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A ÉTICA DA AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO
Banca examinadora
Flavio Farah
A ÉTICA DA AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO
- - ~- Fundação Getulio Vargas Escola de Admini&b'açào FG V de Empresas de sa.o Paulo
Biblioteca
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Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação da FGV/EAESP, Área de Concentração: Organização, Recursos Humanos e Planejamento, como requisito para obtenção de título de mestre em Administração. Orientador: Prof. Miguel Abboud .
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Q _c)_FARAH, Flavio. A Ética da Avaliação de Desempenho.
São Paulo: EAESP/FGV, 2000. 213p. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-Graduação da
EAESP/FGV, Área de Concentração: Organização,
Recursos Humanos e Planejamento).
Resumo: Trata dos aspectos éticos da avaliação de
desempenho, fazendo uma análise do processo
avaliativo, com a finalidade de estabelecer regras de conduta que devem ser seguidas para que a avaliação de
desempenho transcorra eticamente. Apresenta os
resultados de uma pesquisa realizada com empresas brasileiras, destinada a verificar se tais empresas observam as regras de conduta estabelecidas.
A meus pais, Tm~fick e Leony,
Apresentação
1. INTRODUÇÃO
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Avaliação de desempenho, justiça e ética
2.2 Percepção social
2.3 Autoritarismo organizacional
3. OBJETO DE ESTUDO
3.1 Avaliação de desempenho- conceito
3.2 Ética
··13 Objeto de estudo - opções
4. OBJETIVOS
5. AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO -HISTÓRICO
5.1 Evolução nos Estados Unidos
5.2 Evolução no Brasil
6. FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS
6.1 Humanismo
6.2 A ética humanista
6.3 O progresso moral
6.4 Valores
6.5 Princípios de avaliação de desempenho
7.2 Avaliação de desempenho não-sistemática
7.3 Avaliação de desempenho sistemática
7.4 O processo sistemático de avaliação de desempenho
7.5
Os diferentes métodos de avaliação de desempenho7.6 Condições de legitimidade do julgamento
7.7 Resumo
8. A PESQUISA
8.1 Metodologia
8.2 Hipóteses
8.3 Técnica utilizada- questionário
8.4 Endereçamento e índice de respostas
8.5 Apresentação e análise dos dados
8.6 O Índice de Conteúdo Ético
9. CONCLUSÕES
Bibliografia
127
128
129
137
144
149
154
157
158
160
165
187
154
Agradecime11tos
Ao ensejo da apresentação deste trabalho, quero externar
meus agradecimentos aos que contribuíram para sua realização.
Ao Professor Miguel Abboud, orientador seguro e afável no
trato com seu orientando, que soube sobretudo estimular-me com palavras
de incentivo e com o elogio no momento preciso.
Ao Prof. Carlos Osmar Bertero que, com suas aulas de Ética
Empresarial, inspirou-me este trabalho.
À Profa. Maria Cecília Arruda e ao . saudoso Prof. Moriz
À Profa. Maria Rita G. L. Durand que, com suas aulas e
orientações sobre metodologia de pesquisa, forneceu-me as bases para a
estruturação deste trabalho.
Ao Professor Wilton de Oliveira Bussab, por sua orientação
na parte estatística.
À minha irmã Marcia, pela colaboração dedicada e
cuidadosa na implementação da pesquisa de campo.
Aos funcionários da Biblioteca Karl A. Boedecker da
EAESP-FGV que, com sua colaboração atenciosa, facilitaram meu trabalho de
pesquisa bibliográfica.
Aos dirigentes e profissionais das empresas participantes
que, ao responder, anonimamente, à pesquisa de campo, possibilitaram a
APRESENTAÇÃO
A investigação acerca dos aspectos éticos da avaliação de
desempenho surge da necessidade de se verificar a consistência entre um
certo conjunto de valores aceitos consensualmente e a conduta das empresas
em relação a seus empregados, conduta essa que se expressa, entre outras
ações, na prática dos processos avaliativos.
Introduziu-se, porém, nessa investigação, uma etapa
intermediária cujo objetivo é verificar se os valores considerados se refletem,
primeiramente, nas normas de avaliação de desempenho das empresas. Tal é·
o propósito do presente estudo e da pesquisa de campo que o integra.
O primeiro capítulo, introdutório, situa o tema deste trabalho
no âmbito mais genérico da ética empresarial. O segundo capítulo apresenta
as bases teóricas que fundamentam a investigação realizada. O terceiro
capítulo conceitua e delimita o objeto de estudo, apresentando justificativas
O capítulo quatro apresenta os objetivos mais gerais do
trabalho. No capítulo cinco discorre-se sobre a evolução histórica da
avaliação de desempenho nos Estados Unidos e no Brasil. No capítulo seis
expõem-se os fundamentos filosóficos que justificam a escolha do particular
conjunto de valores que, na visão do autor deste trabalho, deveria orientar a
avaliação de desempenho. O sétimo capítulo analisa os aspectos éticos da
avaliação de desempenho em seus vários enfoques.
O capítulo oito apresenta a pesquisa de campo: metodologia
e razões da respectiva escolha, hipóteses testadas, técnica utilizada e análise
dos dados. No capítulo nove apresentam-se as conclusões pertinentes aos
resultados obtidos e discorre-se sobre as providências complementares
1. INTRODUÇÃO
A questão da ética empresarial vem assumindo relevância
crescente dentro do conjunto das preocupações sociais. Primeiro nos Estados
Unidos, depois nas outras nações do mundo desenvolvido, e agora no Brasil,
tornou-se um assunto de primeira ordem. A origem do interesse pela ética
empresarial é decorrente não só da própria evolução da filosofia, da cultura,
dos objetivos e das preocupações das empresas com relação à produção e ao
consumo, mas também d,a tomada de consciência por parte da sociedade
sobre as conseqüências da atividade econômica.
Curiosamente, porém, a maioria dos livros e das discussões
que versam o assunto parecem tratar somente de dois tipos de conduta: as
atividades da empresa qUe afetam seu ambiente externo - constituído pelos
consumidores, concorrentes, fornecedores, ambiente físico e sociedade como
um todo - e as ações dos empregados que afetam a empresa. Mas há um
terceiro tipo de relacionamento, qual seja, a conduta da empresa em relação a
seus empregados, que parece merecer bem menos atenção por parte dos
estudiosos. Talvez isso ocorra porque a matéria seja considerada um assunto
interno da organização, porque se pense que esse tema não afeta a sociedade
como tal, ou porque se acredite que a empresa tudo pode em razão do poder
empresa como a Boeing simplesmente omitir essa terceira categoria de
relacionamento quando conceituou ética empresarial. De fato, John E.
ImperV então Diretor de Ética Corporativa dessa notável organização,
expressava-se no sentido de atribuir dois enfoques ao tema: o primeiro,
representado pelas idéias tradicionais de não se utilizar recursos da empresa
para fins pessoais, não ter interesses pessoais que conflitem com os da
organização e não praticar atos que causem prejuízo à entidade. O segundo,
relativo ao cumprimento das leis e regulamentos vigentes no país.
Esse pronunciamento demonstra que as preocupações da
Boeing recaíam somente sobre os dois primeiros tipos de relacionamento
ético mencionados. Parece, pois, oportuno, dentro da ética empresarial,
lançar luz sobre as ações da organização que afetam seus funcionários. Mas
por que trazer à baila especificamente a avaliação.de desempenho?
Primeiro, por ser um processo que traz pesado ônus para
quem o conduz. Kellogg/ por exemplo, entende que se avaliação de
desempenho é inevitável e há motivos consistentes para realizá-la, torna-se
importante considerar a ética envolvida, não porque os gerentes deliberada e
conscientemente violem princípios éticos em suas avaliações, mas porque é
fácil incorrer nessa violação inconscientemente. O autor considera também
que a avaliação, por ser um julgamento da utilidade presente ou futura de
por si só, uma séria responsabilidade. E conclui afirmando que a avaliação
afetará a imagem que o avaliando faz de si mesmo de várias maneiras
-boas e ruins - dependendo do conteúdo da avaliação, da maturidade do
avaliando, e de como este se sente em relação ao avaliador.
Segundo, por tratar-se de um procedimento de uso tão
difundido quanto problemático. Para Resende3, a avaliação de desempenho,
apesar de ser um dos mais importantes sistemas organizacionais, é o que
mais dificuldades apresenta em sua implementação. Quando mantida, com
freqüência tem seus objetivos desvirtuados e acaba desacreditada.
Chiavenato,4 por seu turno, afirma que a avaliação de desempenho continua
sendo amplamente utilizada pela maioria das organizações, apesar das
críticas e das aplicações distorcidas.
Como se verá a seguir, há argumentos consistentes que
justificam uma investigação dos processos avaliativos sob o aspecto ético. É,
portanto, oportuna a opção pela avaliação de desempenho como tema de um
NOTAS AO CAPÍTULO 1
1 IMPERT, John E. Ética Empresarial - A Perspectiva na Indústria Americana. in TEIXEIRA,
Nelson Gomes (org.). A Ética no Mundo da Empresa. São Paulo: Pioneira, 1991. p. 66.
2 KELLOGG, Marion S. What to do about Performance Appraisal. New York: American
Management Association, 1965. p. 20-21.
3 RESENDE, Ênio J. É Preciso Mudar o Discurso em Recursos Humanos. São Paulo: Summus,
1986. p. 61.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Avaliação de desempenho, justiça e ética
Este trabalho examina os aspectos éticos da avaliação de
desempenho. A razão para isso é que, como será visto no capítulo seguinte, a
avaliação de desempenho é um julgamento, o que põe imediatamente a
questão da justiça desse julgamento. E sendo a justiça um valor moral,
segue-se que não segue-será ética a avaliação de desegue-sempenho que não for justa,
entendendo-se que uma avaliação será tanto mais justa quanto mais próximo
do desempenho real do empregado estiver o desempenho medido.
Mas, de início, é necessário explicar as razões pelas quais
coloca-se a questão da justiça. A pergunta é se, no âmbito das empresas, cabe
falar em valores morais. Indaga-se se estes não seriam estranhos aos entes
empresariais, uma vez que, para muitos, ética e negócios não se misturam.
Segundo Bobbio,1 desde a Antigüidade tem-se representado
a justiça como a virtude ou princípio que preside o ordenamento da
sociedade humana em um todo harmônico ou equilibrado. Segundo essa
representação, para que haja harmonia é necessário: a) que cada um receba o
alcançado seja respeitado. Essas duas condições podem ser entendidas,
respectivamente, como: a) a instauração de uma certa igualdade entre as
partes; b) o respeito à legalidade. A primeira condição corresponde ao que
comumente se intitula justiça atributiva ou distributiva. A segunda representa a
chamada justiça comutativa, retributiva ou corretiva. Ambas são necessárias
para realizar a justiça, mas somente em conjunto é que são também
suficientes. Para o autor,
"[ ... ] Uma relação de igualdade é uma meta desejável na medida em que é considerada justa, onde por justa se entende que tal
relação tem a ver, de algum modo, com uma ordem a instituir ou a
restituir (uma vez abalada), isto é, com um ideal de harmonia das
partes de um todo, entre outras coisas porque se considera que somente um todo ordenado tem a possibilidade de durar."
Atribuir vantagens ou desvantagens, ônus ou bônus, ou
ainda recompensas ou punições, a um conjunto de indivíduos, é o problema
da justiça distributiva. Esta, por sua vez, possui estreito vínculo com a
denominada regra de justiça, segundo a qual deve-se dar a cada um o que é
seu, tratando igualmente os iguais e desigualmente os desiguais. Isto se
traduz no mandamento de que sejam tratados do mesmo modo os que se
encontram na mesma categoria. Neste ponto, a regra de justiça remete ao
problema dos chamados critérios de justiça, isto é, os critérios que definem
quais as categorias a serem consideradas. Vários critérios de justiça são
habitualmente apresentados e considerados para dar sentido à norma de
segundo sua necessidade, a cada qual segundo sua posição, a cada qual segundo sua
capacidade, a cada qual segundo seu traballw, a cada qual segundo sua produção, a
cada qual segundo seu mérito, etc.
A avaliação de desempenho sempre foi entendida como um
julgamento do mérito do empregado. Evidência disso é que, até a década
de 50, o processo avaliativo, nos Estados Unidos, era intitulado merit rating2.
No Brasil, a expressão comumente utilizada era avaliação do mérito3, sendo
que, entre nós, até hoje o aumento salarial decorrente da avaliação de
desempenho é denominado aumento de mérito4. E, na medida em que um
grande número de empresas usa a avaliação de desempenho como base para
distribuir recompensas e punições5, configura-se no seio das organizações
econômicas, embora disso possam não se aperceber seus dirigentes, a busca
de um ideal de justiça organizacional, de que nos fala French6, cujo critério é o
de atribuir a cada um recompensas (ou punições) segundo seu mérito (ou
demérito). E se isso não for suficiente para evidenciar a presença de valores
morais no âmbito das empresas, bastaria lembrar que, a partir do momento
em que Taylor propôs o pagamento por peça, e os industriais o aceitaram,
instalou-se nas indústrias, já na virada do século, outro critério de justiça,
qual seja, a cada um segundo sua produção.
Todavia, a conclusão de que, por intermédio da avaliação de
para deflagrar uma investigação científica, pois ainda resta uma indagação:
haveria motivos para se suspeitar de que os processos avaliativos das
empresas possam ser injustos?
Sim, há razões para se considerar a hipótese de que pode não
haver justiça nos processos de avaliação de desempenho das empresas. É o
que se discute no tópico que segue.
2.2
Percepção socialPercepção é o processo de seleção, organização e
interpretação dos estímulos ambientais. Embora a percepção dependa
amplamente dos sentidos para coletar dados brutos, o processo perceptivo
pode filtrar, modificar ou até mudar completamente esses dados.
Percepção social ou percepção de pessoa é a maneira pela
qual um indivíduo percebe outro, ou seja, é o processo de seleção,
organização e interpretação dos estímulos provenientes da presença e do
comportamento do outro. A percepção social é afetada pelos próprios
valores, necessidades e expectativas do percebedor. E os traços visíveis do
Além da complexidade própria do processo perceptivo,
ocorrem fenômenos que distorcem a imagem que o percebedor faz da pessoa
percebida.
A estereotipagem é o fenômeno pelo qual uma pessoa coloca
outra numa certa classe ou categoria e atribui a essa classe um conjunto
definido de características. O efeito halo faz com que a avaliação das diversas
características de um indivíduo seja afetada pela impressão geral que se tem
a respeito dele.
Já
a defesa perceptiva consiste no descarte deliberado de umfato sobre o percebido que perturba o percebedor. Por fim, projeção é o
fenômeno pelo qual atribuímos aos outros nossas próprias características.
Na avaliação de desempenho, em particular, ocorrem as
seguintes distorções: a) Erro "similar-a-mim" - é a tendência a julgar mais
favoravelmente o avaliando quando ele é parecido com o avaliador do que
quando ele é diferente; b) Erro de tendência central - consiste em avaliar como
médio o desempenho de todos os subordinados, não importa seu
desempenho real; c) Erro de leuiência ou de severidade - alguns supervisores
tendem a avaliar todos os seus subordinados mais favoravelmente, enquanto
que outros agem de forma oposta; d) Erro de amostragem de comportamento - é
a avaliação baseada somente numa pequena parte do trabalho do avaliando;
avaliação baseia-se somente nos comportamentos mais recentes do
avaliando.
A avaliação de desempenho é muito dependente do processo
de percepção. Embora a avaliação possa ser objetiva, muitas funções são
avaliadas em termos subjetivos, e medidas subjetivas são, por definição,
julgamentais. Na medida em que um gerente usa mensurações subjetivas na
avaliação de seus subordinados, aquilo que ele percebe, enquanto avaliador,
como sendo um comportamento bom ou mau, influenciará
significativamen-te o resultado da avaliação. Se o gerensignificativamen-te efetua julgamentos arbitrários, não
baseados em evidências factuais, a avaliação será distorcida não somente
pelos valores, necessidades e expectativas do avaliador, mas também pelos
fenômenos, já vistos acima, que distorcem a imagem que o gerente faz do
avaliando. Isto inevitavelmente fará com que o desempenho medido se
distancie do desempenho real, condição que caracteriza a avaliação injusta e,
pois, antiética.
Embora não se disponham de dados sobre a realidade
brasileira, sabe-se que muitas empresas ainda usam o mais antigo método de
avaliação de desempenho, denominado "escalas gráficas", ou uma de suas
variantes, em razão de ser o mais simples e menos custoso. Por tratar-se de
um método essencialmente subjetivo, seu uso tende a causar distorções nos
Mas não só os métodos contribuem para a ausência de justiça
nos processos avaliativos. O autoritarismo organizacional é outro poderoso
fator que atua no mesmo sentido.
2.3
Autoritarismo organizacionalOs estudiosos da realidade brasileira são concordes em
assinalar o caráter autoritário de nossa sociedade? Essa concordância
unânime é admiravelmente sintetizada pela eloqüência de Chauí: 8,9
"Nossa sociedade é autoritária porque é hierárquica, pois divide as pessoas, em qualquer circunstância, em inferiores, que devem obedecer, e superiores, que devem mandar. Não há percepção nem prática da igualdade como um direito. Nossa sociedade também é autoritária porque é violenta [ ... ]: nela vigoram racismo, ma-chismo, discriminação religiosa e de classe social, desigualdades econômicas das maiores do mundo, exclusões culturais e políticas. Não há percepção nem prática do direito à liberdade."
Sendo a organização um tipo de instituição social por
natureza autoritária, esse autoritarismo da sociedade nacional haveria de se
reproduzir nas organizações brasileiras em geral, e nas entidades
empresariais em particular. Todavia, antes de abordar esse ponto, é útil, para
melhor entendimento dos caracteres das instituições autoritárias,
contrastá-los com os das instituições democráticas, o que se faz no quadro abaixo.
INSTITUIÇÃO AUTORITÁRIA INSTITUIÇÃO DEMOCRÁTICA
Princípio da desigualdade natural - Princípio da igualdade natural
-prevalece a hierarquia prevalece a autonomia
Quem enuncia as normas é uma Quem dita as normas é o próprio
autoridade estranha ao indivíduo que indivíduo, diretamente ou por meio
deve obedecê-las de representante que ele mesmo elege
A autoridade tem origem no poder A autoridade tem origem na
compe-sobre as pessoas e se formaliza pela tência e se formaliza pela eleição de
nomeação de chefes líderes
A autoridade exerce o poder por prazo A autoridade exerce o poder por meio
indeterminado de mandato com prazo certo
A autoridade rejeita as críticas A autoridade aceita as divergências
Valoriza-se a obediência e a competição Valoriza-se a iniciativa e a cooperação
Concentração do poder na cúpula Distribuição do poder
Os conflitos são considerados inacei- Os conflitos são considerados
natu-táveis e eliminados pela força rais e administrados pela negociação
Defendem-se os privilégios Defendem-se os interesses
indivi-duais e coletivos
Organizações são instituições autoritárias no sentido de que,
em seu interior, existe uma desigualdade de poder, representada pela
hierarquia; a autoridade tem origem no poder sobre as pessoas e se formaliza
pela nomeação de dirigentes; quem enuncia as normas é o dirigente, ou seja,
uma autoridade estranha ao indivíduo que deve obedecê-las; e o dirigente
exerce o poder por prazo indeterminado. Embora o poder se exerça
formalmente dentro dos limites da ordem jurídica vigente no país onde a
organização se encontra, na prática esse poder tende a se extrapolar na razão
direta da submissão do empregado que procura conservar seu emprego.
Existe, pois, uma ameaça latente ou explícita de demissão, que atua no
sentido de enfatizar os deveres do funcionário e de reprimir sua busca por
direitos.
Uma análise superficial do assunto poderia levar à conclusão
de que as sociedades anônimas são organizações democráticas pelo simples
fato de os seus dirigentes serem eleitos pela Assembléia Geral. Mas isso não é
verdade em razão de uma diferença fundamental: a Assembléia Geral não só
não é destinatária das normas organizacionais emanadas dos dirigentes da
empresa mas também constitui-se em órgão de poder supremo da
organização. A Assembléia Geral está, pois, situada no topo e não na base da
Esclarecido este ponto, cabe agora trazer à luz elementos
mais concretos acerca da cultura das organizações brasileiras.
Como resultado de uma pesquisa realizada junto a mais de
2.500 executivos brasileiros que participaram dos programas de
desenvolvimento da Fundação Dom Cabral, Barros e Prates10 identificam os
seguintes traços na cultura das empresas brasileiras: concentração de poder,
caracterizada por um processo decisório não-consultivo e centralizado na
cadeia hierárquica; a conquista do poder predomina em relação à busca de
resultados; a legitimação do líder ocorre predominantemente por meio da
lealdade pessoal, reforçada pela hierarquia; os conflitos são vistos como algo
indesejável - são identificados, mas não tratados direta e abertamente; a
coesão organizacional é baseada no patrimônio de relações pessoais; a
estrutura hierárquica é considerada necessária principalmente para saber
quem tem autoridade sobre quem; a estrutura é definida a partir das pessoas
e identifica que tem poder; revela-se nítida preferência pela estrutura linear,
evitando-se que os subordinados possam ter dois chefes; evita-se correr
riscos, pois a forma de lidar com o erro é desencorajadora e punitiva.
Os traços culturais apontados pelo estudo sugerem que as
empresas brasileiras apresentam, adicionalmente, outros caracteres típicos
iniciativas, em virtude do tratamento dado ao erro, rejeição dos conflitos,
defesa dos privilégios.
No Brasil, o crônico excesso de oferta de mão-de-obra em
relação à demanda e a precária proteção conferida ao trabalho tendem a
provocar a submissão dos empregados, que procuram, dessa forma, garantir
os respectivos empregos. O poder hierárquico tende, pois a se extrapolar,
assumindo a forma autoritária de ênfase nos deveres do funcionário e de
repressão à sua busca de direitos. Em conseqüência, as empresas, embora
procurem realizar um ideal de justiça por meio da avaliação de desempenho,
na prática não logram realizá-lo, pela ausência de . uma de suas condições
essenciais: a justiça corretiva. De fato, inexistindo nas empresas a explicitação
dos direitos dos empregados e, à falta de mecanismos organizacionais
formais para processar reclamações, as injustiças porventura cometidas por
ocasião dos processos avaliativos permanecerão sem correção.
Em sendo assim, justifica-se uma investigação acerca dos
aspectos morais da avaliação de desempenho: embora se constate a busca de
um ideal de justiça por parte das empresas, por intermédio do processo
avaliativo, há motivos para supor que, em muitos casos, esse valor não está
NOTAS AO CAPÍTULO 2
1 BOBBIO, Norberto. Igualdade e Liberdade. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 15.
z SCOTT, Walter Dill, CLOTHIER, Robert C., MATHEWSON, Stanley B., e SPRIEGEL, William R. Personnel Management. New York: McGraw-Hill, 1941. 3a ed. p. 212; JUCIUS, MichaelJ. Personnel Management. Chicago: Irwin, 1947. p. 426; PATTON,John A. e
LITTLEFIELD, C. L. Job Evaluation. Homewood: Irwin, 1957. p. 295.
3 TOLEDO, Flavio de. Manual de Administração de Pessoal. São Paulo: Atlas, 1960. p. 81;
SERSON, José. Curso Básico de Administração do Pessoal. São Paulo: LTr, 1971. p. 347; RIBEIRO, Augusta Barbosa de Carvalho. Relações Industriais e Administração de Pessoal. São Paulo: LTr, 1971. p. 222.
4 RESENDE, Ênio. Cargos, Salários e Carreira. São Paulo: Summus, 1991. p. 43.
5 MINER, John B., e CRANE, Donald P. Human Resource Management. New York: Harper
Collins, 1995. p. 244; CARRELL, Michael R., KUZMITS, Frank E., e ELBERT, Norbert F.
Personnel. Columbus: Merrill Publishing, 1989. p. 221.
6 FRENCH, Wendell L. The Personnel Management Process. Boston: Houghton Mifflin, 1982.
p.128.
7 V. p. ex. DE VITA, Álvaro. Sociologia da Sociedade Brasileira. São Paulo: Ática, 1994. 8 CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994. p. 435-436.
9 CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 47-48. 1o BARROS, Betânia Tanure de, e PRATES, Marco Aurélio Spyer. O estilo brasileiro de
3. OBJETO DE ESTUDO
Este trabalho tem por foco a avaliação de desempenho como
praticada atualmente pelas empresas brasileiras privadas e estatais. Cumpre,
pois, inicialmente, conceituar o objeto de estudo.
3.1 Avaliação de desempenho - conceito
Constata-se certa dificuldade entre os autores com respeito à
definição de avaliação de desempenho. Para Chiavenato,1 11
A avaliação de
desempenho é uma apreciação sistemática do desempenho de cada ocupante
no cargo, bem como de seu potencial de desenvolvimento". O autor equipara
avaliação de desempenho a avaliação de potencial, apesar de serem
atividades distintas, pois desempenho significa algo efetivamente realizado,
enquanto que potencial relaciona-se à capacidade de realizá-lo. Em resumo, o
que o autor diz, na verdade, é que 11
Avaliação de desempenho é a apreciação
do desempenho ... "; uma definição como essa nada explica, pois apreciação é
sinônimo de avaliação, e o termo desempenho aparece nos dois lados da
sentença (antes e depois do verbo). Trata-se, pois, daquilo que se costuma
chamar de 11
Carrell, Kuzmits e Elbert,2 embora prolixos, também não
escapam ao defeito da circularidade: 11
Avaliação de desempenho é um
processo de avaliação do comportamento de empregados no local de
trabalho, normalmente incluindo aspectos quantitativos e qualitativos de
desempenho em serviço". Ademais, incluem no conceito elementos
não-essenciais, tais como a caracterização da avaliação de desempenho como um
processo, e a afirmativa de que nela estão inclusos aspectos quantitativos e
qualitativos.
Müller e Ferle3 apresentam-nos um conceito mais
esclarecedor, embora igualmente prolixo: 11
A avaliação de desempenho é um
sistema que visa obter informações sobre o comportamento funcional,
comparando-o com padrões pré-estabelecidos, objetivando orientar e avaliar
as decisões sobre os Recursos Humanos". Aqui, também há um elemento
não-essencial: a finalidade do procedimento (" ... objetivando orientar e
avaliar as decisões sobre os Recursos Humanos").
Procurando evitar as deficiências apontadas, propõe-se o
seguinte conceito:
Avaliação de desempenho é o confronto entre a co11tribuição efetiva
A definição apresentada contém os seguintes elementos:
• comparação entre o ... efetivo e o ... esperado: avaliação de
desempenho pressupõe a existência de um padrão de
referência;
• do empregado: entende-se empregado como a pessoa que
presta serviços profissionais a uma organização com base
numa relação hierárquica;
• contribuição efetiva: é aquilo que o empregado fez, como
fez, com que finalidade, bem como com que resultados;
• contribuição esperada pela organização: é a expectativa da
organização em relação ao empregado, em termos do que
fazer, como fazer, com que finalidade e com que
resultados.
O conceito acima exposto implica que a avaliação de
desempenho: a) é um julgamento, ~ão se confundindo com a avaliação de
potencial; b) é assunto restrito ao âmbito das organizações.
Conceituada a avaliação de desempenho, procura-se agora
3.2 Ética
De acordo com uma das concepções mais comuns, ética ou
moral é o estudo da atividade humana com relação a seu fim último, que é a
realização plena do ser humano. Esse estudo pode ser realizado segundo três
aspectos principais. O primeiro seria o estudo crítico relativo ao fundamento
e ao valor dos códigos, dos princípios, das normas, das convicções morais
existentes.4 É o que se denomina metaética. O segundo seria o estudo
puramente descritivo das normas e dos valores adotados por determinadas
sociedades em certas épocas. Esta seria a ética teórica, explicativa ou
descritiva. Por último, o enfoque principal, denominado ética prática, é o
estudo da ética como uma ciência normativa, e mais do que isso, como uma
ciência categórico-normativa, que procura formular normas de ação de
sentido categórico, incondicionai.S
No presente trabalho descarta-se desde logo o estudo da
ética sob o prisma crítico. Não se tenciona aqui questionar o fundamento e o
valor dos códigos e dos costumes morais em si mesmos. A ênfase deste
estudo recai na ética teórica, pois o que se pretende é verificar se existe
relação entre um certo conjunto de valores aceitos consensualmente e o
desenho dos sistemas de avaliação de desempenho das empresas. E para
à ética normativa, que será convidada a traduzir aqueles valores em regras
de conduta. Este ponto ficará mais claro no capítulo referente à metodologia.
Cabe agora discorrer sobre as escolhas feitas.
3.3 Objeto de estudo - opções
A focalização do estudo sobre as empresas brasileiras
justifica-se em razão da absoluta carência, em nosso País, de estudos
acadêmicos específicos sobre o tema. Embora no Brasil tenham sido
produzidos até o presente momento alguns poucos trabalhos sobre ética
empresarial e sobre avaliação de desempenho, constata-se um vazio
bibliográfico quando se combinam ambos os assuntos.
O objeto de estudo exclui os órgãos da administração pública
direta ou centralizada. O fato de seu pessoal estar sujeito ao regime
estatutário faz com que seus sistemas de avaliação de desempenho sejam
configurados e implantados mediante lei, elaborada, via de regra, pelo órgão
central responsável pela área de recursos humanos. Assim, os dirigentes
desses órgãos não possuem qualquer poder decisório sobre a configuração
de tais sistemas. Torna-se, pois, impossível investigar a ética da avaliação de
ocupantes dos escalões superiores dos órgãos da Administração. Já nas
empresas privadas e estatais o pessoal é sempre regido pela legislação
trabalhista. Nestas condições, seus administradores possuem autonomia para
determinar as políticas e procedimentos que balizarão as práticas de
avaliação de desempenho.
Excluem-se também as autarquias e fundações
governamentais, por não haver uniformidade no regime jurídico de seu
pessoal. De fato, enquanto que, em nível federal, vigora unicamente o regime
estatutário, no Estado de São Paulo predomina a subordinação à CLT.
Quanto ao foco nas práticas · atuais de avaliação de
desempenho, a opção deve-se, primeiro, a uma preferência pessoal do autor
deste trabalho, que deseja tomar esta investigação como de partida para
eventuais estudos posteriores. Segundo, considerando-se a escassez de
trabalhos sobre o tema, pode-se avaliar as dificuldades que se apresentariam
caso se pretendesse realizar um estudo histórico. Terceiro, porque ética
empresarial é assunto bastante recente no Brasil, razão pela qual estudos
sobre o passado careceriam de sentido.
Face à ausência de estudos sobre o assunto objeto deste
trabalho, o autor não tem nenhum motivo para suspeitar que haja
empresas privadas e estatais, de administração familiar ou profissional, entre
empresas nacionais e estrangeiras, entre empresas industriais, comerciais e
de serviços, entre empresas de pequeno e grande porte, ou entre empresas
com sede em diferentes regiões do País.
como:
Espera-se, com o presente estudo, responder a questões
• Se as empresas conceituam formalmente avaliação de
desempenho e qual o conceito adotado;
• Quais as finalidades dos sistemas de avaliação de
desempenho das empresas;
• Até que ponto valores aceitos consensualmente se
refletem nas normas das empresas;
• Se as empresas atentam para os direitos dos empregados
NOTAS AO CAPÍTULO 3
1 CHIA VENATO, Idalberto. Recursos Humanos na Empresa. São Paulo: Atlas, 19%. v.3. p. 95. 2 CARRELL, Michael R., KUZMITS, Frank E., e ELBERT, Norbert F. Personnel. Columbus:
Merrill Publishing, 1989. p. 219.
3 MÜLLER, Neusa Maria, e FERLE, Arnold Hermann. Avaliação de Desempenho. in BOOG,
Gustavo G. (coord.). Manual de Treinamento e Desenvolvimento. Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento. São Paulo: McGraw-Hill, 1980. p. 446.
4 MONDIN, B. Introdução à filosofia. São Paulo: Paulinas, 1980. p. 91.
4. OBJETIVOS
Pretende-se, com a presente investigação:
• ilustrar o fato de que a adoção de determinados valores,
embora altamente abstratos na aparência, influencia a
escolha de certos cursos de ação;
• Estimular a reflexão tendente ao desenvolvimento de
sistemas de avaliação de desempenho com maior
conteúdo ético;
• Contribuir para a evolução da conduta ética das empresas
em relação a seus funcionários;
• Estimular, em nosso meio, a reflexão sobre a ética
5.
AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO- HISTÓRICO
Como dito anteriormente, o caminho a ser seguido neste
trabalho será o seguinte: 1) Estabelecer, para o processo avaliativo, regras de
conduta baseadas em um certo conjunto de valores aceitos consensualmente;
2) Verificar se as normas de avaliação de desempenho das empresas
contemplam as regras de conduta estabelecidas.
No próximo capítulo, serão expostos os valores que dão
origem às regras de conduta do processo avaliativo, bem como os
fundamentos filosóficos que embasam a escolha desses valores. Antes,
porém, é oportuno desenvolver-se um escorço histórico da avaliação de
desempenho, que permitirá enfocá-la de forma dinâmica e em perspectiva.
A avaliação de desempenho é bem antiga. De fato, pode-se
dizer que o processo avaliativo informal surgiu com a própria administração.
Desde então, através dos anos, acompanhando a evolução das práticas
administrativas em geral, e da administração de recursos humanos em
particular, tem havido mudanças importantes na avaliação de desempenho,
no tocante a seu conceito, suas finalidades e seus métodos. Relata-se, a
seguir, a evolução do processo avaliativo e da gestão de pessoal nos Estados
5.1 Evolução nos Estados Unidos
Introdução
A Administração Científica de Taylor prometia resolver
todos os principais problemas enfrentados pelas grandes empresas que se
originaram da chamada Segunda Revolução Industrial. De fato, a empresa de
grande porte, monopolista ou oligopolista, atuando num ambiente
constituído por mercados em expansão, não tinha problemas para colocar
seus produtos. Podendo elaborar previsões de venda em massa, a questão
passava a ser conseguir estabilizar o processo produtivo e reduzir os custos.
Todavia, embora os métodos de trabalho então vigentes fossem sérios
limitantes ao aumento da produtividade, os homens de negócios não faziam
idéia de que esses métodos pudessem ser melhorados, pois constituíam-se
em práticas há longo tempo estabelecidas, e parecia não ser possível haver
outras configurações para os processos produtivos. A organização da fábrica
se limitava à distribuição de atividades entre os trabalhadores, que eram
capazes de realizar tarefas variadas, e o fator central no processo de
produção era a capacidade do operário, que escolhia as ferramentas e os
métodos produtivos. Não havia normas nem padrÕes de trabalho. Na virada
do século, os problemas de produtividade e custos, acrescidos a um elevado
índice de rotatividade de pessoal, preocupavam sobremaneira os industriais.
"Cem por cento de índice de rotatividade anual era normal, mas algumas grandes firmas excediam a 300 por cento. A Ford Motor Company em 1916 relatou o seguinte: "Costumamos contratar de 40 a 60 por cento de nossa força de trabalho a cada mês, para mantê-la. No ano de 1913, entre 50.000 e 60.000 pessoas passaram pelo nosso escritório de emprego." Na mesma época, eles deram notícia de um índice diário de absenteísmo de 10 por cento. Era comum nas organizações comerciais americanas que 85 por cento de todos os novos vendedores pedissem demissão ou fossem
demitidos nos primeiros 12 meses." (trad. por Flavio Farah)
Quando afinal se impôs, o Taylorismo conseguiu de fato
estabilizar o processo produtivo, por meio da padronização das atividades
fabris e do planejamento e controle rigorosos dos volumes de produção.
A partir de então, começou a vigorar não somente uma
concepção predominantemente formal, burocrática, da empresa, mas
também uma concepção mecanicista do operário: este passou a ser
considerado simplesmente mais um fator de produção, e a mão-de-obra, uma
mercadoria que se compra e da qual se pode dispor à vontade. Em resumo, o
trabalhador era assemelhado a uma máquina, que devia ser utilizada
observando-se certos cuidados técnicos, de modo a obter-se máxima
eficiência e durabilidade. Isto implicava programar em detalhes o trabalho,
no intuito de eliminar os períodos não-produtivos e reduzir ao mínimo a
fadiga do operário. Por outro lado, para Taylor, o obreiro é alguém motivado
basicamente pelo dinheiro. Alguém que procura emprego por razões
remuneração recebida. Daí Taylor concluiu que, remunerando-se o
trabalhador de acordo com seu volume de produção, este procuraria
produzir o máximo, o que reverteria em ganhos e satisfação para ambas as
partes: empresa e operário.
Assim, a Administração Científica prometia aos industriais o
melhor dos mundos: produção crescente, custos em queda, maiores lucros
(pois o acréscimo de remuneração obtido pelos operários estava longe de
acompanhar os aumentos de produção proporcionados pelos novos
métodos) e, por fim, operários satisfeitos e em paz. Porém, as coisas não
correram como Taylor esperava. Os sindicatos lutaram ferozmente contra a
Administração Científica, ao mesmo tempo em que procuravam firmar-se
como representantes legítimos dos operários. É o que se expõe a seguir.
No século XIX, estava em plena vigência a doutrina
econômica conhecida como laissez-faire, cujos pilares eram: a)
Não-intervenção do Estado nas relações econômicas; b) Liberdade de iniciativa;
c) Direito de propriedade; d) Liberdade de contrato. Nessa época, os juízes e
tribunais dos Estados Unidos, em sua grande maioria, consideravam que as
atividades sindicais atentavam contra esses princípios. Entendia-se que
greves, boicotes e piquetes eram atos que prejudicavam a liberdade de
contrato e de iniciativa, pois afetavam o fluxo de mercadorias e serviços.
salários e condições de trabalho, nasceu sob o fogo cerrado da repressão
policial e em meio às sentenças adversas dos juízes que, muitas vezes,
ordenavam a imediata interrupção das atividades dos sindicatos e expediam
mandados de prisão contra seus líderes, sob a acusação de "conspiração",
pelo fato de se associarem para reivindicar aumento de remuneração ou
outros benefícios.
Lentamente, a situação começou a mudar. Em 1886, numa
convenção em Columbus, Ohio, é criada a "Federação Americana do
Trabalho" (AFL - American Federation of Labor), a primeira central sindical
americana, a qual, já em 1920, contava com cerca de 5 milhões de filiados.
A partir da criação da AFL, a luta incessante dos trabalhadores fêz com que
gradualmente a sociedade e o Estado reconhecessem seus direitos. O
Congresso passou a intervir nas disputas entre empregados e empregadores,
de modo a limitar a ingerência do Judiciário nos dissídios trabalhistas e fazer
com que o governo apoiasse o movimento sindical. Esse longo processo
culminou, em 1935, com a edição da "Lei Nacional de Relações do Trabalho"
(National Labor Relatious Act), que obrigou o governo a dar suporte ao
sindicalismo e a promover a negociação coletiva como política pública.
Nesse ambiente, o Taylorismo enfrentou forte oposição por
parte dos operários, encorajados pela dimensão que o movimento sindical
"O trabalho (organizado) opôs-se a um sistema de aceleração do ritmo de trabalho imposto aos trabalhadores em nome da ciência. Os sindicatos denunciaram que, contrariamente às afirmativas dos gerentes da administração científica, o aumento do ritmo levava à sobrecarga, à fadiga excessiva, ao corte das taxas de remuneração, e ao desemprego. Argumentou-se que a administração científica resultava em superespecialização e transformava o trabalho numa rotina mecânica e monótona. Conseqüentemente, os sindicatos acusavam a administração científica de monopolizar informações e habilidades que anteriormente pertenciam ao trabalhador e de reduzir a participação do empregado em sua contratação, demissão, ritmo de trabalho e taxa de remuneração. Por fim, o
trabalho organizado suspeitava que o movimento da
. administração científica era um recurso destinado a enfraquecer os sindicatos."2 (trad. por Flavio Farah)
O recrudescimento da atividade sindical surpreendeu os
industriais. O taylorismo não estava trazendo paz ao trabalho, mas, ao
contrário, acirrando os conflitos trabalhistas. As empresas enfrentavam
demandas cada vez mais freqüentes com respeito a salários, condições de
trabalho e outras questões que haviam sido ignoradas pela administração
científica, como a adaptação do homem ao trabalho, a fadiga, a tensão
nervosa e a monotonia. Assim, à medida que os conflitos se intensificaram e
a posição dos trabalhadores nas negociações melhorou com o fortalecimento
dos sindicatos, a administração de pessoal se tornou um setor cada vez mais
importante dentro da administração, apesar de ter surgido em decorrência de
urna atitude reativa por parte dos patrões e permanecido por muito tempo
somente corno urna maneira de tentar solucionar os problemas que
dizia que se não houvesse problemas trabalhistas não haveria necessidade da
administração de pessoal).
Primórdios
Na virada do século, não havia departamentos de pessoal
como os conhecemos hoje. Cabiam ao próprio dono da fábrica ou a seus
capatazes as tarefas de contratar, instruir, alocar, disciplinar e demitir os
empregados. Os antecessores dos atuais departamentos de pessoal das
empresas foram as "secretarias do bem-estar" ou "secretarias sociais",
surgidas por volta da última década do século passado. Esses órgãos foram
criados para dar suporte a grandes contingentes de trabalhadores imigrantes
e analfabetos ou nativos provenientes das áreas rurais dos Estados Unidos,
os quais necessitavam de ajuda para se adaptar a uma nova cultura e à vida
urbana. As secretarias eram, pois, unidades destinadas a desenvolver
programas de assistência social e benefícios para os operários, tais como
assistência médica, habitação, instrução e assistência financeira, numa
tentativa de melhorar suas condições de trabalho, satisfazer suas
necessidades mais prementes e evitar que se filiassem aos sindicatos
nascentes. Porém, à medida que os operários se tornaram melhor instruídos e
perceberam que o paternalismo das secretarias do bem-estar social não
As duas primeiras décadas deste século e a Primeira Guerra
Mundial
Nos anos iniciais do presente século apareceram os
primitivos departamentos de pessoal. Taylor já havia chamado a atenção
para o fato de que os operários diferiam em suas habilidades e que a seleção
científica dos trabalhadores era uma função básica da gerência. Também
havia insistido na necessidade do treinamento científico como substituto dos
"métodos" então vigentes de "observação e imitação" ou "tentativa e erro".
Mas foi somente a partir das primeiras contribuições da psicologia e das
primeiras aplicações práticas dos testes de inteligência que as funções de
seleção e treinamento passaram a integrar o rol de funções de pessoal em
caráter permanente.
No início deste século XX, tanto nos Estados Unidos como na
Europa, os primeiros estudiosos da psicologia começaram a tentar aplicar os
princípios de sua ciência ao mundo do trabalho. Assumiram como hipótese
que as características de personalidade dos empregados estavam
relacionadas ao desempenho em seus empregos e procuraram identificar
qualidades pessoais que tivessem influência significativa nos resultados
alcançados em situações de trabalho. Em 1913, Hugo Munsterberg, famoso
psicólogo da Universidade de Harvard, e considerado o pai da psicologia
industrial, descreveu uma série de experiências na seleção de trabalhadores,
como testes de percepção, inteligência e destreza. Munsterberg constatou que
havia grande correspondência entre a eficiência em condições experimentais
e a eficiência em condições reais de serviço, isto é, os empregados que
apresentavam os melhores resultados nos testes eram também os que tinham
melhor desempenho segundo o julgamento de suas empresas. Assim,
segundo ele, os testes provavam sua validez na seleção de trabalhadores.
Uma das mais significativas contribuições trazidas pela
psicologia ao campo da administração de pessoal ocorreu durante a Primeira
Guerra Mundial. Em 1917, o Exército dos Estados Unidos enfrentava o
problema do que fazer com os milhões de homens que se inscreviam no
serviço militar. Como identificar sua aptidão? Como diferenciar os que
tinham qualificação para o oficialato dos que deveriam receber treinamento
técnico? Esses problemas foram resolvidos por um grupo de psicólogos
especialmente convocados para esse fim. Eles criaram dois testes simples, o
teste Alfa (para alfabetizados) e o teste Beta (para analfabetos), que foram os
primeiros testes de inteligência a serem aplicados em grupo, e que se
tornaram um marco na metodologia de rnensuração psicológica. A comissão
teve corno integrantes as figuras notáveis de Walter Dill Scott e Robert C.
Clothier, os quais, retornando à vida civil posteriormente, contribuíram para
Entre 1900 e 1920, um certo número de especialistas
começaram a integrar as empresas de maior porte, compondo órgãos que
seriam os predecessores dos departamentos de pessoal da atualidade. Uma
das primeiras funções de pessoal a aparecer foi a do "agente de emprego":
"Inicialmente, as funções de administração de pessoal, que
estavam em geral limitadas à contratação, demissão e registro de
horas trabalhadas, eram de responsabilidade de cada supervisor, como parte de sua função de "chefe". À medida que os métodos produtivos se tomaram mais complicados e a carga de trabalho do supervisor aumentou, sua responsabilidade relacionada aos registros de horas e de folha de pagamento foi sendo, com freqüência cada vez maior, transferida a um escriturário [ .. .]"4
(trad. por Flavio Farah)
Outras funções surgidas nos anos iniciais deste século foram
a de segurança do trabalho e a da fixação de salários, também a cargo de
escriturários, atividade que consistia em estabelecer taxas de remuneração
baseadas em estudos de tempos e movimentos:
"Em 1902, o Estado de Maryland aprovou a pnme1ra lei de
indenizações aos trabalhadores dos Estados Unidos, mas esta foi declarada inconstitucional. Depois que a Suprema Corte manteve as leis de indenizações aos trabalhadores, de 1911, de Washington,
Wisconsin, Cal~fornia e Ne1.o fersey, a função do especialista em
O ano de 1912 costuma ser considerado como aquele que
marca o aparecimento dos departamentos de pessoal com características
semelhantes às de hoje, por ter sido criada nessa data, em Boston, a primeira
associação de "gerentes trabalhistas" (employment managers association).
Por volta de 1920, na maioria destes antigos departamentos
de pessoal, já se encontravam, embora com filosofia, abrangência e métodos
diferentes dos atuais, a maioria das funções que conhecemos: recrutamento,
seleção, remuneração, treinamento, estudo de tempos e movimentos,
assistência e previdência, segurança e relações trabalhistas. Mas tudo se fazia
com dois objetivos: controlar os operários, mantendo a disciplina, evitando
greves e outros "distúrbios", e aumentar continuamente a produtividade:
"O objetivo primário da função de pessoal neste período pré-Primeira Guerra Mundial, [ ... ], parece ter sido a produtividade, ou lucro. As atividades assistenciais, bem corno os aperfeiçoamentos nos métodos de trabalho, eram avaliados explícita ou implicita-mente em termos de sua contribuição para este objetivo. A meta de manutenção da organização como tal não era reconhecida ou aceita, exceto por um número limitado de indivíduos dentro da própria área de pessoal."6 (trad. por Flavio Farah)
"Administração de pessoal é a etapa da administração que lida com o controle eficiente da força de trabalho, [ ... ]."7 (idem)
Apesar dessa rápida evolução, a psicologia industrial e a
administração científica forjaram uma visão estática, engessada, da situação
profissional do trabalhador. Senão vejamos:
"A psicologia industrial introduziu o conceito de "adaptação" ou
"adequação" nas áreas de seleção e alocação de empregados. O
raciocínio subjacente a esse conceito é que tanto o serviço quanto o
empregado apresentam características individualizadas
espe-cíficas, e que os requisitos da função e as características do
empregado deveriam ser combinados ou adaptados de forma a
compatibilizar-se ao máximo. Sem dúvida, diferentes funções
requerem diferentes habilidades e aptidões. Além disso, diferentes
indivíduos possuem diferentes talentos e aptidões. O conceito de
adaptação ou adequação procura simplesmente conectar à pessoa
certa ao serviço certo. Embora esta seja uma idéia relativamente
simplista, não foi reconhecida e praticada até a virada do século."9
(trad. por Flavio Farah)
Por outro lado, o taylorismo introduziu a "concepção
naturalista da divisão do trabalho mental e físico", segundo a qual a
separação absoluta entre os dois tipos de atividade corresponde a uma
situação natural:
"Com efeito, o tradicionalismo supôs a existência de dois tipos de
indivíduos em relação à indústria: indivíduos com capacidade de
reflexão e indivíduos com tendência a não pensar. Partindo deste
tipo de concepção, Henry Ford se ufanava da organização de suas
fábricas, onde o obreiro não tinha, pelas características do trabalho
em série, a menor possibilidade de aplicar seu raciocínio. [ ... ]
(Ford) justificava a eliminação da iniciativa do operário,
atribuindo-a a certa tendência inata, da maioria deles, a não
Assim, a divisão naturalista do trabalho, combinada com a
idéia de aptidões inatas e imutáveis embutida no conceito de "adaptação",
produziram a visão de que o operário, uma vez selecionado e treinado,
permaneceria indefinidamente no mesmo lugar. A única expectativa que
havia por parte dos empregadores, em relação à sua evolução profissional,
era a do aumento de produtividade. O atual conceito de "desenvolvimento"
inexistia naquela época e treinamento era algo que o empregado recebia
somente por ocasião da admissão. Essa visão estática da situação profissional
do operário haveria de refletir-se na avaliação de desempenho.
Nos Estados Unidos, a avaliação de desempenho nasceu com
o nome de merit rating ("graduação do mérito"), expressão derivada de rating
scale ("escala graduada"), que foi a designação recebida pelo primeiro
método avaliativo a ser criado. O objeto da avaliação recaía exclusivamente
nas características (traits ou "traços") de personalidade do empregado, em
consonância com a ênfase que a nascente psicologia industrial dava à questão
das diferenças individuais, e que originou a primeira teoria psicológica da
personalidade, a teoria dos traços. A abordagem era hierárquica, isto é, cabia
ao superior imediato realizar a avaliação, sem participação alguma do
subordinado. Este sequer tomava ciência da avaliação, pois prevalecia o
sentimento de que isso nenhum benefício traria, mas, pelo contrário, causaria
O conceito apresentado por Jucius11 sintetiza de modo
contundente o que se pretendia do processo avaliativo:
"[ ... ] rating é o ato de se estimar o valor relativo dos empregados a
fim de determinar as recompensas que devem ser concedidas ou negadas a cada um." (trad. por Flavio Farah)
Neste ponto, vale a pena destacar a manifestação de Yoder12
que, tentando justificar esse primeiro modo de enfocar a avaliação, acaba por
revelar suas contradições intrínsecas:
Certos tipos de qualidades humanas, entre as quais iniciativa, persistência, liderança, auto-controle, visão ampla e aparência [ ... ], podem ser muito importantes para o desempenho bem-sucedido em determinadas posições. [ ... ] Mas há poucos testes ou padrões objetivos disponíveis que forneçam uma medida quantitativa dessas características. É necessário, portanto, confiar em julga-mentos e opiniões. Procedijulga-mentos de rating foram desenvolvidos para fornecer um método conveniente de obter e registrar essas avaliações. Se tais características não podem definitivamente ser pesadas ou medidas, elas podem pelo menos ser comparadas; é possível concordar que um dado indivíduo exibe mais ou menos uma certa qualidade que outros indivíduos especificados.
Mas voltemos à origem do merit rating. Em 1916, o Escritório
de Pesquisas em Vendas, constituído pela associação de cerca de trinta
grandes firmas comerciais, conduziu, por meio de seus psicólogos, vários
estudos concernentes à seleção de vendedores, concluindo que até então não
havia meios de se medir o grau em que os candidatos à função de vendedor
possuíam as características essenciais à atividade de venda. Para suprir essa
lacuna, esses psicólogos, entre os quais W alter Dill Scott e seus colegas,
criaram o primeiro método, denominado rating scale, recomendando-o tanto
para a seleção de vendedores como para o respectivo merit rating. Liberado
para utilização em janeiro de 1917, esse método, assim que os Estados
Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, foi adaptado para uso do
Exército na avaliação periódica dos oficiais e dos aspirantes a oficial. O rating
scale consistia em se avaliar cinco características fixas: qualidades físicas,
inteligência, liderança, qualidades pessoais e valor geral para o serviço. A
cada qualidade eram atribuídos cinco graus: o mais alto; alto; médio; baixo; o
mais baixo. Cada grau correspondia a um certo número de pontos. O método
compunha-se de duas etapas: 1 a) construção da escala-padrão; 2a) aplicação.
A avaliação era feita pelo superior imediato. Assim, se um
major devesse avaliar os capitães sob seu comando, na primeira etapa ele
deveria escolher de 12 a 25 oficiais dessa patente, a partir dos quais
escolheria os paradigmas, da seguinte forma: para cada característica, ele
característica no grau mais alto, anotando seu nome na escala; depois um
oficial que apresentasse a característica no grau mais baixo; depois um com
grau médio, um com grau alto e, finalmente, um oficial com a característica
em grau baixo. O processo se repetiria para os demais caracteres. Construída
dessa forma a escala-padrão, o avaliador passaria à segunda etapa,
comparando homem-a-homem cada um de seus subordinados com os
paradigmas e verificando com qual destes o avaliando mais se identificava.
Após a Guerra, as dificuldades constatadas por entidades
civis na aplicação do método, quais sejam, construir a escala-padrão e
comparar cada subordinado com os cinco homens ali registrados, em relação
a cada característica, levaram às seguintes modificações: a escala-padrão foi
eliminada; o avaliando passou a ser comparado não com cinco pessoas, mas
com cinco frases objetivas que descrevessem os cinco graus da característica
em questão; passaram a ser escolhidas somente as características que fossem
aplicáveis ao tipo de atividade executada pelo avaliando; e as frases objetivas
foram colocadas sob uma linha horizontal cujos extremos esquerdo e direito
representavam, respectivamente, os graus máximo e mínimo da
característica. O avaliador registrava graficamente sua avaliação fazendo
uma marca sobre a linha horizontal; a posição relativa dessa marca em
relação aos extremos representava o grau em que o avaliando possuía a
característica sob avaliação. A partir de 1919, essa variante recebeu o nome
ser conhecido como "Método Scott de comparação homem-a-homem" (Scott
man-to-man comparison). Pouco tempo depois, a avaliação de desempenho
passou a ser utilizada para subsidiar decisões relativas a promoções,
transferências, demissões e aumentos salariais.
A utilização das escalas gráficas logo revelou que muitos
resultados eram distorcidos pelos erros cometidos pelos avaliadores: estes às
vezes eram excessivamente severos (erro de severidade), ou
condescen-dentes (erro de leniência), ou apresentavam a tendência de avaliar seus
subordinados pelo ponto médio das escalas (erro de tendência central). A
tentativa de eliminar tais distorções levou à implantação do método
denominado "distribuição forçada" (jorced distribution). De fato, acreditava-se
na época que o grau em que um grupo de indivíduos apresentava um
determinado traço de personalidade obedecia à distribuição normal. Assim,
o método da distribuição forçada obrigava o avaliador a distribuir os
avaliandos em cinco grupos, com respeito a cada característica de
personalidade: 10 por cento tinham que ser classificados na categoria "muito
superior", 20 por cento na categoria "superior", 40 por cento na "média", 20
por cento na" inferior" e 10 por cento na" muito inferior".
A distribuição forçada, ao limitar o número de empregados
que podiam ser enquadrados nas categorias superiores, atendeu ainda a uma
deveriam receber aumento de remuneração. De fato, a grande empresa
norte-americana cedo adotou a sistemática de trabalho baseada em orçamentos
anuais (budgets), que consistia em elaborar previsões detalhadas das receitas
e despesas a serem realizadas no exercício financeiro seguinte. As previsões
com despesas de pessoal incluíam, evidentemente, itens como aumentos de
remuneração, promoções, etc. Assim, não se podendo premiar todos os que
apresentassem desempenho satisfatório, em razão de limitações
orçamentárias, buscou-se um método que permitisse classificar de alguma
forma os empregados quanto ao desempenho, escolhendo-se os melhores em
número tal que a despesa daí decorrente não ultrapassasse os montantes
previstos em orçamento. Esse objetivo também foi atingido por outro método
avaliativo, o do "ordenamento" (ranking), que consistia em simplesmente
ordenar os empregados quanto a seu desempenho global, desde o melhor até
o mais fraco.
A década de 20 e o patenzalismo
Miner e Miner13 observam que vários fatores contribuíram
para o rápido desenvolvimento da administração de pessoal nos anos 20: o
crescimento estável da economia antes da Guerra, o sucesso do programa de
pessoal do Exército, e o boom econômico generalizado que se seguiu ao