respeito aos itens da língua que não podem ser interpretados semanticamente por si mesmos, mas remetem a outros itens necessários à sua interpretação. É feita uma diferenciação entre a referência exofórica – remissão feita a elemento extratextual – e endofórica – referente no próprio texto. A referência pode ser pessoal, demonstrativa ou comparativa.

A substituição consiste na colocação de um item no lugar de outro (ou outros). É uma relação interna ao texto.

A Elipse seria uma substituição por zero. Pode-se omitir um item lexical, um sintagma, uma oração ou um todo enunciativo.

A conjunção estabelece relação significativa entre elementos ou orações do texto. Ela pode ser aditiva, adversativa, causal, temporal e continuativa.

A coesão lexical pode ser obtida pela reiteração – repetição do mesmo item lexical, sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos – ou por colocação – uso de termos pertencentes a um mesmo campo significativo. Na classificação de Halliday & Hasan há certa fluidez nos limites entre referência e substituição.

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coesão lexical. O segundo grupo, o da coesão seqüencial, será apresentado mais adiante.

Na coesão referencial, o referente é visto como aquilo que se sugere quando se usa um termo ou se cria uma situação discursiva referencial com a finalidade de designar as entidades como objetos-de-discurso e não como objetos-de-mundo. Obviamente que, apesar desse ponto de vista, não se nega a existência da realidade extramente. Tal ponto de vista baseia-se em Apothéloz & Reichler-Béguelin. Uma expressão anafórica (nominal ou pronominal) é interpretada quando se estabelece uma relação com algum tipo de informação presente na memória discursiva, por isso, a noção de língua, aqui, não se esgota no código. É preciso, então, fazer-se uma distinção entre retomada (implica remissão e referenciação), remissão (implica referenciação e não necessariamente retomada) e referenciação (não implica remissão pontualizada nem retomada).

Já que a referenciação enquadra-se na operação dos elementos designadores, a progressão referencial se baseia, sempre, em algum tipo de referenciação. Referir é uma atividade que se realiza por meio da língua sem necessariamente implicar uma relação língua-mundo; remeter é uma atividade indexical na contextualidade; retomar é uma atividade de continuidade de um núcleo referencial.

Tanto a referenciação como a progressão referencial consistem na construção e reconstrução de objetos-de-discurso. A referenciação, então, constitui uma atividade discursiva, em que o sujeito utiliza o material lingüístico disponível, segundo sua intenção ou necessidade. Esse sujeito faz suas escolhas baseado num querer-dizer. Os objetos-de-discurso, que não são a realidade extra-lingüística, reconstroem-se durante a interação.

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estratégias de referenciação: construção e ativação, reconstrução e reativação, desfocalização e desativação. Com seu uso, o modelo textual é estabilizado. Esse modelo também é continuamente reelaborado e modificado através de novas referenciações. Com isso, os nódulos cognitivos podem ser modificados ou expandidos.

As formas de introdução de referentes no modelo textual são duas: a ancorada e a não ancorada – que se dá quando um objeto de discurso novo se introduz no texto. Koch propõe que as nominalizações sejam incluídas entre os casos de introdução ancorada. Essas mesmas nominalizações podem ser prospectivas ou retrospectivas.

A progressão referencial mantém os objetos previamente introduzidos focalizados, originando as cadeias referenciais que a possibilitam e ela pode realizar-se: por recursos gramaticais (pronomes, elipses, numerais, advérbios locativos, etc); por recursos lexicais (reiteração de itens lexicais, sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos, expressões nominais, etc.).

As funções cognitivo-discursivas das expressões nominais referenciais são: ativação/reativação na memória; encapsulamento e rotulação; organização macroestrutural; atualização de conhecimento por meio de glosas realizadas por um hiperônimo; especificação por meio da seqüência hiperônimo/hipônimo; construção de paráfrases definicionais e didáticas; introdução de informações novas (tanto por pára-sinonímia quanto por novas caracterizações do referente); orientação argumentativa; categorização metaenunciativa de um ato de enunciação.

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1. Conceituação

Segundo a teoria de Apothéloz e Reichler-Béguelin, e também de Neves (2006), a Referenciação envolve interação e, conseqüentemente, intenção. Quando os falantes estabelecem uma interação lingüística, instituem os objetos-de-discurso. Uma primeira noção de referência seria a da construção de referentes. A segunda seria a de identificação de referentes.

Na construção, o falante usa um termo a fim de que o ouvinte construa um referente para esse termo e introduza esse referente em seu modelo mental. Na identificação, o falante usa um termo para que o ouvinte identifique um referente que já esteja, de alguma maneira, disponível.

Deve-se ressaltar que vislumbrando o funcionamento lingüístico, o processo de referenciação não se reduz a apenas esses dois movimentos, dizendo respeito também à constituição do texto como uma rede em que referentes são introduzidos como objetos-de-discurso.

Para Koch & Marcuschi e Mondada & Dubois, na busca de saber se o referente é fabricado pela prática social ou pela atividade sóciocognitivo-discursiva da referenciação, esses autores entendem a referenciação como atividade discursiva que implica uma visão não-referencial da língua e da linguagem (KOCH, 2004). Sob essa acepção repousa, então, certa instabilidade das relações entre as palavras e as coisas.

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não são a realidade extra-lingüística, reconstroem-se durante a interação. (KOCH, 2004)

Lyons (NEVES, 2006 apud LYONS, 1977, p.174) diz que o ato de referenciar está na relação entre uma expressão lingüística e o que ela significa em ocasiões particulares do discurso.

Ex. Maria é jovem, atraente. Maria – expressão referencial. Se esta é bem sucedida, o interlocutor identificará o referente.

2. Retomar, Remeter ou Referenciar

A língua não existe fora dos sujeitos sociais que a falam ou fora dos eventos discursivos nos quais eles intervêm e nos quais mobilizam suas percepções e saberes.

A interpretação de uma expressão anafórica, nominal ou pronominal, consiste em estabelecer uma relação com algum tipo de informação presente na memória discursiva.

Koch (2004) postula que há acepções distintas para os termos:

a) retomada – implica remissão e referenciação

b) remissão – implica referenciação e não necessariamente retomada c) referenciação – não implica remissão pontualizada nem retomada

Todos os casos de progressão referencial são baseados em algum tipo de referenciação, não importando se são os mesmos elementos que recorrem ou não.

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Tanto para Koch (2004) como para Mondada & Dubois (1995) optou-se por substituir a noção de referência pela de referenciação, conforme postulação de Mondada (KOCH, 2004, apud MONDADA, 2001, p.61):

Ela [a referenciação] não privilegia a relação entre as palavras e as coisas, mas a relação intersubjetiva e social no seio da qual as versões do mundo são publicamente elaboradas, avaliadas em termos de adequação às finalidades práticas e às ações em curso dos enunciadores.

Apothéloz & Reichler-Béguelin (1995) postulam que:

a. A referência diz respeito sobretudo às operações efetuadas pelos sujeitos à medida que o discurso se desenvolve;

b. O discurso constrói aquilo a que faz remissão ao mesmo tempo em que é tributário dessa construção.

c. Eventuais modificações sofridas predicativamente ou “mundanamente” por um referente não acarretam necessariamente uma recategorização lexical, sendo o inverso também verdadeiro.

3. Tipos de referenciação (segundo postulação de NEVES, 2006, p.83)

São, geralmente, definidos pelo tipo de determinante que ocorre no sintagma nominal.

Genérica

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Individual

Ex. As pessoas mais corridas do lugar não davam crédito às besteiras do Edilberto.

4. Referenciação e distribuição da informação

“... não é fácil decidir se um referente está sendo tratado pelo falante como acessível, como dado, ou como novo.” (Neves 2006)

Chafe (1996) apresenta 3 graus de acesso ao referente, segundo os graus de ativação dos conceitos:

Ativo – quando o conceito está no foco da consciência da pessoa no momento (dado)

Semi-ativo – quando o conceito está na consciência periférica, como algo que já esteve em foco, mas deixou o estado plenamente ativo (acessível)

Inativo – quando o conceito está na memória de longo termo, ou nunca esteve antes na consciência (novo).

Categorias relativas à distribuição da informação • Dado/não dado

• Conhecido/não conhecido • Velho/novo

Categorias ligadas aos processos de composição da cadeia referencial • Anafórico/não anafórico

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Combinadas em quatro tipos, surgem as seguintes categorias: (i) anafórico e determinado (AD)

(ii) anafórico e indeterminado (AI) (iii) não anafórico e determinado (ND) (iv) não anafórico e indeterminado (NI)

Exemplo (de como esses diferentes tipos mapeiam a referenciação textual dos sintagmas nominais):

Moore – Fiquei pasmo ao descobrir que o dr. David Golde (ND), que me (ND) atendeu, patenteou minhas células (ND), reproduzindo-as (AD) em laboratórios (ND), como se fosse o dono delas (AD).

Folha – O que é que significa, na prática, o médico (AD) ter patenteado suas células (ND)?

Moore - Quem patenteou ø foi a universidade (ND), mas o dr. Golde (ND) fez um acerto (NI) com ela (AD). Tanto o médico (AD) como a universidade (AD) lucraram com a venda (AD) das minhas células (ND). Um laboratório (NI) comprou o direito de usá-las (AD), pesquisá-las (AD), reproduzi-las (AD)... Na prática, isso significa que eles (AD) lucraram indevidamente com alguma coisa (NI) que era minha, parte do meu corpo (ND). (NEVES 2006, p.89)

Pode-se verificar no exemplo que não há ocorrência de [AI] e fica fácil perceber que as categorias ‘anafórico’ e ‘indeterminado’ são as menos compatíveis e que o tipo construído pela conjunção de ambas deve estar restrito a menor variedade de contextos.

Exemplo de sintagma nominal ‘anafórico’ e ‘indeterminado’:

Alguns moleques retardatários saíam ainda, os bolsos das calças estufados, maçã meia comida na mão e a boca cheia.

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5. Anaforização

Berrendonner (KOCH, 2004 apud BERRENDONNER, 1986) afirma que o emprego de elementos anafóricos caracteriza-se como um fenômeno de retomada informacional relativamente complexa em que intervêm o saber construído lingüisticamente pelo próprio texto e os conteúdos inferenciais que podem ser calculados a partir de conteúdos lingüísticos tomados por premissas, graças aos conhecimentos lexicais, aos pré-requisitos enciclopédicos e culturais e aos lugares-comuns argumentativos de uma dada sociedade.

Estratégias de referenciação na constituição da memória discursiva

1. Construção/ativação: um “objeto” textual até então não mencionado é introduzido, passando a preencher um “endereço” cognitivo na rede conceitual do modelo de mundo textual.

2. Reconstrução/reativação: um “endereço” cognitivo já presente na memória discursiva é reintroduzido na memória operacional, por meio de uma forma referencial, de modo que o objeto-de-discurso permanece saliente.

3. Desfocalização/desativação: ocorre quando um novo objeto-de-discurso é introduzido, passando a ocupar a posição focal. Contudo, o objeto retirado de foco permanece em estado de ativação parcial, podendo voltar à posição focal a qualquer momento.

Introdução de informações novas

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caso, informações inéditas a respeito do objeto-de-discurso, justamente por designá-lo por um novo nome que dificilmente seria previsível para o destinatário.

Ex. “A polêmica parecia não ter fim. Pelo jeito, aquele bate-boca entraria pela noite adentro, sem perspectivas de solução.”

Por novas caracterizações do referente – a introdução de novas informações a respeito do referente, por meio de anáfora nominal (definida ou indefinida), é freqüente. O intuito é o de caracterizar o referente de uma maneira específica.

Ex. “O prefeito é especialmente exigente para liberar novos empreendimentos imobiliários , principalmente quando estão localizados na franja da cidade ou em áreas rurais (...) O crescimento urbano tem de ser em direção ao centro, ocupando os vazios urbanos e aproveitando a infra-estrutura, não na área rural, que deve ser preservada, repete o urbanista que entrou no PT em 1981 como militante dos movimentos populares por

moradia. “

Inferencialidade

Numa conceituação mais atual, observou-se que a anáfora “não apenas retoma referentes, mas pode também ativar novos referentes” (TEIXEIRA, 2004, p.4) e que sendo assim, a anáfora não está somente vinculada às noções de correferencialidade e de retomada. Além disso, comprovou-se que a anáfora “pode introduzir elemento novo recuperado através de uma âncora que ativa significados, desencadeando inferências potenciais ou relações possíveis nem sempre lexicalizadas, mas situadas no texto”. (p. 5) A partir desse novo ponto de vista, a anáfora, então, passa a ser considerada como um fenômeno de natureza também inferencial.

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Ex. Márcia colocou seu copo na bandeja e pegou um outro.

A expressão um outro apresenta um referente distinto ao do grupo nominal anterior.

Convém destacar que as anáforas podem ser construídas de diversas maneiras, a saber: pronominalização, nominalização (anáforas lexicais) e verbalização (verbo fazer).

Neves (2006) explica que a anáfora associativa é um tipo de anáfora nominal não correferencial, com a qual “introduz-se como conhecido um referente que ainda não foi explicitamente mencionado no contexto anterior, mas que pode ser identificado com base em informação introduzida previamente no universo do discurso, configurada em um outro referente disponível no contexto”.

Exemplo de anáfora associativa:

Ontem houve um casamento. A noiva usava um longo vestido branco. (Isenberg, 1968).

6. Correferenciação

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Exemplos

¾ Impressionado com a tristeza e isolamento de Zé Luís, Cesário acercou-se dele. (NEVES, 2006, p.92)

¾ Mal começamos a conversar, entra um jornalista, que veio buscar um poema para publicar. (...). Ele junta-se à nossa conversa, e divide a cerveja com Marta, enquanto tomo meu guaraná. (p.92)

¾ Eu gosto de omeletes e elas consomem dúzias deles, você sabe. (p.92)

Para Levinson (1991 apud NEVES, 2006), se o falante quer expressar correferência, ele preferirá, sempre que possível, zero a pronome e pronome a sintagma nominal pleno:

Ex. Valentim lavou a cara e as mãos numa fonte, ø examinou os cavalos e as mulas, ø saltou no dorso de seu animal e ø ordenou a partida (...)

7. Ativação de Referentes

Prince aponta duas maneiras de ativação de referentes (1981 apud KOCH, 2004):

Ativação não-ancorada

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Ativação ancorada

Sempre que um novo objeto-de-discurso é introduzido, sob o modo do dado, em virtude de algum tipo de associação com elementos presentes no co-texto ou no contexto sócio-cognitivo, passível de ser estabelecida por associação e/ou inferenciação. (anáforas associativas e anáforas indiretas estão entre estes casos)

Koch (2004) propõe que também sejam consideradas ativação ancorada as chamadas nominalizações, tal como definidas por Apothéloz & Reichler-Béguelin (1995 apud KOCH, 2004): uma operação discursiva que consiste em referir, por meio de um sintagma nominal, um processo ou estado

significado por uma proposição que, anteriormente, não tinha o estatuto de

entidade.

Encerrando-se aqui o primeiro grupo em que se realiza a coesão textual, passemos ao segundo que é o da coesão seqüencial, – que garante a continuidade do sentido – responsável por outra parcela da coesão lexical e pela conexão.

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Apesar de nem sempre atuarem com função coesiva, alguns elementos de ordem gramatical são muito freqüentes numa seqüência em que haja coesão referencial, como por exemplo:

• Pronomes de 3ª pessoa (retos e oblíquos)

ex. Não se esqueça de comprar os bilhetes. Eles já estão à venda.

• Pronomes possessivos, demonstrativos, indefinidos, interrogativos e relativos

ex. Já separei os CDs. Os seus estão na sacola.

• Numerais

ex. As crianças estão na fila. As primeiras são sempre as mesmas.

• Artigo definido

ex. As correspondências chegaram. As da mamãe coloquei na gaveta.

• Alguns advérbios locativos

ex. Entrei desanimada na classe. Ali estava ela de novo.

Da parte dos elementos de ordem lexical que possuem função referencial, pode-se destacar:

• Repetição do mesmo item lexical

ex. O lanche estava gostoso. Podíamos ter um lanche assim todos os dias.

• Sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos, formas nominais, nominalizações

ex. A casinhola ficava no meio da floresta. No casebre, de chão batido e coberto de sapé, morava um velho lenhador. (KOCH, 2004, p.37)

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A coesão textual se sustenta, em grande medida, pelas retomadas. As expressões que se reportam a outras, ou a enunciados, ou a conteúdos contribuem grandemente para o êxito da continuidade tópica e referencial. A estas se denomina anáforas, que tradicionalmente são definidas como todas as retomadas de quaisquer elementos textuais anteriores, cuja identidade referencial permanece intacta.

Em se tratando de coesão seqüencial, vale ressaltar que a mesma ocorre por meio de procedimentos lingüísticos que fazem o texto progredir. Ela se realiza com ou sem elementos recorrentes. Pode-se dividi-la em “seqüenciação frástica (sem procedimentos de recorrência estrita) e seqüenciação parafrástica (com procedimentos de recorrência).” (KOCH, 2004)

A seqüenciação parafrástica pode ser feita de várias maneiras: pela extensão de um parágrafo, reiteração de termos veiculadores de idéias básicas, reiteração de estruturas sintáticas, reiteração do conectivo ‘e’, predominância de verbos no pretérito imperfeito do indicativo, reiteração de conteúdo semântico. Para organizar melhor esses recursos lingüísticos, pode-se acrescentar como fatores de seqüenciação: recorrência de termos (A chuva caía, caía, caía...); recorrência de estruturas sintáticas com itens lexicais diferentes; recorrência de conteúdos semânticos – paráfrase; recorrência de recursos fonológicos; recorrência de tempo e aspecto verbal.

Na seqüenciação frástica ocorre uma série de encadeamentos, de ordem lingüística, que promovem determinadas maneiras de relação entre os enunciados. Nesse tipo de seqüenciação o texto avança “sem rodeios ou retornos que provoquem um ralentamento no fluxo informacional.” (KOCH, 2004).

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se, que estabelece uma relação de implicação entre um antecedente e um conseqüente

e, bem como, também, que somam argumentos a favor de determinada conclusão

quando, que opera a localização temporal dos fatos a que se alude no enunciado

ainda que, no entanto, que introduzem uma restrição, oposição ou contraste com relação ao que se disse anteriormente

pois, que apresenta uma justificativa ou explicação sobre o ato da fala anterior • sejam...sejam, como, que introduzem uma especificação e/ou exemplificação • ou, que introduz uma alternativa

Um mecanismo de sequenciação frástica utilizado na coesão textual que também se destaca como fator que mantém o tema, o estabelecimento de relações semânticas, de relações pragmáticas, tanto em segmentos menores como maiores do texto, além da articulação e ordenação de seqüências de texto é a manutenção temática, em que a articulação tema (tópico, dado) e rema (foco, comentário, novo) varia segundo a perspectiva oracional e a contextual.

Segundo Koch, Danes combina essas duas perspectivas com sua concepção de progressão temática (DANES 1970 apud KOCH, 2004, p.63). Para ele, o esqueleto da estrutura textual pode ser de cinco tipos: progressão temática linear; progressão temática com um tema constante; progressão com tema derivado; progressão por desenvolvimento de um rema subdividido; progressão com salto temático.

Outra forma muito freqüente na seqüenciação frástica é o encadeamento, que pode se dar por:

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• Conexão que se dá por conjunções, advérbios sentenciais e outras palavras de ligação que estabelecem relações semânticas ou pragmáticas.

Desde seu início, a Lingüística Textual vem ampliando e modificando seu espectro de preocupações. Começando com uma postura de análise transfrástica e com as gramáticas textuais, passando a uma visão pragmático-discursiva, culminou numa tendência sociocognitivista e interacional. Conjectura-se sobre como ela se posicionará diante dos novos meios de representação do conhecimento. Quais serão os limites do seu domínio e seus próximos procedimentos metodológicos?

Koch aponta dois autores que publicaram obras importantes no final do século XX e que tratam dessas questões, Beaugrande e Gerd Antos.

Sumarizando o pensamento desses teóricos, os textos – vistos como formas de cognição social – levam o homem a organizar o mundo cognitivamente. Por causa dessa capacidade são também meios de intercomunicação, de produção, de preservação e de transmissão do saber.

Quando a Lingüística Textual adota uma concepção de texto interativa e sociocognitiva, parece abrir vários caminhos, sendo ponto de partida para muitos deles e isso só pode prenunciar perspectivas muito otimistas quanto ao seu futuro. Tudo isso torna o caráter da Lingüística Textual amplamente multi e transdisciplinar, em que se busca compreender o texto como fruto de interação e de construção social de sujeitos, conhecimento e linguagem.

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1.2 Captação e Análise das Estratégias Lingüísticas Utilizadas por Paulo

O enunciador faz uma clara escolha pela utilização de determinados recursos lingüísticos em seu texto. Além de formar a coesão com recursos gramaticais, ele faz uma ampla opção pela reiteração de itens lexicais e pela utilização de sinônimos.

Essa estratégia de referenciação – que inclui pára-sinonímia e novas categorizações do referente – contribui para a manutenção do tema e, consequentemente, para a manutenção da coesão.

Logo no início do texto de Romanos, constata-se a primeira menção – a apresentação – do referente “Jesus Cristo”. Este referente é retomado seis vezes, seja pela repetição ou pela utilização de sinônimo: Jesus Cristo (1); Cristo (2); Filho (1); Jesus (2).

Faz-se necessária uma apresentação dos termos e expressões mais recuperados ao longo do texto: “lei” (5 ocorrências); Jesus Cristo (3); “Cristo” (2); “Espírito” (11); “Deus” (5); “Espírito de Deus” (2); “filhos de Deus” (2); “espírito” (2); “carne” (10); “pecado” (5); “morte” (3); “sob o domínio da carne” (4); “Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos” (2).

Deve-se ressaltar os termos e seus sinônimos mais recorrentes e mais importantes utilizados por Paulo na Epístola aos Romanos:

1) Deus = Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos

2) Espírito (destaque para o “E” maiúsculo) = Espírito de Deus = Espírito de Cristo

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Há outras três ocorrências desse mecanismo no texto, em relação a três outros referentes. Primeiramente, as com o referente “Lei” – quando diz respeito à lei divina – apresentado ao leitor na linha 2. No decorrer do texto, contam-se quatro retomadas: “lei do Espírito”; “lei”; “lei de Deus”; e o pronome oblíquo “a” (que se refere à lei). Em segundo lugar, com o referente “Espírito” (divino), que é retomado treze vezes: “Espírito” (10); “Espírito de Deus” (2); “Espírito de Cristo” (1). O último destaque é para o referente “carne” retomado 10 vezes através do mesmo item lexical. Toda essa exaustiva retomada de referentes produz o efeito de manutenção da coesão textual.

Um outro mecanismo de coesão observado no texto é o da coesão textual por conjunções. No texto de Romanos (Anexo A) há predominância de conjunções coordenativas. Tradicionalmente, as conjunções coordenativas têm a função de reunir orações independentes ou unidades menores dentro de um mesmo enunciado. As que mais ocorrem são a adversativa “mas” (8 vezes) e a conclusiva “pois” (2 vezes) – outras 2 ocorrências do “pois” são explicativas e uma outra é subordinativa causal. Segundo Cunha (1973), “Certas conjunções coordenativas podem, no discurso, assumir variados matizes significativos de acordo com a relação que estabelecem entre os membros (palavras e orações) coordenados”. No texto, pelo menos uma das utilizações da adversativa “mas”, além da idéia de oposição tem também um valor afetivo de restrição: “Assim, pois, irmãos, nós temos uma dívida, mas não para com a carne...”. Observa-se ainda, a utilização da conjunção “e” (2 vezes) e “portanto” (1 vez). Toda essa teia de conexões coordenativas confere alto grau coesivo ao texto.

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Voltando a atenção para a seqüenciação frástica do texto, observa-se a opção do enunciador por uma progressão temática com um tema constante. O texto pode ser lido a partir de dois sub-temas distintos que ao final se entrelaçam causando o efeito desejado por Paulo: destacar a luta constante do homem entre a carne e o Espírito. Foram selecionadas duas seqüências com os sub-temas carne e Espírito:

Carne

“porque a carne a votava à impotência”; “na condição da nossa carne de pecado”; “ele condenou o pecado na carne”; “sob o domínio da carne, tende-se para o que é carnal”; a carne tende para a morte”; “o pendor da carne é revolta contra Deus”; “não para com a carne, para devermos viver de modo carnal”.

Espírito

“mas [andamos sob o domínio] do Espírito”; “mas o Espírito tende para a vida e a paz”; “visto que o Espírito de Deus habita em vós”; “se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence”; “por seu Espírito que habita em nós”; “Espírito que faz de vós filhos adotivos”.

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Um segundo referente apresentado na seqüência é “liberdade” que é retomado uma única vez através de pronome demonstrativo acompanhado do mesmo item lexical “esta liberdade”.

Assim como no texto de Romanos, em Gálatas o enunciador utiliza a progressão temática com um tema constante: o cristão deve subjugar a carne e viver no Espírito. O texto pode ser lido a partir de dois sub-temas distintos – carne e Espírito – antagônicos entre si, mas que são o amálgama necessário à comprovação da tese principal. Os termos “carne” e “Espírito” são constantemente retomados, uma clara estratégia de reiteração de itens lexicais, o que fornece subsídio à manutenção do foco e, conseqüentemente, à progressão temática como elemento de coesão:

Carne

“...não dê nenhuma oportunidade à carne!” “...não façais mais o que a carne deseja.” “Pois a carne (...) opõe-se ao Espírito...” “As obras da carne são...”

“...crucificaram a carne...”

Espírito

“...andai sob o impulso do Espírito...” “...e o Espírito [opõe-se] à carne;” “...se sois guiados pelo Espírito...” “...eis o fruto do Espírito...”

“Se vivemos pelo Espírito, andemos também sob o impulso do Espírito.”

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1.3 Exploração dos processos de textualização conducentes à textualidade

A textualidade pode ser definida, de maneira extremamente sucinta, como o conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto e não apenas um amontoado de frases. O texto não deve ser encarado como um produto, mas como um processo. Ele se define como um processo organizacional.

Sete princípios de construção textual do sentido foram elaborados por Beaugrande & Dressler (1981), a saber, coesão e coerência, esses centrados no texto, e a situacionalidade, a informatividade, a intertextualidade, a intencionalidade e a aceitabilidade, esses últimos centrados no usuário.

A coesão, em geral, designa-se pela “forma como os elementos lingüísticos presentes na superfície textual se interligam, se interconectam, por meio de recursos também lingüísticos, de modo a formar um “tecido” (tessitura), uma unidade de nível superior à da frase, que dela difere qualitativamente.” (KOCH, 2004, p.35). A coesão é dividida em dois grupos: o da coesão referencial e o da coesão seqüencial.

Para Beaugrande & Dressler, a coerência refere-se “ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual entram numa configuração veiculadora de sentidos” (BEAUGRANDE & DRESSLER, 1981 apud KOCH, 2004, p. 40). Para que haja coerência é preciso haver uma forma de unidade, ou seja, idéias ligadas a um eixo central. Não é apenas uma relação semântica, mas também uma relação de natureza pragmática.

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situação comunicativa em curso ou passível de ser reconstruída”. No movimento texto/situação, a autora postula que

Ao construir um texto, o produtor reconstrói o mundo de acordo com suas experiências, seus objetivos, propósitos, convicções, crenças, isto é, seu modo de ver o mundo. O interlocutor, por sua vez, interpreta o texto de conformidade com seus propósitos, convicções, perspectivas. Há sempre uma mediação entre o mundo real e o mundo construído pelo texto. (p.40)

A informatividade segue duas direções: a distribuição da informação e o grau de previsibilidade e redundância. Quanto à primeira, Koch assevera que “é preciso que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova. Quanto à segunda, ela diz que “um texto será tanto menos informativo quanto mais previsível (redundante) for a informação que traz. Há, portanto, graus de informatividade...” (p.41)

Segundo a autora (p.42), a intertextualidade “compreende as diversas maneiras pelas quais a produção/recepção de um dado texto depende do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores”.

Já o critério da intencionalidade, para a autora, “refere-se aos diversos modos como os sujeitos usam textos para perseguir e realizar suas intenções comunicativas, mobilizando, para tanto, os recursos adequados à concretização dos objetivos visados”. (p.42)

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Os critérios de construção de sentido nos fragmentos de Romanos e Gálatas

Em relação à coesão textual, ambos os textos possuem um alto grau coesivo que pode ser comprovado através da investigação realizada neste trabalho. A tessitura do texto é formada em minúcias e o processo de referenciação demonstra os elementos coesivos do texto.

A coerência, nos dois textos, justifica-se por fatores variados. Ambos estão apoiados num mesmo eixo temático: o homem deve deixar-se governar pelo Espírito Santo. Toda a argumentação do enunciador, conforme investigada nesta pesquisa, converge para esse ponto central. As idéias esboçadas nos dois fragmentos, além de estarem semanticamente entrelaçadas, apresentam um forte teor pragmático, explicitado, por exemplo, nos conselhos práticos para o viver do cristão: “Mas eis o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, doçura, domínio de si; contra tais coisas não há lei.”

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contatos específicos com o Espírito Santo, o indivíduo não-regenerado, que não sabe o que é conversão”. Diante do exposto até aqui, o critério da situacionalidade fica comprovado no texto em questão. O movimento texto para a situação acaba se imbricando nas mesmas questões. Quando se lê, por exemplo, “a carne tende para a morte, mas o Espírito tende para a vida e a paz” além de toda a insistência nesse modelo apresentada pelo enunciador, entende-se que seu enunciatário deveria buscar uma vida espiritual e abandonar o viver carnal. Os pronunciamentos feitos por Paulo possuem grande relevância naquela situação comunicativa.

O texto de Gálatas segue praticamente o mesmo modelo situacional. O enunciador demonstra ser exímio conhecedor dos preceitos judaicos, mas entende que Cristo, em sua expiação vicária, cumpriu toda a Lei. O enunciador também demonstra conhecer a situação específica em que se encontrava o seu enunciatário e busca meios, através de sua construção textual, de suprir as necessidades desse enunciatário ou, ainda, de oferecer-lhe opções seguras para um viver cristão digno. O enunciador traz à baila a maneira como seu enunciatário estava conduzindo seu viver “se vos mordeis e devorais uns aos outros, tomai cuidado: vós vos destruireis mutuamente.” O paradigma cristão permeava a mente de Paulo e ele tencionava transmiti-lo aos seus leitores.

Quanto à informatividade, nota-se, no texto de Romanos, no quesito distribuição da informação, que há equilíbrio entre informação dada (ID) e informação nova (IN). Pode-se observar abaixo:

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pode agradar a Deus (ID). Ora, quanto a vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, visto que o Espírito de Deus habita em vós. (IN) Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence. (ID) (...) Assim, pois, irmãos, nós temos uma dívida, mas não para com a carne, para devermos viver de modo carnal. (IN) Pois se viverdes de modo carnal, morrereis; mas se, pelo Espírito, fizerdes morrer o vosso comportamento carnal, vivereis. (ID) Com efeito, os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses é que são filhos de Deus (ID).

Em relação à previsibilidade e redundância, distinguir-se-ão algumas informações apresentadas no texto. É dito, por exemplo, logo no início, que “não há mais nenhuma condenação para os que estão em Jesus Cristo”. Essa afirmação se faz inédita no decorrer do texto. Em relação a uma outra informação, a saber, “nós, que não andamos sob o domínio da carne, mas do Espírito”, há uma retomada quando o enunciador diz “Ora, quanto a vós, não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito” e ele ainda insiste “visto que o Espírito de Deus habita em vós”. Outras duas vezes surge a mesma informação “por seu Espírito que habita em vós” e “mas [recebestes] um Espírito que faz de vós filhos adotivos”. Pode-se então constatar que sobre o fato de que seus enunciatários seriam pessoas em quem o Espírito de Deus habita, o enunciador confere alto grau de redundância.

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No texto de Romanos, o enunciador faz um intertexto, por exemplo, com o Aramaico, uma das línguas em que foi escrito o Velho Testamento e uns poucos fragmentos do Novo Testamento. Ele introduz a expressão aramaica Abba que quer dizer papai, ou paizinho. Seria uma forma afetuosa e íntima pela qual o filho se refere ou se dirige ao pai. No texto de Gálatas, há um intertexto com uma fala de Jesus, publicada no Evangelho “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não se sabe se os enunciatários atentaram para esse efeito intertextual de Paulo, mas pode-se supor que sim, na medida em que as comunidades cristãs formadas no primeiro século – dentre elas a de Roma e a da Galácia – eram instruídas pelos apóstolos, que reproduziam o que aprenderam com Jesus. Nesse sentido é possível que aqueles cristãos soubessem que um dia Jesus disse que toda a Lei se resume nisto: “amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.

A intencionalidade se apresenta nos textos de Paulo de maneira clara e abrangente. Ele não estava satisfeito com a maneira como os membros das igrejas de Roma e da Galácia conduziam seu viver cristão. Ele deixou clara sua insatisfação por eles darem constante lugar à carne, deixando de lado o governo do Espírito. Ele demonstrou as conseqüências a serem enfrentadas para os que se deixam conduzir pela carne e, por um outro lado, as benesses que colheriam os que se submetessem ao Espírito. Todas as escolhas lexicais, as construções frasais, a seqüência com que as idéias foram apresentadas perseguem o objetivo de deixar muito clara sua intenção comunicativa: “andemos sob o impulso do Espírito”.

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Espírito de Deus habita em vós”; “nós temos uma dívida”; “vós não recebestes um espírito que vos torne escravos”; “teremos parte na sua glória”. Nesse grupo de asseverações, o enunciador faz um jogo com o enunciatário: ora ele se inclui dentre os que seriam afetados por sua conduta de vida, ora se exclui. Se olharmos mais atentamente para a Epístola aos Romanos, que possui ao todo 16 capítulos, veremos o alto grau de intimidade que havia entre Paulo e àquela igreja. No capítulo 15, por exemplo, ele diz “...desejando há muito visitar-vos, penso em faze-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia.” Assim sendo, pode-se supor que a igreja de Roma acataria de bom grado qualquer admoestação feita por Paulo.

Sobre o texto de Gálatas repousa semelhante efeito. No primeiro capítulo dessa epístola, Paulo diz “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho.” Isso demonstra que ele conhecia muito bem aquela igreja, chegando inclusive a ter a liberdade de chamá-los de “insensatos” (3.1). No capítulo 4 ele os chama de “meus filhos” (v.19) e isso denota seu amor paternal por eles. Diante desse pano de fundo, é factível pensar que a igreja da Galácia compreenderia muito bem as observações, admoestações e críticas feitas por Paulo.

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Capítulo 2

O Discurso e a Ideologia nas Epístolas Paulinas

O discurso é uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades

enunciativas.

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2.1 O Discurso, a Ideologia e suas Idéias Centrais

O Discurso

A linguagem pode ser estudada de diversas maneiras. Podem-se focalizar os estudos da língua ou como um sistema de signos ou como um sistema de regras formais, o que redundaria na Lingüística, ou pode-se estudá-la segundo as normas, o que culminaria na Gramática normativa. Ambos os focos de estudo, pela natureza multifacetada dos termos língua e gramática, por sua vez, subdividem-se em incontáveis maneiras de serem desenvolvidos. E é isso que nos mostram, no decorrer dos séculos, os estudos tão particulares e plurisignificativos da linguagem. Segundo Orlandi (1999, p.15), todo esse amplo espectro dos estudos da linguagem é que levou especialistas a “começarem a se interessar pela linguagem de uma maneira particular que é a que deu origem à Análise do Discurso”.

Para a autora (p.15), “A análise do Discurso (...) não trata da língua, não trata da gramática, embora todas essas coisas lhe interessem.” Daí surge a pergunta: ela trata de quê? Trata da palavra em movimento. Na AD busca-se “compreender a língua fazendo busca-sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história” (p.15).

Fiorin (1997, p.6) chama a linguagem de “veículo das ideologias”. Ele postula que a linguagem, além da língua e da fala, tem um terceiro elemento: a ideologia. Para o autor “O discurso são as combinações de elementos lingüísticos (...), usadas pelos falantes com o propósito de exprimir seus pensamentos, de falar do mundo exterior ou de seu mundo interior, de agir sobre o mundo.” (p.11)

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sua maneira de ver o mundo e estar nele. Somente a linguagem é capaz de traduzir esse homem em cada contexto particular de sua existência. E é exatamente esse caráter mediador da linguagem que recebe o nome de discurso.

Quando, então, a AD estuda a língua, não o faz

enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade (ORLANDI, 1999, p.15-16).

Uma proposta de AD deve basear-se, também, nas informações exteriores à língua, numa realidade extramente que oferece subsídio para a compreensão do que está sendo dito. O aparato lingüístico funciona como um pressuposto ao aparato sócio-histórico. A AD se preocupa em investigar como a linguagem se materializa na ideologia e como a ideologia se inscreve na língua.

No momento em que um analista do discurso olha para um texto, ele quer saber, segundo Orlandi (1999), “como este texto significa?” O que tem realmente importância é que a AD produz um conhecimento a partir daquele texto, que é concebido em sua discursividade.

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No modo de ver de Fiorin (1997, p.77): “A análise do discurso vai, à medida que estuda os elementos discursivos, montando por inferência a visão de mundo dos sujeitos inscritos no discurso. Depois, mostra que é que determinou aquela visão nele revelada.”

A Formação Discursiva

Orlandi (1999, p.43) a define como “aquilo que numa formação ideológica dada – ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada – determina o que pode e deve ser dito.”

O sentido do que é dito não existe em si mesmo, mas surge através das posições ideológicas que estão em exercício naquele momento. O sujeito tem as palavras a sua disposição para empregá-las segundo lhe convém. Elas podem mudar de sentido cada vez que são utilizadas numa fala, segundo a posição ideológica desse sujeito. O sentido das palavras, segundo Orlandi, pode estar “aquém e além delas”. (p.43)

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Ideologia

Segundo o E-Dicionário de Termos Literários (CEIA, 2005), o termo ideologia surge no século XVIII, com o francês Destutt de Tracy em sua busca por fundamentar uma ciência que abarcasse as leis e os mecanismos universais que culminavam na gênese das idéias. Sua pesquisa fundamentava-se numa reelaboração do empirismo de Locke, que baseava a raiz do conhecimento na natureza receptiva dos sentidos. De Tracy pretendia que seu estudo sistemático e positivo das idéias se constituísse numa ciência em que todas as outras se apoiassem, já que todo o conhecimento científico estaria alicerçado na elaboração e combinação das idéias. Mas esses estudos não se limitavam apenas ao âmbito epistemológico. Outra área de abrangência seria a do domínio social. A partir, então, da ideologia, além de se ter uma maior compreensão dos modos de pensamento, chegar-se-ia a uma maior elucidação dos fenômenos sociais e políticos, o que facilitaria uma reorganização das estruturas sociais e políticas necessárias ao homem.

Desde essa primeira acepção do termo, um estudo diacrônico revela todas as mudanças pelas quais ele passou. A explicação que predomina até hoje é a oferecida por Marx e Engels em que as idéias e a consciência são determinadas em última análise pelas condições materiais de existência. Quando esses dois autores revitalizam o termo, desgastado desde a época de Napoleão (CEIA, 2005), fazem-no à luz de uma crítica da filosofia política e o utilizam, de maneira pejorativa, em sua A Ideologia Alemã, uma referência ao pensamento de Hegel. Por tudo que se postula nessa obra, a ideologia deixaria de ser uma ciência – como queria de Tracy – e passaria a ocupar o campo totalmente oposto ao do materialismo histórico.

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ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens”. O autor afirma, ainda, que a ideologia “É uma forma fenomênica da realidade, que oculta as relações mais profundas e expressa-as de um modo invertido. A inversão da realidade é ideologia.” (p.29)

Como a ideologia se constrói sob as formas fenomênicas da realidade, as quais funcionam pela ocultação da essência da ordem social, ele a traduz como “falsa consciência”. Contudo, essa expressão só indica que “as idéias dominantes são elaboradas a partir de formas fenomênicas da realidade”, não apreendendo, portanto, as relações sociais mais profundas. A ideologia é também considerada pelo autor como “visão de mundo” entendida como “o ponto de vista de uma classe social a respeito da realidade, a maneira como uma classe ordena, justifica e explica a ordem social”.

Chaui (2000, p.31) oferece um conceito de ideologia:

...a ideologia não é sinônimo de subjetividade oposta à objetividade, que não é pré-conceito nem pré-noção, mas que é um “fato” social justamente porque é produzida pelas relações sociais, possui razões muito determinadas para surgir e se conservar, não sendo um amontoado de idéias falsas que prejudicam a ciência, mas uma certa maneira da produção das idéias pela sociedade, ou melhor, por formas históricas determinadas das relações sociais.

A partir das postulações marxistas, a autora afirma que

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E ainda completa “A ideologia consiste precisamente na transformação das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo, de modo que a classe que domina no plano material (...) domina no espiritual.” (p.93-94)

Chaui (p.101-114) apresenta quinze determinações constituintes da ideologia:

1) a ideologia é resultado da divisão social do trabalho e, em particular, da separação entre trabalho material/manual e trabalho espiritual/intelectual;

2) essa separação dos trabalhos estabelece a aparente autonomia do trabalho intelectual face ao trabalho material;

3) essa autonomia aparente do trabalho intelectual aparece como autonomia dos produtores desse trabalho, isto é, dos pensadores;

4) essa autonomia dos produtores do trabalho intelectual aparece como autonomia dos produtos desse trabalho, isto é, das idéias;

5) essas idéias autonomizadas são as idéias da classe dominante de uma época e tal autonomia é produzida no momento em que se faz uma separação entre os indivíduos que dominam e as idéias que dominam, de tal modo que a dominação de homens sobre homens não seja percebida porque aparece como dominação das idéias sobre todos os homens;

6) a ideologia é, pois, um instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisão da sociedade em classes contraditórias e em luta;

7) a divisão da sociedade em classes se realiza como separação entre proprietários e não proprietários das condições e dos produtos do trabalho (...) 8) se a dominação e a exploração de uma classe for perceptível como violência,

isto é, como poder injusto e ilegítimo, os exploradores e dominados se sentem no justo e legítimo direito de recusa-la, revoltando-se. (...)

9) por ser o instrumento encarregado de ocultar as divisões sociais, a ideologia deve transformar as idéias particulares da classe dominante em idéias universais, válidas igualmente para todas as sociedades.

(58)

social), mas de tal modo que essa base seja reconstruída de modo invertido e imaginário.

11) a ideologia é uma ilusão necessária à dominação de classe. (...)

12) porque a ideologia é ilusão, isto é, abstração e inversão da realidade, ela permanece sempre no plano imediato do aparecer social. (...)

13) a ideologia não é um “reflexo” do real na cabeça dos homens, mas o modo ilusório pelo qual representam o aparecer social como se tal aparecer fosse a realidade social.

14) a ideologia é produzida em três momentos fundamentais: a) ela se inicia como um conjunto sistemático de idéias que os pensadores de uma classe em ascensão produzem para que essa nova classe apareça como representante dos interesses de toda a sociedade (...) b) ela prossegue tornando-se aquilo que Gramsci denomina de senso comum, isto é, ela se populariza, torna-se um conjunto de idéias e de valores concatenados e coerentes (...) c) uma vez sedimentada e interiorizada como senso comum, a ideologia se mantém, mesmo após a vitória da classe emergente, que se torna, então, classe dominante.

15) a ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações e de normas ou regras que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. (...)

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Formação Ideológica e Formação Discursiva

Fiorin, traçando um perfil da formação ideológica, assevera que:

Formação ideológica é a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de representações, de idéias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo. Como não existem idéias fora dos quadros da linguagem, entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não verbal, essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem. Por isso, a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. (1997, p.32)

A formação discursiva a que o autor se refere está relacionada à formação ideológica. Uma vez que os membros de uma dada sociedade recebem uma formação lingüística, esta lhes confere uma formação discursiva. Cada participante de um grupo sócio-lingüístico possui uma consciência verbal que funciona como fator de coesão social. O fator lingüístico, então, é agente de produção de uma identidade ideológica e através da formação discursiva que cada indivíduo assimila é que são elaborados os discursos.

Da mesma maneira que a formação ideológica influi no pensamento, a discursiva é que “determina o que dizer”. (FIORIN, 1997, p.32) Numa formação social há “tantas formações discursivas quantas forem as formações ideológicas”.

Referências

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