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As experiências femininas na AIB, 1932-1938: revendo o passado : gênero e representações

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DANIEL HENRIQUE LOPES

AS EXPERIÊNCIAS FEMININAS NA AIB, 1932-1938.

Revendo o Passado. Gênero e Representações.

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DANIEL HENRIQUE LOPES

AS EXPERIÊNCIAS FEMININAS NA AIB, 1932-1938.

Revendo o Passado. Gênero e Representações.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, curso de Mestrado, da Faculdade de Filosofia e Ciências, da Universidade Estadual Paulista – UNESP – como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª. Drª. Lídia Maria Vianna Possas.

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DANIEL HENRIQUE LOPES

AS EXPERIÊNCIAS FEMININAS NA AIB, 1932-1938.

Revendo o Passado. Gênero e Representações.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, curso de Mestrado, da Faculdade de Filosofia e Ciências, da Universidade Estadual Paulista – UNESP – como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________ Profª. Drª. Lídia Maria Vianna Possas (Orientadora)

Universidade Estadual Paulista/Marília

_________________________________________________ Profª. Drª. Joana Maria Pedro

Universidade Federal de Santa Catarina

_________________________________________________ Profª. Drª. Claude Lépini

Universidade Estadual Paulista/Marília

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AGRADECIMENTOS

A Deus pela vida, saúde, amigos, familiares e oportunidades que me ofereceu.

Aos meus pais por estarem sempre ao meu lado, apoiando e incentivando minhas

atividades.

À Profª. Drª. Lídia Maria Vianna Possas, por ter orientado esta pesquisa e pelo

respeito e afeto a mim dispensados. Sem dúvida, está entre as melhores orientadoras

existentes.

Ao Carlos Eduardo França, grande amigo que sempre me apoiou e incentivou e

que por várias vezes revisou os rascunhos do presente trabalho.

Ao Rodrigo Amado dos Santos, pelo apoio, por ter revisado esse texto e

traduzido o resumo para o inglês.

Aos colegas de trabalho da Secretaria Municipal da Educação de Marília pelo

apoio incondicional na realização desta pesquisa.

À Diretora Fátima Alvares pelo companheirismo no início desta caminhada.

À Diretora Eneida Ferreira Paterlini pelo incentivo, apoio e ajuda oferecidos.

À Profª. Drª. Christina de Rezende Rubim pelo apoio e incentivo no início dessa

etapa.

Aos professores e colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais

da UNESP/Marília, que, pela convivência, ampliaram as possibilidades deste trabalho.

Às funcionárias da Seção de Pós-Graduação da UNESP/Marília pela ajuda,

atenção e compreensão dispensadas ao longo desses três anos.

Aos funcionários do Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/SP,

(5)

À Profª. Drª. Joana Maria Pedro, Profª. Drª. Claude Lépini, Profª. Drª. Rosângela

de Lima Vieira e ao Prof. Dr. Maximiliano Martin Vicente por aceitarem de forma tão gentil

participar da Banca de Defesa dessa Dissertação.

A todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a elaboração

(6)

“O empreendimento científico, no seu conjunto, revela sua utilidade de tempos em tempos, abre novos territórios, instaura ordem e testa crenças estabelecidas há muito tempo”.

(7)

RESUMO

O objetivo da presente dissertação é analisar as experiências sociais das mulheres que atenderam ao apelo da Ação Integralista Brasileira – AIB – (1932-1938), movimento de inspiração fascista fundado por Plínio Salgado em 1932. Busca adentrar às práticas dessas militantes integralistas, conhecidas como “blusas verdes”, que assumiram funções diversas na hierarquia do Departamento Feminino na organização do “primeiro partido de massas do país”. Assim, enfocam-se os papéis informais como recurso para reconstrução das experiências de homens e mulheres na construção de sua própria história, situando essas práticas no processo de transição da sociedade brasileira dos anos 30-40. Deste modo, realiza uma abordagem interdisciplinar para apreender os efeitos gerais provocados pela Revolução Cultural, Técnica e Científica, originada nos anos 20 nas conjunturas sócio-culturais do período entre guerras que, em seu conjunto, estimularam o surgimento de diversas formas de consciência nacionalista no país. Com este contexto, centra a análise nas preocupações particulares inerentes às influências das relações de gênero e de poder no interior da AIB, analisando as problematizações da pesquisa como a estrutura, o discurso, os símbolos, as subjetividades e as representações que fazem parte do cenário das militantes integralistas.

(8)

ABSTRACT

The objective of this study is to analyze women’s social experience who answered the appeal from Brazilian Integralism Action – AIB – (1932-1938), a fascist movement established for Plínio Salgado in 1932. This study seeks to analyze the women participation, known as “green blouses”, who assumed a lot of functions at the hierarchy inside the Feminine Department, working on the organization of the “first masses party in this country”. So, we focus on informal papers as an important piece for men and women’s experience reconstruction, making possible, a new construction of their history, pointing out these practical inside the brazilian society transition in 1930 to 1940. That way, we realized an approach among a lot of disciplines to know how the global effects nettle by Cultural, Technique and Scientific Revolution, started in 1920 with social-cultural events from that war time which, in its ensemble, stimulated the originated of diverse forms of nationalistic conscience in the country. In this context, we center the analysis in the particular concerns which influenced the AIB’s gender and power relation, discussing some points in this study as structure, speech, symbols, subjective and representations that are part of the women militant scene

KEYWORDS: INTEGRALISM; GENDER; FEMININE MILITANCY;

(9)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Comício no Catumbi, Bairro operário do Rio de Janeiro ... 30

Figura 2: Votação no Núcleo da Gamboa, Rio de Janeiro ... 31

Figura 3: Militantes do Núcleo Integralista de Marília/SP ... 32

Figura 4: O Sigma no Cotidiano ... 50

Figura 5: Broches utilizados pela militância da AIB ... 50

Figura 6: Representação da parte da frente das caixas de fósforo ... 51

Figura 7: Representação da parte de trás das caixas de fósforo ... 52

Figura 8: Propaganda do Creme Dental Sigma ... 85

Figura 9: Propagandas de marcas relacionadas à AIB ... 85

Figura 10: Sigma ... 96

Figura 11: Estruturação da Camisa e do Distintivo Integralista ... 97

Figura 12: Bandeira Integralista ... 97

Figura 13: Braçadeira Integralista ... 98

Figura 14: Uniforme “Camisa-Verde” ... 99

Figura 15 – Folder 2º Congresso Nacional Integralista ... 102

Figura 16: Dirigentes e militantes da AIB ... 109

Figura 17: Plinianos de Uberlândia, MG ... 111

Figura 18: Militantes e Plinianos ... 112

Figura 19: Votação do Núcleo do Engenho Novo ... 113

Figura 20: O Sigma na vida privada da militância integralista ... 114

Figura 21: Distribuição de alimentos ... 115

Figura 22: Casamento de Adolfo Kist, Resende, RJ ... 116

Figura 23: Casamento de José Loureiro Júnior e Maria Amélia Salgado ... 117

Figura 24: Enterro de militante ... 118

Figura 25: Integralistas do Núcleo da Gamboa ... 125

Figura 26: Votação do Núcleo de Ingá, Niterói, RJ ... 126

Figura 27: “Como foi educada a mãe como é educada a filha (1921)” ... 127

Figura 28: Apelo integralista às massas brasileiras ... 135

Figura 29: Congresso Provincial Feminino, dezembro de 1935 ... 136

Figura 30: Ficha de Cadastro de Homens e Mulheres nas Fileiras de Militância da AIB ... 138

Figura 31: Carteira de identidade dos militantes da AIB – parte interna. ... 139

Figura 32: Carteira de identidade dos militantes da AIB – parte externa. ... 140

Figura 33: Secretaria Provincial de Arregimentação Feminina e Pliniana em visita ao Lactário “Ana Francisca” no dia de sua inauguração – Núcleo de Botucatu/SP ... 146

Figura 34: Auxiliares do Lactário “Ana Francisca” – Núcleo de Botucatu/SP. ... 146

Figura 35: Grupo de crianças socorridas pelo Lactário “Ana Francisca” – Núcleo de Botucatu/SP ... 147

Figura 36: Mulheres em Cena. Desfile na Capital Federal, 1935 ... 148

(10)

SUMÁRIO

Introdução... 10

Capítulo 1 A presença feminina na Ação Integralista Brasileira – Recuperando a trajetória ... 27

1.1 – O retorno ao passado ... 35

1.2 – O resgate da participação feminina na AIB ... 37

1.3 – Entrecruzando caminhos no retorno ao passado ... 54

Capítulo 2 A AIB nos anos 30: contexto histórico, estrutura e organização ... 57

2.1 – Conjunturas da sociedade brasileira dos anos 30 ... 58

2.2 – A Ação Integralista Brasileira ... 68

Capítulo 3 O discurso, os símbolos e as representações integralistas ... 79

3.1 – O discurso integralista ... 81

3.2 – A simbologia e o conjunto de cerimônias integralistas ... 94

3.3 – As representações e imagens construídas pela AIB ... 103

Capítulo 4 Práticas e experiências sociais das mulheres nas fileiras de militância da AIB ... 119

4.1 – Lugar das mulheres nos anos 30 ... 124

4.2 – A militância feminina na AIB ... 133

4.3 – Representações da participação feminina na AIB ... 152

Considerações Finais ... 163

(11)
(12)

As inquietações acadêmicas, aguçadas pelas problemáticas envolvendo a

situação econômica, política, cultural e social das mulheres ao longo do século XX e início do

XXI1, levou-nos a investir na análise das experiências sociais das mulheres que atenderam ao apelo da Ação Integralista Brasileira – AIB (1932-1938), movimento de inspiração fascista

fundado por Plínio Salgado em 1932. Essas mulheres, que se tornaram militantes integralistas, conhecidas como “blusas verdes”, assumiram funções diversas na hierarquia do Departamento

Feminino, organizado pelo “primeiro partido de massas do país” (CAVALARI, 1999).

Nossa investigação situa-se no contexto do processo de

modernização/modernidade da sociedade brasileira dos anos 30-40, em que observamos a

complexa inserção de novos segmentos sociais, principalmente urbanos, a exemplo dos

movimentos reivindicatórios de natureza política e social dentre os quais destacamos as

revoluções tenentistas, desde os anos 202, e o movimento sufragista feminino brasileiro3. Segundo Nicolau Sevcenko (1998), esses movimentos com objetivos reivindicatórios

ocorreram de maneira simultânea ao processo de modernização acelerado pela Revolução

1 Apesar da lei de cotas que estabelece participação mínima de 30% para as mulheres nos partidos políticos, o

que na realidade não ocorre, nas eleições de 2002 somente 11,3% dos vencedores eram mulheres; no eleitorado elas eram 51,3%. Esses dados transparecem uma grande distorção entre o poder do voto e o direito de se fazer representar. Fonte: (www.ste.gov.br).

As mulheres aumentaram sua participação no mercado de trabalho, acumularam mais anos de estudos e ainda assim recebem uma remuneração média cerca de 30% menor do que os homens. Fonte: (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u93713.shtml - 18/11/2006).

Uma pesquisa realizada em 2001 pela Fundação Perseu Abramo estima a ocorrência de mais de dois milhões de casos de violência doméstica e familiar por ano.

Fonte: (http://www.contee.org.br/secretarias/etnia/materia_23.htm - 27/11/2006). Visando coibir estas práticas de violência foi sancionada, em agosto de 2006, a Lei Maria da Penha que altera o código penal permitindo que se decrete a prisão preventiva do agressor e acaba com as penas de cestas básicas ou multas, prevendo pena de privação de liberdade por três anos. A Lei 11.340 prevê medidas de proteção como, entre outras, a saída do agressor de casa.

2 “O tenentismo aparece na década de 20 como núcleo organizatório das classes médias. O tenentismo desta fase

pode ser definido em linhas gerais, como um movimento político e ideologicamente difuso, de características predominantemente militares, onde as tendências reformistas autoritárias aparecem em embrião” (FAUSTO, 1978, p.57). Os tenentes “são também vistos como os responsáveis pela orientação ideológica do movimento e postos de comando no regime pós 30” (AGGIO Et Al, 2002, p.17).

3 “Em fins da segunda década do século XX, tornou-se aceitável no Brasil um movimento moderado em favor

(13)

Cultural, Técnica e Científica originada nos anos 20 e que provocou a alteração de hábitos e

de valores de uma sociedade que se encontrava nos trilhos da urbanização.

As novas conjunturas, vivenciadas no processo de modernização/modernidade

dos anos 20 e 30, aceleraram a maior visibilidade e participação das mulheres no espaço

público, até então exclusivamente masculino, pelo menos para os segmentos sociais das

classes médias e da elite4.

Diante do complexo cenário de dinâmicas transformações, as cidades brasileiras,

principalmente as capitais, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro, passavam a assumir ares

cosmopolitas impulsionados pela forte idéia de progresso que se encontrava em destaque nos

meios de comunicação existentes, especificamente nas manchetes e classificados dos jornais,

que divulgavam a importante presença dos novos aparelhos como o rádio e a vitrola.

De acordo com Possas (2001, p.30),

no campo cultural, vivenciavam-se importantes mudanças de hábitos e valores, pelas alterações das condições materiais de reprodução do cotidiano. A vida urbana podia ser captada com suas multiplicidades de duração convivendo entre si, fornecendo novos ritmos e temporalidade diferentes. A presença da multidão e, ao mesmo tempo, do individualismo faz-se reconhecer e aparecer pela moda, maneira de se vestir, pentear os cabelos, falar publicamente, tudo estimulado cada vez mais pela força do cinema que se popularizava e pelo acesso a uma infinidade de revistas e jornais.

Entende-se, então, que a AIB surge no Brasil em meio a um contexto

internacional conturbado5, tendo de enfrentar desafios postos por impactos gerados pelas

4 As mulheres das classes mais pobres eram obrigadas, por questões de sobrevivência, a agirem no espaço

público, trabalhando e lutando por sua sobrevivência (POSSAS, 2001).

5 Sobretudo, pelas conjunturas da crise de 1929. Os reflexos da primeira grande crise do capitalismo foram

(14)

conjunturas de um período entre guerras (1918-1939), diversas formas de consciência

nacionalista e crise da concepção materialista liberal. Esses fatores ampliaram a divulgação do

pensamento autoritário e de regimes repressivos que multiplicavam a instalação dos Estados

Intervencionistas, acelerando as reivindicações sociais de toda ordem, sem deixar de expor as

lutas das feministas sufragistas6 e de militantes nas agremiações político-partidárias.

Levando em consideração as contribuições de Sevcenko (1998, p.7), no Brasil,

“nunca, em nenhum período anterior, tantas pessoas foram envolvidas de modo tão completo

e tão rápido num processo dramático de transformação de seus hábitos cotidianos, suas

convicções, seus modos de percepção e até seus reflexos instintivos”. O que se manifestava

como mais perturbador, entretanto, era o ritmo de tempo com que essas transformações

invadiam o dia a dia das pessoas.

Na dinâmica dessa nova ordem, ampliou-se a construção da esfera pública,

reforçada pela crescente expansão da imprensa, das oportunidades de convívio cultural, do

rádio e do cinema, o que acaba por expor as contradições da sociedade e dos sujeitos, homens

e mulheres, que dela faziam parte. Este dinâmico processo histórico de mudanças e

permanências recoloca, para nós, o pensar sobre novas questões como a dicotomia entre

privado/público, o binômio dominação/subordinação, aguçando o levantamento de

problematizações sobre o papel público desempenhado pelas “blusas verdes” no interior da

AIB, que oportuniza o estudo das relações de gênero7.

6 Como nos indica Joana Pedro (2005, p.79), o feminismo, enquanto movimento social, vivenciou algumas

“ondas”. No caso dos movimentos sufragistas, podemos inseri-los naquela que a autora denomina de “primeira onda”, a qual “teria se desenvolvido no final do século XIX e centrado na reivindicação dos direitos políticos – como o de votar e ser votada –, nos direitos sociais e econômicos – como o de trabalho remunerado, estudo, propriedade, herança”.

7 Apesar da multiplicidade dos enfoques disciplinares, “[...] ‘gênero’ pode ser entendido, contudo, como o nome

(15)

Observamos as fotografias dos comícios e marchas integralistas que revelaram a

presença constante de uma militância feminina na esfera pública8, ocupando o espaço urbano devidamente trajadas em seus uniformes e identificadas pelo Sigma9 no lado direito do braço. Assim, essas militantes passaram a fazer parte da cênica organizada pelo movimento

Integralista10, levando-nos a pensar as modificações cotidianas consolidadas nas relações entre privado/público, já que adquiriram certa visibilidade e significado ao se deslocarem da

esfera privada e ocuparem concretamente o espaço público.

O acervo documental existente no Arquivo de Rio Claro/SP11, principalmente os jornais e as revistas integralistas, a correspondência pessoal de Plínio Salgado12 e o material da Secretaria Nacional de Arregimentação Feminina, possibilitou-nos ampliar as perspectivas

sobre o estudo das integralistas e as relações de gênero, “percebendo as mediações sociais e

processos de mudança e de permanência das práticas sociais, como provocar reflexões sobre o

impacto da modernidade em uma agremiação político-partidária de caráter autoritário e

conservador” (POSSAS, 2004a, p.107).

ali onde se desenvolve o simbólico, ou seja, nas definições ou imagens do feminino (e do masculino). Trata-se de estudar as significações do feminino [...]” (BENOIT, 2000, p.79).

8

Ver Sombra e Guerra (1998).

9 O símbolo por excelência da AIB era o Sigma, que se materializava na bandeira e no distintivo do movimento.

O Sigma, letra grega que indica soma, corresponde, no nosso alfabeto, à letra ‘S’. “Esse símbolo tinha como objetivo lembrar que o movimento tinha o sentido de integrar todas as forças sociais do país na suprema expressão da nacionalidade” (CAVALARI, 1999, p. 191).

10

Que através dos seus “Protocolos e Rituais” visava “codificar os dispositivos gerais e mais importantes de seus Regulamentos e estabelecer normas, formulas e usos que regulem os atos públicos e os cerimoniais integralistas, bem como fixar honras, regalias e direitos e deveres relativos a todas as autoridades do Sigma” (PROTOCOLOS), constituindo-se em um instrumento disciplinador do cotidiano e da militância seja masculina ou feminina que controlava casamentos, Batizados, falecimentos, honras fúnebres, gestos, distintivos e a Camisa Verde.

11 No Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro, Rio Claro SP, tivemos acesso ao Acervo de Plínio

Salgado, onde analisamos documentos da imprensa integralista, os Jornais Monitor Integralista (1933-1937) e A Offensiva (1933-1937);e a revista Anauê (1934-1936); estatutos, protocolos, documentos oficiais e pessoais de ex-militantes integralistas (fotografias, cartas e outros objetos), bem como algumas obras de Plínio Salgado, que evidenciaram indícios da condição feminina e sua inserção dentro do Movimento Integralista.

12 A Correspondência recebida por Plínio Salgado foi objeto de um pontual estudo realizado pela Profª. Lídia

(16)

Deste modo, instigados pelos indícios, propomo-nos a analisar as relações

criadas entre homens e mulheres enquanto ativistas integralistas no complexo sistema de

organização da AIB, compreendendo as mudanças e as permanências dos papéis sociais

normativos e valores determinados pela sociedade brasileira dos anos 30. Com isso,

pretendemos (re)construir a história de seres concretos, no caso específico a das mulheres, e a

trama de suas experiências inseridas em um conjunto emaranhado de múltiplas funções que,

repleto de conflitos, acabaram por construir um modus vivendi de uma época(DIAS, 1992).

No movimento do Sigma, pelos dados oficiais levantados, as mulheres tiveram

uma expressiva e numérica participação, sendo que mais de 100.000 senhoras e moças

atuaram como visitadoras de bairros humildes, professoras e enfermeiras, em uma obra social

portentosa do movimento, entregando-se ao estudo dos problemas nacionais e passando a ter

maior interesse na vida política13 (SALGADO, 1937).

Diante dessas constatações, formulamos algumas questões que direcionaram o

nosso trabalho. Por que as mulheres aderiram ao discurso arregimentador da AIB? De que

forma e quais atividades desempenharam enquanto militantes? Frente à inserção das mulheres

na AIB, como foram (re)elaboradas as relações de gênero?

Somente atentos à desconstrução dos discursos e à análise das imagens e

representações torna-se possível viabilizar possibilidades de ver e explicar o real em sua

multiplicidade. Nessa perspectiva, podemos encontrar autores como Derridá (1973) e

Foucault (1999) que nos ajudam a (re)trabalhar as narrativas revendo as relações de poder

contidas nos discursos e a presença da ação dos micro poderes. Os historiadores da cultura,

como Roger Chartier (1990), Zemon Davies (1990) e a pontual coletânea organizada porHunt

13 Na correspondência feminina constante do acervo privado de Plínio Salgado, no Arquivo Municipal de Rio

(17)

(1992) vieram reforçar e apontar perspectivas para as categorias de análise como as

representações e as práticas culturais.

O presente trabalho retomou a historiografia sobre a AIB, pelo menos aquela que

foi referência para os estudos do tema, quase toda produzida nos anos 7014. Neste momento, o foco das investigações científicas centrava-se nas análises estruturais, privilegiando as metas

narrativas, o poder dos discursos e do pensamento integralista na arregimentação de massas

sociais às fileiras do partido e na sua semelhança ou não com os demais partidos fascistas

europeus. No período anterior à década de 1970, não foram encontradas pesquisas sobre o

Movimento Integralista, que permaneceu silenciado devido à presença de explicações

estereotipadas de sua semelhança aos regimes autoritários de direita europeus. Somente no

final da década de 90, o tema Integralismo despertou novos interesses na academia brasileira,

motivando vários pesquisadores com novos enfoques e abordagens15; fato que se confirma ao observarmos a presença crescente de trabalhos e vários temas de pesquisa envolvendo a AIB

existentes atualmente no Brasil16, os quais vêm sendo estimulados pela ativa atuação do GEINT – Grupo de Estudos sobre o Integralismo17.

14

TRINDADE (1979); VASCONCELOS (1979); CHASIN (1978); CHAUÍ (1978); CAVALARI (1999) e ARAÚJO (1988). Cabe ainda ressaltar que grande parte dos estudos sobre o Integralismo foram construídos a partir de pressupostos marxistas das relações de classes, da ideologia e do Estado, que não tinham preocupação com as questões colocadas pela história cultural.

15 Dentre eles podemos elencar, CALDEIRA (1999); CAVALARI (1999). 16

Fato que observamos durante nossa participação no I – Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado em outubro de 2002, na cidade de Rio Claro – SP, e no II – Encontro Nacional de Pesquisadores do Integralismo, promovido pelo Centro de Estudos sobre a AIB e o PRP, Programa de Pós-Graduação em História PUC/RS e Grupo de Estudos Sobre o Integralismo, realizado em novembro de 2003, na cidade de Porto Alegre – RS. Eventos nos quais estiveram presentes pesquisadores de várias cidades e Estados do país apresentando suas pesquisas.

17 O GEINT consiste em um grupo de discussões na internet, tendo por objetivo estabelecer debates sobre

(18)

O interesse em escrever sobre a AIB no final dos anos 70 provém das

conjunturas políticas vivenciadas naquele período, palco de significativas transformações no

cenário político nacional. Permeados pela Ditadura Militar, nos últimos anos da década

eclodiram descontentamentos e reivindicações pelo fim do regime militar em nosso país,

intensificando o movimento da sociedade civil em favor da recuperação dos direitos

democráticos. Nos anos de 1978 e 1979 foram intensificados os movimentos em prol da

anistia, culminando com o fim do AI-5, o qual suspendia os direitos individuais do cidadão.

Em 1979, com a aprovação da lei, centenas de exilados começaram a retornar ao país, que

estava restabelecendo a pluralidade partidária.

Assim, o período em que são escritas as primeiras obras historiográficas sobre a

AIB era compreendido, no Brasil, como um momento de problematizações acerca do

autoritarismo e do totalitarismo. Havia esperança de que o regime militar chegasse ao fim e se

restabelecesse o regime democrático. Ou seja, era o momento de se discutir e refletir sobre a

história do autoritarismo e do totalitarismo em nosso país, vislumbrando coibir qualquer

forma de sua rearticulação.

Mesmo assim, a produção historiográfica brasileira sobre a AIB, enquanto um

movimento político de “direita”, é restrita se comparada à dos partidos de “esquerda”. Sobre a

inserção e participação das mulheres enquanto militantes integralistas, então, é quase rara18.

18 O que significa uma lacuna no processo de construção de conhecimento, já que estudos que enfocam as

(19)

No entanto, publicados no exterior, conhecemos o trabalho de Emma Grant19, Feminism in Fascism: A study of Brazil’s Integralist movement, (Estados Unidos, 1996), abordando

especificamente esta problemática, bem como os trabalhos de Sandra McGee Deutsch20, What Difference Does Gender Make? The Extreme Right in the ABC Countries in the Era of

Fascism; Spreading Right-Wing Patriotism, Femininity, and Morality –Women in Argentina,

Brazil, and Chile, 1900-1940, que dedicam algumas considerações sobre a militância

feminina na AIB em comparação com os partidos de extrema direita na Argentina e no Chile

no mesmo período; e Spartan Mothers: Fascist Women in Brazil in the 1930s; e Christians,

Homemakers, and Trangressors – Extreme Right – Wing Women in Twentieth-Century

Brazil21, que procura analisar as experiências das mulheres ativistas integralistas.

Enquanto objeto profícuo para pesquisa, no Brasil, os trabalhos encontrados que

abordam especificamente as “blusas verdes” são: Vozes femininas na correspondência de

Plínio Salgado (1932-1938) de Lídia Maria Vianna Possas (2004a); O Integralismo e a

Mulher; João Ricardo de Castro Caldeira sobre a ação feminina no Maranhão (2004)22; bem

como o da Rosa Maria Feiteiro Cavalari (1999), em que as vivências femininas na AIB

permeiam um dos capítulos da obra.

Possas (2004a; 2004b), respectivamente, centrou sua análise na compreensão das

relações estabelecidas entre as mulheres e o Integralismo, bem como em captar a

subjetividade das militantes integralistas expressa nas cartas por elas endereçadas a Plínio

19 Professora do Connecticut College, New London.

20 Sandra McGee Deutsch é professora de História na Universidade do Texas – El Paso. Dedicou boa parte dos

seus estudos para compreender a participação das mulheres em movimentos políticos de direita na América Latina.

21 No qual, ao discorrer sobre os trabalhos brasileiros que abordam a participação feminina na AIB, gentilmente

faz referência ao nosso trabalho, enquanto uma busca de compreender a presença das ativistas no Integralismo.

22 Frente as estes trabalhos cabe ressaltar a atualidade dos mesmos, publicados em 2004. Isto corrobora nossa

(20)

Salgado; Caldeira (2004) vislumbrou interpretar a participação das mulheres na AIB do

Maranhão, atentando para as condições regionais dessa arregimentação feminina; Cavalari

(1999), preocupada em elucidar alguns dos mecanismos por meio dos quais a AIB logrou se

organizar, identificando e descrevendo um conjunto de estratégias de organização, de

divulgação da doutrina e de unificação e homogeneização do Movimento, discorre

brevemente sobre as ações e papéis desempenhados pelas mulheres no interior do

Integralismo.

A originalidade do presente trabalho frente aos demais, encontra-se centrada nos

objetivos propostos e nas fontes analisadas. Nossa investigação encontra-se reforçada na

crítica ao historicismo clássico23, sendo pautada em uma escola historiográfica que cultiva a compreensão da experiência humana em sua concretude, desvencilhando-se de categorias

abstratas, universais e de conceitos e princípios teóricos preestabelecidos. Atemo-nos a

conhecimentos específicos, reforçando o interesse pelos testemunhos e experiências concretas

de pessoas situadas noutras épocas, em passado e temporalidades não lineares.

Esse intento afasta certo racionalismo abstrato que dominou o mundo das

ciências humanas nas décadas passadas e que impôs uma rigidez temporal progressiva não

dando voz aos múltiplos sujeitos na construção do devir histórico. Sendo assim, ficamos mais

atentos não às leis universalistas, mas sim às “singularidades” das quais nos chama a atenção

Holanda (1973)24.

23Assim, reforçamos nossa investigação na vertente historicista “moderna”, enquanto uma possibilidade de

historicizar as conjunturas e o fenômeno – Integralismo – para compreender o seu significado para as “blusas-verdes” no contexto dos anos 30.

24 Em 1936 Holanda nos chama a atenção para as singularidades dos processos históricos, entrevendo “a

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A observação da atuação das “blusas verdes” e da história da AIB torna-se

importante pela condição inédita da pesquisa, evidenciando como aquela ideologia de forte

apelo aos “princípios espirituais, como a igualdade, a justiça e a piedade” (ARAÚJO, 1988,

p.62), incluindo a compaixão – a “capacidade de sofrer intensamente com os outros”

(ARENDT, 1971, p.80) –, constituiu-se em uma alternativa para segmentos urbanos,

principalmente para as mulheres que atenderam ao apelo da AIB, transpondo-se do ambiente

privado ao espaço público em uma conjuntura de transição, mobilizadas pela idéia de

ascensão social e de acesso aos direitos civis e políticos.

Neste sentido, nosso intuito é tecer uma investigação por meio de um outro olhar

que busque evidenciar a necessidade de romper com as análises estruturais e massificadoras

presentes na historiografia produzida sobre a AIB na década de 1970, vislumbrando, assim,

aprofundar a leitura de uma História que privilegie a atuação dos diferentes sujeitos – homens

e mulheres – escapando à percepção que homogeneíza o diverso no tempo e no espaço.

Para tanto, procuramos rever a forma de inserção feminina nos anos 30 não

como atitudes de submissão diante dos mecanismos persuasivos utilizados pela AIB para

arregimentar as massas populares urbanas às suas fileiras, mas como mulheres, de segmentos

sociais diversos, que pretenderam romper com a sua condição restrita à esfera privada,

projetando-se no espaço público por brechas abertas pelo abalo dos sistemas políticos. As

fissuras, existentes nas idéias e nas práticas integralistas, forneceram subsídios para que se

pudesse emergir uma reivindicação latente e uma ocasião para as militantes se manifestarem.

Essas especificidades podem ser captadas e expressas na idéia de um “feminismo informal”25.

25 A idéia de “feminismo informal” é construída a partir da constatação de Perrot de que algumas resistências e

(22)

As distintas experiências vivenciadas pelas militantes, captadas por

representações e imagens, longe de serem homogêneas, foram apropriadas, interpretadas e

resignificadas a partir dos discursos produzidos pela AIB em função de interesses e

perspectivas próprias (CHARTIER, 1990). Essas opções e comportamentos foram observados

no estudo recente da correspondência de militantes e simpatizantes da AIB26.

A analise das complexas relações criadas entre a AIB e suas militantes,

permitiu-nos compreender e evidenciar as especificidades do processo histórico das lutas feministas e

políticas no Brasil a partir dos anos 30, ampliando o conhecimento histórico-social sobre o

Integralismo e os sujeitos sociais que, frente às possibilidades abertas pelo Movimento,

passaram a exercer outras práticas e relações sociais na sociedade brasileira dos anos 30.

Trata-se de uma análise na perspectiva de:

recusar a idéia de que as mulheres seriam em si mesmas um objeto de história. É o seu lugar, a sua ‘condição’, os seus papéis e os seus poderes, as suas forças de ação, o seu silêncio e a sua palavra que pretendemos perscrutar, a diversidade das suas representações [...] que queremos captar nas suas permanências e nas suas mudanças. História decididamente relacional que interroga toda a sociedade e que é, na mesma medida, história dos homens (DUBY; PERROT, 1991, p.7).

Com isso, apontamos para o desafio de tomar as mulheres como objeto do

conhecimento, pois, devido ainda às imprecisões e fragilidades teóricas, “leva a incertezas

inerentes ao próprio processo do conhecimento” (POSSAS, 2001, p.31).

A investigação que engendramos se preocupou em pontuar a posição relacional

estabelecida entre homens e mulheres na AIB, buscando analisar as “relações de gênero”

como uma construção histórica.

(23)

Tomamos gênero “como uma categoria de análise histórica de natureza

relacional, a fim de entender a construção dos perfis e dos comportamentos feminino e

masculino, um em função do outro e constituídos social, cultural e historicamente num tempo,

espaço e cultura determinados”. O trabalho com tal categoria nos permitiu desvendar a

complexidade das relações políticas e de poder, inserindo nelas a figura da mulher militante

integralista, que também teve participação nas mediações e negociações entre a AIB e a

sociedade brasileira dos anos 30. (POSSAS, 2004b, p.265).

Joana Maria Pedro (2005, p.78), ao refletir sobre a categoria gênero faz o

seguinte questionamento: “Afinal, do que estamos falando quando dizemos ‘relações de

gênero’?”. Após a questão, a autora responde: “Estamos nos referindo a uma categoria de

análise, da mesma forma como quando falamos de classe, raça/etnia, geração”27.

Segundo ela, “era justamente pelo fato de que as palavras na maioria das línguas

têm gênero mas não tem sexo, que os movimentos feministas e de mulheres, nos anos oitenta,

passaram a usar esta palavra ‘gênero’ no lugar de sexo”. O conceito gênero foi elaborado

buscando “reforçar a idéia de que as diferenças que se constatavam nos comportamentos de

homens e mulheres não eram dependentes do ‘sexo’ como questão biológica, mas sim eram

definidos pelo ‘gênero’ e, portanto, ligadas à cultura”. O uso da palavra ‘gênero’ “tem uma

trajetória que acompanha a luta por direitos civis, direitos humanos, enfim, igualdade e

respeito” (PEDRO, 2005, p.78).

27 Em seu artigo Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica, Joana Pedro (2005)

(24)

Trabalhar com a categoria gênero significa combater o determinismo biológico,

focalizando a relação entre homens e mulheres, compreendendo as significações culturais

implícitas nas relações de poder estabelecidas entre o “feminino” e o “masculino”.

Para Possas (2004b, p.265), “o uso do termo ‘gênero’ está em completa oposição

aos referenciais biológicos-sexuais que o definiram até meados dos anos 1960”. Assim,

“investigando os diversos domínios da cultura, da sociedade e da história, a expressão

‘relações de gênero’ ganhou terreno no campo da pesquisa e dos debates acadêmicos, que

acabaram por superar o caráter reducionista biológico a que estava condicionada [...], que

impedia perceber a concretude e as especificidades dos sujeitos”.

Assim, segundo a autora, “os papéis normativos, os comportamentos atribuídos a

homens e mulheres e a relação entre os sexos não são discursos neutros, mas representações

construídas repletas de significados e de relações de poder” (POSSAS, 2004b, p.265).

Ao analisarmos as práticas que ensejam a divisão sexual do trabalho, dos

espaços e das formas de sociabilidade, bem como os diferentes meios de comunicação e

divulgação que constituem as diferenças reforçando e instituindo os gêneros, estamos

contribuindo para uma existência menos excludente. (PEDRO, 2005).

Procurar respostas para algumas situações que se colocam no presente em nossa

sociedade nos leva a buscar nossas raízes culturais e as dificuldades de sua superação.

Partindo de sujeitos concretos, no caso as mulheres, em uma luta lenta e surda pela cidadania

e inserção no cenário político nacional, com ampla resistência em uma sociedade ainda

(25)

Assim, procuramos escrever uma “outra história”, atenta às questões apontadas e

que nos permitiu captar os indícios de uma prática autônoma das mulheres e de subjetividades

expressas em representações diluídas, mas que evidenciaram sua ação concreta.

A partir da análise do material analisado, observamos a inserção das militantes

integralistas e buscamos novos significados que permitissem compreender as persistências e

as alterações de comportamentos, atitudes e valores da ordem social vigente na época e dos

sujeitos que sempre estiveram à margem da sociedade e da história.

O trabalho, que fora baseado em várias fontes documentais, possibilitou-nos um

contraponto entre os dados obtidos pela investigação desses documentos com a bibliografia

analisada. O uso de fontes documentais distintas nos forneceu caminhos que exigiram

flexibilidade, pois o trabalho com uma única fonte inviabilizaria o cumprimento dos objetivos

almejados. Concordamos com Peter Burke (2000, p.211) ao afirmar: “não acredito que haja

um método histórico quanto a um procedimento a seguir em todos os casos [...] nós somente

descobrimos nosso método ao longo da pesquisa, em vez de começarmos com ele do início”.

A presente dissertação é composta por quatro capítulos. No primeiro capítulo, A

presença feminina na Ação Integralista Brasileira – Recuperando a trajetória, frente ao

contexto histórico, político e social do nosso objeto de pesquisa, fomos levados a trabalhar

com outras temporalidades, vislumbrando perceber indícios do processo de participação das

“blusas verdes” inseridas em uma agremiação partidária nos anos 30. O resgate da presença

feminina na AIB é apresentado por meio de um entrecruzamento de caminhos passíveis de

serem trilhados em busca dessa participação. Desta forma, apresentamos os principais

(26)

as discussões realizadas por Lowenthal (1998), e Le Goff (1994) fundamentais para a

elaboração deste capítulo.

No segundo capítulo, A AIB nos anos 30: contexto histórico, estrutura e

organização, buscamos evidenciar os antecedentes e as conjunturas da sociedade brasileira da

década de 30, fazendo, também, uma discussão das estruturas e aspectos organizacionais da

AIB. Apresentamos uma síntese do contexto histórico no qual surgiu o Movimento

Integralista, as etapas da sua criação e as concepções das principais obras historiográficas

acerca do Integralismo, sendo as contribuições teórico-metodológicas de Sevcenko (1998),

Cavalari (1999), Trindade (1979), Vasconcelos (1979), Chauí (1978) e Chasin (1978), bem

como os Estatutos da AIB, essenciais para a sua formulação.

No capítulo seguinte, O discurso, os símbolos e as representações integralistas,

analisamos as características do movimento, suas estratégias de arregimentação e unificação

de militantes e os meios que utilizou para difundir, divulgar e perpetuar no imaginário das

massas seu discurso e ideais. Assim, as representações, os símbolos e os ritos integralistas,

enfim a máquina de propaganda empreendida pela AIB, são analisados, contando com a

contribuição da obra de Cavalari (1999), que contribuiu de maneira essencial para que

pudéssemos compreender a amplitude da simbologia integralista.

Finalmente, no quarto e último capítulo, Práticas e experiências sociais das

mulheres nas fileiras de militância da AIB, procuramos analisar o lugar das mulheres

inseridas na sociedade brasileira dos anos 30, ressaltando as experiências das militantes

integralistas nas fileiras da AIB e resgatando, ainda, as representações e as subjetividades

(27)

Ao longo do nosso trabalho, preocupados em compreender as idéias, valores,

crenças, símbolos, ritos, mitos, ideologia e o vocabulário presentes na doutrina integralista,

percebemos as mulheres em uma longa trajetória de luta pelos seus direitos, colocando-se

frente a uma sociedade patriarcal ainda crivada de posturas machistas e excludentes. Desta

(28)
(29)

Entre 1932 e 1938, homens, mulheres e crianças de todo o país vivenciaram,

sucessivamente, a prática da militância integralista. A doutrina da Ação Integralista Brasileira,

considerada por alguns estudiosos28 como o primeiro partido de massas do país, adentrava as práticas cotidianas de famílias inteiras de norte a sul do Brasil. No contexto dos anos de 1930,

ser militante integralista significava, além de participar das reuniões, atos públicos e marchas,

uniformizar-se, assimilar os símbolos, os ritos e as práticas da AIB. Enquanto os homens

vestiam a “camisa-verde”, à mulher era reservada a “blusa-verde”.

Para Carneiro (2006, p.01), “viver plenamente o integralismo era assumir uma

identidade de pertencimento delineada a partir do Manifesto de Outubro de 1932, o marco

doutrinário fundador”. No Manifesto de 1932 estava delineada a forma de participação dos

militantes no movimento segundo os preceitos da doutrina Integralista que visava à

constituição de um Estado Integral.

Já na abertura do Manifesto, Plínio Salgado ao falar do Universo e do Homem e

ao apontar que “Deus dirige os destinos dos Povos”, apresentava a diretriz a ser seguida pelos

integrantes da AIB: a integração do propósito de construção do Estado Integral com base em

preceitos espiritualistas, tal que, os indivíduos participantes deste Estado, deveriam ser

educados na moral cristã, tendo a família como seu sustentáculo mais sólido. Nela, na sua

solidez e no seu controle da moral cristã, sobretudo a católica, estaria a base de toda a

sociedade.

Observa-se já neste momento a presença de fortes indícios da participação

feminina na AIB. Sendo a base do Estado Integral proposto pelo movimento a célula familiar,

a mulher assumiria uma função primordial na hierarquização desta nova proposta de

sociedade, uma vez que a base da família era a mulher no exercício dos seus papéis de mãe,

(30)

esposa e dona de casa. Com essas perspectivas presentes na fundação e formação dos

conceitos iniciais do Integralismo, as funções do lar eram especificamente destinadas às

mulheres que deveriam educar física e moralmente seus filhos.

Na concepção integralista do Universo e do Homem, era evidente que “o homem

deveria praticar sobre a Terra as virtudes que o elevam e o aperfeiçoam”. Na busca desse

aperfeiçoamento deveriam seguir fielmente as normas da AIB. O homem deveria valer “pelo

trabalho, pelo sacrifício em favor da Família, da Pátria e da Sociedade”. (SALGADO, 1932,

p.1)

E a mulher como tinha seu valor determinado? Ao longo de sua trajetória na

AIB, a valoração das mulheres era atribuída segundo suas funções domésticas, base da

família. No entanto, no Brasil, a conquista pelo direito ao voto, realizada em 1932, estava na

agenda política das sufragistas desde os anos 20. O Integralismo não ficou à margem dessa

reivindicação e inseriu-a em seu discurso doutrinário em que havia a concepção integralista de

mulher que assimilava, inclusive, sua inserção no mercado de trabalho e na vida política.

Para Plínio Salgado (1932, p.1), o Homem valia “pelo estudo, pela inteligência,

pela honestidade, pelo progresso nas ciências, nas artes, na capacidade técnica, tendo por fim

o bem-estar da Nação e o elevamento moral das pessoas”. Tomando essa perspectiva de uma

humanidade que pode e deve superar-se, a AIB por meio de uma militância feminina

“destinada a cumprir papéis normativos - professoras - promove uma campanha em prol da

alfabetização da sociedade brasileira associada à formação do cidadão e das mentes das

massas”.

A propagação desses ideais e do nacionalismo atraiu às fileiras da AIB uma

(31)

cosmopolitismo avassalador que caracterizava as principais cidades do país, “isto é, a

influência estrangeira, é um mal de morte para o nosso nacionalismo”. Portanto, combatê-lo

era o dever de todo integralista. E “isso não quer dizer má vontade com as Nações amigas,

para com os filhos de outros países, que aqui também trabalham objetivando o

engrandecimento da Nação Brasileira e cujos descendentes estão integrados em nossa própria

vida de povo” (SALGADO, 1932, p.2-3). Discursos como esses, divulgados por jornais e

rádio, ajudam-nos a explicar a participação de descendentes de imigrantes africanos e

asiáticos nas fileiras de militância da AIB, como podemos evidenciar nas Figuras 1, 2 e 3.

Figura 1: Comício no Catumbi, bairro operário do Rio de Janeiro, 1937. (SOMBRA; GUERRA, 1998).

Na figura 01 observamos o retrato de um comício, no qual está em destaque uma

“blusa verde” negra, fazendo uso da palavra no espaço público. Trata-se de uma fotografia

(32)

fotografados, os ouvintes do discurso desviam seus olhares, param de prestar atenção na fala

da militante e dirigem sua atenção para a lente do fotógrafo29. Evidencia-se também na imagem a presença de crianças na posição de espectadores do discurso integralista, o que

corrobora com a proposição de que as pessoas deveriam ser disciplinadas desde muito jovens.

O espaço em que os sujeitos estão inseridos é o espaço urbano e retrata a atuação feminina

além do lar, inserindo-se no espaço público.

Figura 2: Votação no Núcleo da Gamboa, Rio de Janeiro, DF, s/d.. (FONTE: SOMBRA; GUERRA, 1998).

A figura 02 registra um momento oficial da AIB, a votação interna do Núcleo da

Gamboa no Rio de Janeiro. Nela aparece retratado um militante negro assinando os

documentos institucionais do Movimento Integralista, evidenciando a presença de

descendentes africanos nas fileiras de militância do Sigma, e possibilitando-nos questionar as

proposições de alguns autores que apontavam a AIB enquanto uma agremiação racista.

(33)

se também, a presença da simbologia integralista, em destaque o Sigma – símbolo por

excelência do Movimento.

Figura 3: Militantes do Núcleo Integralista de Marília/SP. (Fonte: Acervo Pessoal. Marília/SP).

Já a figura 03 é dotada de um caráter bastante peculiar. Trata-se de uma

fotografia a que tivemos acesso durante uma conversa com uma simpatizante integralista da

cidade de Marília/SP. Durante a nossa conversa, ela nos falou dessa fotografia e gentilmente

nos cedeu uma cópia. Nela encontramos registrada a imagem de alguns militantes do Núcleo

Integralista Local, evidenciando a participação de imigrantes japoneses nas atividades locais

da AIB. Podemos observar, também, a presença de homens, mulheres e crianças, todos

reunidos na mesma solenidade, reafirmando o caráter de complementaridade entre os sujeitos

sociais pretendido pela AIB. A Bandeira do Brasil, a Bandeira Integralista, o retrato de Plínio

Salgado, chefe soberano dos integralistas, e um mapa com um sino dentro, podem ser

(34)

posada, ou seja, as pessoas param para registrar esse momento, vislumbrando demonstrar a

disciplina integralista, bem como a boa qualidade da imagem.

Para o Integralismo, conforme já se expôs, a Família era considerada a base da

Nação e fundamental para a construção do Estado Integral. O Manifesto de 1932 expressava e

delineava essa investidura, como observado nos capítulos: Princípio da Autoridade; do

Nacionalismo; da Nação Brasileira; dos Partidos e dos Governos; das Conspirações e da

Politicagem de Grupos e Facções; da questão Social; Da família e da Nação; do Município e

do Estado Integralista.(MANIFESTO, 1932).

Sendo a Família “a base da felicidade na terra”, “uma das únicas venturas

possíveis”, fica expresso que a felicidade do Homem se concentra em “pequenas coisas, tão

suaves, tão simples”, dentre as quais se destacam: “o afago de uma mãe, a palavra de um pai,

a ternura de uma esposa, o carinho de um filho, o abraço de um irmão, a dedicação dos

parentes e amigos” (SALGADO, 1932, p. 07).

Assim sendo, todo integralista, seja homem ou mulher, deveria estar atento à

“comunhão nas alegrias, nos triunfos, nas lutas, conforto de todos os instantes, estímulo de

todos os dias, esperança de perpetuidade no sangue e na lembrança afetuosa, eis o que é a

família, fonte perpétua de espiritualidade e de renovação, ao mesmo tempo projeção da

personalidade humana” [...] “tirem a família ao homem e ele fica animal”. (SALGADO, 1932,

p.07).

Investindo na organização do Estado Integral, a doutrina Integralista enfatizava a

sua estrutura a partir da união entre a família, o município e as corporações, de modo a

constituir a grande família nacional, terreno sólido para a implantação dos ideais da AIB.

(35)

sociedade. Nela deveriam estar harmoniosamente acomodados o indivíduo, a classe

profissional, a coletividade, o Estado e a Pátria.

E no reforço dessa instituição social – a família – como base de sustentação da

doutrina integralista podemos confirmar a importância da ativa presença feminina na AIB,

seja na construção familiar sólida pela maternidade, seja como responsável pela propagação

da ideologia integralista, ou seja, atuando como responsável por um grande movimento de

arregimentação de adeptos.

Diante destas evidências de proposituras algumas questões se colocam em um

passado não tão distante, mas com poucos registros documentais concretos: Como mapear

essa participação feminina há aproximadamente 70 anos? Como resgatar os indícios das

experiências e principalmente as falas dessas mulheres? Quais práticas vivenciaram com a

militância masculina no seio do movimento? E até mesmo, como dar visibilidade à

participação dessas mulheres na AIB, já que foram tão marginalizadas por uma parcela

significativa dos historiadores do Integralismo? Concomitantemente, essas questões nos

remetem também à busca da compreensão das conjunturas em que se deu essa participação.

Ao vislumbrarmos adentrar às conjunturas culturais, econômicas, políticas e

sociais vivenciadas nos anos de 30, as quais explicitam as origens e a ascensão da AIB no

cenário político e social nacional, deparamo-nos com uma questão primordial ao trabalho do

cientista social: a difícil tarefa de compreender as vivências, experiências, ações e práticas

(36)

1.1 O Retorno ao passado

Diante das problematizações levantadas e desenvolvidas ao abordarmos a

militância feminina na AIB, torna-se necessário, fazendo uso dos debates contemporâneos,

discutir os caminhos pelos quais tomamos conhecimento do passado. Deste modo, ao adentrar

no cenário sócio-cultural dos anos 30, almejando compreender nuanças das relações de poder

estabelecidas entre homens e mulheres no interior do Movimento Integralista, foi necessário

transitar acerca das formas de percepção e interpretação do passado, tecendo algumas relações

entre os conceitos Memória, História e Relíquias. Isto porque, ao tentar captar as

“blusas-verdes” somos necessariamente remetidos ao passado. Segundo Le Goff (1994, p.12), a

“matéria fundamental da história é o tempo”.

Abordar a percepção que homens e mulheres têm sobre o passado e como esse

passado interfere no nosso presente, bem como qual é a nossa interpretação sobre os fatos que

nos antecedem é bastante complexo. Segundo Lowenthal (1998, p.64), “a consciência do

passado é por inúmeras razões, essencial ao nosso bem-estar”. Para o autor, a maneira como

adquirimos o background imprescindível sobre o passado é simples: lembramo-nos de coisas,

lemos ou ouvimos histórias e crônicas, e vivemos entre relíquias de épocas anteriores.

Nessa linha é possível enfatizar que somos seres históricos permeados por

práticas, costumes, lembranças e sentimentos que se fundam em tempos anteriores ao nosso.

A nossa personalidade, o nosso meio social, é permeado pelo passado. “O passado nos cerca e

nos preenche; cada cenário, cada declaração, cada ação conserva um conteúdo residual de

tempos pretéritos” (LOWENTHAL, 1998, p.64) E ao contrário do que muitos pensam, o

(37)

temos consciência do passado como um âmbito que coexiste com o presente ao mesmo tempo em que se distingue dele. O que os une é nossa percepção amplamente inconsciente da vida orgânica; o que os separa é nossa autoconsciência – o pensar sobre nossas memórias, sobre história, sobre a

idade das coisas que nos rodeiam (LOWENTHAL, 1998, p.65).

As questões relativas à interpretação, aceitação, vivência e consistência do

passado variam de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e de período para período.

Algumas pessoas ficam tão estimuladas por passados rememorados que toda a sua vivência no

presente é permeada por suas lembranças. Isso acontece ainda hoje diante, por exemplo, dos

“memorialistas” de cidades menores que defendem o passado a partir de sua memória pessoal

e de muitos militantes integralistas que tivemos a oportunidade de ouvir30.

Para Lowenthal (1998), o passado seja ele parco ou copioso, morto ou vivo, um

campo separado ou confundido com o presente, é percebido conscientemente pelos mesmos

caminhos: a presença da memória, a história e os fragmentos.

Esses caminhos31 nos possibilitaram fazer emergir um passado – os anos 30 – e entender as singularidades de uma agremiação política, como a AIB, e focar as

particularidades da participação feminina.

Reconhecemos que ainda que memória e história se distingam, apresentam

fronteiras tênues, já que uma envolve componentes da outra. Mesmo assim, elas se

diferenciam: a memória é inevitável, já a história é contingente e cientificamente verificável.

30 Neste sentido, tivemos a oportunidade de ouvir depoimentos de ex-militantes da AIB durante o Primeiro

Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado em 2002 no município de Rio Claro.

31 No que tange à Memória não trabalhamos com entrevistas devido à dificuldade de encontrar ex-militantes

(38)

Diferentemente de memória e história, os fragmentos não são processos, são artefatos,

reminiscência de processos, identificáveis por objetos da cultura material vivenciada.

Mesmo de posse de uma documentação considerada rica em detalhes sobre o

passado da AIB e com evidentes indícios de uma inserção feminina que apresentava variações

de classe, raça e etnia, sabemos que jamais poderemos recuperar a totalidade dos significados

dessa participação, embora possamos ter acesso a determinadas práticas vivenciadas pelos

seus personagens em seu tempo presente.

Assim, procuramos evidenciar e trazer à tona alguns elementos referentes a esta

participação, bem como aspectos das relações de poder traçadas e construídas entre os

homens e mulheres na organização do “primeiro partido de massas do país”.

1.2 O Resgate da Participação Feminina na AIB.

Trilhando caminhos na busca de indícios da participação feminina na AIB nos

anos 30, buscamos atentar para o resgate dessa participação através da memória. O papel da

mulher nas fileiras de militância do Integralismo foi muito pouco documentado pela memória

individual. Os indícios que podemos recuperar nos remetem à memória coletiva do

Movimento, cristalizada em documentos oficiais construídos no decorrer da sua existência. As

informações, obtidas por meio da análise desse material documental, evidenciaram como o

Movimento do Sigma idealizou a participação das “blusas verdes” nas suas fileiras de

militância, bem como as atualizações dos estatutos e dos regulamentos da AIB frente à

inserção feminina apontaram que essa participação não se deu de forma homogênea, exigindo

(39)

A memória não é mais residual que a história, pois por mais volumosas que

sejam as nossas recordações são meras fagulhas do que já foi. Não importa o quanto vivido,

relembrado ou reproduzido, o importante é resgatá-las, evitando serem apagadas pelo

esquecimento.

O conceito de memória é crucial. Para Le Goff (1994) a memória, como

propriedade de conservar certas informações, remete-nos a um conjunto de funções psíquicas,

graças às quais podemos atualizar impressões ou informações passadas.

A memória pode ser compreendida em dimensões tanto individuais, que

compreendem as lembranças próprias de um indivíduo, como coletivas, que compreendem as

lembranças compartilhadas por um grupo social.

Ao referirmo-nos ao nosso objeto, podemos confirmar, diante da pesquisa, a

existência de uma vasta memória coletiva, evidenciada pela documentação oficial. A

construção de memórias coletivas foi empreendida pela AIB na busca de que as vivências e as

lembranças fossem compartilhadas pelo grupo de militantes. Embora tenhamos uma vasta

tentativa de perpetuar e formatar a memória coletiva, a memória individual foi deixada de

lado tanto pela AIB, quanto pela sua bibliografia. No caso específico da memória individual

feminina, podemos citar Maria Amélia Salgado Loureiro32 e sua obra Plínio Salgado, meu pai. No entanto, ao invés de apresentar indícios de memória individual, Loureiro assimila as

concepções disseminadas sobre o Integralismo e compartilhadas pela coletividade.

Os remanescentes do Integralismo, como “senhores da memória”, mantêm-se

como fiéis guardiões de um passado, impedindo qualquer exercício de revisão pelo acesso às

32 Maria Amélia Salgado Loureiro, filha de Plínio Salgado, publicou em 2001 a obra Plínio Salgado, meu pai, na

(40)

reconstruções históricas, o que possibilitaria outras narrativas. Mesmo aceitando inserir, ou

em até mesmo recuperar a visibilidade feminina, eles resistem à possibilidade de outras

narrativas históricas33.

Toda consciência sobre o passado está fundada na memória que é suscitada pelo

presente. Pelas lembranças recuperamos a consciência de acontecimentos anteriores,

distinguimos o ontem de hoje, e confirmamos que já vivemos um passado. No entanto, os

remanescentes integralistas, ao rememorarem, não estabelecem está dinâmica relação entre

passado/presente, deixando que o passado da AIB permaneça anacrônico34.

As lembranças sustentam o sentido de identidade dos ex-militantes da AIB por

vários tipos de recordações. Sejam desejadas ou espontâneas, adquiridas ou inatas, revelam

vários aspectos “de coisas do passado”. Portanto, o uso da memória é inerente ao trabalho do

pesquisador. Entretanto, como já explicitamos, as memórias mais individualizadas das

militantes integralistas se encontram fragmentadas exigindo um trabalho de recuperação mais

sensível e apurado35. Não foi possível realizar o trabalho com a memória por fontes orais devido às dificuldades de localização de ex-militantes e realização de entrevistas, pois aquelas

octogenárias existentes negaram-se a esse tipo de colaboração36. Diante disso, foi preciso resgatar na memória coletiva do integralismo, nos documentos escritos e iconográficos, os

indícios de outras memórias e presenças.

33

Ex-militantes presentes no I Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado em 2002 em Rio Claro SP, ao serem questionados sobre a presença feminina na AIB reforçaram a memória coletiva: “elas estiveram lá”. Sem identificar propriamente nenhuma delas, embora existisse além da D. Carmela Salgado e Maria Amélia S. Loureiro, respectivamente esposa e filha de Plínio Salgado, dentre outras.

34 Visto que as várias tentativas de (re)inaugurar o integralismo não surgem os efeitos desejados, uma vez que

não conseguem estabelecer um diálogo com o tempo presente. Desta forma o movimento permanece ridicularizado e estereotipado. Um pastiche do passado.

35 Um desses trabalhos foi realizado por POSSAS (2004b) ao recuperar as distintas falas dessa memória mais

individualizada através de uma correspondência feminina ao Chefe Integralista.

36 Segundo Possas (2004b), “as dificuldades de acesso a uma documentação que expressasse as falas das

(41)

Enfatizando o trabalho com a memória coletiva da AIB, foi possível distinguir a

presença feminina em uma totalidade que pretendia e pretende até hoje se impor. Em 1934, a

AIB, pretendendo oficializar e homogeneizar a participação feminina em suas fileiras de

militância, cria, enquanto um dos órgãos da Secretaria Nacional de Organização Política, o

Departamento Feminino da Ação Integralista Brasileira – D.F..

Por seus estatutos próprios, o D.F. da AIB tinha por “finalidade orientar e dirigir

a ação da mulher brasileira no movimento e prepará-la para ocupar eficientemente no regime

integralista o lugar que de direito lhe cabe”, reforçando o lugar de direito da mulher no

Integralismo: a constituição e perpetuação da família e manutenção da estrutura do Lar

(REGULAMENTO, 1934).

Contudo, não temos informações se a proposta da criação do Departamento

Feminino surgiu a partir de reivindicações das militantes, uma vez que elas estavam

adentrando na AIB desde 1932. A estruturação do Departamento compreendia vários órgãos

hierarquicamente organizados: Departamento Nacional Feminino, Departamento Provincial

Feminino, Departamento Municipal Feminino, e por último Departamento Distrital Feminino,

em que cada um teria suas respectivas funções voltadas ao seu âmbito de atuação.

Pela atuação dos órgãos ligados ao D.F., as mulheres eram instruídas a ministrar

aulas, desenvolver o gosto pelo esporte, apreciar a literatura e as belas artes, bem como a

freqüentar cursos de estudos filosóficos e sociológicos. Quanto às reuniões femininas, o

Regulamento do D.F. da AIB (1934) preconizava que elas deveriam ser realizadas

semanalmente em cada Núcleo Municipal, destinando-se à leitura de boletins diretivos e

explanações doutrinárias, devendo ainda serem realizadas em horário diferente das reuniões

(42)

Essa estruturação e hierarquização do D.F. representava a absorção pela AIB de

uma expressiva demanda feminina existente na sociedade brasileira no pós 30, ávida por

maior participação político-social e inserção diferenciada nas áreas: da educação, da cultura e

do esporte. Com isso, organizava-se um discurso e uma ação visando à propaganda política,

que aliás foi utilizada intensamente pela AIB como veremos adiante.

As várias divisões e seções do D.F. foram pensadas com o intuito de se

definirem os campos da atuação feminina, vislumbrando delimitar espaços de sociabilidade.

No entanto, isso não garantiu que não houvesse outras reivindicações por parte das mulheres,

bem como tensões na organização da AIB.

Efetivamente as mulheres começaram a engrossar as fileiras de militância da

AIB. Desta forma, o D.F. organizado em 1934 não era mais suficiente para atender os anseios

e muito menos capaz de homogeneizar e disciplinar a participação das mulheres na AIB.

Assim, com a intenção de normatizar a participação das militantes integralistas, foi criada em

1936 a Secretaria Nacional de Arregimentação Feminina e de Plinianos – S.N.A.F.P.

Desta forma, a partir de 1936 a AIB não estava preocupada apenas em ser um

movimento doutrinário, mas um partido político visando às eleições de 1937, quando Plínio

Salgado foi indicado candidato à Presidência da República.

A criação da S.N.A.F.P. representa a importância que a militância feminina

assumiu no interior da agremiação, exigindo que esta, para melhor trilhar seus objetivos,

criasse uma secretaria específica para organizar a presença feminina no Movimento. Tal

constatação só se fez possível ao distinguirmos os dados dessa memória concretizados nos

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