aspectos intergeracionais na relação mãe
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criançaHStela Cabral
HHDaniela Levandowski
HHHR
esumoAs vivências da mulher com a própria mãe e as representações sobre ela podem repercutir no exercício da maternidade e na construção da identidade materna. Este trabalho analisou as representações de mães adolescentes sobre suas mães e os aspectos intergeracionais presentes na relação com o bebê, segundo a perspectiva psicanalítica. Três mães adolescentes primíparas, com bebês de três a seis meses de idade, preencheram uma Ficha de Dados Sociodemográficos, responderam a Entrevista R e foram observadas durante a amamentação do bebê. Foi realizada ainda uma entrevista com as mães dessas adolescentes. Os achados demonstraram a influência do modelo materno na relação estabelecida pelas adolescentes com seus bebês. Foram encontradas tanto identificações construtivas como alienantes na relação das adolescentes com as próprias mães. Esses resultados apontam para a importância da investigação dos aspectos intergeracionais das representações destas jovens para a compreensão do exercício do papel materno.
Palavras-chave: maternidade; adolescência; representações maternas; transmissão intergeracional.
adolescents’ motheRs RepResentations:
intergenerationalaspects inmother
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infantrelationshipa
bstRactThe woman experiences with her own mother and the representations about her can affect the exercise of motherhood and the construction of maternal identity. This study examined the teenage mothers’ representations about their mothers
H O presente estudo deriva da Dissertação de Mestrado da primeira autora, realizada sob
orientação da segunda autora e apresentada ao PPG Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, RS, Unisinos.
Apoio: CNPq
HH Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos- UNISINOS/RS.
E-mail: [email protected]
HHH Pós-Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS). Docente do Departamento de Psicologia da UFCSPA. Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Departamento de Psicologia. Rua Sarmento Leite, 245 Sala 207. Centro - Porto Alegre, RS – Brasil.
and intergenerational aspects in the mother-baby relationship, according to a psychoanalytic perspective. Three primiparous adolescent mothers, which term babies were three to six months old, took part in the study. Interviews comprising sociodemographic data and Interview R, as well an observation in a breastfeeding situation. An interview with the adolescent’s mother was performed too. Results showed the influence of adolescents’ maternal model on the mother-baby relationship. Both constructive as well alienated identifications were found in the adolescents relationships with their own mothers. These results indicated the importance of investigating intergenerational aspects of adolescents’ representations in order to understand their maternal role accomplishment.
Keywords:motherhood; adolescence; maternal representations; intergenerational transmission.
intRodução
É fato que a função materna é vivenciada desde muito cedo pela mulher, através das brincadeiras com bonecas e/ou bichinhos de pelúcia ainda na pri-meira infância, o que constitui um ensaio para o desempenho futuro do papel materno (LEBOVICI, 1987). O exercício dessa função está alicerçado,
den-tre outros aspectos, na identificação com a figura materna. Tal identificação é pautada pela imitação dos cuidados recebidos da própria mãe (BRAZELTON, CRAMER, 1992) e também de outras figuras maternais que se tornaram mode -los para a menina desde a sua infância (PROCHNOW, LOPES, 2007). A
imi-tação de tais cuidados favorece a identificação consciente e inconsciente com essas figuras (BRAZELTON, CRAMER, 1992).
Assim, durante o exercício da maternidade, na busca por um modelo
materno próprio, a mulher pode reviver com intensidade as identificações com a própria mãe da infância e da atualidade. Tais identificações fazem parte das representações sobre a própria mãe, que ocupam lugar de destaque no mundo
representacional da maioria das mulheres que passam a exercer a função
mater-na (AULAGNIER, 1994). Essas representações englobam, dentre outros aspec -tos, a reavaliação consciente e inconsciente do desempenho do papel materno
pela própria mãe (STERN, 1997).
A importância que as vivências com a própria mãe têm no exercício da maternidade aponta para a relevância do processo de transmissão intergeracio-nal (GOLSE, 2003; LEBOVICI, 1996, 1998; ZORNIG, 2012). Diferentemente da transmissão transgeracional (LEBOVICI, 1996, 1998), que acontece entre
gerações distantes e cujos membros nem sempre chegam a estabelecer contato direto, a transmissão intergeracional ocorre apenas em gerações cujos membros mantêm contato, essencialmente entre pais e filhos (GOLSE, 2003). De qual
entre gerações (LEBOVICI, 1996, 1998) e que engloba a transmissão de confli
-tos associados às gerações anteriores, que podem influenciar, mesmo de forma
inconsciente, a relação atual pais/bebê.
Conforme Lebovici, Solis-Ponton e Barriguete (2004), a transmissão inter-geracional pode ser investigada de duas formas: através da análise da interação
diádica e/ou triádica e também das representações fantasmáticas identificadas na relação mãe-criança, de cunho inconsciente. Esses aspectos podem influenciar na
construção da identidade materna e, consequentemente, no desenvolvimento da
organização psíquica da criança (PINTO, 2004; WENDLAND, 2001).
Convém destacar que o estudo da transmissão intergeracional tem como
objetivo principal a análise e a compreensão das dificuldades encontradas no pro
-cesso de identificação pais-filhos, o que possibilita a estes o entendimento do processo de filiação vivenciado pelos filhos (LEBOVICI, 1996, 1998). Assim, é especialmente importante nos casos de transmissão de conflitos inconscientes,
que poderão bloquear o desenvolvimento da criança (LEBOVICI et al., 2004).
Nesse sentido, é importante mencionar que, na maternidade, os aspectos
intergeracionais têm como eixo principal o processo de identificação da mãe com sua própria mãe, no qual estão inseridas tanto identificações alienantes
(patológicas) como também construtivas (GOLSE, 2003), que podem se repetir na sua relação atual com a criança. Desse modo, uma questão crucial que se coloca para a mulher, independentemente da idade, é de que forma fará uso
dessas identificações na construção do próprio modelo materno, sem cair na
alienação ou patologia, uma vez que a linha divisória entre esses dois tipos de
identificações é, às vezes, bastante tênue (GOLSE, 2003).
Especificamente no contexto da maternidade na adolescência, observa-se uma escassez de estudos acerca das representações dessas mães sobre suas mães, bem como dos aspectos intergeracionais que podem influenciar na relação da mãe adolescente com a criança. As investigações sobre a maternidade nessa faixa etária,
em geral, têm como foco os aspectos desenvolvimentistas e psicossociais (BRAN-DÃO, HEILBORN, 2006; CARLOS et al., 2007; DIAS, AQUINO, 2006; ESTE
-VES, MENANDRO, 2005; FIGUEIREDO, 2000, 2001; HOGA, 2008; KRISTEN, MONTGOMERY, 2004) e demonstram que as mães adolescentes, além de lidarem com os desafios impostos pelo contexto de maternidade, também se confrontam com os desafios próprios de sua etapa de desenvolvimento (CARLOS et al., 2007).
Abordando essa temática, Houzel (2004) estabeleceu uma comparação en-tre a fase da adolescência e a maternidade, ressaltando que ambas constituem
períodos nos quais ocorrem transformações identificatórias profundas na mulher, devido à revivência de conflitos inconscientes, que, por sua vez, acarretam mo
-dificações na personalidade. Essas transformações ativam processos tanto cons -cientes quanto incons-cientes do funcionamento mental das adolescentes, que
Ilustrando empiricamente esses achados, Simões (2004), em investigação conduzida com mães adolescentes portuguesas, verificou: aquelas adolescentes que se sentiam mais afetivamente ligadas às próprias mães, identificavam-se mais com elas, sendo mais influenciadas pelo modelo materno de suas proge -nitoras. Isso, por sua vez, esteve correlacionado à qualidade dos cuidados
dis-pensados ao filho. Desse modo, percebe-se que, ao se tornar mãe, a adolescente
reviverá a relação estabelecida com sua própria mãe, podendo inclusive
res-significá-la (DIAS, TEIXEIRA, 2010; DADOORIAN, 2003; ANDRADE, RI -BEIRO, SILVA, 2006). Entretanto, conforme apontado por Kreutz (2001), mais do que apenas reviver a relação com a própria mãe, as adolescentes passam a necessitar concretamente do seu auxílio para assumir o novo papel materno. De fato, a literatura mostra ser comum uma dependência aumentada da adoles-cente em relação à própria família, pela necessidade de apoio para o cuidado
da criança, desde o aspecto financeiro até o prático e emocional (FALCÃO,
SALOMÃO, 2006; PICCININI et al., 2002; SILVA et al., 2009).
Em um estudo realizado no contexto nacional sobre as representações da maternidade de mães jovens (18 a 25 anos) e suas mães, Dias e Lopes (2003) en
-contraram a valorização das jovens a respeito das experiências das próprias mães. Apesar da idade, não foi encontrada manifestação de um desejo consciente de se
diferenciar da própria mãe e nem contestação de modelos de maternidade.
Se-gundo as autoras, isso poderia ser explicado pela avaliação positiva que as jovens manifestaram a respeito da relação mãe-filha, o que está de acordo com o estudo de Simões (2004). Diferenças emergiram entre as representações de si mesmas como mães e de suas próprias mães como mães, no que tange ao fato de as jovens
mães valorizarem a preservação de um espaço pessoal, ao invés de uma
dedica-ção exclusiva ao filho, e no encorajamento da autonomia da criança, em contra -partida à educação e disciplina propostas por suas próprias mães. Concordando parcialmente com esses achados, também no estudo conduzido por Levandowski (2005), a partir da perspectiva da separação-individuação, as mães adolescentes
manifestaram tanto desejo de manutenção do modelo materno, como de mudança e reformulação desse modelo. Entretanto, independentemente desse desejo, as jo
-vens tenderam a repetir com os filhos, nos primeiros 24 meses de vida, o mesmo
modelo de relacionamento estabelecido na infância com a própria mãe.
Em conjunto, esses achados indicam a importância dos aspectos intrapsí -quicos e intergeracionais na constituição e no exercício da maternidade na
ado-lescência. Obviamente as repercussões psicológicas de ser mãe adolescente serão específicas para cada jovem e estarão associadas não apenas a aspectos individu -ais e familiares, mas também soci-ais e econômicos (LEVANDOWSKI,
PICCINI-NI, LOPES, 2008). Contudo, com base nas questões mencionadas e, alicerçado na perspectiva psicanalítica, o presente trabalho teve por objetivo investigar as representações de mães adolescentes sobre suas mães, destacando os aspectos
método
Participantes
Participaram do estudo três mães adolescentes, com idades entre 16 e 17 anos e nível socioeconômico baixo, bem como suas mães. Seus bebês tinham três e seis meses de idade, sendo dois do sexo feminino e um do sexo masculino. Duas adolescentes coabitavam com o pai do bebê, enquanto a outra tinha união
oficializada com o mesmo. Ainda, duas adolescentes estavam cursando a oitava
série do Ensino Fundamental, enquanto outra, a primeira série do Ensino Médio.
A Tabela 1 apresenta os dados sociodemográficos das participantes do estudo.
Tabela 1 - Dados sociodemográficos das participantes do estudo
Como critérios de inclusão no estudo, as adolescentes deveriam ter
ape-nas um filho, a termo, não haverem apresentado complicações clínicas durante a
gravidez e o parto, idade inferior a 18 anos. Ressalta-se que todas as mães ama-mentavam seus bebês no peito, sendo esta a alimentação exclusiva das crianças.
Delineamento, Procedimentos e Instrumentos
No presente estudo, de caráter qualitativo, empregou-se um delineamento de estudo de caso (D’ALLONNES, 2004), a partir de uma proposta embasada na intersecção entre a pesquisa, a psicologia clínica e o referencial psicanalítico. As análises foram embasadas principalmente nos conceitos desenvolvidos por Bion (1962/1991), Golse (2003) e Winnicott (1988 [1971]).
As participantes foram contatadas em um hospital de grande porte da
cida-de cida-de Porto Alegre, que presta atendimento particular e para convênios. O projeto
foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do referido hospital. Somente depois de sua aprovação pelo Comitê (Parecer nº 295b/09)é que foi iniciada a coleta de dados, a partir de uma consulta ao livro de registros de nascimentos do
ano de 2009. Tal consulta teve por objetivo identificar possíveis participantes,
A partir dessa identificação, foram realizados contatos telefônicos com as adolescentes e suas mães, quando se explicou os objetivos do estudo. Não ha -vendo recusa para a participação de nenhuma das contatadas, foi agendado um horário para a realização da coleta de dados na sua residência, entre os meses de agosto e setembro de 2009. Primeiramente, foi apresentado às participantes
e suas responsáveis o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Depois da leitura e da assinatura do referido Termo, cada adolescente preencheu uma Ficha de Dados Sociodemográficos e, após, respondeu individualmente a Entrevista R (STERN et al., 1989), com o intuito de investigar as representações maternas. Trata-se de uma entrevista semi-estruturada, que permite uma análise do mundo
representacional materno. É composta de 10 temas e 28 itens que apresentam perguntas abertas e fechadas. Os temas investigados pela Entrevista R são:
1) Descrição da criança: descrição espontânea da criança (“você pode me
descrever como é seu filho”); descrição perceptual da criança (a mãe indica ca -racterísticas de personalidade da criança a partir de uma lista que lhe é apresenta-da); descrição situacional versus semântica da criança, na qual a mãe ilustra duas
características marcantes da criança com um exemplo específico recente de cada um); eventos importantes do passado da criança que possam influenciar na atual relação mãe-criança (possíveis situações ocorridas durante a gestação e o parto);
2) Descrição pessoal: descrição espontânea de si mesma como mãe ( “como
você é como mãe”); descrição perceptual de si mesma como mãe (preenchimento
de uma lista com algumas características comumente atribuídas às mães, sob a
forma de uma escala de adjetivos opostos); descrição situacional versus
semân-tica de si própria como mãe (a mãe ilustra dois adjetivos escolhidos com um exemplo específico recente);
3) Descrição de características da relação mãe-criança: a mãe assinala, na lista de características comuns na relação mãe-criança, dispostas sob escala Li-ckert, a resposta mais próxima a sua experiência como mãe;
4) Papel de sua própria mãe como mãe (“como sua mãe foi para você): des-crição perceptual de sua própria mãe (preenchimento da lista de características
maternais, sob escala de adjetivos opostos); descrição situacional versus
semân-tica da própria mãe (ilustração de dois adjetivos escolhidos na descrição de sua
mãe com um exemplo recente); mudanças na relação com sua mãe (mudanças na comunicação e no vínculo após a gravidez);
5) Semelhanças da criança com a família: “com quem seu(sua) filho(a) se
parece mais;
6) Descrição espontânea do pai da criança (ex. “como ele é como pai para
seu/sua filho/a”) e de características de personalidade do pai (escala de adjetivos
opostos);
7) Influências de situações do passado e do presente da mãe sobre a crian
8) Afetos ligados às representações sobre a criança: emoções que a mãe sente por seu/sua filho/a;
9) Desejos e medos em relação ao futuro da criança e ao seu futuro como mãe; 10) Autoestima da mãe e outros temas que o entrevistador julgue necessá -rio investigar, após a realização da entrevista.
Ainda, realizou-se individualmente, com as mães das adolescentes, a
Entre-vista com a Avó Materna, cujo roteiro foi elaborado para o presente estudo. Essa entrevista semi-estruturada objetivou coletar informações sobre a maternidade da filha, sua relação com ela antes e depois da gravidez e sua percepção de si mesma e da filha no desempenho do papel materno. Ressalta-se que a Entrevista R e a Entre -vista com Avós Maternas foram gravadas e posteriormente transcritas para análise. A Entrevista R teve duração de 45 a 60 minutos, enquanto que a entrevista com as
avós durou aproximadamente 30 minutos. Ao final, foi agendado um novo horário com cada adolescente, na mesma semana, para a finalização da coleta de dados.
Nesse segundo encontro, foi realizada a Observação Mãe-Bebê em Situa-ção de AmamentaSitua-ção, que também foi relatada para posterior análise. Essa
obser-vação foi empregada para examinar as representações maternas nesse momento
de interação da díade, a partir da observação da relação mãe-bebê e dos cuidados maternos, tendo duração variada de 20 a 35 minutos. Optou-se pela observação da situação de amamentação, porque se trata do atendimento a uma necessidade primordial ao bebê e também possibilitar visualizar o entrosamento entre a díade e a adaptação à função materna. Neste estudo, a observação foi inspirada no Mé-todo Bick de Observação de Bebês (BICK, 1987 [1964]), pois a díade mãe-bebê foi observada uma única vez, em seu contexto natural (casa) e apenas na situação
de amamentação. Esse procedimento difere do método, uma vez que este obje -tiva a observação longitudinal de um bebê nos dois primeiros anos de vida em
um contexto familiar mais amplo, envolvendo outras figura além da mãe e outras situações de observação no âmbito doméstico. No entanto, foram preservadas a
atitude de neutralidade da observadora e a utilização do Método de Atenção
Flu-tuante (Freud 1996[1911]) no relato das observações.
Procedimentos de Análise dos Dados
No intuito de atingir o objetivo do presente estudo, foi realizada inicial -mente a análise dos diferentes instrumentos empregados com cada uma das parti-cipantes e, posteriormente, sua integração, em um relato de cada caso. Destaca-se que a análise dos dados da Entrevista R baseou-se em outros estudos portugueses que empregaram o mesmo instrumento (ALMEIDA et al., 2003; MARQUES,
2003), tendo sido analisada a riqueza e a tonalidade afetiva das representações.
Para a Entrevista com a Avó Materna utilizou-se a análise de conteúdo
qualita-tiva, cujas categorias foram definidas a priori, de acordo com as questões que
nortearam a entrevista: impressões e sentimentos sobre o desempenho da filha no papel materno e impressões sobre o seu próprio desempenho no papel mater
para a exposição dos resultados.Por fim, a observação mãe-bebê em situação de amamentação foi analisada qualitativamente, através da descrição detalhada de condutas diretamente observáveis (OLIVEIRA et al., 2006), sendo consideradas
também as impressões da observadora (BICK, 1987[1964]) que, de certa forma,
são demonstradas no relato de cada caso.Após a descrição integrada dos achados de cada caso, segue-se sua discussão.
Resultados e discussão
Segue-se a apresentação do relato de cada caso analisado, com o
em-prego de nomes fictícios para as mães adolescentes e seus bebês, a fim de preservar a sua identificação.
Caso 1: Carolina3, 16 anos, mãe de Matheus (três meses)
“O que sou hoje, foi ela que me ensinou”.
Carolina cresceu em uma família composta pela mãe e um irmão três anos mais velho. Seus pais se separaram quando ela contava com nove meses de idade. No entanto, nunca perdeu o contato com o pai, mantendo com ele, até
hoje, uma relação bastante próxima. O irmão, que falecera há um ano e meio
em um acidente de trânsito, era bastante preocupado com ela e a mãe, demons-trando atenção e cuidado para com ambas.
A experiência da maternidade modificou a vida de Carolina, pois os estudos
foram parcialmente interrompidos em função do bebê. A adolescente encontrava-se, no momento da coleta de dados, concluindo o Ensino Fundamental através de um curso à distância. Ela e o marido (que tinha 22 anos e com o qual se
relaciona-va há dois anos) morarelaciona-vam juntos em uma casa alugada com o auxílio financeiro
de suas famílias e do trabalho de entregador que ele exercia. Os cuidados com Matheus tomavam praticamente todo o seu tempo. Além disso, encontrava-se envolvida em afazeres com os quais antes não estava habituada, pois, enquanto morou com sua mãe, esta era a responsável pelas atividades domésticas.
A análise da Entrevista R mostrou a identificação da adolescente com a
própria mãe, principalmente pelo predomínio de características semelhantes de personalidade mencionadas na descrição de si mesma como mãe e de sua
própria mãe como mãe na escala de adjetivos opostos. Destacaram-se, dentre
outras características, ser afetiva, disponível, paciente, dedicada e satisfeita como mãe.Tal identificação com a mãe também foi demonstrada através de algumas semelhanças apontadas na descrição espontânea de si mesma como mãe e de sua própria mãe como mãe, na qual apareceram características como atenciosa, amorosa, carinhosa e cuidadosa.
Especificamente quanto às representações sobre a própria mãe como mãe,
rica, a coerência e a tonalidade afetiva positiva dessa representação, o que tam-bém foi evidenciado na descriçãode sua mãe como mãe na escala de adjetivos opostos, na qual predominaram características positivas.
Esses aspectos foram confirmados na entrevista com avó, a qual ressaltou o
tipo de relação estabelecida entre ela e Carolina: “Sou bem amiga, companheira; se ela necessita de alguma coisa, tô sempre presente. Acho que sou uma pessoa
que ela pode confiar e contar plenamente”. Já na descrição de Carolina como mãe,
a avó elogiou o seu desempenho no papel materno: “Ela tá me surpreendendo; prá idade dela, ela cuida muito bem dele. A maternidade tá sendo muito boa prá ela
e acho que ainda vai acrescentar muito mais”. Percebeu-se que tal panorama se
repetiu nas características apontadas por Carolina na descrição da relação mãe-criança (escala Lickert da Entrevista R), em que se pode observar a sintonia
afeti-va (STERN, 1991) entre a participante e seu filho, especificamente nas seguintes questões: “eu sei com certeza que ele me ama” e “consigo fazer meu filho rir e divertir-se”. Já o holding, que compreende a função materna de proteção contra as experiências angustiantes de natureza física, psicológica e sensorial vividas pelo bebê, bem como toda rotina de cuidados maternos para com ele, e o modelo
de mãe suficientemente boa (WINNICOTT, 2006[1987]) e continente (BION, 1991[1962]) foram observados nos seguintes itens: “quando meu filho chora, eu consigo consolá-lo facilmente”, “posso compreender o que ele necessita” e “te
-nho a impressão de saber agir com meu filho para alimentá-lo e fazê-lo dormir”. Tais aspectos também foram constatados na observação da amamenta -ção. Durante todo tempo (cerca de 30 minutos), Carolina mostrou-se atenta aos
movimentos de seu bebê. Olhava fixamente para seu rosto enquanto o amamen -tava e, ao mesmo tempo, acariciava suavemente o seu corpo. As mamadas de Matheus eram intercaladas com breves cochilos. Enquanto o bebê cochilava, a
mãe permanecia olhando fixamente para o seu rosto e continuava a acariciá-lo,
aguardando pacientemente para oferecer-lhe novamente o peito. O bebê agitava-se um pouco e movimentava a cabecinha, procurando o peito da mãe. Carolina
estava lá, pronta para ajudá-lo. Percebeu-se que o bebê se sentia aconchegado,
compreendido e satisfeito em suas necessidades.
Através dessas constatações, pode-se pensar que a representação positiva
sobre a própria mãe fez com que Carolina a internalizasse como uma mãe
con-tinente (BION, 1991[1962]) e suficientemente boa (WINNICOTT, 2006[1987]),
que proporcionou a ela holding (WINNICOTT, 1988[1971]), o que se percebe
na relação precoce e atual entre ambas, a partir de uma sintonia afetiva (STERN, 1991) reproduzida na relação dela com o filho. Ressalta-se que a maioria das ca
-racterísticas mencionadas aponta para a identificação construtiva (GOLSE, 2003)
Caso 2: Júlia, 17 anos, mãe de Dora (seis meses)
“Ela sempre me ajudou em tudo; eu podia contar com ela”.
Júlia foi filha única até os 12 anos, quando nasceu a irmã, que hoje conta
com cinco anos de idade. Logo após o nascimento desta, seus pais se separaram.
O pai mudou-se para outro estado e, até poucos anos atrás, Júlia costumava passar
férias escolares com ele e sua atual família, composta pela esposa e irmão de três anos de idade, fruto desse segundo casamento.
No momento do estudo, Júlia não estava estudando e/ou trabalhando, dedi
-cando-se integralmente aos cuidados da filha. Por conta da gravidez, cursou até a
primeira série do Ensino Médio, sendo que esperava completar 18 anos para
con-cluir os estudos, através de um curso de Educação para Jovens e Adultos (EJA). Também tinha em vista um emprego em uma lancheria. Ela e o namorado de 18 anos (atendente em uma loja) moravam na casa de sua mãe.
As representações de Júlia sobre sua mãe, investigadas na descrição espon -tânea da Entrevista R, caracterizaram-se por uma dimensão rica e coerente, bem como tonalidade afetiva positiva. A adolescente apontou características positivas
de sua mãe como mãe, definindo-a como maravilhosa, carinhosa, atenciosa, amiga
e protetora. Essa tonalidade afetiva também foi evidenciada na descrição de sua
própria mãe como mãe na escala de adjetivos opostos, na qual houve predomínio das características positivas como afetiva, tolerante, confiante e preocupada.
A identificação da adolescente com sua mãe foi relatada em sua descrição como mãe e de sua própria mãe como mãe também na escala de adjetivos opostos
da Entrevista R. Esse fato foi demonstrado através do predomínio de
caracterís-ticas de personalidade semelhantes nas duas descrições, nas quais se destacaram,
dentre outras, ser uma mãe dedicada, preocupada, tolerante, afetiva e disponível.
A identificação também foi demonstrada na descrição espontânea de si mesma
como mãe e na descrição espontânea de sua própria mãe como mãe, nas quais a característica comum foi de mãe protetora.
No entanto, a entrevista realizada com a avó materna apontou
contradi-ções quanto aos aspectos mencionados, mostrando diferenças na descrição pes
-soal como mãe e na descrição da filha (Júlia) como mãe. A mãe da adolescente descreveu-se como uma mãe pouco afetiva, referindo que a filha sempre lhe co -brou isso: “Isso ela sempre me co-brou, eu sou uma mãe assim que não é muito
de abraço, beijo”. Porém, foi aquela que nunca deixou faltar nada, tendo sem
-pre suprido as necessidades básicas da filha: “Me -preocupo em dar o necessário, como alimentação, roupa”. Já em sua descrição de Júlia como mãe, apontou que a filha busca atender as necessidades de sua neta, mostrando-se mais afetiva e
emocionalmente envolvida com o bebê em comparação a ela mesma: “Ela é uma mãezona, brincalhona, mais melosa do que eu era com ela. Pega no colo, dá
bal-da. Se a neném fica doente, se desespera”.
Percebeu-se que esses aspectos mais difíceis, também presentes na
rela-ção mãe-filha, foram ignorados por Júlia, que referiu perceber a mãe como uma
mãe. Provavelmente, a negação de características pouco positivas de sua mãe
fez com que se apoiasse nas identificações construtivas (GOLSE, 2003) que
também pautaram a sua relação com ela.
Contudo, identificações alienantes (GOLSE, 2003) apareceram de forma inconsciente na relação de Júlia com a filha Dora. No caso, na descrição de características da relação mãe-criança, Júlia demonstrou o atendimento às ne -cessidades do bebê, evidenciado nos seguintes itens: “posso compreender o que
minha filha necessita”, “tenho a impressão de saber como agir com minha filha para alimentá-la e fazê-la dormir”, “em geral, tenho o sentimento de ser eficien
-te como mãe”. A partir desses aspectos, pode-se dizer que os cuidados de Júlia com sua filha podem ser considerados suficientemente bons (WINNICOTT,
2006[1987]), da mesma forma como percebeu os cuidados que recebeu de sua
mãe principalmente na infância. Já na observação da amamentação (que durou
cerca de 20 minutos), destacou-se a pouca continência (BION, 1991[1962])
da adolescente com a filha, denotando uma falha na função de holding
(WIN-NICOTT, 1988[1971]). No caso, Júlia prestou mais atenção na televisão, que estava ligada, e olhou para a menina apenas nos primeiros minutos. Também a maneira como segurava a filha chamou a atenção: a adolescente não conseguia
segurar Dora em seus braços. Ela, muito inquieta, acabava por distrair-se de
mamar e ficava agitada. No entanto, a mãe parecia não estar incomodada com essa agitação. Após esse momento inicial, Júlia segurou mais firme a filha em
seus braços, colocando-a mais perto de si. Nesse momento, a inquietação e a distração da criança dissiparam-se. O bebê, envolvido pelos braços da mãe,
passou a mamar tranquilamente, olhando fixamente para o rosto dela, não mais
brincando. Por alguns minutos, foi possível observar um maior entrosamento
entre a díade. Porém, logo em seguida, Júlia distanciou-se da filha novamente. Assim, de modo geral, nas representações sobre a própria mãe, destaca
-ram-se as identificações consideradas alienantes (GOLSE, 2003), que, de forma
inconsciente, perpassaram e de certa forma ainda perpassam a relação da adoles-cente com sua própria mãe, estando atualmente também permeando a relação de
Júlia com a sua filha. No entanto, as identificações construtivas (GOLSE, 2003) também se fizeram presentes na relação de Júlia com sua mãe, de igual modo estando presentes na relação atual com sua filha.
Caso 3: Fabiana, 17 anos, mãe de Nina (seis meses)
“Eu lembro poucas coisas sobre a minha mãe... não sei por que”.
Fabiana morava com o companheiro de 20 anos na casa de seu pai,
juntamente com sua madrasta, o irmão de 13 anos e uma prima de 20 anos.
Seus pais se separaram quando ela contava com 13 anos de idade. Sua mãe
saiu de casa devido a um relacionamento extraconjugal do marido, que trouxe
No momento do estudo, Fabiana não estava estudando e/ou trabalhando;
dedicava-se aos cuidados com a filha. Concluiu o Ensino Fundamental durante a
gravidez e estava esperando a menina crescer um pouco mais para trabalhar com o companheiro, que era sócio em uma pequena videolocadora. Eles pretendiam em breve se mudar para uma casa própria, por meio do aluguel de um
apartamen-to. Para isso, contavam com a ajuda de suas famílias.
Na Entrevista R, Fabiana demonstrou dificuldade em descrever es
-pontaneamente a própria mãe como mãe. Pouco falou sobre ela, definindo-a,
entretanto, como uma mãe cuidadosa, boa e compreensiva. Através das carac-terísticas descritas, observou-se a dimensão não rica dessa representação. No entanto, percebeu-se a coerência da representação e a sua tonalidade afetiva positiva, também evidenciada na descrição de sua mãe como mãe na escala
de adjetivos opostos, na qual houve predomínio de características positivas,
como dedicada, preocupada, tolerante e afetiva.
Através da descrição de si mesma como mãe e de sua própria mãe como
mãe, foi possível observar a identificação da adolescente com esta. Esse fato
foi demonstrado principalmente no predomínio de características
semelhan-tes de personalidade, também encontrado na escala de adjetivos opostos, como afetiva, tolerante, confiante, disponível e preocupada. A identificação da jovem com sua mãe foi demonstrada ainda na descrição espontânea de si
mesma como mãe e de sua mãe como mãe, na qual apareceram características positivas em comum, tais como boa e cuidadosa.
Cabe ressaltar que a identificação da adolescente com a figura mater-na também foi percebida mater-na entrevista realizada com a avó matermater-na, a qual ressaltou que ela e a filha desempenhavam de forma muito semelhante o papel materno. No caso, a avó destacou como semelhanças o fato de ambas serem mães apegadas e protetoras: “Ela é como eu era com ela, bem do
mesmo jeito, cuidadosa e apegada aos filhos”.
De fato, algumas dessas características destacadas pela avó materna no
que diz respeito à relação com a filha na infância foram percebidas na relação
de Fabiana com seu bebê, na descrição que ela fez das características da rela-ção mãe-criança (Entrevista R), como por exemplo, ser cuidadosa e boa mãe. A proteção holding, (WINNICOTT, 1988[1971]) também foi demonstrada pela
adolescente em relação à filha Nina, quando referiu que conseguia consolar facil -mente sua criança quando ela chorava. Fabiana, em geral, tinha a impressão de
saber como agir com a filha para alimentá-la e fazê-la dormir, e o sentimento de ser eficiente e boa como mãe no atendimento às necessidades de sua criança. A
partir desses aspectos, pode-se dizer que a adolescente parecia estar exercendo o
papel de uma mãe suficientemente boa (WINNICOTT, 2006[1987]), uma vez que o bebê encontrava-se assistido em suas necessidades vitais. Tal papel também foi vivenciado por ela em sua relação com a mãe na infância, o que foi confirmado
na entrevista com a avó materna, a partir da descrição como mãe de Fabiana: “Cuidava para que não faltasse nada. Deus o livre acontecer alguma coisa ruim
Atualmente, a mãe de Fabiana vê-se como uma mãe em dívida perante
os cuidados e o amparo à filha, buscando compensá-los nos momentos em que estão juntas: “Olha, agora tô uma mãe bem relaxada, não tô muito perto dela,
não como eu gostaria. Me sinto um fracasso, porque sei que ela precisa de mim,
mas a minha situação é difícil; ela mora na casa do pai...”. Percebeu-se que a
ausência da mãe e, por vezes, o sentimento de desamparo vivenciado, eram difíceis de ser suportados pela adolescente, que negava a existência deles, e, portanto, o fato de, em alguns momentos, não haver se sentido cuidada pela mãe, o que indica uma falha na função de holding (WINNICOTT, 1988[1971]).
Porém, tais sentimentos, que podem estar ligados a identificações alienantes (GOLSE, 2003), foram observados em sua relação com a filha, especificamente
no momento de amamentação do bebê, que durou cerca de 35 minutos. Nesse
sentido, destacou-se a falta de sintonia entre a díade (STERN, 1991), pois Fa
-biana não entendia o que a filha queria e acabava ficando incomodada com isso.
Por sua vez, Nina teve que contentar-se com o que lhe foi dado.
Em determinado momento da amamentação, Fabiana foi ajeitar o sutiã do outro seio e esse gesto fez com que a filha perdesse o seio no qual estava ma -mando. O bebê inquietou-se e reclamou, choramingando. A mãe lhe ofereceu o seio novamente e o bebê acalmou-se por alguns minutos. Em seguida, o bebê
inquietou-se novamente e ergueu a cabeça, olhando fixamente para a mãe, como
se quisesse dizer a ela que não era aquilo que queria. Fabiana não entendeu o que
a filha lhe pedia, e achou que ela queria parar de mamar. Então, levantou-a para
que Nina arrotasse enquanto a balançava levemente. O bebê continuava a olhar
fixamente para a mãe e começou a choramingar. A mãe olhava para ele, porém
agora visivelmente incomodada com a situação, e parecia não saber o que fazer. O bebê começou, então, a brincar e morder o seio da mãe, que não gostou disso e
imediatamente ajeitou sua roupa, encerrando a amamentação da filha. A menina
choramingou novamente e a mãe lhe deu os brinquedinhos de pelúcia. O bebê contentou-se rapidamente com eles e não mais choramingou. Observou-se, nesse momento, uma falha no holding (WINNICOTT, 1988[1971]), pois o bebê parecia sentir-se, de certa forma, incompreendido e desamparado pela mãe.
A partir do exposto, pode-se dizer que, no caso de Fabiana, fazem
par-te das representações sobre a própria mãe tanto as identificações construtivas,
que estão mais ligadas às vivências com a mãe na infância, como as alienantes
(GOLSE, 2003), presentes na relação atual mãe-filha. Por sua vez, essas repre
-sentações parecem estar influenciando a construção da identidade materna da adolescente, bem como a sua relação com a própria filha.
discussão geRal e consideRações finais
O presente estudo teve como objetivo investigar as representações de mães
adolescentes sobre suas mães, destacando os aspectos intergeracionais presentes
na relação mãe-criança. Os resultados ilustram a influência da transmissão inter
alienantes, que permeiam as representações das mães adolescentes sobre suas
mães, destacando-se como um ponto norteador também do desempenho do papel materno e da constituição da relação atual com o bebê.
Percebeu-se que fazem parte de tal transmissão tanto aspectos conscientes como inconscientes ligados às vivências e aos cuidados precoces das adolescen-tes com suas mães, como também aos cuidados e vivências atuais. Esses achados corroboram a literatura sobre o tema, que aponta a importância do modelo
mater-no da futura mãe e sua influência posterior na relação estabelecida com a criança (AULAGNIER, 1994; BRAZELTON, CRAMER, 1992; CRAMER,
PALACIO-ESPASA, 1993; LEBOVICI, 1987).
Ressalta-se que, em geral, as identificações alienantes presentes na re
-presentação sobre a própria mãe, que podem prejudicar o desenvolvimento da
criança (LEBOVICI et al., 2004), predominaram na relação das mães
adoles-centes com seus bebês em dois dos três casos estudados (Júlia e Fabiana).
Pode-se pensar que os aspectos considerados mais difíceis de Pode-serem elaborados pelas
jovens, no tocante à relação com as suas próprias mães, estão sendo revividos no relacionamento com os filhos, porém de forma inconsciente, não sendo totalmen
-te percebidos por elas. As identificações construtivas, também mencionadas por
todas as adolescentes na representação sobre a própria mãe, mostraram-se mais conscientes e mais facilmente abordáveis, uma vez que implicam os aspectos
positivos que permeiam a relação mãe-filha.
De outro modo, observou-se que, independentemente das mudanças que a maternidade precoce acarretou na vida de cada uma das adolescentes, as
re-presentações sobre suas mães e os aspectos intergeracionais nelas inseridos
apontaram características particulares da identidade materna que cada uma das
participantes está construindo. Tais características mostram desde maturidade
no exercício do papel materno (como visto em Carolina), como algum
despre-paro (observado em Júlia e Fabiana), frequentemente mencionado na literatura sobre a maternidade na adolescência (BIGRAS, PAQUETTE, 2007; CARLOS
et al., 2007; FIGUEIREDO, 2000, 2001).
Ainda, destaca-se que os achados corroboram estudos anteriores sobre
as-pectos relacionados ao tema, demonstrando tanto a identificação das adolescentes
com as próprias mães, como as suas tentativas de diferenciação (DIAS, LOPES, 2003; LEVANDOWSKI, 2005). Do mesmo modo, corroboram a literatura no que diz respeito à interferência dessas experiências no exercício da maternidade, a partir da repetição do modelo de relacionamento com a própria mãe na relação com o bebê (LEVANDOWSKI, 2005; SIMÕES, 2004).
Pensa-se que o presente estudo trouxe uma contribuição importante, ao tentar preencher uma lacuna encontrada na literatura da parentalidade na
ado-lescência, por meio da investigação das representações maternas de mães ado -lescentes (LEVANDOWSKI; FLORES, 2012). Ressalta-se que o estudo desse
tema, bem como dos aspectos intergeracionais presentes nessas representações,
de psicopatologias que possam acometer o pleno desenvolvimento da criança
(PINTO, 2004) e, em última análise, também da mãe. Esse é ainda um campo
carente de estudos no que toca às mães adolescentes.
Sendo assim, devido à importância do tema, pensa-se que novos estudos devem ser empreendidos sobre os aspectos intrapsíquicos de mães
adolescen-tes. Tais estudos poderiam ampliar o tempo de observação da díade mãe-bebê
ou mesmo incluir a observação de outras atividades de cuidado. Além disso, o
caráter longitudinal se prestaria à análise das questões ora enfocadas, permitindo uma compreensão mais detalhada das representações maternas das adolescentes. Ainda, as representações deveriam ser investigadas com mães adolescentes de diferentes idades, níveis socioeconômicos e situação conjugal e familiar. O co -nhecimento produzido por esses estudos auxiliaria pesquisadores e clínicos na
elaboração de intervenções junto a essas mães.
R
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Recebido em: 03 de janeiro de 2011