ASPECTOS ELECTRENCEFALOGRÁFICOS DA CISTICERCOSE
ENCEFÁLICA
P A U L I N O W . L O N G O E L I O V A Z U K E R M A N * *
Μ . H . F R A N C O D A R O C H A M O R E I R A * * * J O S É G E R A L D O D E C A M A R G O L I M A * * *
P A U L O P I N T O P U P O * R O S A H E L E N A L O N G O * * C E M E J O R D Y * * *
G I A N C A R L O Z O R L I N I * * *
O presente estudo foi feito com a finalidade de conhecer os elementos úteis que o E E G poderia trazer para o diagnóstico da forma clínica de cis-ticercose encefálica. Um trabalho desta natureza é práticamente inédito, pois que os trabalhos anteriores a respeito de achados electrencefalográ-ficos na cisticercose encefálica ( F e r r a r i1
, Isamat de La R i v a2
) se referem a casos isolados.
Para tanto foi feito um levantamento dos casos desta afecção, nos quais havia sido praticado o exame electrencefalográfico. O critério para o diagnóstico de cisticercose se baseou em: 1) verificação cirúrgica; 2) presença de imagem radiográfica sugestiva de cisticerco calcificado; 3) sín-drome sugestiva de cisticercose no liqüido cefalorraqueano (hipercitose, eosi-nófilos e reação de desvio de complemento positiva). Êstes dois últimos elementos constituem, em nossa experiência, dados nos quais se pode ba-sear o diagnóstico de neurocisticercose.
M A T E R I A L Ε M É T O D O S
O d i a g n ó s t i c o f o i b a s e a d o na a f i r m a ç ã o d e u m dos t r ê s e l e m e n t o s a c i m a c i t a -dos. A s s i m , f o r a m r e u n i d o s 118 c a s o s d e c i s t i c e r c o s e e n c e f á l i c a , 14 c o m d i a g n ó s t i c o f i r m a d o p e l a v e r i f i c a ç ã o c i r ú r g i c a , 35 p e l a i m a g e m r a d i o g r á f i c a d e c i s t i c e r c o c a l -c i f i -c a d o e 42 p e l a s í n d r o m e l i q u ó r i -c a . N o s r e s t a n t e s , e m 16 h o u v e a s s o -c i a ç ã o d e c o m p r o v a ç ã o c i r ú r g i c a e s í n d r o m e l i q u ó r i c a , e m 4 h o u v e c o m p r o v a ç ã o c i r ú r g i c a e r a d i o g r á f i c a e e m 7 s í n d r o m e l i q u ó r i c a e i m a g e m r a d i o g r á f i c a , p e r f a z e n d o u m t o t a l d e 27 casos. C u m p r e a s s i n a l a r q u e os c a s o s d e v e r i f i c a ç ã o c i r ú r g i c a são, e m sua g r a n d e m a i o r i a , os de c i s t i c e r c o s e d a f o s s a p o s t e r i o r , pois nestes, p e l o b l o q u e i o d a c i r c u l a ç ã o l i q u ó r i c a q u e p r o v o c a , se i m p õ e t a l t i p o de i n t e r v e n ç ã o t e r a p ê u t i c a .
S e g u n d o o g r u p o d e i d a d e , os 118 p a c i e n t e s a s s i m se d i s t r i b u í r a m : 17 a b a i x o d e 10 a n o s , 19 e n t r e 11 e 20 a n o s , 38 e n t r e 21 e 30 a n o s , 24 e n t r e 31 e 40 anos, 10 e n t r e 41 e 50 a n o s , 7 e n t r e 51 e 60 a n o s , e, 3 a c i m a dos 61 a n o s .
T r a b a l h o d o S e r v i ç o d e N e u r o l o g i a da E s c o l a P a u l i s t a d e M e d i c i n a ( P r o f . P a u l i n o W . L o n g o . * C h e f e de C l i n i c a ; * * A s s i s t e n t e ; * * * M é d i c o i n t e r n o .
Nota dos autores — P a r t e d o m a t e r i a l d ê s t e t r a b a l h o f o i a p r e s e n t a d o a o C o n
P a r a e f e i t o d e a n á l i s e dos r e s u l t a d o s do E E G os casos f o r a m s e p a r a d o s e m t r ê s g r u p o s : 1 ) c i s t i c e r c o s e da c o n v e x i d a d e c e r e b r a l ; 2 ) c i s t i c e r c o s e d a b a s e e da fossa p o s t e r i o r ; 3 ) c i s t i c e r c o s e difusa. A c a t a l o g a ç ã o dos casos e m c a d a u m dêsses g r u p o s f o i f e i t a s e g u n d o os s i n a i s c l í n i c o s , a p r e s e n ç a de c i s t i c e r c o c a l c i f i c a d o o u a v e r i f i c a ç ã o c i r ú r g i c a . N o g r u p o 3 ( c i s t i c e r c o s e d i f u s a ) , f o r a m c o l o c a d o s os casos e m q u e êstes e l e m e n t o s c o n t i n h a m d a d o s r e l a t i v o s a a m b a s l o c a l i z a ç õ e s ( s í n d r o -m e s -m i s t a s ) .
O e l e c t r e n c e f a l o g r a m a foi f e i t o e m a p a r e l h o Grass, m o d ê l o I I I , 8 c a n a i s , s e g u n d o as t é c n i c a s d e d e r i v a ç ã o u n i p o l a r e b i p o l a r s u c e s s i v a , de r o t i n a , e m p r e g a n -d o - s e a a t i v a ç ã o p e l a h i p e r p n é i a ou p e l o s o n o b a r b i t ú r i c o .
N o e s t u d o d o E E G p r o c u r o u s e d i s t i n g u i r os e l e m e n t o s d o t r a ç a d o q u e m a i s p o -d e r i a m -d i z e r r e s p e i t o às lesões -d e t e r m i n a -d a s p e l a c i s t i c e r c o s e no e n c é f a l o , a s s u n t o ê s t e b e m c o n h e c i d o3
,4
( m e n i n g o e n c e f a l i t e c r ô n i c a g r a v e e difusa da c o n v e x i d a d e , a r a c n o i d i t e i n t e n s a d e b a s e e fossa p o s t e r i o r , p r o c e s s o i n f l a m a t ó r i o c r ô n i c o d e n t r o d o I V v e n t r í c u l o , êstes c o m c o n s e q ü e n t e b l o q u e i o da c i r c u l a ç ã o l i q u ó r i c a e h i p e r -t e n s ã o i n -t r a c r a n i a n a ) .
A s s i m sendo, f o r a m a n a l i s a d o s p a r t i c u l a r m e n t e os s i n a i s de d e s o r g a n i z a ç ã o d o r i t m o de b a s e , os da p r e s e n ç a d e f o c o c o n v u l s i ó g e n o a t i v o , c o r t i c a l ou p r o f u n d a -m e n t e s i t u a d o , os da l e n t i f i c a ç ã o do r i t -m o de base. os de a p a r e c i -m e n t o de s u r t o s de r i t m o s θ e os d e sinais de s o f r i m e n t o a t u a l d o p a r ê n q u i m a n e r v o s o dos h e m i s -f é r i o s c e r e b r a i s ( o n d a s δ ) . F o r a m l e v a d o s e m c o n s i d e r a ç ã o , p o r p r o j e ç ã o n o m a p a , as o n d a s δ p u r a s e n ã o a q u e l a s s e c u n d á r i a s a d e s c a r g a p a r o x í s t i c a ( f o c o c o n v u l -s i ó g e n o ) . T a l c r i t é r i o t e v e p o r f i m e -s t u d a r o -s o f r i m e n t o d o p a r ê n q u i m a n e r v o -s o m a i s ou m e n o s l i g a d o d i r e t a m e n t e à p r e s e n ç a do c i s t i c e r c o , r a z ã o p e l a q u a l n ã o se c o n s i d e r o u o s o f r i m e n t o p a r e n q u i m a t o s o i m e d i a t a m e n t e s u b s e q ü e n t e a crise c o n -v u l s i -v a .
R E S U L T A D O S
interiormente à análise comparativa dos elementos clínicos com os elec-trencefalográficos, foram feitos estudos separados dos casos que apresenta-vam cisticerco calcificado, verificável ao exame radiológico e dos que não o apresentavam, com finalidade de se objetivar a possível diferença electrencefalográfica entre os casos de cisticercose crônica, já evoluída, e os de cisticercose mais recente, cujos cisticercos possivelmente ainda vivos estivessem provocando maior reação inflamatória aguda no encéfalo. Naturalmente para êsse estudo foram levantados sòmente os casos com sín-drome clínica da convexidade cerebral, já que os de sínsín-drome da base e da fossa posterior poderiam apresentar alterações electrencefalográficas ou-tras, dependentes de fenômenos secundários de estase liquórica e hiperten-são intracraniana. Com êsse cuidado prévio tivemos para estudo compa-rativo dois grupos homogêneos de casos. Os dados resultantes dessa aná-lise estão sintetizados no quadro 2.
Por último procurou-se estudar os casos de cisticercose recente, com processo inflamatório ainda em atividade, cujo diagnóstico é feito pela pre-sença de elementos inflamatórios no exame do liqüido cefalorraqueano, em comparação com os casos crônicos, já evoluídos, nos quais o líqüido cefa-lorraqueano se mostra normal (casos cuja cisticercose foi diagnosticada pela presença dos parasitos calcificados na convexidade cerebral).
Tal estudo comparativo, entretanto, não forneceu informes significati-vos sob o ponto de vista electrencefalográfico.
C O N C L U S Õ E S
1. O distúrbio paroxístico focal indicou com grande ênfase a presença de convulsões.
2. A presença de ondas δ foi significativa de processo na base e fossa posterior, não na convexidade. A meningoencefalite cisticercósica da con-vexidade não se exteriorizou, pois, por sinais de sofrimento cerebral agudo no EEG.
de acôrdo com sua gênese decorrente de comprometimento das formações mesencefálicas.
4. O EEG normal é relativamente raro na cisticercose encefálica, po-rém nada informa com respeito à localização do parasito na grande fossa craniana ou na posterior.
5. Alterações do ritmo de base, quer no sentido de deficiência de orga-nização, quer no sentido de ligeira lentificação, apareceram de modo pre-ponderante nos casos de afecção da base e da fossa posterior comparati-vamente com os da convexidade cerebral.
6. Nas síndromes mistas a incidência das alterações electrencefalográ-ficas, quer decorrentes da desorganização do ritmo de base, quer do apa-recimento de ondas 8, ou ainda, de sinais de foco convulsiógeno ativo, não diferiu em muito do que sucedeu nos grupos de síndromes puras.
7. A presença de cisticercos calcificados na convexidade encefálica, isto é, a eventualidade de cisticercose crônica, coincidiu em significativo maior número de casos com a presença de foco epileptógeno no EEG do que em relação aos casos de cisticercos não calcificados, isto é, possivelmente de cisticercose mais recente.
8. A incidência do aspecto patológico ou não do EEG não foi diferen-te no grupo com cisticerco calcificado comparativamendiferen-te ao grupo de cisti-cercos não calcificados. Entretanto, neste último grupo de casos o tipo de alteração no EEG revelou significativamente maior intensidade de sinais electrencefalográficos de sofrimento atual do parênquima nervoso (ondas δ).
R E S U M O
compara-tivamente, em grupos de pacientes com síndrome inflamatória verificável pelo exame do líqüido cefalorraqueano e no de pacientes com o liqüido ce-falorraqueano normal.
Êstes resultados, projetados nos quadros 1 e 2, permitiram conclusões de algum interêsse clínico, significativas para a importância do exame elec-trencefalográfico na avaliação dos processos patológicos encefálicos decor-rentes da neurocisticercose.
S U M M A R Y
Electroencephalographc findings in cerebral cysticercosis.
The present study has the purpose of showing the possible value of the EEG in the diagnosis of brain cysticercosis. The diagnosis of cysti-cercosis was based on (1) radiological calcification, (2) characteristic spinal fluid findings (increase of cells, increase of eosinophils and positive test for cysticercosis) and/or (3) neurosurgical findings. The total num-ber of cases was 118 (14 verified by surgical approach, 35 diagnosed by X ray examination and 42 by the spinal fluid examination) : in 16 cases there were association of surgical and spinal fluid positive findings; in 4 cases there were surgical findings and X ray positive findings; in 7 cases there were spinal fluid and radiological positive findings. The surgical cases were mostly of cysticercus of the posterior fossa because of the spinal fluid blocking that asks such therapy. The patients were divided according to the localization of the cysticercus (1) on the cortical surface, (2) at the base of the brain and the posterior fossa, and (3) diffuse cysticercosis. The localization of the cysticercus was possible by the evaluation of the clinical signs, the radiological calcification or the neurosurgical finding of the cysticercus.
The EEG records were analysed according to the changes possibly due to the lesion caused by the cysticercus (chronic and diffuse meningo-en-cephalitis of the brain surface, arachnoiditis of the base and of the posterior fossa, inflammatory reaction inside the fourth ventricle, with subsequent spinal fluid blocking and intracranial hypertension).
The analysis showed: 1 — Focal paroxysmal changes have indicated the great incidence of epileptic seizures in these patients; 2 — δ waves were more frequent when the lesion was located in the posterior fossa. The meningo-encephalitis on the cerebral surface did not show EEG signs of acute brain involvement; 3 — θ waves were seen very seldom and were present only on those patients with signs of basal or posterior fossa involvement (due to intracranial hypertension probably) due to involvement of mesencephalic structure; 4 — The normal EEG was very rare in pa-tients with cerebral cysticercosis and did not give any information regard-ing the localization of the cysticercus; 5 — Changes on background activity
of patients; 6 — In patients with diffuse cerebral cysticercosis the EEG changes (disorganization on background activity, slow waves or signs of focal activity) did not show striking difference from those patients with localized cerebral cysticercosis; 7 — The calcified cysticercus on the ce-rebral surface (chronic cysticercosis) was coincident more often with focal activity on the EEG, than on the group of not calcified cysticercus (recent, cysticercosis); 8 — The incidence of pathological EEG was the same on both groups (calcified and non calcified cysticercosis). The EEG on the last group showed very often δ waves.
R E F E R Ê N C I A S
1. F E R R A R I , D . — E E G o b s e r v a t i o n s in case o f h u m a n c e r e b r a l c y s t i c e r c o s i s . T h e I t a l i a n E E G S o c , r e u n i ã o a n u a l ( 4 j u l h o , 1 9 5 4 ) . In E E G C l i n . N e u r o p h y s i o l . , 6:533, 1954. 2. L A R I V A , F . I s a m a t d e — C i s t i c e r c o s i s C e r e b r a l . V e r g a r a S.A., B a r c e l o n a , 1957 ( p á g s . 9 3 9 5 ) . 3. P U P O , P . P . ; C A R D O S O , W . ; R E I S , J. B . ; P E R E I R A D A S I L V A , C. — S o b r e a c i s t i c e r c o s e e n c e f á l i c a : e s t u d o c l í n i c o , a n á t o m o p a t o -l ó g i c o , r a d i o -l ó g i c o e d o -l i q ü i d o c e f a -l o r r a q u e a n o . A r q . A s s i s t . G e r a -l a P s i c o p a t a s d e S ã o P a u l o , 10-11:3-123 ( j a n e i r o - d e z e m b r o ) 1945-1946. 4, T R E L L E S , J. O . ; L A Z A R T E , J. — L a C i s t i c e r c o s i s C e r e b r a l . E m p r e s a P e r i o d i s t a S.A., L i m a ( P e r u ) , 1941.