FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PROGRAMA DE PÓS -GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
“A LITURGIA DE HEBREUS: Uma análise de como as
mudanças sociais influenciam as formas de culto”
CELSO ERONIDES FERNANDES
UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PROGRAMA DE PÓS -GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
“A LITURGIA DE HEBREUS: Uma análise de como as
mudanças sociais influenciam as formas de culto”
CELSO ERONIDES FERNANDES
ORIENTADOR: Prof. Dr.GEOVAL JACINTO DA SILVA
Dissertação apresentada em cumprimento parcial das exigências do Programa de Pós -Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.
SÃO BERNARDO DO CAMPO
Banca Examinadora
___________________________________________________ Presidente: Prof. Dr. Geoval Jacinto da Silva
____________________________________________________ Prof. Dr. Tércio Bretanha Junker (UMESP)
_____________________________________________________
DEDICATÓRIA
RECONHECIMENTO
FERNANDES, Celso Eronides. A Liturgia de Hebreus: Uma análise de como
as mudanças sociais influenciam as formas de culto. Dissertação.
Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Gradução em
Ciências da Religião, São Bernardo do Campo: 2006, 151 p.
RESUMO
Qual o poder de influência das mudanças sociais nos estilos de cultos? A
realidade é que a Religião não é isenta de sofrer influências das mudanças
políticas e sociais. Esta pesquisa analisa e compara dois momentos em que o
Cristianismo sofreu influências das mudanças ocorridas na sociedade. O primeiro
momento está baseado na Epístola de Hebreus, ainda nos primeiros séculos da
era cristã, quando conseguiu se desvincular da Liturgia Judaica e formar um
discurso litúrgico próprio. O outro momento estudado é a época atual, onde os
cultos têm recebido grande influência das mudanças que a sociedade vem
sofrendo. Em ambas as épocas é possível apontar uma luta entre a Tradição e a
Modernidade, entre o velho e o novo, entre o que esta estabelecido e o aquilo que
quer espaço a fim de se estabelecer.
FERNANDES, Celso Eronides. The Liturgy of Hebrews: An analysis of how
social changes influence the style of worship services. Dissertation.
Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em
Ciências da Religião, São Bernardo do Campo: 151 p.
ABSTRACT
What influential power does social change have over types of worship
services? The truth is that religion is not exempt from receiving influences from
social and political changes. This research analyzes and compares two moments
that Christianity suffered influences from changes that occurred in society. The first
moment is based upon the Epistle of Hebrews, in the first century of the Christian
age, when it dismembered itself out of the Jewish liturgy and formed a liturgical
speech for itself. The other moment is the present day, where the worship services
have received strong influences from changes that society has suffered. It is
possible in both of these instances to find a struggle between Traditionalism and
Modernism, between what is new and what is old, between what is established and
what struggles in order to be established.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...10
Capítulo 1: A TRANSPOSIÇÃO DA LITURGIA JUDAICA PARA A CRISTÃ...21
1.1. Os sacrifícios de animais no judaísmo do primeiro século...29
1.1.1. Culto e sacrifício...32
1.1.2. Santuários camponeses e templo central...34
1.2. A relevância das sinagogas e do templo...38
1.2.1. A sinagoga como causa de fragmentação na Liturgia de Israel...40
1.2.2. O papel das seitas nas formas de culto...44
1.3. A influência do ambiente sócio-político e econômico no período dos Macabeus...48
1.3.1. Conseqüências das condições sociais e econômicas no período grego...52
Capítulo 2: CONTINUIDADES E RUPTURAS: ASPECTOS LITÚRGICOS DO LIVRO DE HEBREUS...55
2.1. A Questão da Superioridade de Cristo...65
2.1.1. A superioridade de Jesus sobre os Anjos...66
2.1.2. A Influência do Intelectualismo Secular na Superioridade de Jesus sobre Moisés...71
2.1.3. As questões políticas na superioridade de Cristo sobre o Sumo Sacerdote...77
2.2. A questão do Sacrifício e as Influências Sócio-Econômicas...85
2.2.1. Uma nova figura do Cordeiro do Sacrifício...89
Capítulo 3: A LITURGIA DE UMA COMUNIDADE EM PROCESSO DE
MUDANÇA...99
3.1. Culto religioso e mudança: análise do fenômeno religioso apontado por Hélène Clastres...103
3.2. Os Símbolos como elementos permanentes nas mudanças cúlticas...108
3.2.1. A dialética entre Tradição e Modernidade na Mudança Litúrgica...113
3.2.2. O discurso litúrgico e sua influência nas formas de culto...117
3.3. Os novos rumos do culto cristão contemporâneo...122
3.3.1. A flexibilidade dos cultos modernos em contraste com a dureza da liturgia tradicional...126
3.3.2. A mistura entre os cultos: um legado da pós-modernidade...129
3.3.3. O culto cristão e o sistema Neo-Liberal vigente...133
CONSIDERAÇÕES FINAIS...137
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA...144
DISSERTAÇÕES E TESES...150
ENCICLOPÉDIAS E PERIÓDICOS...150
VERSÃO DA BÍBLIA...151
INTRODUÇÃO
Quando se abre um debate sobre as influências recebidas pelo culto
cristão, é impossível não considerar aquela recebida primordialmente do culto
judaico. Por tal motivo é que esta pesquisa se aplicará, em seu capítulo primeiro,
em estudar um pouco da inter-relação da liturgia judaica com a cristã.
A liturgia cristã não nasce sem uma história, e esta história acontece dentro
de uma determinada cultura, ou seja, uma sociedade com elementos não apenas
religiosos, mas também políticos, sociais e econômicos. Ao longo deste trabalho
contemplaremos principalmente estes três últimos elementos. É portanto, um
trabalho que interliga a Práxis Litúrgica com elementos da Sociologia, bus cando
um entendimento da religião segundo o olhar fenomenológico e não teológico.
Crendo que tais elementos – sociais, políticos e econômicos –
influenciaram a formação litúrgica do Cristianismo, o livro de Hebreus será
abordado no segundo capítulo. O li vro será um documento útil para a pesquisa,
servindo-a mais como material científico do que como Escritura Sagrada.
Tendo em vista um argumento apresentado por Valverde1, quando diz que
“a liturgia cristã é a expressão de diversos elementos que possibilitam o culto”, a
Epístola aos Hebreus se torna o livro do Novo Testamento (NT) mais sólido em
descrição e pintura desta expressão, por retratar o momento crucial de encontro
(ou separação) das duas formas de culto: a judaica e a cristã. “O culto – continua
Valverde – é o serviço devido a Deus pelo seu povo que se expressa em todos os atos da existência humana”.
Uma vez que as influências religiosas do judaísmo para o cristianismo,
poderiam ser consideradas como influências internas, e tendo em vista a vasta
bibliografia existente em tal matéria, optamos por abordar as influências
caracterizadas aqui como “influências externas”. Isso porque tanto o ponto de vista
social, como o político e econômico são (supostamente) externos à religião.
Quando se fala de uma relação entre o Antigo Testamento (AT) e NT, como
expõe Geoval Jacinto da Silva2, “não se pode limitar apenas ao que se encontra
na ‘palavra’ da Escritura e de sua ‘realização’ em Cristo. Silva acrescenta que é da
‘palavra’ que se passa ao ‘rito’ à medida que nasce como sinal representativo
-comemorativo, em nível cultual”.
O momento de transição de uma forma de culto para outra, ocorre
justamente na época em que o estabelecimento romano se dava de maneira mais
acirrada na nação de Israel, e ainda, somando os problemas enfrentados por parte
do judaísmo para manter seus ritos e sacrifícios de animais com as implicações
acerca do Templo de Jerusalém, local Sagrado para a população, mas que seria
destruído ainda no primeiro século do cristianismo, é possível que se tenha um
quadro que aponte para a proposta deste trabalho: A religião sofre muitas
influências do meio social, e a arbitrariedade da política, da economia e da cultura
deste meio podem fazer com que as formas de culto mudem, seja por imposição,
seja por auto-escolha da própria religião.
Estruturada em três capítulos, o primeiro expõe as condições sociais e
econômicas da nação judaica, além de contemplar o aparecimento das sinagogas,
2 SILVA, Geoval Jacinto da. A Inter-relação histórica e teológica da Liturgia Judaica e Cristã. In. Estudos da
as quais tiveram papel de grande importância nas formas de culto da co munidade
de Israel. Também é apresentada uma ênfase especial para a dinastia dos
Macabeus, uma vez que se tornou uma revolta política, tendo a religião como
pano-de-fundo. Com isso, foi a obra de Oesterley3 que serviu como referencial
teórico, uma vez que sua abordagem traça paralelos entre as duas formas de
culto, judaica e cristã, entretanto, dando uma ênfase apenas histórica (que não foi
o caso desta pesquisa). Humberto Porto4 realizou uma pesquisa que aponta para
este momento do encontro entre as liturgias judaica e cristã, ela vem de encontro
com o tema aqui proposto. Mas, se distingue deste por ter exatamente uma
abordagem histórico-cronológica e não comparativa. Porto afirma que a liturgia de
Israel se expressou em três grandes grupos de textos: os livros históricos, os
proféticos e das leis cultuais e dos salmos.
A Bíblia é ocupada na pesquisa, mas não como documento revelado, e sim
como conteúdo literário apenas, ainda que não haja como escapar do problema de
se trabalhar com os textos bíblicos sem querer interpretá-los com abordagem
teológica.
Para Porto, esse problema apareceria para qualquer um que almejasse
embasar uma pesquisa não teológica nas Escrituras Sagradas, considerando não
apenas o estado fragmentário dos textos originais, mas ainda os problemas
levantados pela crítica textual. Todavia o autor, ainda assim, pressupõe que o
trabalho seja válido, uma vez que os textos sagrados, se analisados como
literatura não revelada “podem fornecer-nos os dados nucleares da vida litúrgica
no decorrer da história do povo de Israel, tornando fecunda a nossa busca das
origens profundas e os vínculos da liturgia cristã e a ritualística judaica”5.
A obra de Humberto Porto6 servirá como referência do segundo capítulo, já
que se trata de um documento minucioso e rico em detalhes entre uma liturgia e
outra. O problema de ter esta obra como base para o segundo capítulo é que,
Porto não retrata apenas um livro específico, como foi o caso desta pesquisa – A
Epístola de Hebreus –, mas, devido ao bom número de come ntários teológicos
específicos, houve fluência no desenvolvimento e no diálogo entre abordagens
teológicas e sociológicas.
É no segundo capítulo que a transição litúrgica é apontada e consumada, e
a Liturgia de Hebreus é uma prova de que o cristianismo teve de se esforçar para
se libertar das formas de culto legadas pela religião judaica.
Algumas continuidades e rupturas apresentadas pela Epístola de Hebreus e
apontadas por esta pesquisa não se constituem em um estudo exaustivo sobre o
tema. Isso corresponde a dizer que, se avaliada com muito mais aparato
bibliográfico e tempo, apenas o segundo capítulo desta pesquisa poderia
corresponder a um trabalho separado.
Entretanto, o estudo no livro de Hebreus servirá como ferramenta, para
fazer um paralelo entre as mudanças cúlticas ocorridas em duas épocas distintas,
na mudança do culto judaico para o cristão, e nas mudanças dos cultos modernos,
ocorridas de forma cada vez mais intensa. O ponto de ligação entre os dois
momentos, seria a sociedade secular, laica ou profana (termos abordados ao
longo do trabalho).
Uma vez que a comunidade cristã primitiva se viu obrigada a reinventar a
adoração nas casas, já que a economia não lhes proporcionava a construção de
um templo, o discurso religioso vai ser moldado de maneira que justifique novas
formas de culto.
Certamente é possível abordar as mudanças sob um prisma espiritual e
portanto, teológico. Entretanto, também é possível abordar essas mudanças sob
parâmetros científicos, reconhecendo que – já que Deus se manifesta dentro de
uma cultura – é possível que haja traços de influências não religiosas numa
formação litúrgica, e neste caso, mais especificamente na dos cristãos do primeiro
século e na igreja da sociedade atual (denominada pós-moderna).
Nos dois primeiros capítulos, o tema será reforçado pelos seguintes
assuntos: a falta de envolvimento político por parte dos cristãos do primeiro
século, diferente da figura do Sumo Sacerdote, bastante envolvido com a política
da época; o interesse econômico do comércio na nação de Israel; os
relacionamentos com as religiões orientais, fato que influenciou em muitas
interpretações, inclusive em relação à figura dos anjos no livro de Hebreus.
A liturgia cristã também teve influências proporcionadas pelo ponto de
convergência comercial, no qual a nação de Israel acabou se tornando
representante destacável no mundo greco-romano; implicando nas novas
comunidades (Qunram) e facções (Escribas, Fariseus e Saduceus) e a liberdade
São todos temas discorridos ao longo dos dois primeiros capítulos. Sempre
abordados como pequenos fragmentos de uma pesquisa que corrobora para um
clímax no seu terceiro capítulo.
Desse modo, este último capítulo terá uma intersecção com os dois
anteriores, com a justificativa de que o plano abordado é sempre com vistas na
liturgia hodierna. Algumas das formas mais modernas do culto cristão serão
contempladas por este trabalho. Entretanto, não se trata de uma descrição de
formas de cultos, nem mesmo de um estudo de caso – um estilo de culto moderno
específico. Trata-se, antes de tudo, de um trabalho que busca se ocupar do
método histórico-comparativo (baseando-se na obra de Eva Maria Lakatos7), e
após apontar influências que o meio social projetou nas formas de culto por época
da transição judaísmo/cristianismo, compará-las com as mesmas influências
ocorridas na nossa sociedade, cuja característica é estar em constante mudança.
O terceiro capítulo retrata ainda as mudanças nos cultos da sociedade
atual. O culto de uma comunidade em processo de mudança também se torna um
culto em mudança, e desse modo, a premissa de que os cultos são influenciáveis
pelos fatores sociais terá sido comprovada.
Todavia, há que se entender, em meio a tantas mudanças o que é que
continua, o que se mantém no chamado sagrado. Pois, se o culto vive em função da mudança, há o perigo de perder todo o tipo de memória, como vai atestar A. J.
Chupungco8, nosso referencial teórico para este último capítulo. Sua obra
“Liturgias do Futuro”, é uma proposta de adequar religião/sociedade (inculturação)
7 LACKATOS, Eva Maria. Fundamentos da Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 2001.
quando esta primeira se depara com uma nova cultura. Entretanto, ao longo de
toda a obra há uma preocupação exacerbada de não desvincular a mesma do
sagrado (processo que ocorre quando os aspectos culturais são anexados de tal
forma, ao ponto de excluir os símbolos litúrgicos). Segundo ele, as mudanças de
culto são provenientes exatamente das mudanças sociais, mas ocorre que, já que
o culto é expressão do sagrado e este tem a ver com a memória, há o perigo de o
religioso se perder no esquecimento, e as manifestações, desse modo, não seriam
mais expressões do sagrado por não haver memorial9.
Pelo fato de não haver uma pesquisa de campo, e para que o trabalho não
se eximisse de apontar algum exemplo além das fronteiras do cristianismo; o
trabalho da Antropóloga francesa Hélène Clastres10 oferece um endosso ao tema
abordado. Já que seu trabalho aponta o mesmo fenômeno, ocorrido na cultura
Tupi-Guarani. Trata -se de uma comunidade onde a religiosidade era expressa por
uma busca a uma espécie de terra prometida (“A Terra-Sem-Males”). Suas
manifestações cúlticas determinavam que vivessem como nômades, em busca da
Terra -Sem-Males, que para eles tratava-se de um local imanente e real.
Entretanto, com a chegada do homem branco, e tendo sido cada vez mais
empurrado para as reservas indígenas, o povo Tupi-Guaraní e suas formas de
culto se moldaram de acordo com a força da mudança social. Deixaram de ser
nômades e reformularam o discurso religioso. A Terra-Sem-Males passou a ser
um lugar no além, a qual depois desta vida eles terão o direito de desfrutar.
9 CHUPUNGCO, A. J. Op. Cit. Passim.
Outro ponto bastante relevante, atestado pelo terceiro capítulo, é a
presença marcante do símbolo. Pois, se a sociedade está correndo em um fluxo muito desesperador, de que forma a liturgia religiosa conseguirá, contudo, ser
expressão do sagrado? Uma vez que a sociedade denominada Pós-Moderna, vive
em função da novidade, e uma vez confirmado que os rumos da novidade afetam
os estilos de culto, certamente que o culto dependeria da criação de novidades
efêmeras (espetáculos) a todo o tempo.
O problema que surge com tal fenômeno é de tamanha importância, que é
possível determinar, por intermédio do símbolo, se o culto ainda se convenciona
como memorial, ou está se perdendo na linha do entretenimento.
Esta pesquisa aborda a hipótese de que, na realidade, o que está
acontecendo nos cultos emergentes da religião cristã é uma nova forma de ler o
símbolo, o qual seria um elemento estável da liturgia. Dessa forma a religião
continua sendo religião, e o sagrado continua sendo sagrado, mas com diferenças
culturais mais expressivas do que antigamente.
A partir de então, a dialética entre o antigo e o novo aparece como uma
constante em todos os momentos de mudança de uma forma de culto para outra.
É de se esperar que a mudança litúrgica – como qualquer movimento que
caminhe em direção da tradição – enfrente obstáculos.
Apesar de apresentar uma proposição distinta, e o fato de não haver muitos
escritos que comparem os dois momentos da história, não há tanta escassez em
obras que tratem – cada qual a seu tempo – da temática desenvolvida por cada
um dos capítulos. As obras que retratam as liturgias judaicas e o momento de
retratados por partes de obras ou enciclopédias. Mais vasta ainda é a quantidade
de obras que retratam o livro de Hebreus. O tema abordado no último capítulo
também pode ser facilmente embasado frente a diversos escritos que abordam o
assunto da Pós-Modernidade e dos cultos da Era Contemporânea. O que veio a
ser um problema enfrentado ao longo da pesquisa foi a tarefa de sustentar o
diálogo entre estes três capítulos; interligados justamente pela luta entre o Novo e
Velho.
Uma literatura emergente sobre este assunto (influências externas) começa a surgir, a qual pesquisa principalmente o fenômeno religioso manifestado
nos cultos das igrejas locais, interligados com os novos modelos sociais da era
globalizada.
Religião e economia, mais do que nunca, devem ser consideradas, uma vez
que esta última teve poder de reformular os parâmetros discursivos da pregação
religiosa nos cultos. Leonildo Silveira Campos11 tem um trabalho denominado
“Templo, Teatro e Mercado”, que vai justamente nesta direção, não deixando de ser também uma análise de adventos fenomenológicos da Pós-Modernidade,
apesar de avaliar uma denominação mais específica. Jung Mo Sung também trata
desta inter-relação entre a religião e os novos rumos da sociedade capitalista em
duas obras: “Teologia e Economia” e “Desejo, Mercado e Religião”. Ainda que não
sejam obras que abordem a estrutura litúrgica como no caso da obra de Campos,
não deixam de envolver o assunto em questão. Messias Valverde12, tem também
um trabalho que contempla de forma sistemática o discurso litúrgico, “Liturgia e
Pregação”, e sua inter-relação com os tempos modernos. Ainda obras clássicas,
como no caso de “O culto Cristão”, de J.F.White13 auxiliou para que a pesquisa
tivesse um desenvolvimento satisfatório.
O atrito existente entre a Tradição e a Modernidade será observado nos
três capítulos, e a rigor do que expõe Pierre Bordieu14, este atrito acabou
aparecendo no decorrer da pesquisa, tomando vida por si mesmo, e se tornando
uma espécie de eixo condutor.
A pesquisa não é cronológica, nem tampouco tem o Método Indutivo como
ferramenta adotada, mas sim o Método Histórico comparativo.
Uma outra dificuldade encontrada, foi o fato de ter de abandonar vários
episódios importantes da história e.g. (Reforma, Barroco, Iluminismo e a
sociedade pós-guerra, entre outros) que certamente influenciaram as formas de
culto de suas respectivas épocas. Contudo, tornar-se-ia um texto muito extenso,
caso fossem analisados todos os momentos cruciais da história do ocidente, em
busca de mudanças sociais que tenham influenciado a mudança litúrgica.
Por isso esta pesquisa contempla apenas o momento de mudança no culto
judeu para o cristão, e a partir disto (do passado), seja possível entender um
pouco mais da liturgia presente, p reparando o local para a liturgia do futuro.
13 WHITE, J. Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997.
14 BORDIEU, Pierre. A ilusão da transparência e o princípio da não –consciência. In: Profissão de
1. A TRANSPOSIÇÃO DA LITURGIA JUDAICA PARA A CRISTÃ
As religiões judaica e cristã estão entrelaçadas tanto na história como nas
formas de adoração. Este entrelaçamento é devido o fato óbvio de que uma delas
(a cristã) foi gerada pela outra (a judaica). Mesmo desconsiderando o fato de ter
ocorrido um nascimento cheio de atritos com a religião antecessora, o
cristianismo, ramificação mais próxima do judaísmo do primeiro século, não se
desvinculou da forma de adoração judaica, das preces, da cultura e do Deus
cultuado por aqueles.
Mesmo que a identidade desta nova religião foi se firmando cada vez mais
autônoma daquela que a gerou, entender o culto cristão em sua formação sem
considerar o culto judaico seria, no mínimo, uma falácia, já que esta foi que gerou
aquela.
Discorrendo sobre tal importância, W.O.E Oesterley15 afirma com vários
exemplos que, sem alguns conhecimentos históricos, políticos e religiosos e
lingüísticos, os quais afetaram o judaísmo de forma tão profunda durante aqueles
séculos, não apenas o NT mas também uma porção considerável do AT jamais
poderia ser entendida adequadamente.
Por isso que a Bíblia também deverá ser considerada como um documento
no qual seja possível encontrar um vasto campo de trabalho, a fim de embasar
descobertas científicas. Ainda que nesta pesquisa, este documento seja visto
como aparato histórico e cultural, não se pode jamais desvincular a cultura de um
15 OESTELEY, W.O.E. Religion and Worship of the Synagogue, New York: Charles Scribner’s Sons, 1907.
Israel religioso por excelência, onde todos os textos bíblicos existentes eram
reconhecidos como revelação de Deus diretamente à comunidade.
Por isso que esta pesquisa se ocupa não apenas de textos e comentários
históricos, mas também dos textos bíblicos. Todavia, cada vez que isto ocorre, o
texto bíblico servirá como reforço para confirmações históricas, como documento
textual, e portanto, o fato de o texto bíblico ter sido revelação divina não será
ponto focal do trabalho. Em virtude disto, Humberto Porto organiza um capítulo
inteiro denominado “A Bíblia Fonte Comum”, onde ele defende a idéia de que, os
sinais litúrgicos são antes de tudo sinais bíblicos, ele acrescenta que não se deve
desconsiderar a Bíblia como fonte de pesquisa, uma vez que se pode afirmar que,
em ambos os casos, na liturgia judaica bem como na liturgia cristã, trata-se de
uma liturgia bíblica. Ele diz que:
A influência modeladora e sugestiva da Bíblia foi total e absoluta. Os sinais litúrgicos são antes de tudo sinais bíblicos (...). Pervadem os ritos e textos judaicos e eclesiais uma cosmovisão religiosa e uma interpretação teológica da história, que são próprias da Bíblia, e que fizeram deles um comentário vivo a conferir-lhes a plenitude de sua significação16.
Portanto, seria impossível abrir mão de tais documentos para estudo da
transposição de uma religião à outra, uma vez que a crítica da veracidade de tais
documentos vai contestar sua autoria ou época exata, mas é muito raro ver
pesquisas que contestaram formas de culto ou momentos litúrgicos tais como,
celebrações, festas, costumes, rezas. M. Augé concorda com Porto quando expõe
o seguinte:
No AT possuímos testemunhos de um ano religioso e “ritual” modelado sobre o ano cósmico no sentido de que seus momentos celebrativos salientes coincidem com os tempos igualmente salientes do ano cósmico: o dia, a semana, o mês, as estações. Embora Israel tenha eliminado do seu calendário religioso toda referência aos mitos politeístas não rejeitou todavia a sacralidade natural dos ciclos cósmicos17
A Igreja Primitiva, na mesma linha de Israel, se assemelha a este na sua
celebração religiosa, contudo, é óbvio que ela vai tratar de adequar sua
celebração de tal forma que apresente uma identidade própria, tão necessária
para se firmar como religião autônoma. Mesmo conseguindo tal autonomia, a
Igreja Cristã, ao longo da história, jamais vai se desvencilhar completamente de
Israel, pois “há entre estas duas religiões traços de união que lhes atravessa por
inteiro”, como afirma Porto, e ainda acrescenta que “a vida litúrgica da Igreja, em
suas colunas mestras, se construiu sobre os alicerces do culto sinagogal18”.
17 AUGÉ, M. O Ano Litúrgico: História, Teologia e Celebração. São Paulo: ed. Paulinas, 1991, col.
Anámineses 5. p. 22.
Também o reflexo do rumo tomado pela sociedade helênica daquela época
vai seguir um processo civilizatório19, traçado pelas sociedades em
desenvolvimento, onde na religião esse caminho se traçava do simbólico para o
descritivo, ou seja, da religião sacrificial, que era uma religião mais primitiva
(ágrafa), para a religião codificada (com escrituras), que era uma manifestação
religiosa mais civilizada20.
Com isso, haverá a necessidade de uma alusão entre o que foi
continuidade e o que foi ruptura, tendo em vista que, por um lado a Igreja tratou de
romper com alguns ritos (como o das ofertas de animais) de Israel que
comprometeriam sua estrutura e proclamação religiosa, mas por outro, deu
continuidade às bases de um culto e de uma celebração dirigida e determinada
como sendo revelação proveniente de Deus.
Além disso, um outro fato de enorme relevância é retratado por
MacDonald21, o qual expõe que apesar de parecer existir uma certa aceitação da
comunidade judaica para com a nova religião – o Cristianismo – isto é apenas
uma aparência superficial.
Portanto, apesar do fato de os adeptos dessa nova ramificação religiosa
viverem, aparentemente, com bastante liberdade dentro da comunidade judaica,
19 Este termo, “Processo Civilizatório”, quando usado nesta pesquisa, não é alusão à reconhecida pesquisa de
Hockett e Ascher (1964), citada pelo antropólogo Darcy Ribeiro na obra brasileira também denominada O Processo Civilizatório (Companhia das Letras, 2000); trata-se de um termo local, para denotar a idéia defendida na obra de DEBRAY, Régis. Deus, um itinerário. São Paulo: Compahia das Letras, 2004. Cap. 4: A decolagem Alfabética. Ali o escritor contempla a idéia de que a religião segue um rumo do primitivo a um mais civilizado, e esse processo encontra seu auge quando manufatura seu Código Escrito e se torna monoteísta.
20 DEBRAY, Régis. Deus, um itinerário. São Paulo: Compahia das Letras, 2004. p. 93-99.
21 MacDONALD, Alexander B. Christian Worship in the Primitive Church. Edinburgh: T & Clarrk, 1934, p
havendo uma certa “admiração”22 por parte dos judeus (talvez pelo caráter
comunitário que o cristianismo estava espalhando) é possível contestar esta
‘aceitação’, uma vez que, segundo o autor, percebe-se por outros pontos, uma
reprovação latente do cristianismo por parte do judaísmo.
Mais que isso, o que MacDonald propõe é que estivesse havendo uma
certa tolerância, já que ambos os lados estavam sob o Império Romano, e para
este, as duas religiões eram a mesma23.
Considerando, entretanto, o livro de Atos dos Apóstolos, não parece ser
assim. Ali o escritor insiste em que a nova comunidade religiosa foi recebida de
forma favorável. Não é fácil definir com clareza as atitudes das autoridades de
Jerusalém, mas parece haver claras controvérsias, pois, com base na exposição
de MacDonald, a nova comunidade estaria sendo “tolerada”, e seus membros
deixados livres, e com algumas exceções parciais e ocasionais, podiam participar
do culto no Templo, e ainda assim desenvolver e participar de sua outra
comunhão religiosa.
Algumas décadas após o nascimento do Cristianismo, quando se deu a
queda do segundo Templo, a liberdade religiosa dos cristãos frente às
comunidades judaicas se alargou, pois com a preocupação de estabilizar-se em
uma Jerusalém destr uída, incluindo seu símbolo religioso mais poderoso (o
próprio Templo), os cristãos deixam de ser o mal em destaque.
A noção de que após a queda de Jerusalém, os judeus desapareceriam da
face da terra, teria sido um erro de suposição, e.g. ocasião da diáspora; o mesmo
equivale para os cristãos, pois a tolerância se dava mais por imposição da direção
política – que era romana – do que uma tolerância interpessoal entre um judeu e
um cristão.
Este convívio entre as duas religiões, que para o Império eram as mesmas,
vai sobrevivendo ao longo dos anos, e portanto, mesmo que a contra-gosto, esse
convívio acaba influenciando nas formas de adoração, entre uma e outra. Estas
formas de adoração distintas têm, segundo Von Allmen, características não tão
marcantes em seu princípio, mas que vai, ao longo da história proporcionando
cada vez mais a autonomia do culto cristão frente ao judaico. Von Allmen usa
como exemplo a ceia celebrada nos cultos e o próprio dia instituído para o culto
(primeiro da semana, o domingo)24.
Mesmo que não haja documentação bíblica de uma seqüência litúrgica, é
possível perceber que essas mudanças nas bases interpretativas também
implicam em mudanças nas práticas da adoração.
Idelsohn25 diz que após a passagem do estupor, causado pelo terrível
choque que o povo judeu havia sofrido com a destruição do Santuário de
Jerusalém pelos romanos, o incrível senso de espiritualidade de Israel procurou
um caminho fora da confusão.
Considerando também que, no judaísmo remoto houve sempre várias
tendências a constituir diversas ligas e facções, grupos e associações, o
Cristianismo não seria a primeira ramificação com que os judeus deveriam
24 VON ALLMEN, J.J. O Culto Cristão. São Paulo, Aste, 1968, 175.
conviver; segundo W. J. Tyloch, isso sempre se culminava em diferentes
interpretações26.
Devido às muitas fragmentações, e ainda o fato de muitos dos grupos se
formarem no período helênico – época também do período Macabeu – é possível
observar que, nesse contato nasceu uma espécie de aceitação de algumas
influências externas, desembocando nas diferentes interpretações do Antigo
Testamento. Estas interpretações diversas, obviamente, facilitaria o caminho
(implicando na isenção da Igreja Primitiva em desenvolver determinados rituais,
bem presente nas celebrações judaicas) para que o Cristianismo recriasse uma
outra forma de culto. Alan Richardson corrobora com essa idéia quando diz que:
the NT, (...) used only a small selection of OT passages in this way. Yet it had shown that the smallest details of the OT could find correspondence in details of Christianity; moreover, not only the strictly prophetic books, but any part of the OT, could act predictively. Thus Christian expositors soon after NT times began to explore the entire OT text and interpret it in a Christian sense27.
26 TYLOCH, W. J. O Socialismo Religioso dos Essênios. São Paulo: Ed Perspectiva, 1990, p 105. 27 RICHARDSON, Alan. A New Dictionary of Christian Theology. (Trad. livre do Autor) London: SCM
Press, 1983, p. 12. no NT (...) usou-se, de fato, apenas uma pequena seleção de passagens do AT para um determinado fim. No entanto, isto demonstrou que os detalhes menores do AT poderiam corresponder-se com detalhes do Cristianismo; além disso, não somente os livros estritamente proféticos, mas qualquer parte do AT poderia ser interpretada profeticamente. Desta forma, expositores cristãos logo após o período do NT
Não obstante, se a época do crescente cristianismo levou o judaísmo a se
diferenciar, tolerando uma religião cuja filiação lhe era negada, pouco posterior
(documentado no primeiro capítulo da epístola aos Gálatas), já seria possível
apontar o oposto, ou seja, cristãos criticando aqueles que mantinham costumes
judaicos.
Richardson vai ainda além, atestando que cerca de um século depois, o
cristianismo se tornaria para uma linha tão dura contra o judaísmo, capaz de
destituir do meio da comunidade aqueles que insistiam em manter os costumes da
religião mãe.
It would be inacceptable to any christian in 2nd century to admit that church could learn some from judaism. Actually, next to 150 a.D. gentiles christian were prepared even to send out from the community those who kept judaism observances(...)
Although it was the same to a jewish rabi, that someone could learn from church28.
Dessa forma, lado a lado, porém cada uma “excomungando” a outra, estas
duas religiões foram se construindo, ou (no caso do judaísmo), se reconstruindo
28 PARKES, J. Judaísm and Christianity. The Contact of Pharisaism with other cultures. London: The
após a queda de Jerusalém, 70 d.C., fator que, inclusive, foi determinante para
que os pilares da Liturgia Judaica não resistissem tanto ao Cristianismo crescente.
Entretanto, por ora, o objetivo desta pesquisa é estabelecer algumas das
influências que o judaísmo lançou no cristianismo.
1.1. Os Sacrifícios de Animais no Judaísmo do Primeiro Século da Era Cristã
Na época da transposição de uma liturgia à outra (da judaica para a cristã),
os sacrifícios estavam praticamente extintos.
Contudo, a história vai acabar mostrando que nenhum sacrifício cessou
instantaneamente, e de fato, a interpretação acerca deles, apresentada pelo
cristianismo, teve como objetivo centralizar Cristo como um sacrifício definitivo29.
Como apresenta Schneider30, tratava-se de uma oportunidade; devido ao
momento social, político e religioso que o judaísmo enfrentava, onde vários
profetas e ramificações da religião já haviam feito duras críticas ao sacrifício, e
este momento teria sido aproveitado também pelo cristianismo, desaprovando o
sacrifício definitivamente.
Ainda que alguns sacrifícios são praticados até aos dias de hoje em Israel31,
(e.g. a carne de cordeiro em algumas ocasiões) eles fizeram parte de um processo
ao longo da história da nação, por isso, de forma alguma retratam os mesmos
sacrifícios do passado, além de que houve diversos fatos que levaram a nação de
Israel a extinguir com a matança de animais como “culto sacrificial”.
29Hebreus 10:12 vai apresentar uma re -leitura do sacrifício dizendo o seguinte: “Jesus, porém, tendo
oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus”.
30 SCHNEIDER, Johannes. The Letter to Hebrews. Michgan: Eerdmans Publishinf, 1957. pp. 126-129. 31 . Sacrifícios de Antigo Testamento ou da Lei Mosaica. A Divina Liturgia explicada e Meditada pp1-2.
O primeiro sacrifício mencionado na Bíblia foi trazido por Caim e Abel,
narrado no livro de Gênesis, onde é possível ver que Noé e os Patriarcas também
ofereceram sacrifício, contudo, o culto sacrificial é uma parte proeminente de
todas as antigas religiões, especialmente a dos povos semitas32.
Nas oferendas de Caim e Abel é possível destacar duas formas distintas:
Uma com derramamento de sangue (o sacrifício), e outra sem haver
derramamento algum, por se tratar de oferendas de vegetais33.
Por intermédio das narrativas bíblicas pode-se entender que havia três tipos
de sacrifícios: o holocausto, onde a vítima era imolada e inteiramente consumida
pelo fogo; os sacrifícios de expiação, onde parte era consumida no altar e parte
destinada ao sacerdote; e o sacrifício pacífico, onde poderia haver oferecimento
de um incenso, farinha, sal azeite ou diversas outras substâncias sólidas ou
líquidas. Os animais que poderiam ser usados para o sacrifício eram, bois, vacas,
ovelhas, carneiros; enquanto que apenas alguns tipos de pássaros podiam ser
usados como ofertas. Em certos sacrifícios era requerido animais de um
determinado sexo, mas nas oferendas de outras categorias (consideradas
menores) não havia as mesmas exigências34. Além disso, havia também as
oferendas que não demandava matança de animais; eram apenas ofertas de
grãos.
Desse modo, matar animais nunca foi, desde os tempos remotos, a única
forma de oferenda na tentativa de Israel se comunicar com o sagrado.
32 RICHARDSON, Alan.Op. Cit., pp 516-18.
33 Um sacrifício pode ser considerado uma oferenda, mas nem toda oferenda pode ser chamada de sacrifício.
A oferenda de manjares e de legumes e vegetais (usadas por Caim) por exemplo.
O sacrifício dos pagãos não era senão uma tentativa para chegar ao
verdadeiro sacrifício de expiação ou de ação de graças à divindade; ofereciam
animais sem defeitos físicos, crianças inocentes ou produtos escolhidos da terra.
Já os Israelitas, a partir do sacrifício de Isaque, aprendem que não seria desejo de
Deus que se sacrificasse seres humanos.
A Enciclopédia do Judaísmo35 narra que os animais eram degolados por
uma faca do gênero, enquanto que as aves eram mortas por estrangulamento,
feito por um sacerdote. Com exceção das oferendas queimadas ou oferendas de
expiação entregues em favor de toda a nação, todo sacrifício exigia que o
ofertante pusesse as duas mãos no animal; sendo que, uma deveria ficar
necessariamente sob a cabeça. Segundo alguns eruditos (apontados pela
Enciclopédia) esta seria uma maneira de o indivíduo sentir o sofrimento em si
mesmo. Enquanto o sacrifício característico dos israelitas (retratados nos textos
bíblicos) era como que um presente dado à deidade, a fim de mostrar a
obediência do adorador ao seu Senhor e distribuidor de todos os bens, o sacrifício
dos antigos semitas36 era uma forma de apaziguar a ira, estabelecendo contato e
relacionamento mais próximo por intermédio de um ato sacramental37.
Caso se queira buscar um ponto em comum entre ambas manifestações
sacrificiais, tanto a de Israel quanto dos outros povos semitas, pode-se entender
35 WIGODER, Geoffrey. The Encyclopedia of Judaism. New York: The Jerusalém Publishing House, 1989, p.
615.
36 O termo Semita designa todos os povos provenientes de Sem, exceto os Israelitas, que apesar de terem a
mesma genealogia, são destacados daqueles para tornar possível a comparação. Ver BROWN, Raymond E.
The New Jerome Biblical Commentary. London: Prentice Hall, 1988, pp 11-20.
37 LANDMAN, Isaac (Org). The Universal Jewish Encyclopedia. New York: Hebrew Union College, 1943, p
que ambas buscavam uma comunhão com o sagrado, com a deidade relativa ao
sacrifício.
Também em ambas haveria o fator do sangue, que era espargido ao final
do culto, e em alguns casos havia o derramamento do sangue do próprio indivíduo
que oferecia o sacrifício. O sacerdote lhe cortava parte da própria carne e
misturava ao sangue do animal ofertado38.
1.1.1. Culto, Sacrifício e Santuários.
De acordo com os textos bíblicos39 é possível aprender que o culto
sacrificial do período, administrado pelos sacerdotes e pelo sumo sacerdote,
envolvia oferendas diárias regulares, oferendas especiais para o Shabat e as festas e oferendas voluntárias para ocasiões especiais.
Apesar da centralidade do sacrifício na religião israelita, houve profetas que
se pronunciaram abertamente contra as práticas corruptas que ele suscitava, e
contra aqueles que traziam ao Templo animais de segunda linha, sugerindo estarem obedecendo aos ensinamentos da religião40.
Uma vez que os sacrifícios seriam realizados no culto, significa dizer que
eles eram feitos como uma manifestação coletiva, mesmo que a oferta fosse
pessoal e única.
38LANDMAN, Isaac. Op. Cit. p. 306.
39 (e.g.) Livros como Levítico, Números e o Deuteronômio são mais ricos em detalhes, contudo, há a
possibilidade de colher trechos que falam sobre as formas de culto e sacrifício ao longo de todo o Antigo Testamento e ainda em alguns trechos do NT.
Nos períodos mais remotos da história bíblica, os sacrifícios podiam ser
feitos em qualquer lugar, entretanto, mais tarde a prática começou a ser
desenvolvida apenas no Templo de Jerusalém41.
Alguns outros autores afirmam que “onde quer que houvesse um lugar
central para culto, os sacrifícios poderiam ser realizados”42, desse modo podemos
entender que os lugares camponeses também tinham momentos sacrificiais, sem
necessariamente a precisão de ir até o Templo de Jerusalém para tanto.
Ligar o culto de Israel apenas ao Templo de Jerusalém seria um erro, e não
obstante disto, outras religiões também tinham manifestações de cultos sacrificiais
em um templo central, ou ainda em pequenos templos (os gregos por exemplo)
que lembram mais as capelas que temos hoje em dia. Tanto os cultos centrais
como os cultos dos camponeses poderiam ser acompanhados de sacrifícios.
Acerca disso Humberto Porto vai expor o seguinte:
Caracterizava-se o culto de Israel por se endereçar ao Deus único e verdadeiro. Isto não exclui, contudo, a presença, desde o começo das instalações em Canaã até os últimos dias da monarquia, de um enxame de santuários disseminados por toda a parte. 43
Os camponeses mais distantes da nação de Israel poderiam participar de
um culto e oferecer sacrifícios por intermédio destes santuários citados acima,
41LANDMAN, Isaac. Op. Cit. p. 306. 42 WIGGODER, G. (Org.). Op. cit., p. 615.
ainda que o povo fosse incentivado a visitar o Templo central. Porto acrescenta
que para o Israelita, a participação no culto do santuário central era o mesmo que
estar diante da face de Deus, além de que havia a determinação para que todo
filho de Israel visitasse o Templo ao menos três vezes ao ano (Dt.16.16)44.
1.1.2. Santuários Camponeses e Templo Central45
O rito e o culto judaico estiveram sempre coligados a locais estipulados e
nomeados como sagrados. Outrossim, as ações patriarcais de estipular pedras e
locais como santos, não contemplava uma nação ainda formada46 e também, logo
posterior à sua formação nacional, a forma de adoração de Israel se prendia
apenas ao ato camponês, uma vez que o Templo foi construído bem
posteriormente, no reinado de Salomão.
Porto vai separar as localidades de adoração de Israel em apenas três: Os
santuários locais, que para o autor compreende as manifestações cultuais por
intermédio de se erigir um símbolo (pedra, madeira ou outros objetos), e também
os edifícios especialmente destinados ao culto, mas que constituíam, uma
exceção. Em segundo lugar ele aponta os cultos na tenda, explicando que mesmo
com a fixação na terra, continuou o costume de alguns grupos a morar em tendas.
44PORTO, Humberto. Op. Cit., p. 42.
45Templo Central será um termo ocupado especificamente nesta parte do texto para o Templo de Jerusalém,
apenas para contrapor a idéia com os santuários periféricos. Não se trata portanto de um termo técnico ou teológico.
46 BROWN, Raymond E. Op. Cit. Todo ato patriarcal de levantar um santuário foi feito antes de Israel se
estabelecer como nação, ainda com Josué, o processo de conquista da terra prometida não havia se
Finalmente, Porto aponta o Templo de Jerusalém, que acabou sendo considerado
para eles (Ezequiel 38:12) como “o umbigo do mundo”.47
Com isso, é possível estabelecer uma dinâmica no caminho objetivo da
adoração e ritual de Israel, traçado em direção ao Templo, ápice do sistema
sacrificial de toda a nação.
Contudo, não é certo que todas as formas de sacrifícios tenham sido
enclausuradas apenas no Templo após sua construção em Jerusalém. Também
deve ser considerado que, quanto às formas do sacrifício, elas foram
transportadas dos sacrifícios observados na Tenda, que tinha a mesma importância do Templo antes deste entrar em foco.
Tendo uma provável seqüência histórica – Tenda/Templo – , a matança de
animais vai se estruturando cada vez mais nas mãos do Sumo Sacerdote, ou seja,
o sacrifício, com o passar do tempo, iria verdadeiramente ficar atrelado à
localidade do Templo. Apesar da permanência dos sacrifícios nacionais (em nome
da nação de Israel), o sacrifício no Templo toma lugar específico para com
relação ao pecado (tatah – hatta’t), e eram trazidos pelos indivíduos que infringiam as proibições da Tora48.
Dessa forma, temos que, o sistema sacrificial caminha rumo a um
monopólio constituído no Templo Central, em Jerusalém, e não nos santuários
menores, dos camponeses, nem mesmo nos locais outrora erigidos pelos
patriarcas.
47PORTO, Humberto. Op. cit., p.48-51.
48 MACCOBY, Hyam. Ritual and Morality: The Ritual Purity Sistem and its Place in Judaism. Cambridge:
Este ponto terá papel relevante mais adiante, por ocasião de uma dialética
entre o sacrifício ritual e a posição de destaque que o estudo das Escrituras
tomariam. Com o Templo tendo sido destruído duas vezes, é importante
considerar que, já que os sacrifícios foram centralizados ali, certamente, a cada
destruição, o volume e número de holocaustos diminuiriam, como acabou
acontecendo.
Também é preciso ponderar que mais tarde, os cristãos iriam se distanciar
cada vez mais do Templo, em uma exposição acerca da inter-relação histórica e
teológica entre o Antigo e o Novo Testamento, Silva diz que:
A nova comunidade dos discípulos vai se distanciando do Templo como lugar de adoração. Entretanto, romper com o Templo significava para a Igreja apostólica pôr-se à margem da sociedade judaica e da vida religiosa de Israel. Porém não lhes restava outra alternativa a não ser o aspecto comunitário49.
Dessa forma, fica exposto um processo que culminou com o fim dos
sacrifícios de animais, com marco inicial na destruição do primeiro Templo pelos
babilônios, e marco final na destruição de Jerusalém e do segundo Templo pelos
romanos50.
Oesterley reforça este assunto q uando diz o seguinte:
49 SILVA, Geoval Jacinto da. A Inter-relaçao histórica e teológica da liturgia judaica e cristã. in.: Estudos de
Religião. n 25. São Paulo: Umesp, , 2003, p. 163.
O efeito imediato da catástrofe de 586 a.C., quando o Templo e a cidade foram destruídos, foi sentido imediatamente pelos sobreviventes. Apesar do fato de que era permitido que os sobreviventes no exílio vivessem juntos como clãs e família, muitos, sem dúvidas, abandonaram a fé, e se mergulharam em uma profunda pecaminosidade. Os que se mantiveram na crença, estavam quase sem esperanças. Viviam sob uma forte interdição; eles não podiam celebrar nenhum sacrifício ou patrocinar qualquer oferta comestível (banquete celebrativo)51.
Mais tarde, com o aparecimento das seitas, o caminho que o judaísmo vai
tomar é o de abandono cada vez mais intenso dos sacrifícios. Porto explica que
uma coisa gerou a outra. A destruição do templo (fator social) gerou as sinagogas,
que geraram as seitas, que geraram formas diferentes de interpretação nos
escritos sagrados, e que por sua vez, justificaram o abandono dos rituais de
sacrifícios52.
O momento de transposição de uma liturgia à outra contou com o advento
das sinagogas e do Templo sob o Império Romano, e apesar de ter ocorrido
outros fatores sociais (abertura comercial, mistura cultural e decadência do ritual
das ofertas de animais; todos discutidos na seqüência) que influenciaram este
período, nenhum foi tão relevante quanto o da destruição do Templo, (e.g.) em 70
d.C., sob o imperador Tito.
1.2. A Relevância das Sinagogas e do Templo.
Uma vez que o Templo de Jerusalém passou a ter papel fundamental no
sistema de sacrifício, centro da liturgia judaica, é relevante entender qual seu
papel na época de transposição de uma liturgia para outra.
Já que o sistema sacrificial foi inegavelmente abalado pela destruição do
primeiro Templo, não somente o sacrifício cessou53, mas também todo o sistema
religioso judaico sofreu uma drástica mudança por ocasião desta época histórica,
contudo, o judaísmo continuou sua adoração. Dessa forma, pelo fato de a liturgia
judaica não ter sido extinguida no exílio, as mudanças litúrgicas ocasionadas
desde o retorno influenciariam mais tarde, na formação da liturgia cristã, e são de
extrema importância para a pesquisa. Dentre as mudanças podemos citar
realizações antes centradas no Templo ou nos sacerdotes (pregação da Torá,
holocaustos) e que no retorno do exílio seriam exercidas por pessoas que sequer
eram provenientes da tribo de Levi54. Algo que já expressa uma abertura
cerimonial, e que tem raiz (como será visto posteriormente) exatamente no
advento das sinagogas.
Enquanto Oesterley descreveu o exílio como um caos para a fé judaica,
Gundry vai na contra mão desta idéia, afirmando que foi justamente na sua derrota
que o judaísmo se voltou à adoração sincera, rebuscando a leitura da lei, a Torá, e
entendendo que o exílio tinha sido um castigo divino pelo abandono anterior.
Gundry acrescenta que, “a perda temporária do Templo, durante o exílio, deu azo
a um crescente estudo e observância da Lei55”. Isso teria ocasionado nas
sinagogas, já que a construção de um Templo (no exílio) estaria fora de questão.
O autor expõe com algumas ressalvas o fato de que as sinagogas teriam sido
alternativas ao Templo ainda no exílio.
É motivo de debate se as sinagogas tiveram origem justamente durante o exílio ou mais tarde, já no período intertestamentário, entretanto é em face de Nabucodonozor haver destruído o primeiro Templo (o de Salomão) e haver deportado da Nação de Israel a maioria de seus habitantes, os judeus estabeleceram centros de adoração intitulados sinagogas, onde quer que pudesse ser encontrados dez judeus adultos do sexo masculino.56
Porto também concorda com a colocação de Gundry, mas se abre para
uma possível data mais remota, anterior à construção do Templo, todavia,
indiferente à incerteza, ele vai denotar as sinagogas do século III a.C., as quais
seriam uma imediata necessidade para os exilados se encontrarem. Contudo,
mesmo que haja divergências quanto à época de seu início, há uma concordância
quanto ao propósito delas, que seria o de capacitar os homens para escutar a
Lei57.
Após a devastação feita pela Babilônia e o exílio, no retorno, sem Templo,
Israel precisaria de um local mais urgente para prestar culto a Deus. Por isso,
independente do fato de terem sido criadas em uma data posterior ou anterior à
destruição do Templo, o que há em comum nos estudiosos é que as sinagogas
foram estabelecidas na Nação de Israel logo após o retorno do cativeiro58.
1.2.1. A Sinagoga como causa de fragmentação na Liturgia de Israel.
Foi com o advento das sinagogas59 que o judaísmo começa a se fragmentar
em partes de tolerável divergência entre si. O fato de ter se estabelecido na
posição de uma instituição, fez com que as sinagogas se tornassem o meio pelo
qual a adoração comunitária fosse efetivada até que se consumasse a
reconstrução do Templo sob a liderança de Zorobabel.
Entretanto, mesmo que se apontasse o momento do aparecimento das
sinagogas60, isso ainda não responderia a pergunta sobre as mudanças de culto
naquela época. O que influenciou mesmo foram as formas interpretativas na Lei
57 MAXWELL, Willian D. El Culto Cristiano. Buenos Aires, Methopress, 1963, p. 17. 58 PORTO, Humberto. Op. Cit., p. 55-58.
59 Segundo a exposição descritiva acerca de uma sinagoga, BARRET expõe o seguinte: A sinagoga típica era
um auditório retangular com uma plataforma elevada para o orador, por detrás da qual havia uma arca portátil (...). Defronte de rostos voltados para a congregação, assentavam-se os dirigentes e anciãos da sinagoga. Quando das orações todos se erguiam de pé. (...). Havia ampla liberdade no fraseado da Liturgia. A
congregação inteira adicionava o seu amém ao final (...). Os primeiros cristãos, mui naturalmente adotaram o sistema de organização da sinagoga como um sistema básico para suas igrejas locais. BARRET, C.K. The New Testament Background: Selected Documents. London: S.P.C.K. 1958. p. 29-36.
60 MAXWELL, Willian D. El Culto Cristiano. Buenos Aires: Methopress, 1963, p 16. O autor vai dizer o
(Torá) e na tradição oral (Mishná)61. Sendo assim, o aparecimento das sinagogas
homologa a fragmentação dos cultos, possibilitando dessa forma, uma libertação
do modelo único, outrora ditado pelo Templo de Jerusalém.
Desde o retorno do exílio, quando os sacrifícios foram deixando o lugar
central da liturgia judaica, com as sinagogas institucionalizadas, o estudo da Torá
passa a ocupar a posição antes usufruída por eles – os sacrifícios.
Nenhum dos estudiosos citados neste texto definiu precisamente quando os
sacrifícios foram perdendo o lugar central para o conhecimento teológico, mas
todos concordam que foi um ato gradativo, e como coloca Bright62, este ato foi
marcado principalmente pelo momento em que o Pentateuco e a Lei eram
centralizados na comunidade e aceitos como a autoridade final.
Através deste ponto de vista, é possível aceitar o seguinte fato; a
comunidade de Israel começa a ser direcionada religiosamente por uma
determinada elite conhecedora dos textos bíblicos, classe esta inaugurada após
Neemias ter voltado da Babilônia e direcionado o país no estudo da palavra. Esta
época em questão, por si só, já demanda uma pesquisa específica. Deste modo, é
mister fazer um recorte histórico apenas no período que compreende o judaísmo
da época final do Antigo Testamento.
Portanto, a formação das seitas (endossada pelas sinagogas) durante esta
época em questão, explica como Israel passou a ter como liderança central os
61 “Como a Lei Oral era transmitida de mestre a discípulo no decorrer dos séculos por instrução oral,
tornou-se evidente a necessidade de dispor e dar redação final à matéria”. in STEINSALTZ, Adin. O Talmud Esencial. Rio de Janeiro, Koogan Editora, s/d. p. 44.
conhecedores da Torá e da Mishná, ao invés do Sumo-Sacerdote que era detentor
de uma única tradição: o culto sacrificial63.
Steinsaltz declara que a própria mudança foi estabelecida pelo Sumo
Sacerdote (Joshua Ben Gamala), que estabeleceu escolas de ensino às faixas
mais amplas da população64. Houve, segundo ele, uma proliferação de
professores tal, que gerou uma gama de formas de expressão e métodos
diferentes. Cada mestre tinha seu próprio método e enunciava as leis orais à sua
própria maneira. Quando os sábios se encontravam já não se registrava uma
única e uniforme tradição. Existiam ainda certos ensinos orais que o próprio
Talmud atribuía ao tempo de Neemias, ou seja, o princípio da era do Segundo
Templo. Forster confirma a mesma idéia quando declara o seguinte:
Conforme os círculos da comunidade judaica na Nação de Israel se tornaram cada vez mais secularizados, começando pelos próprios sacerdotes e os ricos, aqueles que pretendiam aderir à lei de forma mais profunda acabaram se isolando em comunidades mais fechadas. Os sacerdotes deixaram de ser os ensinadores da sabedoria, dando lugar aos estudiosos da lei, os quais meditavam nelas dia e noite65.
Para desfecho desta parte, cabe dizer que as sinagogas alimentaram as
comunidades judaicas espalhadas por toda a Nação de Israel. Jesus fez uso
63 STEINSALTZ, Adin.Op. Cit. p. 48. 64 STEINSALTZ, Op. Cit. p. 47.
65 FORSTER, Werner. From the Exile to Christ: A Historical Introduction to Palestinian Judaism.
constante do Antigo Testamento como nutriente de sua própria vida e como base
de seus ensinos.
Também os numerosos gentios que foram atraídos para a religião judaica,
foram alimentados pelas sinagogas locais. As seitas, nesta época de
fragmentação do judaísmo, vão representar um papel de grande importância. O
tempo que compreende desde o nascimento das sinagogas (mais ou menos após
o retorno da Babilônia) até a queda do Templo de Jerusalém vai servir como palco
para atuação do cristianismo, que nasceria já com uma característica proveniente
do judaísmo pós-exílio: o estudo e interpretação da palavra escrita e o sustento
em sua existência através de uma forma fragmentada.
A fragmentação do Judaísmo não ocorreu de forma instantânea e curta, e o
advento das sinagogas sustentou o início do que seria um processo que
atravessaria a Nação de Israel em meio à história pouco anterior e posterior ao
nascimento do Cristianismo.
O judaísmo rabínico (centrado no estudo da palavra) veio a ser o primeiro
grande estilhaço neste processo fragmentário, e a partir dele várias outras seitas
iriam se estabelecer na região da nação de Israel e arredores. A cada comunidade
estabelecida pode-se dizer que alguma novidade, seja na forma de interpretar as
escrituras, seja na forma de prestar culto, ia sendo adicionada. Como exemplo
temos que, as lamentações, prantos e choros, antes de Neemias e do exílio, não
ou de reis), posterior ao exílio, entretanto, tornam-se momentos da adoração e
prestação de culto do judaísmo66.
Comentando acerca destes séculos correspondentes, Oesterley67 diz que,
“o judaísmo como conhecemos antes da destruição do Templo de Jerusalém pelo
Império Romano, era mais uníssono do que posteriormente, quando o judaísmo
rabínico se tornou apenas um entre tantos outros elementos”, reforçando a idéia
de uma fragmentação daquela religião.
1.2.2. O papel das seitas nas formas de culto.
Apontar o nascimento, estabelecendo as condições e data de cada uma
das seitas emergentes no judaísmo, seria um desvio desnecessário do foco da
pesquisa, uma vez que não se objetiva a busca histórica de cada uma delas, mas
sim apontar (uma vez já instituídas) as características de inculturação68 correspondente à liturgia da época.
Entende-se por seitas judaicas as ramificações que se estabeleceram com
uma categoria e um estilo próprio na época pouco anterior (e pouco posterior) ao
cristianismo. Das mais conhecidas é possível destacar e.g. os hassidins, os
hasmoneanos, os essênios, os fariseus, os saduceus e os escribas. Esta última,
66 STUHMUELLER, Carroll. In.: BROWN Raymond E. The New Jerome Biblical Commnetary, New Jersey,
1988, p. 348.
67 OESTERLEY, W.O.E. Op. Cit., p. 7-9.
68 Este termo tem sido usado este termo para definir mais precisamente “a encarnação do evangelho em
entretanto, se configurava mais em uma categoria profissional que como uma
seita.
As seitas judaicas vão se estabelecendo ao longo do período existente
entre o Antigo e o Novo Testamento, e elas vão influenciar diretamente a
formação do cristianismo, como diz Oesterley:
A vida interna e externa e o crescimento do judaísmo foram profundamente modificados, seus partidos e movimentos, as idéias políticas e religiosas e mesmo os ideais, foram vagarosamente desenvolvidos e gradualmente assumiram a forma com a qual nos torna familiar as páginas do NT69.
Há autores que, quando tratam da questão dos essênios por exemplo,
chegam a questionar se Jesus foi um membro da seita ou não70. Outrossim, Porto
comenta que, a maioria dos especialistas admite certo influxo do essenismo sobre
o Cristianismo.
Nenhuma religião ou seita nasce como “tabula rasa”, antes, sempre manterá um determinado nível de ligação com sua raiz.
O estabelecimento de uma liturgia voltada mais para o estudo da palavra do que
para o rito simbólico do sacrifício, fez com que os judeus seguissem um rígido
sistema ético, alicerçado sobre a legislação mosaica do Antigo Testamento e
sobre as interpretações rabínicas. Entretanto, quando se há contato entre duas
69 OESTERLEY, Op. Cit., p 6.
70 CULLMANN, Oscar. Das Origens do Evangelho à formação da Teologia Cristã. São Paulo: Novo Século,
culturas, é inevitável que uma venha a ser marcada pela outra. E não foi diferente
quando ocorreu o contato entre as comunidades judaicas espalhadas na região da
nação de Israel com os povos de três domínios subseqüentes: persa, grego e
romano.
Para Oesteley, a maior destas influências no judaísmo foi o crescimento
das grandes e poderosas comunidades judaicas de fala grega, as quais após o
início da era helênica, apareceram em várias partes do mundo civilizado, fora da
nação de Israel, e com a dispersão, até nos confins do Império Romano71.
Não somente os essênios como também cada seita, tinha sua característica
principal e pontos litúrgicos distintos. Valverde, comentando sobre um texto de
Gregório Lutz, define a seqüência de um culto festivo e celebrativo em Israel como
sendo oposto aos cultos das comunidades judaicas separatistas, onde havia maior
expressão de lamento, denominado pelo autor de “pedagogia da resistência” contemplavam mais a “inserção de Deus na História, de forma nova, com o
espaço para a libertação72”. Entretanto, aqueles se caracterizaram de forma
diferente pelo fato de ter se separado das comunidades centrais. Portanto, é mais
fácil achar pontos em comum nas seitas que compartilhavam uma sinagoga ou
vila próxima, do que achar pontos em comum com uma seita separatista73. Para
Humberto Porto, a dialética de uma facção na religião judaica, acabava por lançar
71 OESTERLEY, W.O.E. Op. Cit., p. 6
72 VALVERDE, Messias. O Ano Litúrgico como espaço educativo: subsídios para uma proposta de pastoral
litúrgica, Tese de Mestrado, UMESP, 1993, pp. 10-11
73 Oscar Cullmann, diz que os essênios possuíam doutrinas secretas e os manuscritos de Qunram confirmam
isto. Ele ainda acrescenta que o cristianismo primitivo fincava suas raízes não no judaísmo oficial, senão em um meio judaico mais ou menos esotérico. Com efeito o gnosticismo judaico já acusa uma influência