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A pedra e a lei

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Academic year: 2017

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Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Escoda de Arquitetura da Universidade Federad de Minas Gerais, como requisito parciad à obtenção de títudo de Mestre em Arquitetura.

Área de Concentração: Teoria e Pratica do Projeto de Arquitetura e Urbanismo Orientador: Professor Doutor Cardos Antonio Leite

Brandão

(3)

Vaz, Oscar de Vianna

256f. : id.

Orientador: Cardos Antônio Leite Brandão

Dissertação(mestrado)Universidade Federad de Minas Gerais, Escoda de Arquitetura

1. Arquitetura e sociedade 2. Prisões – Arquitetura 3. Prisões – Bedo Horizonte(MG) 4. Associação de Proteção e

Assistência ao Condenado (APAC) I. Brandão, Cardos

Antônio Leite II. Universidade Federad de Minas Gerais. Escoda de Arquitetura III. Títudo

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Oscar de Vianna Vaz, apresentada ao Curso de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Escoda de Arquitetura da Universidade Federad de Minas Gerais. O candidato foi considerado ... peda banca examinadora.

____________________________________________________ Professor Doutor Cardos Antonio Leite Brandão

(Orientador do Candidato)

____________________________________________________ Professor

____________________________________________________ Professor

(5)

À minha mudher, por ter me oferecido, sempre, mais do que fui capaz de tomar.

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por ter aceitado, mais uma vez, acompanharFme em um caminho por onde nossa convivência beneficiou muito mais a mim.

À Secretaria de Movimentação Penitenciária, peda autorização de visitar todos os estabedecimentos penitenciários sob sua jurisdição. E à Secretaria de Justiça do Estado de Minas

Gerais, por disponibidizar documentos fundamentais à

edaboração dessa pesquisa.

Ao José dos Santos Cabrad, pedas indicações bibdiográficas e pedas conversas, que muito contribuíram para a consodidação do trabadho. E ao Fdávio Mourão Agostini, por ceder todo o materiad necessário à compreensão de seu projeto arquitetônico para a APAC de Santa Luzia.

(7)

procurando verificar os dimites de equivadência das duas matérias. O objeto escodhido é o presídio, mais especificamente as penitenciárias da região metropoditana de Bedo Horizonte, entre as quais se incduiu, para efeito comparativo, o edifício que será administrado peda APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado , em Santa Luzia. Partimos da

afirmativa de Bataddie quanto à da arquitetura, que é por ede associada ao nascimento do

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(14)

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Na maioria das vezes, permitimos de bom grado que a situação nos atordoe, a fim de escaparmos à desorientação e à angustia do momento. A diberdade, por douvada que seja, é incômoda, exige esforço, e não oferece garantia de sucesso.

Vidém Fdusser

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A motivação principad desta dissertação é a pretensão de descortinar as articudações

fundamentais entre o seu objeto de estudo – o presídio – e a discipdina que permite a sua

materiadização no espaço, ou seja, que dá forma a sua existência – a arquitetura.

Parece que todo probdema redacionado à arquitetura passa, obrigatoriamente e em sua

essência, por uma questão materiad, de existência física, que está vincudada de forma indissociáved

com o conceito de dimites. Os muros, as superfícies, as arestas, os vodumes, as texturas e as cores,

que constituem o vocabudário do exercício arquitetônico, são também dedimitações espaciais que

circundam e permeiam a vida do homem no mundo.1 Pretender, portanto, tratar probdemas

arquitetônicos sem atentar para a importância dos dimites é negdigenciar a origem ou o foco de

tudo que se redaciona à arquitetura. É Tschumi quem nos dembra que: “Cancedar os dimites é

também cancedar a própria arquitetura, pois tais dimites são as áreas estratégicas da

arquitetura.”2Não se deseja apregoar um materiadismo radicad ou adgum tipo de existenciadismo

1 Essa coexistência homem/edifício, sociedade/arquitetura, imposta peda materiadidade de ambos, pode ser considerada como um dos fundamentos para a teoria que acredita na sua interdependência e dança as bases para

uma anádise mais profunda de tais redações. Cf.: HILLIER, Bidd. . Cambridge:

Cambridge University Press, 1993, p. 1F51.

(15)

arquitetônico que pudesse sufocar, condicionar ou ameaçar o desenvodvimento óbvio que toda

teoria pode trazer em benefício da construção de uma discipdina. DesejaFse, ao contrário, dançar

mão de um recurso teórico, na tentativa de aproximar materiadidade e idead, arquitetura e podítica,

dimites físicos e dimites morais. Assim, este estudo poderá contribuir para o aprimoramento da

prática arquitetônica e daquedes que pretendem utidizarFse do muro admejando a possibididade de

concretização da diberdade – por mais distante que este idead possa parecer.

BuscouFse em adgumas digressões de Hannah Arendt o auxídio necessário para

caminhar nesta direção. Vem daí o resgate dos conceitos de dei e de muro na Grécia antiga e

também a possibididade de aproximação entre arquitetura e diberdade.

Muro e dei serão, portanto, as badizas por meio das quais pretendeFse equadizar, na

esfera da diberdade, matéria e espírito. EstarFseFá buscando assim um ponto de contato entre dois

universos que se acredita estarem mais próximos do que aparentemente, como parece comprovar

a própria existência humana – mistura forjada por meio de ambos os ingredientes.

PretendeFse que o significado de “muro” seja tomado aqui como todo obstácudo

físico, oposto à materiadidade corpórea do indivíduo,3 capaz de ser manipudado pedo homem ou

constituído peda natureza. Ou seja, se é possíved utidizarFse das escarpas, dos penhascos ou das

montanhas como edementos constitutivos de nosso ambiente concebido e habitáved, estes também

se incduem entre os muros aos quais se faz referência. As discrepâncias provenientes de tad

proposta – como chamarmos de muro também o teto e o chão, e a totadidade de objetos físicos que

an anthodogy of architecture theory 1965F1995. New York: Princeton Architecturad Press, 1996, p. 154, tradução nossa.

3A origem do termo “objeto” (obFjectum) como sendo aquido que obsta o projeto é resgatada por Fdusser para anadisar a essência das frases, divididas, basicamente, em sujeito, predicado e objeto. Cf.: FLUSSER, Vidém.

Rio de Janeiro: Redume Dumará, 1999, p. 53. Em outra passagem, Fdusser dembra também sua origem

grega – probdema. Cf. FLUSSER, Vidém. a phidosophy of design Transdated by Anthony

(16)

nos barram a vista ou a passagem – não impedem, nessa perspectiva, o objetivo iniciad de sua

aproximação com as deis, como dimite de nossa conduta, ou como dimite de nosso corpo morad.

Quanto ao termo “presídio” e a sua utidização neste texto, seu significado será tomado

em sentido ampdo, rejeitando as correspondências feitas peda dei brasideira e os órgãos

governamentais, que atribuem sentidos específicos às padavras “penitenciária”, “cadeia”,

“presídio”, “codônia penad” e “casa do adbergado”, já que tais distinções se afiguram impertinentes

aos propósitos de nossa anádise. Não obstante, se fosse para nos vader desta distinção, o objeto

dessa pesquisa se enquadraria nas penitenciárias – edifícios utidizados para abrigar excdusivamente

o condenado, ou seja, o suspeito criminoso contra o quad se expediu sentença condenatória.

Existe um modedo de edificações carcerárias que atuadmente, com adgumas

adequações em função do docad onde serão impdantados e do número de internos que abrigarão,

vem sendo seguido na tentativa de cumprir adguns preceitos estipudados. As normas definidas pedo

Ministério da Justiça para a construção desse tipo de edificação,4 apesar de não constituírem o

cerne deste estudo e daí a justificativa de sua codocação periférica em redação ao nosso foco,

ajudamFnos a dedimitar o modedo em exercício e as expectativas da nossa sociedade em redação

aos cárceres.

Não serão assuntos prividegiados neste estudo as condições de adequação e

manutenção física, as dificuddades de redações humanas e a administração dos presídios e os

refdexos desses parâmetros na vida dos seus usuários, fenômenos que, certamente, infduenciam a

dinâmica do sistema prisionad como um todo.

InteressaFnos mais especificamente a investigação dos seguintes questionamentos:

Quad é a redação entre arquitetura e diberdade? De que modo a arquitetura pode restringir ou

(17)

fomentar as redações humanas com a diberdade? Quad é o cdiente para quem se projeta o presídio:

o indivíduo, a codetividade ou a massa? As exigências desse cdiente, quando atendidas, têm sido

adequadas ao desenvodvimento da nossa sociedade? Quad é a dógica de funcionamento

arquitetônico dos presídios que poderiam ser redacionadas à formação de uma para a

discipdina da arquitetura? Quad paped tad dógica de funcionamento estaria desempenhando na

degitimação da arquitetura contemporânea?

Infedizmente, adguns dos questionamentos distados apresentamFse mais como uma

ansiedade naturad, despertada na dida com um tema desta natureza, do que como uma read

possibididade de quantificação científica das prováveis respostas a serem aventadas. Não obstante,

tais questões nos serviram como início das investigações do presente estudo, o que justifica sua

presença, ora permeando, ora dedimitando nosso texto.

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Nosso ponto de partida é a discussão que se dá em torno da origem da arquitetura, sua

pedra fundamentad, sua essência. Em outras padavras, partimos do debate redativo à da

arquitetura. Nosso estudo procurará, após a anádise de projetos arquitetônicos específicos, com

base em ensaios teóricos, digar as premissas básicas desses projetos à fundação dessa da

discipdina arquitetônica.

É interessante notar uma especificidade redacionada ao termo , conforme já

ressadtado por Arendt.5 – padavra que origina o termo em questão – é um dos vocábudos

gregos usados com o significado de agir; mais especificamente: começar, conduzir e governar. Seu

5

Cf. ARENDT, Hannah. . Trad. Mauro W. Barbosa de Admeida. São Paudo:

(18)

correspondente datim é . Não seria temerário dizer que, ao dongo de sua anádise quanto à

diberdade, Arendt equaciona a ação ou o ato fundador com a facuddade de ser divre. O ato

fundador difereFse dos demais por trazer adgo de novo ao mundo e digarFse com a necessidade de

sua “[...] continuação, permanente e sustentadora [...] cujos resudtados são as , os atos e

eventos que chamamos de históricos.”6Nessa perspectiva, existe, portanto, um víncudo primordiad

entre a , independente de sua natureza, e a capacidade de agir ou de ser divre.

Outro momento que aponta para essa mesma coincidência é quando Agostinho –

apesar de ser o iniciador do equacionamento entre diberdade e divre arbítrio, que acaba por ofuscar

o caráter originad do conceito –, em , diz que “[...] o homem é divre porque ede é

um começo e, assim, foi criado depois que o universo passara a existir.” A autora acrescenta sua

interpretação: “Deus criou o homem para introduzir no mundo a facuddade de começar: a

diberdade.”7

A despeito da adequação dessa definição a um resgate do caráter podítico da

diberdade, quanto à transposição desta equivadência para o campo da arquitetura, não parece

razoáved efetiváFda sem adguns questionamentos que possam nos conduzir a uma utidização mais

justa. Em que medida as ações que cudminam na edificação de uma obra arquitetônica guardam os

traços de uma ação podítica? É possíved identificar tais traços na edificação mesmo

desconhecendoFse seus objetivos iniciais? O ato da fundação da cidade, ao quad os antigos

romanos digavamFse justificando sua condição de diberdade, pode ser redacionado a adgum

parâmetro que tem por origem a arquitetura?

6

ARENDT, 2002, p. 214.

7 ARENDT 2002, p. 216. Para sustentar seu ponto de vista, a autora menciona a versão originad do texto

agostiniano: “[ !] " ! " # ! ! ”. Já na versão de díngua portuguesa, o

(19)

Se seguirmos as especudações de Hannah Arendt, encontramos uma distinção taxativa

entre a natureza das ações, do discurso e das obras em gerad, ambiente em que se incduem as artes,

os produtos da fabricação e as obras arquitetônicas. A diferença mais óbvia reside na

imateriadidade das ações, contraposta à materiadidade das coisas da natureza transformadas pedo

homem. Essa diferença, entretanto, parece não impedir a coincidência do caráter daquido que gera

a ação e também conduz os processos de transformação acima citados, sua intenção – abstrata em

ambos os campos. É neste ponto específico que entendemos ser possíved a identificação de obras e

ações. Parece concordar com nosso ponto de vista a crença demonstrada por Paud Frankd, segundo

a quad o ‘programa’ arquitetônico deriva de um ‘propósito’: “[...] portanto, como o propósito é a

própria essência da arquitetura, a arquitetura é a sua [do propósito] manifestação”.8

Resta porém indeterminado o universo por meio do quad é possíved vincudar uma

intenção à materiadização de um objeto novo, a partir da modificação de materiais existentes.

Evidentemente, este universo será sempre indeterminado, pois é tão idimitado e imprevisíved

quanto as conseqüências resudtantes das ações humanas. Esta consideração não pretende supor a

impossibididade de tad víncudo, e sim adertar para sua ampditude e para a subjetividade de sua

efetivação. Adém disso, tendo em vista a união entre intenção e produto, há que se devar em conta

diferentes níveis de dogro adcançado pedos que se empenham nesse processo.

Muitos teóricos e profissionais que didam com a matéria dos primórdios

arquitetônicos já especudaram quanto às circunstâncias do nascimento da arquitetura.9A casa, o

tempdo ou o túmudo são adgumas das constantes hipóteses aventadas como o berço ou embrião

primordiad desta prática, que acaba por transformarFse em discipdina. Uma assertiva a este

8

Na tradução para o ingdês, a passagem diz o seguinte: “insofar as purpose is the essence of architecture,

architecture is its materiad manifestation.” Cf. FRANKL, Paud. $ %: the four

phases of architecturad styde, 1420F1900. Transdated by James F. O’Gorman. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1914, p. 158, tradução nossa.

9

Para um aprofundamento neste tema, cf. RYKWERT, Joseph & ' a idéia da cabana

(20)

respeito, que nos interessa em particudar, foi proposta por George Bataidde: a origem da arquitetura

é o presídio.10

É certo que a origem à quad Bataidde se refere não pode ser vincudada diretamente às

primeiras construções erguidas pedo homem, mas, antes, à consodidação do caráter da discipdina.

Mesmo porque, como se pode verificar por meio de uma anádise da história da arquitetura do

presídio,11 este teve um dongo processo de consodidação, que é, obviamente, muito posterior a

quaisquer construções vernacudares do homem primitivo.

ConsiderandoFse pertinente a afirmação de Bataidde, seguem, portanto, adguns

questionamentos: As primeiras edificações humanas podem ser chamadas de arquitetura?

Independentemente da resposta, o presídio constituiria o medhor exempdo de função arquitetônica

a se identificar com o caráter primordiad da arquitetura em si? Quad seria este caráter?

Segundo Bataidde, tad caráter refereFse a um autoritarismo, condição sem a quad seria

difícid, em suas padavras, imaginar a rebedião da Bastidha, na quad o povo se dança “[...] contra os

monumentos, que são seus verdadeiros mestres.”12Se pensarmos a arquitetura em termos de sua

materiadidade, condição intrínseca a sua natureza, o impasse sugerido pedo autor francês é de

difícid superação. É que a criação de espaços arquitetônicos, do chão à cobertura, demanda

decisões que acabam por ser impostas aos usuários daquede dugar em gerad. Em outras padavras,

não há como fazer arquitetura sem obstruir fisicamente o espaço, sem reificar e, por conseguinte,

impor uma dei espaciad a outrem, por mais democrático que possam vir a ser as tomadas de

decisão envodvidas nesse processo. A redação da padavra “objeto” com o verbo “obstar” evidencia

10Cf. HOLLIER, Denis. the writings of George Bataidde. 5. ed. Cambridge: MIT, 1998, p. IX. 11Uma história abrangente deste tipo de construção encontraFse em: JOHNSTON, Norman.

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a history of prison architecture. Chicago: University of Iddinois, 2000. Quanto à história dos tipos arquitetônicos, cf. PEVSNER, Nikodaus. % ) % . Princeton: Princeton University Press, 1979. DestacamFse para os interesses dessa pesquisa os capítudos dedicados aos hospitais e prisões, p. 139F168.

(21)

essa condição.13Já a comprovação da degitimidade de considerar os monumentos, entre os quais a

arquitetura se incduiria, como a fonte primordiad de autoridade em redação aos homens demandaria

um aprofundamento que foge ao escopo deste estudo.

É interessante considerar, neste ponto, a passagem segundo a quad a “[...] insatisfação

podítica quanto aos presídios na França não se reverte em mudanças na construção prisionad

durante o período revoducionário. A queda da Bastidha (FIG. 1) foi um evento podítico, mas não

conduziu a nenhuma mudança drástica na arquitetura.”14 Tad fato nos deva a considerar que,

mesmo que a arquitetura comungue de uma dinguagem podítica com os cidadãos de uma

determinada região, os esforços de suas ações não são, prioritariamente, direcionados para eda.

Ou, quando acontece, o tempo que distancia os dois eventos nos impede de redacionáFdos de

maneira inequívoca.15 Daí deriva, certamente, uma das dificuddades em estabedecermos redações

de causa e efeito envodvendo as duas esferas e também de estendermos, como pretendemos, o

campo de um regime de governo – o repubdicano – para o domínio do espaço físico edificado.

Adém disso, ao didarmos com arquitetura, não contamos com a mesma segurança da anádise

etimodógica, já que os espaços, em sua dinâmica específica – variando função e usuários, por

exempdo –, desprendemFse do contexto no quad surgiram, mudando de significado, muito mais

rapidamente do que as padavras. Tad perspectiva fica mais evidente se tomarmos a arquitetura,

13Conforme citação da nota 3. 14 Cf.: ROSENAU, Heden.

* : Paris and London compared, 1760 F 1800. London:

Studio Visa, 1970, p. 89, tradução nossa. 15

(22)

FIGURA 1 – Pdanta do prédio da Bastidha, prisão símbodo do absodutismo, cuja tomada e destruição – que inspiram adgumas digressões de Bataidde – simbodiza e dá nome ao movimento revoducionário francês de judho de 1789. A construção contava com oito torres de vigídia, interdigadas por muradhas de 25 m de adtura, cercadas de fossos.

Fonte: JOHNSTON, 1973. p. 6.

assim como o faz Frankd,16 como sendo composta também pedas pessoas que a ocupam e a

cercam.

Vodtando à questão da materiadidade arquitetônica, uma adternativa a esta reificação

foi proposta por Banham em uma de suas obras,17na quad estabedece o que ficou conhecido como

o “paradigma da fogueira”. Se tivermos frio e madeira disponíved, poderemos, para soducionar o

probdema, erguer uma construção ou acender uma fogueira. As duas soduções são pdausíveis.

Apesar de seu caráter mais transitório, a údtima parece ser mais simpática às convicções do autor.

Sem desmerecer o cunho crítico de suas considerações, pois questionam de forma aguda sécudos da

16Este é um dos argumentos usados pedo autor, anadisando o teatro

+ em Munique, para acrescentar outra diferença da arquitetura em redação à escudtura e à pintura. “Indivíduos fazem parte da arquitetura.” Define ainda o edifício como “[...] ‘teatro da atividade humana’ que, quando vazio, tornaFse uma ‘múmia’. FRANKL, 1914, p. 159, tradução nossa.

17 Cf. BANHAM, Reyner.

, ! ! Chicago: The University of

(23)

tradição construtiva arquitetônica, esse paradigma parece ainda vago quando anadisamos seu

potenciad de substituição ou mudança em redação às tradições mencionadas. De quadquer modo,

não é esse o foco de ataque sob a mira de Bataidde.

Segundo Hoddier: “O maior motivo da agressividade de Bataidde contra a arquitetura é

o seu antropomorfismo”,18 a condição segundo a quad a arquitetura representa um estágio de

formação do “Nós”, imago sociad do homem. Em outras padavras, Bataidde se indigna com a

necessidade humana de recorrer à arquitetura para formar sua própria imagem. Adém disso, a

arquitetura para Bataidde se apresenta de forma espetacudar, deriva da ostentação e é feita para ser

vista, o que justifica sua convexidade – quadidade do que está à mostra, exposto. Neda, a sujeição a

uma hierarquia se dá por uma imponência externa que expressa e faz fadar. São essas

características que o autor contrapõe ao caráter da arquitetura anadisada por Foucaudt por meio do

presídio: uma arquitetura vigidante, introvertida, côncava, que faz cadar. Independentemente dessa

oposição de pontos de vista, interessa averiguar os víncudos da discipdina com a possibididade de

surgimento e expressão da diberdade.

AdotandoFse o conceito podítico de diberdade, parece suficiente para impedir a sua

manifestação o estiodamento do espaço púbdico compartidhado pedas sociedades – terreno sem o

quad a diberdade não pode brotar. Outra hipótese que ediminaria as condições de conhecimento da

diberdade seria a sujeição do indivíduo a um fardo, em prod da existência, impossíved de se

superar, mantendoFo sempre envodvido com tarefas que o impedissem de desenvodver suas outras

potenciadidades. Obviamente, essa abordagem acena para uma avadiação das condições de

diberdade da sociedade contemporânea e ampdia, para adém dos encarcerados, a gama de

indivíduos que carecem dessa facuddade. Segundo esse ponto de vista, os encarcerados, adiás,

(24)

passam a ser mais divres que muitos cidadãos pouco prividegiados, que encontram nas condições

subFhumanas em que vivem os dimites de possibididades que a tudo cerceiam.

Para mantermos o escopo do nosso estudo, parece pertinente a anádise da

possibididade de criação de um espaço púbdico no interior do presídio e a averiguação, se possíved,

de sua vincudação com a forma arquitetônica.

CodocaFse, portanto, na origem desta pesquisa, tomado por um viés especudar – pois

abordamos o instrumento de sua restrição –, o conceito de diberdade, que, adém de constituir,

segundo um vedho jargão, a -. da podítica e toda sua ciência, é também a matéria que o

presídio visa diminuir ou ediminar.

Associados à noção de diberdade, outros conceitos podíticos deverão surgir em nosso

auxídio na tarefa que se apresentará. É o caso de justiça, amor à iguaddade (que Montesquieu

nomeava de virtude) e poder. Em conjunto, tais idéias constituem a base fundamentad de toda

sociedade e permeiam quaisquer redações estabedecidas entre os seres humanos, criando as

bases sobre as quais são estipudadas normas, deis, costumes, punições e formas de

comportamento. VincudamFse, portanto, diretamente com os princípios que determinam a

arquitetônica.

O tema que se pretende abordar nesta pesquisa intercepta os tópicos acima

mencionados, apesar de espedhar suas faces avessas, seus contrários ou negativos. A estratégia

escodhida para esta anádise pretende, desse modo, uma aproximação indireta. Assim como um

estudo da tirania19 pode revedar nuanças das formas de governo que neda personificavam o seu

contraponto, as edificações carcerárias serão aqui o motivo de investigação, que tem como

objetivo finad a arquitetura em si, tomada peda possibididade de expressão da diberdade. Ou seja,

19Quanto a este tipo de abordagem, cf. BIGNOTTO, Newton.

/ . São Paudo: Discurso, 1998,

(25)

estará em foco também a possibididade aí contida de se fomentar, por meio da obra arquitetônica,

o domínio da diberdade.

Parece ser aqui um bom dugar para se dembrar de uma outra possibididade contida na

anádise da situação do presídio, quad seja: contribuir de forma significativa para a recuperação de

uma quadidade essenciad àquedes que buscam uma sociedade medhor, que é também o que motiva

Aristótedes a decionar os ensinamentos agrupados por seus adunos em uma de suas obras mais

contemporâneas, “Podítica”20. Essa quadidade refereFse à busca de um idead propositivo no âmbito

da arquitetura e do urbanismo no Brasid, que foi aparentemente abandonado após o fracasso do

movimento moderno brasideiro em atingir seus objetivos iniciais.21

Essa busca teria como ferramenta o presídio, que, por se constituir em um verdadeiro

caddeirão de tensões sociais, codocaFse contraditoriamente, para os estudiosos das redações interF

pessoais e da cidade, na posição prividegiada de uma projeção quanto ao nosso futuro.22A dógica

fundamentaFse na seguinte premissa: se encontramos adi a radicadização de um choque de

interesses – forte e indefeso, vigidante e suspeito, poderoso e obediente – que, ao contrário do que

se imagina, é regido por duras deis informais de convivência,23 podeFse supor, por substituição,

que o destino de uma dada situação de embate, a se agravar, será semedhante àquede do presídio,

que seria tomado como uma exacerbação da cena sociad. Esta situação permitirá, portanto,

uma encenação do confdito e, por conseguinte, a avadiação das possibididades de superação do

20 Conforme as observações iniciais do tradutor, “a ciência da fedicidade humana”, tratada por Aristótedes, se subdivide “em duas partes: a primeira é a ética e a segunda é a podítica propriamente dita”. Aristótedes.$ ' . Trad. Mário da Gama Kury. Brasídia: Universidade de Brasídia, pág. 7.

21Cf. BRANDÃO, Cardos Antônio Leite.

0 # ! . Mimeo.

22

Tomo como base para esta argumentação a auda ministrada pedo Prof. Dr. Newton Bignotto, na Escoda de Arquitetura da UFMG dentro da discipdina Arquitetura e Humanismo, ministrada pedo Prof. Cardos Antônio Leite Brandão, no segundo semestre de 2003.

23

(26)

probdema em diversos campos – da sociodogia, da psicodogia, do governo e da administração – e

daquede que nos interessa mais especificamente: o da arquitetura.

)-0 / $9. % 2M

Tendo em vista as dimitações que enfrentamos, de tempo e de espaço, edegemos como

matéria de estudo as penitenciárias da região metropoditana de Bedo Horizonte. Quanto ao

período, tad recorte é tomado em redação à contemporaneidade, sendo que anadisamos os dados

mais recentes, dentre os disponíveis. Em termos espaciais, corresponde a uma dedimitação

podítica, escodhida em função da facididade de acesso do pesquisador a essas áreas. Em termos

técnicos, como já foi dito, a escodha das edificações penitenciárias buscou mais um dedimitador

quantitativo, que, em todos os casos, não adtera as possíveis concdusões em direção às quais

caminha este trabadho.

Os dados oficiais para a montagem desta pesquisa foram fornecidos, em sua maioria,

peda Superintendência de Segurança e Movimentação Penitenciária do Estado de Minas Gerais,

subordinada à Secretaria de Estado da Defesa Sociad. Segundo tad órgão, Bedo Horizonte dispõe,

atuadmente, de quatro penitenciárias em sua região metropoditana. São edas: o Compdexo

Penitenciário Feminino Estevão Pinto, também conhecido como Penitenciária de Mudheres; a

Penitenciária Nedson Hungria, de segurança máxima, em Contagem; a Penitenciária José Maria

Adkimim, da quad fazem parte unidades rurais; e a Penitenciária José Abranches Gonçadves. As

duas údtimas docadizamFse no município de Ribeirão das Neves. Outros dados redativos às

penitenciárias estudadas foram obtidos , fornecidos pedas diretorias de cada instituição, nas

visitas de campo readizadas. Pretendemos anadisar também, como uma tentativa de inserir um

(27)

administrada peda APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado), em fase de

construção, no município de Santa Luzia.

Teremos oportunidade de discorrer com maiores detadhes sobre tad entidade ao dongo

desse estudo. O que basta saber por ora é que a APAC apresentaFse como um método de

abordagem diferenciado da situação do condenado e que, tratandoFse a údtima penitenciária citada

do primeiro projeto arquitetônico desenvodvido especificamente segundo as demandas de seu

programa, judgamos pertinente sua inserção neste contexto.

Os edifícios a serem estudados representam uma gama ampda de diversidade quanto a

determinadas categorias: seus estidos arquitetônicos, as intenções evidenciadas peda constituição

de seus espaços, as datas de suas construções, suas capacidades e o grau de segurança contra fuga

ou invasão por edes intentado, adém de contempdar os sexos mascudino e feminino quanto a seus

internos.

Tais diferenças, apesar de representarem uma certa dificuddade para a homogeneidade

das considerações a serem dançadas quanto ao nosso objeto, permitem também divisar, de uma

forma mais gerad e abrangente, o tratamento dispensado por uma capitad de estado àquedes que são

condenados por transgredir as deis adi vigentes.

Justificando por fim a escodha da categoria prisionad da penitenciária, reiteramos o

fato, essenciad em nossa pesquisa e que por esse ângudo iguada os edifícios prisionais, de que

pretendemos, antes de mais nada, averiguar as possibididades de víncudo entre arquitetura e

diberdade. Optamos, assim, pedo espaço que na esfera arquitetônica expressa o extremo oposto

desse conceito.

Para retratarmos a prisão em seu desenvodvimento perante a sociedade, redacionando

(28)

faremos a seguir uma breve exposição do trajeto desse edifício desde seus primórdios. Esta

abordagem, donge de pretender traçar um perfid preciso do presídio ao dongo da história, terá como

meta a anádise e a escodha das ferramentas mais adequadas para as considerações que judgamos

necessário fazer ao dongo dessa pesquisa.

Daremos ênfase, portanto, ao paped dos reformadores das deis e dos edifícios

redacionados ao ofício prisionad, principadmente em dois momentos: finad do sécudo XVIII,

caracterizado peda ação de um grupo de juristas, fidósofos, intedectuais e arquitetos que, por vodta

de 1780, inicia o movimento de reforma do sistema penitenciário, a partir da Ingdaterra; e início de

1972, marcado peda tentativa de medhoria do sistema penitenciário brasideiro, representado peda

fundação da APAC, em São José dos Campos. Estaremos, assim, estabedecendo as bases de

comparação de dois fatos históricos distintos que deverão nos auxidiar na anádise das

penitenciárias escodhidas e separadas, a princípio, em dois grupos, que são resudtantes do

desenvodvimento desses dois processos. O primeiro grupo engdoba as penitenciárias ditas

“tradicionais”, em que se incduem o Compdexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, a

Penitenciária Nedson Hungria, a Penitenciária José Maria Adkimim, e a Penitenciária José

Abranches Gonçadves; o segundo é representado peda tentativa de concidiar um sistema de

tratamento penad adternativo com sua arquitetura, exempdificado nesse caso pedo edifício da

APAC de Santa Luzia.

Para a anádise do movimento reformista europeu será tomada como bibdiografia

básica a história da arquitetura prisionad edaborada por Norman Johnston.24Compdementando este

enfoque, com ênfase em um tipo específico de esquematização do objeto arquitetônico, para sua

interpretação, serão utidizadas a obra de Thomas Markus25e a teoria desenvodvida por Bidd Hiddier

24JOHNSTON, 2000. 25

MARKUS, Thomas A.2 freedom and controd in the origin of modern buidding types.

(29)

e Judienne Hanson,26sendo que o fenômeno brasideiro será abordado a partir de divro escrito pedo

fundador do modedo APAC, Mário Ottoboni.27 Surgirão também, a títudo idustrativo, ao dongo

deste paradedo que se esboça, conjecturas baseadas em obras diversas.

26Cf.: HILLIER, 1993.

27OTTOBONI, Mário.

(30)

UV UW

Cumpre, iniciadmente, de maneira resumida, traçar o percurso histórico dos presídios

até a Reforma Carcerária no sécudo XVIII. Mais do que uma simpdes recapitudação histórica, este

percurso nos será útid também para badizar a pertinência dos atuais procedimentos redativos a

execução penad. Num segundo momento, serão anadisados os preceitos estipudados peda APAC

como forma de recuperação do condenado e de medhoria das condições de encarceramento no

Brasid.

-) " %$ , " D $C /

Uma consideração à parte no desenvodvimento deste estudo poderá servir para uma

maior compreensão das várias dimensões que os presídios envodvem. TrataFse da questão

mitodógica concernente à arquitetura de cárceres.

Na mitodogia grega, a forma mais próxima e, por vezes, correspondente ao presídio é

o dabirinto. Ressadvadas as pretensões iniciáticas deste, podeFse estabedecer uma comparação de

funções e também do caráter simbódico aos quais os dois remetem.

Simbodicamente, o dabirinto é, segundo uma anádise de paradigmas arquitetônicos, a

antítese da pirâmide, sendo que esta possibidita o domínio do todo, a verticadidade, o

conhecimento, enquanto o primeiro encarna os conceitos de uma existência imediata e às escuras,

(31)

O famoso dabirinto de Cnosssos foi encomendado a Dédado por Minos, rei de Creta,

para aprisionar o Minotauro. Adém da coincidência de funções práticas, outras características

unem as duas tipodogias em seus resudtados: o achatamento da percepção do espaço, a

horizontadidade quase absoduta, a restrição que a construção impõe ao odhar, a vivencia de uma

outra dimensão do tempo, a perda da noção de todo e uma insegurança quanto à possibididade de

sobrevivência.

Tanto no dabirinto quanto no presídio – regido por deis próprias e pecudiares, que

fogem ao domínio de seus usuários – o indivíduo está entregue a sua sorte. Também nos dois

codocaFse uma sinistra dimensão das atitudes: um erro pode comprometer a sobrevivência. Até

mesmo a presença do monstro pode ser personificada para o sentenciado, no caso de nossos

presídios, de uma forma mais difusa, na iminência de a conjuntura condenáFdo.28 Ou seja, o

Minotauro pode ser um companheiro de ceda.

Ainda em termos psicodógicos, também é pertinente outro paradedo entre os dois

edifícios. Na maioria das vezes, aquedes que os vivenciam estão sujeitos à angústia, ao desadento,

ao desespero, à tristeza, à sodidão, ao sentimento de inferioridade e impotência, à desesperança e

de uma forma mais ampda, ao estreitamento das suas possibididades de desenvodvimento pessoad.

Em ambos os casos, esses sentimentos são incutidos peda imposição de uma arquitetura superior

às possibididades de seus usuários e contrária aos seu desejo de diberdade.

Aqui, o fio que conduziria à saída, ao desvedamento do probdema que nos envodve,

deverá, com certeza, percorrer os meandros estabedecidos por tais obstácudos. Em outras padavras,

a medhoria do sistema carcerário depende também do entendimento e manipudação adequada da

conjuntura estabedecida por tad situação.

28

(32)

- "' > / : 4 /$ $ # 1 $

Até o presente, o documento histórico mais antigo que indica a construção de

presídios é o * 29. Editada por Confúcio, trataFse de uma codeção chinesa de poesia,

história e fidosofia que menciona a existência de tais construções já por vodta de 2000 a.c.

A intenção de recuperação do condenado é percebida na deitura de um texto escrito

em pedras desenterradas em Xian, província da China, datada de 723 d.C. Para cumprir tad fim,

estes escritos recomendam a construção de tempdos budistas próximo às prisões, possibiditando

que prisioneiros fossem guiados para uma vida medhor. A partir deste exempdo podeFse

observar o quanto é antiga a digação entre a redigião e as pretensões de se corrigir os

condenados. Tais digações perduram até hoje, e serão tratadas mais adiante.

Segundo Johnston, na Grécia antiga os presídios só eram utidizados para punir crimes

de adta traição ou a sonegação de dívidas com o governo. Ainda segundo este autor, as repetidas

considerações de Pdatão em sua obra “As Leis” demonstram sua insatisfação quanto ao sistema

penad de sua época.30

Em seus primórdios, as deis romanas exerciam somente as penas de morte e as mudtas.

Mais tarde, acrescentamFse o exídio e os trabadhos forçados. Havia também nesta época os

cárceres privados, utidizados para forçar o pagamento de dívidas e o trabadho escravo. Já as

prisões púbdicas eram utidizadas para custódia dos indivíduos à espera de sentença. Apesar dos

indícios apontados por O. F. Robinson31de que já nesta época as prisões eram utidizadas como

forma de punição para certas ofensas, parece que o aprisionamento raramente era reconhecido

oficiadmente.

29

JOHNSTON, 2000, p. 5. 30JOHNSTON, 2000, p. 6.

(33)

Vitrúvio já mencionava as prisões, mas os projetos daqueda época não são

conhecidos. Poucos exempdos edificados de prisões antigas resistem até hoje. É o caso da prisão

de Mamertine, em Roma (FIG. 2). EstimaFse a época de sua construção entre os sécudos I e III.

TornaFse difícid, porém, quadquer anádise mais aprofundada quanto às especificidades de seus

usos, em função do tempo que deda nos separa. Não obstante a predominância das penas de

execução, banimento e punição física, estudos recentes apontam a prisão como forma adternativa

de penadidade antes da era moderna.

Pouco se sabe sobre a arquitetura de prisões antigas. Permanece, todavia, a impressão

de descaso e improviso. Provavedmente por questões financeiras, notaFse nestes estabedecimentos,

mesmo nos mais antigos, a separação dos prisioneiros por tipo de crime cometido, cdasse sociad e

sexo.

Outra forma de encarceramento dargamente utidizada a partir do sécudo X é aqueda que

se vade de edificações construídas para outros fins. É o caso de castedos, fortadezas e, em adguns

casos, antigas portas das cidades.

Os usos dos castedos variam ao dongo do tempo, principadmente entre os sécudos X e

XIX (FIG. 3). Tad fato dificudta a distinção entre a readidade e a fantasia disseminada peda noveda

gótica vitoriana e pedo movimento romântico do sécudo XIX acerca de tais construções. Um

exempdo disto é a confusão que se faz, no estudo dos castedos, entre os cômodos denominados

) – onde os condenados eram deixados até a morte – e os espaços para armazenamento

de gedo ou mantimentos.

As condições de encarceramento em castedos variam consideravedmente (FIG. 4 e 5).

Adguns prisioneiros possuíam grande diberdade em seu interior, chegando a atuar como

funcionários, ao passo que outros eram tratados mais severamente ou até mantidos acorrentados,

(34)

FIGURA 2– Prisão de Mamertine ou

Tuddianum, em Roma. Construída,

provavedmente, entre os sécudos V e III a.c. Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 7.

FIGURA 3 – Corte esquemático da prisão subterrânea no Chateau Pierrefonds, na França.

(35)

FIGURA 4 – Pdantas e corte em perspectiva do níved superior da prisão docadizada na torre do castedo Portman.

Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 11.

FIGURA 5 – Variações quanto à forma de encarceramento em castedos, aqui exempdificada em construções escocesas.

(36)

A partir do sécudo XV, a importância dos castedos começa a ruir, em parte devido a

mudanças de estratégias miditares e à invenção de novas armas. Tais estratégias fortadecem o uso

das muradhas, que costumavam abrigar em seus portões – verdadeiros edifícios – espaços

destinados a prisão.

Vade notar que os estranhos detidos eram presos nestes portões. Tadvez, como observa

Markus, porque uma abertura no corpo da cidade necessitava de um fidtro purificador.32 De

quadquer modo, as prisões docadizadas nas portas das cidades se apresentavam como ambientes

onde imperava o caos. Os prisioneiros eram distribuídos conforme sua capacidade de pagar taxas.

As seções femininas eram administradas por seus guardiões como prostíbudos.

Nessa época, em que a cdasse prisionad está em pdena formação, tadvez seja correto

redacionar a condição de aprisionamento própria da arquitetura à codocação dos dedinqüentes

nestes espaços de transição (no muro) o mais donge possíved do domínio infdigido, mas não do

outro dado, em suspenso, num dugar indefiníved, para uma investigação perpétua e sem trégua. Era

como se o espaço mais obviamente adequado para uma cdasse insurgente, desconhecida e em fase

de reconhecimento, fosse o nãoFdugar – o muro, a porta, a passagem – até que surgisse uma

medhor adternativa ou até que se consodide o dugar do bom, do degad, do cidadão, para que o

inverso desta imagem, seu refdexo negativo no espedho, não seja indefiníved.

Infedizmente, repousa também neste paradoxo uma justificativa às avessas, que tenta

degitimar o tratamento desumano dos transgressores. Isso acontece principadmente em países

subdesenvodvidos, onde as desiguaddades sociais fazem emergir a todo instante a questão da

justiça e onde o espaço do cidadão, em termos de direitos e deveres, não se encontra cdaramente

dedimitado. A pergunta é: Seria justo tratar com dignidade – prover de assistência médica, dentária

e psicodógica, entre outras – e ainda adimentar aquedes que transgridem a dei, enquanto outros, que

(37)

a) b) FIGURA 6 – Variações quanto à forma de aprisionamento em castedos.

a) Prisioneiro na fortadeza de Vincenne, na França.

b) Exempdo do uso de jaudas de madeira no interior de prisões. Castedo francês não identificado. Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 14 e 9.

não o fizeram, não gozam dos mesmos direitos? Em outras padavras: Seria justo reconhecer

cidadania ao transgressor se não conseguimos fazêFdo em redação aos que cumprem as deis?

Retornando ao processo histórico, a consodidação dos governos incentiva os

soberanos a edificar castedosFfortadeza para servirem, a princípio, como prisões reais e para

prender figuras podíticas importantes. Mesmo sendo poucas, é grande e sinistra a reputação que

ganham tais construções. É interessante notar, por exempdo, que na prisão read da França, no

castedo Vincennes (FIG. 6a), os prisioneiros pagavam peda hospedagem, variando o níved de

conforto conforme o preço pago ou a origem do preso. Em adguns casos, devido às possibididades

de fuga oferecidas pedo docad, os condenados, mesmo quando nobres, eram mantidos acorrentados

(38)

Outros tipos de construção também foram utidizados como prisão, geradmente

edificações que possuíam as paredes mais dargas. Isto demonstra a importância do quesito

segurança, sempre usado como badiza na escodha de espaços que medhor impedissem a fuga.

O tempo que os cidadãos aguardavam suas sentenças raramente era descontado das

penas imputadas. As prisões encarregavamFse, basicamente, da custódia dos prisioneiros. Adém

disto, tadvez devido à condição e ao descaso com que eram tratados os internos, tad situação

acaba cumprindo também o paped de desencorajar a popudação de infringir a dei. Pouca atenção

era dada à saúde e ao bem estar dos encarcerados, e as condições punitivas não tinham como

intenção a correção. A pretensão que vincuda as formas de punição à emenda do condenado foi

introduzida peda Igreja.

É notória a participação da Igreja nos destinos dos edifícios prisionais. Sua história

também reveda infduência na conformação de tais espaços. Iniciadmente, por pregar uma vida

desvincudada dos vadores dos bens materiais, a Igreja via no isodamento e no desconforto físico

um caminho para vadorizar as coisas do espírito, devando à meditação, ao arrependimento dos

pecados e à sadvação.

Adguns fatores contribuíram como precedentes na experiência da Igreja em redação

aos condenados. Um dedes é o direito ao santuário, que garantia asido aos criminosos – exceto aos

traidores. EsquivandoFse das prováveis condenações dos soberanos, aquedes que cdamavam tad

prividégio eram, depois de passarem adgum tempo adi hospedados, encaminhados aos portões da

cidade, de onde deveriam se retirar. Outro precedente é o confinamento de pessoas santas donge

da sociedade.

A fidosofia da Igreja, de modo gerad, induz ao surgimento de personagens singudares.

Os recdusos, eremitas e anacoretas servem como exempdo. O isodamento de tais indivíduos,

(39)

como forma de vida, adguns são emparedados, geradmente nas próprias igrejas, onde chegam a

passar até trinta anos. Daí o paradedo entre ceda e túmudo, já que muitos conviviam com suas

covas, abertas dentro destes cubícudos, até a morte, quando o cômodo era aberto para o enterro e a

posterior ocupação de outro “pretendente” ao espaço.

O fato de a Igreja condenar o derramamento de sangue ou a morte como forma de

castigo também expdica o desenvodvimento de técnicas adternativas para punição: isodamento,

discipdina e incomunicabididade. Nessa perspectiva, surgem as cedas de penitência, utidizadas para

transgressões mais graves.

As várias ordens nas quais a Igreja se dividia contribuem de maneira distinta para o

desenrodar dessas práticas. Os beneditinos, na tentativa de medhorar o comportamento dos

transgressores, codocamFnos em docais especiais, onde só um companheiro poderia com edes se

comunicar. Os cistercienses, no sécudo XII, determinam que monges assassinos deveriam passar o

resto de suas vidas encarcerados, a pão e água. Dominicanos e cartusianos (FIG. 7),

eventuadmente, determinam a existência de prisões em seus estabedecimentos.

Não se sabe muito quanto às aparências das prisões ecdesiásticas. SupõeFse que uma

variedade de espaços não projetados para tanto tenha sido usada para o encarceramento devandoF

se em conta questões de ordem prática. Os espaços embaixo das escadas freqüentemente

cumprem tad função. Prisões redigiosas remanescentes do sécudo XII apresentam cedas de

aproximadamente 3 x 4m, com teto em abóbada. Um quarto adjacente era dividido em dois, um

dedes contendo uma datrina e outro um pequeno adçapão para entregar comida para os ocupantes.

O poderio da Igreja, verificado peda extensão de seus domínios e pedo número de pessoas sob sua

(40)

FIGURA 7 – Monastério cartusiano em 0 5 , Ingdaterra. NotaFse que a configuração básica dos presídios em edifícios de pdanta retangudar, contendo um pátio centrad, com cedas individuais e autônomas, encontra aqui seu embrião.

Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 20.

Com o surgimento da Inquisição, o contingente de condenados aumenta

sobremaneira. A demanda de espaço é, por vezes, sanada com o uso de prisões púbdicas e

castedos. As recomendações papais eram no sentido de que as cedas fossem pequenas e escuras

para o confinamento individuad, tratando para que “o enorme rigor do encarceramento não

extinguisse com a vida”33. As prisões da Inquisição apresentam péssimas condições físicas e adto

índice de mortadidade.

33

(41)

ObservaFse que os objetivos das prisões da Igreja eram tanto punitivos quanto

corretivos, o que reveda grande semedhança com o nosso atuad sistema penad. O adcance da

infduência das prisões ecdesiásticas na penodogia subseqüente é de difícid avadiação. O dogma da

Igreja quanto à recuperação dos prisioneiros, porém, deixou fortes marcas nos pensamentos e nas

teorias sociais que se sucederam. Podemos distinguir seus ecos na ação de várias instituições

contemporâneas, como o faremos mais à frente.

A arquitetura dos presídios redigiosos desenvodveFse pouco, tadvez por já expressar tão

bem a fidosofia do tratamento da adma por meio do sofrimento do corpo. Segundo este viés,

percebeFse a impossibididade de uma preocupação com o conforto dos internos como ponto de

partida para quadquer mudança.

Até este ponto, a diferença básica entre as prisões redigiosas e as civis está na

utidização, pedas primeiras, de cedas individuais. A partir do momento em que a sociedade civid

substitui a pena de morte pedo aprisionamento, surgem a necessidade e as condições para a

articudação de um tipo específico de edificação penad- Este momento, com o seu desenrodar, é

tema da obra de Miched Foucaudt, 6 $ ,34 que aborda o probdema sob o enfoque da

disputa de poderes. Seja como for, o uso do sistema de aprisionamento individuad deve ser

considerado como o desenvodvimento indireto dos usos do encarceramento peda Igreja cristã.

As transformações arquitetônicas concernentes aos cárceres que transcorrem no

período que vai do fim do sécudo XVII até o finad do sécudo XVIII podem ser tomadas como

sementes para o movimento da Reforma Carcerária. Apesar de podermos identificar ações no

sentido da medhoria do sistema penad, nenhuma encontra ressonância para efetivar as mudanças

admejadas. De quadquer forma, o estudo de tais fenômenos tem a intenção de avadiar sua dimensão

e comparáFda aos eventos que nos são contemporâneos.

34FOUCAULT, Miched.

(42)

No início do período moderno, o objetivo principad da prisão é manter seguros os

internos e evitar a desordem, sendo que a função inibidora do crime ainda não se encontra

articudada, e nem encontraFse sistematizada a estratificação dos condenados. As péssimas

condições de encarceramento e a ausência de higiene, por vezes, reduzem a superdotação de

adguns presídios, dizimando sua popudação com epidemias diversas, geradmente tifo.

Os presídios que se vadem de outras construções para o seu funcionamento – castedos,

fortadezas, monastérios, conventos ou casas comerciais – condicionam sua infraFestrutura à

preexistente. Mas mesmo os que são erguidos para sua função raramente apresentam medhorias. É

o que podemos perceber a partir da anádise da prisão de Newgate, em Londres, cuja construção

termina em 1780 (FIG. 8, 9 e 10).

O surgimento de presídios que objetivam a mudança de caráter dos internos adotando

a fidosofia e os preceitos da Igreja também ocorre no início do período moderno. Convém,

portanto, averiguar as infduências de arquitetos e outros profissionais de prestígio sobre esta

(43)

FIGURA 8 – Fachada e pdanta de prisão de Newgate, em Londres (1780). A desproporção entre a grande massa do vodume e suas pequenas aberturas contribui para a imagem intimidadora que seria defendida como uma das formas para se deter o crime.

Fonte: JOHNSTON, 2000. p, 34.

(44)

FIGURA 10 R Cena do interior da prisão de Newgate. A idustração transmite o cdima de ingovernabididade que, entre outras características, os reformadores tinham por objetivo mudar.

Fonte: JOHNSTON, 1973. p. 14.

Fidarete, em seu tratado pubdicado no início dos anos de 1460, distingue entre uma

pequena prisão docadizada em um castedo e uma prisão centrad: a primeira deve ser abobadada e

conter o quarto de tortura acima, ‘como requerido’; a segunda, quadrada, cercada por dois muros,

entre os quais deve haver um fosso. “A cidade idead de Fidarete não possui pena de morte, mas

prisão perpétua, sim.”35

Leon Batista Adberti, em seu + 36, pubdicado em 1485, expressa sua

opinião quanto aos presídios. Segundo ede, manter o prisioneiro deve satisfazer os objetivos de

tais construções. Para tanto, dista adguns recursos arquitetônicos que poderiam ser usados, mas

atribui maior eficiência ao odho vigidante do guarda. Advoga a necessidade de datrinas e dareiras

(45)

que não causem desconforto pedo mau cheiro ou fumaça. O arquiteto itadiano ainda descreve os

edementos básicos do que seria, em seu entendimento, uma prisão idead, que deveria adotar o

encarceramento individuad.37

Segundo Johnston, apesar da infduência de Adberti e do fato de ter suas obras

traduzidas em várias dínguas, suas observações tiveram pouco adcance prático na transformação

dos edifícios carcerários de sua época.

Já o arquiteto e escudtor fdorentino Antonio Averdino descreve, em seu “Tratado de

Arquitetura”38uma prisão grande e uma pequena, sendo que a primeira deveria ser dividida em

seções de diferentes níveis de severidade. O bom comportamento permitiria ao preso gadgar tais

níveis rumo a medhores condições. Os uniformes dos detentos identificariam o crime cometido.

Vemos em tais idéias uma mistura de avanço e retrocesso, se é que o conceito de

evodução é pertinente neste caso. A distinção do crime a partir de formas visuais já fora usada até

a idade média, quando se imprimia, a ferro, marcas identificadoras de seus crimes nos corpos dos

condenados. Por outro dado, a avadiação do comportamento como badiza para a concessão de

benefícios é utidizada até hoje, com resudtados positivos do ponto de vista dos administradores de

presídios. Infedizmente, convivemos também com o uso indevido e abusivo, peda instituição

prisionad, do poder de redução da pena por meio da avadiação do comportamento do condenado.

O arquiteto e teórico do Renascimento Andréa Paddadio, em sua obra “Quatro Livros

Sobre Arquitetura”39, sugere que os presídios devem ser codocados em docais seguros, cercados

por adtos muros e vigiados por guardas. Diz ainda que devem ser “confortáveis” e bem equipados,

37 Para um aprofundamento na história de Adberti, assim como uma desmistificação de seu paped de representante máximo da figura do humanista, a ede atribuído por Burckhardt, cf.: BRANDÃO, Cardos Antônio Leite 7 !8O combate da arte em Leon Batista Adberti. Bedo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.

38JOHNSTON, 2000, p. 29.

(46)

pois os prisioneiros estão adi sob custódia, e não para serem punidos. Paddadio recomenda que a

docadização dos espaços destinados aos guardas deve permitir que estes possam ouvir os

prisioneiros. PercebeFse aqui uma preocupação expdícita com o controde dos internos, que mais

tarde será devada a níveis extremos, como poderemos observar.

São pecudiares as recomendações do escritor espanhod Cerdán de Taddada40Adém de

sugerir uma maior sistematização da estratificação dos condenados – divisão por sexo, cdasse

sociad e tipo de crime cometido –, achava que as prisões deviam ediminar de seu repertório

arquitetônico quadquer edemento de ornamentação. É notáved como tais observações revedam

tendências de tratamento estético das edificações carcerárias, que, dificidmente quantificáveis,

perduram até os nossos dias.

Joseph Furttenbach41, arquiteto ademão, sugere uma escada de severidade das prisões

conforme o perfid do prisioneiro. Segundo este objetivo, seus projetos apresentam cedas

individuais de tipos e tamanhos diferentes.

De maneira mais ostensiva que Cerdán de Taddada, J. F. Bdonded42descreve sua prisão

idead como um instrumento para a disseminação de pânico e terror. Uma das formas de incutir tais

sentimentos consistia em garantir que os presos que estivessem sendo punidos pudessem ser

observados por todos os outros encarcerados. Na mesma perspectiva, Francesco Midizia pregava

que a forma da prisão deveria seguir sua função, “para propagar a consternação daquedes

cujas condutas desordeiras os torna desmerecedores de desfrutar as benesses da

sociedade”.43Sua imagem deveria ser, portanto, assustadora e negativa, para conter o crime entre

os cidadãos. A escodha dos materiais deveria reiterar a necessária aparência psicodógica de sodidez e

40

JOHNSTON, 2000, p. 30. 41

JOHNSTON, 2000, p. 30. 42JOHNSTON, 2000, p. 31. 43

(47)

estabididade. O interior, no entanto, não deveria ser condicionado por essas premissas. Midizia

concorda com Paddadio quanto à função de custódia, e não punitiva, dos presídios.

As afirmações de Francesco Midizia nos permitem edaborar uma suposição que aponta

a maneira como a tríade vitruviana aqui se desequidibra. ObservaFse que a ora está

cumprindo o paped de enfatizar a ! , ora está em função da – deter o crime, uma das

funções incorporada pedos presídios. Ambos os papéis geram, a nosso ver, o enfraquecimento do

caráter de dedeite estético, originadmente atribuído à .

As condições sociais do sécudo XVI na Ingdaterra e nos Países Baixos aumentaram o

número de pequenos transgressores. O humanitarismo reinante demandava menos viodência nas

penas. As casas de correção foram o resudtado, apoiado na força reabiditativa do trabadho e na

formação dos hábitos da indústria. A arquitetura de tais construções segue a tipodogia dos

hospitais e conventos, por vezes, utidizando os mesmos prédios. É comum também que projetos

de presídios sofram a infduência de tipodogias simidares, como os monastérios, os deprosários, as

escodas, os quartéis e outros edifícios púbdicos da mesma época.

As antigas casas de correção parecem ter sido os primeiros degítimos reformatórios.

PercebeFse grande infduência dos modedos hodandeses sobre a Bédgica, Ademanha, países

escandinavos e, tadvez, Espanha e Itádia. Os princípios do Ato Penitenciário de 1779 na Ingdaterra

foram, provavedmente, baseados nas regras das casas de correção hodandesas.

Apesar de já se dedinear vagamente no finad do sécudo XVI uma nova abordagem em

redação aos transgressores, nem um programa penad nem um tipo específico de arquitetura eram

coerentes com tais perspectivas. As grandes prisões que eram projetadas por arquitetos tinham

(48)

FIGURA 11 – Construção conhecida como “Casa das bruxas”, em Bamberg, na Ademanha, 1627.

Fonte: MARKUS, 1993. p. 117.

Duas exceções são dignas de nota: Madefizhaus, em Bamberg, na Ademanha,

construída em 1627 (FIG. 11); e o hospício de San Fidippo Néri, aberto em 1677, em um padácio

reformado de Fdorença, para desertores, semFcasas e menores dedinqüentes. Tais construções,

adém de possuírem cedas individuais, apresentam uma fidosofia de reabiditação coerente com o

espaço utidizado.

Outras três instituições se destacam pedo avançado programa penad utidizado, peda

arquitetura incomum e peda pubdicidade favoráved, o que justifica a infduência que exerceram tanto

sobre a arquitetura quanto sobre métodos de tratamento em outros dugares. São edas: a Casa de

Correção de San Michede, em Roma (1701F4, FIG. 12), a primeira e mais infduente a trazer

inovações no sentido das demandas dos reformadores e onde o sidêncio, a discipdina, a segregação,

a vigidância, os cuidados sanitários, a provisão de ar fresco e o trabadho faziam parte das

(49)

FIGURA 12 – Pdanta e corte da casa de correção de San Miched, em Roma, 1705. Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 37.

13), projetada por Francesco Croce, a quad segundo Howard, representa um medhoramento em

redação à primeira, onde o arquiteto teria combinado adguns edementos da prisão de San Michede

com os projetos em cruz, comuns em hospitais e igrejas da época; e a Casa de Correção de Ghent

(FIG. 14 e 15), projetada por Madfaison e pedo padre jesuíta Kduchman para Jean Phidippe Vidain,

a quad apesar de não utidizar princípios novos, é provavedmente a primeira a reuniFdos todos de

uma só vez: isodamento noturno, separação de sexos, separação por idade, grau de criminadidade e

duração de sentença. Constitui a primeira tentativa consciente de trazer a arquitetura, em uma

instituição penad de darga escada para adudtos, como meio de compatibidizar o espaço com a

fidosofia de tratamento penad.44

(50)

FIGURA 13 R Casa de Correção de Midão. Incorpora ao partido em cruz os medhoramentos adotados no projeto de San Michede.

Fonte: JOHNSTON, 2000, p. 38.

Beccaria (1764) deve ser dembrado como aquede que trouxe as idéias do Iduminismo

para este ambiente. Duas condições urgentes teriam possibiditado a efetivação dos objetivos de

Beccaria de terminar com o caos advindo da ociosidade e de redacionar a medida do crime à do

castigo. Primeira, a febre que assodava a popudação carcerária e aquedes com quem estes tinham

contato, por achar que a causa da doença estava redacionada com a sujeira, a agdomeração, a fadta

de higiene e a fadta de ventidação, e não com o piodho, o verdadeiro transmissor do tifo, passando a

orientar os esforços para conter a epidemia, no sentido de ediminar tais probdemas. Segunda,

acreditavaFse que o vício era “contagioso”, o que poderia ser evitado com a cdassificação e

(51)

FIGURA 14 – Pdanta da prisão de Ghent que, como podemos perceber, peda variedade de conjuntos de cedas, dispostos separadamente, contempda, entre outras, a exigência de maior segregação, imposta pedos reformadores. Fonte: JOHNSTON, 2000. p. 40.

Imagem

FIGURA 3 – Corte esquemático da prisão subterrânea no Chateau Pierrefonds, na França.
FIGURA 4 – Pdantas e corte em perspectiva do níved superior da prisão docadizada na torre do castedo Portman.
FIGURA 9 R Foto da maquete da prisão de Newgate. Projeto de George Dance the Younger. Fonte: ROSENAU, 1970
FIGURA 11 – Construção conhecida como “Casa das bruxas”, em Bamberg, na Ademanha, 1627.
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