• Nenhum resultado encontrado

Mudanças nos programas funcionais das residências da elite paulistana do século xviii ao século XX

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Mudanças nos programas funcionais das residências da elite paulistana do século xviii ao século XX"

Copied!
185
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

ROGÉRIO NOVAKOSKI FERREIRA ALVES

MUDANÇAS NOS PROGRAMAS FUNCIONAIS DAS RESIDÊNCIAS DA ELITE PAULISTANA DO SÉCULO XVIII AO SÉCULO XX

(2)

ROGÉRIO NOVAKOSKI FERREIRA ALVES

MUDANÇAS NOS PROGRAMAS FUNCIONAIS DAS RESIDÊNCIAS DA ELITE PAULISTANA DO SÉCULO XVIII AO SÉCULO XX

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientador: Prof. Dr. Roberto Righi

(3)

A474m Alves, Rogério Novakoski Ferreira.

Mudanças nos Programas Funcionais das Residências da Elite Paulistana do Século XVIII ao Século XX / Rogério Novakoski Ferreira Alves - 2015.

209 f. : il. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidaded Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2015.

Bibliografia: f. 177 – 183.

(4)
(5)

Meus sinceros agradecimentos ao professor Roberto Righi por sua dedicada e atenciosa orientação.

Agradeço à minha esposa e aos meus pais pelo amor, apoio e incentivo para a realização deste trabalho.

(6)

RESUMO

No período colonial, a elite da sociedade vivia no cinturão rural e dirigia-se eventualmente à cidade de São Paulo para participar da vida social. No século XVIII, as famílias mais ricas passaram a construir seus sobrados ao lado dos casebres dos mamelucos, residências sempre construídas em taipa de pilão, mas com partidos arquitetônicos e programas funcionais diferenciados. Na segunda metade do século XIX, com a economia do café e a implantação das ferrovias na cidade e na região, São Paulo desenvolveu-se de maneira rápida, com grandes transformações urbanas, sociais e na arquitetura. A elite passou a ser cada vez mais urbana e mais influenciada pela cultura europeia. A burguesia cafeeira e seus casarões de alvenaria do final do século XIX e início do XX eram residências baseadas em uma nova decoração e no programa funcional europeu, base do ecletismo. Também sucederam as mansões neocoloniais, em busca de uma identidade nacional. No segundo quartel do século XX, as casas modernistas foram construídas com uma arquitetura internacional, voltada às inovações tecnológicas. Esse processo trouxe importantes transformações na forma e no programa das residências. Em suma, este trabalho analisa as mudanças nos programas funcionais e modelos arquitetônicos residenciais da elite paulistana, desde o período colonial até os projetos de mansões modernistas anteriores à exposição “Brazil Builds”, no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), em 1943.

(7)

ABSTRACT

During the colonial period, the high society citizens of São Paulo used to live in the rural area and eventually went to the city to participate of the social life. In the XVIIII century, the wealthiest families started to construct their two or three

store-houses beside the mamelukes’ huts, but these residences though made in rammed

earth (taipa de pilão), had differentiated functional programs and architectural patterns. In the second half of the XIX century, with the profitable coffee culture and the implantation of railways in the city and its surroundings, São Paulo developed quickly with big urban, social and architectural changes. The high society became more urban and was more influenced by the European culture. The coffee bourgeoisie and their masonry mansions of the end of the nineteenth and the beginning of the twentieth centuries were based in the Eclectic movement with new interior designs and European functional programs. In the second quarter of the XX century, the more modern houses were built based on international architectural pattern, with technological advances. This process brought important transformations in the style and in the program of the residences. In conclusion, this work analyses the changes in the functional programs and architectural patterns of the houses of the high society in São Paulo since the colonial period till projects of modernist mansions prior to the “Brazil Builds” exhibition in MoMA

(Museum of Modern Art in New York), in 1943.

(8)

LISTA DE FIGURAS

Figura 01:

RODRIGUES, José Wasth. Documentário Arquitetônico. 5ª Ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1990, p.11.

Figura 02:

REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 29.

Figura 03:

REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 29.

Figura 04:

Gravura “Uma Sala de Estar em São Paulo” do pintor Thomas Ender de 1817.

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Thomas_Ender_-_Sala_de_Estar_em_S%C3%A3o_Paulo.jpg – copiada em 27-04-2014.

Figura 05:

Fotografia do autor, 2013.

Figura 06:

Fotografia do autor, 2013.

Figura 07:

Fotografia do autor, 2013.

Figura 08:

Fotografia de Caio Prado Jr.

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 74.

Figura 09:

Desenho do cartunista Belmonte.

AMARAL, Edmundo. Rótulas e Manilhas Evoluções do Passado Paulista. São Paulo: Editora Civilização Brasileira, 1932.

http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0354b.htm - copiada em 27-09-2014.

Figura 10:

Fotografia de Guilherme Gaensly, 1902.

(9)

Figura 11:

Desenho elaborado no escritório de Ramos de Azevedo, no início do século XX. LEMOS, Carlos. Alvenaria Burguesa: breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. São Paulo: Nobel, 1989, p. 98.

Figura 12:

Desenho elaborado no escritório de Ramos de Azevedo, no início do século XX. LEMOS, Carlos. Alvenaria Burguesa: breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. São Paulo: Nobel, 1989, p. 98.

Figura 13:

LEMOS, Carlos. A República Ensina a Morar (melhor). São Paulo: Hucitec, 1999a, p. 63.

Figura 14:

LEMOS, Carlos. A República Ensina a Morar (melhor). São Paulo: Hucitec, 1999a, p. 62.

Figura 15:

Desenho assinado por Luís Pucci e Giulio Micheli, 1892.

Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís” DPH/SMC/PMSP – São Paulo HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 120.

Figura 16:

Fotografia de Guilherme Gaensly, 1904.

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 120.

Figura 17:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 118.

Figura 18:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 118.

Figura 19:

(10)

Figura 20:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 118.

Figura 21:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 126.

Figura 22:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 127.

Figura 23:

Fotografia de Otto Rudolf Quaas, 1900. Acervo do Instituto Moreira Salles.

http://www.pinterest.com/pin/327214729148371189/ - copiada em 25-09-2014.

Figura 24:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 152.

Figura 25:

SCHPUN, Mônica Raisa. Regionalistas e Cosmopolitas : As amigas Olivia Guedes Penteado e Carlota Pereira de Queiroz. In Artelogie, n.2, 2011.

http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article81 – copiada em 03-10-2014.

Figura 26:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 154.

Figura 27:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 154.

Figura 28:

(11)

Figura 29: Sem autor

http://cafehistoria.ning.com/photo/residencia-de-horacio-sabino?context=latest –

copiada em 03-10-2014.

Figura 30:

Desenho do Arquivo Histórico de São Paulo – A cidade e seus documentos São Paulo, 1903.

http://www.arquiamigos.org.br/expo/2011ahsp/1889-1930-primeira-republica/1903-projeto-resid-horacio-sabino.html. – copiada em 03-10-2014.

Figura 31:

Desenho do Arquivo Histórico de São Paulo – A cidade e seus documentos São Paulo, 1903.

http://www.arquiamigos.org.br/expo/2011ahsp/1889-1930-primeira-republica/1903-projeto-resid-horacio-sabino.html. copiada em 03-10-2014.

Figura 32:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 200.

Figura 33:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 200.

Figura 34:

Fotografia do Arquivo de Sylvia Laraya Kawall.

Jornal “O Estado de S.Paulo”, São Paulo.

http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-horacio-sabino – copiada em 03-10-2014.

Figura 35: Sem autor

Estadão, São Paulo.

http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-horacio-sabino – copiada em 03-10-2014.

Figura 36: Sem autor

(12)

Figura 37:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 190.

Figura 38:

Fotografia do autor, 2014.

Figura 39:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 190.

Figura 40:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 191.

Figura 41:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 194.

Figura 42:

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Palacete Paulistano e outras formas urbanas de morar da elite cafeeira. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 194.

Figura 43:

Fotografia do autor, 2014.

Figura 44:

Fotografia do autor, 2014.

Figura 45:

Fotografia do autor, 2014.

Figura 46:

SEGAWA, Hugo. Prelúdio da Metrópole Arquitetura e Urbanismo em São Paulo na passagem do século XIX ao XX. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 115.

Figura 47:

Revista “Cigarra” – capa, edição 3, 1914.

(13)

Figura 48:

FARIAS, Claudio Lamas de, AYROSA, Eduardo, CARVALHO, Gabriela, ABRAMOVITZ, José, FRAIHA, Silvia. Eletrodomésticos Origens, História & Design no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fraiha, 2006, p. 61.

Figura 49:

Revista “Cigarra” - propaganda

http://martaiansen.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html - copiada em 04-04-2015.

Figura 50:

MINDLIN, Henrique. Organização Racional da Cozinha. In: Acrópole, n.2. São Paulo: 1938, p. 21.

Figura 51:

MINDLIN, Henrique. Organização Racional da Cozinha. In: Acrópole, n.2. São Paulo: 1938, p. 22.

Figura 52:

Revista “Acrópole”, n.6. São Paulo: 1938, p.16.

Figura 53:

Revista “Acrópole”, n.6. São Paulo: 1938, p.17.

Figura 54:

Revista “Acrópole”, n.6. São Paulo: 1938, p.17.

Figura 55:

Revista “Acrópole”, n.34. São Paulo: 1941, p.355.

Figura 56:

Revista “Acrópole”, n.34. São Paulo: 1941, p.356.

Figura 57:

Revista “Acrópole”, n.34. São Paulo: 1941, p.357.

Figura 58:

Revista “Acrópole”, n.34. São Paulo: 1941, p.357.

Figura 59:

Revista “Acrópole”, n.46. São Paulo: 1942, p.388.

Figura 60:

Revista “Acrópole”, n.46. São Paulo: 1942, p.388.

Figura 61:

(14)

Figura 62:

Revista “Acrópole”, n.46. São Paulo: 1942, p.390.

Figura 63:

Revista “Acrópole”, n.66. São Paulo: 1943, p.159.

Figura 64:

Revista “Acrópole”, n.66. São Paulo: 1943, p.160.

Figura 65:

Revista “Acrópole”, n.66. São Paulo: 1943, p.160.

Figura 66:

Desenhos de Le Corbusier

https://histarq.wordpress.com/2012/11/24/le-corbusier-1a-parte-1919-1932/ - copiada em 16-04-2015.

Figura 67:

Revista “Acrópole”, n.1. São Paulo: 1938, p.22.

Figura 68:

Revista “Acrópole”, n.1. São Paulo: 1938, p.26.

Figura 69:

Revista “Acrópole”, n.1. São Paulo: 1938, p.22.

Figura 70:

Revista “Acrópole”, n.1. São Paulo: 1938, p.24.

Figura 71:

Revista “Acrópole”, n.10. São Paulo: 1939, p.25.

Figura 72:

Revista “Acrópole”, n.10. São Paulo: 1939, p.41.

Figura 73:

Revista “Acrópole”, n.10. São Paulo: 1939, p.40.

Figura 74:

Revista “Acrópole”, n.10. São Paulo: 1939, p.44.

Figura 75:

Revista “Acrópole”, n.10. São Paulo: 1939, p.44.

Figura 76:

(15)

Figura 77:

Revista “Acrópole”, n.16. São Paulo: 1939, p.30.

Figura 78:

Revista “Acrópole”, n.16. São Paulo: 1939, p.30.

Figura 79:

Revista “Acrópole”, n.16. São Paulo: 1939, p.27.

Figura 80:

Revista “Acrópole”, n.16. São Paulo: 1939, p.26.

Figura 81:

PETROSINO, Maurício Miguel. João Batista Vilanova Artigas residências unifamiliares: a produção arquitetônica de 1937 a 1981. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Universidade de São Paulo. São Paulo: 2009, p.243.

Figura 82:

PETROSINO, Maurício Miguel. João Batista Vilanova Artigas residências unifamiliares: a produção arquitetônica de 1937 a 1981. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo. São Paulo: 2009, p.242.

Figura 83:

Jornal Folha de S.Paulo

http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/23225-gregori-warchavchik - copiada em 20-05-2015.

Figura 84:

LIRA, José. Ruptura e Construção: Gregori Warchavchik, 1917-1927. SciELO - Scientific Electronic Library Online. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 2007.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000200013.

Figura 85:

LIRA, José. Ruptura e Construção: Gregori Warchavchik, 1917-1927. SciELO - Scientific Electronic Library Online. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 2007.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000200013.

Figura 86:

LIRA, José. Ruptura e Construção: Gregori Warchavchik, 1917-1927. SciELO - Scientific Electronic Library Online. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 2007.

(16)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 17

1 AS CASAS COLONIAIS ... 21

1.1 A OCUPAÇÃO TERRITORIAL DO PLANALTO DE PIRATININGA ... 21

1.2 A URBANIZAÇÃO COM CASEBRES E SOBRADOS ... 24

1.3 A CASA BANDEIRISTA ... 27

1.4 A CASA RURAL E A MIGRAÇÃO MINEIRA ... 28

1.5 O PROGRAMA DO SOBRADO COLONIAL ... 31

1.6 A ARQUITETURA DA CASA E A RUA ... 41

1.7 ORGANOGRAMA PADRÃO DO SOBRADO COLONIAL ... 47

2 AS CASAS ECLÉTICAS... 48

2.1 AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS, ECONÔMICAS E CULTURAIS ... 48

2.2 AS TRANSFORMAÇÕES URBANAS ... 50

2.3 O USO DO TIJOLO ... 55

2.4 AS ARQUITETURAS NEOCLÁSSICA E ECLÉTICA ... 56

2.5 A HIGIENE E O ESPAÇO HABITACIONAL ... 62

2.6 O PROGRAMA DA CASA TÉRREA ... 65

2.7 O PROGRAMA DO PALACETE ... 70

2.8 ORGANOGRAMA PADRÃO DA CASA TÉRREA ... 78

2.9 ORGANOGRAMA PADRÃO DO PALACETE ... 79

2.10 CASOS DE RESIDÊNCIAS ECLÉTICAS ... 80

2.10.1 Residência da senhora Marguerita Marchesini ... 80

(17)

2.10.3 Palacete do Conselheiro Antônio da Silva Prado ... 84

2.10.4 Palacete de Inácio e Olívia Penteado ... 89

2.10.5 Palacete de Horácio Sabino ... 93

2.10.6 Palacete de Antônio Álvares Penteado ... 98

3 AS CASAS NEOCOLONIAIS ... 106

3.1 O CAFÉ, A INDÚSTRIA E A CIDADE MODERNA ... 106

3.2 A NOVA FISIONOMIA DA METRÓPOLE PAULISTA ... 107

3.3 A ARQUITETURA NEOCOLONIAL EM SÃO PAULO ... 110

3.4 A RACIONALIZAÇÃO DA ARQUITETURA ... 112

3.5 O AMERICAN WAY OF LIFE ... 114

3.6 O PROGRAMA DA CASA NEOCOLONIAL ... 118

3.7 ORGANOGRAMA PADRÃO DA CASA NEOCOLONIAL ... 127

3.8 CASOS DE RESIDÊNCIAS NEOCOLONIAIS RACIONALIZADAS ... 128

3.8.1 Residência do senhor Ismael Brandão ... 128

3.8.2 Residência do senhor Sylvio Suplicy ... 131

3.8.3 Residência do senhor Caio Pinheiro ... 134

3.8.4. Residência do senhor Jacob Klabin Lafer ... 137

4 AS CASAS MODERNISTAS ... 141

4.1 A ARQUITETURA MODERNISTA EM SÃO PAULO ... 141

4.2 O PROGRAMA DA CASA MODERNISTA ... 149

4.3 ORGANOGRAMA PADRÃO DA CASA MODERNISTA ... 151

4.4 CASOS DE RESIDÊNCIAS MODERNISTAS ... 152

4.4.1 Residência do senhor G. Haberkamp... 152

(18)

4.4.3 Residência do senhor Jayme de Albuquerque Cavalcanti ... 159

4.4.4 Residência do senhor Nicolau Scarpa Jr. ... 162

4.5 A CASA DE WARCHAVCHIK DA RUA SANTA CRUZ ... 165

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 171

(19)

INTRODUÇÃO

A configuração arquitetônica da moradia revela os aspectos da vida privada do morador, suas necessidades, detalhes da organização familiar, sua relação com a cidade onde mora, seu contato com culturas nacionais e estrangeiras e o uso de sua casa como forma de expressão social. A casa é a arquitetura mais íntima do homem, o seu abrigo e a construção cultural de uma determinada sociedade, manifestada na organização de seus ambientes, na disposição do mobiliário e através de fragmentos da cultura material, exigidos conforme o seu programa de necessidades.

Esta pesquisa tem como objetivo o estudo do programa funcional da casa da elite social paulistana na cidade de São Paulo, desde os sobrados do século XVIII, até as mansões modernistas da primeira metade do século XX. Ela está vinculada diretamente à história dinâmica da cidade, às transformações socioeconômicas, urbanísticas e tecnológicas de São Paulo e às influências culturais de seus imigrantes. É um trabalho com foco no estudo do programa funcional do espaço arquitetônico dos sobrados, palacetes e mansões da elite paulistana, porém revelando, ainda, muitos outros aspectos da história de São Paulo. Já existem algumas pesquisas que mostram a ligação da arquitetura com a sua história urbanística, social, econômica e cultural, mas sempre valorizando muito mais o aspecto plástico da arquitetura. Este trabalho busca o enfoque no programa funcional arquitetônico, em seus aspectos espaciais, sociais e antropológicos, sem deixar de citar, também, as técnicas construtivas e os partidos arquitetônicos, como fatores contribuintes e determinantes na caracterização desses programas.

(20)

que permitisse a observação e a comparação das diversas alterações no interior das casas e no modo de vida de seus moradores.

A escolha da “elite paulistana” justifica-se pelo interesse em pesquisar o programa das casas construídas através da arquitetura erudita em São Paulo, sem abrir espaço para um estudo mais profundo da arquitetura e dos programas de casebres, mucambos, casas de operários, cortiços, entre outros, apesar da devida importância da arquitetura popular na história da cidade.

Neste trabalho, o termo “elite” refere-se a um grupo situado em uma posição hierárquica superior, dentro de uma determinada organização social, com maior poder de decisão política, econômica e cultural, por isso mesmo capaz de formar, transformar e difundir opiniões que sirvam como referência a toda a sociedade1. Em São Paulo, a elite do século XVIII era formada pelos grandes comerciantes e pelos fazendeiros de açúcar, chamados de “senhores de engenho”; no século XIX, pelos “barões do café”; no século XX, pelos grandes

fazendeiros e pela burguesia industrial.

O trabalho tem início com a descrição do desenvolvimento da região do Planalto de Piratininga, a partir da chegada dos jesuítas, em 1554, para, assim, melhor explicar a formação da cidade, da sociedade, e as influências da arquitetura rural nas primeiras construções urbanas; e finaliza com a análise do programa funcional das casas modernistas, até o ano 1943, quando ocorre a exposição “Brazil Builds” no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), e a arquitetura modernista brasileira passa a seguir novos rumos, com um caráter mais progressista.

A metodologia da pesquisa é bibliográfica e documental, pautada em levantamentos e análises de trabalhos nas áreas da Arquitetura, do Urbanismo, da Sociologia e da Antropologia; fotografias, desenhos técnicos; visitas a residências de grande importância histórica; e montagens de organogramas para comparações de programas funcionais de diferentes épocas.

(21)

As pesquisas feitas na revista “Acrópole”, da edição n.1, de 1938, até a

edição n.152, de 1950, foram de grande importância para o trabalho, em especial, na elaboração dos capítulos 3 e 4.

O primeiro capítulo, “As Casas Coloniais”, descreve o contexto histórico do surgimento da cidade de São Paulo; o aparecimento das casas bandeiristas e as primeiras casas urbanas; a influência dos migrantes mineiros na arquitetura e nos costumes paulistanos; e a compreensão dos programas funcionais dos sobrados coloniais urbanos. Esses sobrados, pertencentes às famílias mais abastadas do século XVIII, surgem em uma fase de pobreza da cidade, e pouco se distinguiam dos casebres em qualidade, tanto no interior como no exterior da residência.

O segundo capítulo, “As Casas Ecléticas”, trata de grandes mudanças na arquitetura residencial da elite, ocorridas no final do século XIX, devido ao enriquecimento com o café; a implantação de ferrovias e o desenvolvimento da economia; o trabalho da mão de obra imigrante; o uso difundido do tijolo nas construções; as arquiteturas neoclássica e eclética; a importância da higiene e da salubridade na arquitetura residencial; as mudanças na legislação urbana; a compreensão dos programas funcionais das casas térreas e dos palacetes, com comparações ao programa colonial; e a apresentação de exemplos arquitetônicos relevantes desse período.

O terceiro capítulo, “As Casas Neocoloniais”, mostra um momento, no

século XX, em que o país buscava a sua identidade nacional e, por isso, evocava a arquitetura colonial em oposição às influências europeias do século XIX. Nesse mesmo momento, há o crescimento da indústria e a necessidade de racionalização da arquitetura. O capítulo trata, também, do surgimento da burguesia industrial; da popularização do art decó; das influências norte-americanas; do surgimento dos eletrodomésticos; da compreensão dos programas funcionais da casa neocolonial, com comparações aos programas anteriores; e da apresentação de importantes projetos arquitetônicos desse período.

O quarto capítulo, “As Casas Modernistas”, descreve um momento

(22)

uma nova arquitetura e um novo conceito espacial, criados por Le Corbusier, e defendidos pelos jovens arquitetos de São Paulo. Ainda que não aceitos pela burguesia tradicional da cidade, foram apoiados por alguns representantes vanguardistas da burguesia industrial e por uma elite intelectual. O capítulo termina com a compreensão dos programas funcionais da casa modernista, com comparações aos programas anteriores; a apresentação de exemplos arquitetônicos relevantes desse período; e uma análise do programa funcional da

“Casa de Warchavchik”, na rua Santa Cruz.

(23)

1. As casas coloniais

“Há em São Paulo algumas casas verdadeiramente ricas; mas, em geral, as fortunas não são

muito consideráveis.” - Auguste de Saint-Hilaire

1.1 A ocupação territorial do planalto de Piratininga

No ano de 1554, um grupo de jesuítas portugueses, comandado pelos padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, chegou ao planalto paulista, auxiliado por João Ramalho, com o objetivo de catequizar os índios que viviam na região localizada entre os rios Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí. Esses jesuítas contaram com a total aprovação do cacique Tibiriçá, líder de uma das aldeias próximas, dado o interesse dos índios em ter acesso às técnicas e ferramentas de trato da terra dos brancos, maior que pelo cristianismo.

Para efetivar o trabalho de catequese, índios e religiosos construíram um colégio, marco inicial da futura Vila de São Paulo, que se desenvolveu em uma colina rodeada de várzeas, como uma típica aldeia portuguesa (LEMOS, 1999b). A região agradava aos jesuítas não somente pela semelhança com o clima ibérico, mas por ser uma terra de muitos campos férteis e água fresca, pastos com variedade de alimentos para o gado, os cavalos e os porcos. Também havia árvores com muitas frutas, algumas conhecidas nos campos de Portugal, conforme relatos e descrições do Padre José de Anchieta em suas cartas à corte (BRUNO, 1991).

A ocupação das novas terras na região deu-se de forma bem dispersa, ou seja, através de diversos aldeamentos, o que se explica pela geografia da região, com relevo de muitos aclives, vales e riachos. Inicialmente, a organização urbana foi se desenvolvendo da mesma forma em toda a colônia, centrada administrativa e eclesiasticamente nas paróquias, cada uma dominada por uma igreja.

(24)

isolada do resto do país. Esse relativo isolamento da região, até o início do século XVIII, prejudicou o seu desenvolvimento econômico, que se mantinha por meio de lavouras de subsistência, através do trabalho forçado do índio, e também fez com que os paulistas desenvolvessem traços culturais muito próprios, encontrados até mesmo na peculiaridade da arquitetura da região.

No ano de 1681, o Marquês de Cascais, donatário da Capitania de São Vicente, transferiu sua capital para a Vila de São Paulo, que foi instalada, em 1683, com muita alegria da população, grandes comemorações e festejos públicos.

Porém, a pobreza dos moradores locais, que não podiam comprar escravos negros africanos, e a necessidade de mão de obra na região fizeram com que se iniciassem as atividades dos bandeirantes, que se dispersaram pelo interior do país em busca de índios para o trabalho da lavoura. Esses desbravadores abandonaram suas terras no planalto não só à procura de mão de obra, mas também de ouro e diamantes. Pelo caminho, esses moradores nômades do planalto foram deixando seus rastros e, próximos aos riachos, era comum encontrar casebres simples e provisórios de taipa de pilão ou adobe, cobertos de palha (BRUNO, 1991).

Apesar de todas as dificuldades, a vila cresceu e, em 1711, a Vila de São Paulo foi elevada à categoria de cidade. Entretanto, toda a região do planalto paulista seguia com sua base econômica na agricultura de subsistência e, pela raridade da moeda, era comum haver muitos negócios através de trocas de animais e alimentos da terra, como mandioca, açúcar, trigo, algodão, milho, laranja, limão, marmelo, jabuticaba, entre outros. Os inventários dos primeiros paulistas acusavam pequena quantidade de importações e completa ausência de luxo (MORSE, 1970, p.32 e 33). Portanto, São Paulo estava longe de ser um empório comercial.

(25)

processo seletivo (MORSE, 1970, p.30). Tais condições de vida determinaram, mais tarde, a formação de uma sociedade em moldes mais democráticos, diferente daquela que estava sendo estabelecida mais ao norte da colônia.

Assim, desde o início do século XVI, os paulistas eram conhecidos por

seu jeito de “bicho do mato”, de caráter voluntarioso, pragmático, destemido,

valente, lutador, rebelde e desconfiado de novas ideologias. Com o passar do tempo, os colonos da região não aceitaram a ideia centralizadora dos jesuítas no desenvolvimento urbano através do povoamento em núcleos ao redor do colégio e de suas igrejas. Seguiram em outra direção, preferindo a distribuição sobre os terrenos vastos do planalto, montando suas fazendas, acompanhados por seus escravos índios e mamelucos (SAIA, 1995, p.31).

Os paulistas se opuseram com êxito aos esquemas jesuíticos de núcleos sagrados, utópicos, bem como ao seu uso de terra como instrumento de conquista e acumulação de poder. Para isso, desenvolveram um padrão de povoamento rural dispersivo, que manteve baixo o valor da terra, deu relevo aos séquitos de mamelucos e guerreiros índios e tornou o centro urbano um núcleo principalmente simbólico (MORSE, 1970, p.29).

Nesse cenário, na cidade de São Paulo, em processo de formação, do século XVI ao século XVIII, foram se fixando colonos brancos mais abastados, mamelucos, escravos indígenas e, mais tarde, negros. As casas na área urbana foram se organizando próximas à Câmara Municipal e às igrejas. Muitas outras casas foram dispersas pela área rural ao redor do centro urbano. Surgiram o comércio e as trocas de produtos, realizadas através dos deslocamentos das tropas e, mais tarde, na área rural, os engenhos de açúcar que marcaram a segunda metade do século XVIII.

Em 1765, o governo-central enviou a São Paulo Dom Luís Antônio de

Sousa Botelho Mourão, mais conhecido como “Morgado de Mateus”, com a função

de governar a região. Essa atitude tinha como meta alterar a característica local ainda pobre e pouco povoada, além de fortalecer o domínio português na marinha do sul e em todas as divisas com ocupação espanhola.

(26)

tropas na região. Trouxe, também, novas ferramentas e tecnologias de plantio e estimulou a produção de cana-de-açúcar no planalto paulista, visando ao comércio internacional, pois o consumo de açúcar na Europa e a quebra de produção nas colônias francesas desse período favoreceram ali o cultivo de cana-de-açúcar (SETÚBAL, 2004a). Pela fertilidade do solo de “terra roxa”, a região logo se transformou em uma grande produtora de açúcar do país.

Então, a partir dessa segunda metade do século XVIII, o chamado

“quadrilátero”, região compreendida pelas cidades de Piracicaba, Mogi-Guaçu, Jundiaí e Sorocaba, ficou conhecido como a grande indústria produtora de açúcar da região. Os antigos fazendeiros do planalto, bem como os novos produtores de

açúcar, passaram a ser chamados de “senhores de engenho”, tornando-se conhecidos por suas grandes propriedades e pela produção de açúcar, rapadura, melado e aguardente.

1.2 A urbanização com casebres e sobrados

No centro urbano, a quantidade de casas ao redor do colégio dos jesuítas e das igrejas foi aumentando vagarosamente, dando forma à região central da cidade durante o período colonial. Os moradores da área urbana construíam normalmente casas mais simples que as rurais. As casas construídas por jesuítas para o abrigo de índios continuavam com um aspecto bem primitivo, feitas com paus roliços e telhado de palha, como as ocas, porém havia também casas em taipa de pilão e de mão, e telhado com telhas de canal de cerâmica. Além desses modelos mais simples, foram aparecendo alguns sobrados na região, pertencentes às famílias mais abastadas de São Paulo.

(27)

Os fazendeiros foram preenchendo toda a área rural com suas grandes propriedades e, com isso, o resto da população foi, com o tempo, estabelecendo-se no centro urbano e em pequenas propriedades agrícolas próximas a ele. Dessa forma, notavam-se claramente dois tipos bem diferenciados de casa na área urbana: o casebre popular e o sobrado da classe dominante.

Afonso Brás, que é considerado por muitos o primeiro “arquiteto” da

cidade, quando ainda era chamada vila, no século XVI, construiu, com seus auxiliares, algumas casas para os índios na região urbana, já preocupado em seguir um alinhamento dessas casas (BRUNO, 1991).

Com o passar do tempo, o poder municipal passou a controlar o desenho das casas para o cumprimento de alguns gabaritos estéticos aprovados pela Câmara Municipal, o que indicava um crescimento mais acelerado da cidade na área urbana. As casas seguiam um modelo com fachadas pequenas, pois os lotes eram estreitos e compridos, com uma porta de entrada direta à sala e uma, duas ou mais janelas, conforme a vontade e condição do morador. Esse padrão cuidava não somente do desenho da fachada, mas também do tamanho do lote e da implantação da casa no terreno.

Assim, a cidade de São Paulo foi crescendo segundo um claro padrão português em seu desenho urbano, com casas construídas em taipa de pilão e taipa de mão seguindo um alinhamento frontal bem definido, paredes laterais nos limites de seus terrenos, e todas com um quintal nos fundos (REIS FILHO, 2011). Não havia recuos e jardins frontais. As fachadas alinhadas delimitavam a transição do espaço privativo da casa para o espaço público, a rua, onde caminhavam moradores da região e vários animais soltos. A parede externa da fachada era em taipa de pilão, com espessuras que variavam de quarenta a sessenta centímetros, pintadas na cor branca com cal ou tabatinga (de cor branca, um pouco amarelada) (SAIA, 1995, p.80). As cores das fachadas costumavam ser claras: brancas, amareladas ou até rosadas, e era comum a madeira das portas e janelas ser pintada de verde ou azul.

(28)

desenvolvimento do país (MORSE, 1970, p.38). Porém, já se notavam algumas mudanças em relação à sociedade dos séculos anteriores. A figura do fazendeiro bandeirante, valente e dominador, foi dando lugar à do novo fazendeiro dos engenhos de açúcar nas áreas rurais e à do comerciante esperto e bom negociador no centro urbano da cidade (MORSE, 1970). Com o crescimento do comércio no século XVIII, a cidade passou a ser habitada por diversos tipos de comerciantes: seleiros, ferreiros, sapateiros, marceneiros, artesãos, tecelões, entre muitos outros.

Novas rotas fluviais e terrestres surgiram, favorecendo ainda mais o comércio e a exportação dos produtos da região, e o período das bandeiras foi sendo substituído pelo período das tropas de mulas. Também, nessa época, os negros começaram a aparecer em maior quantidade em São Paulo, passando a ser muito utilizados no trabalho de mineração e no serviço doméstico nas casas dos grandes proprietários.

Os finais de semana e outras datas especiais de comemoração eram dias em que esses senhores de engenho e suas famílias visitavam o centro urbano da região. Passavam alguns dias em seus sobrados com o intuito de comprar sal, trigo, artigos manufaturados, roupas, escravos negros, bem como participar de eventos religiosos e políticos da região.

Em regra geral os sobrados urbanos começaram nos meados do século XVIII, raros entre os humildes casarios de um só piso. Mas eram casas de taipa de pilão, que não costumavam ser pequeninas e, entre a maioria de porta e janela, sobressaíam as de uma porta e duas janelas e as de porta entre muitas janelas. [...]

Mas, embora se repita que os senhores rurais tinham boas casas de morada nas fazendas e engenhos, deixando de caprichar nas das vilas, isso não se estende aos meados e final deste período.

(29)

1.3 A casa bandeirista

Antes da chegada dos jesuítas, a arquitetura local, assim como a de todo o país, era vernácula e indígena. A morada do índio na região caracterizava-se por algumas madeiras roliças estruturais fincadas na terra e outras funcionando como vigas definidoras de uma abóboda coberta de palha. Era a morada conhecida como oca, um espaço fresco e escuro, limitado por paredes com poucas e pequenas aberturas, mas com um sistema bem eficaz de ventilação. Esse modelo arquitetônico de moradia foi, aos poucos, sendo substituído pelo modelo

conhecido hoje como “casa bandeirista”.

O termo “bandeirista” refere-se à cultura mameluca, ao uso e às atividades exercidas por esse mestiço da região de São Paulo (SAIA, 1995; LEMOS, 1999b). A expressão “casa bandeirista” é usada para referir-se às construções residenciais rurais paulistas do período colonial, de cultura mameluca,

com paredes em taipa de pilão e telhado com estrutura de madeira e telhas de canal em cerâmica. Essas casas possuíam um partido arquitetônico simples, com planta quadrada ou retangular, diferentemente do desenho circular ou elíptico da oca, e seguiram padrão estético e de organização espacial com poucas alterações desde o século XVI até o início do século XVIII.

O modelo da casa bandeirista era caracterizado pelo sincretismo da moradia indígena e ibérica, porém o seu programa foi orientado, em seu interior, pela direção cristã dos portugueses, que não toleravam as circulações e acomodações promíscuas dos índios (LEMOS, 1999b).

(30)

conhecida, no país, por ser a técnica padrão de uso dos paulistas, que foram por

isso chamados de “bons taipeiros”.

1.4 A casa rural e a migração mineira

O professor e pesquisador Carlos Lemos costuma comparar a casa bandeirista a uma “esfinge semidecifrada” (LEMOS, 1999b, p.20), pela dificuldade em se estudar sua arquitetura e seus programas de necessidade, devido aos

poucos “restos arquitetônicos” incompletos que dela se têm, além dos raros documentos em textos e desenhos disponíveis.

Mas, mesmo com essa escassez de dados, pode-se concluir que a casa bandeirista de São Paulo não teve quase nenhuma alteração desde o início do século XVI até a primeira metade do século XVIII, no aspecto da técnica construtiva, do partido arquitetônico e do programa de necessidades da casa. (LEMOS, 1999b). Essa observação é importante, pois demonstra que a sociedade dessa época passou mais de dois séculos por uma estabilidade sociocultural, econômica e tecnológica.

Os colonos brancos, moradores mais abastados de São Paulo no início do período colonial, chamados também de fazendeiros, tinham suas grandes famílias formadas pelo fazendeiro patriarcal, sua esposa, cerca de dez ou mais filhos, alguns agregados, hóspedes viajantes e escravos indígenas e negros. As escravas concebiam também, normalmente, filhos de seus senhores (MORSE, 1970).

(31)

galinheiro, o curral, a moenda, entre outras construções, conforme a necessidade dos serviços na fazenda (LEMOS, 1999b).

Nessa época, a fazenda era o abrigo principal da elite do planalto de Piratininga. Era ali que a família morava e cuidava do seu plantio de subsistência e dos seus animais; onde os fazendeiros recebiam os tropeiros e os acolhiam no quarto de hóspedes; e onde também faziam trocas e compras debaixo do telhado dos alpendres das casas.

Essa hospitalidade dos fazendeiros significava muito mais que um ato bom e cordial, como diz Carlos Lemos: “era uma obrigação social que garantia a

sobrevivência da comunidade” (LEMOS, 1999b, p.30). Porém, lembrando que

esse fazendeiro de São Paulo tinha um caráter de “bicho do mato” desconfiado e

era o chefe de uma grande família inserida em uma sociedade patriarcal rígida, não permitia que as mulheres ficassem no alpendre ou próximas de qualquer

abertura da casa, expostas aos olhares dos “estranhos”, como eram chamados, na época, os visitantes desconhecidos. Isso justificava muito bem o desenho

“fechado” da casa bandeirista, com a presença de suas alcovas e poucas

aberturas de portas e janelas.

Na casa rural, o alpendre dava acesso também à capela, onde o fazendeiro recebia o padre para os eventos religiosos da família. A grande distância em relação ao centro urbano impedia a ida frequente à igreja, daí a capela ser um espaço comum e fundamental inserido no programa da casa rural.

(32)

procissões, folias e festas. Na noite de São João, erguiam o mastro e dançavam ao redor da fogueira, conforme os antigos rituais e cerimônias indígenas.

O centro urbano, nos séculos XVI e XVII, era desprezado pela população paulista, principalmente pela elite da sociedade. Porém, os fazendeiros tinham suas casas na área urbana para utilizá-las em ocasiões especiais, como festas religiosas ou reuniões políticas da Câmara Municipal. Nos outros dias, essas casas ficavam abandonadas, sem muita importância para eles. A elite da sociedade paulistana demorou a ter seus sobrados urbanos e, quando isso aconteceu, eles não surgiram com tanta exuberância como alguns que já existiam em outras cidades do país. Tinham a simplicidade da arquitetura bandeirista, e era comum não terem mais que um pavimento superior.

No século XVIII, o trabalho nos engenhos de produção de açúcar, rapadura, melado e aguardente promoveu o aumento da população negra no planalto paulista e a consequente inclusão de novos rituais religiosos e algumas mudanças culturais no cotidiano da população colonial. Alguns negros realizavam cultos religiosos clandestinos com rituais de feitiçaria, outros realizavam cultos abertos ao redor do chafariz da Misericórdia, local de reunião dos escravos negros (MORSE, 1970). Mesmo assim, pelo fato de os negros terem chegado tarde à composição da comunidade paulista, pouco contribuíram para a vida cotidiana e para a cultura da região, muito marcada ainda pela grande influência branca e mameluca.

O enriquecimento da classe social dos produtores de açúcar teve consequências em toda a região: o crescimento maior na área urbana e nas vilas ao redor, o aumento do consumo e das atividades dos comerciantes, a introdução do trabalho artesanal doméstico e o aumento da compra de escravos negros. Então, a partir da segunda metade do século XVIII, esse novo cenário passou a interessar também aos mineiros que, desiludidos com o esgotamento do ouro em suas terras, começaram a migrar para a região de São Paulo.

(33)

a cultura mineira, chegou ao centro de São Paulo a técnica de construção em taipa de mão, ou pau a pique, já muito usada nas terras das Minas Gerais.

Trouxeram, também, o uso da estrutura de “gaiola” (LEMOS, 1999b), pois haviam aprendido a execução da técnica de “gaiolas” em madeira com os engenheiros militares portugueses, que desenvolveram esse novo método estrutural para proteger melhor as edificações, depois do terrível terremoto ocorrido em Lisboa, no ano de 1755. Porém, com o passar do tempo, as técnicas paulistas e mineiras misturaram-se, e muitas construções do final do século XVIII passaram a utilizar grossas paredes externas em taipa de pilão e paredes internas e divisórias em taipa de mão. Além dessas técnicas construtivas, com os mineiros apareceram, também, o forro de madeira, as sacadas mais salientes e o desenho curvo das vergas sobre as portas e janelas, quebrando um pouco o aspecto rude e de linhas rígidas bandeiristas dos sobrados e casebres urbanos da época.

1.5 O programa do sobrado colonial

O programa dos sobrados apresentava poucas diferenças em relação ao dos casebres. Aliás, era um programa funcional muito parecido em todo o país (REIS FILHO, 2011). Isso se explica pelo desenho estreito e comprido das casas e pela implantação de residências geminadas com telhados de duas águas no modelo urbano português. Era difícil fugir ao modelo padrão formado por uma sala de receber (ou sala de visitas), logo à entrada, acessível através da porta principal; um corredor que saía dessa sala e acessava os dormitórios sem janelas, chamados também de alcovas ou camarinhas; e, ao fundo, a varanda, espaço de transição para o quintal. Esse modelo era bem semelhante, em sua organização, às casas bandeiristas.

(34)

Fig.1 – Modelos de fachadas dos sobrados coloniais de São Paulo reproduzidos pelo historiador José Wasth Rodrigues (1990).

a) Padrão mais simples

b) Padrão senhorial com sacada de ferro e esteios para luminárias c) Padrão com último andar em forma de água-furtada

d) Padrão com dois andares (modelo muito raro em São Paulo)

(35)

Caso o morador não fosse um comerciante, deixava normalmente o espaço térreo vazio (REIS FILHO, 2011), pronto para acomodar seus escravos e seus animais. O acesso da rua à edificação era por algumas portas que se abriam para a loja e por outra porta, de onde saía um corredor lateral que ia até o fundo do terreno e também levava a uma escada que permitia o acesso ao pavimento superior. Nesse piso superior, outro corredor ligava a sala de visitas, localizada à frente da

casa, à varanda ou “sala de viver”, aos fundos. Anexo à varanda no piso superior

ou sob um telheiro no quintal, havia um espaço destinado somente à preparação e cozimento dos alimentos, a cozinha. Na área central, entre a sala de visitas e a varanda, o corredor era ladeado pelas portas de acesso às alcovas. Ao fundo do terreno, assim como nos casebres, ficava o quintal.

(36)

PLANTA PAVIMANTO TÉRREO PLANTA PAVIMENTO SUPERIOR

Fig.3 – Plantas do pavimento térreo, à esquerda, e do pavimento superior, à direita.

Legenda:

1 – loja 2 – corredor 3 – sala de visitas 4 – alcova

5 – varanda (ou sala de viver) 6 – cozinha e serviços

A sala de visitas (ou sala de receber, como era mais conhecida nos casebres) tinha a função social de receber os amigos convidados e os visitantes

(37)

A entrada nesses espaços da casa não permitia o acesso físico e visual do visitante ao setor privativo e de serviços da casa. Em dias de visitas, as mulheres recolhiam-se em suas alcovas ou na varanda, ao fundo da casa, para se

esconderem dos olhos abusados dos visitantes “estranhos”.

A pequena casa urbana e a da roça, no entanto, têm ambas em seus organogramas funcionais, absoluta identidade – possuíam os mesmos critérios de morar no que dizia respeito à segregação da mulher, dona de uma área indevassável pelos estranhos. O resguardo da família era fundamental na organização do programa, como atestam conhecidos depoimentos dos séculos XVIII e XIX, quando se referem às práticas muito antigas da sociedade apartada de todos (LEMOS, 1999b, p.21).

Alguns comerciantes mais humildes, principalmente os artesãos, usavam a sala de recepção também como um espaço de trabalho. Porém, aqueles mais abastados tinham a condição de construir os seus sobrados e podiam separar melhor a área de trabalho da área social da casa.

Durante os três primeiros séculos de São Paulo, o interior dos sobrados, assim como das demais casas urbanas ou casas rurais, foi desprovido de luxos e requintes. As casas, em geral, tinham poucas mobílias, e as poucas que havia tinham prioridade em seu aspecto funcional, constituindo-se em “caixas” de madeira, baús, poucas mesas e cadeiras, bufetes, catres ou camas. Nas salas de visitas, apesar de seu caráter social, não havia mobiliários bonitos e luxuosos. Porém, nos sobrados da cidade do final do século XVIII, já era comum encontrar-se um sofá com asencontrar-sento de palha e três ou quatro cadeiras dispostas em alas rigorosamente paralelas. Quando havia visitas das quais as mulheres podiam participar, os homens sentavam-se nas cadeiras, e as senhoras, nos sofás (BRUNO, 1991).

Os sobrados tinham o pavimento térreo em terra batida, assim como nos casebres, mas o pavimento superior era um assoalho estruturado por grossos barrotes de madeira. A madeira preferida dos forros e assoalhos era, por sua durabilidade, a canela-preta.

(38)

de descanso e resguardo. Nas alcovas ocorria também a limpeza íntima dos corpos dos moradores, que era feita através de tinas e jarros de água e com panos molhados.

Essas alcovas tinham normalmente forros de madeira e, acima deles, funcionava um espaço de depósito da casa.

Era muito comum, em casas urbanas ou rurais, a existência de alguns quartos de hóspedes. Nos sobrados, as alcovas e quartos de hóspedes ficavam no pavimento superior, e os quartos dos escravos sempre no piso térreo.

Até o século XVII, as mulheres dormiam em catres, e os homens, em redes. Na região de São Paulo, ainda uma região muito pobre nesse período colonial, as camas apareceram somente na metade do século XVII, como símbolo

(39)

de riqueza e poder (DONATO, 2005). As redes, influência do modo de vida dos índios, eram utilizadas não somente nas alcovas, mas também nas varandas das casas urbanas e rurais. Seus ganchos eram presos em estruturas de madeira separadas das paredes da casa, pois a taipa de pilão não era capaz de reter os pontos de fixação.

A varanda dos sobrados era constituída por espaços grandes, geralmente com o seu comprimento igual à largura do terreno da casa. Tinha funções muito importantes, pois era não somente um espaço de transição, mas também de preparação e cozimento dos alimentos. Era, ainda, utilizada pela família como um ambiente de convivência, para sentar-se à mesa e alimentar-se no dia a dia, daí

ser chamada também de “sala de viver”. Em alguns inventários pesquisados no período colonial, foram encontradas descrições de algumas tripeças2 nessas

varandas, principalmente nas casas rurais. Eram peças utilizadas no ato de cozer (LEMOS, 1999b; SAIA, 1995), e a sua montagem na varanda ou no quintal permitia que o cozimento dos alimentos não ocorresse em um local único da casa. Porém as varandas não possuíam nenhuma peça fixa de uso para o cozimento, como um fogão ou uma lareira. Eram apenas espaços de apoio à cozinha e deveriam ser ótimas para essa função devido à sua ventilação uma vez que tinham janelas voltadas ao quintal ou eram espaços bem vazados, com somente um guarda-corpo de balaústres simples em madeira de canela-preta. Essa madeira, muito utilizada em todo o período colonial nas casas bandeiristas, passou, então, a ser muito rara no século XVIII. Daí para frente foi necessário o uso alternativo de madeiras inferiores na construção de casas, como principalmente a peroba, a arindiúva e a maçaranduba (SAIA, 1995).

As varandas eram um espaço muito utilizado pelas mulheres da casa, pois lá elas estavam protegidas e escondidas dos olhares de visitantes, um lugar de onde elas podiam vigiar as crianças nos quintais e também realizar muitos dos seus serviços domésticos.

(40)

O trabalho da mulher colonial, até o século XVIII, estava vinculado a tudo que era doméstico e familiar: administrar a casa, preparar alimentos, cuidar das crianças e vigiá-las. Ou seja, enquanto o homem cuidava do exterior, ela cuidava de tudo que pertencia ao interior da casa. Tanto nas varandas das casas de engenho, quanto nos sobrados urbanos da época, era comum encontrar as senhoras, as mocinhas e as escravas reunidas ali para trabalhar ou conversar. Porém, nesses momentos, era normal que houvesse uma divisão espacial entre as mulheres brancas e as negras (LEMOS,1999b). Na varanda sempre havia mesas e bancos de madeira, e lá se produzia artesanato caseiro, panos de algodão, roupas, redes, chapéus de feltro, sabão, óleo de combustível, xaropes, remédios e utensílios diversos para uso doméstico; preparavam-se doces e realizavam-se diversos outros trabalhos relacionados à produção de alimentos na cozinha.

No final do século XVIII, o cozimento de alimentos nas casas urbanas deixou de ser ambulante ou de acontecer fora do corpo da casa, como faziam os índios, e passou a ocorrer em um único local, a cozinha, sempre localizada ao

lado da varanda, muitas vezes como um “puxado” da casa e sob um telheiro.

Os portugueses pouco contribuíram no desenho da cozinha paulista e na organização desse espaço dentro da casa colonial. Enquanto os portugueses

estavam acostumados ao uso do “fogão-lareira” dentro da casa para cozer seus

alimentos e aquecer os ambientes, os índios estavam acostumados a montar suas fogueiras fora de suas ocas (LEMOS, 1976). Os índios faziam fogueiras dentro de suas ocas somente com a função de enfumaçar a área interna e expelir os insetos, mas a preparação dos alimentos acontecia sempre fora. Porém, como

afirma Carlos Lemos em sua obra “Cozinhas, etc.” (1976), esse hábito não foi algo

(41)

O lugar do fogo caseiro, antes de tudo, sempre foi em função do clima. Na Europa, fria e temperada, o lar3, centro primordial da família, ocupou lugar privilegiado na habitação. O

português, do Norte ou do Sul, veio acostumado ao lume e ao trafogueiro internos, à trempe e à lareira da “casa de estar e comer”. No trópico, passou a cozinhar no quintal,

conforme a usança indígena, e comer na varanda fresca. O índio, por sua vez, que cozinhava ao relento, no interior da morada rústica acendia o fogo fumacento de madeira verde, de cascas especiais, para defender-se dos mosquitos atormentadores. Ambos os povos conheciam o fogo dentro de casa: um na sua terra de origem, talvez por causa do frio, e o outro, para aproveitar a fumaça incômoda, mas útil. O português logo se esqueceu do fogo interno para aquecimento e aproveitou a fogueira externa do índio –

pois aqui o fogo entre quatro paredes lhe era insuportável (LEMOS, 1976, p.51 e 52).

Além disso, o serviço culinário estava diretamente ligado ao trabalho escravo, o que também favoreceu o maior afastamento possível da cozinha em relação à zona de habitação das casas coloniais, principalmente dos sobrados. Enquanto os casebres mantinham suas cozinhas dentro da casa, como um espaço de grande importância, os sobrados da elite social expulsavam a cozinha para o fundo da casa e pouco se preocupavam com a qualidade da construção desses ambientes. Suas paredes eram mal feitas e mal acabadas, bem diferentes do resto da casa. Enquanto o caipira mameluco se reunia com a família e seus amigos ao redor do fogo para conversar, os colonos e comerciantes abastados afastavam-se do fogão e da cozinha da casa, utilizada somente por seus escravos.

Nessas cozinhas do século XVIII, podiam-se encontrar utensílios de ferro, latão, cobre, estanho, porcelana, madeira e alguns poucos em prata. Objetos em vidro ainda eram raríssimos (DONATO, 2005). Se os portugueses não contribuíram tanto para a arquitetura e organização desse espaço, pelo menos trouxeram certos utensílios para a cozinha paulista e brasileira, além de contribuições para o cardápio.

Existem alguns objetos de cozinha herdados dos índios e que, até hoje, podem ser encontrados em uso nas cidades do interior paulista. O jirau4 é um

3 A palavra “lar”, utilizada no texto de Carlos Lemos, tem uma ligação direta com a palavra “lareira” e expressa o calor sentimental e físico da casa. Essas duas palavras têm suas raízes no nome do deus romano Lares, que protegia as famílias e era simbolizado pelo fogo aceso dentro de suas casas.

4 O jirau é uma grade de varas sobre esteios fixados no chão, usado, principalmente, para assar ou secar a

(42)

exemplo desses objetos da cultura indígena, que foi absorvido pelos portugueses e utilizado em suas cozinhas para a defumação da carne (LEMOS, 1976).

Na cozinha, para os serviços de preparação dos alimentos e limpeza dos utensílios, é indispensável a água. Por isso, era fundamental que fosse buscada em rios, riachos e chafarizes próximos e armazenada em potes para o uso diário. A limpeza de objetos da casa, em geral, era feita ao fundo da casa, no quintal, ao

lado do “puxado” da cozinha. A água era guardada também para a higiene

pessoal, feita em gamelas e grandes bacias de latão, principalmente nos banhos das mulheres e crianças, dentro de suas próprias alcovas. Os homens, na maioria das vezes, banhavam-se nos riachos da região.

No quintal, era comum haver a latrina ou “casinha”, um espaço pequeno,

discreto e fechado, com um buraco no piso de terra para os moradores deixarem ali os seus dejetos.

Os quintais dos sobrados eram áreas muito importantes aos moradores, pois representavam a raiz da vida rural dentro de sua propriedade. Eram áreas reservadas para hortas e pomares, e também locais onde as crianças brincavam sob o controle de suas mães, dentro do perímetro da casa. Eram delineados por cercados, que preservavam os fundos da casa, protegendo suas plantações e impedindo que os seus animais fugissem (LEMOS, 1999b).

(43)

1.6 A arquitetura da casa e a rua

Uma novidade no programa da casa do século XVIII foi o surgimento de uma ligação direta da rua com o quintal. Anteriormente, no início da cidade, os quintais não eram totalmente cercados e protegidos e, por esse motivo, havia muitos animais soltos pelas ruas. Porém, a partir da segunda metade do século XVIII, com o aumento da densidade demográfica urbana, as construções passaram a ficar mais concentradas, a cidade mais fechada sobre si mesma, e os muros de taipa foram garantindo o fechamento dos quintais (LEMOS, 1999b). Dessa maneira, as novas casas começaram a ser construídas de forma geminada em seus dois flancos, e a passagem da rua ao quintal, para o transporte de água, mantimentos, animais e para o tráfego dos escravos, passou a ocorrer através de

um corredor de ligação “rua-quintal”, ou através de passagens obrigatórias pelas

portas dos cômodos do pavimento térreo, pois nem sempre havia esse corredor na casa.

Uma outra novidade que apareceu nos sobrados do século XVIII foram as sacadas ou balcões, peças que surgiram não somente por uma simples imposição do partido arquitetônico, mas, principalmente, por uma nova necessidade de

abertura à área externa de maneira segura, criando, assim, um “posto de observação” voltado à rua.

(44)

iluminação e repletas de buracos. Dessa forma, através do poder municipal, a sociedade começou a preocupar-se de maneira especial com essas áreas públicas. Assim, os moradores passaram a ter um zelo maior pela parte da rua frontal à sua casa, enxergando-a como continuação de sua própria moradia, e a Câmara Municipal determinou a pavimentação das vias públicas, inicialmente com pedras brutas (BRUNO, 1991). Como consequência desse novo significado das vias públicas, as sacadas começaram a surgir no século XVIII, e passaram a ser

interessantes como “postos de observação” do movimento das ruas, da vida alheia

e dos principais eventos da cidade que ali ocorriam. Passou a ser chique e atraente ter sacadas nas salas de visitas abrindo-se às ruas e, quanto mais importante e movimentada fosse a rua da casa, maior atração e interesse oferecia ao seu proprietário e visitantes.

Faz-se necessário explicitar que o termo “sacada” é usado para identificar

uma plataforma suspensa, “puxada” do perímetro da edificação, saliente à fachada

da casa e protegida por um guarda-corpo. Também é chamada de “balcão” ou “varanda”. Quando as sacadas aparecem interligadas, constituindo um corredor de

circulação externa, dando acesso a algumas portas paralelas, forma-se, então, a

“galeria”.

(45)

Fig.5 e 6 – Janela com abertura para fora (figura à esquerda) e sacada com guarda-corpo treliçado (figura à direita) de casas coloniais da região urbana central de Santana de Parnaíba, São Paulo.

(46)

O muxarabi era um anteparo de origem mourisca, trazido ao Brasil por portugueses ou espanhóis, formado por treliças de madeira para uma vedação, que favorecia a circulação do ar e barrava os excessos dos raios solares e os olhares indiscretos dos transeuntes das ruas (MELLO, 1973). Dessa forma, os muxarabis permitiam aos moradores da casa, principalmente às mulheres, o uso

da sacada como um “ponto de observação”, permitindo a visão de fora e

impedindo a de dentro.

O uso de rótulas nas janelas e dos muxarabis em algumas sacadas indicava uma cerimônia social parecida com aquela existente nas residências rurais, onde se usava o alpendre como um “filtro” para a casa. Esse padrão de

sociabilidade caracterizava as tradições comportamentais daquela sociedade patriarcal e também se refletia nas roupas das mulheres de elite, com a imagem retórica de ócio e pudor, além do uso de capas e véus resguardando as idas à igreja (MARINS, 2001, p.73).

(47)

Frequentemente, entretanto, as mulheres não se mostravam, nem à mesa, diante dos hóspedes masculinos; saíam à rua sob a vigilância masculina, e usualmente para fins religiosos. Com poucas soirées e sem as rajadas de manias e modas estrangeiras a soprarem pela cidade, as moças casavam-se com apenas 13 a 14 anos e ocupavam-se em casa a fazer bordados, rendas, doces, e à noite, a tocar violão e cantar (MORSE, 2001, p.60 e 61).

O sistema patriarcal queria as mulheres, sobretudo as moças, as meninotas, as donzelas, dormindo nas camarinhas ou alcovas de feitio árabe: quartos sem janela, no interior da casa, onde não chegasse nem sequer o reflexo do olhar pegajento dos donjuans, tão mais afoitos nas cidades que no interior. Queria que elas, mulheres, pudessem espiar a rua, sem ser vistas por nenhum atrevido: através das rótulas, das gelosias, dos ralos de convento, pois só aos poucos é que as varandas se abriram para a rua e apareceram os palanques, esses mesmos recatados, cobertos de trepadeiras (FREYRE, 2004, p.317).

Além das sacadas, era também comum encontrar nas fachadas, principalmente dos sobrados, os mirantes. Eram pequenas janelas situadas abaixo dos frechais, sob os beirais voltados à rua, vãos característicos da arquitetura

(48)

bandeirista, que indicavam a presença de um sótão sobre a área social da casa, usado como mais um espaço de depósito.

(49)
(50)

2. As casas ecléticas

“Eis me em São Paulo, na terra de Azevedo, na bela cidade das névoas e das mantilhas, no solo que casa Heidelberg com a Andaluzia.” – Castro Alves

2.1 As transformações econômicas, sociais e culturais

Na passagem do século XVIII para o XIX, o açúcar era um dos mais importantes produtos na economia da região de São Paulo. As cidades do

“quadrilátero”, a oeste, e as cidades ao norte e noroeste de São Paulo continuavam recebendo muitos migrantes mineiros vindos das terras decadentes do ouro. Eles chegavam, tomavam posse de seus lotes e ocupavam-se com plantios de subsistência e criações de gado nas terras ao redor da cidade de São Paulo.

O café já existia em algumas áreas rurais do país desde as primeiras décadas do século XVIII e foi se disseminando por todo o século, porém o seu consumo ficava restrito ao seu local de produção. Nas últimas décadas do século XVIII, começou a ter uma importância econômica maior, e a procura mundial pelo produto brasileiro, principalmente por parte dos norte-americanos, aumentou bastante (MORSE, 1970). Portanto, o século XIX, na cidade de São Paulo, foi marcado pela chegada do café e pelas transformações urbanas decorrentes do crescimento econômico por ele provocado.

Com o desenvolvimento da cultura cafeeira na região de São Paulo, sobretudo nas áreas do Vale do Paraíba e no Oeste Paulista5, no século XIX,

surgiram dois novos problemas que passaram a colocar em risco o acelerado crescimento da lavoura do café: a escassez da mão de obra escrava e a grande distância entre as áreas de plantio e o porto de Santos. Para resolver esses problemas, foi necessário pensar em algo ainda inédito no país: a mão de obra livre e o transporte ferroviário (SETÚBAL, 2004a).

Imagem

Fig. 33 – Planta do pavimento superior
figura  a  seguir,  uma  casa  ainda  com  características  ecléticas  e  um  programa  funcional racionalizado, conforme as necessidades da época

Referências

Documentos relacionados

A Agência Europeia de Medicamentos dispensou a obrigação de submissão de resultados dos estudos com XGEVA na prevenção de acontecimentos ósseos em doentes com metástases ósseas

Equipamentos de emergência imediatamente acessíveis, com instruções de utilização. Assegurar-se que os lava- olhos e os chuveiros de segurança estejam próximos ao local de

Tal será possível através do fornecimento de evidências de que a relação entre educação inclusiva e inclusão social é pertinente para a qualidade dos recursos de

Figura 8 – Isocurvas com valores da Iluminância média para o período da manhã na fachada sudoeste, a primeira para a simulação com brise horizontal e a segunda sem brise

Pretendemos analisar as possibilidades de debate acerca da relação com o não humano a partir das reflexões desenvolvidas por Jacques Derrida, compreender como o

Justamente por não abordar enunciados de materialidade ex- clusivamente linguística, como os que estão na base do projeto pêcheutiano de análise de discursos, este estudo apresenta

precisamos (falo como usuário costumeiro da língua/linguagem escrita e como professor de Português há mais de quatro décadas) é, sim, deixar de bobagem e utilizar essa nova forma

Nem os Direitos Humanos, nem as manifestações anticoloniais são características exclusivas da contemporaneidade. Estas defesas acontecem desde 1492, o que mudou – talvez –