UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE COMUNICAÇÃO E LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
REGINA PAULA AMBROGI AVELAR
ROOSEVELT, VARGAS E A LIBERDADE: HISTÓRIA EM CONTEXTO -
O ETHOS E A GUERRA DA LÍNGUA PELAS PERSPECTIVAS DA AD E DOS ESTUDOS CULTURAIS.
REGINA PAULA AMBROGI AVELAR
ROOSEVELT, VARGAS E A LIBERDADE: HISTÓRIA EM CONTEXTO -
O ETHOS E A GUERRA DA LÍNGUA PELAS PERSPECTIVAS DA AD E DOS ESTUDOS CULTURAIS.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras (Mestrado e Doutorado), da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Vera Lúcia Harabagi
Hanna
A948r Avelar, Regina Paula Ambrogi.
Roosevelt, Vargas e a liberdade : história em contexto : ethos e a guerra da língua pelas perspectivas da AD e dos estudos
culturais / Regina Paula Ambrogi Avelar. – 2014. 204 f. ; 30 cm.
Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014.
Referências bibliográficas: f. 169-172.
1. Liberdade. 2. Análise transcultural histórica. 3. Ethos. 4. Análise do discurso. 5. Estudos culturais. I. Título.
A todos aqueles que me ajudaram, direta e indiretamente, na realização deste projeto. A meu rebento, Bento, que, chegando na hora de Deus e não no momento em que eu quis, me
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, gostaria de agradecer em especial à minha querida professora e orientadora Profa. Dra. Vera Lúcia Harabagi Hanna por acreditar em minhas ideias e projetos, por me dar
suporte e orientação e balizar meu progresso ao longo desses já muitos anos de parceria amorosa, colaborativa e enriquecedora.
Agradeço muitíssimo à banca, Profa. Dra. Neusa Maria Bastos e Profa. Dra. Renata Philippov,
por terem aceitado participar dessa avaliação, pela emissão de suas críticas e sugestões verdadeiras que muito me ajudaram no desenvolvimento e na conclusão desta dissertação. Meus agradecimentos à Denise Tibana, do departamento de bolsas pelas orientações e informações a respeito dos relatórios, prazos, procedimentos e burocracia em geral que temos que cumprir para que o projeto saia do campo das ideias e entre no campo prático.
Meu obrigadíssima ao Dr. Robson de Alvarenga e sua esposa Liciane Korenjak Magro de Alvarenga, a Lika, por serem os pioneiros a me concederem uma “bolsa” de estudos para que eu tomasse coragem e iniciasse o curso de mestrado. Sem essa ajuda financeira inicial talvez eu nem tivesse começado.
Agradeço também ao Instituto Presbiteriano Mackenzie e às pessoas que nele trabalham, sua parte humana, que me concederam uma segunda bolsa, interna, com a qual pude desonerar o patrão de meu marido do benefício e continuar mais tranquila os estudos. Além de agradecer a UPM por me informar prontamente que uma outra bolsa seria possível, desta vez uma bolsa da CAPES, do tipo II, que além de pagar a universidade me concede o benefício de receber uma quantia mensal para concluir a dissertação.
Meu muito obrigada a meu marido, Fabio da Silva Avelar, pelo amor e apoio incondicional, e por todo o resto!
A todos os professores e colegas da pós-graduação que, independentemente de empatia pessoal, me ajudaram a reformular a visão tanto do que eu quero, quanto do que eu não quero ser como pesquisadora e aluna.
Agradeço a todos os meus familiares, amigos e alunos pela compreensão e apoio nesse projeto de me tornar mestre.
Finalmente, agradeço especialmente a minha mãe, cuja ajuda valiosa e imprescindível nos momentos mais críticos fizeram com que eu conseguisse cumprir todas essas etapas. Obrigada por me dar o suporte emocional e físico, como busca de livros, etc., por ser sempre presente e colaborativa em todos os momentos.
Liberdadeé uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.
AVELAR, R.P.A. ROOSEVELT, VARGAS E A LIBERDADE: HISTÓRIA EM CONTEXTO – O ETHOS E A GUERRA DA LÍNGUA PELAS PERSPECTIVAS DA AD E DOS ESTUDOS CULTURAIS. (204 páginas). Dissertação (Mestrado em Letras. Estudos Culturais) Universidade Presbiteriana Mackenzie. Orientadora Profa. Dra. Vera Lúcia Harabagi Hanna. São Paulo, 2014.
RESUMO
A presente dissertação parte em busca de possíveis implicações transculturais referentes à conceituação de liberdade como um tema sócioculturalmente marcado na identidade de um povo. Analisamos a posição do sujeito (ethos discursivo) e os papeis assumidos por ele, considerando-se a bivocalidade locutor/alocutário na dialogização das seguintes alocuções políticas: o discurso do presidente americano Franklin Delano Roosevelt “As quatro liberdades” de 1941 e o discurso do presidente brasileiro Getúlio Dornelles Vargas de 1943, intitulado “As comemorações da Independência Nacional e entrada do Brasil na guerra”. O objetivo geral é o de buscar a voz da liberdade no processo de apagamento de vozes que naturalmente intervêm no discurso, além da observação das guerras de língua que ali se instauram sub-repticiamente. A primeira etapa dessa pesquisa consistiu em um levantamento de conceitos da Análise do Discurso (AD) referentes às noções de discurso e de discurso político, seus elementos constitutivos, suas coordenadas espaço-temporais, assim como um panorama da noção de ethos discursivo – desde a noção aristotélica à perspectiva dos Estudos Culturais. O procedimento adotado visa a analisar os ethe construídos nos discursos selecionados com o intuito de desvelar a voz de liberdade que eles possam vincular. A segunda etapa examinou os conceitos de transculturalidade, interculturalidade e multiculturalidade pela perspectiva dos Estudos Culturais para que traçássemos um paralelo entre as ideias de liberdade para os povos norte-americano e brasileiro por meio da análise transcultural das guerras de língua que se travam nos pronunciamentos. A terceira parte trouxe um levantamento dos aspectos do contexto histórico-ideológico-sócio-cultural dos momentos dos pronunciamentos para que pudéssemos delinear as análises incluindo também esses aspectos. A análise transdisciplinar aqui desenvolvida objetivou articular essas três áreas distintas do conhecimento – a história, a AD e os Estudos Culturais – em uma abordagem transcultural de uma temática universal (a liberdade) com o intuito de fomentar a análise crítica de momentos e de discursos que deixaram legados (trans)culturais relevantes para a atualidade.
ABSTRACT
The present thesis can be read as possible transcultural implications referring to conceptualization of liberty as a socio-cultural theme determined by the identity of a people. We analyzed the position assumed by the subject (discursive ethos) and its roles considering the bivocality speaker/audience in dialogism of the following policy addresses: the speech of the American President Franklin Delano Roosevelt “The four freedoms” (1941), and the address of the Brazilian President Getúlio Dornelles Vargas (1943), known as “The celebrations of National Independence and the Entrance of Brazil in the War”. Our general objective is to seek the voice of freedom in the process of erasure of voices which naturally act in the discourse, besides the observation of language wars which frame themselves surreptitiously there. The first stage of this research consisted of surveying concepts of Discourse Analysis (DA) concerning the notions of discourse and political discourse, its constitutive elements, its space-time coordinates, besides a panorama of discursive ethos knowledge – from the Aristotelic understanding to its perspective in Cultural Studies. The procedure adopted aims to analyze the ethe built in the speeches selected with the intention of revealing voices of freedom that they might entail. The second phase examined the concepts of transculturality, interculturality and multiculturality through the perspective in Cultural Studies in order to depict a comparison between the ideas of liberty for the American and Brazilian peoples through transcultural analysis of language wars which wage themselves in the discourse. The third stage brought a stocktaking of the aspects from the historical-ideological-sociocultural context from the moments of the addresses which allowed us to delineate the analyses including those aspects. The transdisciplinary analysis here developed targeted for articulating three distinguishable subjects – History, DA and Cultural Studies – in a transcultural approach of a universal thematic (liberty/freedom) aiming at fostering the critical analysis of moments and speeches which left (trans)cultural legacies relevant to the present time.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
1 CAPÍTULO I – O DISCURSO E O DISCURSO POLÍTICO... 21
1.1Elementos constitutivos do discurso: formações ideológicas e formações discursivas.. 21
1.2A dêixis enunciativa ... 24
1.3 Ethos Discursivo... 27
1.4 Linguagem, ação e ação política... 33
1.5 A questão das instâncias... 35
1.6 O discurso político... 37
2 CAPÍTULO II – OS ESTUDOS CULTURAIS E SUAS INTERSECÇÕES; OS CONCEITOS DE CULTURA, INTERCULTURALIDADE, MULTICULTURALIDADE E TRANSCULTURALIDADE. 40 2.1Para entender os Estudos Culturais ... 40
2.2 Reflexões acerca do conceito de cultura ... 46
2.3 A Multiculturalidade... 53
2.4 Os conceitos de cultura na pós-modernidade e de transculturalidade... 55
2.5 Os Estudos Culturais em intersecção com a Análise do Discurso e outras intersecções ... 62
2.5.1 O ethos pela perspectiva dos Estudos Culturais em intersecção com a AD e com história/historiografia ... 65
2.6 Língua e Cultura ... 67
3 CAPÍTULO III – AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DOS DISCURSOS E A NOÇÃO DE LIBERDADE ... 70
3.1 História, historiador e ideologia ... 70
3.2 Critérios de escolha dos discursos selecionados e as categorias de análise ... 74
3.3 Breve contextualização histórica dos discursos analisados... 76
3.3.1 O pronunciamento de Franklin Delano Roosevelt, de 1941: contexto histórico norte-americano e internacional ... 76
3.3.2 O pronunciamento de Getúlio Dornelles Vargas, de 1943: contexto histórico brasileiro e internacional ... 81
3.4 Roosevelt e Vargas no contexto histórico-ideológico-cultural ... 88
3.5 Breve contextualização histórica e cultural da noção de liberdade nos EUA: possíveis reflexos na política do Brasil ... 98
4 ANÁLISE ... 113
4.1 O Discurso de Roosevelt – construção do ethos e a guerra da língua ... 113
4.2 O Discurso de Vargas – construção do ethos e a guerra da língua ... 138
5 CONCLUSÃO ... 159
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 169
ANEXOS ANEXO 1 (DISCURSO DE ROOSEVELT EM INGLÊS) ... 173
ANEXO 2 (DISCURSO DE ROOSEVELT EM PORTUGUÊS) ... 186
INTRODUÇÃO
I love Freedom1,
That's why I leave all things that I love free... If they come back, that's because I've won their hearts. If they don't... that's because I never had them anyway.2
(John Lennon)
O estudo, que ora apresentamos, constitui-se na investigação acerca da noção de liberdade (liberty/freedom) em dois pronunciamentos emblemáticos feitos pelos presidentes de duas nações particularmente ligas à nossa história: os Estados Unidos da América (EUA) no pronunciamento do Presidente Franklin Delano Roosevelt “As quatro liberdades” (1941); e o Brasil, com o discurso do Presidente Getúlio Dornelles Vargas entitulado “As comemorações da Independência Nacional e entrada do Brasil na guerra” (1943).
Como justificativas da presente investigação de cunho científico, consideramos que as condições de produção de um discurso possibilitam o estudo das representações sociais de uma dada época. Acreditamos que o papel de um sujeito no processo discursivo promove o desvelamento de sua posição na sociedade por meio do vislumbrar de sua formação ideológica e pela expressão de sua formação discursiva. Supomos haver implicações transculturais nas temáticas que se apresentam como material histórico de pesquisa, o que nos permite o levantamento do percurso histórico das ideias no mundo e possibilitam um recorte no percurso histórico da temática da liberdade nesses países. Acreditamos que os documentos representativos da questão em foco são materiais passíveis de análises críticas que comportam o estabelecimento de contextos sócio-histórico-culturais por meio dos quais passaram as ideias na história, tal qual a ideia da liberdade. Por fim, inferimos haver uma relação entre a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1942) com as políticas norte-americanas praticadas no continente à época. Estes argumentos todos nos autorizam justificar a presente pesquisa.
Algumas das problemáticas que nos dispomos a investigar são como cada falante constrói uma imagem de si no discurso (o ethos); como ele se dirige ao público (seus alocutários); como se estabelece um jogo na bivocalidade locutor/alocutário em dialogização na comunicação; qual poderia ser o jogo de máscaras que se sobrepõe de acordo com as situações sócio-histórico-culturais naquela dada situação; quando os alocutários confundem a
1 Todos os grifos em palavras relacionadas à liberdade ao longo desta investigação, tanto em língua portuguesa
quanto em língua inglesa, são da autora.
2“Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem, é porque eu conquistei seus corações,
imagem de si nas alocuções (o ethos) com o locutor real; e, por fim, o quê são e como se travam as chamadas guerras de língua.
O que objetivamos observar, portanto, é a tendência totalizante de um sujeito-autor que estabelece uma relação de dominância de uma formação ideológico-discursiva sobre as demais na constituição do texto, com a forte tendência de apagamento das demais vozes contrárias a ela. Esse efeito ideológico de dominância e a aderência dos alocutários ao discurso do locutor é que procuramos evidenciar nas análises dos pronunciamentos selecionados que abordam a temática da liberdade. Intencionamos também investigar como discursos políticos proferidos no passado ocuparam seu lugar na história e podem ter deixado legados (trans)culturais marcantes capazes de influenciar as culturas na posteridade. Esperamos ainda verificar a relação existente entre as alocuções políticas citadas dos EUA e do Brasil, apurando a possibilidade de os primeiros serem difusores culturais capazes de influenciar culturalmente as produções do segundo. Como objetivo específico, intencionamos investigar a instauração de ethe discursivos que visem a contribuir na construção da fala de vozes de liberdade e analisar as guerras de língua que se instauram sub-repticiamente nos discursos.
O primeiro capítulo dessa dissertação consiste em um breve levantamento de conceitos da Análise do Discurso (AD) referentes às noções de discurso baseados nas ideias do filósofo grego Aristóteles, e de discurso político, fundamentados principalmente nos conceitos do linguista francês, especialista em AD, Patrick Charaudeau. Observamos os elementos constitutivos da dêixis enunciativa, ou seja, suas coordenadas espaço-temporais, tomando como guia autores como outro linguista francês Dominique Maingueneau. Optamos por traçar um panorama da noção de ethos discursivo – da noção aristotélica à perspectiva dos Estudos Culturais – com o intuito de analisarmos os ethe construídos nos discursos analisados, para tentarmos desvelar possíveis vozes de liberdade que eles vinculavam.
A persuasão, ou a força de convencimento, central no discurso político, se faz pelo caráter ou ethos. Esse é produzido pelo discurso que confere ao orador a condição de ser “digno de fé” por meio da identificação do grupo de alocutários com o orador. A confiança, entretanto, é um efeito do discurso e não uma previsão sobre o caráter do orador. Levantamos as qualidades fundamentais de que os oradores se valem para dar uma imagem positiva de si e as utilizamos nas análises: a phronésis ou prudência, a arétê ou virtude, e a eunóia ou benevolência; essas três características são marcantes no discurso em geral, mas destacam-se no discurso político.
panorama que se inicia na origem destes estudos. Consideramos especialmente relevante para essa pesquisa o fato de todo o movimento dos Estudos Culturais ter nascido a partir de uma preocupação de cunho político-cultural. O discurso político é especialmente considerado por ser um discurso emblemático das preocupações políticas de um povo. Há sempre uma ideologia a ser desvendada nas relações de poder. A cultura é o substrato desses elementos, funda o ser que poderá se delinear por esta ou aquela ideologia. Tais pressupostos resultam em duas categorias básicas: a cultura fundadora e a ideologia presente.
Os Estudos Culturais, como veremos, foram abrangentes e tiveram uma perspectiva acadêmico-teórica que serviu de base para leituras que buscassem as conceituações de hegemonia, globalização, ideologia, agenciamento político, articulações, relações entre os meios de comunicação e cultura, questões das etnicidades dominantes e de gênero, ou ainda, leituras que buscassem o entendimento do lugar da história no estudo da cultura contemporânea.
A conceituação de “intelectual orgânico” definido como aqueles que são comprometidos com um trabalho intelectual radical que gera mudanças sociais e econômicas em contraste com os intelectuais tradicionais - que seriam aqueles que se colocam ao lado do conhecimento e interesses sociais já estabelecidos – fizeram com que considerássemos os Estudos Culturais e as ideias de alguns de seus pais, como o teórico jamaicano Stuart Hall, nesta pesquisa. Também em relação a esse aspecto, poderíamos considerar que, de certa forma, nos enquadramos no conceito de “intelectuais orgânicos”, uma vez que a temática aqui explorada - a liberdade e a sua construção por meio dos discursos políticos - pode ser considerada como uma relação da cultura com a estrutura social de poder político capaz de influenciar nas políticas culturais, gerando mudanças sociais e econômicas, não sendo algo comumente explorado, e tão pouco algo de interesse social ou conhecimento já estabelecido, feito pelos intelectuais tradicionais.
A questão cultural e, em especial, a mistura - hibridização, ou ainda, mestiçagem - é um dos pontos novos trazidos por Hall às discussões contemporâneas de cultura e identidade. Abarca diversos níveis de formação como o social, o político, o econômico e o cultural. A identidade é vista como um lugar que se assume, uma costura de posição e de contexto, e não uma essência ou substância a ser examinada, ou em suma, a identidade cultural é uma discussão profunda, um diálogo crítico com correntes do pensamento contemporâneo sobre cultura.
A identidade cultural de um povo está em articulação com o núcleo imutável e atemporal que liga ao passado o futuro e o presente numa linha ininterrupta, ou o que chamamos de “tradição”. Ela é subordinada aos mitos fundadores de cada nação ou grupo. A cultura molda nosso imaginário e vidas, nos insere em um povo e em uma história, em uma filiação. Posto isso, a grande questão sobre a qual passamos a nos debruçar, então, passa a ser a respeito de que muitas pessoas e povos, principalmente no mundo globalizado, por razões diversas, são provenientes de mais de uma cultura que se hibridizam e se misturam nos próprios indivíduos. A identidade seria, assim, construída por meio da diferença – EU/NÓS – em relação ao outro OUTRO/ELE(S) – o exterior constitutivo detentor de algo que não possuímos, algo que falta em nós e que nos diferencia. Nossa unidade identitária seria constituída no interior dessa relação de exclusão, sendo que o que não nos constitui – OUTRO/ELE(S) – pode desestabilizar o jogo de poder instaurado na relação. Para Hall, a identidade se baseia nesse ato de exclusão, criando-se no sistema em que se encontra definida uma hierarquização poderosa entre os pólos resultantes – EU/NÓS - OUTRO/ELE(S).
As fronteiras não podem ser consideradas de forma rígida quando pensamos em culturas, pois, na modernidade, somos, em geral, todos híbridos culturais. As linhas que esboçamos são porosas e tornam-se prontas para absorver novos significados e textos, novas práticas e ideologias, sendo por isso possíveis abordagens transculturais, ou seja, análises críticas a temáticas comuns. A identidade é uma questão histórica e nossas sociedades são compostas não de um, mas de muitos povos de origens diversas e não únicas.
torna-se, assim, uma fonte para a libertação da identidade, da diversidade, do livre imaginar e da livre expressividade. Um dos objetivos dos críticos culturais é o de aumentar o espaço de liberdade individual, o que os leva a abominar os sistemas e as estruturas de qualquer tipo.
Os termos pelos quais entendemos a cultura, por essa visão, são os seguintes: a cultura compõe-se de uma montagem de imaginários e de significados sobre nós mesmos formada no discurso, na linguagem, nos símbolos, nos sinais e nos textos – conceitos todos aplicados a sistemas de significação, que nunca são estáveis e que mudam de acordo com o tempo, o espaço e a ação humana. A cultura é uma montagem de imaginários e de significados que pode ser coerente, disjuntiva, sobreposta, controversa, contínua, descontínua, ou, em outras palavras, a cultura é sempre transitória, transformadora, aberta e instável.
Por essa visão de cultura poderíamos falar em culturas e ideologias dominantes, mas nunca poderíamos pensar em culturas fechadas, uma vez que são formadas por interesses que concorrem em indivíduos diferentes e em grupos distintos. Poderíamos falar em cultura de uma família, de uma nação, de uma etnia, de uma religião, do povo global, de um grupo tecnológico e assim por diante, fazendo com que certas culturas ao redor de certas instituições partilhem em maior ou menor consonância ideológica, semiótica, ética, estética, ou de características organizacionais. Os indivíduos, por seu turno, estão sujeitos a significados culturais produzidos e impostos por grandes instituições, que perduram historicamente, como as instituições governamentais, de onde emanam as alocuções políticas. Os indivíduos participam de muitas culturas diferentes simultaneamente em diferentes dimensões que se articulam em seu ser e nos grupos a que ele pertence.
limites. Em suma, as estratégias linguísticas são implementadas com a finalidade de constituir associações pessoais ou sociais, ou com a finalidade de atacarem outros indivíduos e associações para controlar, gerenciar ou destruir os demais.
Por essa visão o transculturalismo não busca privilegiar a semiótica em detrimento das condições materiais da vida, nem tão pouco privilegia o contrário disso, mas aceita que a linguagem e a materialidade interagem continuamente dentro de um lócus instável de condições históricas específicas, ponto especialmente relevante para essa pesquisa. O acesso e o conhecimento acerca desses materiais e de suas condições de produção são definidos historicamente e necessariamente filtrados pelo nosso grau de comprometimento com a linguagem e com as guerras da língua.
É exatamente essa ressalva que faz com que possamos propor uma pesquisa como a nossa na atualidade, uma vez que a noção de transculturalismo engloba a interface língua/linguagem e suas condições de produção, tal qual o que foi proposto pelos Analistas do Discurso, ou seja, a preocupação e a ressalva de que cada material é único em sua conjuntura histórica de produção. Ao considerarmos essas condições de produção, assim como os demais elementos ali veiculados, dependemos necessariamente de nosso grau de entendimento (nível individual, portanto) e da guerra que se trava sub-repticiamente ao que está explicitamente dito ali - porção que depende também do coletivo, uma vez que a cultura tem as porções coletiva e individual por sua definição – para que conduzamos uma análise reflexiva das estratégias utilizadas para o alcance de alguma finalidade específica, o que, no nosso caso, significa buscar as vozes da liberdade como um tema transculturalmente marcado.
Tomamos de Lewis o conceito de que as guerras da língua tornam-se mais fecundas e intensas de acordo com a proximidade entre os grupos sociais. O transculturalismo se encaixa claramente nos debates atuais acerca de globalização e internacionalização e como desejamos investigar uma possível origem da influência da temática da liberdade em termos internacionais – e porque não em termos globais –, justificamos o enfoque transcultural da questão.
instituições e as práticas diárias se encontram em um movimento contrário em relação ao poder, uma vez que o processo de fixação do poder, inevitavelmente, transgride a dinâmica da produção de sentido. Como não é possível separarmos a língua da cultura, assim como fica impossível conseguirmos ver qualquer produção cultural sob uma ótica que não enfoque suas condições de produção, cada objeto cultural, assim, é único e historicamente marcado em um mundo em que as culturas não mais podem ser vistas como esferas isoladas, mas que devem ser vistas como mutuamente influenciadoras. Tal visão privilegia a localização das relações de poder nos termos da linguagem e da história, sendo a definição de transculturalismo a que nos parece fundamental importante no âmbito dessa investigação.
Ainda em relação à crítica transcultural, ela é variada e multidirecionada, engajada em uma ampla política visceral, agrupada em todas as suas formas de representatividade, incluindo aquelas moldadas pelas relações humanas e de formação identitária. O transculturalismo é, acima de tudo, o engajamento na guerra da língua e uma disposição radical que participa de todos os modos e níveis de diálogos sociais, útil, do ponto de vista teórico, à análise de nosso corpus. A abordagem transcultural, que duvida profundamente de si mesma, é auto-reflexiva e autocrítica, escolhendo sempre a melhor opção, ação ou perspectiva, reconhecendo a ausência de plausibilidade do conhecimento duradouro e a impossibilidade da verdade além de um dado momento. Lida com opções, perspectivas e estratégias, sendo os padrões encontrados pelo transculturalismo interpretados como manifestações do transitório – significativo apenas de uma maneira localizada. Por tais aspectos, o conceito de transculturalismo nos parece essencial e pertinente para esta pesquisa científica, uma vez que o que almejamos alcançar não são verdades absolutas, mas indícios e perspectivas de que, nos discursos selecionados por nós, manifesta-se uma temática transcultural na construção das vozes de liberdade que ecoam em diferentes partes do mundo sob as mesmas bases, ainda que, neste trabalho, tenhamos nos limitado aos Estados Unidos da América e ao Brasil.
Esse ponto é relevante e central para essa pesquisa, uma vez que a Análise Crítica do Discurso (ACD) se propõe a ser uma adição necessária aos Estudos Culturais, tomando por base que os processos políticos – incluídas as próprias alocuções políticas – são constitutivos do mundo social e não podem ser analisados isoladamente, tal como nossa hipótese investigativa indica.
sentido por elas produzidos. Refletimos no fato de que essa relação é sempre estabelecida em um momento histórico determinado, o que nos permite perceber o caráter intrinsecamente histórico da produção de qualquer discurso.
O homem, um ser histórico por excelência, não consegue se furtar das marcas sócio-históricas, ideológicas e culturais, o que o leva, com avidez, a tentar entender os mistérios de seu passado. Os discursos proferidos em momentos de um passado remoto podem ser considerados um ato individual de linguagem exercido por um indivíduo, que fala naquele momento, sendo um ato de enunciação que é, em essência e em realidade, nada mais do que sua própria história. Produzir um enunciado passa, então, a ser um evento sócio-histórico-ideológico-cultural, que é, em sua essência, história.
Acreditamos, pelo levantamento das ideias desses autores que contribuem para essa pesquisa, que os dizeres produzidos são sempre impregnados de ideologia, outro termo de difícil definição. O que queremos, mais do que pontuar definições ou chegar a qualquer conclusão categórica, é levantar as problemáticas ligadas à ideologia, já que, ao permear os ditos, acabam por fornecer uma interpretação do funcionamento daquela sociedade e dos diferentes grupos sociais que a compõem.
Ressaltamos as ideias do filósofo russo Mikhail Bakhtin de que não é possível dissociar uma forma linguística de seu conteúdo ideológico, já que as palavras são impregnadas de “um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”. Destacamos também a visão de Hall que chama nossa atenção para o poder da ideologia, a que chamou de “problema da ideologia”. Este é que, ao tentar explicar o surgimento das ideias sociais, coloca a ideologia como baliza das interpretações, fazendo com que os grupos sociais se vejam, inevitavelmente, aderidos ou em oposição a ela. Como não se pode negar aquilo que não existe, a própria negação da ideologia é uma forma de legitimá-la. Os muitos dizeres, ao serem repetidos ao largo da história por processos de interdiscursividade, carregam em si ideologias de outros tempos, sem que, muitas vezes, os falantes se apercebam disso, o que faz com que os próprios falantes contribuam para a perpetuação de modos de pensar, agir, sentir, frequentemente, sem a reflexão e criticidade necessárias para a disseminação de uma ideologia.
ponto de partida para justificar as decisões tomadas e para valorizar as opções que se têm. Cada historiador ao reconstruir narrativamente a história em um presente de maneira documental ou conceitual estaria abarcando passado e futuro, que se, por sua vez, se reenviariam um ao outro, de maneira assimétrica e diferente, fazendo com que a ideia de temporalização tomasse corpo. O presente exige a reinterpretação do passado para se representar, se localizar e projetar o seu futuro e cada presente seleciona um passado que deseja e lhe interessa conhecer. Pesquisamos que não devemos nos esquecer, no entanto, de que aquele que o reporta é um indivíduo historicamente localizado, com sua formação discursiva e ideológica, cuja narrativa construída é feita à luz do tempo e do espaço de sua enunciação.
Outro assunto que o terceiro capítulo aborda é a temática da liberdade. A origem desse interesse remonta a 2010: com a conclusão da graduação em Letras, esta pesquisadora apresentava o TGI Um breve estudo do conceito liberdade na cultura norte-americana: da colonização ao cyberspace e ao EFL. Nesse trabalho, na etapa de análise, houve o levantamento de termos relacionados à liberdade nos discursos de posse de todos os presidentes norte-americanos da história, de Washington (1789) a Obama (2009). Procuramos o registro do emprego da palavra “liberdade”, principalmente sob a forma de três termos em língua inglesa (liberty, freedom and free), sendo os dois primeiros respectivamente o substantivo “liberdade” e o terceiro o adjetivo “livre” ou o verbo “liberar”, em língua portuguesa.
Para tanto, a primeira parte da investigação apresentou uma contextualização histórica do objeto de estudo, buscando em documentos da história e discursos de posse dos presidentes daquele país menções de termos relacionados à liberdade, desde a época da chegada dos primeiros colonizadores às terras norte-americanas. Na segunda etapa, foram destacados os diferentes grupos sociais que habitavam a colônia inglesa ressaltando-se que a liberdade almejada, na prática, não era igual para todos que imigravam para a América do Norte. Em seguida, foram trazidos episódios marcantes do processo de independência dessas colônias e do período da Revolução Americana. Outras análises introduzidas brevemente foram as da Declaração da Independência de 1776 e da Constituição Americana de 1787 e suas Emendas, conhecidas como Declaração de Direitos dos Cidadãos, ou os “Alvarás da Liberdade” (“Charters of Freedom”) da história norte-americana.
mesmo construída por meio do discurso. Isso, porém, não foi o suficiente, e aproximou-nos, complementarmente, dos Estudos Culturais e suas especificidades para estabelecer a aproximação das ideias de liberdade norte-americanas às ideias brasileiras, para observá-las em seus respectivos contextos sócio-político-culturais a partir dos fatos históricos que os alicerçaram e serão expostos adiante.
1 CAPÍTULO I - O DISCURSO E O DISCURSO POLÍTICO
A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras. (Carlos Drummond de Andrade)
1.1 Elementos constitutivos do discurso: formações ideológicas e formações discursivas
O discurso é constitutivo da linguagem. O plano da linguagem do qual faz parte permite o entendimento e a percepção dos componentes constitutivos ou inerentes a ele, independentemente desse discurso ser ou não político. O questionamento que se faz passa a ser, então, o que difere o discurso político dos outros tipos de discurso. Antes disso, porém, se faz necessário definirmos discurso e texto, formação ideológica e formação discursiva, além de outros elementos considerados relevantes para o entendimento da questão pela perspectiva da Análise do Discurso (AD).
Bem anterior a AD, Aristóteles (384 - 322 a.C.), na Antiguidade, na obra Retórica, já versava sobre o que considerava serem os aspectos do discurso que serão desenvolvidos nos tópicos a seguir. Para o pensador grego, porém, a persuasão era a finalidade maior do discurso, como vemos no trecho:
São três os aspectos do discurso que têm que ser tratados. O primeiro, de onde provêm as provas; o segundo é relativo à expressão enunciativa; o terceiro, à forma como convém forçosamente organizar as partes do discurso. [...] é que todos os homens, ao fazerem um juízo, são persuadidos, ou porque são tomados por uma certa emoção, ou por considerarem que o orador possui certas qualidades, ou porque houve uma demonstração concludente [...]. Será necessário, agora, discorrer sobre a expressão. É que, na verdade, não basta possuir o que é preciso dizer, mas torna-se também forçoso expor o assunto de forma conveniente; e isto contribui em muito para demonstrar de que tipo é o discurso. (ARISTÓTELES, 2005: 241).
O termo discurso será entendido nessa dissertação, conforme veremos pela exposição dos teóricos ao longo deste capítulo, como a materialização das formações ideológicas, sendo determinado por elas. O texto, por outro lado, será considerado como o lugar de manifestação consciente, ou seja, o local em que o homem organiza os elementos de expressão que estão à sua disposição para veicular o seu discurso, de acordo com a situação contextualizadora de tempo, espaço e interlocução.
concretiza. De acordo com suas ideias, a ideologia funciona na reprodução das relações de produção, pela interpretação ou assujeitamento do sujeito, como sujeito ideológico. Cada indivíduo é levado a ocupar seu lugar em um dos grupos ou classes de uma determinada formação social, dando a falsa impressão de que seria o senhor de sua própria vontade, sendo que, de fato, é um representante de seu grupo, reproduzindo as ideias de sua classe social.
A formação ideológica tem como um de seus componentes as formações discursivas, querendo dizer que os discursos são governados por elas. Neste sentido, outra autora brasileira a fazer um levantamento histórico para a AD acerca do termo é Brandão que afirma que as formações discursivas “em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação de classe, determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada em
uma conjuntura dada” (BRANDÃO, 1998: 38). Correa, igualmente, relata em seus
apontamentos que a noção de formação discursiva foi elaborada por Pêcheux – fundador da linha de Análise do Discurso francesa - a partir das proposições de Foucault, importante historiador francês que desenvolveu seu trabalho em torno da Arqueologia do saber filosófico, e apresenta dois tipos básicos de funcionamento: o da paráfrase e o do pré-construído. A primeira vê a formação discursiva como um sistema de constante retomada e reformulação dos enunciados, como forma de preservar sua identidade. Já a segunda, leva em conta o que a AD chama de pré-construído, ou seja, as construções anteriores e exteriores, ou o interdiscurso, que se diferenciam do que é construído pelo enunciado (CORREA, 2006: 52).
Podemos, assim, dizer que o texto é o lugar da subjetividade e o discurso é o reflexo das condições de sua produção, havendo entre eles uma íntima conexão passível de análise. Quando analisamos a textualização produzida, podemos tecer um juízo quanto ao nível de liberdade utilizado pelo sujeito e, em contrapartida, no nível discursivo, realizar a análise no âmbito da ligação entre o sujeito, os temas e as figuras da formação discursiva e social nas quais está envolvido desde o seu nascimento.
O que é produzido por um sujeito perde, assim, o seu ineditismo e a utilização de outros dizeres e citações acaba por permear as formações discursivas de todos, trazendo à baila questões interdiscursivas. Nas palavras de Bakhtin: “Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra em um mundo virgem, ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua orientação dialógica do discurso alheio para o objeto.” (BAKHTIN, 1988: 88).
um fenômeno ideológico, toda interação social que age sobre um indivíduo representa seu tempo, espaço e contexto de inserção, sendo inevitavelmente impregnado de uma lógica de comunicação ideológica.
Como o homem é um ser gregário, podemos dizer que tais processos são provenientes do discurso dos outros, daqueles que convivem com ele, de suas leituras, sua inserção sociocultural, de forma que o fazem pertencer a uma mesma esfera de realidade de seu contexto imediato. A conscientização da individualidade, assim como seus direitos e deveres ficam, então, condicionados à história, à ideologia e aos fatores sociais vivenciados pelo grupo a que se pertence. O discurso, assim, é revelador de uma carga sócio-ideológica que pertence ao sujeito-falante, é produto de sua formação discursiva, que ao mesmo tempo o constitui e o identifica tanto em relação a si mesmo, quanto em relação a quem ele fala (o EU e o TU). O discurso passa a ser uma prática que produz efeitos de sentido possíveis de serem apreendidos por seus locutores (EU) e alocutários (TU/VÓS/VOCÊS) em um determinado contexto histórico-espaço-social de acordo com as condições de produção que os definem.
Bakhtin afirma que “Todo produto da ideologia leva consigo o selo da individualidade do seu ou dos seus criadores, mas este próprio selo é tão social quanto todas as outras particularidades e signos distintivos das manifestações ideológicas.” (BAKHTIN, 1992:59). Assim, todo signo, inclusive o da individualidade, é social, ou seja, até mesmo na construção identitária individual, as marcas do grupo social e cultural do qual advimos são indeléveis.
Procuraremos observar a tendência totalizante de um sujeito-autor que estabelece uma relação de dominância de uma formação discursiva sobre as outras na constituição do texto, com a forte tendência de apagamento das demais vozes contrárias a ela. Esse efeito ideológico de dominância e a aderência do alocutário ao discurso do locutor é que procuraremos estudar em alguns discursos acerca da liberdade. Como cada falante constrói uma imagem de si, dependendo do público para o qual se dirige, podemos ver, na dêixis enunciativa que se instaura na comunicação, um jogo de máscaras que se sobrepõe de acordo com as situações sócio-histórico-psico-culturais daquela dada situação.
tornando-se, assim, ainda de acordo com o que pensa o autor, o símbolo da identificação, passível de se confundirem a pessoa e o personagem, como no teatro grego.
Se o sentido nasce do ato de linguagem, como o resultado do encontro entre um sujeito que enuncia e de outro que interpreta – o enunciatário de Maingueneau, como veremos posteriormente - Charaudeau afirma que a identidade dos sujeitos é uma imagem co-construída neste ato de linguagem:
[...] pode-se dizer que a identidade desses sujeitos não é nada mais que a imagem co-construída que resulta desse momento. Assim, cada um é para o outro apenas uma imagem. Não absolutamente uma imagem falsa, uma aparência enganosa, mas uma imagem que é o próprio ser em sua verdade da troca. Nesse momento, a máscara seria o nosso ser presente; ela não dissimularia, ela nos designaria como sendo nossa imagem diante do outro. (CHARAUDEAU, 2008: 8).
O discurso político tem suas próprias condições e estratégias das quais os atores políticos se valem com o intuito de persuadir e seduzir seus interlocutores, com o objetivo de obter domínio na prática social, sempre lembrando que o discurso político, assim como qualquer outro, se vale da linguagem e de contextos sócio-histórico-culturais para se efetivarem. Tais elementos fazem parte do que chamaremos de dêixis enunciativa que será definida a seguir.
1.2 A dêixis enunciativa
Maingueneau, em Novas Tendências em Análise do Discurso, define a dêixis enunciativa como “as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação, ou seja, o conjunto de referências articuladas pelo triângulo: EU TU – AQUI–AGORA”. (MAINGUENEAU, 1997: 41). Utilizaremos, nessa análise, os termos EU/NÓS para designar o enunciador; enunciatário/alocutário/interlocutor para o TU; e ELE, para a não-pessoa; o AQUI será o lugar de onde se fala e o AGORA o tempo do qual se fala, na dêixis enunciativa do corpus em questão.
visão, um processo que se desenvolve fora da relação da subjetividade, não se referindo a um indivíduo específico.
Antes deles, e talvez a base primordial para todos, Aristóteles, na Retórica, afirma que há três elementos no discurso: “Com efeito, o discurso comporta três elementos: o orador, o assunto de que fala, e o ouvinte; e o fim do discurso refere-se a este último, isto é, ao ouvinte.” (ARISTÓTELES, 2005: 104).
Charaudeau (2009: 67-68) também elenca alguns princípios de organização do discurso destacando que o ato de comunicação constitui-se num dispositivo cujo centro é ocupado por um sujeito falante – o locutor, que fala ou escreve – em relação a um parceiro – o interlocutor. A situação de comunicação caracteriza-se, em sua visão, peloenquadramento físico e mental dos parceiros nessa troca, determinados por uma identidade (psicológica e social) e conectados por um contrato de organização. Os modos de organização do discurso mostram-se, então, os princípios de organização da matéria linguística, dependentes da finalidade comunicativa do sujeito, a saber, enunciar, descrever, contar e argumentar. A língua é, então, o veículo ou material verbal que confere a forma e o sentido e, finalmente, o texto, o resultado material do ato de comunicação – as escolhas conscientes e inconscientes do sujeito falante. Assim, a comunicação mostra-se como algo complexo que está correlacionada com o procedimento de uma “encenação”, uma vez que, para produzir os efeitos de sentido desejados, o falante se utiliza de componentes da comunicação em função dos efeitos que pretende produzir em seu interlocutor (CHARAUDEAU, 2009: 68).
Amossy faz uma retrospectiva dos teóricos que considera como os principais das ciências da linguagem, que consideramos ser relevante para nossa análise; nela, destaca a questão da inscrição do locutor no discurso. Amossy destaca que Benveniste introduziu a ideia de quadro figurativo, no qual a enunciação instaura figuras de igual necessidade, uma de origem e outra de destino, quer dizer, um locutor e um alocutário. (BENVENISTE 1974, apud AMOSSY 2008: 11). A autora também cita Pêcheux que afirmou, certa vez, que, na enunciação, há a instauração de um jogo de imagens entre o locutor e o interlocutor que se dá da seguinte forma: “o emissor A faz uma imagem de si mesmo e de seu interlocutor B; reciprocamente o receptor B faz uma imagem do emissor A e de si mesmo”. (PÊCHEUX 1969, apud AMOSSY 2008: 11).
marcas das competências não-linguísticas (ditas culturais) dos interlocutores, compreendidas nos dados situacionais que compõem o universo do discurso” (KERBRAT-ORECCHIONI 1980, apud AMOSSY 2008: 11). Essas marcas incluíram, assim, os elementos do triângulo já mencionado (EU TU – AQUI–AGORA) e englobam também os elementos culturais e históricos tácitos, os quais veremos em maior detalhe ao longo dessa dissertação.
Avançando em sua interpretação, Amossy ressalta os estudos de Maingueneau, que utiliza exatamente o discurso político como exemplo relevante na compreensão da noção de ethos – a ser, neste trabalho, apresentado em maior detalhe no tópico a seguir. Para que possamos entender a relação entre ethos e a cenografia envolvida, Amossy afirma que, em sua visão, “a noção de ethos se desenvolveu de forma articulada à de cena da enunciação” (AMOSSY, 2008: 16), acrescentando que, se cada tipo de discurso comporta uma distribuição pré-estabelecida de papéis, o locutor pode escolher sua cenografia, mais ou menos livremente. Utilizamos nesta análise da ideia de voz e não a de tom, mas consideramos relevante ver como a autora elucida tal circunstância:
No discurso político, por exemplo, o candidato de um partido pode falar a seus eleitores como homem do povo, como homem experiente, como tecnocrata etc. É nesse contexto que a noção de ethos adquire, para Maingueneau, toda sua importância. O autor a relaciona à noção de tom, que substitui com vantagens a de voz, à medida que remete tanto a escrita
quanto à fala. Por sua vez, o tom se apóia sobre uma “dupla figura do
enunciador, a de um caráter e de uma corporalidade”. (AMOSSY, 2008: 16).
O candidato adota uma fala de acordo com a cena em que seu discurso é proferido – quem fala, fala para alguém em um aqui e um agora, de uma certa maneira. Amossy acrescenta que “a maneira de dizer autoriza a construção de uma verdadeira imagem de si” que contribui para uma inter-relação entre o locutor e seu parceiro e “a imagem [de si] quer causar impacto e suscitar a adesão [ao discurso]”, fazendo com que o ethos esteja ao mesmo tempo ligado ao “estatuto do locutor e à questão de sua legitimidade, ou melhor, ao processo de sua legitimação pela fala” (AMOSSY, 2008: 16-17).
Para a autora, é dessa forma que a AD “encontra a sociologia” ao privilegiar “os imbricamentos de um discurso e de uma instituição”, indo também, por outro lado, ao encontro da retórica (por meio dos estudos de Maingueneau) que retoma a ideia de discurso eficaz, bem distinto da consideração de discurso como uma “coleção de procedimentos a serviço de um conteúdo que procura encontrar uma forma” (AMOSSY, 2008: 17).
passaremos, a seguir, a um breve retrospecto do conceito de ethos, o qual será central para a análise do corpus dessa dissertação.
1.3 O Ethos Discursivo
No livro Ethos Discursivo, no capítulo intitulado “A propósito do ethos”, de Maingueneau, o autor alerta para “[...] a ideia de que, ao falar, um locutor ativa em seus destinatários uma representação de si mesmo, procurando controlá-la [...]” e que “[...] com frequência somos tentados a recorrer a essa noção de ethos, dado que ela constitui uma dimensão de todo ato de enunciação.” (MAINGUENEAU, 2008: 12). Em outras palavras, da mesma forma que a noção de ethos faz parte de qualquer ato enunciativo, a ideia instintiva de que o enunciador remete os enunciatários a uma imagem de si mesmo, pode nos levar a equívocos, pela falta de conhecimento das condições de produção de um discurso. Por essa razão enumeraremos algumas reflexões do autor acerca do conceito desde o tempo clássico até agora, uma vez que seu texto esboça uma retrospectiva histórica do termo ethos que se mostra relevante e pertinente para esse estudo.
Maingueneau (2008: 12) propõe que, ao sermos confrontados com uma noção de ethos, definamos por qual disciplina ela é mobilizada, no interior de que rede conceitual e com que olhar. Por exemplo, uma visão de ethos que vise principalmente às interações conversacionais responde a questões empíricas efetivas - baseadas na experiência - com particularidades relativas a uma zona pouco explorada de nossa relação com a linguagem (AUCHLIN 2001, apud MAINGUENEAU, 2008: 12). Essa visão nos obriga a inscrever a visão de ethos a uma problemática precisa, que privilegia uma ou outra faceta, inserindo a problemática do ethos em uma perspectiva científica, descartando a visão intuitiva de ethos.
ethos, sendo esse produzido pelo discurso, que confere ao orador a condição de ser digno de fé por meio da identificação do grupo com o orador.
Vejamos, inicialmente, como o pensador grego define a retórica: “Entendamos por retórica a capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso com o fim de persuadir.” (ARISTÓTELES, 2005: 95). Conforme mencionado anteriormente, a Retórica não está restrita a nenhum gênero específico, nem mesmo na visão de Aristóteles: “É, pois, evidente, que a retórica não pertence a nenhum gênero particular e definido, antes se assemelha à dialética.” (ARISTÓTELES, 2005: 94). Ele faz a ressalva de que a retórica é um assunto complexo, a qual os autores de sua época, assim como os anteriores, não abordaram em sua totalidade, como vemos no excerto:
Ora, os que até hoje compuseram tratados de retórica ocuparam-se apenas de uma parte dessa arte; pois só os argumentos retóricos são próprios dela, e todo o resto é acessório [...] porque o ataque verbal, a compaixão, a ira e outras paixões da alma semelhantes a esta não afetam o assunto, mas sim o juiz. (ARISTÓTELES, 2005:90)
Ainda em suas palavras, a capacidade de persuasão dos oradores depende de três causas primordiais, como se vê no livro II da Retórica, em um capítulo chamado de “A Emoção”:
Três são as causas que tornam persuasivos os oradores, e a sua importância é tal que por elas nos persuadimos, sem necessidade de demonstrações: são elas a prudência, a virtude e a benevolência. Quando os oradores recorrem à mentira nas coisas que dizem ou sobre aquelas que dão conselhos, fazem-no por todas essas causas ou por algumas delas. Ou é por falta de prudência que emitem opiniões erradas ou então, embora dando uma opinião correcta, não dizem o que pensam por malícia; ou sendo prudentes e honestos não são benevolentes; por isso, é admissível que, embora sabendo eles o que é melhor, não o aconselhem. (ARISTÓTELES, 2005: 160).
De acordo com essas ideias, Maingueneau (2008: 13), revisitando o trecho acima, afirma que, para dar uma imagem positiva de si, o orador pode valer-se de três qualidades fundamentais: a phronésis ou prudência, a arétê ou virtude, e a eunóia ou benevolência. Essas três características são marcantes no discurso em geral, mas destacam-se no discurso político. Se faltar prudência (phronésis) a um político ao falar ou aconselhar, ele não será razoável. Caso seja prudente, porém, talvez cale certas opiniões por desonestidade, então, lhe faltará virtude (arétê). Finalmente, se forem prudentes e virtuosos podem ainda não ser benevolentes (eunóia) e mesmo sabendo o melhor caminho a seguir podem não fazê-lo.
ponderação (a phronésis), de simplicidade sincera (a arétê), de amabilidade (a eunóia)” (CHARAUDEAU, 2008: 113).
Outro ponto que deve ser ressaltado é que tampouco o termo ethos em grego tinha um valor unívoco, tanto na retórica, quanto na moral, ou na política, e também na música, em cada uma, o termo se prestava a múltiplos sentidos. Em Aristóteles (MAINGUENEAU, 2008: 15), na Ética a Nicômaco, ou na Política o termo ethos era empregado como caráter característico de um grupo. Já na Retórica, ethos não tinha um sentido estável, e dependia do auditório - monárquico ou democrático -, da idade e até da fortuna ou classe social dos presentes. Pela visão aristotélica, em função do auditório, o orador construía uma imagem, de acordo com o quê era considerada virtude para ele. Só se criaria persuasão quando o auditório pudesse ver no orador um homem que tinha o mesmo ethos que ele. Em última instância, a persuasão se dá, para Aristóteles, pela identificação do ethos característico do auditório com o ethos produzido pelo discurso no ato da enunciação, o que o filósofo chama, na Retórica, de juiz:
Além disso, é manifesto que o oponente nenhuma outra função tem que a de demonstrar que o fato em questão é ou não é verdadeiro, aconteceu ou não aconteceu; quanto a saber se ele é grande ou pequeno, justo ou injusto, não havendo uma definição clara do legislador, é certamente ao juiz que cabe decidir, sem cuidar do que pensam os litigantes. (ARISTÓTELES, 2005: 91).
Ainda sobre a questão do juiz e sobre a divisão do auditório por faixas etárias, ou, em outro momento, em classes sociais, Aristóteles em Ética a Nicômaco afirma:
Cada um discerne corretamente apenas em matérias que conhece, e também a respeito delas que é um bom juiz. Discerne corretamente em cada matéria particular aquele que passou por um processo de educação; simplesmente, bom juiz é quem passou por um processo de educação acerca de tudo. É por isso que o jovem não será especialmente entendedor da perícia política, porque é inexperiente nas situações que se constituem ao longo da vida. (ARISTÓTELES, 2009:19).
Charaudeau ressalta que, na Antiguidade, havia duas filiações: a de Isócrates, Cícero e dos retóricos da Idade Clássica “para quem o ethos é um dado preexistente ao discurso”, pois para eles, parece mais virtuoso, sincero e amável quando se é, de fato, virtuoso, sincero e afável e a de Aristóteles, que sugere que “o orador deve mostrar [seus traços de personalidade] ao auditório [pouco importando sua sinceridade] para causar boa impressão.” (CHARAUDEAU, 2008: 114). O autor ressalta ainda que há os que inscrevem o ethos em uma concepção discursiva, quer dizer, no ato da enunciação, ou, em suas palavras, “no próprio dizer do sujeito que fala”, posição defendida entre os analistas do discurso, como Maingueneau. Cita Maingueneau para ilustrar o que quis dizer: “O ethos está [...] ligado ao exercício da palavra, ao papel a que corresponde seu discurso, e não ao indivíduo ‘real’, apreendido independentemente de sua atividade oratória.” (MAINGUENEAU 1993, apud CHARAUDEAU, 2008: 114).
Em estudos mais recentes foram apontados problemas na visão de ethos aristotélica tal como o fato de o público construir uma representação do enunciador mesmo antes dele falar, o que é chamado de ethos pré-discursivo. Outro fator apontado é que interagem na elaboração do ethos fenômenos de diversas ordens tais como elementos discursivos, afetivos, linguísticos, ambientais entre outros. O ethos é visto atualmente como um comportamento que articula o verbal e o não-verbal, provocando nos destinatários efeitos multissensoriais (MAINGUENEAU, 2008: 15-16).
Em um panorama mais recente do conceito, Maingueneau destaca ainda que para Barthes a eficácia do ethos está no fato de ele se misturar em qualquer enunciação sem ser explicitamente enunciado. Barthes apontou que Aristóteles falava sobre traços de caráter que o orador deveria mostrar ao auditório para lhe causar uma boa impressão, independendo de sua real sinceridade. Por essa visão, o orador enuncia uma informação e ao mesmo tempo diz: “eu sou isto aqui, não aquilo lá” (BARTHES 1970, apud MAINGUENEAU, 2008: 13).
Maingueneau ressalta ainda que, para Ducrot, o ethos se mostra no ato da enunciação; não é dito no enunciado, mas está em um segundo plano da enunciação e pode ser percebido em elementos como a cadência, a entonação, a própria escolha das palavras, dos argumentos, pelos gestos, olhares, gesticulações, pela postura, pela aparência, pela indumentária, ou seja, por elementos tácitos (DUCROT 1984, apud MAINGUENEAU, 2008: 13). Em suma, todos os signos de elocução e de oratória, por meio dos quais o orador dá uma imagem psicológica e sociológica de si mesmo, constituem seu ethos.
a uma forma de dizer e a traços exteriores, tal qual o fluxo de fala ou dos gestos, dados no momento da enunciação. Os movimentos da própria fala do locutor o constroem. O ethos age em um segundo plano e mobiliza a afetividade do destinatário. É assim que ele traça os princípios mínimos da problemática do ethos destacando que o ethos é uma noção discursiva, que se constrói por meio do discurso e que não é uma imagem exterior a sua fala. É fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro, sendo uma noção híbrida, sócio-discursiva, na qual o comportamento é socialmente avaliado, numa dada situação de comunicação, numa conjuntura sócio-histórica.
O autor, após fazer essa revisão histórica, propõe a sua própria visão de ethos, adotada nessa análise. Para começar, Maingueneau se vale do conceito de “fiador”. Tal ideia alarga o alcance de ethos para textos orais e escritos sendo válido também para todos os tipos de textos. Segundo essa visão, todos os textos têm uma ‘vocalidade’ que pode se manifestar numa multiplicidade de ‘tons’ (escritos e orais). O fiador é, então, uma concepção “encarnada” de ethos, termo apropriado do teórico Auchlin, (MAINGUENEAU, 2008: 18), que implica, ele mesmo, em um “mundo ético”, engloba o verbal e o não-verbal, as representações estereotípicas coletivas, os traços psicológicos, os comportamentos, elementos subentendidos, etc., e lhe conferem uma ‘corporalidade’ e um ‘caráter’, conforme mencionamos anteriormente (MAINGUENEAU, 2008: 17-18). A persuasão se dá, então, pelo caráter ou ethos, sendo esse produzido pelo discurso que confere ao orador a condição de ser digno de fé, tal qual na concepção aristotélica. A confiança, entretanto, é um efeito do discurso e não uma previsão sobre o caráter do orador. Conclui que é melhor entendermos o ethos como um nó gerador de múltiplos desenvolvimentos possíveis para não nos fixarmos em apenas uma definição dentre as possíveis.
falar não são as mesmas, desvelando estereótipos de comportamento, entre outros aspectos, que participam da composição do ethos discursivo na enunciação (MAINGUENEAU, 2008: 19).
O ethos efetivo constitui-se, pela visão do linguista francês, no resultado da interação entre o ethos pré-discursivo e o discursivo, subordinado aos conceitos de ethos dito e mostrado. O ethos mostrado é diretamente evidenciado na enunciação, enquanto o dito é sugerido por meio de metáforas, de alusões entre outras formas de sugestão. Tanto o ethos pré-discursivo – imagem que começa a ser feita mesmo antes do locutor começar a se pronunciar –, quanto o discursivo estão, nesse sentido, subordinados aos estereótipos ligados aos mundos éticos, fazendo com que o ethos efetivo construa-se pela interação dessas diversas instâncias (MAINGUENEAU, 2008: 19), conforme fica evidente no quadro a seguir, retirado da página indicada:
ETHOS EFETIVO
ethos pré-discursivo ethos discursivo
ethos dito ethos mostrado
estereótipos ligados aos mundos éticos
Charaudeau considera dois aspectos em relação ao que chama de ethos pré-construído e construído, sendo que estes englobam aspectos de identidade social e legitimidade, dois aspectos analisados mais detidamente a seguir. Quanto à questão do ethos propriamente dito, o autor também se posiciona diferenciando o locutor real do ethos discursivo salientando haver um cruzamento de olhares que abarca a imagem pré-construída daquele que fala, somada às impressões obtidas na própria manifestação linguística, no ato da linguagem, como vemos no excerto:
Podemos concluir pelas visões desses teóricos que os sentidos cruzados entre o ethos discursivo e o locutor real ocorre porque atribuímos ao locutor as características do discurso, ou seja, as características lá construídas pelo uso da linguagem e demais elementos supracitados, fazendo com que tais características sejam atribuídas ao locutor real. Um paralelo pode ser feito em relação à atribuição das características dos narradores construídos nas obras aos escritores reais, ou ainda aos que atribuem aos atores às personalidades das personagens por eles interpretadas. Da mesma forma, não raro, atribuímos aos políticos ou aos oradores de um discurso, ou seja, ao locutor real, as caraterísticas do ethos discursivo construídas no ato da linguagem no momento da enunciação.
A respeito disso Amossy afirma ser importante não confundirmos as instâncias internas do discurso – que são ficções discursivas – com o ser empírico, o qual se situa fora da linguagem (AMOSSY, 2008: 14). A autora destaca que pela visão pragmático-semântica o sujeito real é abandonado e o interesse é posto na instância discursiva do locutor, mas “o faz colocando em xeque a sua unicidade.” (AMOSSY, 2008: 14), uma vez que pressupõe que o sujeito está fragmentado entre as instâncias internas do discurso e o ser real empírico situado fora dessas instâncias. Por essa visão a pragmático-semântica diferencia o locutor (L) do enunciador (E) que é a origem das posições expressas pelo discurso e é responsável por ele, dividindo o locutor em (L), ficção discursiva, e em “λ”, ou o ser no mundo, aquele de quem se fala. Será na linguagem que tais instância se consubistanciarão.
1.4 Linguagem, ação e ação política
Por serem pertencentes à troca social, a linguagem e a ação são instâncias relativamente autônomas, embora concomitantemente interdependentes. Charaudeau afirma acreditar que todo ato de linguagem emana de um sujeito em relação ao outro – de acordo com um princípio de alteridade –; esse sujeito não cessa de trazer para si o outro – em um princípio de influência -; e se esse outro sujeito puder ter seu próprio projeto de influência, haverá um gerenciamento da relação, por meio de um princípio de regulação desse sistema (CHARAUDEAU, 2008: 16).
de submissão à posição do sujeito que fala” (CHARAUDEAU, 2008: 17), tanto por ameaça, quanto por possibilidade de gratificação, a relação configurará uma sanção que confere àquele que fala alguma autoridade, havendo um dominado e um dominador na relação. Por essa razão, Charaudeau conclui: “Assim, pode-se dizer que todo o ato de linguagem está ligado à ação mediante as relações de força que os sujeitos mantêm entre si, relações de força que constroem simultaneamente o vínculo social.” (CHARAUDEAU, 2008: 17).
Amossy também aborda a questão da linguagem e da ação ao discorrer a respeito da noção de ethos sob o enfoque da pragma-semântica definida como “uma teoria que enfatiza a fala como ação que visa a influenciar o parceiro” sendo, em outras palavras, o interesse pelo discurso em ato e por sua eficácia (AMOSSY, 2008: 15). Afirma que há uma distinção entre a argumentação dos retóricos - a qual visa a persuadir-, e uma abordagem verdadeiramente pragma-semântica que considera a argumentação como uma lógica de encadeamentos de enunciados da própria língua:
De fato, a argumentação dos retóricos, interessados por certos usos argumentativos do discurso e pelas técnicas discursivas que visam a persuadir, tem apenas uma relação longínqua com a pragma-semântica, que considera que a argumentação, definida como a lógica dos encadeamentos de enunciados, está escrita na língua. (AMOSSY, 2008: 15).
Se diferenciarmos a ação em geral da ação política, a última é idealmente determinada pela vida social, uma vez que a ação política organiza a vida tendo em vista a obtenção do bem comum ao permitir que uma comunidade tome decisões coletivas (CHARAUDEAU, 2008: 17). Se as decisões são coletivas, Charaudeau ainda destaca que as características dessa ação se encontram modificadas em relação às decisões individuais. Para que as decisões sejam de fato coletivas é necessária a elaboração de um projeto comum por indivíduos que tenham um objetivo comum; é preciso que haja um compromisso de ação sob responsabilidade do coletivo por meio de um representante; e, finalmente, é necessário que se discutam os meios escolhidos para que esse representante as utilize. Tal representante, por sua vez, terá que prestar contas de seus atos perante a coletividade, a qual deve prever meios de controle para eles (CHARAUDEAU, 2008: 18). O resultado disso tudo é:
Bem antes disso, Aristóteles afirmava sobre a perícia política, ação e o legislar, em Ética a Nicômaco:
Parece, contudo, haver uma opinião formada de que terá que dizer respeito à mais autêntica de todas as ciências e àquela que melhor é capaz de projetar a partir de princípios fundamentais. Tal parece ser a perícia política, porquanto é ela mesma que determina quais são as ciências necessárias aos Estados e quais são aquelas que da classe de cidadãos deve aprender, e até que ponto. [...] Mas a perícia política não faz apenas uso das restantes outras perícias que dizem respeito à ação, ela ainda legisla a respeito do que deve fazer e de que coisas se têm que evitar. (ARISTÓTELES, 2009: 18).
Acrescenta ainda que, “Os que são sofisticados, contudo, e se dedicam à ação prática supõem, antes ser a honra. Na verdade, a honra quase que é o fim último da vida dedicada à ação política.”, e a isso, adiciona posteriormente, na mesma página, “parece que os homens perseguem a honra para se convencerem de que são bons” (ARISTÓTELES, 2009: 21). O aluno de Platão, há cerca de 2300 anos, parece deixar, em suas conjecturas, um sábio conselho a posteridade: “A vida dedicada à obtenção de riqueza é de certa forma uma violência e a riqueza não será manifestamente o bem de que estamos à procura [...] porque são queridos (os fins) por si próprios.” (ARISTÓTELES, 2009: 22). Essas reflexões aristotélicas parecem ir ao encontro das ideias de Charaudeau de que a ação política depende de um espaço de discussão, uma vez que ao tentarem se convencer de que são bons os políticos estão, em ultima instância, preocupados com a opinião publica presente no espaço de discussão, seja o da polis ou o da mídia moderna.
Sobre a ação propriamente dita, Aristóteles afirma na supracitada obra: “Uma vez que o tratamento do assunto não é motivado por nenhuma especulação teórica [...] é necessário examinar o que diz respeito às ações. Isto é, como tem de ser levadas à pratica.”. E complementa: “É que as ações são, tal como dissemos, decisivas para a produção das qualidades das disposições permanentes de caráter (ethos).”, ou ainda, “O agir tem de ser, tal como é comumente aceito, estabelecido de acordo com o sentido orientador [prático].” (ARISTÓTELES, 2009: 42).
Concluímos, assim, que a ação política, tal qual outra ação, é concomitante e interdependente da linguagem embora também seja autônoma, o que nos conduz à questão das instâncias implicadas nessa ação política.
1.5 A questão das instâncias