48 G E T U L I Ojaneiro 2007 janeiro 2007G E T U L I O 49 mercado advocatício sofreu um processo de relativa
oli-gopolização e especialização dos serviços jurídicos, or-ganizando-se na forma de grandes firmas de advogados. Essas firmas são instituições de elite que possuem em sua carteira os mais poderosos clientes e atraem os egres-sos mais capacitados das academias de direito. Por essa razão, exercem enorme influência sobre a cultura jurí-dica e possuem um enorme apelo entre os alunos que buscam uma especialização com foco nas relações jurí-dicas empresariais.
É nesse contexto que se insere o debate sobre o novo papel e a função do profissional do direito e, particular-mente, do advogado brasileiro, que, a partir da abertura econômica iniciada nos anos noventa, deparou-se com elevados padrões internacionais exigidos para sua atua-ção no mercado de trabalho. Contudo, não encontrou em instituições de ensino estrutura e reflexão adequadas para o desenvolvimento dessas novas habilidades.
Formação jurídica e novas habilidades da advocacia
São encontrados hoje basicamente dois tipos de for-mação jurídica, que conduzem os profissionais a duas maneiras de conceber o direito, de interpretá-lo e de aplicá-lo. De um lado tem-se uma formação técnica, formalista e legalista que considera apenas os aspectos
lógico-formais do direito positivo. Evidentemente, esse pensamento, fundado na análise de abstrações normati-vas, é insuficiente para oferecer respostas à complexida-de da sociedacomplexida-de contemporânea. E mais: quando inter-vém nessa realidade, refreia a dinâmica social pelos li-mites analíticos que lhe são inerentes e, por conseguin-te, torna o advogado um ator coadjuvante e conservador nesse processo.
De outro lado, como alternativa a esse primeiro mo-delo, desenvolveu-se, nas últimas décadas, um conhe-cimento jurídico aberto aos aspectos sociológico, polí-tico e, particularmente, econômico. Nesse caso, a au-sência de reflexão sobre os limites e as potencialidades dos saberes extrajurídicos no interior do direito levaram à emergência de três fenômenos: a politização do direi-to, a sociologização do direito e, atualmente, a economi-cização do direito.
Em ambos os modelos, o direito exerce uma fun-ção secundária na dinâmica social. O advogado lega-lista ignora as modificações produzidas pela globaliza-ção; o outro oferece apenas respostas políticas, socioló-gicas ou econômicas aos problemas da sociedade mun-dial. Nos dois casos, há um déficit de formação que im-pede o profissional de formular estratégias jurídicas em um ambiente complexo e de repensar formas
institu-E D U C A Ç Ã O
do Estado planejador, a criação de novas tecnologias, o avanço dos meios de comunicação de massa e a organi-zação de redes internacionais de produção têm gerado transformações profundas no sistema jurídico, questio-nado suas categorias tradicionais e gerado situações iné-ditas. Surgem então desafios que se colocam na prática cotidiana dos advogados e dos Tribunais.
O advogado depara-se, por exemplo, com novas fon-tes de produção do direito – multinacionais que regu-lam suas próprias atividades, organizações internacio-nais que criam direito supra-estatal, fortalecimento de uma lex mercatoria – e com novos atores sociais que exi-gem um acompanhamento dinâmico. Esse aspecto da realidade impõe, freqüentemente, a conjugação desse pluralismo normativo com o direito estatal.
Os processos de internacionalização do capital e das atividades econômicas provocam um incremento na de-manda por profissionais capazes de participar de nego-ciações e de minutar contratos internacionais. A globali-zação incentiva o diálogo entre advogados de vários pa-íses, que devem compartilhar conhecimentos sobre or-denamentos jurídicos nacionais e centros emanadores de normas internacionais que influenciam e condicio-nam as relações empresariais. Nessa conjuntura, o direi-to deve oferecer soluções para situações cambiantes, de alto risco e incerteza.
Em decorrência da globalização, e particularmen-te das fusões de grandes conglomerados financeiros, o
Q
ual o papel da advocacia na sociedade contem-porânea? Que novas competências são atribu-ídas ao profissional do direito? Está ele apto a responder às novas demandas do mercado de trabalho globalizado? A propósito, quais são essas novas demandas? E, principalmente, como desen-volver em cursos de especialização essas habilidades?Para responder a essas questões, centrais para advo-cacia hoje, três pontos serão, a seguir, analisados. O pri-meiro se refere à realidade prática e trata das especifici-dades da conjuntura que modificam o perfil do advoga-do; o segundo são as habilidades, a competência e a for-mação exigidas frente a essa realidade; e, por fim, como os cursos de especialização podem oferecer subsídios para atender às exigências do mercado de trabalho.
A função do advogado e o processo de globalização
A especificidade do mundo globalizado consiste na convivência de dimensões diversas, como a econômica, a social, a cultural e a institucional de diferentes países, que não podem ser reduzidas e analisadas como fenô-menos isolados, mas devem ser consideradas em suas re-lações de interdependência.
O decorrente aumento da complexidade da socieda-de mundial – mudanças econômicas, políticas, filosófi-cas, tecnológifilosófi-cas, entre outras – interferiu drasticamen-te nas operações jurídicas. A indrasticamen-ternacionalização do mercado, a formação de blocos supranacionais, a crise
GLOBALIZAÇÃO,
ADVOCACIA E CURSOS
DE ESPECIALIZAÇÃO
Por André Nahoum, Camila Duran, Fernando Rugitsky,
Guilherme Leite Gonçalves e Melissa Mestriner
50 G E T U L I Ojaneiro 2007 janeiro 2007G E T U L I O 51 das do saber jurídico. Para
contor-nar o excesso de especialização, os megaescritórios estruturam redes de expertos de diferentes campos – ad-vogados, contadores, economistas, analistas de mercado, administrado-res, engenheiros, urbanistas – capa-zes de desenvolver soluções integra-das. Evidentemente a formação do conhecimento especializado deve ser precedida de uma formação te-órica e crítica do direito que confira ao profissional capacidade de apre-ensão da complexidade social. Essa função deve ser desempenhada pela graduação. Aos cursos de especiali-zação cabe a instrumentaliespeciali-zação
desse conhecimento para o saber fazer jurídico (know-how jurídico). Esses cursos devem se basear na observa-ção da aplicaobserva-ção do direito, na forma como os conceitos são – e podem ser – concretizados na atividade advoca-tícia e na interpretação dos tribunais.
Ao afirmar que a especialização deve construir um sentido eminentemente prático para o conteúdo ad-quirido durante o curso de graduação, não se pretende sustentar que seu perfil deva ser casuístico, meramen-te panorâmico ou limitado a leituras comentadas da le-gislação vigente. Não se trata, tampouco, de reprodu-ção acrítica de conceitos disfuncionais para a realidade. Ao contrário, a especialização deve empregar o conhe-cimento prático para questionar a funcionalidade dos conceitos e dos elementos da teoria do direito. A refle-xão e a crítica devem despontar na discussão dos casos e de seu aspecto decisório. Ressalte-se, no entanto, que o estudo dos casos deve evitar o casuísmo lotérico e se co-nectar a precedentes e tendências, de modo a produzir um raciocínio jurídico coerente.
O novo perfil da advocacia que os cursos de espe-cialização pretendem contemplar exige essa postura, ao mesmo tempo crítica e operacional, sem a qual se torna-ria impossível intervir juridicamente no processo de glo-balização. Como já afirmado, o padrão advocatício tra-dicional, centrado na prática forense, é ineficiente nes-sa intervenção.
Por essa razão, a especialização deve incorporar no-vas funções jurídicas de assessoria, consultoria e plane-jamento, menosprezadas pelo ensino jurídico tradicio-nal, mas comuns no cotidiano das megafirmas de advo-cacia. Os agentes econômicos já perceberam que evitar conflitos é preferível a solucioná-los quando já
instaura-dos. Os benefícios econômicos são muitos e garante-se uma relação es-tável e duradoura entre agentes, me-nos sujeita a rupturas. É necessário pensar em uma dogmática jurídica que sirva à prevenção de conflitos. Para isso são fundamentais habili-dades analíticas, próprias das mul-tinacionais de contabilidade e audi-toria, que os cursos de especializa-ção devem fomentar. Essas habili-dades reclamam uma metodologia de ensino que privilegie a participa-ção do aluno, em um processo de autoconstrução de um saber espe-cializado que atenda a suas necessi-dades pessoais. A linguagem do cur-so deve primar pelo dinamismo, lançando mão de no-vos recursos e abandonando os arroubos de retórica ju-rídica. O professor deve conjugar sólidas bases concei-tuais, larga prática e habilidade pedagógica para provo-car no aluno uma postura ativa.
A especialização deve avançar para além dos para-digmas e categorias jurídicas tradicionais, aproximan-do-as da realidade socioeconômica sem abandoná-las. Por meio da construção de casos práticos, demonstrar-se-á a importância e a pertinência real da interdiscipli-naridade, da transdiscipliinterdiscipli-naridade, da reflexão crítica e do papel do direito nesse contexto complexo. Por exem-plo, não se pode pensar um curso de direito do consu-midor que não aborde as transformações da sociedade de consumo. Uma análise abstrata do código do consu-midor é pouco útil para a advocacia contemporânea. O objetivo, no entanto, não deve ser uma sociologia do consumo, mas a reflexão sobre instituições jurídicas que respondam aos problemas surgidos com o advento dessas novas práticas.
A necessidade de compreensão de um sistema cada vez mais complexo de normas e fatos é tarefa que de-manda toda a atenção do advogado. É necessário o en-frentamento constante dos temas atuais. A especializa-ção em Direito observa a produespecializa-ção contemporânea do sistema jurídico em um ambiente dinâmico e desenvol-ve habilidades que possibilitam respostas aos problemas candentes da sociedade.¸
AndréNahoum,CamilaDuran,FernandoRugitsky,Guilherme LeiteGonçalveseMelissaMestriner sãopesquisadoresdaEsco-ladeDireitodaFundaçãoGetúlioVargasedesenvolvemestudos paraosprogramasdeespecializaçãodestainstituição.
Os agentes econômicos
já perceberam que evitar
conflitos é preferível a
solucioná-los quando já
instaurados. Os benefícios
econômicos são muitos e
garante-se uma relação
estável entre agentes,
menos sujeita a rupturas
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cionais para o melhor desenvolvimento das economias nacionais.
Se é verdade que essa conjuntura exige mudanças na postura do profissional do direito, os desafios que se apresentam aos advogados dos países periféricos são ain-da maiores. A ordem jurídica e as instituições dessas re-giões, tradicionalmente dependentes de interesses par-ticulares e episódicos, possuem um alto grau de fragili-dade. Quando confrontadas pelas transformações eco-nômicas do processo de globalização, são incapazes de resistir às pressões conjunturais, expondo sua estrutura normativa à erosão. Nesse caso, o risco da economiciza-ção do direito é altíssimo. Pense-se, por exemplo, na uti-lização do critério de eficiência econômica como fun-damento das decisões dos tribunais e na conseqüente marginalização de juízos fundados na racionalidade ju-rídica dessas mesmas decisões, muitas vezes acusadas de anacrônicas. A ausência de instituições jurídicas conso-lidadas reforça a condição periférica do Brasil no cená-rio internacional. Cabe aos profissionais do direito, em sua prática cotidiana, fortalecer essas instituições e o es-tado de direito, produzindo um ambiente sólido e segu-ro para as práticas comerciais e para a entrada de investi-mentos internacionais, sem prejuízo dos direitos dos ci-dadãos e das regras democráticas.
O profissional do direito deve conseguir sensibilizar o sistema jurídico para as necessidades sociais. A aber-tura interdisciplinar é imprescindível, mas não pode esquecer o caráter específico da normatividade do di-reito. Um curso de direito tributário deve abordar, por exemplo, a legislação e a jurisprudência relativas a de-terminado tributo, mas não pode descuidar da política fiscal para poder articular estratégias de planejamento para seus clientes. Trata-se, assim, de permitir um ga-nho analítico com auxílio de
ou-tros saberes, um refinamento teóri-co, para a melhor percepção e com-preensão da amplitude do fenôme-no jurídico.
A atuação do profissional deve transitar entre a simples exegese das normas positivadas e as considera-ções do pensamento filosófico, polí-tico e econômico. A capacidade de se mover entre esses dois níveis ga-rantirá a habilidade para solucionar os problemas jurídicos advindos da atual conjuntura. O desafio do pro-fissional do direito é combinar con-sistência jurídica e adequação social.
O papel dos cursos de especialização e as novas demandas sociais
As demandas do mercado globalizado e o novo per-fil das profissões jurídicas geraram importantes modifi-cações na forma tradicional de ensino do direito. Essa é a razão por que existe hoje uma tendência mundial por implementar revisões curriculares, ampliar a interdisci-plinaridade e pensar novas metodologias didáticas.
Nos cursos de especialização e educação continua-da o impacto não foi menor. Quando criados, tais cur-sos eram poucos e se concentravam em escolas de asso-ciação de classe, tais como Escolas da Advocacia, cujo foco era a reciclagem, ou seja, a atualização permanente do profissional à luz das reformas legislativas. Nos últi-mos anos aconteceram dois fenômenos importantes que modificaram o perfil desses cursos. De um lado, as uni-versidades começaram a oferecê-los. Para a especializa-ção isso representou um ganho de reflexão acadêmica; para a universidade, uma abertura ao mercado. De ou-tro lado, assistiu-se a um aumento significativo da procu-ra por esses cursos, desencadeando um processo de pro-liferação das especializações em direito no Brasil.
Nesse sentido, parece evidente que a consolidação desses cursos no ensino jurídico demonstra a insufici-ência da formação obtida na graduação, marcadamen-te caracmarcadamen-terizada por uma das duas formas tradicionais de abordar o direito, e a necessidade de capacitação profis-sional adicional para o enfrentamento das novas tarefas impostas pelo mercado de trabalho.
As atuais funções dos cursos de especialização são fo-mentar a empregabilidade e possibilitar a promoção do profissional em seu ambiente de trabalho. Para isso de-vem preparar seus alunos para as novas exigências do mercado advocatício. As transformações na prestação de serviços jurídicos promovidas pelas megafirmas de advogados e uma clientela constituída por gran-des corporações transnacionais in-fluenciaram sobremaneira o merca-do de trabalho e têm exercimerca-do enor-me pressão sobre os centros de en-sino e os profissionais ainda vincu-lados a uma prática quase artesanal. Nessas grandes organizações, o advogado generalista foi substituí-do pelo advogasubstituí-do especializasubstituí-do em função de setores da economia. Essa substituição tem representado um forte incentivo à aquisição de maior conhecimento em áreas