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1 Centro de Ciências da Saúde/Mestrado em Saúde Coletiva, Reitoria, Universidade de Fortaleza. Av. Washington Soares 1321, Edson Queiroz. 60811-905 Fortaleza CE. [email protected] 2 Universidade Federal de Campina Grande

Cartografia do cuidado na saúde da gestante

Cartography of healthcare for pregnant women

Resumo Utilizou-se a cartografia como método para mapear a trajetória do cuidado à gestante no serviço da atenção básica. O campo de estudo fo-ram nove Unidades Básicas de Saúde do Municí-pio de Juazeiro do Norte (CE). Participaram 15 mulheres que estavam entre 37 e 39 semanas de gestação, com as quais foram realizadas entrevis-tas nos meses de janeiro a junho de 2010. Os acha-dos da cartografia foram descritos em etapas no fluxograma e revelaram lacunas no serviço do pré-natal, tais como o número reduzido da realização do exame da citologia oncótica e o déficit de ativi-dades educativas. Observou-se, entretanto, certa resolubilidade na assistência à gestante, pois vá-rios depoimentos demonstraram satisfação em re-lação ao serviço. A boa rere-lação desenvolvida com o profissional foi o principal motivo que as levou a continuar o tratamento. Este fato reforça a im-portância do vínculo e do diálogo entre profissio-nais e gestantes para a adesão e sucesso do pré-natal.

Palavras-Chave Gestação, Cartografia, Cuida-do Integral, Pré-Natal

Abstract This work uses cartography as a meth-od for mapping the trajectory of primary health-care provided to pregnant women. The scope of the study comprises 9 Basic Healthcare Units lo-cated in the city of Juazeiro do Norte in the State of Ceará. In all, fifteen women in the 37th to 39th week of pregnancy were selected. Interviews were conducted with these women during the period from January to June 2010. The cartographic find-ings were depicted in stages in the flowchart, which exposed lacunas in prenatal healthcare, such as the low number of oncotic cytology exams conducted and the lack of educational counsel-ing. Nevertheless, in the interviews, a significant number of pregnant women expressed satisfac-tion with the prenatal care provided. The good relationships developed between the healthcare professionals and the pregnant women were the main reason that led them to continue the treat-ment. This fact reinforces the importance of dia-logue between these two actors for the success of prenatal healthcare.

Key words Pregnancy, Cartography, Compre-hensive health and prenatal care

Raimunda Magalhães da Silva 1

Milena Silva Costa 2

Regina Yoshie Matsue 1

Girliani Silva de Sousa 1

Ana Maria Fontenelle Catrib 1

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Introdução

A gestação é um período no qual a mulher neces-sita de cuidados especiais pelo fato de vivenciar experiências singulares decorrentes de modifica-ções fisiológicas e psicossociais. A equipe de saú-de saú-deve, então, acolher a gestante e saú-desenvolver cuidados com o objetivo de prevenir riscos e pro-mover uma gravidez saudável. A garantia do cui-dado integral está fundamentada nas políticas

de saúde da mulher (PHPN1 e PNAISM2) e

im-plementadas nas redes assistenciais de saúde. Na atenção pré-natal, o serviço de saúde deve forne-cer as bases do cuidado, mediante o atendimen-to articulado, humanizado e com resolubilidade

das ações3.

Nesta perspectiva, o cuidado na atenção pré-natal deve incluir a qualidade da assistência; a atenção centrada na usuária e não na doença e o estabelecimento de uma relação dialógica entre

os profissionais e as gestantes3. Sabe-se que o

cuidado humanizado no pré-natal é o primeiro passo para um nascimento saudável, diminui-ção da morbimortalidade materna e fetal, aqui-sição de autonomia e vivência segura no ciclo

gravídico4.

A maioria dos serviços de pré-natais do Brasil mostra alta cobertura, porém, poucos são

classi-ficados como adequados5. O cuidado na saúde

da gestante encontra-se pautado nas queixas físi-cas e caracterizado pela fragmentação de suas ações, sendo insuficiente para promover a saúde

da gestante6. Como resultado, a qualidade

assis-tencial torna-se comprometida, possibilitando riscos de intercorrências no ciclo gravídico-puer-peral.

Deve-se frisar que é necessário fundamentar as ações do cuidado à gestante na cultura do di-álogo, pois a relação dialógica promove práticas mais humanas entre profissionais e usuárias e,

consequentemente, resolutivas7. O cuidado deve

ser um processo de trabalho em saúde, em que o vínculo entre os sujeitos e trabalhadores da saú-de saú-deve ocorrer saú-de forma singular e afetiva, o que

possibilita o acolhimento8.

Para que as ações em saúde da gestante con-tribuam no processo do cuidado, é importante que haja viabilização do acesso e inserção da mulher nas ações desenvolvidas no serviço de atenção básica. Com efeito, o cuidado no pré-natal é um continuum no qual são desenvolvi-das ações de saúde e, neste processo, é necessária uma visualização dos caminhos percorridos pela gestante no serviço de saúde. Essas trilhas inspi-ram a apresentar o processo do cuidar no

for-mato da cartografia, pois esta revela muitos

ar-ranjos e sentidos para as práticas do cuidar9,10.

O método cartográfico propicia adentrar no complexo mundo da produção do cuidado em saúde, captando os ruídos dialógicos, a produ-ção de afetos e as tecnologias de atenprodu-ção à

ges-tante10. Por conseguinte, a cartografia nos revela

os processos de produção de subjetividades e dis-positivos coletivos do cuidado.

Revendo as bases de dados Medline e Lilacs, notou-se a inexistência de artigos quando usa-dos os descritores “gestante e cartografia do cui-dado”. Haja vista a lacuna de pesquisas e a rele-vância do tema, este trabalho visa a cartografar o cuidado à gestante no serviço de saúde da aten-ção básica em uma região do Nordeste do Brasil. Buscou-se identificar as relações estabelecidas entre equipe de saúde e usuárias, os nós críticos e os ruídos dialógicos apresentados no processo do pré-natal.

Metodologia

Optou-se pela pesquisa qualitativa, a qual per-mite a interpretação das particularidades dos comportamentos e das atitudes dos agentes

so-ciais11. A cartografia foi o método utilizado para

mapear a trajetória da atenção à gestante, sendo um mapa relato, que opera na produção da rea-lidade social e contribui para definir a modela-gem dos serviços de saúde e o modo como se

produz o cuidado10.

Para descrever a trajetória da gestante na bus-ca e inserção no serviço de saúde e desenhar to-das as etapas deste percurso, empregou-se o

flu-xograma descritor12. Este consiste em uma

re-presentação gráfica dos caminhos percorridos pela usuária, quando procura assistência pré-natal. O fluxograma possibilita uma visão nítida sobre os fluxos em curso no momento da pro-dução da assistência à saúde e permite a detecção de seus problemas.

Neste sentido, é fundamental que a elabora-ção do fluxograma seja coletiva; que haja uma acumulação de consciência da situação do servi-ço e apropriação dos processos vividos pelas usu-árias. A elaboração coletiva, além de apresentar um produto rico de informações, permeado por múltiplos saberes, tem o efeito de formar uma

opinião das usuárias em torno da realidade13.

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mentos de decisão para a continuidade da assis-tência; e o retângulo, significativo do momento

de intervenção12.

O campo de estudo foram nove Unidades Básicas de Saúde (UBS) inseridas na zona urbana do Município de Juazeiro do Norte – Ceará, nos quais residia o maior número de gestantes. A es-colha desta região do Nordeste brasileiro se justi-fica pelo fato de a Razão de Mortalidade Materna no Ceará (83 óbitos por 100.000) ser superior à

realidade brasileira (76,1 óbitos por 100.000)14.

A coleta de dados deu-se com suporte na for-mulação coletiva do fluxograma descritor, com a participação de 15 mulheres que estavam entre 37 e 39 semanas de gestação. Esse critério de sele-ção pautou-se no fato de a gestante estar no ter-ceiro trimestre, com no mínimo de seis consultas de pré-natal realizadas. Assim, as gestantes su-postamente teriam condições de descrever sub-jetivamente a trajetória vivenciada no serviço de saúde no seu ciclo gravídico.

A pesquisa de campo baseou-se em entrevis-ta semiestruturada, a partir de um roteiro con-tendo dados sociodemográficos e obstétricos, bem como questões norteadoras sobre o acom-panhamento às gestantes durante sua gravidez, orientações e cuidados realizados pela equipe de saúde.

As entrevistas ocorreram nos meses de janei-ro a junho de 2010, no momento em que a ges-tante estava na sala de recepção da UBS. O tem-po das entrevistas variou de 20 a 40 minutos, o que foi suficiente para que elas relatassem sua trajetória na atenção pré-natal.

Os achados da cartografia foram agrupados em etapas no fluxograma descritor: a entrada da gestante na Unidade Básica de Saúde; as consul-tas com médico e enfermeiro; e exames e encami-nhamentos a outros profissionais e outros ser-viços de saúde. O estudo foi submetido à análise do Comitê de Ética da Universidade de Fortaleza e aprovado.

Resultados e Discussão

As 15 gestantes encontravam-se na faixa etária de 13 a 37 anos, 11 viviam com seus companhei-ros, três eram solteiras e uma separada. A renda familiar predominou entre um e dois salários mínimos, sendo que uma gestante não referiu renda, relatando ser dependente de ajuda de fa-miliares. Quanto à profissão, oito trabalhavam em serviços variados, que não exigiam grau ele-vado de escolaridade, e sete eram donas de casa.

As gestantes deslocavam-se para a UBS utili-zando ônibus, moto ou bicicleta, sendo que a maioria residia nas proximidades e caminhavam até o local. Este fato mostra que os domicílios das participantes, em sua maioria, estão inseri-dos no território da área adstrita das ESF. A pro-ximidade foi o principal motivo para a escolha

do serviço de saúde15.

Com relação ao histórico de saúde e obstétri-co das gestantes, sete eram primíparas e, destas, uma com gestação de alto risco por ter apenas 13

anos de idade16. O número elevado de primíparas

no estudo reforça a necessidade de uma atenção pré-natal pautada na integralidade, visto que nesta fase elas necessitam de orientação, acompanha-mento e cuidado humanizado.

Quanto aos hábitos considerados não sau-dáveis ao binômio mãe-filho, quatro eram fu-mantes, sendo que uma delas informou haver parado de fumar na gestação atual. Vale ressal-tar que o tabagismo durante a gestação aumenta em 70% o risco de a mulher ter abortamento

espontâneo e 40% de parto pré-termo17. A

ges-tante com a menor idade (13 anos) referiu inge-rir bebidas alcoólicas no período gestacional.

As consultas de pré-natal variaram entre seis e 13, o que é considerado satisfatório pelo

Minis-tério da Saúde16, que recomenda no mínimo seis

consultas5.

Descrição do Fluxograma

A cartografia acompanhou a trajetória das mulheres no serviço de saúde, desde o início do pré-natal; acolhimento, consultas com médico e enfermeiro, exames de rotina, atividades educati-vas e encaminhamento para serviços de especiali-dades. O fluxograma da Figura 1 revelou as ofer-tas e o fluxo do cuidado recebido na atenção bá-sica, acompanhando o processo gestacional e não

visou à finalização do processo (o parto)9.

As elipses representam a porta de entrada para realização do pré-natal na atenção básica, sendo definidas por três caminhos: seis gestantes en-traram por demanda espontânea, três por refe-rência do ACS e seis eram procedentes da rede privada.

A entrada na atenção básica dá início ao aco-lhimento e universaliza o acesso a todos os que necessitem. O acolhimento é fundamental para o bom funcionamento da rede de serviço de saú-de. É o momento em que a equipe deve oferecer

uma escuta qualificada à gestante18,

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Figura 1. Fluxograma Descritor das Ações de Saúde Ofertadas às Gestantes

Fonte: Adaptação do Modelo de Fluxograma de Franco e Merhy (2004).

UBS - Unidade Básica de Saúde, VD - Visita Domiciliar, ACS - Agente Comunitário de Saúde, USO – Ultrassonografia, S – Sim, N – Não.

VD ACS

Consulta de enfermagem Iniciou pré-natal

Consulta médica Iniciou pré-natal

Encaminhamento Exames e USO

Consulta Enfermagem (UBS)

Consulta Médica (UBS)

Consulta Médica (Centro de Especialidades) Consulta Médica e

de Enfermagem (UBS) Recepção na UBS Entrada por

demanda espontânea

Entrada por referência

do ACS

Rede privada (laboratório, consulta, farmácia)

Centro Especialidades Realizou

Exames e USO

Realizou Citologia oncótica

Realizou Citologia oncótica

Gestação de alto risco

Atividades educativas

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pelo serviço, nos seus variados módulos de aten-ção, oportunidade em que a relação deve se esta-belecer sob um firme vínculo e com diálogo entre

a equipe de saúde e a mulher1,16.

A maioria das mulheres (dez) expressou sa-tisfação no que concerne ao acolhimento e à aten-ção recebidas dos profissionais, enfatizando a importância do vínculo entre o profissional da UBS e a usuária.

Prefiro pegar ônibus e vim prá cá, o atendi-mento aqui é muito bom. Por causa dos meus pro-blemas, a médica disse que minha gravidez era de risco, me mandou ir pro centro de especialidades, mesmo gostando do atendimento de lá continuo vindo pra médica daqui, porque ela é muito atenci-osa comigo. A enfermeira também é bem boazinha! Algumas mulheres (quatro), entretanto, pre-feririam realizar o pré-natal pela rede privada, mas optaram pelo serviço de atenção básica por falta de recursos financeiros:

No meu primeiro parto sofri muito, não fui bem atendida no hospital do SUS. Quando minha menstruação atrasou fiz o teste no laboratório par-ticular e comecei o pré-natal parpar-ticular, fiz duas consultas. Mas pesou no orçamento lá de casa, en-tão fiz aqui no posto mesmo.

Identificou-se também o fato de que uma gestante realizava pré-natal com o médico da ESF e, paralelamente, com o médico da rede privada: Hoje faço o pré-natal aqui no posto e pago con-sulta particular, porque meu marido trabalha via-jando e eu tive um problema de tireóide, tenho medo que aconteça qualquer coisa e aí não teria a quem recorrer. Acho bom ser acompanhada pelo médico daqui do posto e um particular.

Estes relatos mostraram preferência pela rede privada, o que ocorre em razão da crença de o atendimento da rede privada ser melhor do que o do sistema público de saúde. O SUS, na visão do usuário é considerado um serviço de saúde desorganizado, pautado em baixa qualidade, de-mandando longo tempo de espera e sem garan-tias de atendimento. Contrariamente, a rede pri-vada é vista como um provedor de melhor

qua-lidade, com atendimento pronto e confiável19.

Ante tal realidade, a Equipe de Saúde da Fa-mília deve explicar os objetivos e as vantagens da atenção básica. Precisa repassar confiança aos usuários, criar credibilidade nas ações desenvol-vidas e promover a saúde da população,

pauta-da no cuipauta-dado humanizado20.

O relato das mulheres revela elementos da re-lação destas com a equipe de saúde durante as con-sultas de pré-natal. Estas consistem na realização dos procedimentos técnicos, no levantamento das

queixas, solicitação de exames de rotina do pré-natal e orientações gerais sobre saúde e gravidez.

A maioria das mulheres (11) informou que médicos e enfermeiros atuavam em complemen-tação das informações, apontando para uma razoável articulação entre a equipe.

Nas consultas, o médico diz que minha pressão está alta e tenho que fazer caminhada e comer mais frutas e verduras, sempre me dá muito conselho, me escuta, me explica as coisas, diz que eu tenho que gostar da criança, que eu não posso mais ta tomando remédio pra abortar. Já o enfermeiro, diz o que posso comer pra evitar anemia, tomar sulfa-to ferroso, não posso fazer relação sexual quando eu sentir dor no pé da barriga, não posso pegar em peso e nem fazer muito esforço. Ele examina e es-cuta o coração do bebê, mede o tamanho de minha barriga. Dou maior valor!

A consulta de pré-natal é o momento que enseja ao profissional de saúde elaborar o plano de ações específicas para cada mulher, de acordo com as necessidades físicas e psicossociais. A ade-são e a satisfação das mulheres ao pré-natal es-tão relacionadas à qualidade da assistência pres-tada pelos serviços e profissionais de saúde. Es-tes devem esclarecer sobre os cuidados de todo o

ciclo gravídico-puerperal16, utilizando uma

lin-guagem popular que promova o diálogo, a hu-manização da relação e a colaboração da usuária

para seguir as orientações7.

A efetivação dos exames laboratoriais tam-bém faz parte do cuidado na atenção básica. Constatou-se que todas as gestantes realizaram os exames de urina, séricos e de ultrassonografia

obstétrica, recomendados para o pré-natal16. Os

exames são fundamentais para detectar precoce-mente alguma complicação que as gestantes

pos-sam vir a apresentar durante o ciclo gravídico6.

O exame de citologia oncótica, entretanto, foi realizado somente por cinco gestantes, sendo que as demais (dez) optaram por não fazê-lo.

Não fiz prevenção porque não tinha corrimen-to. Minha última prevenção foi em 2008. Mas de-pois senti dor no pé da barriga, o enfermeiro pediu para eu fazer a prevenção, mas não quis fazer.

Estes casos conduzem a que se questione so-bre os motivos da não realização deste exame. Presume-se que o uso do instrumental médico-hospitalar, a posição e o toque ginecológico, na maioria das vezes, por profissionais do sexo masculino, são os principais fatores geradores

de dificuldades para a efetivação do exame21.

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ticularidades, orientando-a, de modo que ela sai-ba encontrar o próprio caminho. A orientação do profissional implica também a permissão e não apenas a prescrição de regulamentos ou re-ceitas. O diálogo é parte do tratamento e busca abolir a distância, promovendo a confiança e a

adesão destas nas orientações dos profissionais7.

Ressalta-se neste estudo que a minoria (cin-co) das gestantes que realizaram o exame de cito-logia oncótica o fizeram em virtude das infor-mações repassadas pelos profissionais de saúde: A enfermeira disse que era bom eu fazer a pre-venção porque tava com inflamação, ai eu fiz com ela mesma.

A realização do exame colpocitológico é uma das ações preconizadas pela assistência pré-natal para o diagnóstico de infecções mais prevalentes

do trato ginecológico1. Os profissionais de saúde

deveriam compreender a subjetividade que per-passa a não realização do exame e buscar formas de comunicação que estimulem e convençam a

usuária da importância desse procedimento6.

Nesta perspectiva, os profissionais de saúde devem inspirar-se na retórica do convencimen-to, na qual a verdadeira arte de curar, segundo Gadamer, deve primeiramente conhecer e consi-derar o ser humano na sua totalidade. Com este fim, há que buscar entender a essência multifor-me da alma em que se quer implantar as convic-ções e a variedade dos discursos que se adaptam a cada estado da alma. A medicina é, então, com-parada com a verdadeira retórica, que deve fazer atuar sobre a alma os discursos certos na forma

certa7. Isto envolve uma orientação

contextuali-zada na realidade da gestante, que considere suas opiniões, levando-a a compreender a importân-cia das considerações dos profissionais, livre de coerção ou prescrições previamente decididas, considerando a importância de sua participação no processo do pré-natal.

Quanto à visita do ACS, a minoria (quatro) das participantes se lembrou da atuação desse profissional e uma se queixou de não receber o acompanhamento periódico.

Só tenho queixa de uma coisa... é que minha agente de saúde não vai lá todo mês pra saber como eu estou. Ela só aparece mês sim e mês não.

Apesar desse depoimento, o estudo encontrou três gestantes que apresentaram confiança no ACS. Para uma delas a atuação desta profissional foi imprescindível para a realização do pré-natal.

Só comecei o pré-natal depois que eu já tava com uns quatro meses, como a minha mãe não podia saber, falei com minha agente de saúde e contei pra ela, mas pedi segredo. Pedi pra que ela

ficasse com meu cartão (da gestante) porque tinha medo que minha mãe mexesse nas minhas coisas e descobrisse tudo.

Neste caso, o ACS foi o elo de comunicação entre a usuária e a equipe de Saúde da Família, encaminhando e viabilizando os cuidados e a

aten-ção necessários22. As visitas domiciliares dos ACS

devem refletir em melhor adesão da mulher ao serviço de saúde, maior facilidade do acolhimen-to e estabelecimenacolhimen-to do vínculo com a equipe de

saúde6.

Com relação às atividades educativas, somen-te uma gestansomen-te relatou haver participado:

Gostei das palestras que assisti aqui no posto sobre amamentação que uns estudantes estavam fazendo. Achei legal. Aprendi muita coisa.

A atenção pré-natal deve ultrapassar os ruí-dos, os bloqueios de comunicação e a desconti-nuidade do processo comunicativo, pautando suas ações no cuidado humanizado. O estudo revela, entretanto, que há uma fragmentação na linha de cuidado, pois as gestantes não estão par-ticipando de grupos de orientação para uma gra-videz e um parto saudáveis.

Outros estudos20,23 demonstraram que os

principais entraves para a não realização das ori-entações durante o pré-natal decorrem da falta de estrutura do serviço de saúde e da rapidez nas consultas de pré-natal. Este ensaio, entretanto, aponta o vínculo e o diálogo entre a equipe de saúde e a usuária como os principais elementos

geradores de confiabilidade7, adesão e satisfação

destas em relação os profissionais, suas orienta-ções e o serviço de pré-natal.

Considerações Finais

A cartografia neste estudo possibilitou a análise do acompanhamento do pré-natal e a produção do cuidado às gestantes, com base no mapea-mento das ações ofertadas pelos serviços de saú-de do Município saú-de Juazeiro do Norte-CE.

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Colaboradores

RM Silva, MS Costa, GS Sousa e RY Matsue tra-balharam na concepção do projeto, coleta de dados, interpretação dos dados e redação do ar-tigo. AMF Catrib e LJE Vieira participaram na revisão crítica e redação final do texto.

Observou-se, entretanto, certa resolubilida-de na assistência à gestante, pois uma granresolubilida-de parcela das mulheres demonstrou satisfação com as consultas realizadas pelos médicos e enfermei-ros. Na opinião destas, o tratamento, o cuidado humanizado e a proximidade da moradia da USB foram os principais motivos que as levaram à adesão ao pré-natal. Este fato reforça a impor-tância do vínculo e do diálogo com os profissio-nais como elementos essenciais para esta adesão e para a satisfação com o pré-natal.

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Apresentado em 05/09/2011 Aprovado em 16/10/2011

Versão final apresentada em 06/11/2011 14.

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Figura 1. Fluxograma Descritor das Ações de Saúde Ofertadas às Gestantes Fonte: Adaptação do Modelo de Fluxograma de Franco e Merhy (2004).

Referências

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