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Problemas psiquiátricos em geriatria.

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Academic year: 2017

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PROBLEMAS PSIQUIÁTRICOS EM GERIATRIA

M A R C E L O B L A Y A *

Dentro da ampla faixa do que convencionalmente se chama

normali-dade, o processo de envelhecimento não é diferente dos processos que

ca-racterizam as outras etapas da vida dos seres humanos. Assim como a

adolescência pode ser u m período difícil para os jovens que, traumatizados

em etapas anteriores de seu desenvolvimento psicossexual, atingem esta idade

mal preparados para enfrentar os stress típicos desta fase, a senilidade pode

ser, e é, uma fase turbulenta para os velhos que a ela chegam sem o

neces-sário preparo

3

.

Os problemas relativos ao envelhecimento e às moléstias características

desta fase tornaram-se mais evidentes em face do aumento da vida média

prevista para a espécie humana. Os progressos da medicina e da cirurgia,

nestes últimos 50 anos, burlando o princípio darwiniano da sobrevivência

do mais apto, tiveram grande repercussão para a sobrevivência da espécie.

D e acordo com os historiadores, a vida média para os nascidos no I m

-pério Romano era de 23 anos. E m 1930 a mesma cifra era de 27 anos na

índia e de 33 anos no México. Desconhecem-se os valores para a população

brasileira. N o s Estados Unidos da América do N o r t e , em 1900, a vida

média prevista era de 47 anos e, em 1950, este valor para homens subira

a 67 e, para mulheres, a 71 anos

1 8

. Este aumento trouxe profunda

reper-cussão na vida dos indivíduos e dos grupos sociais. D o ponto de vista das

enfermidades psiquiátricas, essas alterações podem ser apreciadas através

dos seguintes dados: enquanto os hospitais mentais do Estado de N o v a Y o r k

admitiam, em 1930, dois pacientes de mais de 60 anos em cada 10 novas

admissões, em 1956, a proporção de enfermos de mais de 60 anos subira

para 5 em cada 10

4

.

A transformação de pessoa normal em indivíduo "caduco" é processo

lento e gradual, tornando-se difícil e muitas vezes impossível estabelecer a

divisão nítida entre essas duas condições. C o m o envelhecimento nota-se:

1) diminuição de interesse em relação ao mundo exterior e,

concomitante-mente, aumento de interesse introspectivo; 2) declínio da memória, mais

acentuado para fatos recentes do que para antigos; 3) diminuição na

(2)

pacidade de iniciativa e na velocidade de pensamento e ação; 4) maior

tendência ao raciocínio e especulação mental do que à ação.

A s características acima mencionadas são biológicas e ocorrem na

tota-lidade dos seres da espécie humana. E m determinadas pessoas, porém, elas

provocam o aparecimento de ansiedade; para combatê-la põe-se em atividade

uma série de mecanismos de defesa e, de acordo com o g r a u de primitivismo

destes, ter-se-á uma reação neurótica ou psicótica. Estabelece-se, no

entan-to, u m círculo vicioso, pois o aparecimento da reação angustiosa agrava

ainda mais o déficit intelectual e este, por sua vez, aumenta a ansiedade

e o número de mecanismos de defesa primitivos em ação. Finalmente, a

decadência e o empobrecimento psíquico do paciente atingem o ponto da

demência senil

3

>

1 0

>

2 0

.

Note-se, portanto, que há sempre declínio das funções intelectuais e

da potencialidade. A s pessoas que se acham psicologicamente preparadas

para a velhice, toleram bem tais m u d a n ç a s

n

. Entretanto, indivíduos que

c a r r e g a m consigo desajustamentos e traumas de fases anteriores do seu

de-senvolvimento psicossexual, estarão menos aptos a tolerar essas mudanças

que se processarão sem a harmonia de u m processo biológico. A chamada

"segunda infância" é, realmente, a continuação da primeira e única infância

do indivíduo. O infantilismo permanece disfarçado durante a fase adulta

e reaparece na velhice. Este disfarce é o convencionalismo exagerado e a

capaciadde do indivíduo de imitar e fazer o que o rebanho f a z

1

.

A fase senil tem características peculiares a cada sexo, além das b á

-sicas e comuns a ambos os sexos.

N o homem, desde muito cedo, estimula-se o gosto da competição, da

produtividade, o desejo de acumular riquezas e conseguir renome e fama.

Enquanto está empenhado nesta luta, defende-se razoavelmente bem, mesmo

aquele que vem traumatizado e, por assim dizer, estigmatizado para os

pro-blemas emocionais da velhice. Dois fatos, importantes concorrem para o

aparecimento dos problemas mais sérios desta fase: a inatividade

profissio-nal e o climaterio. A m b o s precipitam o encerramento da atividade criadora

do indivíduo e o deixam, praticamente, à mercê do golpe final. Esse

feri-mento em seu narcisismo, roubando-lhe os ídolos que eram a base de sua

existência, reativa a ansiedade ligada ao complexo de castração. O

meca-nismo de defesa mais freqüentemente utilizado é a negação, vendo-se velhos

de reputação intocável, iniciar práticas exibicionistas, recorrer à pedofilia

ou entrar num frenesi de atividade

5

, no afã de negar o declínio crescente.

N a mulher, a menopausa pode constituir-se no obstáculo que faz

pe-riclitar o ego desfalecente. Simultaneamente com a menopausa, o

afasta-mento dos filhos, pelo casaafasta-mento, do marido, pela viuvez, o declínio da

be-leza e a incapacidade de competir com as filhas, tudo constitui um stress

severo. A mulher associa a menopausa ao fim de sua atividade sexual e

(3)

an-siedade ligada à inveja do pênis e constitui outro problema a considerar

neste grupo.

P a r a analisar as causas dos problemas psiquiátricos em Geriatria deve-se

definir envelhecimento e analisar as causas biológicas, psicológicas e

socio-lógicas que parecem ser responsáveis pelas mudanças que nele ocorrem.

O fator tempo, em relação aos processos vitais, d á o conceito de

en-velhecimento. Envelhecimento é, senso lato, u m processo que se inicia com

a concepção e termina com a morte. D o ponto de vista pragmático deste

trabalho, a velhice ou a senilidade é a fase da vida humana que decorre

do fim do período adulto até a morte.

A s mudanças verificadas no processo de envelhecimento parecem

decor-rer das seguintes alterações: 1) suprimento insuficiente de materiais

nu-tritivos; 2) transporte defeituoso de anabólitos e catabólitos; 3) defeito

de utilização de anabólitos fornecidos à célula; 4) acúmulo de catabólitos.

O equilíbrio homeostático parece ficar comprometido com maior freqüência

pelos transtornos da circulação

1 4

. Dentre as causas etiológicas mais comuns

no grupo de doentes em análise, as enfermidades vasculares, especialmente

a arteriosclerose, são as responsáveis pelo maior número de c a s o s

1 7

. Note-se

que se a arteriosclerose é, por u m lado, um dos fatores freqüentemente

associados à produção da síndrome clínica da "arteriosclerose cerebral", por

outro lado, nem todo indivíduo com arteriosclerose terá sintomas mentais,

não existindo correlação entre o g r a u de obstrução vascular e a severidade

dos sintomas

1 4

.

Entre as causas psicológicas para os problemas psiquiátricos em

Geria-tria deve-se mencionar, em primeiro lugar, a personalidade do indivíduo nos

períodos anteriores. Emprega-se aqui o termo personalidade no sentido de

inventário das aptidões e deficiências da pessoa. É óbvio que não se terá

uma velhice harmoniosa se a infância, a adolescência e a maturidade

hou-verem sido marcadas por problemas emocionais não resolvidos. Maior

re-serva emocional acumulada nos primeiros anos de vida, através de uma

vivência sócio-familiar satisfatória, com abundância de carinho e com

re-lações interpessoais estáveis, que se traduz, na fase adulta, por um

ajusta-mento sintónico na escola, na comunidade e no emprego, constitui garantia

para uma velhice tranqüila.

A diversidade de interesses é fator importante. O operário que,

duran-te 30 anos, executa a mesma tarefa numa fábrica não duran-terá a satisfação

do artesão que vê a obra concluída por sua m ã o enquanto aquele executa

apenas uma parte de u m todo. D e r i v a daí o valor das atividades fora do

trabalho, nas quais o indivíduo consegue a satisfação que lhe é negada na

revolução industrial. Essa diversidade de interesses é uma qualidade

ine-rente ao homem. A especialização, que Fishbein conceitua como "o

pro-cesso pelo qual o homem sabe cada vez mais a respeito de menos e menos,

sabendo, finalmente, tudo a respeito de nada", atrofia essa

multipotenciali-dade do indivíduo. Chegando à inativimultipotenciali-dade, quando necessita

"desespeciali-zar-se", o indivíduo encontra-se preso ao hábito e aos problemas emocionais

da aposentadoria

7

(4)

O tipo de personalidade pré-mórbida desempenha papel importante na

velhice. Personalidades nas quais predomina o nascisismo primário,

caracte-rizadas pela vigência do princípio do prazer — personalidades infantis —

sofrem rudemente com o envelhecimento. Menção especial deve ser feita

dos indivíduos que se caracterizam por grande rigidez de conduta e que

toleram mal o declínio físico e i n t e l e c t u a l

1 3

. A doente cuja história se

relata no fim deste trabalho apresentava uma personalidade pré-mórbida

infantil, com traços de rigidez obsessivo-compulsiva. Esses traumatismos do

narcisismo parecem ser fatores psicológicos da maior importância; sua

in-fluência dependerá, em grande parte, da atitude do grupo social em relação

à velhice.

N a maioria das culturas primitivas, os anciãos eram respeitados como

repositórios da sabedoria tribal e guardiões da tradição o r a l

1 5

. Este

cos-tume parece encontrar apoio em estudos modernos, os quais concluem que,

à medida que a força e a capacidade de iniciativa diminuem, aumentam o

poder de concentração e a resistência.

A s culturas gerontocráticas oferecem aos anciãos um grande apoio

ex-terno, através de tabus e práticas tradicionais que os conservam como

se-nhores de suas casas, regedores patriarcais dos destinos dos familiares,

lí-deres das funções religiosas dentro do lar, conselheiros dos membros do clã

e alvo do respeito de todos.

Contrastando com esse apoio que a tradição tribal oferece aos anciãos,

as culturas ocidentais chegam ao ponto de não conceder, aos velhos, uma

situação definida no grupo social. O centro de gravidade dos assuntos

fa-miliares cedo foge das mãos do pai ,para as dos filhos, cujo sucesso

finan-ceiro e profissional os torna sucessores daquele. A o mesmo tempo que os

velhos vêem ruir seu mundo profissional, familiar e social, assistem ao

des-moronamento de seus corpos e faculdades mentais. A s vivendas da época

presente, pequenos apartamentos e casas, não prevêem a coexistência, sob

o mesmo teto, de três gerações. O barulho das crianças irrita os velhos;

a indulgência ou intransigência destes torna difícil a educação daqueles.

A necessidade de tolerar as excentricidades dos velhos faz com que os

moços suspirem aliviados quando outro familiar convida "o problema" para

sua casa. Assim, a cultura originou esses "caixeiros-viajantes", que são bem

recebidos, porém, mal tolerados. Eles próprios sentem que estão

atrapalhan-do, que "estão no caminho".

Tratamento — A o focar a terapêutica deste grupo de doentes, o médico

deve encarar a necessidade de tratar sempre de indivíduos com problemas

sui generis e nunca de síndromes clínicas.

Medida fundamental é a relação médico-doente, devendo o primeiro ser

capaz de tolerar e aceitar a desconfiança, a hostilidade, os sentimentos de

autodepreciação da parte do enfermo. Este "rapport" proporciona ao

doen-te a oportunidade de aumentar sua auto-estima desfalcada e pode ser o fator

(5)

A hospitalização impõe-se como medida terapêutica sempre que o

en-fermo represente perigo para si ou para os outros. Feita em lugar e tempo

apropriados é decisiva para diminuir a ansiedade e o "acting o u t "

s

. Isso

se deve ao apoio externo oferecido ao ego pela disciplina hospitalar e pelos

cuidados e autoridade dos membros da equipe, reforçando, por sua vez, a

repressão dos instintos eróticos e agressivos. O internamento desses

pa-cientes em instituições mentais nem sempre significa hospitalização. A

falta de estímulo, de cuidado e de enfermagem adequados, a perda da

iden-tidade do indivíduo em enfermarias superlotadas, significam sérios riscos

para os doentes, riscos potencialmente maiores do que a moléstia da qual

estão sendo tratados.

Dentre os métodos convulsivos, apenas a electroconvulsoterapia tem

uti-lidade. O uso da insulina é contra-indicado formalmente, por representar

sério perigo de vida e por trazer pouco ou nenhum benefício. Quando

pre-domina o quadro depressivo, o uso da convulsão elétrica é indicado

2

, a

des-peito da idade e do estado físico. P a r a a avaliação do risco, um exame

físico e neurológico deve anteceder o início do tratamento. O uso de

subs-tâncias curarizantes é indispensável nesses doentes. Os tratamentos devem

ser espaçados, não mais do que dois por semana, a fim de evitar u m estado

confusional mais grave e déficit de memória concomitante.

O uso de tranqüilizadores, especialmente a promazina e o meprobamato,

diminui o nível de angústia e permite "clima" melhor para a relação

tera-peuta-doente. Os tranqüilizadores "per se" não resolvem problemas

emo-cionais, assim como a aspirina não cura a febre; entretanto, como parte do

tratamento, podem e devem ser utilizados, com as devidas precauções.

O uso crescente da psicoterapia de g r u p o

1 2

representa inovação

impor-tante no tratamento dos problemas emocionais em Geriatria. Esse tipo de

psicoterapia caracteriza-se por ser basicamente de apoio, raramente

inter-pretativa, devendo o terapeuta e o observador assumirem atitude cordial e

de interesse em relação aos problemas apresentados. Contrastando com a

função do observador em outros tipos de psicoterapia de grupo, este tem

aqui u m papel ativo, participando de atividades sociais ou de trabalhos m a

-nuais introduzidos para estimular os d o e n t e s

9

.

Exemplo dessa associação é o que ocorreu em um grupo de 8 doentes

que tratamos, a maioria deles fora de contato com a realidade, agressivos

verbal e fisicamente. A s sessões bissemanais eram precedidas de uma sessão

de praxiterapia, sendo a terapeuta ocupacional a observadora do grupo. Os

pacientes ocupavam-se com atividades destrutivas, porém, socialmente

acei-táveis, as quais proporcionavam oportunidade para descarregar impulsos

hostis e agressivos. A sessão psicoterápica que se seguia era mais calma

e produtiva, havendo maior interrelação e socialização dos participantes.

(6)

A praxiterapia tem lugar de destaque no tratamento desses doentes.

O estímulo proveniente das atividades manuais, da música, das danças, dos

jogos simples, das atividades sociais, criam oportunidades para relações

in-terpessoais e oferecem fonte inesgotável para a gratificação de necessidades

instintivas dos doentes, conservando-os, assim, melhor orientados dentro da

realidade

1 9

.

A vitaminoterapia, a hormonoterapia, o uso de sais minerais e

medica-mentos diversos são úteis quando existem indicações específicas. Seu uso

indiscriminado é arma de dois gumes, escapando sua crítica ao plano deste

trabalho

1 7

.

A melhora das condições do ambiente residencial é decisivo na

reabili-tação do enfermo. O médico, por meio de seus conselhos e sua orienreabili-tação,

auxilia os familiares no sentido de remover os fatores que constituem

mo-tivos de irritação para o doente. Pode-se chegar ao extremo de remover

o enfermo do lar e colocá-lo numa morada adotiva. Quando existe situação

de incompatibilidade entre o paciente e seus familiares, o lar adotivo pode

proporcionar ao enfermo condições de vida superiores, física e

psicologica-mente, àquelas que êle encontrava em sua própria c a s a

6

. P o r outro lado,

em casas de repouso b e m organizadas, o enfermo convive com pessoas de

sua geração, tem a vantagem de atividades sociais, recreativas e

ocupacio-nais em comum, além de assistência médica e custódia contínuas.

O caso que abaixo relatamos exemplifica a terapêutica utilizada numa

doente senil. Neste exemplo fêz-se o que convinha à doente e as soluções

encontradas levaram em consideração sua psicodinâmica. A escolha da

doen-te, que j á apresentava sintomas por espaço superior a 10 anos e apresentava

uma reação psicótica por ocasião de sua hospitalização, permite dar idéia

de um caso que, em muitos hospitais, é considerado irrecuperável.

Resumo da história clinica — S. é d o n a de casa, b r a n c a , c a s a d a , c o m 72 a n o s

(7)

O f i l h o m a i s m o ç o m o r r e r a e m 1944, e m a c i d e n t e d e a v i ã o . A p a c i e n t e p a r e -c e u r e -c e b e r e s t a m o r t e -c o m -c a l m a , f i -c a n d o e n t ã o a -c a m a d a d u r a n t e d o i s d i a s . Q u a n d o o c o r p o d o f i l h o f o i r e c e b i d o e s e p u l t a d o e l a p a r e c e u t e r f i c a d o m a i s a l i v i a d a . A p a r t i r d e s e t e m b r o d e 1944 c o m e ç o u a r e c e b e r c h e q u e s m e n s a i s d e u m s e g u r o d e v i d a d e i x a d o p e l o f i l h o , os q u a i s d e p o s i t a v a e m v i d r o s dc c o n s e r v a e e n t e r r a v a j u n t o c o m r o u p a s e a l i m e n t o s q u e s u b t r a í a da casa. D e u m a f e i t a c o b r o u d i v e r s o s c h e q u e s e m m o e d a s d e p r a t a d e m e i o d ó l a r e, p o n d o - a s e m v i d r o s , e n t e r r o u - a s n o p á t i o . P e r g u n t a d a s o b r e e s t e f a t o , disse s a b e r q u e o p a p e l - m o e d a i r i a p e r d e r o v a l o r . A p a r t i r d e 1946, sua m e m ó r i a p a r a f a t o s r e c e n t e s d e c l i n o u m u i t o . N o i n v e r n o d e 1952-1953, r e c u s o u - s e a f a z e r as r e f e i ç õ e s na m e s m a m e s a c o m o m a r i d o . F o i c o n t r a t a d a u m a c r i a d a p a r a c o z i n h a r e l i m p a r a casa e c o m e l a a d o e n t e passou a t e r d e s e n t e n d i m e n t o s d i á r i o s , c h e g a n d o a o e x t r e m o d e a m e a -ç á - l a d e m o r t e e m f e v e r e i r o d e 1955. S u a m e m ó r i a c o n t i n u a v a a d i m i n u i r sensi-v e l m e n t e . A e n f e r m a t o r n a r a - s e m a i s a g i t a d a , a g r e s s i sensi-v a , i n c o n t i n e n t e d e f e z e s e u r i n a , i n c a p a z d e v e s t i r - s e e d e s p r e o c u p a d a i n t e i r a m e n t e c o m sua a p a r ê n c i a . U m a n o m a i s t a r d e e s t a v a a i n d a m a i s c o m b a t i v a , n ã o d o r m i a à n o i t e ; p e r a m b u l a v a f o r a d e casa q u a n d o n ã o e r a v i g i a d a , s a i n d o à r u a e m t r a j e s m e n o r e s o u i n t e i r a -m e n t e d e s p i d a . Seus h á b i t o s e -m r e l a ç ã o à e v a c u a ç ã o d e f e z e s e u r i n a n ã o h a v i a -m m u d a d o e e l a se d e d i c a v a a b r i n c a r c o m seus e x c r e t o s q u a n d o n ã o e r a o b s e r v a d a . R e c u s a v a d e i t a r - s e a l e g a n d o ser sua c a m a u m l u g a r " f e i o e s u j o " . T i n h a q u e ser a l i m e n t a d a às c o l h e r a d a s e p e r d e r a m u i t o p e s o . Q u a n d o l e v a d a a o v a s o s a n i t á r i o , r e c u s a v a s e n t a r - s e p o r ser o a s s e n t o d e c ô r p r e t a . P o r s e m e l h a n t e r a z ã o r e c u s a v a c o m e r a l i m e n t o s d e c ô r escura, r e p e t i n d o s e m p r e q u e e r a m " f e i o s e s u j o s " . A p ó s a n o s d e i n s i s t ê n c i a , o m a r i d o e a f i l h a c o n c o r d a r a m c o m o m é d i c o da f a m í l i a e r e s o l v e r a m i n t e r n á - l a e m a g o s t o d e 1956.

N a o c a s i ã o d e sua e n t r a d a n o h o s p i t a l , a p r e s e n t a v a s e e m a g r e c i d a , c o m p l e t a -m e n t e d e s o r i e n t a d a e -m r e l a ç ã o a o t e -m p o , pessoas e l u g a r e s . S u a a t e n ç ã o e r a d i f í c i l de se f i x a r e a i n d a m a i s p a r a se m a n t e r . P a r e c i a e s t a r confusa e a m e d r o n t a d a . A m e m ó r i a p a r a f a t o s r e c e n t e s e r e m o t o s e s t a v a i n t e i r a m e n t e c o m p r o m e t i d a . H a v i a d i f i c u l d a d e e m e n t e n d e r sua c o n v e r s a ç ã o , p o r v e z e s t o t a l m e n t e i n c o e r e n t e e c o m f r e q ü e n t e s e x p l o s õ e s d e r i s o e a l a c r i d a d e . D u r a n t e as e n t r e v i s t a s , r e c u s a v a s e n t a r na c a d e i r a , p r e f e r i n d o t o c a r c o m as m ã o s n a s p a r e d e s d a s a l a o u na b a r r a d o v e s t i d o . E x p u n h a seus ó r g ã o s g e n i t a i s e, p o r v e z e s , f a z i a g e s t o s m a s t u r b a t o r i o s . A d o -t a v a a -t i -t u d e s e d u -t o r a c o m o e x a m i n a d o r , -t o m a n d o - l h e as m ã o s e a c a r i c i a n d o - l h e os j o e l h o s , e n q u a n t o d i z i a : " G o s t o m u i t o d e v o c ê " . N a e n f e r m a r i a , e r a u m p r o -b l e m a c o n s e r v á - l a a l i m e n t a d a e l i m p a . C o n t i n u a v a a d e f e c a r e u r i n a r e m q u a l q u e r l u g a r , b r i c a n d o c o m os e x c r e t o s , p a s s a n d o - o s nas v e s t e s , no c h ã o e nas p a r e d e s .

F o i f e i t o o d i a g n ó s t i c o d e " s í n d r o m e c e r e b r a l c r ô n i c a s e c u n d á r i a ã a r t e r i o s c l e -r o s e c e -r e b -r a l c o m -r e a ç ã o p s i c ó t i c a " .

(8)

-f e r m a r i a . A s s i s t i a q u i e t a e c o n t r i t a às c e r i m ô n i a s r e l i g i o s a s , d e m o n s t r a n d o g r a n d e p r a z e r e m c a n t a r c o m a s o u t r a s p a c i e n t e s . F ê z r e l a ç ã o a f e t i v a i n t e n s a c o m o c a p e l ã o , s e n d o m a i s t a r d e c a p a z d e a s s i s t i r às suas p r e l e ç õ e s s o b r e a s s u n t o s b í b l i c o s .

A p ó s d u a s s e m a n a s , p o r i n s t â n c i a d a e n f e r m e i r a - c h e f e , u t i l i z a v a e s p o r a d i c a m e n t e o v a s o s a n i t á r i o . Seu p r o g r e s s o e r a l e n t o e m a r c a d o p o r r e c a í d a s . U m a g r i p e f o r t e d e u à e n f e r m a g e m a o p o r t u n i d a d e de r e d o b r a r os c u i d a d o s c o m a p a c i e n t e , q u e s a i u d e s t a d o e n ç a m a i s l ú c i d a e e m m e l h o r c o n t a t o c o m a r e a l i d a d e . A o s poucos, c o m e ç o u a d o m i n a r a t o p o g r a f i a d a e n f e r m a r i a , s e n d o e n t ã o c a p a z d e d i r i g i r - s e so-z i n h a à s a l a d e p r a x i t e r a p i a , a o r e f e i t ó r i o e à s a l a d e e n f e r m a g e m p a r a r e c e b e r seus m e d i c a m e n t o s . P a s s a d o s 3 meses, c o m e ç o u a f r e q ü e n t a r sessões d e p s i c o t e r a -p i a d e g r u -p o , sendo a o b s e r v a d o r a d o m e s m o a e n f e r m e i r a - c h e f e a q u e m a d o e n t e se a f e i ç o a r a e o t e r a p i s t a u m m é d i c o e s t r a n h o à e n f e r m a r i a . N o g r u p o , sua a t u a -ç ã o e r a l i m i t a d a , o u v i n d o c o m a t e n -ç ã o , o u s i m p l e s m e n t e f i c a n d o a b s t r a í d a . E s t e v e n o g r u p o d u r a n t e 18 s e m a n a s ( 3 6 s e s s õ e s ) e c h e g o u a o p o n t o d e p o d e r m a n i f e s t a r t e m o r e m r e l a ç ã o a o r e g r e s s o p a r a sua c i d a d e n a t a l , e m v i s t a d a a l t a , e n t ã o i m i -n e -n t e . O g a -n h o m a i s i m p o r t a -n t e -n o g r u p o f o i seu p r o g r e s s o e m s o c i a l i z a r c o m o t e r a p i s t a , a o b s e r v a d o r a e a s o u t r a s d o e n t e s n o g r u p o . I s s o t e v e c o m o c o n s e -q ü ê n c i a u m a u m e n t o d e a u t o - e s t i m a e m e l h o r o r i e n t a ç ã o d e n t r o d a r e a l i d a d e .

A d o e n t e e s t e v e h o s p i t a l i z a d a d u r a n t e 6 meses e 17 d i a s . P o r o c a s i ã o d a a l t a , p a r a r e g r e s s a r e v i v e r c o m o m a r i d o e a f i l h a , e s t a v a e m c o n t a t o c o m a r e a l i d a d e , e m c o n d i ç õ e s d e c u i d a r d e si e d e suas n e c e s s i d a d e s f i s i o l ó g i c a s e d e c o n v i v e r c o m os p a r e n t e s . S u a m e m ó r i a c o n t i n u a v a f a l h a . A a n g ú s t i a d e s a p a r e c e r a e m g r a n d e p a r t e , e m b o r a t e m e s s e c o n t i n u a m e n t e s a i r d e casa, p o i s t i n h a m e d o d e n ã o e n -c o n t r a r o -c a m i n h o d e r e g r e s s o . E m -casa, -c o n t i n u o u a t o m a r -c l o r p r o m a z i n a ( 7 5 m g d i á r i o s ) .

C O M E N T Á R I O S

Os p r o b l e m a s p s i q u i á t r i c o s da v e l h i c e o f e r e c e m c a r a c t e r í s t i c a s especiais

e n e c e s s i t a m ser c o m p r e e n d i d o s a t r a v é s da a n á l i s e da h i s t ó r i a do i n d i v í d u o

( l o n g i t u d i n a l ) e d e seus p r o b l e m a s p r e s e n t e s ( t r a n s v e r s a l )3

. A l é m dos stress

comuns a t ô d a s as pessoas, o v e l h o t e m os p r o b l e m a s p r ó p r i o s de seu g r u p o ,

d e n t r o os quais se d e v e d e s t a c a r : a d e c a d ê n c i a física e p s i c o l ó g i c a , a

disso-l u ç ã o dos disso-laços f a m i disso-l i a r e s e profissionais e, por sua f r e q ü ê n c i a , as injúrias

c e r e b r a i s s e c u n d á r i a s às dificuldades c i r c u l a t ó r i a s7,14 .

A s a l t e r a ç õ e s d e c o n d u t a d e v e m ser c o m p r e e n d i d a s à luz da psicodinâ¬

m i c a do i n d i v í d u o . O t r a t a m e n t o d e c o r r e dessa c o m p r e e n s ã o e l e v a e m

c o n s i d e r a ç ã o a i n t e g r i d a d e do e g o , as necessidades i n s t i n t i v a s e m j ô g o , as

e x i g ê n c i a s da r e a l i d a d e e x t e r n a , o t i p o de m e c a n i s m o s de defesa u t i l i z a d o s

e o g r a u de d e s i n t e g r a ç ã o das funções i n t e l e c t u a i s e físicas do d o e n t e .

R E S U M O

F o i a p r e s e n t a d o u m r e s u m o das idéias c o m u m e n t e a c e i t a s e m psiquiatria

d i n â m i c a c o m r e l a ç ã o aos p r o b l e m a s e m o c i o n a i s da v e l h i c e . A necessidade

de uma solução e c l é t i c a p a r a esta q u e s t ã o de c r e s c e n t e i m p o r t â n c i a na

so-c i e d a d e h o d i e r n a não i m p e d e que se u t i l i z e , so-c o m v a n t a g e m , uma o r i e n t a ç ã o

p s i c a n a l í t i c a no t r a t a m e n t o dêsses indivíduos. N o caso a p r e s e n t a d o a c h a m - s e

(9)

S U M M A R Y

Psychiatric problems of the aging and the aged.

T h e e m o t i o n a l p r o b l e m s of t h e a g i n g and t h e a g e d a r e i n c r e a s i n g as

t h e p o p u l a t i o n g r o w s o l d e r . T o u n d e r s t a n d and t r e a t these p a t i e n t s t h e

p h y s i c i a n has t o k n o w t h e p r e m o r b i d p e r s o n a l i t y , t h e past and p r e s e n t

h i s t o r y a n d t h e p r e c i p i t a t i n g f a c t o r s responsible f o r t h e p s y c h o t i c o r

neu-r o t i c neu-r e a c t i o n . T h e m o s t f neu-r e q u e n t stneu-resses t o this g neu-r o u p a neu-r e : t h e p h y s i c a l

a n d p s y c h o l o g i c a l i m p a i r m e n t , t h e d e a t h of close r e l a t i v e s , t h e r e t i r e m e n t

p r o b l e m s and t h e c e r e b r a l injuries due t o c i r c u l a t o r y handicaps.

T h e e f f e c t o f t h o s e stresses upon t h e c o n d u c t of t h e p a t i e n t h a v e t o b e

u n d e r s t o o d a t the l i g h t of t h e p s y c h o d y n a m i c s o f t h e i n d i v i d u a l . T h e t r e a t

-m e n t is a c o n s e q u e n c e o f this u n d e r s t a n d i n g and t a k e s i n t o c o n s i d e r a t i o n

e g o s t r e n g t h , i n s t i n c t u a l and r e a l i t y demands, t y p e s of m e c h a n i s m s of d e

-f e n c e u t i l i z e d and d e g r e e o-f d é s i n t é g r a t i o n and i m p a i r m e n t o-f t h e i n t e l e c t u a l

and physical functions.

T h e use of an e c l e c t i c a p p r o a c h w i t h p s y c h o a n a l y t i c o r i e n t a t i o n has

p r o v e d t o be t h e m o s t fruitful w a y t o t r e a t this g r o u p o f p s y c h i a t r i c

patients.

R E F E R Ê N C I A S

1. B U S S E , E . W . ; B A R N E S , R . H . e o u t r o s — S t u d i e s o f t h e process o f a g i n g . A m . J. P s y c h i a t . , 111:896, 1955. 2 . B U T L E R , R . N . ; P E R L I N , S. — D e p r e s s i v e r e a c t i o n s in t h e a g e d . 113? C o n g r e s s o d a A m e r i c a n P s y c h i a t r i c A s s o c i a t i o n , C h i c a g o , 1957. 3. D I E T H E L M , O . ; R O C K W E L L , F . V . — P s y c h o p a t h o l o g y o f a g i n g . A m . J. P s y c h i a t . , 99:553, 1943. 4. D O W N I N G , J.; G R U E N B E R G , E . M . — T h e p r e v a l e n c e o f m e n t a l s y m p t o m s in a n a g e d p o p u l a t i o n . 113º C o n g r e s s o d a A m e r i c a n P s y c h i a t r i c A s s o c i a t i o n , C h i c a g o , 1957. 5. E A S T , W . N . — C r i m e , senescence a n d s e n i l i t y . J. M e n t . Sc., 90:835, 1944. 6. E B A U G H , F . G . — A g e i n t r o d u c e s stress i n t o t h e f a m i l y . G e r i a t r i c s , 11:146, 1956. 7. G I T E L S O N , M . — E m o t i o n a l p r o b l e m s o f e l d e r l y p e o p l e . G e r i a t r i c s , 3:135, 1948. 8. K O L B , L . — M e n t a l h o s p i t a l i z a t i o n o f t h e a g e d : is i t b e i n g o v e r d o n e ? A m . J. P s y c h i a t . , 112:627, 1956. 9. K U B I E , S. H . ; L A N D A U , G. — G r o u p W o r k w i t h t h e A g e d . I n t e r n . U n i v e r s i t y P r e s s , N o v a Y o r k , 1953. 10. L A N -S I N G , A . I . — C o w d r y ' s P r o b l e m s o f A g i n g , 3 » e d . W i l l i a m s & W i l k i n s , B a l t i m o r e , 1952. 1 1 . L A W T O N , G. — A g i n g S u c c e s s f u l l y . C o l u m b i a U n i v . Press, N o v a Y o r k , 1946. 12. L I N D E N , M . E . — T h e p r e v e n t i o n o f m e n t a l d i s t u r b a n c e in t h e a g i n g . 114º C o n g r e s s o d a A m e r i c a n P s y c h i a t r i c A s s o c i a t i o n , S ã o F r a n c i s c o , 1958. 13. M c -F A R L A N D , R . A . — T h e p s y c h o l o g i c a l a s p e c t s o f a g i n g . B u l l . N e w Y o r k A c a d . M e d . , 52:14, 1956. 14. M O O R E , J. E . ; M E R R I T T , H . H . ; M A S S E L I N K , R . J. — T h e n e u r o l o g i c a n d p s y c h i a t r i c a s p e c t s o f t h e d i s o r d e r o f a g i n g . P r o c . A . R . N . M . D . , v o l . X X X V . W i l l i a m s & W i l k i n s , B a l t i m o r e , 1956. 15. S I M M O N S , L . W . — R o l e o f t h e a g e d in p r i m i t i v e s o c i e t y . Y a l e U n i v . P r e s s , N e w H a v e n , 1945. 16. S T I E G L I T Z , E . J. — T h e S e c o n d F o r t y Y e a r s . L i p p i n c o t t C o , F i l a d é l f i a , 1946. 17. S T I E G L I T Z , E. J. — G e r i a t r i c M e d i c i n e , 2ª e d . S a u n d e r s C o . , F i l a d é l f i a , 1949. 18. S T I E G L I T Z , E. J. — T h e a g i n g p r o c e s s . C o n f e r ê n c i a n o T h i r d M e n t a l H o s p i t a l I n s t i t u t e , L o u i s -v i l l e , 1951. 19. W I L L I A M S , A . M . — R e c r e a t i o n f o r t h e A g i n g . A s s o c i a t i o n P r e s s , N o v a Y o r k , 1953. 20. W I L S O N , D . C. — T h e p a t h o l o g y o f s e n i l i t y . A m . J. P s y -chiat., 111:902, 1955.

Referências

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