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Síndrome de Dandy-Walker: a propósito de 4 casos.

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Academic year: 2017

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S Í N D R O M E DE D A N D Y - W A L K E R : A P R O P Ó S I T O DE 4 CASOS

GILBERTO MACHADO DE ALMEIDA *

Dá-se o nome de síndrome de Dandy-Walker a ura tipo de hidrocéfalo

no qual o I V ventrículo, muito dilatado, adquire o aspecto de um grande

cisto (fig. 1 ) . A condição tem sido exaustivamente estudada

3

>

5

'

9

-

1U

>

1 7

-

2 7

-3 1 , -3 2 , -3 5;

havendo relativa concordância quanto aos achados morfológicos e

anátomo-patológicos: a fossa posterior, aumentada de volume à custa da

posição anormalmente alta da tenda do cerebelo e do abaulamento do

occi-pital, acha-se quase que totalmente preenchida pelo cisto correspondente ao

I V ventrículo; o vérmis cerebelar, muito pequeno, apresenta-se rudimentar,

estando ausente ou malformada a sua porção posterior; os hemisférios

cere-belares, recalcados para a frente, também apresentam alterações em sua

estrutura, principalmente disgenesia de núcleos cinzentos. A membrana do

cisto, correspondente ao teto do I V ventrículo, na maioria das vezes

apre-senta três camadas: a interna constituída pelo epêndima, às vezes

descon-tínuo; a externa, correspondente à pia-aracnóide; a intermediária, contendo

células gliais, tecido colágeno (restos da tela corióidea) e, mais raramente,

células de Purkinje

1 7

ou fibras nervosas

2 7

. Geralmente os orifícios de Luschka

e Magendie não são permeáveis; excepcionalmente um dos forames de Luschka

permanece a b e r t o

1 2

'

1 7

-

3 1

, o que tem ocasionado confusão na interpretação

de alguns exames complementares, como a pneumencefalografia ou a prova

dos corantes. Importante é a ausência de sinais inflamatórios.

Histórico — Há certa dificuldade para a classificação dos casos

referi-dos na literatura antiga, tanto pela precariedade de alguns relatos como

pela confusão com outras malformações cerebelares, em época em que a

exis-tência dos orifícios de Luschka e Magendie era discutida

2

>

9

-

1 0

. Por isso as

várias revisões são discordantes. Os casos referidos até 1914 são todos

du-vidosos, sendo citados em algumas revisões e excluídos de outras: Salter (1

caso, 1852 — cit. por Fowler e A l e x a n d e r

1 2

) , Hilton (1 caso, 1863 — cit.

por Gibson

1 7

e R u s s e l

2 7

) , Virchow (1 caso, 1863 — cit. por G i b s o n

1 7

) , von

Recklinghaussen (1 caso, 1864 — cit. por G i b s o n

1 7

) , Fusari (1 caso, 1891

— cit. por Bertrand e col.

4

, Brodal e col.

5

, Gibson

1 7

, Sahs

2 8

, S h r y o c k

3 2

e

Taggart e W a l k e r

3 5

) , Rossi (2 casos, 1891 e 1892 — cit. por Bertrand e

T r a b a l h o da C l í n i c a N e u r o l ó g i c a da F a c . M e d . da U n i v . d e S ã o P a u l o ( P r o f . A d h e r b a l T o l o s a ) .

(2)

col.

4

, Brodal e col.

5

, Gibson

1 7

, Shryock

3 2

e Taggart e W a l k e r

3 5

) , Solovtzoff

(2 casos, 1901 — cit. por B a k e r

1

e Sidenberg e c o l .

3 5

) , Trevor e Rolleston

(1 caso, 1911 — cit. por Brodal e col.

5

), Woskressenski (1 caso, 1911 — cit.

por Brodal e c o l .

5

) . Mesmo após 1914 existem casos duvidosos: Obersteiner

(1 caso, 1916 — cit. por Bertrand e col.

4

, Sahs

2 3

e Taggart e W a l k e r

3 5

) e

Lyssenkow (1 caso, 1931 — cit. por Bertrand e col.

4

, Brodal e col.

5

, Sahs

2 3

e Taggart e Walker

3 5

) .

Em 1914 Dandy e Blackfan

1 0

fizeram a primeira descrição

pormenori-zada. D a n d y

9

em 1921 relatou mais 3 casos, aventando a hipótese de que

a condição seria devida a falha de desenvolvimento dos orifícios que

comu-nicam o I V ventrículo com o espaço subaracnóideo e não do seu fechamento

como conseqüência de traumatismo ou infecção. Em 1942 Taggart e Walker

3 5

reviram o assunto adotando a hipótese sugerida por Dandy. Em 1954,

Benda

3

sugeriu o nome de "síndrome de Dandy-Walker" em substituição

ao de "atresia do orifício de Magendie", usado até então.

Revendo a literatura a partir de 1914 encontramos 60 casos típicos:

Dandy e Blackfan

1 0

(1 caso, 1914), Dandy

9

(3 casos, 1921), Pines e

Sura-baschwile (1 caso, 1932 — cit. por Bertrand e col.

4

, Brodal e col.

5

, Sahs

2 8

,

S h r y o c k

3 2

e Taggart e W a l k e r

3 5

) , Castrillon (1 caso, 1933 — cit. por

Ber-trand e col.

4

, Brodal e col.

5

, Coleman e col.

8

, S a h s

2 8

, S h r y o c k

3 2

e Taggart

e W a l k e r

3 5

) , Scarf

30

(1 caso, 1933), S a h s

2 8

(1 caso, 1941), Cohen (1 caso,

1942 — cit. por Brodal e col.

5

, F o w l e r

3 2

e Taggart e W a l k e r

3 5

) , Taggart

e W a l k e r

3 5

(3 casos, 1942), Shryock e A l e x a n d e r

3 2

(1 caso, 1943), Walker

(1 caso, 1944 — cit. por Brodal e col.

5

, Coleman

8

, F o w l e r

1 2

e H o l l a n d

1 9

) ,

Sidenberg e K e s s l e r

3 3

(1 caso, 1946), Coleman e T r o l a n d

8

(2 casos, 1948),

Russel

2 7

(1 caso, 1949), Schwarzkopf (1 caso, 1950 — cit. por Brodal e col.

5

),

Van E p p s

3 6

(2 casos, 1953), Benda

3

(6 casos, 1954), Schreiber e R e y e

3 1

(5 casos, 1954), Maloney

2 3

(2 casos, 1954), Gibson

1 7

(2 casos, 1955), Fowler

e Alexander

1 2

(3 casos, 1956), Matson

2 5

(8 casos, 1956), Hemmer

1 8

(7 casos,

1958), Clarke e L a i d l o w

7

(1 caso, 1958), Brodal e Hauglie-Hanssen

5

(2

casos, 1959), Holland e Graham

1 9

(1 caso, 1959), Scarcella

2 9

(2 casos, 1960).

Também têm sido descritos alguns casos em animais: Lesbre e Forgeot

(1 caso em bezerro, 1901 — cit. por Bertrand e col.

4

, Brodal e col.

5

e Sahs

2 8

) ,

Bertrand, Medynski e Salles

4

(1 caso em cão, 1936), D o w

1 1

(2 casos em

cães, 1940), V e r h a a t

3 7

(1 caso em cabra, 1942), Bonnevie e Brodal (uma

raça de camundongos, 1946 — cit. por Brodal e Hauglie-Hanssen

5

).

Patogenia — Praticamente todos os autores concordam em que a causa

seja um defeito de desenvolvimento. Processos inflamatórios poderão

deter-minar bloqueio dos orifícios de Luschka e Magendie; entretanto, em tais

circunstâncias, faltam os outros elementos que caracterizam a síndrome.

Dandy

9

admitiu que a falha de desenvolvimento dos orifícios de Luschka

e Magendie fôsse o defeito inicial, sendo esta teoria desenvolvida por Taggart

e W a l k e r

3 5

(3)
(4)

anterior e os hemisférios cerebelares serão melhor formados porque neste

período já estão diferenciados, tal não acontecendo com o vérmis posterior.

Benda

3

, em 1954, pretendeu demonstrar que a atresia do orificio de

Magendie não é o fator essencial, que o quadro pertence à categoria dos

defeitos de fechamento ou rachischisis e que a falha essencial está na

au-sência de fusão na linha média. Brodal e Hauglie-Hanssen

5

também não

aceitam a "atresia" dos orifícios do I V ventrículo como causa primária.

Estudando uma raça de camundongos em que a moléstia se transmitia como

gen mono-híbrido recessivo, estes autores encontraram anomalias no

cere-belo e no teto do I V ventrículo em estádio anterior à formação dos for ames

de Luschka e Magendie; estas anomalias mostravam que, já neste período,

havia hipertensão cuja etiologia não foi esclarecida. Concluem estes autores

admitindo que a causa da síndrome existe antes do terceiro mês de vida

intra-uterina e que a falha de abertura dos orifícios é apenas uma

conse-qüência. De fato, existem casos em que um ou dois orifícios são

permeá-veis

1 2 , 1 7 , 3 1

; por outro lado, em cérebros normais tem sido assinalada a

au-sência de um ou dois forames

3 , 9

. Ultimamente Gardner

1 3 , 1 4 , 1 5 , 1 6

voltou

à teoria defendida por Taggart e Walker, mostrando que a síndrome de

Dandy-Walker, a malformação de Arnold-Chiari, a siringomielia, a hidromie¬

lia, a meningomielocele, a encefalocele e, mesmo, alguns casos de hidrocéfalo

comunicante são, meramente, expressões diferentes de um mesmo defeito,

ou seja, falha de desenvolvimento normal dos orifícios do teto do I V

ven-trículo. O estabelecimento de uma ou outra entidade, assim como das

vá-rias associações entre elas depende de fatôres diversos, principalmente da

duração da alteração de permeabilidade do teto do I V ventrículo e da maior

ou menor resistência oferecida pelas paredes do sistema ventricular ao

au-mento da pressão.

C A S U Í S T I C A

C A S O 1 •— J. R . , c o m 5 m e s e s de i d a d e , s e x q m a s c u l i n o , b r a n c o , b r a s i l e i r o , in-t e r n a d o e m 19-7-1957 ( R e g . G. 4 7 9 2 1 4 ) . D e s d e o n a s c i m e n in-t o , d i s j u n ç ã o a c e n in-t u a d a das s u t u r a s c r a n i a n a s . A o s 3 m e s e s de i d a d e os pais n o t a r a m a u m e n t o a c e n t u a d o e p r o g r e s s i v o d o c r â n i o . A l g u m a s crises c o n v u l s i v a s g e n e r a l i z a d a s . Exame

clíniconeurológico: c r â n i o a u m e n t a d o d e v o l u m e , c o m c e r t o a b a u l a m e n t o na r e g i ã o o c c i

-p i t a l ( -p e r í m e t r o c r a n i a n o d e 54 c m e t o r á c i c o d e 41,5 c m ) , c i r c u l a ç ã o v e n o s a v i s í v e l , d i s j u n ç ã o a c e n t u a d a de suturas, f o n t a n e l a s a m p l a s e t e n s a s . M o v i m e n t a ç ã o d i m i n u í d a . R e f l e x o s s u p e r f i c i a i s e p r o f u n d o s n o r m a i s ; r e f l e x o de M o r o e s b o ç a d o ; r e f l e -x o s de M a g n u s K l e i n a u s e n t e s . M a r c h a r e f l e -x a p r e s e n t e . Transiluminação ( f i g . 2 A ) : t r a n s p a r ê n c i a e m t o d a fossa p o s t e r i o r , q u e se a p r e s e n t a a u m e n t a d a , c o m e l e v a ç ã o da t e n d a do c e r e b e l o . E lee trence falo grama ( s ó f o i o b t i d o o r e g i s t r o d o s o n o ) : desa-p a r e c i m e n t o d a a t i v i d a d e e l é t r i c a r á desa-p i d a e m a m b a s as á r e a s o c c i desa-p i t a i s ; o e x a m e s u g e r e a e x i s t ê n c i a de p r o c e s s o e x p a n s i v o o u de c o l e ç ã o l i q ü i d a e m a m b a s as á r e a s o c c i p i t a i s . Radiografias do crânio: a u m e n t o g e n e r a l i z a d o dos d i â m e t r o s c r a n i a n o s ; p o s i ç ã o a n o r m a l , nos p a r i e t a i s , dos sulcos p r o d u z i d o s p e l o s seios t r a n s v e r s o s .

Sinu-grafia direta ( i n j e ç ã o d e c o n t r a s t e n o seio l o n g i t u d i n a l s u p e r i o r ) : n ã o h á b l o q u e i o ;

s i t u a ç ã o a n o r m a l m e n t e a l t a d o t o r c u l a r de H e r ó f i l o e dos seios t r a n s v e r s o s . Prova

de corante ( p u n ç ã o d o v e n t r í c u l o d i r e i t o e i n j e ç ã o d e 0,1 m l de a z u l de t o l u i d i n a

(5)
(6)

n o r m a l m a s n o l í q u o r l o m b a r f o i e n c o n t r a d a h i p e r c i t o s e de 56 c é l u l a s ( l i n f o m o n ó -c i t o s ) . Pan-angiografia -cerebral: sinais i n d i -c a t i v o s de g r a n d e h i d r o -c e f a l i a i n t e r n a ; na i n c i d ê n c i a l a t e r a l , e l e v a ç ã o dos s i s t e m a s a r t e r i a i s m é d i o e p o s t e r i o r , sendo q u e e s t e ú l t i m o g r u p o a p r e s e n t a c u r v a t u r a de c o n c a v i d a d e p ó s t e r o - i n f e r i o r , l i m i t a n d o g r a n d e á r e a a v a s c u l a r c o r r e s p o n d e n t e a o c i s t o da fossa p o s t e r i o r ( f i g . 2 B ) .

Pneumo-ventriculografia ( 1 3 - 8 - 5 7 ) e pneumencefalografia m a i s pneumocistografia ( 1 7 - 8 - 5 7 ) :

h i d r o c é f a l o b l o q u e a d o p o r o b s t r u ç ã o a o n í v e l da t r a n s i ç ã o v e n t r í c u l o - s u b a r a c n ó i d e a ; a fossa p o s t e r i o r , g r a n d e m e n t e a u m e n t a d a p e l a e l e v a ç ã o da t e n d a do c e r e b e l o , a p r e s e n t a s e q u a s e t o t a l m e n t e p r e e n c h i d a p o r e n o r m e cisto c o r r e s p o n d e n t e a o I V v e n t r í -c u l o ( f i g . 2C e D ) ; este -c i s t o a p r e s e n t a u m a e x p a n s ã o p a r a o -c a n a l r a q u e a n o a t é CrC2 v i s í v e l na c h a p a d e p e r f i l c o m o p a c i e n t e de c a b e ç a p a r a b a i x o ( f i g . 2 D ) ;

c e r e b e l o r e d u z i d o a p e q u e n a f o r m a ç ã o na p o r ç ã o a n t e r i o r da fossa p o s t e r i o r ( f i g . 2 C ) ; g r a n d e d i l a t a ç ã o dos v e n t r í c u l o s l a t e r a i s c o m e l e v a ç ã o dos c o r n o s o c c i p i t a i s ; t e r c e i r o v e n t r í c u l o d i l a t a d o e c o m e l e v a ç ã o da sua p o r ç ã o p o s t e r i o r ( f i g . 2 E ) ; o t r â n s i t o e n t r e os I I I e I V v e n t r í c u l o s f o i f e i t o c o m d i f i c u l d a d e . P e l a p u n ç ã o l o m b a r só f o i p o s s í v e l r e t i r a r 30 m l de l í q u o r . O a r i n j e t a d o p o r essa v i a c o n t r a s t o u o e s p a ç o s u b a r a c n ó i d e o c e r v i c a l , a c i s t e r n a m a g n a r e d u z i d a de v o l u m e , as c i s t e r n a s p r é - p o n t i n a , i n t e r p e n d u c u l a r , a m b i e n s e s i l v i a n a ; n ã o h o u v e c o n t r a s t a ç ã o da c i s t e r n a o p t o q u i a s m á t i c a e d o e s p a ç o s u b a r a c n ó i d e o p e r i e n c e f á l i c o . Iodoventriculografia ( f i g . 2 F ) : o c o n t r a s t e passou l e n t a m e n t e d o I I I a o I V v e n t r í c u l o a t r a v é s de u m a q u e d u t o b a s t a n t e e s t r e i t o e a l g u m a s g o t a s f o r a m t e r à e x p a n s ã o c e r v i c a l d o c i s t o .

Operação — F o i r e s o l v i d o a b r i r a p e n a s a e x p a n s ã o c e r v i c a l d o cisto, a t r a v é s de

l a m i n e c t o m i a d e C, e C , e a l a r g a m e n t o d o b u r a c o o c c i p i t a l . A p ó s a b e r t u r a da d u r a m a t e r e d a a r a c n ó i d e f o i v i s t a a e x p a n s ã o r e f e r i d a e r e t i r a d o u m f r a g m e n t o da m e m b r a n a , d e t e r m i n a n d o saída a b u n d a n t e d e l i q ü i d o c l a r o . Exame histológico da

membrana: l â m i n a de t e c i d o f i b r o s o ( p i a a r a c n ó i d e ) , r e v e s t i d o p o r e l e m e n t o s de d e r i

v a ç ã o e p e n d i m á r i a . N o p ó s o p e r a t ó r i o a f o n t a n e l a f i c o u d e p r i m i d a m a s s u r g i u h i p e r -t o n i a e m e x -t e n s ã o dos q u a -t r o m e m b r o s e h i p e r -t e r m i a . A c r i a n ç a a p r e s e n -t o u p i o r a das c o n d i ç õ e s g e r a i s , v i n d o a f a l e c e r c o m b r o n c o p n e u m o n i a , 36 dias a p ó s o a t o c i r ú r g i c o .

Necropsia — B r o n c o p n e u m o n i a . C r a n i e c t o m i a de fossa p o s t e r i o r e l a m i n e c t o m i a

c e r v i c a l . G r a n d e d i l a t a ç ã o do s i s t e m a v e n t r i c u l a r . E l e v a ç ã o da t e n d a d o c e r e b e l o . O v e n t r í c u l o r o m b e n c e f á l i c o a p r e s e n t a s e t r a n s f o r m a d o e m g r a n d e cisto q u e c o m -p r i m e os h e m i s f é r i o s c e r e b e l a r e s -p a r a f r e n t e e -p a r a os l a d o s . V e r m i s r u d i m e n t a r e e l e v a d o . O a s p e c t o e n c o n t r a d o é p r a t i c a m e n t e i d ê n t i c o a o e s q u e m a a p r e s e n t a d o p o r D a n d y3

( f i g . 1 ) , h a v e n d o a p e n a s u m o r i f í c i o na m e m b r a n a , c o n s e q ü ê n c i a d o a t o c i r ú r g i c o . N ã o h a v i a r e a ç ã o i n f l a m a t ó r i a nas m e n i n g e s .

C A S O 2 — A . S. S., c o m 2 m e s e s d e i d a d e , s e x o m a s c u l i n o , b r a n c o , b r a s i l e i r o , i n t e r n a d o e m 16-4-1959 ( R e g . G . 5 5 3 2 0 1 ) . D e s d e o n a s c i m e n t o a c r i a n ç a a p r e s e n t a v a c r â n i o m a i o r d o q u e o n o r m a l ; u m a s e m a n a a n t e s da i n t e r n a ç ã o passou a a l i m e n -t a r - s e m a l e a g e m e r m u i -t o . Exame físico — C r â n i o m u i -t o a u m e n -t a d o , m e d i n d o 64 c m , c o m r e d e v e n o s a b e m d e s e n h a d a , de c o n s i s t ê n c i a m o l e , ossos m u i t o s e p a r a dos. S i n a l d o sol p o e n t e . D i s t r o f i a . Exame neurológico i g u a l a o de c r i a n ç a r e c é m n a s c i d a . Transiluminação: p o s i t i v a e m t o d o o c r â n i o . Electrencefalograma: a u s ê n -cia da a t i v i d a d e e l é t r i c a r á p i d a nas á r e a s o c c í p i t o - p a r i e t a i s . O caso foi c o n s i d e r a d o s e m p o s s i b i l i d a d e s t e r a p ê u t i c a s d e v i d o a o g r a n d e v o l u m e d o c r â n i o e a o s o f r i m e n t o c e r e b r a l g r a v e . A l g u n s d i a s a p ó s a i n t e r n a ç ã o a c r i a n ç a a p r e s e n t o u sinais de b r o n c o p n e u m o n i a , v i n d o a f a l e c e r e m 28-4-59.

Necropsia — B r o n q u i t e e b r o n q u i o l i t e p u r u l e n t a . G r a n d e h i d r o c e f a l i a , c ó r t e x

c e r e b r a l m u i t o d e l g a d o . O a s p e c t o e n c o n t r a d o na fossa p o s t e r i o r e r a s e m e l h a n t e a o e s q u e m a a p r e s e n t a d o p o r D a n d y9

( f i g . 1 ) .

(7)

a l o n g a d a e u m a t u m o r a ç ã o na r e g i ã o p o s t e r i o r ; o c r â n i o a u m e n t o u p r o g r e s s i v a m e n t e de v o l u m e m a s a m e n i n g o c e l e p e r m a n e c e u i n a l t e r a d a . Exame físico — P e r í m e t r o c r a n i a n o de 51 c m ; m e n i n g o c e l e o c c i p i t a l c o m 6 c m de d i â m e t r o ( f i g . 3 A ) . Teste

de Gesell c o m 24 s e m a n a s : d e s e n v o l v i m e n t o n o r m a l . Transiluminação: p o s i t i v a a t r a

-v é s da m e n i n g o c e l e e n e g a t i -v a n o c r â n i o . Electrencefalograma n o r m a l . Radiografia

do crânio: c o n s i d e r á v e l a u m e n t o de t o d o s os d i â m e t r o s ; f o n t a n e l a s e s u t u r a s a l a r

-g a d a s ; c r â n i o b í f i d o o c c i p i t a l c o m m e n i n -g o c e l e ; n ã o f o r a m e v i d e n c i a d o s os s u l c o s dos seios t r a n s v e r s o s .

A p a c i e n t e p e r m a n e c e u c e r c a de 60 d i a s u s a n d o A c e t o z o l a m i d a ( 4 0 m g p o r k g a o d i a ) s e m sucesso, p o i s o p e r í m e t r o d o c r â n i o a u m e n t o p a r a 53,5 c m . N o v o teste

de Gesell, f e i t o 2 m e s e s e m e i o a p ó s o p r i m e i r o , m o s t r o u p e q u e n o p r o g r e s s o n e s t e

p e r i o d o , f i c a n d o e n t ã o b e m d e m o n s t r a d o o r e t a r d o de d e s e n v o l v i m e n t o . Prova do

corante ( p u n ç ã o do v e n t r í c u l o e s q u e r d o e i n j e ç ã o de 0,5 m l de f e n o l s u l f o n f t a l e í n a ) :

o c o r a n t e passou p a r a o v e n t r í c u l o d i r e i t o , m a s n ã o p a r a o s u b a r a c n ó i d e o l o m b a r . O l í q u o r o b t i d o dos v e n t r í c u l o s n ã o a p r e s e n t a v a a n o r m a l i d a d e , m a s n o l i q ü i d o l o m -b a r h a v i a h i p e r c i t o s e de 12 c é l u l a s ( l i n f o m o n ó c i t o s ) .

E m 2-6-59, f o i f e i t a d e r i v a ç ã o v e n t r í c u l o - j u g u l a r s e g u n d o a t é c n i c a de S p i t z e H o l t e r . N o d i a s e g u i n t e a c r i a n ç a t e v e a m i g d a l i t e a g u d a e, d e p o i s , b r o n c o p n e u m o nia, f a l e c e n d o e m 461951. N o p e r í o d o p ó s o p e r a t ó r i o a d e r i v a ç ã o p e r m a n e c e u d r e -n a -n d o b e m , p o i s a f o -n t a -n e l a f i c o u f l á c i d a e l i g e i r a m e -n t e d e p r i m i d a .

Necropsia — A m i g d a l i t e p u r u l e n t a . A b s c e s s o s p u l m o n a r e s m ú l t i p l o s . A v á l v u l a

e as s o n d a s c o l o c a d a s n o a t o c i r ú r g i c o e s t a v a m e m b o a p o s i ç ã o , n ã o a p r e s e n t a n d o o b s t r u ç ã o . M e n i n g o c e l e o c c i p i t a l . V e n t r í c u l o r o m b e n c e f á l i c o c o m os a s p e c t o s t í p i -cos da s í n d r o m e de D a n d y - W a l k e r . A m e n i n g o c e l e n ã o c o n t i n h a e x p a n s ã o do I V v e n t r í c u l o .

C A S O 4 — O . H . , c o m 5 a n o s de i d a d e , s e x o m a s c u l i n o , b r a n c o , b r a s i l e i r o , i n t e r n a d o e m 10121959 ( R e g . G. 568391). O m e n i n o nasceu de p a r t o de n á d e g a s , d e -m o r a d o ; c o -m u -m -m ê s de i d a d e os p a i s n o t a r a -m a u -m e n t o a c e n t u a d o d o v o l u -m e c r a n i a n o ; a p a r t i r dos 8 m e s e s o c r e s c i m e n t o d o c r â n i o t o r n o u - s e m e n o s a c e n t u a d o ; a c r i a n ç a s u s t e n t o u a c a b e ç a c o m 1 a n o , s e n t o u - s e c o m 2 a n o s e c o m e ç o u a f a l a r e a a n d a r a p o i a d o a o s 2 a n o s e m e i o ; a o s 14 meses a p r e s e n t o u c r i s e c o n v u l s i v a d e m o r a d a n o h e m i c o r p o e s q u e r d o e, d e p o i s , h e m i p a r e s i a do m e s m o l a d o ; c o m a n o e m e i o c o m e ç o u a t e r crises de h i p e r t o n i a dos 4 m e m b r o s e o p i s t ó t o n o , d u r a n t e as q u a i s v o m i t a v a ; a p ó s e s t a s crises, q u e se r e p e t i a m c a d a 15-20 dias, a c r i a n ç a f i c a v a a b t i d a e s o n o l e n t a ; nos m e s e s q u e p r e c e d e r a m a i n t e r n a ç ã o a c u s o u d o r e s na n u c a .

Exame clínico-neurológico — C r â n i o a u m e n t a d o de v o l u m e , p r i n c i p a l m e n t e à c u s t a

de sua p o r ç ã o p o s t e r i o r ; p e r í m e t r o c r a n i a n o de 60 c m ( p e r í m e t r o t o r á c i c o = 55 c m ) ; f o n t a n e l a s e s u t u r a s f e c h a d a s . D i s c r e t a h i p e r t o n i a e m e x t e n s ã o dos m e m b r o s i n f e -r i o -r e s . D é f i c i t m o t o -r g e n e -r a l i z a d o , m a i o -r à e s q u e -r d a . R e f l e x o s p -r o f u n d o s v i v o s n o s m e m b r o s i n f e r i o r e s , e s p e c i a l m e n t e à e s q u e r d a . S i n a l de B a b i n s k i b i l a t e r a l . L i g e i r a p a l i d e z das p a p i l a s ó p t i c a s . Transiluminação: n e g a t i v a . Teste de Gesell: r e t a r d o n í t i d o p r i n c i p a l m e n t e n o s e t o r da m o t r i c i d a d e . Electrencefalografia n o r m a l .

Radio-grafias do crânio: a l é m dos sinais t í p i c o s de h i d r o c e f a l i a , c h a m a a a t e n ç ã o a p o s i ç ã o

a n o r m a l m e n t e a l t a ( a c i m a da s u t u r a l a m b d ó i d e a ) da i m p r e s s ã o dos seios t r a n s

-v e r s o s ( f i g . 3 B ) . Radiografias da coluna -vertebral: espina b í f i d a o c u l t a de Sr

Sinugrafia direta ( v i a seio l o n g i t u d i n a l s u p e r i o r , a p ó s p e r f u r a ç ã o f r o n t a l ) : s i t u a ç ã o

a l t a do c o n f l u e n t e e dos seios t r a n s v e r s o s ( f i g . 3 C ) . Pneumoventriculografia: d i l a t a ç ã o de t o d a s a s c a v i d a d e s v e n t r i c u l a r e s ; e l e v a ç ã o d a s p o r ç õ e s p o s t e r i o r e s dos v e n t r í c u l o s l a t e r a i s ; o I V v e n t r í c u l o a c h a - s e t r a n s f o r m a d o e m u m cisto q u e o c u p a q u a s e t o d a a fossa i n f r a - t e n t o r i a l , a p r e s e n t a n d o a i n d a u m a e x p a n s ã o q u e u l t r a p a s s a o p l a n o do f o r a m e o c c i p i t a l c h e g a n d o a t é C2 ( f i g . 3 D ) .

(8)

C O M E N T Á R I O S

Geralmente as manifestações da doença surgem desde o nascimento ou

nos primeiros meses de vida. O quadro se confunde com os demais tipos

de hidrocéfalo; entretanto, pela inspeção, pode ser levantada a suspeita

diag-nostica quando o crânio seja alongado (fig. 3 A ) , ou quando exista

abaula-mento ao nível da fossa posterior. Pela palpação pode-se notar um

afas-tamento relativamente grande dos bordos da sutura lambdóide.

(9)

exacerbar a síndrome de hipertensão

8 , 1 7 , 1 8 , 3 1

. Admite-se que o

traumatis-mo rompa o equilíbrio instável que vinha sendo mantido por vários fatôres:

diminuição da produção de líquor, permeabilidade de um dos orifícios de

Luschka, diálise através da membrana e reabsorção do líquor pelo epêndima

ou por vasos da própria parede do cisto. Punções lombares

2 8

ou

ventricu-lares

9

também podem acarretar desequilíbrio, determinando exacerbação da

sintomatologia. Nos pacientes em que a hipertensão intracraniana aumenta

subitamente podem ocorrer rigidez de nuca

2 8

, o p i s t ó t o n o

5

.

3 3

ou crises de

hipertonia

5

. O nosso caso 4 apresentou freqüentes crises de hipertonia e

opistótono possivelmente devidas à compressão do tronco cerebral

determi-nada por acentuação da hipertensão intracraniana.

Em alguns casos registrados na literatura o diagnóstico só foi feito

me-diante necropsia de pacientes que faleceram por outras causas; em alguns

desses casos, durante a vida, fôra assinalada síndrome cerebelar (caso de

Shryock e A l e x a n d e r

3 2

) ou déficit mental (casos de Castrillon cit. por

Sahs

2 8

e de Pines e Surabaschwile cit. por Bertrand e col.

4

, Brodal e col.

5

,

Shryock

3 2

e Taggart e W a l k e r

3 5

) . Síndrome cerebelar uni ou bilateral tem

sido encontrada com certa freqüência

5 , 8 , 1 8 , 2 3 , 2 8 , 3 2 , 3 3

. Em nossos casos 1,

3 e 4 ocorreram convulsões, o que também tem sido referido

3 , 1 7

. O caso 3

apresentava meningocele occipital (fig. 3 A ) semelhante à encontrada em um

dos pacientes de Schreiber e R e y e

3 1

. Já foi assinalada a associação com

outras malformações, dentro e fora do estojo crânio-raquídeo

3 1 , 3 2 , 3 3 , 3 5 , 3 6

,

principalmente com agenesia do corpo caloso

3 1 , 3 3 , 3 6

.

Transiluminação — Fowler e Alexander

1 2

descrevem, como típico, o fato

de a luz atravessar a fossa posterior, não o fazendo no restante do crânio;

a área transiluminada é limitada pela linha de implantação da tenda do

ce-rebelo. Em nossos pacientes, êste fato foi observado uma única vez (caso

1, fig. 2 A ) . N o caso 3, a transiluminação foi positiva em todo o crânio

de-vido à grande dilatação do sistema ventricular. Nos demais havia opacidade

total, pois se tratava de crianças maiores, com hidrocéfalo menor.

Electrencefálograma — Não têm sido referidas, na literatura,

altera-ções electrencefalográficas características. O exame foi feito em todos os

nossos casos. Nos dois primeiros (casos 1 e 2 ) , em que o cisto da fossa

posterior era muito grande, notou-se o desaparecimento do ritmo rápido nas

áreas posteriores. Êste dado pode constituir um elemento a mais para o

diagnóstico da síndrome de Dandy-Walker.

Craniograma — Além dos sinais radiográficos conseqüentes à

hiperten-são intracraniana, podemos encontrar elementos que permitem levantar a

suspeita ou mesmo firmar o diagnóstico de síndrome de Dandy-Walker.

Taggart e W a l k e r

3 5

(10)

sinal, considerado patognomônico, pode, entretanto, não ser encontrado, ou

por não estarem os seios venosos em posição anormal

8 , 1 7 , 1 9

ou devido a não

visibilização dos sulcos

2 7 , 3 1

, o que constitui a regra em crianças pequenas.

Outros dados radiológicos de menor valor são: dolicocefalia, abaulamento da

fossa posterior, disjunção relativamente grande da sutura lambdóide e

adel-gaçamento do occipital. O exame radiográfico foi feito em 3 de nossos

casos: em um (caso 3) o sulco dos seios transversos não era visível; nos

dois outros (casos 1 e 4) pôde ser demonstrada a posição anormal dêstes

seios venosos. Os outros sinais radiológicos são menos evidentes e,

conside-rados isoladamente, não permitem firmar o diagnóstico.

Sinugrafia direta — A importância dêste exame foi ressaltada por In¬

graham e Matson

2 0

, M a t s o n

2 5

e F o w l e r

1 2

; êle permite verificar a posição

dos seios transversos, tendo especial valor quando os sulcos correspondentes

não aparecem de maneira nítida no craniograma. O sinugrama, realizado

em dois dos nossos casos (1 e 4 ) , confirmou a posição anormal da tórcula

e dos seios transversos. Éste sinal, quando presente, pode ser considerado

patognomônico.

Arteriografia — Êste exame não tem sido empregado para o diagnóstico

da síndrome de Dandy-Walker. Entretanto, no caso 1 a pan-angiografia

cerebral mostrou sinais interessantes: em incidência lateral a região da fossa

posterior apresentava-se avascularizada e limitada, superiormente, pelas

ar-térias cerebrais posteriores, que se encontravam elevadas e descreviam curva

de concavidade para baixo; a posição destas artérias confirmou a situação

alta da tenda do cerebelo.

Liqüido cefalorraquidiano — O exame de líquor e a injeção de corante

no sistema ventricular têm sido feitos na maioria dos casos de crianças

pe-quenas, com fontanela aberta, demonstrando a existência de bloqueio entre

os sistemas ventricular e subaracnóideo lombar. Isto, entretanto, não

cons-titui regra absoluta, pois, em alguns casos

3 , 3 1

há passagem do corante de

um compartimento para outro, através de um orifício de Luschka aberto ou

por diálise ao nível da membrana. Em pacientes de maior idade, tem sido

feito o exame do líquor colhido por via lombar sem que tenham sido obtidos

dados de interêsse. Nos casos 1 e 3 a prova dos corantes mostrou bloqueio;

além disso, no líquor obtido por via lombar havia discreta hipercitose. Nos

outros pacientes o exame não foi realizado.

Pneumoventriculografia — Êste exame, mostrando dilatação maior ou

menor do sistema ventricular, com características especiais, é o que mais

freqüentemente tem confirmado o diagnóstico: nos ventrículos laterais há

elevação dos cornos occipitais e das porções posteriores dos cornos

tempo-rais; o I V ventrículo é substituído por um grande cisto, que ocupa quase

tôda a fossa posterior e que se projeta para a coluna cervical, chegando a

atingir a segunda vértebra c e r v i c a l

1 2 , 2 5

(11)

siderada, por Matson

2 5

, como indício patognomônico. Quando o exame é

feito com bastante contraste pode ser delimitado o cerebelo atrofiado (fig.

2C). M a l o n e y

2 3

chama a atenção para os casos em que há necessidade de

fazer perfurações, pois podem ser atingidos os seios venosos como aconteceu

em um de seus pacientes; Schreiber e R e y e

3 1

relataram um caso em que

as perfurações atingiram o cisto. Realizamos o exame em dois pacientes:

no caso 4 os achados foram típicos e confirmaram o diagnóstico; no caso 1

chamou-nos a atenção uma dificuldade de trânsito ao nível do aqueduto,

confirmada pela iodoventriculografia e provavelmente ocasionada por hérnia

do conteúdo da fossa posterior, através da incisura da tenda, determinando

compressão do mesencéfalo

6

. Em um dos casos de Taggart e W a l k e r

3 5

não houve passagem de ar do I I I para o I V ventrículo, provavelmente pela

mesma causa. No trabalho de Sahs

2 8

existe uma fotografia em que a

her-niação descrita é nítida.

Pneumencefalografia — Na maioria das vêzes êste exame não fornece

dados de interêsse, podendo mesmo levar à confusão com casos de

hidroce-falia comunicante, devido à passagem de ar para o sistema v e n t r i c u l a r

3 , 7 , 3 1

.

Isto se deve à permeabilidade de pelo menos um dos orifícios de Luschka,

pois admite-se que o ar não possa atravessar a membrana do cisto

2 5

, como

acontece com os corantes. Êstes dados mostram a precariedade da prova

dos corantes e da pneumencefalografia no diagnóstico da síndrome de

Dandy-Walker. Entretanto, êstes exames podem ter valor no estudo das condições

do espaço subaracnóideo, o que tem interesse na conduta terapêutica

9 , 2 1 , 2 2

,

pois, havendo bloqueio neste compartimento, a simples retirada da

membra-na correspondente ao teto do I V ventrículo transformará a hidrocefalia de

bloqueada em comunicante

2 5

No caso 1 a pneumencefalografia mostrou

permeabilidade apenas parcial do sistema subaracnóideo, o que, entretanto,

permitiu, no curto período pós-operatório, a reabsorção do líquor, pois a

fontanela permaneceu deprimida.

Iodoventriculografia — Êste exame não tem sido citado na literatura.

Uma única vez o realizamos e o resultado foi sem dúvida interessante, pois,

além de comprovar a existência da projeção do cisto para a região cervical,

permitiu um estudo mais detalhado do I I I ventrículo e do aqueduto de Syl¬

vius que tinham sido mal delimitados pelas pneumografias; a porção

poste-rior do I I I ventrículo achava-se muito elevada, dando ao todo um trajeto

quase vertical e o aqueduto, geralmente descrito como dilatado,

encontra-va-se estreitado, explicando a dificuldade na passagem do ar do I I I para o

I V ventrículo.

Terapêutica — Dos 60 casos citados na literatura, 36 foram submetidos

à cirurgia: em 33 foi feita craniectomia de fossa posterior com retirada de

porção maior ou menor da parede do cisto. Os resultados obtidos em 3

pa-cientes não foram relatados; dos 30 restantes, 13 (43,3%) faleceram (um

após nova tentativa por meio de derivação ventrículo-subaracnóidea), 4

(13,3%) foram ulteriormente submetidos à derivação subaracnóideo-urete¬

r a l

2 5

(12)

(40%), o resultado foi considerado bom. As demais operações tentadas:

ventriculostomia do I I I ventrículo

3 5

, electrocoagulação dos plexos coróides

3

e derivação subaracnóideo-ureteral

3 1

tiveram maus resultados.

Em nosso primeiro paciente foi feita retirada parcial da parede do cisto

(porção cervical), o que determinou descompressão brusca e sofrimento do

tronco do encéfalo, ocorrendo o óbito no 36.° dia de pós-operatório. Os

casos 3 e 4 foram submetidos à derivação ventrículo-jugular segundo a

téc-nica de Spitz, utilizando a válvula de Holter; o sistema drenou o líquor

sa-tisfatoriamente nos dois casos, mas um dos pacientes veio a falecer devido

a processo infeccioso.

A remoção da parede do cisto tem dado resultados relativamente

pre-cários. Esta operação, além de mais traumatizante, tem o inconveniente

de necessitar de um sistema subaracnóideo livre, sem o que há

transforma-ção da hidrocefalia de bloqueada em comunicante, exigindo nova

interven-ção

2 5

. O bloqueio do espaço subaracnóideo pode ser ocasionado por vários

fatores: a) falha de desenvolvimento do espaço, provocada pelo deficiente

trabalho de dissecção normalmente realizado pelo líquor; b) compressão

do espaço subaracnóideo periencefálico pela hipertensão no interior dos

ven-trículos; c) hernição de conteúdo da fossa posterior através da incisura da

tenda

6

. Êstes fatos explicam grande parte dos fracassos cirúrgicos,

princi-palmente em crianças. Nos pacientes mais idosos o sistema subaracnóideo

geralmente se encontra em melhores condições, sendo mais animadores os

resultados obtidos pela cirurgia. Outro inconveniente da retirada da

mem-brana é a possibilidade de descompressão brusca, como ocorreu com o nosso

primeiro caso. Êstes inconvenientes não existem com a derivação

ventrículo-jugular que é pouco traumatizante, não depende das condições do espaço

subaracnóideo e não determina descompressão brusca. Infelizmente no caso

3 o resultado foi mau devido a uma intercorrência. A operação de

Spitz-Holter não foi citada na literatura sobre a síndrome de Dandy-Walker e a

nossa casuística é pequena; entretanto, a experiência adquirida em outros

tipos de hidrocefalia

2 4 , 2 6 , 3 4

permite afirmar que esta técnica é superior à

remoção da parede do cisto.

C O N C L U S Õ E S

1. O diagnóstico de síndrome de Dandy-Walker pode ser suspeitado ao

exame clínico.

2. Na maioria dos casos o craniograma, mostrando os sulcos dos seios

transversos nos parietais, ou a transiluminação, com aspecto típico, permitem

afirmar o diagnóstico.

3. Nos casos em que as radiografias simples não mostram os sulcos

dos seios transversos é necessário recorrer à sinugrafia.

(13)

exames menos traumatizantes. Em alguns casos, quando não há elevação

nítida da tenda do cerebelo, o pneumoventriculograma ainda é o melhor

método diagnóstico.

5. A prova dos corantes e a pneumencefalografia podem levar à

con-fusão com formas de "hidrocefalia comunicante"; êstes exames têm interesse

apenas para o estudo das condições do espaço subaracnóideo.

6. O electrencefalograma às vezes pode ser o primeiro elemento a

le-vantar a suspeita diagnostica.

7. Arteriografia e iodoventriculografia têm interesse apenas teórico,

com-plementando dados fornecidos pelos demais exames.

8. A derivaçãa ventrículo-jugular (técnica de Spitz-Holter) é a melhor

terapêutica para estes casos, pois tem reais vantagens sobre a técnica mais

empregada até agora, ou seja a retirada da parede do cisto.

R E S U M O

Dá-se o nome de síndrome de Dandy-Walker a um tipo de hidrocefalia

cuja principal característica é a transformação do I V ventrículo em um

grande cisto, que ocupa quase tôda a fossa posterior; esta, por sua vez,

está aumentada, devido à elevação da tenda do cerebelo e abaulamento do

occipital. A patogenia do processo é discutida; admite-se geralmente que

se trate de um vício de desenvolvimento determinado pela falta de abertura

dos orifícios de Luschka e Magendie.

Em revisão bibliográfica foram encontrados 60 casos. São apresentados

mais 4, dois dos quais foram submetidos à derivação ventrículo-jugular pela

técnica de Spitz-Holter. São discutidos os principais sinais clínicos, os

exa-mes subsidiários e a terapêutica. A posição anormalmente alta dos seios

transversos, observada no craniograma ou na sinugrafia, é considerada como

sinal patognomônico. A transiluminação do crânio também pode apresentar

aspecto característico. Êstes exames, quando típicos, permitem evitar a

rea-lização de exames mais traumatizantes, como as ventriculografias. A

tera-pêutica mais empregada tem sido a abertura da parede do cisto. Não há

na literatura referência à operação de Spitz que, em nossa opinião, é a

melhor forma de tratamento.

S U M M A R Y

The Dandy-Walker syndrome: considerations on four cases.

(14)

is enlarged. The pathogenesis is incertain; it is generally agreed that it is

originated from a developmental disorder brought about by the non-opening

of the foramina of Luschka and Magendie.

In the literature were found 60 cases reported. Four additional cases

are reported, two of which underwent the ventriculo-jugular shunt by

Spitz-Holter's technique. The main clinical signs, laboratory data and therapy

are discussed. The abnormally high position of the transverse sinuses, as

seen in the X-ray of the skull or in the sinugram, is considered a pathogno¬

monical sign. The trans-illumination of the skull may also show a

characte-ristic aspect. When the results of these exames are typical, it is possible

to avoid more traumatizing ones such as ventriculographies. The therapy

more commonly used is the opening of the wall of the cyst. There is no

reference in the literature to Spitz's operation, which is, in our opinion,

the best treatment.

R E F E R Ê N C I A S

(15)

N e u r o l . , 197:206-214, 1958. 19. H O L L A N D , H . C ; G R A H A M , W . I . — C o n g e n i t a l a t r e s i a o f t h e f o r a m i n a o f L u s c h k a a n d M a g e n d i e w i t h h y d r o c e p h a l u s : r e p o r t o f a case in a n a d u l t . J. N e u r o s u r g . , 15:688-694, 1959. 20. I N G R A H A M , F . D . ; M A T S O N , D . D . — N e u r o S u r g e r y o f I n f a n c y and C h i l d h o o d . C h a r l e s T h o m a s , S p r i n g f i e l d ( I l l i n o i s ) 1954, p á g s . 154156. 21. L A U R E N C E , K . M . — T h e u r i n a r y p h e n o l s u l p h o n -p h t h a l e i n ( P h e n o l r e d ) e x c r e t i o n test in h y d r o c e -p h a l u s . A r c h . D i s . C h i l d h o o d , 3 2 : 413-416, 1957. 22. L A U R E N C E , K . M . — S o m e a p p l i c a t i o n s o f t h e u r i n a r y p h e n o l ¬ s u l p h o n p h t h a l e i n e x c r e t i o n test in h y d r o c e p h a l u s a n d r e l a t e d c o n d i t i o n s . B r a i n , 8 2 : 551-565, 1959. 23. M A L O N E Y , A . F . J. — T w o cases o f c o n g e n i t a l a t r e s i a o f t h e f o r a m i n a o f M a g e n d i e a n d L u s c h k a . J. N e u r o l . N e u r o s u r g . a. P s y c h i a t . , 17:134-138, 1954. 24. M A T E R A , R . F . — T r a t a m i e n t o q u i r ú r g i c o de la h i d r o c e f a l i a en el n i ñ o ( o p e r a c i ó n d e S p i t z - H o l t e r ) . R e v . B r a s i l . N e u r o c i r . , 1:7-25, 1960. 25. M A T S O N , D . D . — P r e - n a t a l o b s t r u c t i o n o f t h e f o u r t h v e n t r i c l e . A m . J. R o e n t g e n o l . , 76:499-506, 1956. 26. M c N A B , G. M . — T h e S p i t z H o l t e r v a l v e . J. N e u r o l . N e u r o s u r g . a. P s y chiat., 22:82, 1959. 27. R U S S E L , D . S. — O b s e r v a t i o n s on t h e p a t h o l o g y o f h y d r o -c e p h a l u s . M e d . R e s . C o u n -c i l , S p e -c . R e p . S e r i e s , no 265, H . M . S t a t i o n a r y O f f i -c e , L o n d r e s , 1949. 28. S A H S , A . L . — C o n g e n i t a l a n o m a l y o f t h e c e r e b e l l a r v e r m i s . A r c h . P a t h o l . , 32:52-63, 1941. 29. S C A R C E L L A , G. — R a d i o l o g i c a s p e c t s o f t h e D a n d y - W a l k e r s y n d r o m e . N e u r o l o g y , 10:260-266, 1960. 30. S C A R F F , J. E. — S p a s t i c h e m i p l e g i a p r o d u c e d b y a c o n g e n i t a l c y s t r e p l a c i n g t h e c e r e b e l l a r v e r m i s . J. N e r v . a. M e n t . Dis., 78:400-401, 1933. 31. S C H R E I B E R , M . S.; R E Y E , R . D . — P o s t e r i o r fossa cysts d u e t o c o n g e n i t a l a t r e s i a o f t h e f o r a m i n a o f L u s c h k a and M a g e n d i e . M e d . J. A u s t r a l i a , 41:743-748, 1954. 32. S H R Y O C K , E. H . ; A L E X A N D E R , H . B . — C o n g e n i t a l m a l f o r m a t i o n s o f t h e c e r e b e l l a r v e r m i s a s s o c i a t e d w i t h d i l a t a t i o n s o f t h e f o u r t h v e n t r i c l e and c i s t e r n a l a r a c h n o i d a l c y s t : r e p o r t o f a case. B u l l . L o s A n g e l e s N e u r o l . S o c , 8:11-17, 1943. 33. S I D E N B E R G , S. S.; K E S S L E R , M . M . ; W O L P A W , R . — A case o f t e t r a l o g y o f F a l l o t w i t h a b s e n c e o f c e r e b e l l a r v e r m i s ; t e r m i n a t i o n b y b r a i n abscess. J. P e d i a t , 28:719-728, 1946. 34. S P I T Z , E . B . — N e u r o s u r g e r y in t h e p r e v e n t i o n o f e x o g e n o u s m e n t a l r e t a r d a t i o n . P e d i a t r i c C l i n . N o r t h A m e r i c a , 6:12151235, 1959. 35. T A G G A R T , J. K . ; W A L K E R , A . E . — C o n -g e n i t a l a t r e s i a o f t h e f o r a m e n s o f L u s c h k a a n d M a -g e n d i e . A . M . A . A r c h . N e u r o l , a. P s y c h i a t . , 48:583-609, 1942. 36. V a n E P F S , E . F . — A g e n e s i s o f t h e c o r p u s c a l l o ¬ s u m w i t h c o n c o m i t a n t m a l f o r m a t i o n s , i n c l u d i n g a t r e s i a o f t h e f o r a m i n a o f L u s c h k a a n d M a g e n d i e . A m . J. R o e n t g e n o l . , 70:47-60, 1953. 37. V E R H A A R T , W . J. C. — P a r t i a l a g e n e s i s o f t h e c e r e b e l l u m and m e d u l l a a n d t o t a l a g e n e s i s o f t h e c o r p u s c a l l o s u m in a g o a t . J. C o m p . N e u r o l . , 77:49-60, 1942.

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