3 CAPÍTULO III – AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DOS DISCURSOS E A NOÇÃO DE
3.4 Roosevelt e Vargas no contexto histórico-ideológico-cultural
Gerson Moura, historiador e cientista político brasileiro já mencionado aborda a perspectiva da penetração cultural norte-americana em seus estudos, em especial no livro Tio Sam chega ao Brasil de 1986. Afirma que a década de 1940 foi marcada pela presença cultural maciça dos EUA no Brasil e pela infusão do American way of life (o jeito de viver norte- americano) em nossas vidas:
A presença econômica, menos visível, era bem anterior e certas manifestações culturais, como o cinema de Hollywood, já inculcavam valores e ampliavam mercados no Brasil. Mas a década de 40 é notável pela presença cultural maciça dos Estados Unidos, entendendo-se cultura no sentido amplo dos padrões de comportamento, das substância dos veículos de comunicação social, das expressões artísticas e dos modelos de conhecimento técnico e saber científico. O traço comum às mudanças que então ocorriam no Brasil na maneira de ver, sentir, explicar e expressar o mundo era a marcante influência que aquelas mudanças recebiam do “american way of life”. (MOURA, 1986: 8).
Moura relata que na prática, foi a partir da década de 1940 que os brasileiros passaram a substituir os sucos de frutas tropicais por coca-cola, trocar os sorvetes caseiros e de sorveterias nacionais por Kibon, aprenderam a mascar chiclets, passaram a ouvir fox trot, jazz e o boogie- woogie, a ver mais filmes de Hollywood e a voar nas asas da Panair (Pan American). A isso tudo ele acrescenta que os brasileiros “começaram a usar palavras novas que foram se incorporando à língua falada e escrita” e sobre os resultados da Política de Boa Vizinhança ainda acrescenta “A boa vizinhança se apresentava como uma avenida larga e de mão dupla, isto é, um intercâmbio de valores culturais entre as duas sociedades. Na prática, a fantástica diferença de recursos de difusão cultural dos dois países produziu uma influência de direção praticamente única, de lá para cá.” (MOURA, 1986: 9).
O imperialismo norte-americano teve, desde então, um sucesso sem precedentes na exportação de padrões de comportamento, hábitos de consumo e gostos artísticos, como vemos no mundo hoje em dia, o que praticamente universalizou o American way of life a partir da década de 1950 (MOURA, 1986: 11). Para Moura essa “fantástica difusão cultural norte-
americana” após a II Guerra Mundial não foi aleatória e sim decorrente de acordos com planejamento estratégico-ideológico e mercadológico que assegurassem as políticas econômicas norte-americanas no continente, como se vê no excerto:
Este livro pretende demonstrar que o imenso impacto cultural que se produziu como resultado dessa presença norte-americana no Brasil não foi aleatório, mas obedeceu a um planejamento cuidadoso de penetração ideológica e conquista de mercado. Além disso, pretende mostrar que esse processo de exportação cultural era parte integrante de uma estratégia mais ampla, que procurava assegurar no plano internacional o alinhamento do Brasil (e da América Latina) aos Estados Unidos, país que naquele momento procurava afirmar-se como uma grande potência e centro de um novo sistema de poder no plano internacional. (MOURA, 1986: 11-12).
Tota afirma, sobre a aproximação cultural entre os países, que ela data do fim da década de 1930 e. ainda, que não há como negar o fato da Segunda Guerra Mundial ser o ponto de virada na história das relações culturais entre o Brasil e os Estados Unidos. Ressalta que a ideia de uma Política da Boa Vizinhança, que incluía a cultura na agenda internacional, foi pensada algumas décadas antes, na gestão do republicano Herbert Hoover que fez um discurso no qual usou a expressão good neighbor, que seria adotada por Roosevelt em 1933 (TOTA, 2000: 28).
A crítica a essa penetração cultural ficou restrita aos artistas e opositores em território nacional, além da exportação, predominantemente no plano artístico, de alguns poucos produtos como Carmem Miranda – “A Pequena Notável” – e o personagem da Disney Zé Carioca, sempre com pitadas de exotismo que os tornava palatáveis aos padrões norte- americanos. Sobre isso Moura afirma: “Esse “tempero” tendia a transformar a América Latina numa unidade indistinta em suas manifestações culturais, pondo-nos todos a usar sombreros mexicanos, a fazer a siesta e a dançar algo semelhante à rumba.” (MOURA, 1986: 10). Tota também aponta um incidente ocorrido com Carmem Miranda em terras brasileiras: quando cumprimentou a plateia com um “Good night, people.”: “A plateia julgava Carmem americanizada e algo vulgar, distante da ‘civilização dos becos de Paris’” (TOTA, 2000:17). Como o paradigma ainda era a Europa, e o da França em especial, Carmem teria se ofendido com o episódio e gravado “Disseram que eu voltei americanizada.”.
O autor afirma que não somente Carmem Miranda atingiu notoriedade nos EUA, mas o compositor Ary Barroso tornou-se tão popular no país quanto no Brasil, com a inclusão de “Aquarela do Brasil” no filme Alô, amigos de Walt Disney. Afirma ainda que: “Ary pôde comprovar essa popularidade pessoalmente quando viajou para Hollywood, no começo de 1944 [...] em diferentes bares e nightclubs que ia, logo o reconheciam e pediam que tocasse “Aquarela do Brasil.” (TOTA, 2000: 103).
Quanto aos críticos a essa difusão cultural norte-americana aqui no Brasil, Moura (1986: 11) destaca os compositores Gordurinha e A. Castilho ao proporem:
Só ponho bi-bop no meu samba quando Tio Sam pegar no tamborim
quando ele pagar no pandeiro e no zabumba quando ele entender que o samba não é rumba
Além dos versos de Assis Valente, outro crítico da americanização brasileira e da falta de contrapartida dessa penetração cultural:
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada.
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato...
Eu quero ver, eu quero ver
eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro
para o mundo sambar... (MOURA, 1986: 9-10).
Tota menciona outros compositores brasileiros críticos a essa penetração cultural, como Lamartine Babo, carioca do começo dos anos 30, e a composição chamada “Canção para inglês ver”, com ritmo calcado no fox e grafia das palavras em um inglês aportuguesado, a música é uma crítica ao estrangeirismo, como em um de seus versos: “Oh! yea! mai veri gud nait [...]” (TOTA, 2000:14). A frase “Está bem bom para inglês ver.” Seria de D. João, o príncipe regente que em 1808, que ao chegar a Salvador e ao ver a cidade toda iluminada a teria proclamado. Para o autor, os compositores criticavam o estrangeirismo como um todo, até mesmo o afrancesamento, como ocorrido na Semana de Arte Moderna (1922) e no movimento Antropofágico de 1928, de Oswald de Andrade. Tota afirma ainda: “Vivia-se, em meados dos anos 30, uma mudança de paradigma. A Europa liberal era relacionada com passadismos. A modernização vinha da América do Norte. Ou, para alguns, da Alemanha.” (TOTA, 2000:16).
Acerca das atividades postas em prática pelo Birô Interamericano, muitos ressaltam o fato de que elas foram muito distintas das que o discurso dos norte-americanos pregava. Primeiramente, na opinião de Moura “[...] o único tema que os norte-americanos estavam tentando vender aos seus vizinhos do sul era o da democracia, mas exatamente esse tema tinha escassa popularidade entre suas classes dominantes – a maior parte dos governos com os quais os EUA teriam que lidar nada mais eram do que ditaduras.” (MOURA, 1986: 24). Além disso a própria mensagem apregoada pela Política do Bom Vizinho ou Política da boa Vizinhança (Good Neighbor Policy) era tida como vaga e pouco dizia aos povos vizinhos de hemisfério. Para resolver o impasse foram convocados entendidos no assunto (especialistas em relações exteriores) para encontrar uma perspectiva comum aos países pan-americanos, dentre as quais destacou-se a defesa da liberdade, como vemos no excerto:
Por isso mesmo, o Birô convocou uma série de especialistas (especialmente das universidades) para debater uma “filosofia” para orientar sua ação. Estes peritos sugeriram então que o Birô se fixasse em temas que pudessem ser considerados valores comuns à civilização norte-americana, por um lado, e à civilização ibero-americana por outro. [...] As dificuldades evidentes levaram de encontrar valores comuns às duas civilizações levaram afinal o Birô a se fixar na ideia de panamericanismo – uma realidade fundada em ideais comuns de organização republicana, na aceitação da democracia como um ideal, na defesa da liberdade e dignidade do indivíduo, na crença na solução pacífica das disputas e na adesão aos princípios de soberania nacional – e cuja manifestação concreta seriam os programas de solidariedade hemisférica. (MOURA, 1986:24).
Moura conclui que o elemento perturbador dessa “filosofia” era o conceito de “democracia” que era referenciado mais como um ideal do que uma prática “[...] mas tinha que [se] fazer referência à democracia (mesmo que fosse um “ideal” a ser atingido) e aos direitos individuais, num continente em que os valores eram simplesmente ignorados.” (MOURA, 1986: 25). Isso fez com que a distância entre o discurso e as práticas políticas fossem abismais, levando o governo norte-americano a concluir que “os governos autoritários eram um meio de obter estabilidade política” o que fez Moura concluir: “Dessa perspectiva, a existência de um sistema interamericano e de uma colaboração hemisférica não dependiam de uma identidade de regimes ou aceitação de um ideário político comum às vinte repúblicas. Dependia tão somente da adesão à grande potência norte-americana. Estava em jogo uma questão de poder e não de princípios políticos.” (MOURA, 1986: 25). Os EUA seriam a encarnação dessa “filosofia” e desse ponto de vista, ou seja, um modelo a ser seguido no continente, o que nada mais era do que um sistema de poder.
Tota afirma igualmente acreditar que o Birô tinha objetivos político-econômicos dando importância às atividades culturais e à comunicação combatendo a expansão do nazismo. Para atingir tais alvos, o marketing decorrente das relações de uma rede de comunicação propagava a maneira de viver norte-americana e combatia as demais, como se vê: “[...] as propostas socialistas – que salientavam o antagonismo capital-trabalho – poderiam ser combatidas com a propaganda do modelo americano: consumo de produtos maravilhosos, progresso material e bons salários. [...] a industrialização do subcontinente deveria ser estimulada, interligada com a intensificação das relações comerciais.” (TOTA, 2000: 52).
O americanismo seria, assim, como uma “ideologia pragmática” para o historiador Tota, como vemos: “[...] o americanismo, entendido aqui como uma ideologia pragmática, em que o sufixo –ismo tinha se transformado num poderoso armamento intencional, com o claro objetivo de suplantar outros –ismos, autóctones ou não. A americanização foi o processo de implantação dessa ideologia nas ‘culturas mais débeis’ da América Latina.” (TOTA, 2000:19).
Ainda em sua opinião, a americanização quebrou possíveis resistências entre os países e a Política da Boa Vizinhança foi o instrumento para tal: “A Política da Boa Vizinhança de Roosevelt era o instrumento, de amplo espectro, para a execução do plano de americanização. A sintonia fina da operação ficou a cargo, como veremos, de uma verdadeira “fábrica de ideologias”, criada pelo governo americano nessa conjuntura mundial.” (TOTA, 2000:19); a isso acrescenta: “Mas o componente mais importante do americanismo é o progressismo. Fortemente arraigado na cultura americana, o termo progressismo (progressivism) [...] está associado ao racionalismo, à ideia de um mundo em abundância e à capacidade criativa do homem americano [...]. Essa dimensão do americanismo enaltece o homem energético e livre, capaz de transformar o mundo natural.” (TOTA, 2000:19-20).
Em 1942, a base aérea de Natal – Parnamirim Field – estava concluída e soldados norte-americanos e técnicos desembarcavam em solo nacional rumo ao norte da África para ajudar os soldados ingleses encurralados pelos alemães. Muitos legados culturais e até americanizações foram decorrentes do estabelecimento efetivo dos norte-americanos no nordeste do Brasil, o que levou Tota (2000:10-11) a falar em uma “americanização” entre aspas: “As aspas, têm, pois, sua razão de ser. O fenômeno é ora interpretado como um grande perigo destruidor da nossa cultura, influenciando-a negativamente; ora, de forma oposta, é visto como uma força paradigmática e mítica, capaz de tirar-nos de uma possível letargia cultural e econômica, trazendo um ar modernizante para a sociedade brasileira.”.
Tota (2000: 20) destaca também o tradicionalismo na Política da Boa vizinhança como outro ponto importante na ideologia do americanismo, nesta visão tradicionalista estavam a “visão da vida pura e saudável da fazenda, a relação íntima com a natureza, o enaltecimento dos valores familiares, a coragem dos indivíduos e o temor a Deus”. Esses valores não eram praticados por todos e sim válidos somente para alguns – os brancos, anticomunistas e imperialistas do século XX: “Tudo, na verdade, só tinha validade para uma América de brancos, fundamentalistas religiosos, anglo-saxões, anticomunistas e imperialistas apaixonados.” (TOTA, 2000: 20). Assim, conclui: “De todos os componentes ideológicos do americanismo, o progressivismo, por seu caráter simples e direto (trabalhar, produzir, ganhar dinheiro e consumir), era adequado para “conquistar” as “outras Américas”’.
Philippov (2008), em sua dissertação de mestrado sobre história da arte, traz um completo panorama sócio-político-cultural sobre a arte de Rockwell Kent antes e depois de sua passagem pelo Brasil. Consideramos tal estudo, uma vez que aborda, também pela perspectiva cultural, o momento sócio-político entre guerras em que Roosevelt e Vargas governaram. Sua análise de documentos produzidos por norte-americanos contrários aos regimes dos dois
presidentes nos revela o outro lado, o prático, das ações e políticas por eles adotadas, igualmente chegando à conclusão de que as questões eram políticas, de dominação econômica e mercadológica, em suma, de asseguração de poder.
Na contextualização biográfica da vida de Rockwell, Philippov sustenta que: “Aliás, Rockwell decide se afiliar a todo e qualquer movimento que lute em prol de justiça, paz, liberdade, democracia e trabalho [...]”. (PHILIPPOV, 2008: 56), o que trouxe o artista ao Brasil como observador político representando tanto o Comitê Nacional pelos Direitos do Povo (National Committee for People’s Rights), quanto o Comitê Unido pela Defesa do Povo Brasileiro (Joint Committee for The Defense of The Brazilian People). Os principais objetivos da viagem eram os de:
[...] localizar o paradeiro do prisioneiro político de Vargas, Luís Carlos Prestes, ocorrido um pouco antes do golpe de estado, observar o avanço do Fascismo promovido por ditadores no Hemisfério Sul, “através das crescentes supressões governamentais das liberdades civis e das prisões arbitrárias de seus líderes oposicionistas... impostas ao povo do Brasil”. E estabelecer contato com todos aqueles que se opõem ao ditador. (PHILIPPOV, 2008: 59).
Desta viagem de nove dias nasceu o relatório “O Brasil e Vargas” (“Brazil and Vargas”) de 1937 e publicado em 1938, na revista inglesa Vida e Cartas Hoje (Life and Letters Today), revista escrita por artistas e especializada em literatura. Rockwell descreve suas aventuras ao ser recolhido pela polícia secreta de Vargas sendo que após descrever a situação política brasileira, na qual compara Vargas a Luís XIV, conclui seu relatório seguindo os conselhos do embaixador brasileiro Osvaldo Aranha, “cuidando bem das palavras” para não causar nenhum constrangimento diplomático entre o Brasil e os EUA (PHILIPPOV, 2008: 60). Posteriormente, em sua autobiografia de 1955, Rockwell afirmou ter entrado em contato com os liberais, ou os contrários ao regime ditatorial de Vargas nessa visita, sendo que há a ressalva de que por liberais devemos entender “pessoas que lutavam pela igualdade de direitos, pela liberdade aos prisioneiros políticos e pela democracia” (PHILIPPOV, 2008: 60-61).
Em sua viagem ao Brasil acompanhado de Jerome Davis, Rockwell é eleito presidente dos dois comitês já mencionados, sendo nesse ínterim que toma conhecimento das prisões arbitrárias e torturas no país. Assim, “o ativista político Rockwell inicia suas atividades em defesa dos direitos dos cidadãos tanto norte-americanos como brasileiros nas reuniões que frequenta” (PHILIPPOV, 2008: 92). Dentre os presos políticos de que toma conhecimento estão Luís Carlos Prestes e o norte-americano Victor Allan Barron, que o governo brasileiro alegava ter cometido suicídio na prisão. Ainda sobre o contexto político no Brasil, ela acresce que além das prisões e torturas, deve-se considerar que Vargas institui o “estado de guerra” sem que
houvesse guerra e o substituiu pelo “estado de emergência”, em 1937; esse era o contexto geral da vinda de Rockwell e Davis ao Brasil (PHILIPPOV, 2008: 92).
Outro documento a que Philippov faz menção é um relatório escrito pelo advogado norte-americano David Levinson, de 1937, “Minha viagem ao Brasil” (“My trip to Brazil”), quando contratado pelos amigos de Prestes e Ewert para defendê-los das acusações impostas por Vargas em decorrência da Intentona Comunista. O advogado não obteve êxito nessa defesa, foi quase preso, teve seus documentos vasculhados até ser convidado a se retirar do país (PHILIPPOV, 2008: 95). Sobre o episódio, Rockwell escreveu um capítulo intitulado “Um vizinho amigável” (“A friendly neighbor”), no qual se referia à Levinson dizendo que “sua participação na defesa de Prestes lhe rendeu alto tributo de “ódio oficial”’, quer dizer, Vargas considerava Levinson comunista, por considerar que ele estava na defesa de outro comunista (ROCKWELL 1955, apud PHILIPPOV, 2008: 95).
No referido relatório, Levinson defende os acusados, alegando que as acusações estavam cheias de contradições e boatos infundados, culpando Vargas e sua polícia secreta de ilegalidades e ameaças. Ainda teria acusado os tribunais brasileiros de serem títeres da ditadura, por obedecerem fielmente ao que lhes era imposto e por não possuírem autonomia de decisão. Ele critica a polícia dizendo que a mesma é um instrumento pelo qual Vargas exercia sua tirania, também chega à conclusão de que apesar de Prestes ter sido acusado de violar a Constituição brasileira, na realidade, o responsável pela violação era o próprio Vargas, ao violar vários decretos constitucionais (PHILIPPOV 2008: 98-99). Levinson compara Vargas a Hitler, que prendeu Ernest Thaelmann alegando também violação da constituição e, finalmente, o advogado atenta para o fato de Vargas ter declarado “estado de guerra” enquanto o país não se encontrava em guerra contra nenhuma potência estrangeira, que segundo ele é um “[...] fato que revela mais uma violação cometida por Vargas durante seu governo “estúpido e brutal”. (LEVINSON 1937, apud PHILIPPOV, 2008: 98-99).
Um terceiro cidadão norte-americano citado por Philippov foi o Senador Chermont que, da mesma forma, denunciou as arbitrariedades de Vargas também condenando o “estado de guerra” sem haver guerra contra nenhuma nação. Para a autora, nos documentos ali analisados evidencia-se o caráter ditatorial e fascista de Vargas, caráter este que “A good neighbor Policy” (“Política da Boa Vizinhança”) de Roosevelt queria que fosse eliminado para a boa condução das relações político-econômicas entre EUA e Brasil (PHILIPPOV, 2008: 99-100). Isso quer dizer que o Fascismo foi, em parte, mantido afastado do Brasil e do Continente, assegurando a hegemonia norte-americana por meio da implementação dessa política, embora os valores
democráticos estivessem deturpados e travestidos de tiranias e ditaduras que pregavam em seus discursos a liberdade e a defesa dos direitos civis.
Moura destaca como relevante e contraditória a influência do pensamento militar germânico na América Latina e no Brasil devido ao envio nas primeiras décadas do século XX, em missões de treinamento militar a vários países latinos e o comércio de armas estimulado pela política de compensação, que geraram uma admiração pela eficiência da máquina de guerra alemã no continente, como vemos no trecho:
Não se deve esquecer também a influência do pensamento militar alemão na formação dos militares latino-americanos, graças ao envio de missões que desde há muito tempo tinham treinado exércitos e assegurado influência no ensino militar de vários países do continente. Acrescente-se, na década de 30, a pragmática venda de armas, mediante acordos de compensação. A admiração pela eficiência da maquina de guerra alemã era uma constante nos altos círculos militares da América Latina (e do Brasil). (MOURA, 1986: 15).
Tota também menciona essa influência germânica no país. Na época da Primeira Guerra Mundial, ele menciona um livro destinado “aos brasileiros de ação, de vontade e de coragem” que sugeria a Alemanha como uma “terceira via” para que nos livrássemos dos “tentáculos ingleses e da influência ianque”. Explica que “[...] na Alemanha, buscava-se o germanismo, a justificativa ideológica da expansão e da modernização pela via conservadora [...] Essa concepção ecoou entre os brasileiros que faziam parte do núcleo de poder no Brasil à época da Segunda Guerra Mundial.” (TOTA, 2000: 22-23); o “americanismo” passou a ser aceito como um modelo mais viável do que o modelo germânico na medida em que se difundia pelo país. Ele conclui que a estabilidade política e social seria a melhor defesa de todo o continente, sendo que o combate ao germanismo deveria ser feito via mercado (TOTA, 2000: 53).
Para Philippov, a relação dos dois países naquele momento histórico se delineava da seguinte forma: de um lado, os EUA saiam de uma enorme crise sócio-político-econômica